Johannes Brahms
O termo melancolia tem sido usado nas neurociências como uma
característica da depressão, seja na sua forma endógena, somática ou mesmo biológica, e
tem a ver com a tristeza de forma direta.
Instintivamente acabamos por relacionar esta sensação a um
céu cinzento, bem carregado de nuvens e/ou envolto por névoa, semelhante ao
ora presente no dito inverno paraense. Se associarmos uma música triste a
pensamentos ligeiramente negativos e repetidos (pensar num ente querido
ausente, por exemplo), haverá uma grande possibilidade de surgir uma
inquietação dentro de nós, uma agonia, como diz o sábio caboco.
Há poucos anos vivi uma experiência neurosensorial algo
melancólica quando fui assistir a uma apresentação da Orquestra Sinfônica do
Teatro da Paz, cujo programa englobava algumas peças do compositor alemão
Johannes Brahms.
O mês era dezembro e o inverno já mostrava as suas cinzas
garras num dia exatamente como foi a última segunda-feira, aqui em Belém.
Enquanto a sinfônica tocava com maestria a enérgica e
sombria Sonata Número 3, fui invadido por uma sensação de paixão e tristeza brutais
e meu cérebro foi devastado por uma tempestade de neurotransmissores
antagônicos. E tudo catalisado instantaneamente pelo lirismo romântico de Brahms.
Ao sair do da Paz fui obrigado a procurar mais melancolia e
li alguma coisa de T. S. Eliot (ou algo parecido – os registros estão confusos
na memória), apaziguando assim o meu sistema límbico.
Pois na última segunda, debaixo daquele temporal, sob raios
e trovões, agradecendo aos deuses o fato d’eu não estar atravessando a barco a
Baía do Marajó, inundei o carro com um poderoso blues de Buddy Guy, “Feels LikeRain”, e voilá, a mesmíssima sensação retornou de forma brutal.
Na hora, tive a certeza de que as mesmas áreas cerebrais e os
mesmos neurotransmissores estavam envolvidos, tal a similitude e a intensidade
das emoções desencadeadas nas duas ocasiões.
Foi um verdadeiro e curioso déja vu (ou déja senti?).
Lendo ontem um pouco de uma biografia de Brahms, descobri que
o mesmo nutriu uma paixão (supostamente não-correspondida) pela esposa do seu
mentor Schumann, Clara. Este fato, somado a uma infância difícil, às
circunstâncias peculiares de sua vida profissional e a uma provável tendência depressiva, pode
ter contribuído para a obra daquele que é o compositor favorito de muitos
maestros e musicistas mundo afora.
E equalizando as duas experiências que vivi, cheguei a conclusão
simplória de que o nosso inverno amazônico é uma espécie de guardião da melancolia que sub-existe nas profundezas de nossas mentes.
Vida longa ao inverno, ao blues e à música de Brahms!
E haja melancolia...


















