sexta-feira, 12 de junho de 2026

O Paradoxo do Essencial: “Daraxon”, fiat lux contra o câncer

                                                                                                                            Roger Normando e Jader Leite

Durante a COP30, realizada na beirada da floresta amazônica, uma das discussões mais inflamadas foi a representatividade da Amazônia para o planeta. Apenas 1,3% da superfície total do globo ou 7% da área de terras, sabendo-se que a importância ecológica é inquestionável: 50% da biodiversidade mundial e 20% de toda água doce do planeta. É muita função para pouco mais de 1% da terra.

Outro paradoxo é o pâncreas. Tem menos de 0,1% do peso em relação à massa total do corpo humano e mede entre 15 e 25 cm de comprimento e pesa em média de 60 a 100 gramas.  Cabe na palma da mão e é capaz de determinar o destino de uma vida inteira e causar o maior nó na medicina. Pequeno em tamanho e gigantesco em importância, o pâncreas guarda dentre tantas intempéries, uma genética desafiante, ou melhor, uma arma de grosso calibre: o gene K-RAS. Seu gatilho pode disparar um dos cânceres mais nocivos ao homem.

O câncer de pâncreas figura entre os diagnósticos mais temidos da medicina, por ser silencioso, agressivo e associado a algumas das menores taxas de sobrevida em oncologia. Médicos sentem-se impotentes diante desta neoplasia. Mais parece um OVNI bombardeando a terra.

Mas aí a ASCO (Sociedade Americana de Oncologia Clínica) lança um fleet paralisante de Chicago para chamar atenção do mundo científico: o Daraxonrasib cujos novos resultados controlam a doença, duplicando a sobrevida em casos avançados. Um comprimido capaz de detonar o carrasco gene K-RAS. Não faltaram aplausos após o anúncio do resultado da pesquisa. Não são aplausos protocolares, nem entusiasmo de ocasião, tampouco gritos frenéticos de “wohoo”. Fosse um concerto, equivaleria ao uníssono “Bravo, Bravo!”, com todos de pé. Talvez por isso aquelas palmas tão impactantes ecoaram por todo o planeta, não só pelas redes sociais, mas em manchetes nos principais tablóides. Havia ali a percepção de que algo importante estava acontecendo. Foi uma comichão na oncologia, após décadas em que essa neoplasia simbolizou, e ainda representa dos maiores desafios da medicina. Os resultados da pesquisa foram capazes de alterar perspectivas que pareciam consolidadas até então.

Podemos assim dizer que o K-RAS achou quem o desligasse da tomada, cujo nome é até difícil de pronunciar: Daraxonrasib, que vai acabar reduzido a Daraxon, ou Dara, no meio oncológico. Mesmo sem representar a cura é fiat lux na escuridão da oncologia; é esperança, é ciência, não é milagre, diga-se.

Para quem não é da área médica, vale contextualizar: o congresso da ASCO é o principal encontro mundial de oncologia. É ali que costumam apresentar os avanços mais relevantes no diagnóstico e tratamento do câncer. Não costuma ser um ambiente conhecido por euforia. Cientistas são treinados para desconfiar dos próprios resultados, questionarem conclusões de outros e celebrar com prudência cada alcance. Entre nós, Clarissa Baldotto, membro do GBOT (Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica), que se dedica ao câncer de pulmão, estava radiante: “é pensar que possa ter perspectivas para outros tumores que tenham o mesmo tipo de mutação”. O outro, no caso, é o câncer de pulmão.

Mesmo que seja um pequeno passo para a medicina, foi o ganho de esperança que floresceu no pequeno pâncreas, desafiando a lógica das proporções.

Talvez a natureza esteja o tempo todo tentando nos ensinar que grandeza não se mede em hectares, centímetros ou gramas, mede-se em impacto... em palmas – e o pâncreas cabe na palma da mão.

Sim, precisamos de mais COP, assim como de mais ASCO. Afinal, o futuro costuma começar em lugares que poucos percebem, mas que sustentam o equilíbrio... Porque toda vez que a ciência faz-se em luz, a humanidade inteira enxerga um pouco mais além.

Jader Leite - Doutor em engenharia hidráulica e ambiental, Universidade de São Paulo (USP)

Roger Normando – Professor de Cirurgia Torácica, Universidade Federal do Pará (UFPA) e Membro GBOT (Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica)

 

Artigo originalmente publicado no jornal “O diário do Pará”

La Paradoja de lo Esencial: “Daraxon”, fiat lux contra el cáncer

        Durante la COP30, celebrada en los confines del bosque amazónico, uno de los debates más encendidos giró en torno a la representatividad de la Amazonía para el planeta. Apenas el 1,3 % de la superficie total del globo, o el 7 % de las tierras emergidas, y sin embargo su importancia ecológica es incuestionable: el 50 % de la biodiversidad mundial y el 20 % de toda el agua dulce del planeta. Es una función colosal para poco más del 1 % de la Tierra.

    El páncreas presenta una paradoja semejante. Representa menos del 0,1 % del peso corporal total, mide entre 15 y 25 cm de longitud y pesa en promedio entre 60 y 100 gramos. Cabe en la palma de la mano y, sin embargo, es capaz de determinar el destino de una vida entera y de provocar el mayor enredo de la medicina. Pequeño en tamaño y gigantesco en importancia, el páncreas alberga, entre tantas complejidades, una genética desafiante —o más bien, un arma de grueso calibre: el gen KRAS. Su gatillo puede desencadenar uno de los cánceres más letales para el ser humano.

        El cáncer de páncreas figura entre los diagnósticos más temidos de la medicina: silencioso, agresivo y asociado a algunas de las tasas de supervivencia más bajas en oncología. Los médicos se sienten impotentes ante esta neoplasia. Parece, casi, un OVNI bombardeando la Tierra.

        Y entonces la ASCO (Sociedad Americana de Oncología Clínica) lanzó desde Chicago una andanada que paralizó al mundo científico: el Daraxonrasib, cuyos nuevos resultados demostraron control de la enfermedad y duplicaron la supervivencia en casos avanzados. Una sola pastilla capaz de silenciar al gen verdugo KRAS. Los aplausos no tardaron en llegar tras el anuncio de los resultados. No fueron aplausos protocolares, ni entusiasmo de circunstancias, ni gritos frenéticos de «¡wohoo!». De haber sido un concierto, habría equivalido al unánime «¡Bravo, bravo!» con todos de pie. Quizá por eso aquellas palmas tan contundentes resonaron en todo el planeta: no solo en las redes sociales, sino en los titulares de los principales diarios del mundo. Había allí la percepción de que algo importante estaba ocurriendo. Fue un escalofrío en la oncología, tras décadas en que esta neoplasia simbolizó —y aún representa— uno de los mayores desafíos de la medicina. Los resultados de la investigación lograron alterar perspectivas que hasta entonces parecían consolidadas.

        Podemos decir, pues, que el KRAS por fin encontró quien lo desenchufara, y ese alguien tiene un nombre difícil de pronunciar: Daraxonrasib, que no tardará en reducirse a Daraxon, o simplemente Dara, en los círculos oncológicos. Aun sin representar la cura, es fiat lux en la oscuridad de la oncología; es esperanza, es ciencia —y no un milagro, quéde claro.

        Para quienes no son del ámbito médico, vale la pena contextualizar: el congreso de la ASCO es el principal encuentro mundial de oncología. Es allí donde suelen presentarse los avances más relevantes en el diagnóstico y tratamiento del cáncer. No es un entorno conocido por la euforia. Los científicos están entrenados para desconfiar de sus propios resultados, para cuestionar las conclusiones ajenas y para celebrar cada logro con prudencia. Entre los presentes estaba Clarissa Baldotto, miembro del GBOT (Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica), dedicada al cáncer de pulmón, y estaba radiante: «pensar que puedan abrirse perspectivas para otros tumores que tengan el mismo tipo de mutación». El «otro», en este caso, es el cáncer de pulmón.

        Aunque sea un pequeño paso para la medicina, fue una ganancia de esperanza que floreció en el pequeño páncreas, desafiando toda lógica de las proporciones.

        Quizá la naturaleza intente enseñarnos constantemente que la grandeza no se mide en hectáreas, centímetros ni gramos, sino en impacto… en aplausos. Y el páncreas cabe en la palma de la mano.

        Sí, necesitamos más COP, así como más ASCO. Al fin y al cabo, el futuro suele comenzar en lugares que pocos advierten, pero que sostienen el equilibrio… Porque cada vez que la ciencia se convierte en luz, toda la humanidad ve un poco más lejos.

Jader Leite — Doctor en Ingeniería Hidráulica y Ambiental, Universidad de São Paulo (USP)

Roger Normando — Profesor de Cirugía Torácica, Universidad Federal de Pará (UFPA) y Miembro del GBOT (Grupo Brasileño de Oncología Torácica)

Artículo originalmente publicado en el periódico “O Diário do Pará”

The Paradox of the Essential: “Daraxon”, fiat lux against Cancer

         During COP30, held on the edge of the Amazon rainforest, one of the most heated debates concerned the significance of the Amazon for the planet. It covers just 1.3% of the Earth’s total surface area, or 7% of its land area — yet its ecological importance is beyond dispute: 50% of the world’s biodiversity and 20% of all freshwater on the planet. That is an enormous function for little more than 1% of the Earth.

        The pancreas presents a similar paradox. It accounts for less than 0.1% of the human body’s total weight, measuring between 15 and 25 cm in length and weighing an average of 60 to 100 grams. It fits in the palm of a hand, and yet it is capable of determining the fate of an entire life and of tying medicine into its greatest knot. Small in size and colossal in importance, the pancreas harbors, among so many challenges, a particularly daunting piece of genetic machinery — or rather, a heavy-calibre weapon: the K-RAS gene. Its trigger can fire one of the most lethal cancers known to humankind.

    Pancreatic cancer ranks among the most feared diagnoses in medicine: silent, aggressive, and associated with some of the lowest survival rates in oncology. Physicians feel powerless before this malignancy. It bears an uncanny resemblance to a UFO bombarding the earth.

    And then ASCO (the American Society of Clinical Oncology) launched a stunning broadside from Chicago to seize the attention of the scientific world: Daraxonrasib, whose new results demonstrated disease control and doubled survival in advanced cases. A single tablet capable of silencing the executioner K-RAS gene. Applause was not lacking after the announcement of the research findings. Not the ceremonial kind, nor the polite enthusiasm of the moment, nor frenzied shouts of “woo-hoo.” Had it been a concert, it would have been the unanimous “Bravo, Bravo!” with everyone on their feet. Perhaps that is why those resonant palms echoed across the entire planet — not merely through social media, but in headlines in the world’s leading publications. There was a collective sense that something important was happening. It was a spark in oncology, after decades in which this malignancy had come to symbolize, and still represents, one of medicine’s greatest challenges. The research results proved capable of shifting perspectives that until then had seemed firmly entrenched.

        We can thus say that K-RAS has finally met its match — the compound that can pull it from the socket. Its name is even difficult to pronounce: Daraxonrasib, which will no doubt be shortened to Daraxon, or simply Dara, in oncological circles. Even without representing a cure, it is fiat lux in the darkness of oncology; it is hope, it is science — and emphatically not a miracle.

        For those outside the medical field, some context is in order: the ASCO congress is the world’s foremost oncology gathering. It is there that the most relevant advances in cancer diagnosis and treatment are typically presented. It is not an environment known for euphoria. Scientists are trained to distrust their own results, to question others’ conclusions, and to celebrate each achievement with measured caution. Among those present was Clarissa Baldotto, a member of GBOT (Brazilian Thoracic Oncology Group), who focuses on lung cancer and was positively radiant: “just to think that there could be prospects for other tumors carrying the same type of mutation.” The “other” in question is lung cancer.

        Even if it is a small step for medicine, it was a gain in hope that blossomed within the small pancreas, defying all logic of proportions.

        Perhaps nature is constantly trying to teach us that greatness is not measured in hectares, centimetres, or grams — but in impact… in applause. And the pancreas fits in the palm of a hand.

        Yes, we need more COPs, just as we need more ASCOs. After all, the future tends to begin in places few perceive — but which sustain the balance… Because every time science makes itself into light, all of humanity sees a little further ahead.

Jader Leite — Doctor in Hydraulic and Environmental Engineering, University of São Paulo (USP)

Roger Normando — Professor of Thoracic Surgery, Federal University of Pará (UFPA) and Member of GBOT (Brazilian Thoracic Oncology Group)

Article originally published in the newspaper “O Diário do Pará”