
Há muito tempo, li, em algum lugar, que Ernesto "Che" Guevara era leitor assíduo de Jack London.
Apesar da estranheza que tal fato me provocou, fiquei feliz em saber que Che e eu compartilhávamos do mesmo interesse por um dos clássicos autores da literatura americana. Imaginei, então, que o revolucionário guerrilheiro se divertia apenas, lendo obras como "Chamado Selvagem", "Lobo do Mar" e "Caninos Brancos".
Em 2003, no entanto, a Editora Boitempo lançou no mercado brasileiro o livro "O Tacão de Ferro", Iron Weed, no título original.
Encontrei um exemplar na quase-finada Livraria Jinkings, e, ao mergulhar na leitura, descobri o lado socialista "hardcore" do autor.
A obra, verdadeiro exercício de futurologia, escrita antes da primeira guerra, praticamente descreve o que viria a acontecer (e ainda acontece) no planeta Terra.
O poder ilimitado dos autocratas, o papel de fantoche do judiciário e o domínio subsequente pelo "Povo dos Abismos", são abordados de tal forma que algum leitor distraído poderia pensar que London possuía uma máquina do tempo, ou mesmo uma bola de cristal.
E o posfácio de Leon Trotsky, escrito em 1937, é arrebatador.
Curiosamente, quando eu soube da morte de Salvador Nahmias, a primeira idéia que me ocorreu foi a de que o "Povo dos Abismos" finalmente emergira em Belém do Pará.
A propósito, o final do livro não é de todo pessimista.
Scylla você é demais!
ResponderExcluirAntes do precoce desaparecimento de London. Há registros valiosos, fruto de pesquisadores (que inveja!) que poderam resgatar a correspondência desse personalista observador inglês.
Numa leitura mais apurada de pesquisadores desse material; observou-se o que seria mais ou menos o retrato de um homem confiante e sensível, com rasgos de grande coragem e generosidade, mas também ferozmente obstinado e capaz de uma franqueza brutal.
Febre que acomete pessoas sensíveis.
Figura muito bem lembrada por você.
Recomendo: Cartas de Jack London, publicado pela Editora: Antigona.
Por hora, disponível nas boas livrarias.
London era membro do Partido Socialista nos EUA. Tinha portanto sensibilidade e elementos filosóficos para fazer uma leitura diferente, a clef, dos problemas sociais vistos na transição XIX/XX, que foi violentíssima para os trabalhadores e para as colônias dos páises centrais, e ainda hoje perenes.
ResponderExcluirEu não li "The Iron Heel" a que Scylla faz referência. Li "O Povo do Abismo", tradução literal do título em inglês, publicada pela Editora Fundação Perseu Abramo.
Transcrevo-lhes a vinheta, que ilustra bem a reflexão de Scylla sobre o assassinato de Salvador Nahmias...
"Os rejeitados e os inúteis! Os miseráveis, os humilhados, os esquecidos, todos morrendo no matadouro social. Os frutos da prostituição - prostituição de homens e mulheres e crianças, de carne e osso, e fulgor e espírito; enfim, os frutos da prostituição do trabalho. Se isso é o melhor que a civilização pode fazer pelos humanos, então nos dêem a selvageria nua e crua. Bem melhor ser um povo das vastidões e do deserto, das tocas e cavernas, do que ser um povo da máquina e do Abismo".
Abs.
Em tempo: The Iron Heel é obra posterior a The People of the Abyss. Esta segunda é de 1903 e a outra de 1908.
ResponderExcluirObrigado, Val e Itajaí pelos preciosos comentários.
ResponderExcluirA descrição da "Galera dos Abismos" (talvez esta seja a terminologia atual) é absolutamente perfeita.
Jack London, no entanto, se desligou do partido socialista, antes de morrer, precocemente, aos 40 anos de idade (suicídio?).
Suas idéias, porém, continuam flanando mundo afor.
Abraços.