Uma coisa que me surpreendeu, quando divulgaram a primeira pesquisa sobre intenções de voto do plebiscito que ocorrerá amanhã, foi que a rejeição ao Carajás era maior que ao Tapajós. Uma diferença pequena, mas que se confirmou o tempo todo. Minha surpresa se atrelava a uma percepção simplória de que uma região com mais habitantes, mais dinheiro e interesses privados muito mais nítidos deveria ter mais força para conduzir sua campanha. Com o tempo, fui entendendo a moral da história e, esta semana, um conhecido meu, ao explicar o seu voto pessoal, acabou dizendo algo que, acredito, seja um pensamento maior, capaz de explicar esses números.
Meu amigo nasceu em Santarém e está radicado há duas décadas em Belém. Aqui trabalha e criou uma filha. Remetendo-se a sua infância, e portanto há um tempo muito anterior às campanhas de hoje e mesmo aos movimentos políticos que ensejaram o plebiscito, disse que a população do Oeste do Estado sempre se sentiu tão isolada do Leste — um isolamento natural, de fundo geográfico —, que muitos realmente nunca se consideraram paraenses. Havia vínculos mais fortes com Manaus do que com Belém. Isto se percebe até nas manifestações culturais populares: vejam-se as semelhanças entre o Festival das Tribos de Juruti e o Festival de Parintins. São manifestações próprias, diferentes das nossas, que têm mais a ver com os cabeçudos, com as tradições marajoaras, da marujada de Bragança, etc. Embora, é claro, o boi não nos seja nada estranho — que o diga o Arraial do Pavulagem.
O movimento pró-Tapajós seria, assim, a materialização de um sentimento genuinamente popular, que talvez por isso se disseminou mais, mesmo com menos gente e muito menos dinheiro.
Já o Estado de Carajás seria obra de um povo forasteiro (a expressão, muito lembrada nas últimas semanas, foi usada por meu amigo), de diferentes procedências e que por isso mesmo não possui nenhum vínculo étnico, cultural ou emocional com a nossa região, a qual lhes pareceria apenas um lugar onde se fixar, trabalhar e ganhar dinheiro. Não vejo nenhum problema nisso, desde que o trabalho seja honesto. Afinal de contas, sou avesso a essa xenofobia toda. Uma pessoa que se fixa em nossa região só não é paraense de nascimento, mas passou a ser um indivíduo socialmente produtivo para nós. O processo não é recente, por isso os filhos e netos desses imigrantes já são paraenses de nascimento, se isso faz alguma diferença. E se são divisionistas, não podem ser criticados, já que apenas expressam um pensamento de seus antepassados, uma fórmula que deu certo de algum modo.
Mesmo assim, para meu amigo o movimento pró-Carajás é um projeto que não nasceu no povo, e sim em partidos políticos, mas que seduziu o povo porque, convenhamos, tem lá muitos atrativos para aquela região. Assim, ele votará 77 para Tapajós e 55 para Carajás.
Vale lembrar que os vínculos entre o Sudeste do Estado e a capital sempre foram mais fortes do que em relação ao Oeste. Se nada mais pudesse ser dito, lembremos que o nome do Município de Paragominas foi produzido pela fusão dos locais de origem dos imigrantes e do ponto onde se fixaram. Eles sempre souberam que estavam no Pará.
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Honestamente, abstraindo preferências pessoais, nunca achei que houvesse a menor chance de o projeto divisionista ter sucesso. Amanhã, a partir do final da tarde, acabará o disse-me-disse e restará apenas a dura realidade. O que mais me incomoda — além de pensar nos milhões e milhões de reais gastos para se chegar a uma resposta que já se conhecia de antemão, mas tudo bem: democracia é isso —, é pensar no que vem depois.
O lado vencedor não saberá vencer. Espero deboche, menosprezo e mais xenofobia. Estou certo de que sentirei vergonha das coisas que serão ditas. E o lado perdedor imprecará todas as suas maldições e fará ameaças. Sentirei muita raiva, porque toda vez que escuto alguém me chamar de "elite", fico com vontade de socar esse idiota.
Se Belém — uma cidade com 6% de saneamento básico, trânsito quase estagnado e condições de saúde altamente deficitárias — pode ser considerada elite, então o planeta Terra se tornou realmente um lugar muito ruim para se viver.