quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Há dois dias de si mesma


Não é fácil ser andróide, num mundo desumano.
Datas distorcidas, antecipadas ou retardadas,
Memórias induzidas, sentidas e desconexas,
Disfarçadas entre lágrimas e gotas de chuva.

E desse exato paradoxo nasce o amor-puzzle.
Se falta ou sobra alguma peça,
Só quebrando essa imensa e perfeita cabeça
Contra o reflexo no espelho atemporal.

Quem sabe depois de amanhã??!!...


(para Rachel, a andróide favorita)

A cultura das ervas e da ... bisbilhotice

Lala (d), Dalia e Cosmo

Flor de Manita

Tudo culpa do meu filtro, que não é o solar: duas situações me remeteram rapidamente ao Pará. Uma delas, o delicado e duro filme mexicano “Las buenas hierbas”. Outra, o projeto da ONG CoHabitarUrbano.

O filme é um mergulho na mata e na tradição do uso de ervas medicinais por famílias mexicanas. Cenas lindas e suaves em jardins familiares, onde gerações tratam de catar ervas, feito um passeio casual. Tudo tão reconhecível para os personagens como para mim. Mas nem tudo são flores. A matriarca desenvolve Alzheimer e seu proceso de perdas e ganhos coloca a filha em dilemas germinais e terminais. Até onde é possível suportar a dor alheia, especialmente quando este “alheio” é a própria mãe? Tanto desvelo e tristeza culminam no assassinato da mãe pela filha, aquele velho desejo inconsciente, segundo algumas concepções da Psicologia. A filha tem um filho pequeno que tudo vê. Ou quase tudo.

A trilha sonora de “Las buenas hierbas” é um encanto, feito encantaria. E esse é um elemento tão orgânico quanto as plantas e os personagens. Leva ao devaneio, assim como o drama nos põe com os pés bem no chão.

Impossível não lembrar dos jardins da minha casa; das idas a Quatipuru, onde minha mãe nasceu; das recomendações da minha avó e parentes. É bem verdade que sempre fui muito mais alopática do que adepta de chás para acalmar os nervoso ou de bolsa de água morna para aliviar as cólicas mensais. Mas até hoje adoro preparar meu próprio banho cheiroso. Comprar as ervas no Ver-o-Peso, macerar cada uma delas, deixá-las no tempo e me banhar com a água sempre que der vontade. E, claro, também foi inevitável ficar de bubuia, reflexiva, com a escolha entre a dor da vida ou a da morte.

Já o projeto “48 Open House BsAs” me levou até as curiosidades peculiares a tantas famílias. Aquela de saber qual aparelho de televisão novo o vizinho comprou; que móveis trocou; se tem espelho no teto do quarto. É que o projeto da ONG CoHabitarUrbano reproduz, neste final de semana, em Buenos Aires (AR), a iniciativa de fazer com que se abram ao público 60 edifícios históricos – outros nem tanto -, belos e curiosos – ou as duas coisas também, como bem descreveu o jornal Página / 12. Ou seja, qualquer cidadão vai poder bisbilhotar espaços privados e mesmo ter uma visão diferenciada da cidade, a partir da janela alheia. Achei ótima a idéia, afinal, aderiu quem topou, nenhum prédio foi obrigado a escancarar suas portas. No que vai dar essa experiencia que certamente colocará frente a frente pessoas que normalmente não compartilham os mesmos espaços? Não faço ideia, mas estou curiosa para saber. Não vou alcançar 60 prédios, mas vou fazer minha lista para bater pernas. Depois eu penso se conto tudo ao pé de ouvido ou não.

domingo, 24 de novembro de 2013

"No direction home, like a Rolling Stones"

Ontem, sem direção, fui parar no Studio Pub, ali na Presidente Pernambuco, para assistir à programação fora de meu eixo: rock. Era apresentação “cover” dos Beatles, na preliminar, e Rolling Stones na partida principal. O bom rock na veia. Encontrei alguns sessentões emocionados e muitos jovens pulando. No meio, fiquei curtindo mais os estonteantes Stones, o qual mantenho uma linha genética com o vocalista. A foto é o grupo dos Stones. 

Na realidade acho que os garotos levam muito jeito pelo fato de reproduzirem com exatidão os dois grupos. Por fim, o Stones quebraram o protocolo cantando “Like a Rolling Stones”, de Bob Dylan. 
Foi bom... muito bom. Na próxima, vou recomendar aqui no Blog. 


terça-feira, 19 de novembro de 2013

A volta dos que não foram


Apesar de separados há 30 anos, os integrantes do grupo inglês de humor Monty Python sempre estiveram entre nós, inclusive aqui no FLANAR.
Os filmes e sketches oriundos do clássico programa televisivo Monty Python's Flying Circus influenciaram e seguem influenciando humoristas do Brasil e do mundo todo.
Daí a grande repercussão hoje da notícia de que o grupo vem trabalhando em segredo e vai oficialmente revelar a sua volta em entrevista marcada para 21/11 próximo, em Londres.
O mundo aguarda com ansiedade para checar o que a trupe nonsense de septuagenários tem a nos dizer.
Welcome back!
(fonte: UOL)


quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Sincronicidade

Imagem: Scylla Lage Neto

A imagem acima é do tempo da fotografia convencional, e faz parte de uma série então dedicada ao que eu chamava de "Homo sapiens sapiens". Foi tirada em 2003, na Ilha de Maiandeua, e encontrada hoje dentro do livro RACE TO THE SOUTH POLE, sobre a minha banheira.
Atrás da foto, há um adesivo com os seguintes dizeres, sem menção de data:

"O caminho leva à foz;
A foz conduz à paz;
Na paz reside o amor." 
Scylloca

Coincidência ou consequência?

domingo, 10 de novembro de 2013

Da arte de rir e de viver ou de uma quase auto-psicanálise pela leitura, nas raias da loucura

Jornalista e psicóloga, a espanhola Rosa Montero tem se consolidado como uma de minhas escritoras prediletas. Já devo ter dito que foi dela o primeiro e encantador livro em espanhol que li - o "Historias de Mujeres". Daí passei a acompanhar mais sua produção semanal para o jornal El País do que de fato seus demais livros, ainda que os tenha comprado. Estão na fila de minhas obras pendentes de leitura.

Escutá-la na Feira Internacional do Livro, em Buenos Aires, foi um deleite a parte, mas que se funde na mesma paixão.

Hoje me deparei com mais um genial texto da articulista. Rosa Montero me diz tanto, com sua tecelagem de informações históricas e sentimentos tão íntimos, que fico sem ter mais o que dizer. Preferi fazer uma audaciosa livre tradução e oferecer a leitores de boa vontade.

Ainda bem que a tenho a meu alcance.

Que desfrutem!

E, quem desejar, pode acessar o artigo original clicando AQUI


Aprendendo a rir
Rosa Montero

Eu acreditava, e assim o escrevi em meu livro mais recente, que não havia nenhuma foto da grande Marie Curie em que ela aparecesse sorridente. Ao contrário: seus retratos a revelavam invariavelmente austera, tensa e, inclusive, com freqüência, trágica; uma dura máscara de esforço e dor. Mas eis que uma leitora genial enviou para mim, recentemente, uma foto de Madame Curie - já mais velha e parecendo ainda muito mais idosa devido aos estragos causados pela radioatividade - muito próxima, certamente, do dia de sua morte, vestida como sempre, de negro, e também, como sempre, sem maquiagem e com os cabelos postos de qualquer maneira. Mas sorri. Sorri! Não é um sorriso franco, mas é um gesto indubitavelmente risonho. E a mim parece que essa pequena curvatura de seus lábios é uma conquista monumental da cientista. Talvez mais importante para ela, inclusive, que a descoberta do polônio e do rádio.

“O jovem que não chora é um selvagem, mas o velho que não ri é um néscio”, dizia o filósofo George Santayana. É uma frase profundamente comovedora; e creio que tive que chegar aos arredores da velhice para poder compreendê-la em toda sua sabedoria. As palavras de Santayana me fizeram recordar um de meus quadros preferidos: um auto-retrato de Rembrandt, o último das centenas de auto-retratos que fez. Foi pintado mais ou menos um ano antes de morrer e é um quadro quase monocromático; uma explosão de ocres, de luzes douradas e brilhos que se apagam entre as sombras. Por esta época, o artista devia ter 62 anos (morreu aos 63), mas parece muitíssimo idoso. Rembrandt foi um homem muito vital e, provavelmente, soube ser feliz em muitas ocasiões. Alcançou um tremendo êxito como pintor ainda muito jovem; teve vários amores; se casou, em segundas núpcias, com uma mulher que adorava. Mas logo a vida lhe passou a fatura. Seu imenso talento lhe impediu de continuar a ser o artista comercial que triunfa realizando retratos complacentes que lhe pede o mercado. Escolheu pintar cada vez melhor e de maneira mais autentica, e isso lhe fez perder a clientela. Seu êxito terminou, as encomendas deixaram de chegar e se encheu de dívidas. Para comer, teve que vender tudo, inclusive sua coleção de arte. Quando morreu, estava na mais completa miséria.

Saber gozar o presente é um dom precioso, comparável a um estado de graça.

O Rembrandt que pintou o último auto-retrato era este homem esquecido e arruinado. E não apenas isso: enterrou sua primeira mulher e logo também a segunda e muito amada esposa, falecida prematuramente, ainda que fosse muito mais jovem que ele; por último, também teve que suportar a morte de seu filho Titus. Apesar de toda esta devastação, ou seguramente por tudo isso, o Rembrandt deste auto-retrato sorri. Na tela, debruçado de escorço na janela, o pintor nos contempla e parece nos dizer: veja, esta é a vida, a grande piada pesada que é a vida; assim é a inocência dos humanos, assim o afã, o fulgor, a dor. É um sorriso triste, mas sereno e imensamente sábio.

“A arte é uma ferida feita luz”, dizia o pintor francês Georges Braque. Outra frase certeira que me vem à cabeça quando lembro deste quadro de Rembrandt. A luz outonal do rosto do pintor emerge da escuridão do fundo, da escura ferida da vida, cauterizando e suavizando sua dor e a nossa. Pelo menos, Rembrandt teve sua arte até o final (o valor de seguir pintando, de não render-se). Pelo menos, nós temos a Rembrandt.

A arte nos salva, a beleza nos salva, e a vida, se for vivida com consciência de viver e tentando aprender do vivido, talvez nos proporcione essa compreensão final, esse entendimento apaziguado que permite que aflore o sorriso.

No Natal de 1928, Marie Curie mandou uma carta a sua filha Irene, para lhe felicitar pelos festejos. E escreveu: “Desejo a vocês um ano de saúde, de satisfações, de bom trabalho, um ano durante o qual tenhas cada dia o gosto de viver, sem esperar que os dias tenham tido que passar para encontrar sua satisfação e sem ter necessidade de colocar esperanças de felicidade nos dias que tenham que vir. Quanto mais se envelhece, mais se sente que saber gozar do presente é um dom precioso, comparável a um estado de graça”. Creio que estas palavras são a conquista de uma vida. E o insólito sorriso de Curie na foto que me enviou a generosa leitora é, sem dúvida, uma conseqüência destes pensamentos. Alcançar essa maravilhosa simplicidade não é fácil, desde logo, assim que é necessário se dedicar. Aqui estou, enfim, tentando aprender a rir dia a dia.

sábado, 9 de novembro de 2013

Vai um jazz aí?

Olá amigos.

Publiquei no meu outro blog um set de jazz que talvez os apreciadores do gênero gostem.

Grande abraço e até a próxima.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Me and my crazy self




Desde que iniciei a vida de leitor compulsivo, na adolescência, sempre fui chegado a acreditar ter um alter ego, um outro eu, geralmente absorvido dos personagens fortes (ou até dos fracos) oriundos de romances, poesias épicas, filmes, biografias, novelas, músicas, propagandas, enfim, de todo tipo de manifestação humana que tivesse a capacidade de se insinuar em meu cérebro.
Talvez o meu primeiro alter ego tenha sido Huckleberry Finn, rebelde personagem de As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, que ganhou livro próprio em 1884 e até protagonizou filme, em 1993. Eu sonhava acordado ser como Huck, e até na verdade em ser o próprio Huck Finn.
Muitos o sucederam no cargo hipotético de alter ego, como Rick Deckard, de Do Androids dream of eletric sheep?, livro de Philip K. Dick que originou o filme Blade Runner, passando por Eneias, eternizado pelo gigantesco poeta Virgílio em A Eneida, e até mesmo o detetive John Diphoo, da fantástica trilogia O Incal, de Alejandro Jodorowsky e Moebius.
Mas há algum tempo fiquei fixado definitivamente por Corto Maltese, tão encantadora criatura que até o seu criador, o italiano Hugo Pratt o tomou para si como alter ego.
Como definir Corto Maltese sem expor as minhas próprias entranhas?
Corto é um viajante, sempre em movimento e isso me agrada sobremaneira. Percorre o mundo todo, não por dinheiro ou poder, e sim pela liberdade de o percorrer. A imaginação é o seu combustível e nem sempre ele é politicamente correto. Aliás, quase nunca.
Ele é verdadeiramente um anti-herói, uma espécie de Ulisses ao contrário. Ama muito, procurando sua alma gêmea, e um dia a encontrará, desde que ela se disponha a acompanha-lo, de rosto virado para o vento norte.
Nesse ponto, a vida real esboça tocar a surreal. No delírio onírico de Corto, como no meu, a mulher utópica é na verdade uma andróide, como a doce Rachel, de Blade Runner. Ou talvez seja mais parecida com o alter ego desta última, a insinuante Pris? Ou com ambas?
Ou poderia ser uma andróide para cada ego?! Terão os andróides alter-egos?!



Pris























                                                                                            Rachel












Corto e eu precisamos nos encontrar, um dia...