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sábado, 28 de setembro de 2013

"Norte das águas": um mergulho no jazz de Hobsbawn

““O Jazz moderno não é tocado apenas por divertimento, dinheiro, ou requinte técnico: também é tocado como manifesto - seja de revolta contra o capitalismo e a cultura comercial, seja de igualdade do negro ou de qualquer outra coisa".
Eric Hobsbawn, em: “The jazz scena”, 1989.



Passado 40 anos da publicação do Saint Louis Blues (1914), o jazz tornara-se, de uma maneira ou de outra, universal. Desde então passou a ser quase uma versão de segunda mão da música americana, ainda que no cartório se discuta a paternidade - apesar de avôs africanos. A versão de sua evolução e transmutação, ao contrário de sua disseminação, permanece como um tesouro mergulhado no delta do Mississipi e nem Eric Hobsbawn, famoso historiador inglês, vestido de escafandrista conseguiu localizar.
Hobsbawn (História Social do Jazz, Ed. Paz e Terra, 1989) dedilha que o Jazz moderno inicia em 1940, após a retomada da improvisação e a ruptura definitiva do blues com o pop. O blues, doravante, foi a gota inseminada no momento da fecundação do jazz, e o tal “improviso” foi gênese dessa relação assexuada.
Após a gestação, o som afro-americano (afro-humano, afrodisíaco, diz Almino Henrique) abandona o ventre, corta o cordão, enterra as secundinas do folclore e dá os primeiros passos para sair de seu gueto: Nova Orleans. De cara mistura-se com a música clássica; depois inicia peregrinação mundo afora para se juntar a outros elementos fonográficos e tornar-se o híbrido tanto trovejado por Louis Armstrong. Após o princípio, lá pelas quebradas do French Quartier com os negros tocando em funerais, o Jazz sobe o Mississipi no rumo norte e aporta em Chicago e Nova Iorque. Daí rodopia para o mundo até encontrar os mais insipientes rincões.
No delta do Amazonas, um desses rincões nebulizados pelo Jazz, você pode se inteirar de algumas fímbrias dessa protoplasmática história musical caminhando pela orla de Macapá. “Do blues urbano e imigrante, permaneceu o background constante da evolução do jazz” -aferiu Hobsbawn. Então porque esse background, uma espécie de miolo, néctar, não haveria de estar entre nós, nutrindo marabaixo, carimbó, batuque, boi-bumbá e outros elementos fonográficos da Amazônia dando perpetuação ao ideal de Chat Baker, Miles Davis e Duke Ellington?
A idéia do imutável som quintessencial de negros urbanos espalhou-se pela floresta feito alvorada de Uirapurus. Tão logo as ondas da maré alta do rio Amazonas se chocam contra os muros de contenção da cidade musical surgem blue notes que viajam entre nossos ouvidos, até inundar as circunvoluções cerebrais de serotonina e causar uma enxurrada de êxtase.
Finéias (teclados) e seus menestréis
Se numa quinta-feira qualquer você quiser apalpar um pedaço dessa história a céu aberto, - contando estrelas, ao lado de um vento brejeiro e sem chuva-, pegue a orla de Macapá e caminhe até o Araxá. Achegue ao “Norte das águas”, puxe a cadeira, sente-se e sinta-se na esquina da rue Bourbon com St. Peter street. Peça uma cerveja e um tira-gosto pro Adriano e aguarde a chegada de uma espécie de “Original Dixieland Jass Band”, nos mesmos moldes da Nova Orleans pós-Katrina, com Finéias e seus menestréis. Depois dê o formato de concha à sua mão e a encoste-as nas cartilagens da orelha. É só deleite, ou melhor: total ruptura com o capitalismo da cultura comercial.
O “Norte das Águas”, por assim dizer, comporta-se como um verdadeiro Tin Pan Alley ao receber de abraços aberto quem deseja voar na liberdade da expressão musical, ou, no improviso e na espontaneidade de se tocar um instrumento.
Os idealizadores desse projeto são tão amarrados por esse revival, que anualmente realizam um festival neste mesmo cantinho, com diversos convidados nacionais, para manter viva essa história que os remete ao Mississipi. É claro que não se precisa de nenhum palco armado, pois a natureza foi bondosa com a cidade e deixou esse “mar” aberto e repleto de verde (I see trees of green [...] What a wonderful world), dando à paisagem bucólica um ar de originalidade.
Mesmo de canoa, a ideia bem que poderia ir rio acima, nos mesmos moldes do Mississipi e borrifar jazz em toda a região. Mas aí é outra história... Já sem Hobsbawn para escrever. 

domingo, 28 de abril de 2013

Cruzeiro do Sul, Acre



Pelos Andes em viagem,

Da nascença do Juruá,

vim “Pará” nessa paragem,

em cruzeiro no rio-mar



lembro a mais esbelta das palmeiras,

o silvo do sabiá,

“inda” quero a infância inteira,

e um tanto mais para enamorar



tem estrela no sul do nome

e um norte pra me guiar

assim me valer desse “homi”

um tapuio do verbo amar. 

me valer desse “home”

um tapuio do verbo amar. 

me valer desse homem

um tapuio do verbo amar. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Alô, alô interior!




 Alô, alô interior! Alô, alô interior! Atenção, Dona Cleinha! Atenção, Dona Cleinha! Seu filho Durval manda avisar que a esposa Jandirá acabou de parir. É seu primeiro neto e se chama Antonio - Tonico para os mais íntimos...

A mensagem saiu de uma rádio difusora, a primeira forma de se comunicar pelo interior, principalmente da Amazônia. Essa espécie de pombo-correio eletrônico-sonoro era o meio de se matar saudade, anunciar notas fúnebres, felicitações de aniversário, além de outros enunciados do cotidiano da floresta. São mensagens por vezes íntimas e pessoais, que em boa parte, só se tornam públicas pela necessidade da informação. 
Agora me vem esse moço, Ney Conceição, fazer-nos lembrar desses tempos idos de vida interiorana, ao lançar o quarto trabalho de música instrumental, intitulado “Alô, alô interior!”. O título nos remete a esse alumbramento, essa coisa nostálgica. O trabalho é fruto de pesquisa da musicalidade interiorana, daí o título. Percebe-se tal elemento na zabumba, triângulo e sanfona, entre tantos elementos acústicos. Do frevo ao carimbó, a sonoridade desse artista embala o resultado de sua pesquisa: magnífica. As pitadas de jazz enobrecem o disco

Se hoje Ney Conceição é considerado um dos maiores contra-baixistas do país, o produto do experimentalismo só podia ter lançamento no Teatro Experimental Waldemar Henrique, em Belém, sua casa. Acompanhado de músicos locais e nacionais, esse paraense da gema do açaí, por ora assentado no sudeste do País, deixa claro que o título remete a uma forma de se comunicar, de enviar notícias de um mundo geograficamente maior para outro mais distante, através da arte. Nada melhor do que a música, uma metáfora das ondas tropicais dos rádios, para esse trabalho de autopsia da história das difusoras.

O show de lançamento (13/01/2013), em si, foi eletrizante, estonteante. Atingiu a maior amplitude de onda quando tocou a música-título em homenagem ao interiorano Dominguinhos, entubado numa CTI, sob risco de sucumbir. Foi uma espécie de oração ao ritmo do nordeste. Além de Arimatéia, um trumpetista participativo de realengo que tufava a jugular com seus sopros metálicos, havia ainda o baterista Cristiano Galvão e o percussionista Dadadá. As Participações do trio Manari e Sebastião Tapajós fez-nos mostrar quão possível é a integração entre os povos, basta ler a partitura da vida. Mas o maior destaque, afora o Ney, foi o carioca Luiz Otávio, de 23 anos, tecladista. Converteu-se em Stevie Wonder e reluziu. Reluziu no sentido jazzístico, ainda que suas turvas retinas lhe escondam a luz.

A platéia estava extasiada. Eram músicos, artistas de outras áreas, professores ligados à arte, e eu, acompanhado de meu filho, um irrequieto contrabaixista e admirador do Ney. Olivar Barreto contorcia seu pomo; Almirzinho Gabriel se maravilhava; Nego Nelson pedia bis. Marcos Puff, o destemido Ariel e uma turma de saxofonistas invadiram o palco, no final, para regozijar Ney. Uma festa interiorana, dessas com direito a bingo. João Pedro, o filho, dedilhava às escondidas um contrabaixo que eu fingia ver. E eu? Só batia palmas. Era o que me restava. É a única coisa que sei fazer.

... Alô, alô interior! Alô, alô interior! Atenção Dona Cleinha! Atenção Dona Cleinha! Ele manda dizer também: assim que findar o resguardo, e tão logo as chuvas minguarem, ele pega um popopô no rumo da boca e vara por aí. Prepare um caldo de Gurijuba que é pra dar sustância pro Bacuri e também pra ele já ter nas ideias a vida de pescador.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Nota de pesar

Em nome do blog, quero externar meus sentimentos pelo falecimento do pai do nosso confrade Paulo Santos, Dr. Roberto Araújo de Oliveira Santos, emérito professor de várias gerações e grande pensador da Amazônia que, dentre outras distinções e cargos, foi juiz do Tribunal Regional do Trabalho da 8a Região, membro da Academia Nacional de Direito do Trabalho, professor do mestrado em Direito da UFPA e escreveu sobre internacionalização da Amazônia muito antes do assunto virar moda.

Ao Paulo e sua família, desejo que a dor da perda seja diminuída pelo afago dos amigos e pelo reconhecimento da trajetória maiúscula do professor Roberto Santos, que representou com distinção e brilhantismo o pensador amazônico, mostrando que os bons cérebros daqui têm muito a dizer e ensinar ao mundo sobre sua própria realidade.

sábado, 23 de junho de 2012

Brasil com S


 Uma das  lojas da Macy's em Manhattan, NY. Fotos: Edvan Feitosa Coutinho

 A rede Macy's, uma das mais tradicionais e maiores lojas de departamentos dos Estados Unidos (e eles se arriscam a dizer do mundo), colocou o Brasil na vitrine. Desde a primavera, uma imensa linha de produtos de moda masculina, feminina, decoração, acessórios e artigos de beleza tenta levar os consumidores ao paraíso. A ação da Macy's se chama  Brasil, a magical journey. Isso mesmo, Brasil com S. Os americanos também parecem ter mudado de atitude com relação ao gigante sul-americano não somente na grafia do nome do país, mas também no que se refere, nesse caso, ao conteúdo das coleções. Os designers são brasileiros, entre eles Francisco Costa (da Calvin Klein), Falchy (o mineiro célebre pelas bolsas), Marcelo Rosembaum (um mestre da cerâmica), Maria Oiticica (especialistas das bio-bijouterias) além de indefectível Romero Brito, talvez o mais celebrado artista plástico brasileiro nos States e rei do marketing em torno de sua arte.
A surpresa na parte comésticos/beleza fica por conta da Phebo - a  perfumaria paraense fundada em 1930 e há alguns anos nas mão da botica mais antiga do Brasil, a carioca Granado (de 1870). Na Macy's é possível comprar produtos Phebo desenvolvidos por Vic Meirelles, Amir Slama e Isabela Capeto.
A grande loja de departamentos também oferece o Brasil num app para Google Play, iPhone e iPad, com multimídia sobre a Amazônia, Carnaval e Futebol.
Uma série de eventos acontece nas lojas de costa a costa dos Estados Unidos. São as Brasil Launch Parties.  O texto dos convites e cartazes dessas festas é  tentador: Help us kick-off our magical journey by celebrating like only the Brasilians know how, with lots of live music, dancing, delicious food, colorful fashion and talented artists – don't miss it!

No website da  Macy's é possível ver o catálogo e conhecer os designers das coleções,  ainda,  os vídeos com making of da produção. O destaque é um dos vídeos com a designer Rachel Roy e o músico Seu Jorge.

sábado, 2 de junho de 2012

Sábado, na beira do rio

Habitat (Imagem: Scylla Lage Neto)

Lar (Imagem: Scylla Lage Neto)

Combustível (Imagem: Scylla Lage Neto)

Referencial (Imagem: Scylla Lage Neto)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Todos somos Lúcio Flávio Pinto


Os componentes do Flanar resolveram aderir à campanha que busca angariar fundos para pagar a condenação que foi imposta pela Justiça Paraense ao jornalista Lúcio Flávio Pinto na Ação Ordinária de Indenização n. 0003791-93.2000.814.0301, em tramitação pela 1ª Vara Cível de Belém.

As razões primeiras para que adotássemos essa postura são aquelas descritas no post O grileiro, mesmo morto, vencerá? e em um texto do próprio Lúcio, que pode ser lido aqui: http://www.twitlonger.com/show/ftq7va.

Lúcio Flávio Pinto merece o reconhecimento de todos aqueles que vivem na Amazônia. Ele é o verdadeiro curupira, o ser mitológico que defende a floresta. Nós, amazônidas, nossos filhos e netos teremos muito a agradecer-lhe, se esta luta não for em vão. Para que ela não seja debalde, precisamos nos mobilizar. Poucos têm a força hercúlea que este homem, de físico mirrado, demonstra ter na busca e demonstração da verdade que todos precisamos conhecer.

Mais que isso, porém, acreditamos que essa atitude tem também uma razão afetiva. No meio de tanta pancada, cremos que a mobilização de tantos quanto acreditam e confiam no trabalho do Lúcio representará para ele um afago, um sinal de que ele não está só, e que pode contar com nossa força sempre.

Sendo assim, um link permanente foi adicionado à lateral do blog, com o banner da campanha. Para participar, deposite qualquer quantia na conta-poupança do Banco do Brasil n. 22.108-2, agência 3024-4, em nome de Pedro Carlos de Faria Pinto, irmão do Lúcio. Para quem pretende fazer um DOC, o CPF do titular é o 212.046.162-72.

Vamos em frente!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O grileiro, mesmo morto, vencerá?

Reproduzo abaixo o artigo que o jornalista Lucio Flavio Pinto escreveu no último sábado e foi divulgado por diversas mídias, na internet. É mais um duro golpe na luta que LFP trava contra os grileiros na Amazônia, onde seu grito solitário é muitas vezes mais eficiente que qualquer ato estatal.

É um pouco longa para esse espaço, mas sua leitura é necessária.

O Grileiro vencerá?
Lúcio Flávio Pinto
(11 de fevereiro de 2012)
Como já é do conhecimento público, em 1999 escrevi uma matéria no meu Jornal Pessoal denunciando a grilagem de terras praticada pelo empresário Cecílio do Rego Almeida, dono da Construtora C. R. Almeida, uma das maiores empreiteiras do país, com sede em Curitiba, no Paraná. Embora nascido em Óbidos, no Pará, Cecílio se estabeleceu 40 anos antes no Paraná. Fez fortuna com o uso de métodos truculentos. Nada era obstáculo para a sua vontade.

Sem qualquer inibição, ele recorreu a vários ardis para se apropriar de quase cinco milhões de hectares de terras no rico vale do rio Xingu, no Pará, onde ainda subsiste a maior floresta nativa do Estado, na margem direita do rio Amazonas, além de minérios e outros recursos naturais. Onde também está sendo construída a hidrelétrica de Belo Monte, para ser a maior do país e a terceira do mundo.

Os 5 milhões de hectares já constituem território bastante para abrigar um país, mas a ambição podia levar o empresário a se apossar de área ainda maior, de 7 milhões de hectares, o equivalente a 8% de todo o Pará, o segundo maior Estado da federação brasileira. Se fosse um Estado, a “Ceciliolândia” seria o 21º maior do Brasil.

Em 1996, na condição de cidadão, atendi a um chamado do advogado Carlos Lamarão Corrêa, diretor do Departamento Jurídico do Iterpa (Instituto de Terras do Pará), e o ajudei a preparar uma ação de anulação e cancelamento dos registros das terras usurpadas por C. R. Almeida, com a cumplicidade da titular do cartório de registro de imóveis de Altamira e a ajuda de advogados inescrupulosos. A ação foi recebida pelo juiz da comarca, Torquato de Alencar, e feita a averbação da advertência de que aquelas terras não podiam ser comercializadas, por estarem sub-judice, passíveis de nulidade.

Os herdeiros do grileiro podem continuar na posse e no usufruto da pilhagem, apesar da decisão, porque a grilagem recebeu decisão favorável dos desembargadores João Alberto Paiva e Maria do Céu Cabral Duarte, do Tribunal de Justiça do Estado. Deve-se salientar que essas foram as únicas decisões favoráveis ao grileiro nas instâncias oficiais, que reformaram a deliberação do juiz de Altamira.

Com o acúmulo de informações sobre o estelionato fundiário, os órgãos públicos ligados à questão foram se manifestando e tomando iniciativas para evitar que o golpe se consumasse. A Polícia Federal comprovou a fraude e só não prendeu o empresário porque ele já tinha mais de 70 anos. O próprio poder judiciário estadual, que perdeu a jurisdição sobre o caso, deslocado para a competência da justiça federal, a partir daí, impulsionado pelo Ministério Público Federal, tomando rumo contrário ao pretendido pelo grileiro, interveio no cartório Moreira, de Altamira, e demitiu todos os serventuários que ali trabalhavam, inclusive a escrivã titular, Eugênia de Freitas, por justa causa.

Carlos Lamarão, um repórter da revista Veja (que chegou a ser mantido em cárcere privado pelo empresário e ameaçado fisicamente) e o vereador Eduardo Modesto, de Altamira, processados na comarca de São Paulo por Cecílio Almeida, foram absolvidos pela justiça paulistana. O juiz observou que essas pessoas, ao invés de serem punidas, mereciam era homenagens por estarem defendendo o patrimônio público, ameaçado de passar ilicitamente para as mãos de um particular.

De toda história, eu acabei sendo o único punido. A ação do empreiteiro contra mim, como as demais, foi proposta no foro de São Paulo. Seus advogados sabiam muito bem que a sede da ação era Belém, onde o Jornal Pessoal circula. Eles queriam deslocar a causa por saberem das minhas dificuldades para manter um representante na capital paulista. A juíza que recebeu o processo, a meu pedido, desaforou a ação para Belém, como tinha que ser. Hoje, revendo o que passei nestes 11 anos de jurisdição da justiça do Pará, tenho que lamentar a mala suerte de não ter ficado mesmo em São Paulo, com todas as dificuldades que tivesse para acompanhar a tramitação do feito.

A justiça de São Paulo foi muito mais atenta à defesa da verdade e da integridade de um bem público ameaçada por um autêntico “pirata fundiário”, do que a justiça do Pará, formada por homens públicos, que deviam zelar pela integridade do patrimônio do Estado contra os aventureiros inescrupulosos e vorazes. Esta expressão, “pirata fundiário”, C. R. Almeida considerou ofensiva à sua dignidade moral e as duas instâncias da justiça paraense sacramentaram como crime, passível de indenização, conforme pediu o controverso empreiteiro.

Mesmo tendo provado tudo que afirmei na primeira matéria e nas que a seguiram, diante da gravidade do tema, fui condenado, graças a outro ardil, montado para que um juiz substituto, em interinidade de fim de semana, pela ausência circunstancial da titular da 1ª vara cível de Belém, sem as condições processuais para sentenciar uma ação de 400 páginas, me condenasse a pagar ao grileiro indenização de 8 mil reais (em valores de então, a serem dramaticamente majorados até a execução da sentença), por ofensa moral.

A sentença foi confirmada pelo tribunal, embora a ação tenha sido abandonada desde que Cecílio do Rego Almeida morreu, em agosto de 2008; mesmo que seus sucessores ou herdeiros não se tenham habilitado; mesmo que o advogado, que continuou a atuar nos autos, não dispusesse de um novo contrato para legalizar sua função; mesmo que o tribunal, várias vezes alertado por mim sobre a deserção, tenha ignorado minhas petições; mesmo que, obrigado a extinguir a minha punibilidade, arquivando o processo, haja finalmente aberto prazo para a habilitação da parte ativa, que ganhou novo prazo depois de perder o primeiro; mesmo que a relatora, confrontada com a argüição da sua suspeição, que suscitei, diante de sua gravosa parcialidade, tenha simplesmente dado um “embargo de gaveta” ao pedido, que lhe incumbia responder de imediato, aceitando-o ou o rejeitando, suspendendo o processo e afastando-se da causa; mesmo que tudo que aleguei ou requeri tenha sido negado, para, ao final, a condenação ser confirmada, num escabroso crime político perpetrado pela maioria dos desembargadores do Tribunal de Justiça do Pará que atuaram no meu caso, certamente inconformados com críticas e denúncias que tenho feito sobre o TJE nos últimos anos, nenhuma delas desmentida, a maioria delas também completamente ignorada pelos magistrados citados nos artigos. Ao invés de cumprir as obrigações de sua função pública, eles preferem apostar na omissão e na desmemoria da população. E no acerto de contas com o jornalista incômodo.

Depois de enfrentar todas as dificuldades possíveis, meus recursos finalmente subiram a Brasília em dezembro do ano passado. O recurso especial seguiu para o presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministro Ari Pargendler, graças ao agravo de instrumento que impetrei (o Tribunal do Pará rejeitou o primeiro agravo; sobre o segundo já nada mais podia fazer).

Mas o presidente do STJ, em despacho deste dia 7, disponibilizado no dia 10 e a ser publicado no Diário da Justiça do dia 13, negou seguimento ao recurso especial. Alegou erros formais na formação do agravo: “falta cópia do inteiro teor do acórdão recorrido, do inteiro teor do acórdão proferido nos embargos de declaração e do comprovante do pagamento das custas do recurso especial e do porte de retorno e remessa dos autos”.

Recentemente, a justiça brasileira impôs novas regras para o recebimento de agravos, exigindo dos recorrentes muita atenção na formação do instrumento, tantos são os documentos cobrados e as suas características. Podem funcionar como uma armadilha fatal, quando não são atendidas as normas formais do preparo.

A falta de todos os documentos apontada pelo presidente do STJ me causou enorme surpresa. Participei pessoalmente da reunião dos documentos e do pagamento das despesas necessárias, junto com minha advogada, que é também minha prima e atua na questão gratuitamente (ou pró-bono, como preferem os profissionais). Não tenho dinheiro para sustentar uma representação desse porte. Muito menos para arcar com a indenização que me foi imputada, mais uma, na sucessão de processos abertos contra mim pelos que, sendo poderosos, pretendem me calar, por incomodá-los ou prejudicar seus interesses, frequentemente alimentados pelo saque ao patrimônio público.

Desde 1992 já fui processado 33 vezes. Nenhum dos autores dessas ações teve interesse em me mandar uma carta, no exercício de seu legítimo direito de defesa. OJornal Pessoal publica todas as cartas que lhe são enviadas, mesmo as ofensivas, na íntegra. Também não publicaram matérias contestando as minhas ou, por qualquer via, estabelecendo um debate público, por serem públicos todos os temas por mim abordados. Foram diretamente à justiça, certos de contarem com a cumplicidade daquele tipo de toga que a valente ministra Eliana Calmon, Corregedora Nacional de Justiça, disse esconderem bandidos, para me atar a essa rocha de suplícios, que, às vezes, me faz sentir no papel de um Prometeu amazônico.

Não por coincidência, fui processado pelos desembargadores João Alberto Paiva e Maria do Céu Duarte, o primeiro tendo como seu advogado um ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral, à frente de uma das mais conceituadas bancas jurídicas do Distrito Federal. O ex-ministro José Eduardo Alckmin, que também advogava para a C. R. Almeida, veio a Belém para participar de uma audiência que durou cinco minutos. Mas impressionou pela sua presença.



O madeireiro Wandeir dos Reis Costa também me processou. Ele funcionou como fiel depositário de milhares de árvores extraídas ilegalmente da Terra do Meio, que o Ibama apreendeu em Altamira. Embora se declarasse pobre, ele se ofereceu para serrar, embalar e estocar a madeira enquanto não fosse decidido o seu destino. Destino, aliás, antecipado pelo extravio de toras mantidas em confinamento no próprio rio Xingu. Uma sórdida história de mais um ato de pirataria aos recursos naturais da Amazônia, bem disfarçado.

Apesar de todas essas ações e do martírio que elas criaram na minha vida nestes últimos 20 anos, mantenho meu compromisso com a verdade, com o interesse público e com uma melhor sorte para a querida Amazônia, onde nasci. Não gostaria que meus filhos e netos (e todos os filhos e netos do Brasil) se deparassem com espetáculos tão degradantes, como ver milhares de toras de madeira de lei, incluindo o mogno, ameaçado de ser extinto nas florestas nativas amazônicas, nas quais era abundante, sendo arrastadas em jangadas pelos rios por piratas fundiários, como o extinto Cecílio do Rego Almeida. Depois de ter sofrido todo tipo de violência, inclusive a agressão física, sei o que me espera. Mas não desistirei de fazer aquilo que me compete: jornalismo. Algo que os poderes, sobretudo o judiciário do Pará, querem ver extinto, se não puder ser domesticado conforme os interesses dos donos da voz pública.

Vamos tentar examinar o processo e recorrer, sabendo das nossas dificuldades para funcionar na justiça superior de Brasília, onde, como regra, minhas causas sempre foram vencedoras até aqui, mesmo sem representação legal junto aos tribunais do Distrito Federal.

Decidi escrever esta nota não para pressionar alguém nem para extrapolar dos meus direitos. Decisão judicial cumpre-se ou dela se recorre. Se tantos erros formais foram realmente cometidos no preparo do agravo, o que me surpreendeu e chocou, paciência: vou pagar por um erro que impedirá o julgador de apreciar todo meu extenso e profundo direito, demonstrado à exaustão nas centenas de páginas dos autos do processo. Terei que ir atrás da solidariedade dos meus leitores e dos que me apoiam para enfrentar mais um momento difícil na minha carreira de jornalista, com quase meio século de duração. Espero contar com a atenção das pessoas que ainda não desistiram de se empenhar por um país decente.
Belém (PA), 11 de fevereiro de 2012
LÚCIO FLÁVIO PINTO
Editor do Jornal Pessoal

sábado, 15 de outubro de 2011

Amazônia flex


Imagem: Scylla Lage Neto

Em minhas andanças fluviais recentes, redescobrindo a Baía do Guajará, fiz uma constatação óbvia: pelo menos esse pedaço da Amazônia continua ecologicamente correto.
O combustível utilizado (pelos humanos) em todas as embarcações, restaurantes e bares visitados na região da baía é o etanol.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Desmatamento



Encontrei a charge acima perdida em um pen-drive, lamentavelmente sem referência ao autor.
Mais atual, impossível.
E atual permanecerá por algumas décadas.

domingo, 18 de setembro de 2011

Foz do Guamá 2


Imagem: Scylla Lage Neto

Revendo as fotos da breve viagem à foz do Rio Guamá, com
muita tristeza acabei encontrando, além da paz, o inferno.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Foz do Guamá

Imagem: Scylla Lage Neto

Hoje matei a saudade de uma velha amiga: a foz do Rio Guamá.
E na foz encontrei, além da baía, a paz.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Retiros de sonho







Você não precisa ir para os "estaites" para curtir lugares de sonho.

Aqui mesmo no Brasil. Amazônia do Pará, há lugares como este.

– Mira.

Fotos: Laffayete Nunes e Val-André Mutran. Na Terra do Meio (Marituba-PA) e na Chácara do João (São João do Araguaia-PA).

Esse avuador aí é filho do Major Furtado.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Como o Poraquê pode entrar na sua vida

Imagem: Wikipedia
Os habitantes de nossa região, especialmente os do interior, já o conhecem. Trata-se do Electrophorus electricus, vulgarmente conhecido na região como Poraquê, ou ainda mais conhecido como "peixe elétrico". O Poraquê, segundo a Wikipedia, se molestado, é capaz de gerar de 300 volts a 0,5 ampère até 1500 volts a cerca de 3 ampères! Ou seja, um choque e tanto. Ainda na Wikipedia, matei a curiosidade e descobri que o nome Poraquê, vem da língua tupi, que pode significar "o que faz dormir" ou "o que entorpece". 
Longe de adormecer ou ficar de barato, você pode mesmo morrer se receber as descargas mais elevadas do bicho, que teriam a capacidade de levar para o túmulo um majestoso cavalo. Afinal, o peixe pode chegar a 3 metros de comprimento e pesar cerca de 30 kg. Um verdadeiro cabo de alta tensão. E se levarmos em conta o fato da água ser um ótimo condutor de eletricidade, você inclusive pode nem tomar conhecimento daquilo que o levou para o purgatório. (Hehehe). Basta que esteja próximo ao bicho. Se ele se invocar com você não gostar de sua cara e liberar a sua descarga elétrica, mesmo à alguma distância, poderá no mínimo lhe proporcionar um baita de um susto.
Veja por exemplo, o interessante vídeo abaixo.


Percebam o que acontece quando um modesto Poraquêzinho (com certeza está mais para um Mussum) é abocanhado por um Jacaré de pequeno tamanho (Não é exatamente um "calango". Vamos combinar!). Veja e tire suas conclusões. O vídeo é precioso e pode mesmo ser uma raríssima oportunidade de surpreender um evento natural como esse.

*Nossos agradecimentos ao farmacêutico e magnata dos medicamentos na amazônia Marcos Castello, vulgarmente conhecido na tuitolândia como @Castellito, por compartilhar a preciosa informação.

sábado, 9 de outubro de 2010

Lombra - o licor - antes do Círio

Você conhecem a beberagem, sujestivamente batizada de "Licor do Lombra". Obra e mágica de André Costa Nunes?

Pois muito bem. Se vocês não conhecem.

Vocês não sabem o que estão perdendo.

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-- Mestre André.

Tú é que vai responder o que é o tal licor. Combinado?

Já tá dando porrada aqui em BSB.

Pensa, André, num licor que o povo quer.

A inacreditável Terra do Meio, em Marituba

Fotos: Val-André Mutran & Dgeison Krall van der Buldhangsteel, do Gazz Studio, para o Flanar e Restaurante Terra do Meio - Amazônia - Pará - Brazil

























Um lugar mágico.













Uma comida inigualável!



















Um postulado da sustentabilidade.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Sol do Meio Dia


Quem trabalha com audiovisual sabe que o mais interessante panorama da produção atual no Brasil é feito pela jornalista Maria do Rosário Caetano. Mensalmente, Rosário envia uma newsletter chamada Almanaque (com edições extras, semanais, os Almanakitos). Ela noticia, levanta debates, e interage com leitores de peso como Fernando Meirelles, Selton Melo, Lázaro Ramos, só para citar alguns.
É do Almanaquito que tirei a notícia abaixo:

"Rodado inteiramente no Pará, o terceiro longa-metragem da diretora Eliane Caffé, estréia nesta sexta, 01 de outubro. "Sol do Meio Dia" foi eleito o melhor longa brasileiro pela crítica na Mostra Internacional de Cinema 2009 e os atores foram considerados os melhores do Festival do Rio 2009.
Eliane Caffé, diretora de “Kenoma” e “Narradores de Javé”, já mostrou a peculiaridade da sua obra. Os longas, que conquistaram uma série de prêmios nacionais e internacionais, entre eles, no Festival de Biarritz (França) e Gava (Barcelona), foram filmados em terras esquecidas e contam estórias de uma população mais esquecida ainda desse imenso Brasil.
Eliane conta a história de Artur (Luiz Carlos Vasconcelos), Matuim (Chico Diaz) e Ciara (Claudia Assunção). Após o trágico desenlace de um crime passional, Artur parte das profundezas do Brasil para uma viagem em busca de sua redenção. No início da jornada ele conhece e une-se a Matuim, dono de uma velha embarcação cuja alma burlesca e anárquica contrasta com a sua criando uma amizade de situações tensas e cômicas. A viagem rio abaixo termina de forma abrupta e ambos seguem juntos por terra. Nesse momento surge Ciara, uma mulher que também parte do seu destino de origem e segue em direção a Belém. Agora, os três se unem num triângulo amoroso que acaba por trazer à tona o fantasma do crime passional e os segredos e conflitos de cada um deles.
Rodado integralmente no Pará, O Sol do Meio Dia teve cenas captadas nos municípios de Belém, Castanhal, Vila Trindade, Vila Pernambuco e Rios. O longa esteve na Première Brasil (Festival do Rio) do ano passado e conquistou o prêmio de melhor atuação masculina para sua dupla de protagonistas: Chico Diaz e Luiz Carlos Vasconcelos. Na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo , no mesmo ano, levou o prêmio da crítica.
Esse novo trabalho de Eliane Caffé tem a fotografia assinada por Pedro Farkas. Atuante no mercado desde os anos 80, assinou a fotografia de “Índia, a Filha do Sol”, de Fabio Barreto e “A Marvada Carne”, de Andre Klotzel e também dos recentes “Os Desafinados”, de Lima Jr. e “o Menino da Porteira”, de Jeremias Moreira Filho, entre tantos outros. A direção de arte é de Adrian Cooper. Nascido na Inglaterra, vive no Brasil desde 1975; também é diretor de fotografia e tem no currículo, entre documentário e ficção, longas de Eduardo Coutinho (“O Fio da Memória”), Ricardo Dias (“Fé” e “No Rio das Amazonas”), Lauro Escorel (“Sonho sem Fim”) e Roberto Moreira (“Contra Todos”). A produção é de Van Fresnot, responsável pela produção executiva de “Castelo Rá- Tim-Bum” ( Cao Hamburger ), “Desmundo” e “Ed Mort”, ambos de Alain Fresnot, “De Passagem” e “Os 12 Trabalhos”, ambos de Ricardo Elias e “Kenoma”, primeiro longa de Caffé.
O Sol do Meio Dia será lançado em 01 de outubro, pela Pandora Filmes, em São Paulo , Rio, Belém, Belo Horizonte e Brasília.
Ficha Técnica -- Brasil, 106 minutos
Ficção, 35 mm , Som Dolby Digital, Colorido
Direção: Eliane Caffé
Produção: Van Fresnot
Produção Executiva: Sonia Hamburger
Roteiro: Eliane Caffé e Luiz Alberto de Abreu
Direção de Fotografia: Pedro Farkas
Direção de Arte: Adrian Cooper
Montagem: André Finotti
Figurinista: Marjorie Gueller
Primeira Assistente de Direção: Kity Feo
Produção de Elenco Principal: Fernando Cardoso de Sá
Produção de Elenco no Pará: Cláudio Barros e Zê Charone
Produção de Elenco: Cláudio Barros
Produção de Locação: Caíto Martins
Elenco principal
Luiz Carlos Vasconcelos
Chico Diaz
Cláudia Assunção
Ary Fontoura"