sábado, 1 de janeiro de 2022

Scamparini acerta tiro direto no meu peito

                                                                          There's a lady who's sure all that glitters is gold

And she's buying a stairway to heaven

Led Zepellin, na canção: Starway to heaven.

 

“No dia em que Yana Milinic resolveu ir para a guerra, já tinha tomado a decisão irrevogável de morrer”. Assim está a primeira frase de “Atirem direto no meu coração”, estreia de Ilze Scamparini no campo da literatura. Ao final da obra, a autora paulista, correspondente da Globo em Roma, nos arrebata e queda ao chão com seus estilhaços literários. Foi grata surpresa. 

Sou, há muito, admirador do jornalismo cantarolado de Ilze. A forma como sonoriza seus textos, em parte, está na obra. Li como se tivesse o ouvido grudado num áudio-livro, com a voz de Ilze ao pé da orelha. É leitura com fundo musical: Led Zepellin. Porque há rajadas de guitarras em meio a um texto de resistência ao establishment.

Descobri essa nova Ilze atravessando as ruas de Botafogo, numa livraria de renome. Andava me ocupando da saúde da família, quando achei um tempinho de visitar a tal livraria, além de saborear um bom cafezinho, como sempre faço quando vou ao Rio.

Logo na entrada me deparei com o livro. Retrata a guerra de Kosovo, um pequeno pedaço de terra onde cristãos ortodoxos digladiam-se com  albaneses e muçulmanos pela posse territorial, após a ruptura da Iugoslávia de Tito. Sem querer entrar no mérito internacionalista, Ilze se transforma em Paola durante seu relato e consegue traduzir o sentimento da sérvia Yana Milinic, a personagem principal que vendeu a alma ao diabo, por conta de seu nacionalismo beligerante. Numa das cenas ela invade pequeno hospital e, com sangue nos olhos foi capaz de atirar na cabeça do cirurgião em pleno campo operatório e no paciente que se encontrava sobre a mesa de cirurgia, com o abdome aberto. Ambos ficaram na pedra. Por sua vez foi capaz de chorar sobre o corpo de uma criança fuzilada pelo parceiro de farda.

Para relembrar essa guerra já esquecida, Scamparini dá ouvido à guerrilheira Yana, entre vários encontros, e também revigora-se por meios de revisão historiográfica. Na época, 1998, por conta de questões étnicas, Kosovo tentava ser independente, mas o governo sérvio do ditador Slobodan Milošević não estava disposto a ceder. No romance, a protagonista Yana veste a farda da Raposa Vermelha, grupo miliciano ultranacionalista que defende a cartilha do ditador.

A narrativa é taquicardizante. A sensação é de o leitor estar nas trincheiras da guerra, ouvindo rajadas dos Snippers, aviões da OTAN passando por cima da cabeça e torcendo por Yana no octógono contra Lady Tortura. Se quiserem entender visceralmente a guerra de Kosovo, não comprem livro de história. Viagem para o terreno kosovar nas asas de Ilze, que se faz Yana pelo lado de dentro dos sérvios da resistência, que buscaram com faca nos dentes a independência política de seu povo.

Até a sede que Yana sofre escalando as colinas foi transferida para mim. Naquele momento fechei as páginas do livro e fui até a geladeira tomar uns goles para ajudar a corrigir sua desidratação, pois a descarga de adrenalina que escapava da leitura atingiu minha goela em cheio; perdi o sono.

Ao escolher vestir a farda da resistência, Yana foi iluminada pelo avesso dos breus. Era quem enxergava o caminho em noites de lua cheia ao lado de seus companheiros. Não via riscos em tropeçar nos medos que a sua razão de mulher do campo semeou ao longo do tempo pendurado na baioneta de seu fuzil.

sábado, 18 de dezembro de 2021

Cirurgia de traqueia: Um lustro ilustre e seus elos no mesmo paralelo

         Dezembro, nove, 2021. A data representa o dia em que recebemos a notícia pelo diretor do hospital Galileu que o PROGRAMA DE CIRURGIA DE TRAQUEIA havia sido reaprovado pela atual diretoria, com apoio da Secretaria de Saúde do Pará. Ou seja: seguiríamos por mais uma temporada dando voz aos silenciados pelas avarias e seqüelas da entubação e outras mazelas.

O programa nasceu para aliviar cerca de 20 pacientes que batiam à porta de hospitais, sem haver eco. A previsão era de seis meses de duração, com provável prorrogação para mais seis. Ao longo da jornada ele precisou esticar, por conta da necessidade de contemplar o interior do Estado. Também surgiram as estenoses da laringe – espécie de “terra de ninguém” -, envolvendo a glote e a subglote, assim como os ferimentos cervicais complexos, fruto da degoladora violência urbana. Hoje completamos o quinquênio.

Essa extensão do programa, em que pese torná-lo mais complexo, teve como desfecho positivo o fato de não ter ocorrido transferência de tratamento para outros centros (TFD), e acabamos nos abastecendo  da expertise. Isso, para uma política de saúde pode representar vitória não só no plano econômico, mas principalmente humanístico, sem esquecer a contribuição científica e o congraçamento com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica, pois temos recebido cirurgiões de diversos centros.

Por sua vez o organograma do hospital criou uma ala específica, com clínicos habilitados para conviver com os detalhes da doença, além de insumos totalmente voltado para este de programa.

Por tudo isso, resolvemos comemorar o lustro com caso desafiante: estenose de 3cm a dois anéis da Carina traqueal. Ou seja, aos olhos dos brônquios, lá embaixo. Ao serrar o esterno, estávamos entremeado pelo coração, veia Cava, Aorta e Esôfago. A lesão estava atrás das artéria e veia Inominada. Não precisaria definir como estruturas nobilíssima. 

Havia um campo visual limitado, onde tivemos que nos revezar para findar a operação. Para comandar a batuta convidamos o presidente da SBCT, Artur Gomes, um apaixonado pelo tema. E para testemunhar o fato, mais dois estrangeiros - um carioca e um maranhense - ajudaram a soprar as cinco velas desse aniversário, cuja comemoração foi dentro do próprio centro cirúrgico com todas as fontes de oxigênio ligadas e uma explosão de desafios e resiliência. O procedimento durou mais que o esperado, mas o resultado foi surpreendente, com o paciente precocemente em casa, respirando normal – e sem cânula de traqueostomia -, desafogando a fila que já recebeu mais de duzentos pacientes e ainda tem uma carrada pela frente.

Naquele sábado, antes de aterrissar no centro cirúrgico, demos uma parada na conveniência da esquina, anexa ao posto de gasolina, para degustar um café e ganhar tutano. Naquele momento fizemos um rearranjo da estratégia cirúrgica. Na hora de pagar a conta, o proprietário, um velho amigo de ensino médio, pediu para “deixar pra lá”, louvando aquele trabalho e os convidados ilustres. Era um bom sinal; aquele tipo de gente era a mesma que iríamos encontrar no Galileu. Dito e feito. Fomos recebidos pela equipe de anestesia, enfermagem e pelo diretor da instituição que, após breve apresentação, nos liberou para o campo de batalha.

Se há algum sucesso para esse programa, diríamos, foi pelos olhares que os todos deram, assim como pela brilhante ideia dos gestores que tiveram músculo para aguentar o programa durante dois anos de epidemia. No total, recepcionamos mais de 25 cirurgiões do Brasil (RS, AL, PR, RJ, PE, MA, GO, AM, AP, DF) e até estrangeiros para apresentar o serviço e vivenciarem os casos. Ninguém menos que os professores José Camargo (RS) e Paula Ugalde (Canadá/EUA) deram vozes ao programa, assim como os demais cirurgiões de ponta - que não são poucos.

Não obstante, acabamos mais aprendendo que ensinando.  Em alguns casos usamos alta tecnologia com laser – com patrocínio das grandes empresas -, mas o que mais aguça o programa são as intervenções cirúrgicas envolvendo laringe e traqueia. Embora não disponhamos do arsenal tecnológico de ponta, seguimos no programa sob as letras de Ernest Hemingway: “agora não é hora de pensar no que você não tem. Pense no que você pode fazer com o que existe”.

Seguimos, doravante, criando esse elos...

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Gato Preto V - O mundo de Edgar Allan Poe

Para a mais louca e, ainda assim, mais caseira narrativa que eu escrevi, não esperei nem solicitei sua crença. Esperava mesmo que fosse ficção, casos nos quais meus próprios sentidos rejeitam a evidência. Ainda assim, não estou louco - e muito certamente eu não o sonhei. Meu propósito imediato é colocar, perante o mundo, simplesmente, sucintamente e sem comentários, uma série de meros eventos mundanos. Ainda assim, eu não tentarei explicá-los. Para mim, eles representaram nada além do gosto pela literatura - para muitos, eles parecerão menos terríveis e mais barrocos. Daqui em diante, talvez, alguma ideia possa surgir e reduzir meu fantasma a um lugar comum - alguma ideia mais calma, mais lógica e muito menos excitante do que a minha, e que perceberá, nas circunstâncias que detalho com assombro, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos bastante naturais.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Gato Preto IV

Quando mais jovem, Mundinho visitava Algodoal, pequena ilha na costa amazônica do Atlântico. Lá conheceu a Luiza Brunegra, uma mulher linda que gostava de batida. Mundinho tinha carestia de dinheiro, mas reservava alguns trocos para momentos libidinosos, quando a noite brotava naquele lugarejo, ao som do carimbó. Então sacou do bolso suas parcas finanças para comprar de batida de Genipapo com Gato Preto. Beberam até o talo. Ao avançar a noite, Mundinho queria moer a solidão da sua linda, mas ela não tinha ignição. Então ele pôs a moça nas costas e desapareceu pela estrada de areia.  Quando chegou à casa dela, ainda havia uma escada íngreme. Ao tentar escalar o primeiro degrau vomitou todo o Genipapo, ficando dentro de seu estômago apenas o gato. Voltou rastejando e ouvindo a voz do gato por cerca de uma semana. Até hoje, quando mira um Felis Catus, Mundinho sente-se nauseabundo.

Gato Preto III

Era meia-noite de sexta-feira-treze, quando Gato Preto cruzou a estrada, após ter passado por debaixo da escada. Jerônimo vinha a 80 e tentou frear. Não deu. Acertou o gato em cheio. Fez questão de enterrar. Caminhou no sentido da floresta, que tinha um fundo azul, cuja lua iluminava a dança, a roda, a festa. Chorando, lá despejou o gato. Na última mão de areia, outros gatos e um lobisomem surgem e atacam. Com medo, e o coração saindo pela boca, Jerônimo pegou o beco em disparada. Tropeçou e caiu na beira da estrada. Vinha um carro prata a 80, que passou por cima de seu braço estirado. Teve o rádio fraturado, segundo o ortopedista. Ficou bom tempo na tipoia. Todas as sextas-feiras-treze, ao ligar a ignição do carro, o rádio disparava um “Secos e Molhados”.

Gato Preto II

 Era casa com um vasto quintal, cheio de árvores e passarinhos. Vez por outra o gato preto da vizinha pulava para o quintal do pirralho. O pirralho, sem os pais saberem, colecionava pedras de brita, de uma construção ao lado. Enquanto os pais tiravam sesta, o pirralho costumava caçar passarinho no quintal, mas o gato preto da vizinha era alvo mais fácil. Não matou passarinho, mas certo dia acertou o gato, que ficou cego.  A vizinha jogou praga pro pirralho, dedurou aos pais e o menino sofreu castigo severo. Quando a vizinha morreu de infarto e de desgosto, o gato ficou atazanando o moleque, até que certo dia, ao verter água, viu pedrinhas sair pelo seu passarinho, que se assemelhavam àquelas que jogava no gato. Os pais procuraram o médico de rins. Era caso de operação. O menino se tornaria médico veterinário.

Gato Preto I

 Uma jovem hipocondríaca se dizia asmática. Relatava que tinha um gato dentro do peito. Foi ao médico em busca de solução. Descobriu um com habilidades manuais em doenças do peito. Percebendo o psicodistúrbio o dito médico propôs que retirasse o gato através de cirurgia de peito aberto. Ela ficou feliz. Após fazer avaliação pré-operatória, na sala de operação, o cirurgião traçou um raso e pequeno risco na pele do lado esquerdo e depois costurou. Tirou de dentro de sua mochila um gato branco. Deu para a jovem assim que ela despertara da anestesia.  Duas semanas depois ela volta dizendo que não era aquele gato. O gato dela era preto e estava no lado esquerdo.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

SUSrealismo literário


           Somos obrigados a tomar decisões

que costumo chamar de decisões de carne e osso.

Ali, à beira do leito, olhando para a expressão de sofrimento do doente,

estamos expostos, contaminados pela emoção.

Marcio Maranhão, em: Sob Pressão, 2014

         Flanando pelos sebos cariocas, num roteiro que sempre gostei de fazer pelas cidades onde passo, encontrei SOB PRESSÃO, na Buarque de Macedo, Largo do Machado. Findei a leitura num fôlego só, aliás, durante um voo de cerca de três horas até Belém. Estupefato e taquicárdico, retornei ao início do livro e achei o telefone do autor em dedicatória ao amigo Ronaldo Gomes. Então, após aterrissagem, abandonei minha timidez e enviei uma mensagem ao autor, parabenizando-o pela obra, que a meu ver mereceria ser premiada - se é que já não foi.

Descobri que Marcio Maranhão é um cirurgião torácico, também formado no Rio de Janeiro. Alguns dos personagens daquele livro eu conheço: Carlos Alberto Guimarães, grande cirurgião desde os tempos de minha passagem pelo Rio como residente e depois em congressos e UNIFESP; o Miraldi começando a carreira. Mas o que mais importa é que o livro emociona. O tempero é apimentado em pitadas mais rascantes a provocar ciúmes a Atul Gawande, Groopman, James Cole, Henry Marsh e outros consagrados médicos da literatura saxônica.

Sem deixar de fora a linguagem regional, a narrativa sobe os morros cariocas municiado das verdades que compõem o SUS surrealista, ao destripar a saúde pública brasileira com a destreza de um bom e titulado cirurgião. Quem o lê e viveu aquela atmosfera sente-se um personagem do livro, quiçá, o autor, dada sua realidade pruriginosa. Para que melhor me entendam, Maranhão se apoia tanto sobre o SUS quanto em sua biblioteca, ao visitar Nietzsche, Moacyr Scliar, Zuenir Ventura e outros mais. Viaja numa ambulância do SAMU com os vidros abertos e sirene em alerta, em busca de palavras e formas para descortinar o caos da medicina em sua “amplitude mais nefasta”, como retrata o autor.  

Destarte, vivi a nítida impressão que o seriado da rede Globo tinha como fonte de inspiração aqueles relatos - e isso talvez já lhe seja um prêmio. Quando retornou a mensagem, Marcio me confirmou e, mais que isso, ficou intrigado com a forma que eu havia traçado o caminho para contar essa história. 

Confesso que não assisti nenhum episódio televisivo, mas deverei prestar mais atenção, enviesado por esse tique-taque narrativo, agora em carga audiovisual.

Guardando devidas proporções, os caminhares literários do autor se transformam num imaginário bem visceral, que me fizeram relembrar o consagrado TROPA DE ELITE, uma película marcante na história do cinema brasileiro contemporâneo. Ao relatar tal fato a Jorane Castro, em conversa de corredor de hospital, a professora do curso de Cinema da Universidade Federal do Pará bate com a mão na mesa e diz: "é melhor que Tropa de Elite".

Então, para finalizar, mandei na postagem mensagem um pequeno texto do poeta francês Paul Valéry, que também achei no mesmo sebo: "Belo instante, sacada do tempo. Tu sustentas por meio de um homem [narrador] um olhar de universo, uma parcela daquilo que existe contra toda coisa. Respiro em ti uma potência indefinível, tal como a potência que há no ar antes da tempestade".

Pedi ao escritor que não se esqueça de agradecer a Ronaldo Gomes por tamanha generosidade...

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Relicário biográfico do Água Preta


 Quem, naquela época,

que fazia parte do círculo de amizade dos Normandos,

que não tenha recebido o afeto de dona Marina

e os seus maravilhosos lanches...

Zeca, filho de nossa infância acreana

 

Deus, como bom relojoeiro, havia construído e dado corda no grande relógio universal. Ao pôr pra rodar os ponteiros do tempo, após esse máximo ato inicial, o Criador teria se retirado, fechado a cortina e deixado a criatura em perfeito exercício para dar os primeiros passos para desvendar Gaia. Depois era só se achegar ao que hoje se conhece como Água Preta e beber um gole de vida.

Foi há cinco anos, em quase quatro horas de voadeira, na maré baixa, que partimos de Santarém, desviando bancos de areia. Atravessamos boa parte do rio Tapajós, singrando o encontro das águas com o gigante Amazonas, no prumo do desconhecido, até varar no que chamamos cafundós do Judas, ou melhor, Água Preta, d’onde minha mãe havia sido parida pelos espasmos da floresta. 

No lugar, distante das ondas cibernéticas, havia uma casa modesta e uns parentes, de bubuia, à nossa espera. Ancoramos, escalamos barranco, proseamos, tomamos café de coador e sentimos a atmosfera do lugar. Ali afoguei a curiosidade em saber como fui parar no útero de minha mãe. Ou seja, precisava entender como o ponteiro giraria para completar a volta do relógio universal.

Tudo porque passamos parte da infância no interior do Acre e Rondônia, ouvindo as vozes daquele lugar, feito um sonâmbulo hamletiano de "ser ou não ser". Só depois é que aportamos em Belém do Pará, mas, à medida que fomos crescendo, ela foi deixando de contar sobre a infância das ribeiras. Paresque ela sabia que a medida que os músculos tufavam e o pomo protuberava já não tinha tanta graça contar sobre sua vida de criança. Haveria, sim, de estar construindo outras infâncias -  as nossas. 

Diferente de nosso pai, com infância mais sofrida em Boa Vista, ele se silenciava. Com alguns goles de cerveja tentava iniciar, mas começava a soluçar e nunca findava. Nem o nome do pai ele dizia, e sequer sabíamos se ele sabia. Só o da mãe, cujo nome foi emprestado a uma de minhas irmãs. Nosso pai ficou como o segredo indecifrável - e já se foi.

Depois da infância, minha mãe aportou em Santarém, para ser criada em casa de família e ajudar em tarefas do lar. Virou aplicadora de injeção na Farmácia Veloso, na Siqueira Campos, a única da cidade, até se casar e pegar o beco, no rumo do Acre, rio Juruá, onde começa nossa história. Também contava versões de sua Santarém, de suas irmãs de trabalho Ilka e Júlia. Suas memórias nos levavam a conhecer Água Preta e Alter-do-Chão, mas o tempo escasso me empurrava pro tatame, até fazer aquela dita viagem.

Minha mãe entrelaçava os filhos tal como fios de palha (ou linho, digamos), aprumando destino na cadência de cada traço, sem deixar de mostrar-nos os nós. Daí foi desatando um-a-um até chegar aos quase 87 e se casar com mister Parkinson. Também teve uma filha que pediu emprestada ao útero da terra e só largou quando já tinha uns quarenta. O mais novo, hoje com mais de cinqüenta, ficou com ela até o ponteiro do relógio findar a volta e esperar o canto do Cuco em pleno outubro dos sinos de Nazaré. Dos seis filhos, chegaram 11 netos e uma bisneta por nome Alice Marina. Esta-umazinha deu fim ao legado que seus olhos alcançariam. Entre os netos, uns tem nome de santo, outros são misturados com a modernidade, sem deixar de escapar outra Marina entre tantos YaNormando - por conta da origem roraimense do patriarca e a intima convivência com os verdadeiro donos da terra.

Ou seja: O tempo não passa impunemente para ninguém, mesmo aos que nasceram com os genes da Água Preta. Ela, sim, forma conosco uma corrente em movimento e de mudança para estarmos juntos, feito dança e pingos de chuva das duas da tarde, representando pra nós, enquanto houver vida em todos os tons, o sentido da finitude, para que nos preservemos até que rasguemos a passagem de volta e nos leve para muito além das aguas do Água Preta.

domingo, 17 de outubro de 2021

PELOS VEIOS VIVOS DA MEMÓRIA: DE HALSTED À SEGMENTECTOMIA PULMONAR NO CÂNCER PRECOCE

 

– Doutor...

– Doutor –  repetiu Jane Crawford – que é isto?

McDowell encarou e respondeu:

– Creio que um tumor.

Ela tornou:

Corte essa coisa, doutor! Eu resisto ao sofrimento!...

O diálogo data de 1809. Até então, as dores de uma operação eram aliviadas pela reza de um salmo em voz alta ou com pedaço de pano entre os dentes, com a mandíbula em trismo. A obra de Jurgen Thorwald, O século dos cirurgiões, atinge, num grau de extremo excesso as mais delicadas – ou brutais – e quase inatingíveis circunvoluções da memória da cirurgia.

Exploradora desses plainos abandonados que a brisa do cotidiano sopra, a anestesia só chegaria ao assoalho dos teatros operatórios 40 anos mais tarde, pela via inalatória, com o éter sulfúrico e o gás do riso. Era o alvorecer do novo testamento da bíblia cirúrgica, cujas primeiras páginas haviam de ser escritas por William Halsted.

Pai de grande parte – senão da maioria – do pensamento cirúrgico americano do final do século 19, e boa parte do 20, William Stewart Halsted (1852-1922), nascido em berço de ouro, deixou raízes profundas em seu roteiro de vida. Tomou-se de fama não só pelas habilidades manuais, mas pela valentia de enfrentar o câncer na ponta do bisturi, quando só existiam fé em Deus e resignação.

Ele criou a mastectomia radical, primeira forma de tratamento da neoplasia de mama– hoje à sombra do passado.A técnica consistia na retirada completa da mama, incluindo músculos da parede, arcos costais, tecido supraclavicular (incluso a própria clavícula) e axilar. Alguns de seus seguidores retiravam até tecido mediastinal, passando a criar a ultrarradicalidade. Assim resplandeceu a “atmosfera halstediana”, que se tornou boom e percorreu todos os EUA. Também se infiltrou em outras especialidades, entre elas, a própria cirurgia oncológica pulmonar. A operação de Halsted desprezava o tamanho e extensão do tumor. O lema era aplicar a “teoria centrífuga” e realizar a mutilação.

Para o escritor Siddhartha Mukherjee, essa “atmosfera halstediana” quase secular mereceu algumas considerações críticas, conforme descreve em seu premiado best-seller O imperador de todos os males: uma biografia do câncer (prêmio Pulitzer 2011). Mukherjee faz uma espécie de autópsia da cabeça de Halsted, tentando entender a raiz daquele roteiro. Ele encena um velório de 90 anos e formula crítica mordaz à teoria: “o trabalho do cirurgião era conter essa difusão centrífuga, cortando cada pedaço dela no corpo, como se agarrasse a roda no meio de um giro. Isso significa tratar de forma agressiva e definitiva o câncer incipiente. Quanto mais o cirurgião cortava, mais curava”. Fica claro pela narrativa de Mukherjee que, a teoria de Halsted deixa grande atraso na cura do câncer de mama.

Genius on the edge: the bizarre double life of Dr. William Stewart Halsted (também de 2011, sem tradução para o português), obra do escritor e cirurgião plástico Gerald Imber, revela outra face do que foi considerado o maior cirurgião estadunidense. Era adicto, rígido, dolorosamente tímido, recluso, inacessível, muitas vezes severo, sarcástico e até cruel. Em suas reuniões de poucos amigos, substituía o cafezinho da tarde por doses de morfina, prenunciando o comportamento da era pré-cocaína de Nova York. Durante as férias em sua fazenda, quando relaxado e feliz, era um anfitrião encantador. Fica a questão: os delírios límbicos de Halsted foram responsáveis por esse encaracolamento da história do câncer, ou era mesmo um cidadão de bravatas? Ainda: seria a evolução natural do conhecimento, sendo Halsted o mensageiro da agonia?

Para a maioria dos seguidores de Halsted, seu maior valor está em seu invencionismo frente a dilemas inestimáveis como o câncer, quando nada se tinha além dos templos sagrados para orações. Naquele crepúsculo do século XX tentou-se eliminar, sem sucesso, o tumor de mama somente com radiação. A quimioterapia inexistia e foi somente em 1970 que apareceu a adjuvância; um pouco mais tarde, em 1986, é descoberto o HER2, iniciando a terapia-alvo. Nesse diapasão, dada a alta prevalência do câncer de mama, a arte no cabo do bisturi pedia salvo-conduto, e Halsted apresentava-se como destemido, fazendo de sua virtude de cirurgião o ideário de uma época.

A cana de braço com os halstedianos começa em 1950, quando os Crile – pai e filho –, discípulos do próprio Halsted, juntamente com Bernard Fischer, reacendem as ideias do jovem londrino Geoffrey Keynes, que combinava radioterapia a cirurgias econômicas. Quando expôs seus relatos, em 1924, Keynes foi zombado e suas ideias antirradicalistas foram sepultadas diante dos musculosos halstedianos.

Keynes tinha visão futurista, porém só possuía relato de casos ante a grande amostra dos adversários. Sofreu chacota e teve que sair de cena. Os trials, duplo-cegos randomizados e meta-análises amadureceram bem depois, e desaguaram no que se conhece hoje como medicina baseada em evidência, que só começou a gerar algum impacto bem depois da Segunda Guerra e com a criação da Cochrane Library. Foi nesse suporte que Crile – pai e filho – e Bernard Fischer traçaram novos caminhos.

 Nota-se, ao longo da leitura, que a tinta da caneta de Mukherjee mergulha em pH ácido e submete o extrato cirúrgico a uma escala secundária: “Os cirurgiões que tinham criado o mundo da cirurgia radical, a duras penas não tinham, absolutamente, incentivo nenhum para revolucioná-la”. O escritor reitera que “o evangelho da profissão cirúrgica” começou a amarelar suas páginas em 1973 com a chegada definitiva da “mastectomia econômica” associada à quimio/radioterapia, após estudo comparativo em larga escala.

Decerto Mukherjee romanceia o câncer como ninguém, mas deixa Halsted como um malfeitor. Cria uma aversão ao passado, mas sem dar vigor à quimioterapia, restrita a mostarda, alcaloides e folatos. A irradiação era com isótopos de polônio e rádio, estudados pelo casal Curie ainda no fundo de um galpão. Bem depois é que chega a bomba de Cobalto e as coisas envergam. A arte na ponta do bisturi, não obstante, era a única forma de desfigurar o rosto infame dos cancros.

Halsted fundou um séquito gigantesco de estrelas ao criar o primeiro programa de residência médica na história, no famoso hospital Johns Hopkins, após passar uma temporada com Theodor Billroth, em Viena. Lá desenvolveu operações originais para hérnia, bócio, aneurismas, doenças intestinais e da vesícula biliar; foi um dos primeiros defensores dos procedimentos assépticos; introduziu o uso de luvas finas de borracha. Sua ênfase na manutenção da homeostase completa, ou metabolismo corporal equilibrado durante as operações cirúrgicas, delicadeza no manuseio de tecidos vivos, realinhamento preciso dos tecidos cortados (postulados de Halsted) e sua criação de residências hospitalares em treinamento contribuíram muito para o avanço da cirurgia nos EUA e mundo afora, além da criação de diversos instrumentais cirúrgicos. A mastectomia foi apenas mais uma de suas vastas contribuições, ou seja, Halsted participa gloriosamente da história da cirurgia moderna em todos os seus matizes.

Qualquer filósofo definiria Halsted como um escolástico, ou seja, buscava associar a razão aristotélica –e platônica– com a fé (na arte), ao viver a experiência do olhar cirúrgico daquele momento, que acabava de emergir dos teatros cirúrgicos de Baltimore e Nova York. Mas Mukherjee leva para sua narrativa o desmascaramento do mito que jamais existiu. Halsted apenas foi uma forma de vida que surge na história universal com nova mentalidade, mas foi tratado como se tivesse feito crimes nefandos e de espectros medonhos. São capítulos de teor antropofágico.

Foi nesse solo agitado que se semeou o amanhã da terapêutica do câncer. Não foi diferente na tuberculose, úlcera péptica e esquizofrenia. Para desavisados: o italiano Forlanini também teria retardado o surgimento da quimioterapia antituberculose ao apontar o bisturi para o pulmão; diriam o mesmo de Billroth e Latarjet para úlcera péptica, antes do H. pylori; não seria diferente em relação a António Moniz e Almeida Lima, da Universidade de Lisboa, para a lobotomia frontal no tratamento da esquizofrenia. 

Sobre a cirurgia pulmonar, é possível que a atmosfera halstediana e a teoria centrífuga tenham passeado pela calçada de Evarts Graham, ao tratar um nódulo pulmonar com a retirada de todo o pulmão. Para Rodney Landreneau e Matthew Schuchert (2019), a teoria centrífuga também foi defendida pela maioria dos cirurgiões torácicos da época ao elegerem a pneumonectomia como a única ressecção apropriada para o câncer. Embora a lobectomia tenha começado a ser utilizada em meados do século 20, não foi considerada uma alternativa até 1962, quando saiu o trabalho seminal de Shimkin e cols. acerca da equivalência da sobrevida entre lobectomia e pneumonectomia para câncer precoce.

Mais à frente Mukherjee amortece o verbo: “para mudar a cirurgia é preciso ser cirurgião” e descreve o início da jornada da cirurgia conservadora para o câncer de mama, quando Bernard Fisher emplaca cientificamente a “mastectomia simples” em publicação revolucionária (1973), com ensaio multicêntrico e rigor estatístico apurado.

Consonante a 1973, nasce a cirurgia oncológica conservadora pulmonar. Foi pelas mãos de Robert Jensik, de Chicago. A publicação memorável foi no J Thorac Cardiovasc Surg. Ele relata sua experiência de 15 anos, após sua vivência (e convivência “na pele”) com a tuberculose. Acabou por transferir ao câncer o conceito de ressecção segmentar de pulmão, deixando, peremptoriamente, um contraponto à lobectomia e pneumonectomia em cânceres precoces. Sua refinada técnica, infelizmente, tornou-se arte perdida por mais de 20 anos, quando Robert Ginsberg e o Lung Cancer Group (1995) entram em cena e revalidam suas ideias com o famoso Randomized trial in limited resection in T1N0M0 NSCLC. Ginsberg fez com Jensik o que os Crile e Fisher fizeram com o Geoffrey Keynes em relação à cirurgia conservadora da mama, porém sem desqualificar Graham.

Com a crescente da cirurgia torácica pela VATS/RATS, a segmentectomia encurta os passos na caminhada para a cura do câncer precoce, conforme revê Ramón Rami-Porta, cirurgião da Catalunya. Ele ainda acrescenta, em suas caminhadas pelas ruas da pacata Terrassa, que a “linfomania” deve seguir rigorosa.

A criticidade de Mukherjee tenta arranhar o legado halstediano, que revive duas eternas questões, descartadas em sua obra: a permanência enraizada da arte no meio cirúrgico – quando não havia outra alternativa; e os avanços tecnológicos, que fazem perdurar e seduzir o pensamento clínico como tentativa de corrigir “erros” de outrora. Se esses dois cognatos ofuscaram nossa alfabetização científica, certamente não foi por Halsted, conforme retrata Peter Olch, um halstediano convicto que, se vivo estivesse, rasgaria algumas páginas de a página 243: “A cirurgia, tradicional machadinha de guerra no combate ao câncer, era considerada primitiva, indiscriminada e desgastante demais”. 

A bem dizer, os feitos da medicina sempre se instauram a cada cruzamento de achados (papers) na relação tempo-espaço, de modo a deixar um invólucro do vivencial exposto em atmosferas acadêmicas, enlaçada por uma discussão ética confortável, mesmo sendo apenas na hora de tomar um cafezinho em intervalos de congressos. Há de se ratificar que questões como as das neoplasias fogem a apreciações lineares diante de tantos alcances e progressos. Mukherjee, um oncologista nato e apaixonado por literatura, faz uma releitura inflexível da história e deixa seu texto anacrônico, sem esforçar para reconhecer uma era. Obviamente que o leitor atento, no alto da montanha, em transe tibetana, não se deixará levar por essa dissonância cheia de armadilhas em sua intertextualidade.  Se a obra premiada procura negar a autonomia de uma era tribalista, quando só tínhamos o silêncio das mortes, não podemos torcer o nariz, tampouco jogar ao relento o despertar daquele homem, mesmo diante de teorias científicas imaturas.

Não há dúvida que a atmosfera da época, repleta de arte na ponta de bisturi, foi ovacionada e aplaudida, mas agora, as nuvens de incenso que subiam dos altares erguidos em sua memória, dissiparam-se pelas ventanias das redescobertas, fazendo surgir novas vertentes. E assim, foi-se dando terreno às evidências científicas, à interpretação estatística dos achados, à genética, à farmacologia, à Cochrane… e o mundo viu a machadinha dos mutiladores serem substituídas por rajadas de agentes químicos e pequenas incisões. 

Aquela atmosfera halstediana eterniza um momento histórico e arranca um átimo da temporalidade, conferindo-lhe perenidade ao tempo, sem eliminar o buquê, a marca, ou mesmo o feitiço que decorrem precisamente de nossa fragilidade científica. Para mudar basta estar inserido na temporalidade, sem necessitar desenraizar o criadouro, pois, se as ideias de um novo legado foram ganhando corpo e cabeça, esquartejá-las com os alfinetes da literatura é o mesmo que olhar o passado pelo buraco da fechadura.

Em Contos do nascer da Terra, do escritor moçambicano Mia Couto, um homem deita-se ao chão e repousa a cabeça sobre uma almofada de areia, até que dorme e sonha com seu mundo. Ao despertar tenta levantar-se, mas não consegue. Chama a mulher e pede-lhe ajuda. Ela olha por debaixo da nuca do marido, puxa-lhe a cabeça, mas em vão. Cavouca e vê que a cabeça do marido criara raízes. Ele pede para cortá-las. A esposa puxa a faca e dá o talho. Não dói, mas sangra e logo coagula. Ela desiste. A vizinhança tenta escavar; quanto mais tentam, mais se chega ao fundo. Retiram toneladas de chão e... nada. Concluíram: as raízes daquela cabeça davam volta ao mundo.


Texto originalmente publicado no 

JORNAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIRURGIA TORÁCICA (SBCT)

domingo, 10 de outubro de 2021

A transversalidade do câncer de pulmão

Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again

Paul Simon & Garfunkel, in: Sounds of Silence

Em “Hamlet”, ato V, cena I, ambientado num cemitério, o personagem Hamlet conversa com o crânio de Yorick. A cena com a caveira à mão se tornou um ícone do teatro universal e da finitude humana. Ao segurar o crânio de Yorick, a arte contempla a morte.

        E a ciência, como olharia para Yorick? O que os pesquisadores procuram são os mistérios da morte, tentando desvendar seus silêncios dentro da célula, por isso o olhar é carregado de serenidade. Ou seja, quando saímos de uma sessão clínica, onde buscamos os melhores resultados para revelar segredos de determinadas doenças para amenizar a escuridão do sofrimento humano. Certamente a ciência olha de soslaio para o crânio de Yorick, tal como retrata a canção epigrafada de Simon e Garfunkel.

Na semana passada, uma sequência de reuniões clínicas evocaram o tratamento atual do câncer de pulmão avançado. Ou seja: nós, feito Hamlet, fitando Yorick, por meio de uma reunião comandada pelo trio SBCT/GBOT/ALAT, com u’a massa densa de médicos nacionais e estrangeiros que estudam o assunto. As ondas cibernéticas tinham alvo único: a América Latina. Um verdadeiro caldo de novidades, como se estivéssemos experimentando uma sopa em alguma esquina de Lima, misturando encantaria e delírio com goladas de piscou sour e esperança.

Sem querer desdizer da quimioterapia clássica, ou da cirurgia moderna - a que me “avicia” -, chamaremos essa esperança de: imunoterapia, cujas bases estão na imunologia contemporânea.

Ao acompanhar as conferências, o que mais impressiona é a quantidade de novos medicamentos para frear o câncer. Multipliquem por zilhares as pesquisas e seus resultados cada vez mais eficazes. Vem daí encantaria e esperança, mas que ainda precisa ser analisada em rodas multidisciplinares.

A imunoterapia traça a busca sedenta para encontrar o Santo Graal do câncer. A idéia atual é embeber o cálice da salvação com anticorpos (substâncias de defesa) ditos monoclonais (clones de laboratório a partir de células do sistema imune - leia-se linfócito T), que representa o que melhor temos de esperança atiradas ao pescoço da ciência. Nesta corrida, laboratórios porfiam para tomar a frente nos melhores desfechos, aumentando nossa confiança, em que pese o os dólares e as dores. Já os cirurgiões, estes ficam hipnotizados com o alumbramento da imunoterapia – basta entender o estudo Pacific com o Durvalumabe, uma dessas novidades.

Olhar e ser olhado criticamente foi um atributo do ato criador de Sheakspeare, e por ele, os médicos-pesquisadores devem encarar Yorick, como a questão mais importante em Hamlet. A voz acesa de Paula Ugalde pode representar o que li na sua rede social após sua ativa participação no evento: “Avanços sempre renovam nossas dúvidas”. A frase é para refazer o olhar hamletiano no silêncio das provocações do nosso bardo, quando olhamos àquele crânio enigmático.

Então: por quê a história do câncer carrega tantos olhares?

Quem nos alenta é Nassim Taleb, um matemático investidor na bolsa de Chicago que lecionou em algumas universidades novaiorquinas e vem se tornando um escritor audacioso e de idéias eviscerantes. O livro “Antifrágil”, regalo de uma paciente operada por um tumor de parede torácica, é um calhamaço de mais de 600 páginas que vem apimentando minhas têmporas, sem abandonar aquele velho navio que singra os mares da literatura clássica e do pensamento consistente moderno. Taleb inicia com a mitologia grega e deságua na nossa reunião científica sobre câncer: “quanto mais se tenta danificar as bactérias, mais fortes serão as sobreviventes” é o pensamento nato para fazer entender o paralelo com o câncer: “com bastante freqüência as células cancerígenas que conseguem sobreviver à toxicidade da quimioterapia se reproduzem mais rapidamente e assumem o vazio deixado pelas células mais fracas”. Taleb e o câncer vem beber na fonte de Nietzsche :”Aquilo que não me destrói, me fortalece”.

Dá-se assim o axioma da imunoterapia: que as células cancerígenas, com autonomia própria, vão se desdobrando para se tornar resistentes às drogas, ao produzirem proteínas chamadas checkpoints. Algumas delas (CTLA-4 e a PD-1, por exemplo), vestidas de paletó e gravata e usando colônia da Phebo, despistam os sistema Imune ao inebriarem as células de defesa (os linfócitos T), que não as reconhecem como meliantes. Vestido de cordeirinho em pele de lhama, o câncer produtor de PD-L1 cresce sob os coturnos da imunidade sem ser notado, para seguir disfarçado com sua espada em punho, por trás das cortinas, a ceifar nossas ilusões.  

O que nos resta, segundo a palestrante e pesquisadora Heather Wakelee (EUA), é apostar nos fármacos que desmascarem estas substâncias falseadoras (checkpoints) e, a partir daí, que o sistema imune passe a reconhecer e aniquilá-las com os anticorpos monoclonais, cujo codinome é esperança.

terça-feira, 18 de maio de 2021

Israel e Palestina

     Desde sempre houve conflito de terra por aquelas bandas. Todos sabiam que por ali, tinha gente debaixo daquele solo servindo de adubo. Era comum aparecer grileiro de terra nova, alguns, é certo, amanheciam com a boca cheia de formigas, mas outros, de forma diferente, olhos risonhos e cheios de conversas e boçalidades. Eram os mandantes dos gatilhos. Na origem, os que mandavam gente para o campo santo.

    Vez por outra a gente ouvia barulho de tiros varando, ecoando e sumindo estirão adentro. Dava medo. Ficávamos imaginando, quem era o dono do gatilho ou, quem era o alvo. Às vezes era só caçador atrás de alguma caça. Só que, zoada de tiro ecoando nas lonjuras tirava mesmo o sossego do povo.

    Não bastasse o castigo do medo, fazia tempo que não caía chuva qualquer, nem chuvisco ou gota de sereno mais forte. A terra, apesar de aguardar o tão esperado plantio, andava triste por falta d’água. Não havia promessa que resultasse, estava há tempos esturricada e o sol cada vez mais escaldante.

    Uns diziam, que eram as queimadas que mudavam e atrasavam mais e mais a chegada da chuva, e, fazia daquele pedaço de chão um verdadeiro inferno de tão quente. Porém, a todo custo íamos sobrevivendo, mas o pior era mesmo a briga entre aquelas duas famílias.

    A discórdia era antiga e a cerca que separava as duas terras também. Ninguém tinha registro na lembrança de como a rixa começou. Só se sabia que família não suportava família.

    Havia uma conversa no tempo que era coisa de amor, diziam que o velho finado de lá, roubou a filha do velho finado de cá. Outros diziam que era coisa de terra mesmo. Destrato de herança sombria. Corria de boca em boca que a cerca já foi puxada para cá e para lá umas quantas vezes, e com isso, levando vidas dos de lá e dos de cá.

    Teve até deputado da capital, em tempo de eleição, vindo aqui, querendo fazer acordo, para no fundo, amealhar votos. Apesar disso, no primeiro encontro teve briga, só não teve tiro, porque o deputado tinha trazido gente da TV, padre e força policial. O pai da família de lá, com os olhos fumegando, mirava bufando para o pai da família de cá, que retribuía do mesmo modo. Quase se comeram ali mesmo, em frente a imprensa. Depois que o deputado foi embora, retornou o medo de andar pela rua. Voltou a sina de morte das famílias. Morria um daqui a culpa era dos de lá. Morria um de lá, pagavam os daqui.

    Os anos não davam trégua e as desavenças eram constantes.  Chegou ano de apagarem cinco de cada lado. Aquele foi ano difícil. Não se tinha qualquer tipo de sossego. Nem na vila, fazer procura de moça-dama, ou prosear dois dedos de pinga na mercearia do seu Osmar. Não era seguro ir. Não podia se expor demais, ou, era certo, pegava um pelas costas vindo lá não sei de onde.

    Aquele ano demorou a passar. Até Juventino, que tinha na época, pouco mais de cinco anos, foi surpreendido usando a 12, papo amarelo, do pai. O menino nem sabia o que se passava e já cultivava raiva danada dos de lá. O pai foi descobridor a tempo. Viu quando o pirralho foi saindo pela porta da cozinha, tamanha quatro horas da manhã, querendo pular a cerca e dar fim em todo mundo dos de lá.

    O menino até que era bem valente. Imitava. Havia herdado a conduta dos parentes. Porém o que motivou aquele pirralho foi a saudade do mano Beto.

    Beto, tinha se descuidado no bar do Raimundinho, ficando de costas para a rua. Não deu nem tempo de reagir, pegou só uma da 12 e caiu de peito na mesa, em cima dos copos e garrafas. O menino Juventino foi lá ver o irmão. Chorou muito agarrado no braço de Beto; deu foi muita dó de ver aquela cena.

    Coragem mesmo teve Maria Clara na festa de 15 anos. Ganhou do pai um 32 todo niquelado. A mãe achou ruim. Apesar disso, o pai disse que agora a menina-moça precisava aprender a se cuidar. Maria Clara ficou foi orgulhosa, vaidosa, como se tivesse ganhado corte novo de chita ou pulseira de prata falsa. Toda amiga, ou amigo que chegava ela mostrava a “peça” com vaidade e petulância.

    Não tardou para chegar a noticia que Maria Clara tinha feito “dois furos”, com seu 32, na testa de Guilherme, filho dos de lá. A menina disse que ele atirou primeiro. O tempo fechou na vila, os irmãos de Guilherme diziam em voz de grita para quem quisesse ouvir, que iam acabar com Maria Clara, mas, só depois de se servirem da moça. E olha que eram 10 machos. Porém, o que assustava a gente era que quase sempre as promessas ditas eram cumpridas a risca.

    Certo dia, Maria Clara se descuidou. Foi fechar a porteira sem prestar atenção nos arredores. Os três irmãos mais novos de Guilherme, Brócoió, Cabecinha e Zé Pungué, agarraram a moça e a levaram para o mato. Machucaram muito a jovem no corpo, entranhas e na alma. A moça ficou com a cara toda inchada. Era cataplasma em cima de cataplasma. Só muito depois é que ela foi voltando ao normal. Era cabrita bonita. Ficou, depois disso, com olhar perdido: olhando o nada. O tempo todo apertando os olhos como se mirasse alvo para alguém. Não falou mais sequer uma palavra.

    Os três irmãos viviam dizendo num tom de “boca grande”, que fizeram de tudo e muito mais. Não mataram ela não, porque queriam deixar a marca para o pai dela ver. Diziam que o velho ia viver olhando para ela morta em vida. Quando acabavam de falar isso caiam numa gargalhada estridente. Coisa ruim de ouvir.

    Maria Clara, numa madrugada calma, sumiu de casa. Foi lá para o descampado, na casa das moças-damas. Sabia que de alguma maneira, iria encontrar os três que se aproveitaram dela. Zé Pungué, pegou logo um do 32 niquelado na boca e caiu de cara no chão. Brócoió levou dois na testa, igualzinho a Guilherme. Cabecinha esse pegou dois balaços entre as pernas, que foi arrancando as “coisas” do moço. Ficou sem os “documentos”. Ficou ali sangrando, gritando com as mãos entre as pernas, tentando segurar o nada que restou. Dizem que ela não deu fim nele porque queria também deixar sua marca para que a pai da família de lá vivesse olhando ele morto em vida.

    Depois desse acontecido passou tempos sem ter vingança ou troça. Foi tempo de descanso e quase sossego para a vila. Não se ouvia falar em ameaças, até tiros pela mata a gente deixou de se assustar.

    A cerca, que separava as fazendas, era tão grande que chegava até no riacho fino. Apesar disso, não parava ali não, seguia mesmo por dentro daquele fio d’água, e só acabava no limite das terras de Coronel Lóris, passando o barranco seco, quase dez léguas depois do Riacho Fino.

    Foi ali na beira do Riacho Fino que Israel viu Palestina pela primeira vez. Ela nem assustou vendo aquele menino de lá, dividindo o quase nada de água do mesmo riacho, distante apenas cinco braças dela pela cerca. Continuou dando banho na boneca, enquanto ele lavava aquela bola velha: afundava a bola e soltava. A bola, cheia de ar, dava um pulo para fora da água e ele ficava rindo, gargalhando sozinho.

    Ficou fazendo aquilo várias vezes, até chamar a atenção, depois ficava olhando e rindo. Ela gostou do riso do menino. Riu também. Rimou a alegria com ele. A partir desse dia, quase todo final de tarde, lá ia Israel, com algum tipo de brinquedo, pros lados do Riacho Fino. Israel sempre inventava alguma para Palestina rir. Ele gostava também do riso da menina. Passaram a se encontrar nessa rotina de fim de tarde pela poeira dos tempos.

    No meio do caos, uma simpatia, uma amizade, um amor pequeno surgiu. As famílias sequer sonhavam com coisa dessa. Nunca um filho daqui podia gostar de um filho de lá. Até o nome dos de lá era proibido falar pros daqui.

    O tempo foi soprando seus dias, meses e anos, e lentamente, trouxe barba para Israel e peito para Palestina. Encontravam-se escondidos na velha cerca no sagrado fim de tarde. Já havia neles a urgência dos encontros diários. Primeiro foram as mãos, depois abraços através da cerca. Já não bastava. Abriram passagem e os minutos ficaram eternos entre beijos e afagos. Era a brasa começando a aquecer o coração e as partes baixas dos dois. Era a natureza construindo seu caminho.

    Difícil foi quando Palestina falou da barriga. Disseram que tinha que casar. Mais difícil ainda quando ela contou quem era o pai. O céu quase desabou. Um turbilhão em fogo ardeu na garganta de todos. Os dois lados, nesse dia sequer pregaram os olhos. As famílias sentiram gosto de sangue na boca. Ficaram rangendo os dentes. Limpando armas e sujando o pensamento por um bom tempo. O cavalgar dos dias foi veloz.

    O cuidado com a gestação de Palestina ficou à frente. A ira trotando sempre ao lado, par em par. Com Israel não foi diferente. Olhar sisudo dos irmãos e quase nada de conversa por longo tempo. Gritos e socos na mesa e nas paredes foram escasseando lentamente. Israel não dava palavra. Contudo, após o desabrochar da nova vida, a noticia transbordou os além-cercas, os cenhos foram dissolvendo, trocando lugar para a curiosidade do recém-chegado. A sanha perdeu a vez para a postura firme do abrigo, passaram por cima da discórdia e da cizânia, desenhou-se e assentou-se o armistício.

    Quando a cria passou de colo em colo alguma coisa mudou. Não se sabe se foi o cheiro de bebê ou o riso lindamente desenhado e farto nos lábios da criaturinha, que aos poucos foi encantando, quebrando todas as barreiras e porteiras armadas nas tronqueiras de décadas. Cada lado dizia cada um ao seu tempo, que a bebê era cuspida e escarrada com a avó, com o avô, e ainda, que os pés e as mãos eram idênticos aos da tia tal. Porém, a criança tinha olhar carinhoso cheio de brilho e alento, olhava fundo dos olhos de cada um que a punha no colo, arrancando olhos mareados e bem querer.

    O sorriso tomou o lugar da ira nos dois lados da cerca. Ninguém acreditava que isso um dia podia acontecer. Todo o mundo e o mundo todo sorriu. O produto do amor de Israel e Palestina uniu as famílias. O ódio transformou-se em amor. Na vila todos suspiravam aliviados. Teve até brinde farto na mercearia do Osmar e algazarra na casa das moças-dama.

    Não se tocava em má palavra ou lembrança de dor. As armas foram depositadas bem longe dos olhos e as armaduras lançadas na desmemória. O olhar firme nos olhos dos graúdos determinava acordo e respeito, trégua e deslembrança.

    Da união de Israel e Palestina nasceu uma linda menina, que passou a ser o xodó das duas famílias. Esse anjo quebrou todos os rancores e amansou todas as dores. Depois disso, os de lá e os de cá, cruzaram caminhos sem esbarrão e fustigamentos, de maneira diferente, tolerantes. Aquele rascunho de acordo transformou-se em traço forte e firme.

    Nas primeiras luzes do sol de domingo do batizado, sem combinarem previamente, os graúdos e as graúdas dos dois lados, abriram dez metros de cerca e armaram a mesa do almoço na linha divisória entre as duas terras. Afirmavam, sem palavras e com olhares concedentes e outros sorridentes, mesas, cadeiras e comilanças se achegavam. Foi bonito ver aquela gente aquietar, foi bonito ver aquelas duas famílias quase se abraçarem.

    Teve leitão assado e muito vinho. Bolo de milho e macaxeira frita. A meninada, agora misturada, corria pelo terreiro, gritando e gargalhando como só as crianças sabem fazer. Era sinfonia doce aos ouvidos quase esquecidos de momentos assim. Nunca mais houve qualquer tipo de atrito. As duas fazendas se uniram e fizeram uma só. Os graúdos e graúdas aproveitaram a achegação, e, talvez o cansaço da vida de discórdia. Cozeram a paz e futuro de mansidão por aqueles lados. 

    Da terra antes esturricada e seca, por causa da falta de chuva, agora, depois do poço para irrigação, cavado pelas mãos comunitárias das famílias, via-se sumir no horizonte, para além do Riacho Fino dquele imenso parreiral, onde são colhidas uvas de primeira qualidade, que produz um vinho com buquê incomparável.

    A menina, que uniu as famílias, recebeu o nome de Maria da Paz. A fazenda, que acolhe agora as duas famílias, recebeu o nome de... Terra Santa.

Autor: Dudu Neves

quinta-feira, 4 de março de 2021

O insólito perguntador

 A gente não se dava com ele, mas ele se dava com a gente.

Não fazia parte da turma, mas vez ou outra aparecia na casa do Caíca e ficava peruando nossa conversa, o pif-paf, pegava as mangas do quintal, folheava O Cruzeiro e ainda fazia mímica facial em cada virada de página; ria sozinho do Amigo da Onça, enfim...não se abatia com nossa pose de "não te conheço".

Quando estava conosco participava de tudo. Se íamos brincar bola, ele ia; se íamos pro igarapé, ele ia; empinar papagaio, jogar peteca, pião, fura-fura, brincar de pira, tudo, tudo, tudo. Era um chato. Mas, então, por que o aturávamos?

Porque éramos um tanto quanto metidinhos a sabichões. Estudiosos, filhos de professoras, boas notas, e o nosso "amigo", calado a maior parte do tempo, fazia umas perguntas que nos liquidavam. Tipo: "Que dia começou a Idade Média?" Pronto. Era o bastante pra nos tirar do prumo. Disfarçávamos. Dizíamos: "mamãe tá chamando" e saíamos correndo em busca de livros à procura da resposta. 

O que tinha na época era o almanaque Abril; quando estávamos dispostos, corríamos até a casa de seu Manolo que guardava uma edições amareladas da Barsa. Quando a gente mais precisava de certo assunto, a página faltava. Chegamos até a desconfiar que aquele moleque entrava ali, rasgava a página e depois ia desafiar a gente.

Decidimos contratar o Maricélio pra seguir o "amigo" e descobrir onde ele morava, estudava; quem eram os pais, etc... essas coisas básicas.

Foi um investimento perdido. Cada um de nós pagou uma peteca boliviana, daquela multicolorida, e nada. O Maricélio disse que era prá lá do campo de aviação, só que o moleque sumia por um caminho estreito, de mata fechada, onde se dizia que existia uma sussuarana, felino valente.

Devia ser uma entidade, aquele pirralho.

Seus questionamentos, num tempo sem Google, eram um desafio e tanto.

Acostumamo-nos com sua presença e sumiço, até que ele evaporou de vez.

Benquerença é tão cheia de mistérios.

Conto isso porque creio que esse nosso "amigo", com suas perguntas estranhas e provocantes, foi fundamental pra nos despertar o interesse pela busca, por querer saber, por ir além do aparente... É certo que não encontraremos respostas para tudo, e as páginas desaparecidas do saber persistem até hoje. O que ficou gravado na gente, é que a gente tinha um desafio pela busca. 

Lembrei dessa história porque, nesses tempos esquisitos, haja o mundo a falar de ciência: de pesquisa, de randomização, duplo-cego, multicêntrico. Essas coisas que nos deixam catatônicos. 

Pra mim a ciência é cheia de mistérios, assim como esse amigo do elo perdido. Uma hora é uma coisa, outra hora é outra coisa, depois não é nem uma nem outra e sempre tem um perigo, uma escuridão no caminho - um medo de ir em frente por causa da sussuarana e dos descaminhos. A ciência, de uns tempos para cá, começou a rebuscar em mim, e eu a pensar onde tudo começou. Começou na casa do Caíca, lá em Benquerença, quando investimos no Maricélio e não deu em nada.

Lembro bem da sua última pergunta, em meio a uma porrinha pra ver quem ia comprar o Q-Suco da merenda junto com pão-doce. Ele, sem a menor compostura, perguntou de chofre: "Que horas morreu a Renascença?"

 

Corisco e Labareda

terça-feira, 2 de março de 2021

E pela estrada que me leva a Maceió...

... Eu descobri uma trupe de médicos envolvida com afazeres da cirurgia torácica. Todos participando ativamente. É que por lá tem o grupo da Santa Casa de Maceió, que veste a roupa, põe o gorro e máscara, e tocam serviço com sistematização, a ponto de realizar evento ao vivo sem levar em consideração as amarras que a região impõe  - e sem se sentirem vitimizados por esse fato. Eles já ficaram conhecidos no Brasil por serem pioneiros em lobectomias por vídeo sem uso de OPME (conhecida como deviceless), para beneficiar pacientes do SUS. E isso não é pouco.

    No final de semana de 26 e 27 de fevereiro, por meio de EAD, realizaram o simpósio “Câncer de Pulmão Estágio I – do diagnóstico ao tratamento”. O simpósio teve 508 visitações, algo que já se torna notável. Na sexta-feira, na abertura, nada mais, nada menos que o espanhol Ramón Rami Porta fez uma magnífica apresentação acerca do que representa, na atualidade, o câncer de pulmão na fase precoce (estádio I). Em seguida, a turma de brasileiros de diversas especialidades honrou a origem e todos fizeram verdadeiras fruições com seus horizontes científicos. Eles transdiagnosticaram o câncer precoce dentro de uma verdadeira rede de cooperativismo. Trupe do bem... coisa feiticeira!

    No sábado, dia de centro cirúrgico, outra trupe lançou-se com afinco e sorver na desenvoltura do tratamento cirúrgico. De um lado, encasalados, os moderadores. Do outro, no centro do teatro (assim o centro cirúrgico era chamado pelos antigos), os comandantes Artur Gomes Neto (Alagoas) e Paula Ugalde (Canadá). Aquele exercia com sua batuta a função clínica, selecionando os casos cheios de ramificações terapêuticas, e Paula, na função artística, dava ritmo e malabarismo cadenciados pelos trampolins anatômicos, tal como uma bailarina do “cirque du soleil”.

    Houve procedimento diagnóstico ao vivo na sala de tomografia, além de outros operatórios, realizados no teatro: segmentectomia não anatômica e segmentectomia anatômica no mesmo paciente, com dois cânceres sincrônicos em lados diferentes e uma lobectomia - todos com linfadenectomia regrada, conforme prescreveu o catalão Rami Porta, na noite anterior.

    Essas longas estradas – tipo as que nos levam a Maceió – educam o olhar, a audição e nossas perspectivas. Percebe-se isso no canto do Tiê ou ao ler um excerto de Graciliano Ramos, em "Vidas Secas": Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito.“