quinta-feira, 21 de maio de 2026

Antonio Gaudí entre rios e florestas

                                       No dia seguinte, ainda o sol começava a lamber as suaves                                                 curvas das colinas sem árvores.                                    Pepetela, escritor angolano, em: Contos de morte

      Uma inesquecível paisagem arrodeou-me outro dia, enquanto estive em viagem: a Floresta Nacional do Tapajós, do alto de um de seus morros. De lá, sentado à sombra de uma samaumeira, meus olhos espalharam o verde até a borda de cá do rio. No meio dele uma balsa escoava grãos para o mundo. E, já perdendo a nitidez, a outra margem retorna a meus olhos, já no sfumato do sol se pondo. Essa imagética sempre me vem à retina quando admiro outras paisagens.

Por andar pelo mundo prestando atenção em vistas, cores e rumos, vivo projetando o homem como centro da paleta e do planeta. Por isso escalei Pepetela para a epígrafe, ao dar voz às curvas que Antonio Gaudi traçou pela Catalunha.

Tanto aos pés da Sagrada Família, quanto no alto do Montjuic, em Barcelona, há uma esplanada de belezura. De lá, as cúspides da Sagrada Família sobressaem-se sobre a cidade, d'onde o olho grudou por alguns minutos, de permeio ao monocromático plano da cidade sob os reflexos dos últimos raios de sol, com a sombra das montanhas ao fundo. Um carioca logo sapecaria, com seu eterno humor: “igual aos morros do Rio de Janeiro”.

(Observação: não quis dizer que seja uma imagem negativa; apenas traduzindo Pepetela, em seus “Contos de Morte”, acerca das colinas sem árvores, substituídas por moradias).

Como forasteiro viajante no pensamento, logo refleti: que ponto nos une ao correlacionar Barcelona com o a floresta amazônica, citada no início do texto? Tudo começa a partir da imagem insólita que se destacava: a Sagrada Família, com seus 172,5m. É ponto de destaque na paisagem barcelonesa. A obra só não supera a altura das montanhas, por respeito a Deus, o criador de tudo - retrata Gaudí-, soubendo ele que a Catalunya, marcada pelo bairro Gótico, fora berço e píncaro da civilização cristã.

Ao tomar emprestado os olhos de Gaudí, percebe-se nas obras devoçao ao cristianismo, entretanto, ao reproduzir os traços da natureza em suas diversas esculturas espalhadas pela cidade, ele mais incorpora Baruch Espinoza, em que Deus e natureza são elementos únicos, e que ele se diz ser apenas um intérprete. 

Uma outra natureza que ele admira é o organismo humano. Em “La Pedrera”, o "espaço pulmão”, logo na entrada, é um sistema de ventilação natural e regulação térmica no centro do condomínio semicircular composto por vários andares. No átrio de entrada ele trata a obra como um ecossistema que funciona tal como o sistema respiratório. Ao olhar para o teto, a imagem poliédrica do alvéolo pulmonar se expõe, com o céu ao fundo. Assim, Gaudí foi capaz de reproduzir Spinoza numa floresta mineral de pedra e criatividade, transformando Barcelona em algo pujante, quiçá delirante.

Dir-se-ia que o humano não vive apenas em ambientes naturais, sobretudo necessita criar uma estética que lhe acalme o coração e alivie a respiração. Assim é Gaudi.

Portanto, ao subir até o o ponto mais alto do Montjuic para projetar aquela paisagem de Barcelona, ele constroi a catedral e tantas outras obras tão somente para aliviar a vista da cidade desflorestada. Depois ele desce o morro e segue para o desafio de dar pulsação ao concreto.

Se a Amazônia de cá representa uma memória autóctone profunda - a origem, a biodiversidade, o tempo lento da natureza - por sua vez Barcelona simboliza a capacidade humana de transformar crenças, estética e geometria em civilização tangível, deixando uma dúvida cruel se o Sapiens estaria tentando se definir como guardião... ou predador.

Decerto o destino humano não está em escolher entre florestas e catedrais, mas em descobrir se nossa inteligência amadurecerá antes que destruamos as bases naturais e simbólicas que nos sustentam, ou talvez manifestações diferentes da mesma narrativa humana: uma criada pela evolução durante milhões de anos; outra pela imaginação coletiva em poucos séculos. Isso sugere que cada identidade não seja apenas território, mas repertório afetivo, em que trafegamos - nós daqui para lá e eles de lá para cá - para entendermos melhor essa consonância de olhares.

 Roger Normando, professor de Cirurgia Torácica - Universidade Federal do Pará e membro titulado da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica.

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