domingo, 1 de novembro de 2026

A saga da cirurgia torácica no Brasil

    Roger Normando 

Wolfgang Aguiar

    A caudalosa história da medicina deixou um rastro no arco de sua existência em que a cirurgia torácica desempenhou um papel fundamental para a consolidação da modernidade. Essa trajetória em nenhuma momento transparece com tão límpida tonalidade, mas foi marcada por grandes superações e momentos dramáticos.  No Brasil, o cenário não divergiu: o país acompanhou de perto os passos pioneiros que ressoaram pelo mundo.

    Passado a completa compreensão e domínio do pneumotórax, convergindo para as ressecções pulmonares, outras importantes conquistas da especialidade ocorreram no Brasil, logo após a segunda guerra mundial. 

    Portanto, se o nascimento da especialidade no Brasil foi banhado pelas águas de um mar revolto, não existe gratificação maior que olhar para a ancoragem do passado e constatar que cada passo foi útil à coletividade.

    Para melhor compreender a saga dessa história, optamos por dividir didaticamente este capítulo em períodos, para que se possa compreendê-lo de forma didática. 

1. Primeiro período - Raízes e limitações da medicina colonial

    A arte de curar no Brasil começou com a corte portuguesa, que trouxe pelo Atlântico seus médicos conhecidos como físicos e cirurgiões. Esse momento inicial da história da cirurgia brasileira estende-se do século XVI ao XIX. Foi quando a cirurgia mundial também ensaiava seus primeiros passos e o compartimento torácico era restrito a operações pleurais e parietais ainda rudimentares, tendo em vista que alguns conceitos sobre metabolismo, infecção e anestesiologia, bases do conhecimento em cirurgia, ainda eram rudimentares.

    As bases do conhecimento de anatomia e fisiologia chegavam de forma bastante lenta ao Brasil. Havia raízes na filosofia humoral de Hipócrates e nos preceitos anatômicos de Galeno, acrescida dos princípios cicatrização de Ambroise Parè, participante e observador da cicatrização dos ferimentos em batalhas francesas.

    A arte médico-cirúrgica fora transplantada para o Brasil após manipulação, revolvimento, sedimentação ou até mesmo estagnação nos recantos das escolas ibéricas. Nos EUA, numa época mais próxima, a clínica, a patologia, a cirurgia, a assistência hospitalar, enfim, os diversos ramos em que dividia a medicina, revelaram no pensamento, seja na teoria ou na prática, muita inspiração.

    Nas terras de Santa Cruz, a arte médica sofreu a influência e as limitações do ambiente escravocrata e indigenista, assim como da insuficiência material aliadas às deficiências de formação e cultura dos profissionais. O interesse do seu estudo histórico residiu no desvendamento dos rumos aqui tomados e das restrições que impressionaram, deformaram e, em muitos pontos, apequenaram nosso começo.

    Já amesquinhada e apoucada num meio obscurantista e ainda imerso no medievalismo europeu, acrescida da cultura indígena e africana, permaneceu fechada por séculos ao próprio renascentismo. A Medicina trazida para o Brasil aqui estacionou - e até regrediu em numerosos setores. Os profissionais começaram a melhorar apenas com os conhecimentos adquiridos nas escolas médicas, a partir do século XVIII, com a criação das faculdades de medicina na Bahia e Rio de Janeiro. Recursos técnicos, táticos, material apropriado e medicamentos tiveram que se ajustar às precárias condições ambientes, lançando mão dos recursos da terra, ao manejo dos quais não estavam afeitos.

    Possuidores de elementos científico-culturais que iam sendo ultrapassados à medida que decorria o tempo, vivendo em uma sociedade onde os maiores entraves tolhiam o desenvolvimento intelectual, os profissionais jazeram na mais completa ignorância das notáveis descobertas que em todos os campos científicos se processavam na Europa. E o resultado foi o abastardamento da medicina no Brasil, que se mesclou de superstições, de práticas absurdas, disparatadas, além de encaminhar-se para um empirismo içado em crendices populares. A ciência e a arte médico-cirúrgica aqui se deturparam ainda mais em decorrência do meio rude e das condições sócio-econômicas adversas.

    Fundir herança filogenética e cultural entre indígenas, africanos e o novo gênero europeu acabou por gerar algo antropológico que nunca ocorreu. Foi nessa a aventura brasileira que se iniciou a raiz da criação da cirurgia brasileira.

 

2. Segundo período - Do saber europeu às primeiras escolas médicas no Brasil

    Em escala evolucionista, o segundo período surge a partir do século XVIII, quando se iniciam as viagens de brasileiros para Europa - com fins de estudos e descobertas - que irá proporcionar à medicina local o cunho científico inicial, contrapondo-se à medicina mal aplicada pela generalidade dos profissionais trasladados para o meio hostil brasileiro e praticada por indivíduos mal preparados, ignorantes, de índole aventureira, desafeiçoados aos estudos, dado que para nossas terras não vieram médicos de saber, de cultura, e muito menos professores ou pesquisadores.

    As investigações e pesquisas europeias não se efetuaram com facilidade nos centros ibéricos, destacando-se Salamanca e Coimbra, onde justamente estudaram os físicos e cirurgiões que até fins do século XVIII exerceram a profissão no Brasil. Perseverantes, alguns brasileiros partem para rotas alternativas, principalmente a França, em busca de reconhecimento e fontes alternativas confiáveis para ampliar o saber clínico e cirúrgico.

    Em se tratando do panorama geral, desde o primeiro período, a medicina, assim como a cirurgia, não se orientaram por teorias ou por princípios enunciados à época. Mas se alguém tentasse vislumbrar alguma escola, alguma concepção doutrinária da medicina aqui exercida, essa poderia ser somente uma escola “clínica”, de observação imediata, instantânea, junto ao paciente, dos sintomas por ele apresentados. Seria, então, uma escola sem discípulos, individual, ilhada, afinando-se com o mestre, impotente na ocasião, para transmitir seu sistema - um conjunto de perspicácia e intuição na interpretação da sintomatologia clínica. Nesse sentido, portanto, são esses os pontos cardeais e básicos críticos da medicina da época.

    Ao longo desse arco inicial de convivência, como se não bastasse, físicos e cirurgiões ainda sofreram a concorrência dos não habilitados, ou seja, dos práticos, designados por uma vasta sinonímia: curandeiros, curadores, entendidos e curiosos. Nesta categoria encontram-se os jesuítas, pajés, boticários, enfermeiros e barbeiros. Em igual intensidade, isso travava o crescimento da medicina científica por aqui.

    Outro importante ponto na escala evolucionista ocorre na Corte do Rio de Janeiro, durante o século XIX. Foi a criação, em 1808, das Escola de Cirurgia da Bahia e a Escola Anatômica, Cirúrgica e Médica no Rio de Janeiro, que ganhou um plano de estudos em 1813, passando a ser conhecida como Academia Médico-Cirúrgica. Em 1832, a partir de um plano proposto pela Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, as academias foram transformadas em Faculdades de Medicina do Rio de Janeiro e da Bahia, surgindo, a partir de então, os primeiros cirurgiões nativos, que teriam os conhecimentos necessários para diagnosticar e tratar moléstias internas. Neste período já há relatos de enfermidades torácicas e suas condutas terapêuticas, representando o sopro das primeiras atividades clínicas e associativas, em meio à criação das academias.

   A  criação das faculdades não têm relação direta com a chegada de estudantes do exterior. As instituições foram criadas à imagem e semelhança do modelo acadêmico europeu (influenciado pela medicina francesa e pelas reformas napoleônicas), buscando transplantar o saber científico de fora para o solo brasileiro. Os primeiros professores e diretores eram, em grande parte, médicos europeus ou formados na Universidade de Coimbra.

    O pensamento em criar instituições locais já tinha, dessa forma, dado seu ponta-pé inicial a partir das atividades acadêmicas com a chegada da Família Real, mas os recurso humanos  precisariam ser oficializados, por isso, havia a necessidade de realizar exames para avaliar a capacidade do candidato de exercer a “arte”, a fim de obter autorização para exercerem suas atividades.

Os exames de aprovação a que esses cirurgiões seriam submetidos versavam sobre o conhecimento e a cura das moléstias agudas e crônicas, prognóstico e medicamentos indicados. Após esta etapa uma segunda luta apenas começava: a de coibir o crescimento de curandeiros e combater o charlatanismo, que vinha de outrora.

Num dos exames, datado de 1812, o quadro de pleuris é descrito e o candidato responde...

Um sujeito de idade de 30 anos, forte bem constituído, gozava perfeita saúde, até que repentinamente expondo-se ao ar se sente com febre, pulso longo e forte, secura de língua, acessos de calor, dor no lado direito do peito, dificuldade de respirar, urina [?], e pele seca.

Qual é a moléstia do dito sujeito? Que remédios se devem aplicar? Resposta: “É um pleuris. Deve ser sangrado no braço do mesmo lado da dor, e depois das sangrias necessárias deitar-se um vesicatório em cima da mesma portada, e por-se-há o doente em uso de cozimento antipleuris, e na falta de não haver pode se remediar com os purgantes antiflogísticos”. [...]“Dieta enquanto tiver febre não deve senão tomar de duas em duas horas uma xícara de caldo de galinha, e tomará de  cozimento antipleuritico duas vezes ao dia”

A resposta de João da Silva, médico, não satisfez o delegado do físico-mor, que o reprovou e concedeu um ano para ser novamente examinado. O candidato retornou a sua Macaé para prestar novo teste no ano seguinte. Via-se, com isso, a busca de regularizar a atividade cirúrgica.

 

3. Terceiro período - A conquista do espaço pleural e o nascimento da Cirurgia Torácica 

Ainda no século XIX, um terceiro período evolucionista se assenta ainda sob expectativas. É o período embrionário transicional para o surgimento do sopro inicial da especialidade. Ele é compreendido pela consolidação das bases da técnica operatória cujo desenvolvimento e crescimento da cirurgia basearam-se no controle da hemorragia, principalmente com novos recursos técnicos; o conhecimento do controle de infecção, a assepsia e a anti-sepsia; e o controle da anestesia, que ofereceu uma possibilidade imensa para o maior alcance das intervenções cirúrgicas torácicas.

Portanto, esses foram os principais progressos para o nascimento da cirurgia torácica como especialidade:

1° -Narcose com entubação traqueal e respiração controlada: note-se que a anestesiologia até então não se constituíra em especialidade médica e que o curare e seus derivados só anos mais tarde foram utilizados como relaxantes musculares.

2º -Transfusão de sangue conservado: não havia Bancos de Sangue e as transfusões se faziam diretamente, braço a braço, de doador a receptor.

3.º Antibióticos: Fleming não descobrira ainda a penicilina como agente antibacteriano, apenas a sulfanilamida era conhecida.

    Foi uma era ainda silenciosa para a gestação da cirurgia torácica brasileira, pois a gênese estavam ocorrendo entre os EUA, Canadá e toda Europa, tendo como mira a cura da tuberculose e o controle do pneumotórax - exatamente nessa ordem cronológica. Neste período, alguns brasileiros "cirurgiões práticos" saíram para aprender sobre essa nova especialidade, assim como receber a visita de diversos estrangeiros de renomes.

       Compreendendo a reexpansão pulmonar, assim como o controle da ventilação, estava assim instalado o sonho dourado que animava os ambiciosos precursores da Cirurgia do Tórax brasileira que constituía aspiração quimérica para a época. Época em que os cirurgiões ousavam em ir além das costelas, que antes se esbarravam na peculiaridade anatomofuncional do vazio pleural, causa do intransponível e obstáculo mecânico plantado no caminho do progresso da cirurgia. 

 Para que se possa compreender melhor o período e, por assim dizer, a saga dessa especialidade, vale citar o desabafo de Howard Lillienthal em seu livro (1925), que não se lembrava de haver salvo um só de seus pacientes cuja operação tivesse durado mais de 45 minutos.    

 Por isso, a história da Cirurgia Torácica confunde-se, em larga medida, com a história dos artifícios técnicos da ventilação mecânica e os novos conceitos sobre a drenagem para superar o colapso pulmonar, isto é, os riscos do pneumotórax aberto.

    Antes de Zerbini e Lilllienthal, vários métodos foram tentados para superar o vazio pleural, que só veio se consolidar em 1916, tendo como ponto de partida o lúcido trabalho que o cirurgião sueco Giertz, mestre e antecessor de Crafoord. Ele propôs a anestesia sob pressão intermitente e a insuflação rítmica, ou seja, uma forma de ventilação artificial controlada capaz de garantir, durante a toracotomia, as trocas gasosas indispensáveis à vida. O trabalho original de Giertz, escrito em sueco, em plena guerra, não logrou a merecida divulgação, só vindo a ser conhecido e apreciado quando Crafoord publicou, em inglês, no ano de 1938, em sua clássica monografia "On the Technique of Pneumonectomy in Man". Graças a um protótipo de respirador - o Spíropulsator -, a insuflação rítmica dos pulmões pôde então obter-se mecanicamente após narcose profunda e apnéia por hiperventilação, com absorção de gás carbônico num filtro de cal sodada. A visita do grande cirurgião de Estocolmo e da sua equipe ao Brasil, em 1950, através de memoráveis demonstrações operatórias em São Paulo e no Hospital dos Servidores do Estado, no Rio de Janeiro, estimulou o rápido desenvolvimento da Cirurgia Torácica e da Anestesiologia entre os brasileiros. Em pouco tempo tornaram-se especialidades autônomas. 

    Mercê desse e de outros progressos multidisciplinares na anestesia, na técnica operatória, na recuperação dos operados e no combate à infecção, a cirurgia endotorácica viu raiar sua aurora. Um novo ramo desprendeu-se, em consequência, do frondoso tronco da cirurgia geral e alcançou a individualidade própria, graças ao domínio do pneumotórax.

    Neste período, Augusto Paulino Soares de Sousa, que se formou em medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1899, apresentou a tese intitulada “cirurgia da pleura e do pulmão”. Decerto foi o primeiro cirurgião brasileiro voltado para o pensamento acadêmico na cirurgia torácica. Era trabalho oriundo integralmente de um brasileiro, tendo todo seu saber acumulado aqui, sem nunca ter saído do país. Ele era pai de Fernando Paulino, um dos precursores da cirurgia torácica no Rio de Janeiro na era do domínio do pneumotórax durante a anestesia. O filho buscou aperfeiçoamento em cirurgia torácica nos EUA e Argentina, por estímulo de seu pai Augusto, Catedrático de Clínica Cirúrgica da Faculdade de Medicina da então Universidade do Brasil e chefe da 15ª Enfermaria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro.  Fernando, em sua caminhada pela cirurgia torácica,  tornou-se um dos vultos de nossa história.

 

4. Quarto período - o esplendor da especialidade

    Já no início do século XX existia o cirurgião que, de forma abrangente, realizava os chamados procedimentos operatórios cujo desenvolvimento científico ganha expediente e a clara necessidade do emprego de técnicas especiais. Esse diapazão proporciona o surgimento de especialistas, sendo a oftalmologia e a otorrinolaringologia as primeiras. A seguir se definiram os ortopedistas e urologistas, para mais tarde, nos idos de 1950 as outras especialidades, entre as quais a cirurgia torácica, assim como a neurocirurgia e a cirurgia plástica. Nesta década ocorreu também o advento da cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea e depois com o coração parado. Com efeito, cirurgia cardíaca e torácica tornaram-se irmãs gemelares e caminharam juntas em seus inícios. A cardiotorácica era descendente da cirurgia geral e viam no tórax possibilidades de adaptação e crescimento.

Ato I - a cirurgia extra-pulmonar

    No Brasil, aos dias incertos de 1940, ainda sob o pendor da anestesiologia em fase embrionária, quando o povo brasileiro ainda padecia das tormentosas e duras condições de vida impostas pelo sangrento conflito armado entre as grandes potências mundiais, a cirurgia torácica dá os primeiros passos como especialidade no Brasil, em paralelo com as as idéias do velho continente, assim como Canadá e EUA. Nesse tempo restringia-se a intervenções parietais para tratamento da tuberculose pulmonar (operações de colapso), do empiema pleural ou do abscesso pulmonar (operações de drenagem), tentando acompanhar o que ocorria em outros países do ocidente.

    O passo inicial de alguns cirurgiões gerais foi bem organizado pelo Colégio Brasileiro de Cirurgiões, fundado em 1929. De lá alguns já se destacavam para se tornarem especialistas, e começavam a frequentar sanatórios.

    Àquela altura, ainda não se contava com os três elementos básicos da terceira fase, indispensáveis à realização bem sucedida de uma toracotomia. Todavia, a anestesia geral sob narcose com entubação e ventilação controlada, ainda em plena aurora, fazia destacar as operações pleurais e parietais voltadas para as doenças infecciosas. Foi a tuberculose a de maior prevalência, gerando os primeiros tisiocirurgiões.

    Além das intervenções que promoviam o colapso pulmonar, baseadas na genial criação de Forlanini (pneumotórax artificial — 1882), depois representadas pelas plumbagens e frenicectomias, além das toracoplastias idealizadas pelo alemão Ferdinand Sauerbruch, surgiram procedimentos visando à abordagem direta da caverna tuberculosa (cavernostomias), em suas variadas técnicas (Bernou, Maurer, Eloesser) e a drenagem-aspiração de Monaldi.

    Com esplendor da cirurgia da tuberculose nos países acima da linha do equador, diversos brasileiros que se destacaram na cirurgia geral partiram para o hemisfério norte e trouxeram para o Brasil o que aprenderam em suas incursões, sempre com o mesmo objetivo: ampliar conhecimentos e trazer a técnica operatória. Seria, todavia, natural que ocorresse um atraso na emancipação da especialidade e na conseqüente independência da cirurgia geral. Outro país que recebeu alguns brasileiros foi a Argentina de Enrique Finochietto, o mesmo criador do afastador intercostal.

    No Brasil, após a convivência com europeus e norte-americanos, diversos polos de cirurgia torácica foram surgindo. Em São Paulo, em 1934, as enfermarias do Departamento de Cirurgia estavam instaladas na Santa Casa de Misericórdia, era chefiada por Alipio Correa Neto, cirurgião geral de vasto conhecimento que estimulou dois de seus assistentes, Eurycledes de Jesus Zerbini e Eduardo Etzel, a tornaram-se os primeiros cirurgiões a se dedicarem às doenças torácicas. Em 1939 houve transferência das enfermarias para o Hospital de Clínicas e Zerbini foi nomeado chefe da disciplina de Cirurgia Torácica.  A especialidade era voltada exclusivamente para a cirurgia da tuberculose.

    Tal era o estado da arte que a colapsoterapia cirúrgica da tuberculose era praticada, no imenso e tradicional estabelecimento para moléstias contagiosas, por cirurgiões gerais. Destacavam-se no Rio de Janeiro Azambuja Lacerda e Ugo Pinheiro Guimarães. Estes dois cirurgiões acabaram acolhendo outros para seguirem seus passos, destacando-se o jovem Jesse Teixeira, ainda no inicio da década de 1940.

    Em 1943, em plena guerra, Zerbini viaja para os EUA e Inglaterra para procurar entender como a cirurgia torácica evoluía nesses grandes centros. Adib Jatene, seu conhecido assistente, ainda muito jovem, relatou que aquele momento foi uma “oportunidade fantástica” e que certamente mudaria os rumos da cirurgia torácica no Brasil.

    Relato pitoresco foi dado por Zerbini, acerca do pneumotórax, na volta dos EUA (1954). Ele anunciara a descoberta de um sistema fantástico no progresso da toracotomia: a drenagem pleural fechada. Colocava-se o frasco num selo d’água, rés ao chão, havendo a coleta de líquido por uma conexão com o dreno e uma outra para a saída de ar, sob nível líquido, sem retornar para o tórax, para manter o pulmão armado.

   Outro relato pitoresco é o de Fernando Paulino em um dos capítulos do livro "Lições de Clínica Cirúrgica", de 1946, organizado por seu pai, Augusto Paulino, após lobectomias: "a drenagem da cavidade era realizada com uma sonda de Pezzer [...] ligada por um tubo de borracha a dispositivo de aspiração contínua a baixa pressão." Ou seja, sem selo d'água.

    Dentre os cirurgiões que saíram do Brasil, além de Zerbini, seu companheiro Eduardo Etzel (EUA) e Fernando Paulino (EUA e Argentina, com Finochietto). Jorge de Moraes Grey esteve no Canadá, EUA, Suécia, Inglaterra e França. Grey trouxe ao Brasil cirurgiões estrangeiros, entre eles destaca-se Sir Clement Price Thomas, um dos expoentes ingleses que desenvolvera as lobectomias com dissecção do hilo.   

    Outros tisiocirurgiões brasileiros, em diferentes centros, também se dedicaram, com interesse e pioneirismo, a esse tipo de cirurgia reunindo apreciável acervo de experiência no tema. Além de Jesse Teixeira, Aresky Amorim, J. M. Castelo Branco, Mario Pardal, Otávio Marques Lisboa, Rodolfo Figueira de Melo, Ugo Pinheiro Guimarães no Rio de Janeiro. Alberto Chap-Chap, Rubens Monteiro de Arruda, Gabriel M. Botelho, Radyr de Queiroz, Ruy Doria (S. Paulo), Bayard Gontijo (Belo Horizonte), Augusto Maria Sisson, Otacílio Rosa e Adolfo Josetti (Porto Alegre). Joaquim Cavalcanti, de Recife, é citado como o primeiro fora do eixo sul-sudeste.

    A merecida homenagem que se pode tributar a esses inesquecíveis pioneiros consiste em reconhecer que quase todos, senão todos, direta ou indiretamente, beneficiaram o crescimento da especialidade por suas marcantes influências e contribuições clínicas.

    Os atos cirúrgicos deste período revelavam-se bem pouco exigentes em termos de recursos técnicos e humanos. A anestesia Iocorregional infiltrativa, de que se encarregava o próprio cirurgião, era a regra, até o amadurecimento da anestesiologia. Havia bons resultados com a anestesia extradural alta, feita pelos próprios cirurgiões. Ao lado das intervenções menores, como a pneumólise intra-pleural endoscópica (operação de Jacoboeus), as operações sobre o nervo frênico e as de drenagem pleural ou pulmonar, alinhavam-se as de grande porte, como a pneumólise extrapleural e a toracoplastia. A toracoplastia configurava a operação de maior vulto, a mais sangrenta, sendo a retirada da primeira costela considerada, geralmente, como uma difícil façanha técnica. Para reduzir as perdas hemorrágicas e os riscos da respiração paradoxal decorrente da instabilidade parietal e do balanço mediastínico, a toracoplastia devia ser fragmentada em vários tempos operatórios, conforme preconizavam cirurgiões europeus. O resultados tardios mostraram-se mais compensadores que os de outros métodos do colapso, proporcionando elevada incidência de fechamentos de caverna.

Não podiam ser desprezados, entretanto, os principais inconvenientes: a persistência de fendas cavitárias incolapsáveis e a grave deformidade do tronco causada pela escoliose toracógena, capaz de repercurtir seriamente nas esferas funcional e psicológica. Muitos acreditavam que essa espécie de “desossamento torácico” deu à velha idéia da retirada cirúrgica do foco da doença, ou seja, a ressecção pulmonar na tuberculose, nunca se apartaria do pensamento dos tisiocirurgiões. Era a realidade no pós-guerra.

A contribuição do Hospital Santa Maria ao desenvolvimento e ao ensino da Cirurgia Torácica no Rio de Janeiro foi de valor inestimável, reproduzindo, aliás, o relevante papel desempenhado, nesse particular, pelos grandes Sanatórios de Tuberculose, à frente dos quais o renomado Hospital do Mandaqui, em São Paulo, e alguns outros no interior, destacando-se o de Campos do Jordão e o de São José dos Campos, onde Eduardo Etzel se destacou após longa convivência com Zerbini.

Ato II - o nascimento das ressecções pulmonares

    A partir de 1946, o advento dos antibióticos provocou mudanças consideráveis no campo das doenças torácicas, por vezes de caráter ambivalente. A cirurgia, tornada mais segura pelo controle da infecção, avançou no emprego de novas e mais audaciosas técnicas operatórias. Por outro lado, o impacto dos antibióticos sobre a fisionomia mórbida de certas doenças bacterianas, como as supurações broncopulmonares, fez quase desaparecer a necessidade do tratamento cirúrgico tradicionalmente adotado. O abscesso pulmonar agudo deixou de constituir indicação habitual de pneumotomia, passando a ser tratado por métodos incruentos, conservadores.

    Com o passar do tempo, verificou-se também uma notável restrição na frequência das bronquiectasias, explicada pelo efeito decorrente do tratamento adequado das infecções pulmonares agudas, sobretudo na infância. A experiência adquirida na colapsoterapia e os avanços verificados nos meios de diagnóstico e tratamento, bem como na própria estrutura dos hospitais, encorajaram os cirurgiões no sentido de alcançar a grande meta, longamente pretendida: a da ressecção pulmonar. Antes da quimioterapia específica, a cirurgia da tuberculose continuava voltada para o fechamento das cavernas através do colapso ou da drenagem cavitária. Não se podia ainda, por isso, cogitar de ressecção pulmonar na tuberculose.

    Apesar do início do controle medicamentoso da atividade do Bacilo de Koch, passou-se ocorrer a realização intensiva de ressecções pulmonares na tuberculose. Os cirurgiões brasileiros puderam assim adestrar-se amplamente na técnica da exérese pulmonar com a dissecção do hilo, ao serem contemplados com esse manancial de pacientes encaminhados à cirurgia, que parecia inesgotável. Paralelamente ao aumento crescente da experiência em operações intratorácicas, ocorria o rápido ocaso da colapsoterapia, denunciando o fim da era forlaniniana, que já durara meio século.

    Ainda no decênio de 1950, dois acontecimentos ocorreram dando destino à nova especialidade: a cura da tuberculose pela quimioterapia e o advento da Cirurgia Cardíaca sob visão direta, tornada possível graças à fabulosa descoberta da circulação extracorpórea, além do domínio do pneumotórax e da anestesia com entubação e ventilação.

    Um dos brilhantes cirurgiões torácicos da época, Eduardo Etzel, questiona-se acerca do futuro da cirurgia torácica ante a chegada da quimioterapia da tuberculose, conforme anunciou em seu livro autobiográfico “Um médico do século XX vivendo transformações”. Receoso pelo fim da tísica, ele abandona a especialidade e passa a exercer a psiquiatria como forma de seguir vivo na profissão.

    Esse período de crise existencialista é suprimido de forma objetiva até o início da efetividade clínica do tratamento medicamentoso para tuberculose. Outras afecções, todavia, como o câncer pulmonar, as supurações broncopulmonares crônicas e certas formas incolapsáveis da própria tuberculose (tuberculoma, broncostenose, pulmão destruído), refletindo as sequelas da tuberculose, teriam como única opção terapêutica a exérese parcial ou total do pulmão afetado. Tais abordagens cirúrgicas sustentaram a especialidade. O câncer de pulmão foi uma delas, após aperfeiçoamento da técnica operatória diante das doenças inflamatórias e dos conhecimentos na área de medicina intensiva e da pneumologia.

    A prova deste fato são os diversos cirurgiões nacionais responsáveis pelas primeiras séries relatadas de ressecções pulmonares por câncer brônquico, a partir de 1946: E. J. Zerbini, G.M. Botelho, de São Paulo e Fernando Paulino e Jesse Teixeira, do Rio de Janeiro.


ATO III - ressecções no câncer de pulmão

    Nesse contexto, após a chegada do tratamento farmacológico da tuberculose, as doenças neoplásicas passam a ser o grande desafio dos cirurgiões torácicas, advindas após a primeira ressecção radical de um câncer de pulmão — pneumonectomia — realizada em 1933, por Evarts Graham. Durante três décadas, essa abordagem agressiva foi o "padrão-ouro" cirúrgico para o câncer de pulmão, independentemente do tamanho ou da localização da lesão. Em 1939, Ochsner e DeBakey afirmaram: “A realização de uma lobectomia simples em casos de carcinoma pulmonar é tão ilógica quanto a remoção parcial da mama em um carcinoma mamário, sem a tentativa de extirpação dos linfonodos regionais. A pneumonectomia total, é um procedimento muito mais cirúrgico e anatômico do que a lobectomia. Esta última consiste, na melhor das hipóteses, em uma operação mais ou menos improvisada”. Apesar de semanticamente inadequada, "pneumonectomia total" referia-se à linfadenectomia mediastinal radical.

    Essa afirmativa doura um período marcante da cirurgia de um modo geral, conhecida como a era halstediana, alinhada ao pensamento de William Halsted. Contudo, em 1962, Shimkin et al. publicaram um estudo comparando ambas as abordagens, associando a pneumonectomia a uma taxa mais elevada de complicações em comparação com a lobectomia, incluindo insuficiência respiratória e óbito. Como resultado, a lobectomia tornou-se o padrão-ouro para o tratamento do câncer de pulmão e passa a ser o marco consolidativo da especialidade.

    No Brasil, dados sobre a cirurgia do câncer de pulmão integram o relatório oficial do 1º Congresso Brasileiro de Doenças Torácicas, reunido em Curitiba (novembro de 1953) e intitulado "Câncer do Pulmão (Incluindo Aspectos do Problema no Brasil)“, apresentado por Jesse Teixeira. Da análise dessas primeiras 93 operações pulmonares por câncer, depreendem-se três informações de interesse histórico e que refletem, com fidelidade, as primícias da experiência nacional nessa área:

Dados da experiência brasileira inicial na cirurgia do câncer pulmonar, detalhando o número de procedimentos e a mortalidade operatória (M.O) por cirurgião entre 1946 e 1953:

Procedimento

E. J. Zerbini(SP, 1946–1951)

Gabriel M. Botelho(SP, até 1951)**

Fernando Paulino(RJ, 1948–1952)**

Jesse Teixeira(RJ, 1947–1953)**

M.O. Total (%)

 

 

 

 

 

 

Toracotomias (40,0%)

17 (M.O. 21,4%)

3 (M.O. 0,0%)

3

(M.O. 0,0%)

15 (M.O. 6,7%)

15,0%

 

 

 

 

 

 

Pneumonectomias (89,0%)

17 (M.O. 29,4%)

6 (M.O. 66,6%)

16 (M.O. 12,5%)

10 (M.O. 10,0%)

30,0%

Lobectomias (11,0%)

—

—

2 (M.O. 0,0%)

4 (M.O. 25,0%)

16,0%

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Legenda: N.º = Número de intervenções; M.O. = Mortalidade Operatória (%).

Destaques:

· Pneumonectomias: Representam o procedimento de maior volume (89%) e risco no período, registrando a maior taxa média de mortalidade operatória (30,0%).

· Experiência em São Paulo: E. J. Zerbini conduziu o maior número de casos na capital paulista (17 toracotomias e 17 pneumonectomias), enquanto Gabriel M. Botelho registrou 66,6% de mortalidade operatória nas pneumonectomias (6 casos).

· Experiência no Rio de Janeiro: Fernando Paulino obteve mortalidade nula em toracotomias e lobectomias e 12,5% em pneumonectomias. Jesse Teixeira obteve a menor mortalidade em pneumonectomias (10,0% em 10 procedimentos).

· Médias Globais: As toracotomias tiveram uma mortalidade geral de 15,0%, e as lobectomias registraram 16,0%.

· Número excessivo de toracotomias exploradoras (40 por cento)

· Elevada mortalidade operatória, assim distribuída: toracotomias exploradoras (15%), pneumonectomias (30%) e lobectomias (16%).

    Esses resultados atestam o notável trabalho dos cirurgiões brasileiros a partir da década de 1940, durante a qual os alicerces da Cirurgia Torácica Brasileira foram solidamente plantadas com a chegada da ressecção pulmonar a partir da tisiocirurgia.

    No limiar de 1950, estava terminada a fase preparatória que pavimentou o caminho para a admissão da Cirurgia do Tórax no elenco das especialidades médicas brasileiras. Todas as estruturas anatômicas envolvidas pelo arcabouço estavam agora aptas à abordagem do cirurgião - incluindo o coração. A confiança na toracotomia firmara-se pela coexistência de três condições essenciais: anestesia com respiração controlada, transfusão de sangue conservado e cobertura antibiótica.

    O Colégio Brasileiro de Cirurgiões passa a ser ponto desafiante para constituir, de forma associativa, a especialidade. Alguns cirurgiões compuseram o departamento de cirurgia torácica na década de 1950. Logo em janeiro de 1952, Jesse Teixeira candidatara-se a Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (TCBC), tendo sido o integrante o primeiro da recém-criada seção de Cirurgia Torácica, juntamente com os destacados Eduardo Etzel, Eurycledes Zerbini, Aresky Amorim (chegou a ser vice-presidente), Julio Sanderson Quiroz, Eudorico Rocha Junior e Josias de Freitas. O novo departamento viu-se assim sacramentado nas águas lustrais do órgão máximo da cirurgia nacional. A monografia que então redigiu intitulava-se “Ressecções pulmonares - a propósito de uma série de 38 casos consecutivos" e a sua posição na diretoria foi, por muitos anos, a de bibliotecário.

    Em sua tese, em que adota a nova técnica anestésica preconizada pelo J.J. Cabral de Almeida, valoroso inventor do primeiro aparelho de respiração artificial concebido e fabricado no Brasil – o pulmoventilador. Tratava-se de um respirador crono-volumétrico de desenho original e excelente desempenho técnico, construído antes de seu mais próximo congênere estrangeiro - respirador de Engstrom. Outro ventilador brasileiro que grangeou larga popularidade, amplamente usado em cirurgia do tórax, foi o Takaoka, desenvolvido em São Paulo por Kentaro Takaoka, que cicla por pressão, mediante fluxo contínuo de oxigênio. Os dois aparelhos, os dois criadores representam marco importante neste caminho da história.

    Logo em seguida Teixeira tornara-se o primeiro presidente do CBC procedente da cirurgia torácica, passando a especialidade ser vista, definitivamente, com denso olhar associativo e a casa dos cirurgiões torácicos da época, antes da criação do departamento de cirurgia torácica da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, tendo como líderes Jesse Teixeira, Eduardo Etzel, Eurycledes de Jesus Zerbini e, posteriormente, figuras como Vicente Forte, que liderou a transição e se tornou o primeiro presidente da SBCT, emancipada em 1997.

    Num tributo de justiça, vale realçar o extraordinário papel que a chamada peste branca desempenhou na história da Cirurgia Cardiotorácica, nascida e criada nos Sanatórios de Tuberculose. Entre os mais antigos fundadores da Cirurgia Cardíaca seria difícil encontrar um que não tenha sido forjado na prática das operações de colapso e de ressecção em indivíduos tuberculosos. O grande o exemplo vem de Zerbini, grande nome da cirurgia cardíaca brasileira, que escreveu sua tese sobre Pneumotórax Extrapleural, em 1941.

    Mesmo desfalcada da parte cardiovascular e com a chegada da quimioterapia da tuberculose, a Cirurgia Torácica seguiu em busca de um território nosológico mais amplo e, com efeito, rica e variada a patologia cirúrgica que lhe concerne na parede torácica, incluindo as regiões fronteiriças, como abertura superior, que aproxima do pescoço e deixa as vias aéreas como campo de atuação, e o diafragma, que a separa do abdome; a pleura; os pulmões, com o câncer de pulmão em plena fase de ampliação do conhecimento; árvore traqueobrônquica, com estudo principalmente das estenoses cicatriciais em sua extensão para o pescoço; o mediastino contendo a rede linfática, albergando diversos tumores, o timo, marcado pela Miastenia Gravis, e ainda pericárdio, esôfago e os elementos vasculares e nervosos.

    A cirurgia dessas estruturas tem fundamentos anatômicos, fisiopatológicos, clínicos e técnicos cujo conhecimento e domínio especializado exigem longa e árdua aprendizagem teórica e prática. É nesse ponto de virada que a especialidade cresce e chega ao ponto que se vê hoje.

    Ainda que os grandes marcos no traumatismo torácico não seja dado necessariamente a cirurgiões torácicos titulados, descreve-se que a primeira sutura cardíaca no Brasil foi realizada em 1905. O procedimento pioneiro aconteceu na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e foi executado pelo cirurgião João Alves de Lima. O jovem paciente sobreviveu por pouco tempo, mas o significado daquela intervenção foi muito além de seu desfecho.

    Outro pioneiro e mundialmente reconhecido foi o do piauiense João Castello Branco, que atuou na policlínica do Rio de Janeiro. Relatou na revista Chest (1946) o uso pioneiro mundial da toracoscopia no trauma, assim citado na literatura mundial, afirmando em sua publicação: “a toracoscopia presta-nos serviços importantes como método exploratório em ferimentos penetrantes do tórax [...]. Utilizamos esse método desde maio de 1943 — data da nossa primeira observação, à qual se seguiram outras quatro. Estou convicto de que a toracoscopia será muito útil para o diagnóstico de todas as variedades desse tipo de ferimento.”

    Marco histórico na cirurgia brasileira é o registro pioneiro da autotransfusão dado ao cirurgião carioca Aldo Cordovil que, na década de 1920, desenvolveu dispositivos e métodos de reinfusão de sangue extravasado em cirurgias abdominais. A prática da autotransfusão voltada para o hemotórax traumático ganhou grande impulso e sistematização acadêmica nas décadas seguintes com o avanço da cirurgia torácica e o crescimento dos traumatismos no país, incentivado por Levão Bogossian, contemporâneo de Castello Branco e autor de livros didáticos como “Choque”, “Traumatismo torácico”, e “Manual de autotransfusão”. Historicamente, o aproveitamento do sangue derramado na cavidade pleural (reinfusão do hemotórax) passou a ser amplamente difundido por cirurgiões torácicos que se envolveram com trauma, e equipes de atendimento ao trauma à medida que os serviços de urgência adotaram sistemas fechados de drenagem torácica associados a equipos e bolsas coletoras estéreis. 

    José Carlos Felicetti, cirurgião torácico gaúcho, foi especialista que se dedicou aos traumatismos torácicos e tem uma extensa devoção pela transfusão autóloga. Em 1989 defendeu a tese de mestrado sobre o tema e deixou vasta experiência na especialidade e diversos capítulos em livros. 

    Outro cirurgião torácico que se entregou ao tema foi Antonio Ribeiro-Netto que, de 1962 a 1979 chegou a catalogar 4.842 casos descritos em sua longa trajetória no Hospital Souza Aguiar, Rio de Janeiro. É o mesmo autor da técnica cirúrgica epônima conhecida mundialmente como “Ribeiro-Netto Procedure” (ou Bird Cage/gaiola de passarinho), publicada no Journal of Cardiothoracic Surgery, mas aplicada ao câncer de pulmão com invasão de parede torácica.

    Por se tratar de um país cuja mortalidade por traumatismo torácico foi e continua sendo alta, houve o desenvolvimento de vários centros de referência em atendimento aos traumatismos em geral, surgindo diversas escolas, incluindo programas de residência médica em cirurgia do trauma com apoio da Sociedade Brasileira de Atendimento integralizado ao Trauma (SBAIT), criada em 1982. 

 5. Quinto período - a independência e institucionalização da especialidade

 Atualmente, em todo o mundo contemporâneo, existe uma clara separação entre Cirurgia Torácica e Cirurgia Cardiovascular, embora em alguns países as sociedades profissionais ainda sejam parcialmente conjuntas, visto que as origens de ambas as especialidades convergem historicamente e elas atuam no mesmo campo anatômico, mas não chegou a ocorrer no Brasil. Em outros, como Estados Unidos e Europa, existem várias sociedades, tanto conjuntas quanto separadas (AATS, STS e EACTS, ESTS), com uma clara distinção entre o escopo de cada especialidade.

    Ampliando o olhar, por volta da década de 1970, um pequeno número de cirurgiões cardiotorácicos começou a se dedicar exclusivamente à cirurgia torácica geral - sem envolver doenças cardíacas. Entre eles destacam-se para o Brasil, Frederick Griffith Pearson, que se dedicou ao aprimoramento da cirurgia pulmonar e esofágica, e foi também um dos primeiros a se dedicar à cirurgia traqueal e laríngea, criando o primeiro laboratório de pesquisa em Cirurgia Torácica do mundo, no Hospital Geral de Toronto, no Canadá, reconhecido até hoje por sua contribuição para a cirurgia das vias aéreas, transplante pulmonar e oncologia pulmonar; Hermes Grillo, chefe do departamento de Cirurgia Torácica do Hospital Geral de Massachusetts, Boston, nos Estados Unidos, de 1969 a 1994. Ele é considerado o pai da cirurgia traqueal e brônquica e foi contemporâneo do F.G. Pearson, o que possibilitou múltiplas colaborações entre si. Ambos foram contemporâneos no desenvolvimento do tubo orotraqueal de duplo lúmen, tecnologia que permitiu a ventilação monopulmonar durante toracotomias e foi fundamental para o desenvolvimento de cirurgias torácicas minimamente invasivas, permitindo vultoso crescimento da especialidade.

    O Brasil absorveu a forte influência do trabalho desenvolvido por esse dois gigantes no contexto da cirurgia torácica geral, até se consolidar a cirurgia minimamente invasiva, ao final do século passado, tomando corpo no século presente. Alguns brasileiros acompanharam, a pari passo, essa ruptura da cirurgia cardiovascular e deram à cirurgia torácica brasileira pernas próprias para traçar seu caminho ideal.

    A partir dessa amigável ruptura, a história da especialidade no Brasil culmina com diversos momentos de total envergadura e amadurecimento, desde sua origem, desde seus principais marcos evolutivos, aos dias atuais. Uma das provas desse engajamento da especialidade está nas páginas de “Câncer de Pulmão”, escrito por Jesse Teixeira e publicado em 1971, culminando com várias visitas de F.G Pearson e Hemes Grillo ao Brasil.

    Para tanto, as seguintes questões são determinantes para seguir no grande projeto da história da cirurgia torácica no Brasil:

(a) Quais foram os momentos de maiores saltos de evolução para a especialidade no Brasil?

(b) Quais foram os maiores desafios para o desenvolvimento da área no Brasil?

(c) Como ocorreu a inserção de novas tecnologias, técnicas e desenvolvimentos na cirurgia torácica internacional no Brasil?

(d) O Brasil acompanhou satisfatoriamente a evolução da área? (e) Como o Brasil é visto no cenário internacional?

    Dada a imensidão de nosso território, algumas dessas questões são respondidas em cada região em períodos diferentes, agora registrada em cada capítulo, com suas peculiaridades e distinções escritas por cada autor em seu território.

    Portanto, divide-se o desenvolvimento atual, do quinto período da história da cirurgia torácica brasileira em quatro marcos: o da cirurgia para tratamento das doenças inflamatórias e infecciosas, incluindo novos olhares para a tuberculose, a multirresistência; o da nova era para abordagem das neoplasias pulmonares por meio da cirurgia minimamente invasiva associada aos recentes progressos da oncologia clínica. Outros momentos marcantes foram o da cirurgia das vias aéreas, dos transplantes, definindo uma era contemporânea, conforme se descreve nos “80 anos de história da disciplina de cirurgia torácica da FMUSP”, editado por Paulo Pego Fernandes e José Ribas de Campos e “Cirurgia Torácica Contemporânea”, editados por José Jesus Camargo e Darcy Pinto, em em 2019.

    A cirurgia das vias aéreas é um dos marcos contemporâneos da cirurgia torácica que vem do século passado. Nasceu sob a desconfiança do inglês Ronald Belsey, ao descrever o insucesso da ressecção e reconstrução da porção intratorácica da traqueia. O caso resultou em necrose tecidual e mau prognóstico pós-operatório. A parada nos registros de cirurgias traqueais ocorreu devido ao medo dos cirurgiões quanto à má recuperação do tecido cartilaginoso, até que se entendesse melhor a cicatrização das vias aéreas. Antes desse período as estenoses eram tratadas apenas com medidas conservadoras, seja por dilatação, traqueostomias e mesmo por colocação de órteses.

    Porém, os avanços conceituais levaram à descoberta da possibilidade de cicatrização satisfatória da traqueia pelo uso de suturas firmes, bem como da recuperação brônquica pela mesma técnica de anastomose término-terminal. Essa técnica, juntamente com o desenvolvimento da anestesia levou ao desenvolvimento da cirurgia das vias aéreas no Brasil e em todo o mundo, destacando-se Hermes Grillo e F.G. Pearson.

    No Brasil, desde a década de 1960, com o aumento do aparato tecnológico das unidades de terapia intensiva e a consequente maior sobrevida dos pacientes pós-intubação, os casos de estenose traqueal tornaram-se cada vez mais comuns, necessitando de mais tratamentos com abordagem cirúrgica, o que inicialmente era realizado por otorrinolaringologistas durante a esofagobroncoscopia, como acorrera mundo afora.

Entretanto, as dilatações realizadas eram muitas vezes ineficientes, o que levou os cirurgiões brasileiros a acessarem a traqueia via cervicotomia. Passaram a utilizar as técnica de anastomose término-terminal após a ressecção da área doente, baseados nos estudos de F.G. Pearson e Hermes Grillo. Os procedimentos tornaram-se cada vez mais comuns e com técnicas progressivamente aprimoradas.

No Brasil, Vicente Forte, de São Paulo, com a sua tese de livre-docência para Universidade Federal de São Paulo, cita os primeiros casos operados em 1969, totalizando cerca de 400 em quase 30 anos de convivência com esta abordagem. Deixou um legado que disseminou por toda a geração seguinte, e que permanece encravado na escola brasileira.

O passo mais largo da contemporaneidade foi o transplante pulmonar realizado em 1989, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, por José de Jesus Peixoto Camargo. Foi o primeiro na América Latina. O paciente era um agricultor de 27 anos que sofria de fibrose pulmonar. A cirurgia bem-sucedida permitiu que o paciente deixasse a dependência de oxigenoterapia contínua. Desde então, JJ Camargo tornou-se uma referência em transplante pulmonar no país. Atualmente, ele segue como diretor do Serviço de Cirurgia Torácica e do Centro de Transplantes da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. A partir da bem sucedida prática, diversos centros no país seguiram com seus projetos e programas, deixando o transplante de pulmão se difundir não só pelo Brasil, mas por toda a América Latina.

Em 2012, o destacado Grupo de Transplante Pulmonar do INCOR (FMUSP) realizou o primeiro transplante na América Latina utilizando pulmão recondicionado. Esta técnica   ex-vivo permite que pulmões de doadores limítrofes, inicialmente descartados, tornem-se viáveis ​​para implantação.

Em 1997 ocorre a fundação da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica, após a realização de 10 congressos pelo departamento de Cirurgia Torácica da SBPT. Precisamente em 27 de maio, durante o X Congresso Brasileiro de Cirurgia Torácica. Aquele palco histórico guarda um momento especial, dando maior expressão cultural e jurídica à especialidade, sendo o primeiro presidente Vicente Forte. O palco foi o Memorial da América Latina, na capital do Estado de São Paulo. A SBCT nasce num momento paralelo ao surgimento da cirurgia torácica video-assistida (VATS) em todo o mundo, e o evento passa a ser marcante por todo esse brilho, testemunhado por diversos vultos da cirurgia torácica mundial, tais como David Sugabaker, Michael Mack, dos Estados Unidos e Roviaro, da Itália, esse um dos pioneiros da lobectomia por vídeo, assim como Anthony Yim, de Hong Kong.

A Cirurgia Torácica Minimamente Invasiva (CTMI) veio preencher a busca por técnicas menos agressivas para manter a roda da constante evolução da especialidade. O conceito mais moderno de CTMI só se popularizou na década de 1990, com o surgimento dos procedimentos videoassistidos, que foram adotados pelos cirurgiões gerais na década seguinte. Na mesma passada o advento da Cirurgia Torácica Videoassistida (VATS) foi marco importante para a especialidade, com redução do trauma incisional e da dor pós-operatória e recuperação mais rápida, comparada à cirurgia aberta convencional.

No Brasil, a primeira experiência demonstrando a viabilidade do uso da Cirurgia Robótica (RATS) no tratamento cirúrgico do câncer de pulmão surgiu no mesmo embalo dos EUA, Ásia e Europa. Apesar de ser uma experiência inicial, os resultados da técnica no Brasil foram semelhantes a diversas séries internacionais. Atualmente, os avanços na CTMI estão focados em aumentar o acesso da VATS para mais brasileiros e treinar cirurgiões em cirurgia torácica assistida por robótica (RATS), para que ela se torne mais universal, portanto, acessível a todos.

 

Considerações finais.

    A biografia dessa especialidade, assim pode-se dizer, esforça-se para ser um relato basicamente linear, mas encontra na reconstituição de sua histórica trilha um caleidoscópio com cristais se movendo o tempo todo, em que há sempre achados acontecendo ao mesmo tempo, como coadjuvantes ou figurantes entrando e saindo pela mesma porta.

    A tentativa de costurá-las numa sequência lógica e racional, procurando fazer o leitor não se perder nessa teia de construção é quase impossível, mesmo assim a SBCT insistiu nesse desafio de tornar essa informação a mais verossímel possível.

    A Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica, desde sua fundação reconhece que sua densa história precisaria, algum dia, ser revivida por escritos.  De Vicente Forte, o primeiro presidente, a estas páginas resplandecentes, faz-se dessa biografia um resumo de seus homens e suas ideias construídas para que seu horizonte fosse inatingível propositadamente. A aceitou-se a proposta de abraçar a história de sua especialidade como um reconhecimento primaz aos seus pioneiros, que ao longo de décadas lapidaram a sua pedra de fundação com o cinzel da coragem.

    Vê-se via historiologia científica, a promoção de uma construção da continuidade de uma época para, nela, distinguir-se como a vida de uma especialidade médica demonstra sua existência inteira dentro da história da medicina. Três exemplares aqui que se pode considerar como parte da história universal: tuberculose, câncer e transplante, membros honorários da especialidade. Ou seja, também estamos contando a história do universo brasileiro. Ou seja, por fim: uma autobiografia da humanidade brasileira.

    Se a viagem se inicia pelo atlântico, em naus que ressoam os primeiros vagidos da medicina nacional, segue em frente pelo momento em que os primeiros brasileiros saem de sua terra, seja pelo atlântico, seja pela asas da Panair, para refazer seus primeiros conceitos em outros centros, teoricamente mais avançados do ponto de vista acadêmico. Por fim a formação das primeiras escolas acadêmicas de cirurgia torácica até se chegar ao hoje.

    Se há nestas páginas algum comportamento antropofágico, não foi por má fé. Foram buscas pelos escaninhos de bibliotecas, como a da Academia Nacional de Medicina, por capítulos de livros consagrados, por expedientes de universidades consagradas, assim como por excertos de idéias jamais publicadas, porém guardadas em estantes particulares de gente que protege sua própria história, com finalidade de compor esta memória biográfica.

    Foram dois anos de dedicação às pesquisas do campo – que é pouco, diga-se -, diante do caos que a profissão nos deixa, sem oportunizar tempo de aprofundar as investigações, em que pese o alívio da internet. A busca incessante se fez como quiséssemos desenrolar o próprio umbigo e rever como nosso passado se enovelou, das capitais a seus rincões, em busca de uma memória pode desaparecer, principalmente nos legados ligados à oralidade, posto que muitos cirurgiões aqui citados já partiram, mas deixaram memórias e escritos sobre essa história. 

    Anotar datas, períodos e tentar ao máximo ser fiel às raízes históricas faz parte desse esforço comum de uma sociedade médica amadurecida, por isso fomos enchendo cadernos e mais cadernos, até que se transformasse nesse livro.

    Procurou-se, em linhas gerais, com gotas de história, refazer um romance intimista, afetivo, como unidade narrativa de uma vida.


Bibliografia consultada

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