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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Ceia imaginária


Meu pai morreu há alguns anos, e com ele o natal.
No começo eu lamentava muito a ausência do dito espírito natalino em mim, depois pouco, e hoje lamento não conseguir lamentar a falta do simbolismo contagioso de tão importante data.
Talvez as pessoas próximas nem percebam (disfarço bem, presumo), mas sequer uma minúscula árvore de natal jamais foi armada em casa desde então.
Neste natal, numa tentativa de quebrar este paradigma, árvores e ornamentos foram comprados, com muito amor e carinho inclusive, mas logo doadas a pessoas que nunca puderam ter tal luxo. Pessoas que se iluminaram com o presente recebido. Pessoas imersas no espírito do natal. O verdadeiro povo natalino.
Se a realidade ainda reúne um punhado de pessoas queridas à volta da nossa ceia, cercadas de rabanadas e petiscos mil, a utopia se encarrega de trazer à mente e à mesa os falecidos, os ausentes, os viajantes, os renegados e os esquecidos, todos queridos.
Hoje percebo, entre um sorriso e uma lágrima, que a ceia imaginária aquece o meu coração com amor e saudade.
Opto pela utopia!
Assim seja.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Me and my crazy self




Desde que iniciei a vida de leitor compulsivo, na adolescência, sempre fui chegado a acreditar ter um alter ego, um outro eu, geralmente absorvido dos personagens fortes (ou até dos fracos) oriundos de romances, poesias épicas, filmes, biografias, novelas, músicas, propagandas, enfim, de todo tipo de manifestação humana que tivesse a capacidade de se insinuar em meu cérebro.
Talvez o meu primeiro alter ego tenha sido Huckleberry Finn, rebelde personagem de As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, que ganhou livro próprio em 1884 e até protagonizou filme, em 1993. Eu sonhava acordado ser como Huck, e até na verdade em ser o próprio Huck Finn.
Muitos o sucederam no cargo hipotético de alter ego, como Rick Deckard, de Do Androids dream of eletric sheep?, livro de Philip K. Dick que originou o filme Blade Runner, passando por Eneias, eternizado pelo gigantesco poeta Virgílio em A Eneida, e até mesmo o detetive John Diphoo, da fantástica trilogia O Incal, de Alejandro Jodorowsky e Moebius.
Mas há algum tempo fiquei fixado definitivamente por Corto Maltese, tão encantadora criatura que até o seu criador, o italiano Hugo Pratt o tomou para si como alter ego.
Como definir Corto Maltese sem expor as minhas próprias entranhas?
Corto é um viajante, sempre em movimento e isso me agrada sobremaneira. Percorre o mundo todo, não por dinheiro ou poder, e sim pela liberdade de o percorrer. A imaginação é o seu combustível e nem sempre ele é politicamente correto. Aliás, quase nunca.
Ele é verdadeiramente um anti-herói, uma espécie de Ulisses ao contrário. Ama muito, procurando sua alma gêmea, e um dia a encontrará, desde que ela se disponha a acompanha-lo, de rosto virado para o vento norte.
Nesse ponto, a vida real esboça tocar a surreal. No delírio onírico de Corto, como no meu, a mulher utópica é na verdade uma andróide, como a doce Rachel, de Blade Runner. Ou talvez seja mais parecida com o alter ego desta última, a insinuante Pris? Ou com ambas?
Ou poderia ser uma andróide para cada ego?! Terão os andróides alter-egos?!



Pris























                                                                                            Rachel












Corto e eu precisamos nos encontrar, um dia...





sexta-feira, 1 de março de 2013

Lavagem cerebral


Quando eu era bem criança, a minha meca era a banca de revistas do Largo de Santa Luzia.
Grande, aliás, enorme (assim me parecia), cheia de quadrinhos reluzentes e revistas de capas bem coloridas, a banca levava toda a minha verba mensal e ainda me provocava desejos atrozes de comprar mais e mais revistas.
Desenvolvi então um "sonho acordado" que envolvia uma espécie de "dinheiro imaginário" que eu sempre carregava no bolso direito da minha bermuda, na verdade uma bilhete supostamente assinado pelo então presidente Emílio Garrastazu Médici, ordenando que o dono da banca me fornecesse todas as revistas que eu desejasse.
Havia um outro bilhete, que ficava guardado no meu bolso esquerdo, no qual o presidente ordenava gentilmente que a Padaria Circular, na esquina da Tv. Dom Pedro com Tv. Jerônimo Pimentel, me desse todos os pastéis de queijo que eu pedisse.
Não tenho como recordar disso tudo sem rir sozinho.
E é lógico que jamais tive coragem de usar o "dinheiro" do General Médici.
Não consigo me lembrar até quando esse delírio persistiu, mas é bem claro na minha memória embaralhada sobre aqueles anos tão difíceis da nossa história (e eu nem suspeitava que havia uma ditadura em curso!) que não chegou a atingir o governo Geisel, pois dele jamais tive ordem alguma nos bolsos. 
Hoje me indago como pude ter os meus infantis neurônios tão bem lavados nas aulas de Educação Moral e Cívica e sequer desconfiar?!...
Como?!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Adele e a emoção

Ciência diz por que músicas como "Someone Like You" de Adele fazem chorar

Do UOL, em São Paulo
 
A ganhadora de seis Grammy’s Adele é famosa por sucessos que fazem todo mundo chorar, como "Someone Like You" e "Rolling in the Deep". E a ciência tem uma explicação para o fenômeno. É o que conta Michaeleen Doucleff, em sua coluna no The Wall Street Journal.
Apesar de a experiência pessoal e a cultura pesarem, pesquisadores descobriram que certas características musicais mexem com as emoções. A melodia correta, combinada com letras de rompimento amoroso e a voz potente de Adele enviam ao cérebro sinais de recompensa.
Há 20 anos, o  psicólogo britânico John Sloboda conduziu um experimento que identificou a “appoggiatura”, um tipo de nota musical constante em músicas que emocionam. Esta nota se choca com a melodia e cria um som dissonante, isto cria tensão ao ouvinte, contou Martin Guhn, psicólogo da Universidade de Columbia, que co-escreveu um estudo em 2007 sobre o assunto. "Quando as notas retornam à melodia anterior, a tensão é resolvida, e é bom".
"Someone Like You" está cheia de ornamentos semelhantes às "appoggiaturas". Além disso, no refrão, Adele ligeiramente modula seu tom no final de notas longas, momentos antes de o acompanhamento ir para uma nova harmonia, criando uma mini-montanha-russa de tensão e resolução, diz Guhn.
Em seu estudo, o psicólogo descobriu que as músicas que fazem chorar compartilham pelo menos quatro características: elas começam suavemente e depois se tornam altas; incluem a entrada abrupta de uma nova “voz”, seja um instrumento ou harmonia; elas expandem a frequência tocada e têm desvios inesperados na melodia e harmonia.
“A música começa com um padrão suave e repetitivo”, diz Guhn sobre "Someone Like You". Quando começa o refrão, a voz de Adele salta uma oitava, e ela canta as notas em um volume crescente. A harmonia muda enquanto a letra se torna mais e mais melancólica.
Doucleff diz no texto que quando a música de repente quebra seu padrão esperado, nosso sistema nervoso simpático entra em alerta máximo, nosso coração acelera e começamos a suar. Dependendo do contexto, interpretamos este estado de excitação como positivo ou negativo, feliz ou triste.
Um estudo no ano passado de Robert Zatorre e sua equipe de neurocientistas da Universidade McGill relatou que musicas emocionalmente intensas liberam dopamina nos centros de prazer e recompensa do cérebro, semelhante aos efeitos da comida, sexo e drogas. Isso nos faz sentir bem e nos motiva a repetir o comportamento.
Para medir as respostas dos ouvintes, a equipe descobriu que o número de arrepios estava correlacionado com a quantidade de dopamina liberada, mesmo quando a música era muito triste.

Gosto de música, gosto de Adele e gosto de neurociências, território de nosso confrade Scylla. Então me interessei pela matéria acima e quis compartilhá-la.
Que música emociona os nossos caríssimos leitores? Eu poderia citar muitas, claro, sempre relacionadas a uma situação particular ou à lembrança de pessoas queridas. São muito curiosos os caminhos da nossa emoção. Veja-se o meu caso, em relação à canção "Deborah", de Jon Anderson e Vangelis. Sempre a achei belíssima, mas depois que minha filha nasceu, ela começou a me por lágrimas nos olhos. A letra é uma declaração de amor de alguém por uma criança, que deduzo ser sua filha. Algo semelhante acontece com a canção "Ao que vai chegar", de Toquinho, que eu cantava para Júlia quando ainda estava na barriga da mãe.
Alguém aí tem uma intimidade musical que deseje nos contar?

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

De nomes e neurônios - parte 2


Há poucas semanas adotei uma fotografia de meu avô, Scylla Lage da Silva, em meu perfil do blog, como uma espécie de homenagem ao misterioso link formado entre nomes, memória e poesia genética.
Hoje, sem motivo aparente e movido apenas por necessidade instintiva, troquei a foto por uma do meu pai, Scylla Lage da Silva Filho, mais próximo de mim pela convivência, pela carga genética e por densa amizade construída pelas curvas, subidas, retas e descidas do caminho.
Scyllinha, como o chamávamos, também era médico e gozava, como o seu pai, de enorme facilidade e rapidez na construção de poemas, especialmente de sonetos.
Ter o nome dele me ajudou muito na faculdade de medicina, na qual ele era coincidentemente coordenador de curso, nos tempos do Dr. Aracy Barretto.
Como resolvi divergir da sua especialidade, a proctologia, pude emprestar o seu nome de guerra, Scylla Lage, nos árduos e selvagens tempos da residência médica, em São Paulo.
Lá por 1989 aconteceu uma interessante mudança compulsória no meu nome.
Fui estudar em Homburg/Saar, na Alemanha, e o meu professor, já na primeira semana, escolheu o meu nome para o crachá: DA SILVA. Eu ainda tentei argumentar e mudar para LAGE ou LAGE NETO, sem sucesso.
Percebi então que eu mesmo tinha preconceito em relação a esta parte específica do meu sobrenome, da Silva, e que na minha auto-imagem residual eu não me imaginava como Scylla da Silva, um reles DA SELVA, um sem origem definida no velho continente, um ser gerado em bárbaro território tropical.
Após um breve período de repulsa, resolvi assumir a minha "da Silvidade" e passei até a curtir a sonoridade germânica do "DA SILLFA!!!".
Tempo depois, já morando em Freiburg, meu pai veio me visitar e a primeira coisa que o fez rir, assim que me encontrou no hospital, foi a gravata florida que eu usava, e a segunda, que o levou às gargalhadas, foi o meu crachá, onde se lia DR. DA SILVA, em letras bem grandes.
"Isso é o fim da picada!", disse ele. "Quem vai se deixar operar por um Dr. da Silva? No Brasil, ninguém!", concluiu.
Rimos muito juntos, e desde aquele dia ele passou a me chamar de DA SILVA em todas as ocasiões, até o fim da vida, o que acabou sendo copiado pelo meu irmão, pelo meu tio e por uns poucos amigos, até hoje.
Por conveniência abandonei o DA SILVA ao retornar à Belém, mas apenas no nome de guerra.
Me sinto, na verdade, mais DA SILVA do que nunca, e confesso que ao tomar emprestada a fotografia do meu grande amigo ausente, o meu pai, me senti estranhamente confortável.
Quem entende o que há num nome e o que há numa foto?

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Icoarabeach blues

Imagem: Luis Lopes



Talvez por
estar revendo a série ANOS INCRÍVEIS, ando meio saudosista dos tempos
“inocentes” da faculdade de medicina.


Houve uma
fase, creio que por volta do segundo para o terceiro ano, em que a programação
de sábado passava obrigatoriamente por
uma ida à então aprazível ilha de Outeiro (apelidada em disfarce de Waikiki),
ainda de balsa, regada a rock, vodca ou gim e, é claro, paqueras e babados.



Íamos em 2,
3 e até 4 carros, numa tropa heterogênea formada por calouros e veteranos da
farra light.



Após algumas
idas, muitas histórias e um punhado de estórias, acabou acontecendo o
inusitado: alguns de nós, burgueses iniciantes, adquirimos namoradas fixas
oriundas de Icoaraci (carinhosamente
chamada de Icoarabeach).



Os meses
subseqüentes transformaram-se em uma maratona pela Rodovia Augusto Montenegro.
Como eu e uns 3 amigos tínhamos namorada “oficial” em Belém, zarpávamos após o
expediente do namoro para umas horas extras na Vila Sorriso. E sempre ouvindo
Iron Maiden, AC/DC, Judas Priest,
Motorhead e bandas afins.



E o curioso
é que eu acabei gostando até mais da namorada icoracience, que estudava no
Colégio Nossa Senhora de Lourdes, freqüentava a pipoca dançante do Santa Rosa e
era bonitinha como a boneca Barbie, em detrimento da voluntariosa e mimada
namorada belenense.



Meu pai, meu
confidente desde então, dava risadas com os meus relatos, sem se aprofundar nos
seus comentários.



Mas, num
chuvoso domingo, um acontecimento totalmente imprevisto (por mim), mudou o
curso da minha história pessoal.



A minha
Barbie sorridente se atrasou muito para a pipoca do Saint Rose (codinome usado
por nós em Belém), e ao chegar, esbaforida, me puxou para um canto e disse,
sussurrante, algo assim como: “Scylla, me escuta sem falar nada. Eu não posso
ficar mais contigo, pois estou com uma outra pessoa que está para chegar aqui
na tertúlia. Mas não fica triste não, que eu já arrumei uma namorada pra ti. É minha
grande amiga, tá? E cuida bem dela, viu?”



Tudo
aconteceu tão rápido, na velocidade dos neutrinos, e em poucos minutos a minha
ex-Barbie, cuja foto eu ainda levava escondida na carteira, estava nos braços
de outro, que chegou em poderosa bike Monark Barra Forte, e eu tinha ao meu lado uma
delicada criatura, de cheirosos cabelos castanhos, uma verdadeira réplica da
boneca Suzi.



Posso
resumir dizendo que eu e a minha Suzi seguimos juntos por meses a fio, num amor
louco que apenas a mortal Rodovia Augusto Montenegro podia destruir.



E eu não sei
exatamente como o namoro acabou, talvez apenas se diluindo no tempo, no espaço
e nos propósitos.



E ainda
hoje, posso ouvir as gargalhadas de meu finado pai quando lhe contei sobre a
troca de namoradas.



Desta vez
ele fez um único comentário: “filho, a vida é muito, mas muito engraçada mesmo.
E um dia tu vais lembrar com carinho das meninas de Icoaraci”.



Hoje,
anos-luz depois e monogâmico assumido, eu lembro.



quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A morada da lua



Quando eu era bem pequeno, o meu sonho era descobrir para onde ia a lua durante o dia.

Hoje cedo, não fora o sono atroz que me levou de volta para a cama, eu acho que eu descobriria...

terça-feira, 23 de agosto de 2011

De nomes e neurônios




Nomear os filhos como Júnior, Filho ou mesmo Neto infere uma deferência especial, uma espécie de homenagem vitalícia.


Quando os antepassados foram ou são boas pessoas, gente digna e respeitável, bom para os homenageados, que já levam uma carga positiva e, ao mesmo tempo, ruim para eles, pois com a carga vem uma certa responsabilidade embutida.


E quando não foram tão exemplares assim, bem, aí não há muito o que ser feito. Talvez se esconder em apelidos seja a melhor solução...


Eu tenho o nome do meu avô, Scylla Lage da Silva, que já havia sido homenageado no nome do meu pai, Scylla Filho.


Paradoxalmente tive pouca convivência com ele, que faleceu em pleno jogo Brasil X Peru, na Copa de 1970 e as poucas lembranças que tenho podem ter sido (pelo menos parcialmente) induzidas por relatos posteriores.


Recentemente encontrei a foto que ilustra esta postagem e resolvi adotá-la no meu perfil por um tempo, entendendo que trata-se de “outro” Scylla, mas, em termos genéticos e psicoevolutivos (neologismo criado neste segundo) também é, ao menos um pouquinho, o “mesmo” Scylla.


Como ele foi médico, muito escutei e escuto falar de pacientes e principalmente de parentes (filhos e netos) de pessoas que ele tratou de tuberculose, operou a vesícula ou mesmo fez o parto. Isto sempre fez dele um herói para mim, pois trabalhando numa era de especializações e sub-especializações médicas, eu jamais tive a capacidade de resolver uma gama tão grande de problemas de saúde, como o meu avô fazia.


Outro lado dele que me fascina é o da poesia. O Vovô Scylla escrevia ótimos poemas com extrema facilidade e parece que conquistava as moças assim, aliando poesia com generosidade e um jeito muito, muito suave. Mas sobre isso me censuro de comentar...


É muito curioso como sinto saudades de um Vovô Scylla que pouco conheci. Saudades do seus passos largos, calçados por enormes sapatos, dos animais que conservava na casa da Tv. Dom Pedro (garças, macacos, papagaios, galinhas, muitas galinhas!), dos tiros de espingarda que dava para espantar as mucuras que vinham atacar o galinheiro à noite (hoje me pergunto se não eram mucuras de duas pernas?!) e, principalmente, do que poderíamos ter vivido juntos por mais um punhado de anos.


Shakespeare escreveu em Sonhos de Uma Noite de Verão, algo assim como “o que há num nome? O que chamamos de rosa, não teria, com outro nome, igual perfume?”.


No nome, no DNA e nos neurônios das áreas da memória afetiva, certamente há muito o que se entender.


Ou tentar entender.


domingo, 24 de abril de 2011

Feliz Páscoa

Nunca fui de me importar muito com essas datas comemorativas anuais. Mas uma criança modifica a nossa visão do mundo, como já me haviam prevenido e eu, de certo modo, considerava um certo exagero.
Comecei esta manhã com duas crianças em casa (uma hóspede, além de Júlia) e a alegria delas recebendo os seus ovos foi contagiante. Júlia já é crescida o bastante para entender que é uma data especial e se comporta de acordo com essa compreensão. É divertido. Efetivamente, o sentido agora é outro.
Boa páscoa para todos.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Olá, Raul Reis

Belém, 1º de abril de 2011

Meu caro Raul

Nunca fomos formalmente apresentados, eis que existem razões geográficas a dificultar um eventual encontro. Não fosse a Internet, não creio que soubéssemos da existência um do outro, muito menos participaríamos de um projeto comum, como é este "Flanar".
Mas como este é um mundo pequeno, soube nesta tarde que és tio de um aluno meu, o Yasser, que justamente hoje comemorou o seu aniversário fazendo a minha prova. Decerto que não é o melhor jeito de aniversariar, mas lhe prestamos uma homenagem cantando parabéns, a turma toda. E ele, tão tímido, ficou tremendamente vermelho.
Redijo esta carta, pois, na forma que nos ensinaram na escola primária, naquela aula sobre redação de diferentes tipos de documentos, para te dizer que teu sobrinho aqui está cercado de amigos, que cuidam bem dele e lhe têm grande carinho. E que é um rapaz muito bem educado, estudioso e compenetrado. "Do bem", como se diz atualmente. Imagino que seja algo que apreciarás saber.
Com um abraço, despeço-me.

Yúdice

quinta-feira, 10 de março de 2011

Outro moleque, aqui em Belém

Escrevi um comentário para a postagem "Quando eu era criança, lá em Belém", imediatamente anterior a esta. Ao terminar, estava me divertindo com a lembrança, então decidi compartilhá-la:

Ah, como eu me lembro! Quando criança, eu odiava a Semana Santa porque já sabia, de antemão, que seria aquele inferno: não pode isso, não pode aquilo. E eu nem era uma criança danada. Só queria brincar com meus carrinhos ou, talvez, pendurar bonecos nas árvores do quintal. Nem fazia barulho!

O almoço era sempre pirarucu no leite de coco. Sempre! Delicioso, mas eu também tinha raiva, pois minha mãe dizia ser um prato indigesto e, depois de comê-lo, não podíamos sequer olhar para baixo! Eu me perguntava por qual razão, então, alguém comia um diabo de comida daquelas!
Levei anos para fazer as pazes com o pirarucu, hoje um dos meus peixes favoritos. Sofri esses dissabores na infância, mas hoje, quando me lembro, dá vontade de rir. Não foi um trauma. É provavelmente algo de que minha filha rirá muito, daqui a algum tempo.

A lembrança em questão pode ser meio patética, mas é bom ter lembranças de infância que nos provoquem sorrisos.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A rede social

Vi durante o final de semana o filme que está chamando a atenção por aí: A rede social (The social network, dir. David Fincher, EUA, 2010).

Zuckerberg (o terceiro, da esquerda para a direita):
movido a raiva e necessidade de aceitação -
como quase todo adolescente.
 Em síntese, o filme tem sido descrito como uma espécie de cinebiografia de Mark Zuckerberg, o criador do Facebook, uma das ideias mais bem sucedidas da Internet. Mas uma sinopse dessas comprometeria o trabalho, porque gente menos propensa ao deslumbramento poderia simplesmente não se interessar pela vida de um moleque hoje com 26 anos por quem a maioria das pessoas se interessa não por seu intelecto (extraordinário, não se pode negar), mas por ser o mais jovem bilionário do mundo. E a tchurma adora louvar gente rica.
O filme vai além e retrata com competência o período de desenvolvimento do Facebook e as crises decorrentes, notadamente os processos sofridos por Zuckerberg — um, movido pelos irmãos Cameron e Tyler Winklevoss e por Divya Narendra, que se julgavam donos da ideia; outro, movido pelo ex-melhor amigo brasileiro Eduardo Saverin, que financiou a empresa em seu nascedouro. Alternando, na edição, cenas da vida dos personagens com os dois litígios, o brilhante Fincher retrata muito bem o modus vivendi dos universitários de Harvard em 2004, uma elite que se acha no dever de mudar o mundo com alguma criação acadêmica, mas que passa boa parte do tempo (se não a maior parte dele) enchendo a cara e fazendo merda, como p. ex. se submetendo a diversos tipos de humilhação só para ingressar em uma das fraternidades da honorável instituição.

Uma empresa avaliada em 26 bilhões de dólares.
 Aliás, ficamos com a sensação de que Zuckerberg se tornou o que é por conta de sua obsessão por ingressar em alguma das mais sofisticadas dessas fraternidades. Nerd e certamente sofrendo de transtornos comportamentais, o sujeito é um desajustado social e, ironicamente, virou um fenômeno promovendo a interação entre pessoas. Não sem, claro, dar sucessivas mostras de sua agressividade e desprezo por tudo que não fosse espelho. Ele não é retratado como um vilão de novela global. Não é a personificação do mal: é apenas um grandissísimo babaca, só que genial o bastante para comprar uma boa fatia do mundo e colocá-la no bolso.
Construído sem intenções bajulatórias, A rede social é um filme sério, agradável, com bons momentos de humor, mas sem comprometer a sua proposta de contar uma história que, convenhamos, dispõe de elementos para prender a atenção de gente comum como nós. Vale a pena ver.

PS — Há mais ou menos sete anos alguém me mandou um convite para ingressar no Orkut. Aceitei, fiquei meio viciado e, hoje, raramente passo por lá. Mas mantenho minha conta, porque me permite reencontrar velhos amigos, manter alguns contatos, lembrar alguns aniversários, compartilhar um pouco da vida de pessoas queridas. De lá para cá, recebi alguns convites para ingressar em outras redes sociais, inclusive o Facebook. Ignorei todos sumariamente. Recuso-me a participar de mais de uma rede e pouco me importa se o Orkut é a mais interessante ou a pior delas. A adolescência já ficou para trás faz tempo e não tenho nenhuma necessidade de caçar falsa popularidade por aí. Nada contra quem tem, mas já me sinto contemplado em minha moderada necessidade de exposição.

domingo, 31 de outubro de 2010

Em 2012

A pergunta que me fica ao final deste dia de eleição: será que em 2012, finalmente, eu voltarei a sentir orgulho de ser eleitor? Colarei de novo adesivos? Empunharei bandeiras? Vibrarei com a campanha? Terei alguma fé no resultado?
Saudade de outros tempos...

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Algo Novo Visita o Lugar do Blogueiro

Fora de serviço

Meus queridos, estou de férias curtindo um frio danado aqui em Florianópolis. O acesso à Internet estará descontinuado, até porque pretendo passar a maior parte do tempo em ócio criativo com a família. Deixo-lhes um grande abraço e meus votos de um excelente mês de julho.
Abraços. Em agosto, de volta à regularidade, se Deus quiser.

domingo, 13 de junho de 2010

Decidido!

E no sábado há pouco findo, dia dos namorados, o presente de amor dado ao nosso país foi a confirmação (já esperada, claro) de Michel Temer como vice de Dilma Rousseff, na chapa para a presidência da Republiquinha.
Na convenção nacional do Partido dos Cargos e Negociações de Todo Tipo do Brasil, na primeiríssima fila, ladeando o ungido, estavam José Sarney, Renan Calheiros, Jader Barbalho. Que beleza! A fina flor de uma política que levaria ao desespero o mais prolífico dos autores de terror. E com a agravante de ser tudo verdade...
No meio deles, Dilma Rousseff e outros nomes do PT. E a (ainda) pré-candidata bradou que o país avançará com a nossa aliança. Sim, avançará. Mas só se for na perspectiva daquela famosa anedota segundo a qual o Brasil chegou à beira do abismo [neste contexto, o da ética] e, agora, dará um passo à frente.
Honestamente, eu dormiria mais feliz se uma bomba tivesse sido detonada no local onde foi realizado esse convescote dos infernos.
Não, o parágrafo anterior não é força de expressão. Sim, eu estou com raiva.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Decidindo por mim

Sempre tive horror a votos brancos e nulos e era, também eu, um desses moralistas que metem o dedo na cara dos outros, dizendo que eles são obrigados a escolher um candidato. Que alguém será eleito de qualquer modo, que quem não votou não tem o direito de reclamar, que isso e aquilo. Claro que, para defender tal ideia, eu precisava assumir o discurso de procure o candidato menos pior, que é de difícil demonstração e que vem se tornando uma empreitada inviável neste país.
Os anos se passaram. Não sei se foi a idade ou a experiência, ou se foi apenas uma conjuntura tétrica, mas no ano passado eu me vi, nas eleições municipais, entre Duciomar e Priante. Então caí na real e derrubei todas as últimas resistências que tinha ao reconhecimento dos votos nulo e branco como expressões legítimas, respeitáveis e responsáveis do eleitor, caso se visse completamente sem opções. Nem o candidato menos pior. Continuo achando que votar no NONONO deve ser o último recurso do eleitor, mas passei a respeitar essa alternativa, embora não desejando ter que repeti-la, pessoalmente falando.
Por isso, para as eleições gerais de 2010, eu realmente queria ter candidatos. Tenho sentido muita falta de me importar com o resultado das eleições. De viver esse momento único em que o brasileiro comum vale alguma coisa. E como tenho aversão absoluta à direita, fico cavucando candidatos supostamente à esquerda, aqueles que eu pudesse considerar menos piores.
Minha ojeriza ao PSDB e asseclas não me permite votar em ninguém que tenha a menor relação com eles. Por isso, considerando as opções disponíveis, cogitei de votar em Dilma Rousseff. Contudo, estamos apenas no aguardo de que a convenção do PMDB — o partido dos cargos e das permanentes negociações com os governos, quaisquer que sejam — confirme Michel Temer para a vice-presidência. Como, hoje, não há partido que eu considere mais deletério ao Brasil do que o PMDB, só me resta aceitar que essa chapa jamais receberá o meu voto.
Aqui no Pará, juro que pensei em votar em Ana Júlia, mesmo ciente do desastre que é o seu governo. Considero o retorno dos tucanos um desastre maior. Mas quando soube das negociações entre o PT e o DEM — o DEM!!! —, ficou claro para mim que o inferno é aqui. Aguardava o resultado dessas articulações do mal, porém nem preciso mais esperar. Se o vice de Ana Júlia será Anivaldo Vale — da curriola de Duciomar Costa, o mesmo sujeito que inventou do nada um domicílio eleitoral em Belém para se tornar vice-prefeito —, então mais uma vez decidiram por mim.
Ainda tentarei arrumar candidatos a deputado federal e estadual, porque para senador também não vai dar.
Eu agora sou 00, XX, NONONO, do contra e tudo mais que se puder cogitar nesse sentido. Só uma coisa não muda: eu continuo sendo Brasil.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Medo de viver

Por vezes me pego pensando na morte. Na dos próximos, na minha, na de quem só conheço de ouvir falar, ou na de outro anônimo, como eu, que tenha morrido em circunstâncias terríveis.

Penso em como deve ser senti-la chegando, ou como é sequer saber de sua proximidade, como nas tragédias em que a morte colhe alguém de surpresa e de repente.

Não sei se isso vem da idade, da chegada da maturidade, ou de já ter visto o fim da vida de pessoas queridas. Pode ser que seja consequência inevitável da minha natureza melancólica. Talvez decorra de luto recente em família. Certeza tenho, contudo, que a recorrência destes pensamentos se deve em muito pela violência que está nas ruas, todos os dias, e que me faz viver sobressaltado dentro da minha própria casa, ou do meu trabalho.

Já tive a sorte de viver no Primeiro Mundo. Visitei-o outras vezes, depois de adulto. Lá, não tenho medo de andar na rua, seja de noite, de madrugada, ou em qualquer lugar. O temor da morte fica para a ida e para a volta, para o inevitável voo que demanda, apesar da tecnologia reconfortante, uma boa dose de sorte e esperança. Mas em terra permanece uma sensação de segurança que não sinto em minha cidade há muito tempo.

Quando mais jovem, sem ter carro, andava de noite a pé pela cidade. Ia da Batista Campos ao Umarizal caminhando, sozinho ou com amigos, em busca dos bares que frequentávamos. Quem sabe se por irresponsabilidade, não sentíamos medo. Mas o fato é que nunca fui abordado, assaltado ou ameaçado em minhas andanças noturnas. Sempre caminhei em paz e sempre chegava a meu destino sem qualquer temor.

Eram outros tempos... Hoje, quando lembro disso, imagino que nunca o faria novamente. Não há quem possa fazer sentir ao cidadão belenense a certeza de estar vivo, quando chegar a hora de ir para casa.

Evidentemente, há culpados por tal situação, e não são somente os que estão na rua, à espreita dos desavisados. Todos sabemos dos responsáveis de gabinete, quem são, o que fazem (ou deviam fazer). Se não há reação contra estes culpados, é porque além de amedrontados, tornamo-nos passivos. Hoje, para os que podem, é preferível sair daqui que ficar torcendo para não ser o próximo, ou exigir providências de quem pode melhorar nossa vida.

E a cada dia mais, a morte povoa o meus pensamentos. Mas não só os meus, infelizmente.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Licença sem vencimentos

Infelizmente, o prazer de fazer este blog com os nossos outros sete editores tem sido cada vez mais difícil de desfrutar. Não porque haja qualquer ínfima redução na vontade de escrever, ou no entusiasmo com que me lanço aos debates, aqui no Flanar, ou na felicidade que é ver um texto meu sendo alvo de comentários dos que generosamente dispõem de seu tempo para nos ler e comentar. É que, como para todo habitante das grandes cidades que tem a sorte de poder trabalhar para ganhar seu sustento, o tempo tem urgido para mim.

Fato é que venho enfrentando uma série de dificuldades para cumprir com mais este compromisso. Escrever no Flanar é, certamente, uma das atividades mais enriquecedoras das várias a que me lancei nos últimos tempos. No entanto, não tenho conseguido postar com a frequência desejada e com a qualidade que gostaria.

Deste modo, peço aos demais redatores e aos meus poucos leitores que compreendam este momento. Como todo momento, ele passará. Dou-me por licenciado do blog. Voltarei em alguns meses, cheio de ideias e (o ano promete) doido para botar a colher em tudo que é mingau - para provar de uns e, talvez, azedar outros; mas isso faz parte.

A gorda remuneração que recebo para escrever no blog, destino-a à caridade, no período em que estarei fora...

Ah, e continuem por aqui, pois o Flanar não para!