sexta-feira, 12 de junho de 2026

O Paradoxo do Essencial: “Daraxon”, fiat lux contra o câncer

                                                                                                                            Roger Normando e Jader Leite

Durante a COP30, realizada na beirada da floresta amazônica, uma das discussões mais inflamadas foi a representatividade da Amazônia para o planeta. Apenas 1,3% da superfície total do globo ou 7% da área de terras, sabendo-se que a importância ecológica é inquestionável: 50% da biodiversidade mundial e 20% de toda água doce do planeta. É muita função para pouco mais de 1% da terra.

Outro paradoxo é o pâncreas. Tem menos de 0,1% do peso em relação à massa total do corpo humano e mede entre 15 e 25 cm de comprimento e pesa em média de 60 a 100 gramas.  Cabe na palma da mão e é capaz de determinar o destino de uma vida inteira e causar o maior nó na medicina. Pequeno em tamanho e gigantesco em importância, o pâncreas guarda dentre tantas intempéries, uma genética desafiante, ou melhor, uma arma de grosso calibre: o gene K-RAS. Seu gatilho pode disparar um dos cânceres mais nocivos ao homem.

O câncer de pâncreas figura entre os diagnósticos mais temidos da medicina, por ser silencioso, agressivo e associado a algumas das menores taxas de sobrevida em oncologia. Médicos sentem-se impotentes diante desta neoplasia. Mais parece um OVNI bombardeando a terra.

Mas aí a ASCO (Sociedade Americana de Oncologia Clínica) lança um fleet paralisante de Chicago para chamar atenção do mundo científico: o Daraxonrasib cujos novos resultados controlam a doença, duplicando a sobrevida em casos avançados. Um comprimido capaz de detonar o carrasco gene K-RAS. Não faltaram aplausos após o anúncio do resultado da pesquisa. Não são aplausos protocolares, nem entusiasmo de ocasião, tampouco gritos frenéticos de “wohoo”. Fosse um concerto, equivaleria ao uníssono “Bravo, Bravo!”, com todos de pé. Talvez por isso aquelas palmas tão impactantes ecoaram por todo o planeta, não só pelas redes sociais, mas em manchetes nos principais tablóides. Havia ali a percepção de que algo importante estava acontecendo. Foi uma comichão na oncologia, após décadas em que essa neoplasia simbolizou, e ainda representa dos maiores desafios da medicina. Os resultados da pesquisa foram capazes de alterar perspectivas que pareciam consolidadas até então.

Podemos assim dizer que o K-RAS achou quem o desligasse da tomada, cujo nome é até difícil de pronunciar: Daraxonrasib, que vai acabar reduzido a Daraxon, ou Dara, no meio oncológico. Mesmo sem representar a cura é fiat lux na escuridão da oncologia; é esperança, é ciência, não é milagre, diga-se.

Para quem não é da área médica, vale contextualizar: o congresso da ASCO é o principal encontro mundial de oncologia. É ali que costumam apresentar os avanços mais relevantes no diagnóstico e tratamento do câncer. Não costuma ser um ambiente conhecido por euforia. Cientistas são treinados para desconfiar dos próprios resultados, questionarem conclusões de outros e celebrar com prudência cada alcance. Entre nós, Clarissa Baldotto, membro do GBOT (Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica), que se dedica ao câncer de pulmão, estava radiante: “é pensar que possa ter perspectivas para outros tumores que tenham o mesmo tipo de mutação”. O outro, no caso, é o câncer de pulmão.

Mesmo que seja um pequeno passo para a medicina, foi o ganho de esperança que floresceu no pequeno pâncreas, desafiando a lógica das proporções.

Talvez a natureza esteja o tempo todo tentando nos ensinar que grandeza não se mede em hectares, centímetros ou gramas, mede-se em impacto... em palmas – e o pâncreas cabe na palma da mão.

Sim, precisamos de mais COP, assim como de mais ASCO. Afinal, o futuro costuma começar em lugares que poucos percebem, mas que sustentam o equilíbrio... Porque toda vez que a ciência faz-se em luz, a humanidade inteira enxerga um pouco mais além.

Jader Leite - Doutor em engenharia hidráulica e ambiental, Universidade de São Paulo (USP)

Roger Normando – Professor de Cirurgia Torácica, Universidade Federal do Pará (UFPA) e Membro GBOT (Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica)

 

Artigo originalmente publicado no jornal “O diário do Pará”

La Paradoja de lo Esencial: “Daraxon”, fiat lux contra el cáncer

        Durante la COP30, celebrada en los confines del bosque amazónico, uno de los debates más encendidos giró en torno a la representatividad de la Amazonía para el planeta. Apenas el 1,3 % de la superficie total del globo, o el 7 % de las tierras emergidas, y sin embargo su importancia ecológica es incuestionable: el 50 % de la biodiversidad mundial y el 20 % de toda el agua dulce del planeta. Es una función colosal para poco más del 1 % de la Tierra.

    El páncreas presenta una paradoja semejante. Representa menos del 0,1 % del peso corporal total, mide entre 15 y 25 cm de longitud y pesa en promedio entre 60 y 100 gramos. Cabe en la palma de la mano y, sin embargo, es capaz de determinar el destino de una vida entera y de provocar el mayor enredo de la medicina. Pequeño en tamaño y gigantesco en importancia, el páncreas alberga, entre tantas complejidades, una genética desafiante —o más bien, un arma de grueso calibre: el gen KRAS. Su gatillo puede desencadenar uno de los cánceres más letales para el ser humano.

        El cáncer de páncreas figura entre los diagnósticos más temidos de la medicina: silencioso, agresivo y asociado a algunas de las tasas de supervivencia más bajas en oncología. Los médicos se sienten impotentes ante esta neoplasia. Parece, casi, un OVNI bombardeando la Tierra.

        Y entonces la ASCO (Sociedad Americana de Oncología Clínica) lanzó desde Chicago una andanada que paralizó al mundo científico: el Daraxonrasib, cuyos nuevos resultados demostraron control de la enfermedad y duplicaron la supervivencia en casos avanzados. Una sola pastilla capaz de silenciar al gen verdugo KRAS. Los aplausos no tardaron en llegar tras el anuncio de los resultados. No fueron aplausos protocolares, ni entusiasmo de circunstancias, ni gritos frenéticos de «¡wohoo!». De haber sido un concierto, habría equivalido al unánime «¡Bravo, bravo!» con todos de pie. Quizá por eso aquellas palmas tan contundentes resonaron en todo el planeta: no solo en las redes sociales, sino en los titulares de los principales diarios del mundo. Había allí la percepción de que algo importante estaba ocurriendo. Fue un escalofrío en la oncología, tras décadas en que esta neoplasia simbolizó —y aún representa— uno de los mayores desafíos de la medicina. Los resultados de la investigación lograron alterar perspectivas que hasta entonces parecían consolidadas.

        Podemos decir, pues, que el KRAS por fin encontró quien lo desenchufara, y ese alguien tiene un nombre difícil de pronunciar: Daraxonrasib, que no tardará en reducirse a Daraxon, o simplemente Dara, en los círculos oncológicos. Aun sin representar la cura, es fiat lux en la oscuridad de la oncología; es esperanza, es ciencia —y no un milagro, quéde claro.

        Para quienes no son del ámbito médico, vale la pena contextualizar: el congreso de la ASCO es el principal encuentro mundial de oncología. Es allí donde suelen presentarse los avances más relevantes en el diagnóstico y tratamiento del cáncer. No es un entorno conocido por la euforia. Los científicos están entrenados para desconfiar de sus propios resultados, para cuestionar las conclusiones ajenas y para celebrar cada logro con prudencia. Entre los presentes estaba Clarissa Baldotto, miembro del GBOT (Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica), dedicada al cáncer de pulmón, y estaba radiante: «pensar que puedan abrirse perspectivas para otros tumores que tengan el mismo tipo de mutación». El «otro», en este caso, es el cáncer de pulmón.

        Aunque sea un pequeño paso para la medicina, fue una ganancia de esperanza que floreció en el pequeño páncreas, desafiando toda lógica de las proporciones.

        Quizá la naturaleza intente enseñarnos constantemente que la grandeza no se mide en hectáreas, centímetros ni gramos, sino en impacto… en aplausos. Y el páncreas cabe en la palma de la mano.

        Sí, necesitamos más COP, así como más ASCO. Al fin y al cabo, el futuro suele comenzar en lugares que pocos advierten, pero que sostienen el equilibrio… Porque cada vez que la ciencia se convierte en luz, toda la humanidad ve un poco más lejos.

Jader Leite — Doctor en Ingeniería Hidráulica y Ambiental, Universidad de São Paulo (USP)

Roger Normando — Profesor de Cirugía Torácica, Universidad Federal de Pará (UFPA) y Miembro del GBOT (Grupo Brasileño de Oncología Torácica)

Artículo originalmente publicado en el periódico “O Diário do Pará”

The Paradox of the Essential: “Daraxon”, fiat lux against Cancer

         During COP30, held on the edge of the Amazon rainforest, one of the most heated debates concerned the significance of the Amazon for the planet. It covers just 1.3% of the Earth’s total surface area, or 7% of its land area — yet its ecological importance is beyond dispute: 50% of the world’s biodiversity and 20% of all freshwater on the planet. That is an enormous function for little more than 1% of the Earth.

        The pancreas presents a similar paradox. It accounts for less than 0.1% of the human body’s total weight, measuring between 15 and 25 cm in length and weighing an average of 60 to 100 grams. It fits in the palm of a hand, and yet it is capable of determining the fate of an entire life and of tying medicine into its greatest knot. Small in size and colossal in importance, the pancreas harbors, among so many challenges, a particularly daunting piece of genetic machinery — or rather, a heavy-calibre weapon: the K-RAS gene. Its trigger can fire one of the most lethal cancers known to humankind.

    Pancreatic cancer ranks among the most feared diagnoses in medicine: silent, aggressive, and associated with some of the lowest survival rates in oncology. Physicians feel powerless before this malignancy. It bears an uncanny resemblance to a UFO bombarding the earth.

    And then ASCO (the American Society of Clinical Oncology) launched a stunning broadside from Chicago to seize the attention of the scientific world: Daraxonrasib, whose new results demonstrated disease control and doubled survival in advanced cases. A single tablet capable of silencing the executioner K-RAS gene. Applause was not lacking after the announcement of the research findings. Not the ceremonial kind, nor the polite enthusiasm of the moment, nor frenzied shouts of “woo-hoo.” Had it been a concert, it would have been the unanimous “Bravo, Bravo!” with everyone on their feet. Perhaps that is why those resonant palms echoed across the entire planet — not merely through social media, but in headlines in the world’s leading publications. There was a collective sense that something important was happening. It was a spark in oncology, after decades in which this malignancy had come to symbolize, and still represents, one of medicine’s greatest challenges. The research results proved capable of shifting perspectives that until then had seemed firmly entrenched.

        We can thus say that K-RAS has finally met its match — the compound that can pull it from the socket. Its name is even difficult to pronounce: Daraxonrasib, which will no doubt be shortened to Daraxon, or simply Dara, in oncological circles. Even without representing a cure, it is fiat lux in the darkness of oncology; it is hope, it is science — and emphatically not a miracle.

        For those outside the medical field, some context is in order: the ASCO congress is the world’s foremost oncology gathering. It is there that the most relevant advances in cancer diagnosis and treatment are typically presented. It is not an environment known for euphoria. Scientists are trained to distrust their own results, to question others’ conclusions, and to celebrate each achievement with measured caution. Among those present was Clarissa Baldotto, a member of GBOT (Brazilian Thoracic Oncology Group), who focuses on lung cancer and was positively radiant: “just to think that there could be prospects for other tumors carrying the same type of mutation.” The “other” in question is lung cancer.

        Even if it is a small step for medicine, it was a gain in hope that blossomed within the small pancreas, defying all logic of proportions.

        Perhaps nature is constantly trying to teach us that greatness is not measured in hectares, centimetres, or grams — but in impact… in applause. And the pancreas fits in the palm of a hand.

        Yes, we need more COPs, just as we need more ASCOs. After all, the future tends to begin in places few perceive — but which sustain the balance… Because every time science makes itself into light, all of humanity sees a little further ahead.

Jader Leite — Doctor in Hydraulic and Environmental Engineering, University of São Paulo (USP)

Roger Normando — Professor of Thoracic Surgery, Federal University of Pará (UFPA) and Member of GBOT (Brazilian Thoracic Oncology Group)

Article originally published in the newspaper “O Diário do Pará”

terça-feira, 26 de maio de 2026

Antonio Gaudí between rivers and forests

  The next day, the sun was still beginning to lick 

the gentle curves of the treeless hills.              

 Pepetela, Angolan writer, in: Tales of Death


        An unforgettable landscape surrounded me the other day, while I was traveling: the Tapajós National Forest, seen from the top of one of its hills. From there, seated in the shade of a kapok tree, my eyes spread the green all the way to the near bank of the river. In the middle of it, a barge was carrying grain out to the world. And, already losing its sharpness, the far bank returns to my eyes, dissolving into the sfumato of the setting sun. That imagery always comes back to my retina whenever I admire other landscapes.

        For wandering the world paying attention to views, colors, and directions, I find myself always placing the human being at the center of the palette and the planet. That is why I called on Pepetela for the epigraph, to give voice to the curves that Antonio Gaudí traced in Catalonia.

        Both at the foot of the Sagrada Família and from the heights of Montjuïc, in Barcelona, there is an expanse of breathtaking beauty. From there, the spires of the Sagrada Família rise above the city, drawing the eye in, set against the monochromatic urban plane under the reflections of the last rays of sunlight, with the shadow of the mountains in the background. A Carioca would immediately quip, with their eternal humor: "just like the hills of Rio de Janeiro."

(A note: this is not meant as a negative image; it is simply a translation of Pepetela, in his Tales of Death, about the treeless hills, replaced by dwellings.)

        As a traveling outsider in thought, I soon reflected: what connects us when we correlate Barcelona with the Amazon rainforest mentioned at the beginning of this text? It all begins with the striking image that stood out: the Sagrada Família, at 172.5 meters tall. It is the defining landmark of the Barcelona skyline. The structure deliberately falls short of the height of the mountains out of respect for God, the creator of all — so Gaudí portrayed it — knowing that Catalonia, marked by the Gothic Quarter, had been the cradle and pinnacle of Christian civilization.

    When borrowing Gaudí's eyes, one perceives in his works a deep respect for Christianity; yet, by reproducing the forms of nature in his many sculptures scattered across the city, he draws more from Baruch Spinoza, for whom God and nature are one and the same, with Gaudí merely an interpreter.

    Another nature he admired was the human one. In La Pedrera, the so-called "lung space," right at the entrance, is a system of natural ventilation and thermal regulation at the center of the semicircular residential building spanning several floors. In the entrance atrium, he treats the work as an ecosystem functioning just like the respiratory system. Looking up at the ceiling, the polyhedral image of the pulmonary alveolus is revealed, with the sky visible beyond. Thus, Gaudí was able to embody Spinoza within a mineral forest of stone and creativity, transforming Barcelona into something vibrant, perhaps even delirious.

        One might say that human beings do not live in natural environments alone; above all, they need to create an aesthetic that calms the heart and eases the breath. That is what Gaudí did.

        And so, upon climbing to the highest point of Montjuïc to take in that view of Barcelona, he builds the cathedral and so many other works solely to relieve the eye from the sight of a deforested city. Then he descends the hill and goes on to face the challenge of giving life to stone.

        If the Amazon on this side represents a deep indigenous memory — origin, biodiversity, the slow rhythm of nature — Barcelona, in turn, symbolizes the human capacity to transform belief, aesthetics, and geometry into tangible civilization, leaving a cruel question as to whether Sapiens is trying to define itself as guardian… or predator.

        Surely the human destiny does not lie in choosing between forests and cathedrals, but in discovering whether our intelligence will mature before we destroy the natural and symbolic foundations that sustain us — or perhaps these are different manifestations of the same human narrative: one shaped by evolution over millions of years; the other by collective imagination in just a few centuries. This suggests that each identity is not merely territory, but an affective repertoire, through which we travel — we from here to there, and they from there to here — to better understand this consonance of gazes.


Translation produced with AI assistance.

Roger Normando, professor of thoracic surgery, Universidade Federal do Pará, Brazil.

Antonio Gaudí entre ríos y bosques

 Al día siguiente, aún el sol comenzaba a lamer las suaves curvas 

de las colinas sin árboles

Pepetela, escritor angoleño, en: Cuentos de muerte


    Un paisaje inolvidable me rodeó el otro día, durante un viaje: el Bosque Nacional del Tapajós, visto desde lo alto de una de sus colinas. Desde allí, sentado a la sombra de una ceiba, mis ojos extendieron el verde hasta la orilla de este lado del río. En medio de él, una balsa transportaba granos hacia el mundo. Y, ya perdiendo nitidez, la otra orilla regresa a mis ojos, ya en el sfumato del sol al ponerse. Ese imaginario siempre vuelve a mi retina cuando admiro otros paisajes.

    Por andar por el mundo prestando atención a vistas, colores y rumbos, vivo proyectando al hombre como centro de la paleta y del planeta. Por eso convoqué a Pepetela para el epígrafe, al dar voz a las curvas que Antonio Gaudí trazó en Cataluña.

    Tanto a los pies de la Sagrada Familia como desde lo alto del Montjuïc, en Barcelona, hay una explanada de belleza. Desde allí, las cúspides de la Sagrada Familia se destacan sobre la ciudad, donde el ojo se quedó pegado, entre el monocromático plano urbano bajo los reflejos de los últimos rayos de sol, con la sombra de las montañas al fondo. Un carioca lo diría enseguida, con su eterno humor: "igualito a los morros de Río de Janeiro".

    (Una aclaración: no se pretende que sea una imagen negativa; tan solo traduciendo a Pepetela, en sus Cuentos de muerte, sobre las colinas sin árboles, sustituidas por viviendas).

    Como forastero viajero en el pensamiento, reflexioné de inmediato: ¿qué punto nos une al correlacionar Barcelona con la selva amazónica mencionada al inicio del texto? Todo parte de la imagen insólita que se destacaba: la Sagrada Familia, con sus 172,5 m. Es un punto de referencia en el paisaje barcelonés. La obra solo no supera la altura de las montañas por respeto a Dios, el creador de todo —retrata Gaudí—, sabiendo él que Cataluña, marcada por el barrio Gótico, había sido cuna y cúspide de la civilización cristiana.

    Al tomar prestados los ojos de Gaudí, se percibe en sus obras respeto al cristianismo; sin embargo, al reproducir los trazos de la naturaleza en sus diversas esculturas esparcidas por la ciudad, incorpora más a Baruch Spinoza, para quien Dios y naturaleza son elementos únicos, y él apenas un intérprete.

    Otra naturaleza que él admiraba es la humana. En La Pedrera, el "espacio pulmón", ya en la entrada, es un sistema de ventilación natural y regulación térmica en el centro del condominio semicircular compuesto por varios pisos. En el atrio de entrada, trata la obra como un ecosistema que funciona igual que el sistema respiratorio. Al mirar hacia el techo, la imagen poliédrica del alvéolo pulmonar se expone, con el cielo al fondo. Así, Gaudí fue capaz de reproducir a Spinoza en un bosque mineral de piedra y creatividad, transformando Barcelona en algo pujante, quizás delirante.

    Se diría que el ser humano no vive solo en ambientes naturales; sobre todo necesita crear una estética que le calme el corazón y le alivie la respiración. Eso fue lo que Gaudí hizo.

    Por eso, al subir hasta el punto más alto del Montjuïc para proyectar ese paisaje de Barcelona, construye la catedral y tantas otras obras únicamente para aliviar la vista de la ciudad deforestada. Luego baja el cerro y sigue hacia el desafío de dar vida al concreto.

        Si la Amazonia de aquí representa una memoria autóctona profunda —el origen, la biodiversidad, el tiempo lento de la naturaleza—, Barcelona simboliza, a su vez, la capacidad humana de transformar creencias, estética y geometría en civilización tangible, dejando una cruel duda sobre si el Sapiens estaría intentando definirse como guardián… o como depredador.

        Sin duda, el destino humano no está en elegir entre bosques y catedrales, sino en descubrir si nuestra inteligencia madurará antes de que destruyamos las bases naturales y simbólicas que nos sostienen; o quizás sean manifestaciones distintas de la misma narrativa humana: una creada por la evolución durante millones de años; otra por la imaginación colectiva en pocos siglos. Esto sugiere que cada identidad no sea solo territorio, sino repertorio afectivo, en el que circulamos - nosotros de aquí para allá y ellos de allá para acá - para entender mejor esa consonancia de miradas.


Roger Normando, professor de Cirurgia Torácica - Universidade Federal do Pará e membro titulado da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica.

Traducción realizada con apoyo de IA

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Antonio Gaudí entre rios e florestas

                                       No dia seguinte, ainda o sol começava a lamber as suaves                                                 curvas das colinas sem árvores.                                    Pepetela, escritor angolano, em: Contos de morte

      Uma inesquecível paisagem arrodeou-me outro dia, enquanto estive em viagem: a Floresta Nacional do Tapajós, do alto de um de seus morros. De lá, sentado à sombra de uma samaumeira, meus olhos espalharam o verde até a borda de cá do rio. No meio dele uma balsa escoava grãos para o mundo. E, já perdendo a nitidez, a outra margem retorna a meus olhos, já no sfumato do sol se pondo. Essa imagética sempre me vem à retina quando admiro outras paisagens.

Por andar pelo mundo prestando atenção em vistas, cores e rumos, vivo projetando o homem como centro da paleta e do planeta. Por isso escalei Pepetela para a epígrafe, ao dar voz às curvas que Antonio Gaudi traçou pela Catalunha.

Tanto aos pés da Sagrada Família, quanto no alto do Montjuic, em Barcelona, há uma esplanada de belezura. De lá, as cúspides da Sagrada Família sobressaem-se sobre a cidade, d'onde o olho grudou por alguns minutos, de permeio ao monocromático plano da cidade sob os reflexos dos últimos raios de sol, com a sombra das montanhas ao fundo. Um carioca logo sapecaria, com seu eterno humor: “igual aos morros do Rio de Janeiro”.

(Observação: não quis dizer que seja uma imagem negativa; apenas traduzindo Pepetela, em seus “Contos de Morte”, acerca das colinas sem árvores, substituídas por moradias).

Como forasteiro viajante no pensamento, logo refleti: que ponto nos une ao correlacionar Barcelona com o a floresta amazônica, citada no início do texto? Tudo começa a partir da imagem insólita que se destacava: a Sagrada Família, com seus 172,5m. É ponto de destaque na paisagem barcelonesa. A obra só não supera a altura das montanhas, por respeito a Deus, o criador de tudo - retrata Gaudí-, soubendo ele que a Catalunya, marcada pelo bairro Gótico, fora berço e píncaro da civilização cristã.

Ao tomar emprestado os olhos de Gaudí, percebe-se nas obras devoçao ao cristianismo, entretanto, ao reproduzir os traços da natureza em suas diversas esculturas espalhadas pela cidade, ele mais incorpora Baruch Espinoza, em que Deus e natureza são elementos únicos, e que ele se diz ser apenas um intérprete. 

Uma outra natureza que ele admira é o organismo humano. Em “La Pedrera”, o "espaço pulmão”, logo na entrada, é um sistema de ventilação natural e regulação térmica no centro do condomínio semicircular composto por vários andares. No átrio de entrada ele trata a obra como um ecossistema que funciona tal como o sistema respiratório. Ao olhar para o teto, a imagem poliédrica do alvéolo pulmonar se expõe, com o céu ao fundo. Assim, Gaudí foi capaz de reproduzir Spinoza numa floresta mineral de pedra e criatividade, transformando Barcelona em algo pujante, quiçá delirante.

Dir-se-ia que o humano não vive apenas em ambientes naturais, sobretudo necessita criar uma estética que lhe acalme o coração e alivie a respiração. Assim é Gaudi.

Portanto, ao subir até o o ponto mais alto do Montjuic para projetar aquela paisagem de Barcelona, ele constroi a catedral e tantas outras obras tão somente para aliviar a vista da cidade desflorestada. Depois ele desce o morro e segue para o desafio de dar pulsação ao concreto.

Se a Amazônia de cá representa uma memória autóctone profunda - a origem, a biodiversidade, o tempo lento da natureza - por sua vez Barcelona simboliza a capacidade humana de transformar crenças, estética e geometria em civilização tangível, deixando uma dúvida cruel se o Sapiens estaria tentando se definir como guardião... ou predador.

Decerto o destino humano não está em escolher entre florestas e catedrais, mas em descobrir se nossa inteligência amadurecerá antes que destruamos as bases naturais e simbólicas que nos sustentam, ou talvez manifestações diferentes da mesma narrativa humana: uma criada pela evolução durante milhões de anos; outra pela imaginação coletiva em poucos séculos. Isso sugere que cada identidade não seja apenas território, mas repertório afetivo, em que trafegamos - nós daqui para lá e eles de lá para cá - para entendermos melhor essa consonância de olhares.

 Roger Normando, professor de Cirurgia Torácica - Universidade Federal do Pará e membro titulado da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica.

sábado, 9 de maio de 2026

The hues and the blues of being happy

   Porto is a city of splendors. It holds, along the banks of the Douro, that romantic space perfectly suited for celebrating those milestone birthdays ending in a round number - the forties through the nineties. This time, it was my wife's. We celebrated joyfully alongside family, listening to whatever the cobblestones of the Ribeira had to offer that spring evening, the dark river before us and the cheerful chatter of tables full of French tourists behind us. The occasion called for exactly that: a pleasant setting and lively people, both from near and far.


  Seated, savoring a red wine from the Alentejo, she gets up and heads to the restroom. At that precise moment, a flower seller appears before me - I suspect with a little help from Mr. Vasco, a waiter who carries in his mouth the mortal remains of a set of teeth from the days of the Carnation Revolution, yet possessed of an uncommon and genuinely Portuguese warmth that more than compensates for any gap in the dental arch. I bought a splendid pink rose for just a few euros. It was the least the occasion, the river, and the wine were asking for.

  A young blonde woman, fine-featured and lovely, sitting nearby, notices the gesture and hints to her boyfriend that she'd like the same. It didn't take long. He gave her two, in matching pink. The one-upmanship earned a delighted smile from her and a knuckle bump, at the metacarpophalangeal joints, as we say, between him and me, the way people greet each other when they understand without needing words. I said: "clever of you... you took advantage of my opening."

   We couldn't help but notice his smile. His teeth were entirely disordered, yellowed, and decayed, partly, no doubt, thanks to the pack of cigarettes on the table. After a brief exchange, in which he told us about his trip to São Paulo, we said our goodbyes by the Douro, while he was still drawing in the slow-death tar. I wished him well and suggested he take better care of his health, being so young. A reflex remark from a surgeon, even on holiday, even without a white coat and far from any scalpel.

  Ten or fifteen steps later, I regretted it. I turned back to apologize for having commented on the habit. It was none of my business. Nobody there had asked for a clinical opinion on the banks of the Douro.

 I'm glad I went back. With good humor, the Englishman replied: "Don't worry about it. I was cured of a lymphoma a few years ago, and I've been living with a colostomy since then." He lifted his jacket and showed us the bag he carries on the left side of his abdomen, a wide support band wrapped around his torso, bearing witness to an abdominal infection. He spoke with a quiet naturalness, the ease of a man who has already made peace with his own body and his own story.

  I walked away carrying a lesson I hadn't expected to take from that evening.

  The regret came before his reply - in those ten or fifteen steps back. The lesson wasn't taught by the Englishman. I had already arrived at it on my own. He merely confirmed, with a disarming grace, what he must have taught so many others before. That says something about what happens when you step out of the role of physician, fold the white coat into your suitcase, and become, simply, a person among many others.

  There is a quiet irony that runs through the whole scene: a man who has spent his life protecting lungs, apologizing to a lymphoma survivor for having brought up the subject of cigarettes. And on top of that, the survivor smiles. Not from indifference to his health, but because he has already negotiated with death in a way that renders any well-meaning advice small — almost naïve — against the scale of what he has already lived through and still carries in his body and his memory. His smile was not denial. It was his own scale of values, forged in chemotherapy and surgery.


Roger Normando, Brazilian Thoracic Surgeon.

Translated from Portuguese by AI.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

As cores e as dores de ser feliz

Porto é uma cidade de esplendores. Guarda à beira do Douro o espaço romântico próprio para se comemorar aniversários que se enquadrem num desses "entas" - dos quarentas aos noventas. Comemoramos o aniversário da esposa de modo prazenteiro ao lado de familiares, ouvindo o que a calçada da Ribeira tinha a oferecer naquela noite primaveresca, com o rio escuro à frente e o tagarelar alegre das mesas ao redor, cheias de franceses. O aniversário pedia exatamente aquilo: lugar agradável e gente alegre de fora e de dentro de nós.

Sentados, degustando um tinto da casa, a aniversariante levanta-se e vai à casa de banho. Exatamente nesse momento um florista aparece à frente, ajudado pelo Sr. Vasco, um garçom que esconde na boca os restos mortais de uma dentição dos tempos da Revolução dos Cravos, mas dotado de uma incomum e genuína simpatia portuguesa que compensa qualquer lacuna na arcada dentária. Comprei uma rosa esplendorosa cor-de-rosa, por raros euros. Era o mínimo que o aniversário, o rio e o vinho pediam.

Uma jovem loura, com rosto fino e bem esculpido, sentada ao lado, vê o gesto e suscita ao namorado a mesma rosa. Não deu outra. Só que ele a presenteou com duas, no mesmo tom. A superação gerou um sorriso encantado nela e uma saudação  entre mim e ele, como fazem os que se entendem sem precisar de palavras. Eu disse: - você é esperto, hein! Aproveitou a minha deixa.

Chamou-nos atenção o sorriso dele. Dentes totalmente desestruturados, amarelados e cariados, em parte por conta da carteira de cigarros sobre a mesa. Após breve diálogo, contando-nos sobre a sua viagem a São Paulo, despedimo-nos à beira do Douro, com ele ainda tragando o alcatrão da morte-lenta. Desejei-lhe boa sorte e disse para ter mais cuidados com a saúde, por ser ainda tão jovem. Um alerta que saiu de forma reflexa para um cirurgião, de férias do jaleco e longe do bisturi.

Após uns dez ou quinze passos, arrependi-me. Retornei para pedir desculpas por ter comentado sobre o vício. Não tenho nada a ver. Ninguém ali pediu uma opinião clínica à beira do Douro. 

Ainda bem que voltei. Vejam o que aconteceu. Com bom humor, o britânico respondeu: Não se preocupe. Já fui curado de um linfoma há dez anos e estou com uma colostomia, por conta de grave infecção abdominal à época da quimioterapia pesada. Levantou o casaco e mostrou-me a bolsa de colostomia que carrega no lado esquerdo do abdômen, com uma imensa faixa de contenção circundando o tronco. Falava com serenidade, a mesma de quem já fez as pazes com o próprio corpo e com o passado.

    Fui embora com uma lição que não esperava levar. Ainda bem que o meu arrependimento contido naqueles passo de volta chegou antes da resposta dele. Ele apenas confirmou, com uma elegância desconcertante, o que já devia ter ensinado a tantos outros. Isso diz algo sobre o que acontece quando se sai do papel de médico, se guarda o jaleco na mala e se torna, simplesmente, pessoa entre tantas mais.

Há uma ironia delicada que atravessa toda a cena de quem passa a vida protegendo pulmões e pede desculpas a um sobrevivente de linfoma por ter tocado no assunto do cigarro. E ainda por cima o sobrevivente daquele câncer sorriu e agradeceu a minha preocupação. Não por descaso com a saúde, mas porque já negociou com a morte de um modo que torna qualquer conselho bem-intencionado algo pequeno, quase ingênuo, diante da escala do que já viveu e ainda carrega no corpo e na memória. O sorriso dele não era negação, era própria escala de valores, traduzida em quimioterapia e cirurgia.


domingo, 3 de maio de 2026

Conexão Belém-Lisboa


              O avião mal havia "descolado" de Belém quando Lisboa atravessou-me a memória. Não a cidade em si, mas Lisbel.

Conheci-a numa tarde chuvosa, dessas em que o ar parece carregar histórias antigas no bairro Cidade Velha. A menina de 10 anos tinha nos traços a delicadeza de dois mundos: o pai, português de fala mansa e olhar saudoso do Tejo, com nítidos traços mouros; a mãe, paraense de riso fácil, com a leveza de quem cresceu à beira do Guamá: cabelos lisos, a lembrar a genética tupinambá.

Diziam que o encontro dos dois fora improvável, quase um capricho do destino, porém desses caprichos que acertam em cheio. O amor deles não quis ser apenas vivido; quis ser lembrado. E assim nasceu o nome: Lisbel. Não apenas uma junção de sílabas, mas uma ponte invisível entre duas margens do Atlântic; um elo que dispensava mapas. Enquanto o avião ganhava altitude, pensei que talvez certas distâncias não existam de fato. Há nomes que encurtam oceanos, histórias que fazem cidades caberem dentro de uma pessoa. Lisbel era uma dessas histórias. E, de algum modo, naquele voo, Lisboa já não era destino — era lembrança.

sábado, 7 de março de 2026

Biofilme e sapopemas: a anatomia da osteomielite esternal à luz da natureza

A caminho do hospital onde trabalho, uma notícia inquietante invadiu o rádio: envenenamento de árvores na vila de Alter-do-Chão. Injetaram nas raízes para elas tombarem. Caso de polícia!

    Quem visita Alter-do-Chão e arredores, incluindo a Floresta Nacional do Tapajós, vai se deparar com árvores elegantes. A Samaumeira é uma delas. É a mais emblemática da floresta amazônica. Conhecida por sua robustez, mas é a altura que impressiona. É chamada de mãe da floresta. Podem atingir mais de sessenta metros de altura e desenvolver troncos de grandes diâmetros, capazes de suportar o abraço de 18 adultos.  Diante delas somos anões.

Na cultura amazônica, a samaúma é frequentemente considerada uma árvore sagrada, associada a mitos, espiritualidade e conexão com o passado. Reza a lenda que em seus subsolos existem restos mortais de nossos ancestrais. Suas raízes gigantescas, em formato tabulares, são conhecidas como sapopemas. As estruturas se projetam lateralmente a partir da base do tronco e podem alcançar vários metros de extensão. Não imagino essas raízes, da altura de um muro, sendo maltratadas por alguém.

Ainda com a notícia martelando na cabeça, cheguei ao hospital para ver o caso de um idoso de 83 anos, que apresentava abscesso na borda costal esquerda, há três meses. Havia um chamamento no peito: incisão esternal para acesso à revascularização do miocárdio (ponte de safena), ocorrida há quatro anos. Na cicatriz havia uma fístula cutânea, minando pus; outra à altura do umbigo, também purgando. Convivia passivamente com aquele fardo. A família foi incisiva: “o abscesso da lateral não tem nada a ver com a operação cardíaca, por isso lhe chamaram”. Perguntei-lhe o que tinha a dizer acerca da supuração próxima ao umbigo, tão distante quanto o dito abscesso.  

 O corpo humano é um sistema estrutural complexo nos quais ossos, músculos, órgãos e tecidos funcionam de forma integrada para manter equilíbrio e garantir a sobrevivência do organismo. Os diversos componentes do tórax estão conectados com todo o corpo humano. O esterno é um deles. Funciona como aquelas sapopemas. Digamos que as cartilagens presas ao esterno, assim como músculos, nervos, vasos e sistema linfático sejam exatamente essa conexão estrutural representada pelas raízes das árvores.  

O que o vozinho tem, de fato, é uma osteomielite crônica fistulada do esterno. A infecção é óssea. É frequentemente causada por bactérias que invadem o osso por disseminação sanguínea ou por contigüidade - como nos procedimentos cirúrgicos cardíacos. O comprometimento do esterno pode levar à destruição progressiva do osso, afetando a estabilidade da floresta torácica e toda a eco-vizinhança. É um desses transtornos que nenhum cirurgião pode se esquivar.

A relação conceitual entre anatomia humana e arquitetura da natureza leva-nos a correlacionar os mecanismos da osteomielite esternal com a estrutura radicular da samaúma. A abordagem comparativa entre os dois sistemas explora conceitos de suporte estrutural, disseminação de dano, adaptação ecológica e integridade funcional.

Aí nasce um novo conceito: o de biofilme. Ou seja, há a contaminação, persistência de bactérias em microambientes, que contribuem para destruição óssea e falha terapêutica. Esse biofilme entra em hibernação e à medida que o tempo vai passando as bactérias vão se enraizando pelas camadas mais profundas por contigüidade, até purgar no próprio leito esternal ou mais adiante, como no umbigo e rebordo costal do vozinho. Esse caminho pode durar meses ou anos, até eclodir um furúnculo mais distante e ficar jorrando pus eternamente, configurando as fístulas. É o caso do nosso acima, cuja infecção caminhou pelo forro da caixa torácica, até chegar à região condrocondral, como se fossem sapopemas.

Assim como a samaúma sustenta a floresta com suas raízes profundas, o esterno sustenta a arquitetura do tórax. Ambos são pilares de um sistema maior, onde cada conexão - raiz ou cartilagem - participa de uma intricada rede de equilíbrio e vida. Quando o veneno alcança as raízes da árvore, a floresta inteira pressente o colapso. Da mesma forma, quando a infecção se insinua no osso, ela não se limita a um ponto isolado.

A osteomielite do esterno, tal como o envenenamento da samaúma, revela que as estruturas mais robustas também guardam vulnerabilidades invisíveis. E assim, entre raízes e cartilagens, entre floresta e anatomia, compreende-se o que é interdependência.

  

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

É o fim da cirurgia da tuberculose multirresistente?

 Se quisermos compreender os primórdios

que justificam a criação e a existência da cirurgia torácica e da pneumologia

                                                                       é necessário buscar essas bases na história da tuberculose  

Artur Gomes Neto & Wander Mattos Cardoso,in: Cirurgia Torácica Contemporânea

 

 Os corredores estreitos e ventilados dos velhos sanatórios não apenas rangem nossas memórias, as trituram. Os passos ecoam pelos anos ao ritmo dos tambores tupinambás, que não pedem dança da chuva, mas ovação: há algo novo na liturgia farmacológica do tratamento da tuberculose (TB). 

Uma lâmpada acendeu no fim do corredor: a Bedaquilina. Só ou bem acompanhada, ela tem mudado o tratamento da forma multirresistente (TB-MR). Além de oral, o tratamento atual está associado à Protomanida e Linezolida. É mais curto (6 meses). As taxas de cura superam 85% em algumas séries, e ainda elimina o uso de injetáveis... É um facho de luz na escuridão.

Ressalta-se sobre a cura medicamentosa da TB-MR no Brasil, até então: no máximo 53%, conforme publicação brasileira de Dalcomo e cols (1999), em que o Hospital Barros Barreto (HUJBB-UFPA) fez parte do estudo. Ou seja, sobram pacientes com janelas entreabertas para cirurgia exerética. Foi quando escancaramos a do nosso centro de referência em tuberculose para desenvolver uma observação cirúrgica de 20 anos.

                A Bedaquilina foi implantada no Brasil no final de 2021. No HUJBB-UFPA, centro de referência terciária para tratamento da tuberculose na Amazônia, 84 pacientes foram observados com tratamento por 18 meses (associada à levofloxacino, linezolida e terizidona). Destes, 77% foram curados, com mortalidade de 1%. Desde então, aqui pelas ribeiras do Guamá, nenhum caso operado, ao menos por enquanto! 
    
         É o fim da cirurgia da TB-MR?

Ainda não, segundo French MDR-TB Management Group. A resposta mais honesta: a associação da Bedaquilina, com outras drogas reduz a necessidade de cirurgia na TB-MR, mas não acaba. A cirurgia foi realizada em 12 pacientes (26,7%), com conversão da cultura de escarro em 75%. O estudo é marcado por uma esticada do uso da Bedaquilina por quase um ano. Deu certo, mas tiveram que policiar rigorosamente os efeitos colaterais das drogas, principalmente os cardiológicos. A justificativa dos autores por não se atingir cifras melhores foi a formação de cavidades de paredes espessas que  funcionam como um bunker, a proteger os bacilos de bombardeios de antibióticos; também bronquiectasias extensas e focos mal perfudidos. No relato francês, 80% da população do estudo era do leste europeu e já chegaram com doença avançada.

Eis a diferença entre o material do HUJBB-UFPA e o estudo francês, em que a abordagem farmacológica precoce diminuiu a chance de formar cavidades, por conseguinte, a taxa cirúrgica é menor: zero.

Ao juntarmos os estudos daqui (ainda não publicado) com o francês, poder-se-ia dizer que é um acalento para quem vive na luta contra a TBMR. A Bedaquilina com sua associações melhoram as taxas de conversão de cultura, tempo de tratamento, mortalidade; permite esquemas totalmente orais e reduz falência terapêutica em cenários mais hostis. Resultado direto: Mais cura, menos cirurgia.

Por fim, o paralelo com a oncologia: a introdução de imunoterápicos e o surgimento de novos conceitos não afastaram o bisturi do câncer de pulmão, mas repensaram as ressecções. Ou seja, a cirurgia não perde protagonismo na tuberculose, na verdade torna-se alvo em cenários específicos. Imagine substituir pneumonectomias por lobectomias: é ou não grande avanço? É a esperança que já acontece no câncer pulmonar.

O fato é que, se esquecermos os corredores dos sanatórios de nossas memórias, perderemos esperança e parte de nossa face altruísta, assim como o espírito aberto ao que vier; também nossa confiança junto à ciência, que tem estado em constante ajuste e confronto.

Dalcomo MP, Melo FF, Cardoso N. e cols Estudo de efetividade de esquemas alternativos para o tratamento da tuberculose multirresistente no Brasil. J Pneumol 25(2) – mar-abr de 1999.

French MDR-TB Management Group. Long-term outcome and safety of prolonged bedaquiline treatment for multidrug-resistant tuberculosis. Eur Respir J. 2017 Mar 22;49(3):1601799.


 

Roger Normando, professor de cirurgia torácica, Universidade Federal do Pará.
Carlos Albério, professor de pneumologia, Universidade Federal do Pará e coordenador do centro de referência terciária em tuberculose - Secretaria de Saúde do Estado do Pará.

domingo, 18 de janeiro de 2026

"EDAC" é daqui?


 

Ao despois de depois,

andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova

e eu não gosto de língua inventada.

Sempre arreneguei de esperantos e volapuques.

Manuel Bandeira em carta a Guimarães Rosa, após leitura de Grande Sertão: Veredas.

 

Duas provocações: no título e na epígrafe: “EDAC e “volapuques”, independentes de sabermos o que Guimarães Rosa fez com a língua de Fernando Pessoa; independente do que o cirurgião torácico faz com a língua portuguesa.

Comecemos pelo Bandeira. Volapuques foi a tentativa do padre alemão Martin Schleyer (1831-1912) criar uma língua artificial em 1879, com base especial no inglês e alguns elementos do alemão, francês e latim, cujo ideário de comunicação não foi bem-sucedido (vol (mundo) + pük (fala) → Volapük = “língua do mundo”). Esse padre não é o do balão, mas voou alto para tentar alcançar a torre de Babel.

Já EDAC vem do inglês: Excessive Dynamic Airway Collapse. Isoladamente não significa absolutamente nada para quem não esteja familiarizado com o jargão médico. O paciente quando ouve toma um susto. Apesar de não se tratar de anglicismo consagrado, é sigla repleta de contexto, por isso, antes de explicar a doença, precisa-se explicar a sigla, que carrega certa musicalidade.

(Já pensou EDAC na voz do Sinatra? - EDAC, I did it my way...)

Mas aí me vem o João Aléssio, professor de Cirurgia Torácica da UNIFESP (Escola Paulista de Medicina), com essa: “I'M EDAC! AND YOU, Roger? Depois seguiu: "No Stress! Don't worry...”

Adorei a provocação. Aléssio gosta de polêmicas e discussões frajolas, e quem já acompanhou a “Reunião da Pizza” entre os paulistas sabe muito bem do que estou falando. No mais, ao me provocar, sabe que de alguma forma vou recorrer a Guimarães Rosa.

Vale Manuel Bandeira com um “plus a mais” de Guimarães Rosa? O meu volapuquês foi pra devolver a provocação a João Aléssio com o EDAC.

           Para ele, “A língua é viva e influenciável, mostra bem para onde irá um povo. As culturas mais fortes dominarão as mais fracas, seja pela força das armas e do dinheiro, como influenciando fortemente a sua própria educação [leia-se: tupi-guarani]. O que seria falar e escrever um simples EDAC nos tempos de Facebook, Instagram, Whatsapp, Twitter e até do Tik-Tok? Ocorre que EDAC isoladamente não é nada, é uma sigla de outra língua. Não é um anglicismo de domínio habitual; é uma sigla vazia”. Na postagem seguinte ele grifa: “é perda de tempo quando se tem palavra em português para definir claramente as doenças e se usa o inglês. Sempre dizemos que temos que difundir o diagnóstico do colapso da membrana posterior da traqueia para os pneumologistas e os clínicos. Imaginem... primeiro temos que explicar o significado da sigla e depois a própria doença. It’s not easy! O mundo moderno não deve ser ágil e prático? Para que confusões e ainda com outras línguas e países[?] And...be happy!"

Pelo lado de fora do João Aléssio, EDAC é exemplo qual SIDA/AIDS. Pelo lado neurolinguístico, EDAC, na voz de Frank Sinatra, tem mais sonoridade. Dá até para aportuguesar: O paciente está edaquisado - Don’t worry!!!. Talvez prefiramos EDAC não por desprezo à nossa língua, mas por impulsão, por musicalidade. EDAC inclusive nos favoreceu para escrever o título, deixando a retórica ambígua cuja oralidade se torna provocativa e com estilística típica, quase jazzística. Deixa o texto com o peso de uma pluma.

Essa discussão lingüística volapuquiana, no entanto, não diminui a importância médica do tema. Pelo contrário. Estudos recentes mostram que o colapso excessivo das vias aéreas centrais — englobando tanto o EDAC quanto a traqueobroncomalácia (TBM) — é mais comum do que se imagina e, frequentemente subdiagnosticada. Os sintomas se confundem com asma, DPOC ou refluxo, retardando o diagnóstico correto.

Do ponto de vista anátomo-funcional, há diferenças claras: no EDAC, ocorre a invaginação exagerada da parede posterior da traqueia; na TBM o problema está no enfraquecimento do arcabouço cartilagenoso, que desaba durante o ciclo respiratório. Em que pese a diferença na estrutura anatômica, o impacto clínico é semelhante: tosse intensa, dispneia, infecções respiratórias recorrentes e prejuízo da qualidade de vida.

Mas a melhor notícia vem de longe. Chao, De Angelis e cols. retratam em seu recente artigo (2025) resultados animadores do tratamento cirúrgico. Para os cirurgiões do Beth Israel Medical Center (Boston), a traqueobroncoplastia mostrou melhora significativa dos sintomas e da qualidade de vida, tanto nos pacientes com EDAC quanto nos com TBM, com taxas de complicações e desfechos semelhantes entre os grupos. Exatamente o que observamos em nossa prática cirúrgica. Em outras palavras: independente da sigla, tratar as disfunções das vias aéreas centrais funcionou bem para os 73 bostonianos que fizeram parte do estudo, com melhorias significativas na qualidade de vida e no teste de caminhada de 6min.

Escrever sobre essa polêmica não é só gesto de simpatia aos que apreciam a ambigüidade lingüística, mas acima de tudo uma divisória semântica no diagnóstico, jogando xadrez com as palavras. Esse é, a nosso ver, a maior mensagem, independente se estejamos ou não criando uma espécie de "esperanto-volapuque cibernético universal”, conforme aferiram João Aléssio e Manuel Bandeira.

Bom saber que existem esses defensores da língua-pátria. Eles mantém-se com seus volumes correntes pulmonares sem forçar a necessidade de outras línguas. Já não basta o que fizemos com o tupi-guarani e o nheengatu?

 

 Referência:

Cho JM, De Angelis P, Mathew F e cols. Tracheobronchoplasty for Excessive Dynamic Airway Collapse and Tracheobronchomalacia: A Comparative Analysis of Distinct Airway Disorders. Ann Thorac Surg 2025;120:1062-71.


Roger Normando. Professor de Cirurgia Torácica - Universidade Federal do Pará.