domingo, 17 de outubro de 2021

PELOS VEIOS VIVOS DA MEMÓRIA: DE HALSTED À SEGMENTECTOMIA PULMONAR NO CÂNCER PRECOCE

 

– Doutor...

– Doutor –  repetiu Jane Crawford – que é isto?

McDowell encarou e respondeu:

– Creio que um tumor.

Ela tornou:

Corte essa coisa, doutor! Eu resisto ao sofrimento!...

O diálogo data de 1809. Até então, as dores de uma operação eram aliviadas pela reza de um salmo em voz alta ou com pedaço de pano entre os dentes, com a mandíbula em trismo. A obra de Jurgen Thorwald, O século dos cirurgiões, atinge, num grau de extremo excesso as mais delicadas – ou brutais – e quase inatingíveis circunvoluções da memória da cirurgia.

Exploradora desses plainos abandonados que a brisa do cotidiano sopra, a anestesia só chegaria ao assoalho dos teatros operatórios 40 anos mais tarde, pela via inalatória, com o éter sulfúrico e o gás do riso. Era o alvorecer do novo testamento da bíblia cirúrgica, cujas primeiras páginas haviam de ser escritas por William Halsted.

Pai de grande parte – senão da maioria – do pensamento cirúrgico americano do final do século 19, e boa parte do 20, William Stewart Halsted (1852-1922), nascido em berço de ouro, deixou raízes profundas em seu roteiro de vida. Tomou-se de fama não só pelas habilidades manuais, mas pela valentia de enfrentar o câncer na ponta do bisturi, quando só existiam fé em Deus e resignação.

Ele criou a mastectomia radical, primeira forma de tratamento da neoplasia de mama– hoje à sombra do passado.A técnica consistia na retirada completa da mama, incluindo músculos da parede, arcos costais, tecido supraclavicular (incluso a própria clavícula) e axilar. Alguns de seus seguidores retiravam até tecido mediastinal, passando a criar a ultrarradicalidade. Assim resplandeceu a “atmosfera halstediana”, que se tornou boom e percorreu todos os EUA. Também se infiltrou em outras especialidades, entre elas, a própria cirurgia oncológica pulmonar. A operação de Halsted desprezava o tamanho e extensão do tumor. O lema era aplicar a “teoria centrífuga” e realizar a mutilação.

Para o escritor Siddhartha Mukherjee, essa “atmosfera halstediana” quase secular mereceu algumas considerações críticas, conforme descreve em seu premiado best-seller O imperador de todos os males: uma biografia do câncer (prêmio Pulitzer 2011). Mukherjee faz uma espécie de autópsia da cabeça de Halsted, tentando entender a raiz daquele roteiro. Ele encena um velório de 90 anos e formula crítica mordaz à teoria: “o trabalho do cirurgião era conter essa difusão centrífuga, cortando cada pedaço dela no corpo, como se agarrasse a roda no meio de um giro. Isso significa tratar de forma agressiva e definitiva o câncer incipiente. Quanto mais o cirurgião cortava, mais curava”. Fica claro pela narrativa de Mukherjee que, a teoria de Halsted deixa grande atraso na cura do câncer de mama.

Genius on the edge: the bizarre double life of Dr. William Stewart Halsted (também de 2011, sem tradução para o português), obra do escritor e cirurgião plástico Gerald Imber, revela outra face do que foi considerado o maior cirurgião estadunidense. Era adicto, rígido, dolorosamente tímido, recluso, inacessível, muitas vezes severo, sarcástico e até cruel. Em suas reuniões de poucos amigos, substituía o cafezinho da tarde por doses de morfina, prenunciando o comportamento da era pré-cocaína de Nova York. Durante as férias em sua fazenda, quando relaxado e feliz, era um anfitrião encantador. Fica a questão: os delírios límbicos de Halsted foram responsáveis por esse encaracolamento da história do câncer, ou era mesmo um cidadão de bravatas? Ainda: seria a evolução natural do conhecimento, sendo Halsted o mensageiro da agonia?

Para a maioria dos seguidores de Halsted, seu maior valor está em seu invencionismo frente a dilemas inestimáveis como o câncer, quando nada se tinha além dos templos sagrados para orações. Naquele crepúsculo do século XX tentou-se eliminar, sem sucesso, o tumor de mama somente com radiação. A quimioterapia inexistia e foi somente em 1970 que apareceu a adjuvância; um pouco mais tarde, em 1986, é descoberto o HER2, iniciando a terapia-alvo. Nesse diapasão, dada a alta prevalência do câncer de mama, a arte no cabo do bisturi pedia salvo-conduto, e Halsted apresentava-se como destemido, fazendo de sua virtude de cirurgião o ideário de uma época.

A cana de braço com os halstedianos começa em 1950, quando os Crile – pai e filho –, discípulos do próprio Halsted, juntamente com Bernard Fischer, reacendem as ideias do jovem londrino Geoffrey Keynes, que combinava radioterapia a cirurgias econômicas. Quando expôs seus relatos, em 1924, Keynes foi zombado e suas ideias antirradicalistas foram sepultadas diante dos musculosos halstedianos.

Keynes tinha visão futurista, porém só possuía relato de casos ante a grande amostra dos adversários. Sofreu chacota e teve que sair de cena. Os trials, duplo-cegos randomizados e meta-análises amadureceram bem depois, e desaguaram no que se conhece hoje como medicina baseada em evidência, que só começou a gerar algum impacto bem depois da Segunda Guerra e com a criação da Cochrane Library. Foi nesse suporte que Crile – pai e filho – e Bernard Fischer traçaram novos caminhos.

 Nota-se, ao longo da leitura, que a tinta da caneta de Mukherjee mergulha em pH ácido e submete o extrato cirúrgico a uma escala secundária: “Os cirurgiões que tinham criado o mundo da cirurgia radical, a duras penas não tinham, absolutamente, incentivo nenhum para revolucioná-la”. O escritor reitera que “o evangelho da profissão cirúrgica” começou a amarelar suas páginas em 1973 com a chegada definitiva da “mastectomia econômica” associada à quimio/radioterapia, após estudo comparativo em larga escala.

Decerto Mukherjee romanceia o câncer como ninguém, mas deixa Halsted como um malfeitor. Cria uma aversão ao passado, mas sem dar vigor à quimioterapia, restrita a mostarda, alcaloides e folatos. A irradiação era com isótopos de polônio e rádio, estudados pelo casal Curie ainda no fundo de um galpão. Bem depois é que chega a bomba de Cobalto e as coisas envergam. A arte na ponta do bisturi, não obstante, era a única forma de desfigurar o rosto infame dos cancros.

Halsted fundou um séquito gigantesco de estrelas ao criar o primeiro programa de residência médica na história, no famoso hospital Johns Hopkins, após passar uma temporada com Theodor Billroth, em Viena. Lá desenvolveu operações originais para hérnia, bócio, aneurismas, doenças intestinais e da vesícula biliar; foi um dos primeiros defensores dos procedimentos assépticos; introduziu o uso de luvas finas de borracha. Sua ênfase na manutenção da homeostase completa, ou metabolismo corporal equilibrado durante as operações cirúrgicas, delicadeza no manuseio de tecidos vivos, realinhamento preciso dos tecidos cortados (postulados de Halsted) e sua criação de residências hospitalares em treinamento contribuíram muito para o avanço da cirurgia nos EUA e mundo afora, além da criação de diversos instrumentais cirúrgicos. A mastectomia foi apenas mais uma de suas vastas contribuições, ou seja, Halsted participa gloriosamente da história da cirurgia moderna em todos os seus matizes.

Qualquer filósofo definiria Halsted como um escolástico, ou seja, buscava associar a razão aristotélica –e platônica– com a fé (na arte), ao viver a experiência do olhar cirúrgico daquele momento, que acabava de emergir dos teatros cirúrgicos de Baltimore e Nova York. Mas Mukherjee leva para sua narrativa o desmascaramento do mito que jamais existiu. Halsted apenas foi uma forma de vida que surge na história universal com nova mentalidade, mas foi tratado como se tivesse feito crimes nefandos e de espectros medonhos. São capítulos de teor antropofágico.

Foi nesse solo agitado que se semeou o amanhã da terapêutica do câncer. Não foi diferente na tuberculose, úlcera péptica e esquizofrenia. Para desavisados: o italiano Forlanini também teria retardado o surgimento da quimioterapia antituberculose ao apontar o bisturi para o pulmão; diriam o mesmo de Billroth e Latarjet para úlcera péptica, antes do H. pylori; não seria diferente em relação a António Moniz e Almeida Lima, da Universidade de Lisboa, para a lobotomia frontal no tratamento da esquizofrenia. 

Sobre a cirurgia pulmonar, é possível que a atmosfera halstediana e a teoria centrífuga tenham passeado pela calçada de Evarts Graham, ao tratar um nódulo pulmonar com a retirada de todo o pulmão. Para Rodney Landreneau e Matthew Schuchert (2019), a teoria centrífuga também foi defendida pela maioria dos cirurgiões torácicos da época ao elegerem a pneumonectomia como a única ressecção apropriada para o câncer. Embora a lobectomia tenha começado a ser utilizada em meados do século 20, não foi considerada uma alternativa até 1962, quando saiu o trabalho seminal de Shimkin e cols. acerca da equivalência da sobrevida entre lobectomia e pneumonectomia para câncer precoce.

Mais à frente Mukherjee amortece o verbo: “para mudar a cirurgia é preciso ser cirurgião” e descreve o início da jornada da cirurgia conservadora para o câncer de mama, quando Bernard Fisher emplaca cientificamente a “mastectomia simples” em publicação revolucionária (1973), com ensaio multicêntrico e rigor estatístico apurado.

Consonante a 1973, nasce a cirurgia oncológica conservadora pulmonar. Foi pelas mãos de Robert Jensik, de Chicago. A publicação memorável foi no J Thorac Cardiovasc Surg. Ele relata sua experiência de 15 anos, após sua vivência (e convivência “na pele”) com a tuberculose. Acabou por transferir ao câncer o conceito de ressecção segmentar de pulmão, deixando, peremptoriamente, um contraponto à lobectomia e pneumonectomia em cânceres precoces. Sua refinada técnica, infelizmente, tornou-se arte perdida por mais de 20 anos, quando Robert Ginsberg e o Lung Cancer Group (1995) entram em cena e revalidam suas ideias com o famoso Randomized trial in limited resection in T1N0M0 NSCLC. Ginsberg fez com Jensik o que os Crile e Fisher fizeram com o Geoffrey Keynes em relação à cirurgia conservadora da mama, porém sem desqualificar Graham.

Com a crescente da cirurgia torácica pela VATS/RATS, a segmentectomia encurta os passos na caminhada para a cura do câncer precoce, conforme revê Ramón Rami-Porta, cirurgião da Catalunya. Ele ainda acrescenta, em suas caminhadas pelas ruas da pacata Terrassa, que a “linfomania” deve seguir rigorosa.

A criticidade de Mukherjee tenta arranhar o legado halstediano, que revive duas eternas questões, descartadas em sua obra: a permanência enraizada da arte no meio cirúrgico – quando não havia outra alternativa; e os avanços tecnológicos, que fazem perdurar e seduzir o pensamento clínico como tentativa de corrigir “erros” de outrora. Se esses dois cognatos ofuscaram nossa alfabetização científica, certamente não foi por Halsted, conforme retrata Peter Olch, um halstediano convicto que, se vivo estivesse, rasgaria algumas páginas de a página 243: “A cirurgia, tradicional machadinha de guerra no combate ao câncer, era considerada primitiva, indiscriminada e desgastante demais”. 

A bem dizer, os feitos da medicina sempre se instauram a cada cruzamento de achados (papers) na relação tempo-espaço, de modo a deixar um invólucro do vivencial exposto em atmosferas acadêmicas, enlaçada por uma discussão ética confortável, mesmo sendo apenas na hora de tomar um cafezinho em intervalos de congressos. Há de se ratificar que questões como as das neoplasias fogem a apreciações lineares diante de tantos alcances e progressos. Mukherjee, um oncologista nato e apaixonado por literatura, faz uma releitura inflexível da história e deixa seu texto anacrônico, sem esforçar para reconhecer uma era. Obviamente que o leitor atento, no alto da montanha, em transe tibetana, não se deixará levar por essa dissonância cheia de armadilhas em sua intertextualidade.  Se a obra premiada procura negar a autonomia de uma era tribalista, quando só tínhamos o silêncio das mortes, não podemos torcer o nariz, tampouco jogar ao relento o despertar daquele homem, mesmo diante de teorias científicas imaturas.

Não há dúvida que a atmosfera da época, repleta de arte na ponta de bisturi, foi ovacionada e aplaudida, mas agora, as nuvens de incenso que subiam dos altares erguidos em sua memória, dissiparam-se pelas ventanias das redescobertas, fazendo surgir novas vertentes. E assim, foi-se dando terreno às evidências científicas, à interpretação estatística dos achados, à genética, à farmacologia, à Cochrane… e o mundo viu a machadinha dos mutiladores serem substituídas por rajadas de agentes químicos e pequenas incisões. 

Aquela atmosfera halstediana eterniza um momento histórico e arranca um átimo da temporalidade, conferindo-lhe perenidade ao tempo, sem eliminar o buquê, a marca, ou mesmo o feitiço que decorrem precisamente de nossa fragilidade científica. Para mudar basta estar inserido na temporalidade, sem necessitar desenraizar o criadouro, pois, se as ideias de um novo legado foram ganhando corpo e cabeça, esquartejá-las com os alfinetes da literatura é o mesmo que olhar o passado pelo buraco da fechadura.

Em Contos do nascer da Terra, do escritor moçambicano Mia Couto, um homem deita-se ao chão e repousa a cabeça sobre uma almofada de areia, até que dorme e sonha com seu mundo. Ao despertar tenta levantar-se, mas não consegue. Chama a mulher e pede-lhe ajuda. Ela olha por debaixo da nuca do marido, puxa-lhe a cabeça, mas em vão. Cavouca e vê que a cabeça do marido criara raízes. Ele pede para cortá-las. A esposa puxa a faca e dá o talho. Não dói, mas sangra e logo coagula. Ela desiste. A vizinhança tenta escavar; quanto mais tentam, mais se chega ao fundo. Retiram toneladas de chão e... nada. Concluíram: as raízes daquela cabeça davam volta ao mundo.


Texto originalmente publicado no 

JORNAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIRURGIA TORÁCICA (SBCT)

domingo, 10 de outubro de 2021

A transversalidade do câncer de pulmão

Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again

Paul Simon & Garfunkel, in: Sounds of Silence

Em “Hamlet”, ato V, cena I, ambientado num cemitério, o personagem Hamlet conversa com o crânio de Yorick. A cena com a caveira à mão se tornou um ícone do teatro universal e da finitude humana. Ao segurar o crânio de Yorick, a arte contempla a morte.

        E a ciência, como olharia para Yorick? O que os pesquisadores procuram são os mistérios da morte, tentando desvendar seus silêncios dentro da célula, por isso o olhar é carregado de serenidade. Ou seja, quando saímos de uma sessão clínica, onde buscamos os melhores resultados para revelar segredos de determinadas doenças para amenizar a escuridão do sofrimento humano. Certamente a ciência olha de soslaio para o crânio de Yorick, tal como retrata a canção epigrafada de Simon e Garfunkel.

Na semana passada, uma sequência de reuniões clínicas evocaram o tratamento atual do câncer de pulmão avançado. Ou seja: nós, feito Hamlet, fitando Yorick, por meio de uma reunião comandada pelo trio SBCT/GBOT/ALAT, com u’a massa densa de médicos nacionais e estrangeiros que estudam o assunto. As ondas cibernéticas tinham alvo único: a América Latina. Um verdadeiro caldo de novidades, como se estivéssemos experimentando uma sopa em alguma esquina de Lima, misturando encantaria e delírio com goladas de piscou sour e esperança.

Sem querer desdizer da quimioterapia clássica, ou da cirurgia moderna - a que me “avicia” -, chamaremos essa esperança de: imunoterapia, cujas bases estão na imunologia contemporânea.

Ao acompanhar as conferências, o que mais impressiona é a quantidade de novos medicamentos para frear o câncer. Multipliquem por zilhares as pesquisas e seus resultados cada vez mais eficazes. Vem daí encantaria e esperança, mas que ainda precisa ser analisada em rodas multidisciplinares.

A imunoterapia traça a busca sedenta para encontrar o Santo Graal do câncer. A idéia atual é embeber o cálice da salvação com anticorpos (substâncias de defesa) ditos monoclonais (clones de laboratório a partir de células do sistema imune - leia-se linfócito T), que representa o que melhor temos de esperança atiradas ao pescoço da ciência. Nesta corrida, laboratórios porfiam para tomar a frente nos melhores desfechos, aumentando nossa confiança, em que pese o os dólares e as dores. Já os cirurgiões, estes ficam hipnotizados com o alumbramento da imunoterapia – basta entender o estudo Pacific com o Durvalumabe, uma dessas novidades.

Olhar e ser olhado criticamente foi um atributo do ato criador de Sheakspeare, e por ele, os médicos-pesquisadores devem encarar Yorick, como a questão mais importante em Hamlet. A voz acesa de Paula Ugalde pode representar o que li na sua rede social após sua ativa participação no evento: “Avanços sempre renovam nossas dúvidas”. A frase é para refazer o olhar hamletiano no silêncio das provocações do nosso bardo, quando olhamos àquele crânio enigmático.

Então: por quê a história do câncer carrega tantos olhares?

Quem nos alenta é Nassim Taleb, um matemático investidor na bolsa de Chicago que lecionou em algumas universidades novaiorquinas e vem se tornando um escritor audacioso e de idéias eviscerantes. O livro “Antifrágil”, regalo de uma paciente operada por um tumor de parede torácica, é um calhamaço de mais de 600 páginas que vem apimentando minhas têmporas, sem abandonar aquele velho navio que singra os mares da literatura clássica e do pensamento consistente moderno. Taleb inicia com a mitologia grega e deságua na nossa reunião científica sobre câncer: “quanto mais se tenta danificar as bactérias, mais fortes serão as sobreviventes” é o pensamento nato para fazer entender o paralelo com o câncer: “com bastante freqüência as células cancerígenas que conseguem sobreviver à toxicidade da quimioterapia se reproduzem mais rapidamente e assumem o vazio deixado pelas células mais fracas”. Taleb e o câncer vem beber na fonte de Nietzsche :”Aquilo que não me destrói, me fortalece”.

Dá-se assim o axioma da imunoterapia: que as células cancerígenas, com autonomia própria, vão se desdobrando para se tornar resistentes às drogas, ao produzirem proteínas chamadas checkpoints. Algumas delas (CTLA-4 e a PD-1, por exemplo), vestidas de paletó e gravata e usando colônia da Phebo, despistam os sistema Imune ao inebriarem as células de defesa (os linfócitos T), que não as reconhecem como meliantes. Vestido de cordeirinho em pele de lhama, o câncer produtor de PD-L1 cresce sob os coturnos da imunidade sem ser notado, para seguir disfarçado com sua espada em punho, por trás das cortinas, a ceifar nossas ilusões.  

O que nos resta, segundo a palestrante e pesquisadora Heather Wakelee (EUA), é apostar nos fármacos que desmascarem estas substâncias falseadoras (checkpoints) e, a partir daí, que o sistema imune passe a reconhecer e aniquilá-las com os anticorpos monoclonais, cujo codinome é esperança.

terça-feira, 18 de maio de 2021

Israel e Palestina

     Desde sempre houve conflito de terra por aquelas bandas. Todos sabiam que por ali, tinha gente debaixo daquele solo servindo de adubo. Era comum aparecer grileiro de terra nova, alguns, é certo, amanheciam com a boca cheia de formigas, mas outros, de forma diferente, olhos risonhos e cheios de conversas e boçalidades. Eram os mandantes dos gatilhos. Na origem, os que mandavam gente para o campo santo.

    Vez por outra a gente ouvia barulho de tiros varando, ecoando e sumindo estirão adentro. Dava medo. Ficávamos imaginando, quem era o dono do gatilho ou, quem era o alvo. Às vezes era só caçador atrás de alguma caça. Só que, zoada de tiro ecoando nas lonjuras tirava mesmo o sossego do povo.

    Não bastasse o castigo do medo, fazia tempo que não caía chuva qualquer, nem chuvisco ou gota de sereno mais forte. A terra, apesar de aguardar o tão esperado plantio, andava triste por falta d’água. Não havia promessa que resultasse, estava há tempos esturricada e o sol cada vez mais escaldante.

    Uns diziam, que eram as queimadas que mudavam e atrasavam mais e mais a chegada da chuva, e, fazia daquele pedaço de chão um verdadeiro inferno de tão quente. Porém, a todo custo íamos sobrevivendo, mas o pior era mesmo a briga entre aquelas duas famílias.

    A discórdia era antiga e a cerca que separava as duas terras também. Ninguém tinha registro na lembrança de como a rixa começou. Só se sabia que família não suportava família.

    Havia uma conversa no tempo que era coisa de amor, diziam que o velho finado de lá, roubou a filha do velho finado de cá. Outros diziam que era coisa de terra mesmo. Destrato de herança sombria. Corria de boca em boca que a cerca já foi puxada para cá e para lá umas quantas vezes, e com isso, levando vidas dos de lá e dos de cá.

    Teve até deputado da capital, em tempo de eleição, vindo aqui, querendo fazer acordo, para no fundo, amealhar votos. Apesar disso, no primeiro encontro teve briga, só não teve tiro, porque o deputado tinha trazido gente da TV, padre e força policial. O pai da família de lá, com os olhos fumegando, mirava bufando para o pai da família de cá, que retribuía do mesmo modo. Quase se comeram ali mesmo, em frente a imprensa. Depois que o deputado foi embora, retornou o medo de andar pela rua. Voltou a sina de morte das famílias. Morria um daqui a culpa era dos de lá. Morria um de lá, pagavam os daqui.

    Os anos não davam trégua e as desavenças eram constantes.  Chegou ano de apagarem cinco de cada lado. Aquele foi ano difícil. Não se tinha qualquer tipo de sossego. Nem na vila, fazer procura de moça-dama, ou prosear dois dedos de pinga na mercearia do seu Osmar. Não era seguro ir. Não podia se expor demais, ou, era certo, pegava um pelas costas vindo lá não sei de onde.

    Aquele ano demorou a passar. Até Juventino, que tinha na época, pouco mais de cinco anos, foi surpreendido usando a 12, papo amarelo, do pai. O menino nem sabia o que se passava e já cultivava raiva danada dos de lá. O pai foi descobridor a tempo. Viu quando o pirralho foi saindo pela porta da cozinha, tamanha quatro horas da manhã, querendo pular a cerca e dar fim em todo mundo dos de lá.

    O menino até que era bem valente. Imitava. Havia herdado a conduta dos parentes. Porém o que motivou aquele pirralho foi a saudade do mano Beto.

    Beto, tinha se descuidado no bar do Raimundinho, ficando de costas para a rua. Não deu nem tempo de reagir, pegou só uma da 12 e caiu de peito na mesa, em cima dos copos e garrafas. O menino Juventino foi lá ver o irmão. Chorou muito agarrado no braço de Beto; deu foi muita dó de ver aquela cena.

    Coragem mesmo teve Maria Clara na festa de 15 anos. Ganhou do pai um 32 todo niquelado. A mãe achou ruim. Apesar disso, o pai disse que agora a menina-moça precisava aprender a se cuidar. Maria Clara ficou foi orgulhosa, vaidosa, como se tivesse ganhado corte novo de chita ou pulseira de prata falsa. Toda amiga, ou amigo que chegava ela mostrava a “peça” com vaidade e petulância.

    Não tardou para chegar a noticia que Maria Clara tinha feito “dois furos”, com seu 32, na testa de Guilherme, filho dos de lá. A menina disse que ele atirou primeiro. O tempo fechou na vila, os irmãos de Guilherme diziam em voz de grita para quem quisesse ouvir, que iam acabar com Maria Clara, mas, só depois de se servirem da moça. E olha que eram 10 machos. Porém, o que assustava a gente era que quase sempre as promessas ditas eram cumpridas a risca.

    Certo dia, Maria Clara se descuidou. Foi fechar a porteira sem prestar atenção nos arredores. Os três irmãos mais novos de Guilherme, Brócoió, Cabecinha e Zé Pungué, agarraram a moça e a levaram para o mato. Machucaram muito a jovem no corpo, entranhas e na alma. A moça ficou com a cara toda inchada. Era cataplasma em cima de cataplasma. Só muito depois é que ela foi voltando ao normal. Era cabrita bonita. Ficou, depois disso, com olhar perdido: olhando o nada. O tempo todo apertando os olhos como se mirasse alvo para alguém. Não falou mais sequer uma palavra.

    Os três irmãos viviam dizendo num tom de “boca grande”, que fizeram de tudo e muito mais. Não mataram ela não, porque queriam deixar a marca para o pai dela ver. Diziam que o velho ia viver olhando para ela morta em vida. Quando acabavam de falar isso caiam numa gargalhada estridente. Coisa ruim de ouvir.

    Maria Clara, numa madrugada calma, sumiu de casa. Foi lá para o descampado, na casa das moças-damas. Sabia que de alguma maneira, iria encontrar os três que se aproveitaram dela. Zé Pungué, pegou logo um do 32 niquelado na boca e caiu de cara no chão. Brócoió levou dois na testa, igualzinho a Guilherme. Cabecinha esse pegou dois balaços entre as pernas, que foi arrancando as “coisas” do moço. Ficou sem os “documentos”. Ficou ali sangrando, gritando com as mãos entre as pernas, tentando segurar o nada que restou. Dizem que ela não deu fim nele porque queria também deixar sua marca para que a pai da família de lá vivesse olhando ele morto em vida.

    Depois desse acontecido passou tempos sem ter vingança ou troça. Foi tempo de descanso e quase sossego para a vila. Não se ouvia falar em ameaças, até tiros pela mata a gente deixou de se assustar.

    A cerca, que separava as fazendas, era tão grande que chegava até no riacho fino. Apesar disso, não parava ali não, seguia mesmo por dentro daquele fio d’água, e só acabava no limite das terras de Coronel Lóris, passando o barranco seco, quase dez léguas depois do Riacho Fino.

    Foi ali na beira do Riacho Fino que Israel viu Palestina pela primeira vez. Ela nem assustou vendo aquele menino de lá, dividindo o quase nada de água do mesmo riacho, distante apenas cinco braças dela pela cerca. Continuou dando banho na boneca, enquanto ele lavava aquela bola velha: afundava a bola e soltava. A bola, cheia de ar, dava um pulo para fora da água e ele ficava rindo, gargalhando sozinho.

    Ficou fazendo aquilo várias vezes, até chamar a atenção, depois ficava olhando e rindo. Ela gostou do riso do menino. Riu também. Rimou a alegria com ele. A partir desse dia, quase todo final de tarde, lá ia Israel, com algum tipo de brinquedo, pros lados do Riacho Fino. Israel sempre inventava alguma para Palestina rir. Ele gostava também do riso da menina. Passaram a se encontrar nessa rotina de fim de tarde pela poeira dos tempos.

    No meio do caos, uma simpatia, uma amizade, um amor pequeno surgiu. As famílias sequer sonhavam com coisa dessa. Nunca um filho daqui podia gostar de um filho de lá. Até o nome dos de lá era proibido falar pros daqui.

    O tempo foi soprando seus dias, meses e anos, e lentamente, trouxe barba para Israel e peito para Palestina. Encontravam-se escondidos na velha cerca no sagrado fim de tarde. Já havia neles a urgência dos encontros diários. Primeiro foram as mãos, depois abraços através da cerca. Já não bastava. Abriram passagem e os minutos ficaram eternos entre beijos e afagos. Era a brasa começando a aquecer o coração e as partes baixas dos dois. Era a natureza construindo seu caminho.

    Difícil foi quando Palestina falou da barriga. Disseram que tinha que casar. Mais difícil ainda quando ela contou quem era o pai. O céu quase desabou. Um turbilhão em fogo ardeu na garganta de todos. Os dois lados, nesse dia sequer pregaram os olhos. As famílias sentiram gosto de sangue na boca. Ficaram rangendo os dentes. Limpando armas e sujando o pensamento por um bom tempo. O cavalgar dos dias foi veloz.

    O cuidado com a gestação de Palestina ficou à frente. A ira trotando sempre ao lado, par em par. Com Israel não foi diferente. Olhar sisudo dos irmãos e quase nada de conversa por longo tempo. Gritos e socos na mesa e nas paredes foram escasseando lentamente. Israel não dava palavra. Contudo, após o desabrochar da nova vida, a noticia transbordou os além-cercas, os cenhos foram dissolvendo, trocando lugar para a curiosidade do recém-chegado. A sanha perdeu a vez para a postura firme do abrigo, passaram por cima da discórdia e da cizânia, desenhou-se e assentou-se o armistício.

    Quando a cria passou de colo em colo alguma coisa mudou. Não se sabe se foi o cheiro de bebê ou o riso lindamente desenhado e farto nos lábios da criaturinha, que aos poucos foi encantando, quebrando todas as barreiras e porteiras armadas nas tronqueiras de décadas. Cada lado dizia cada um ao seu tempo, que a bebê era cuspida e escarrada com a avó, com o avô, e ainda, que os pés e as mãos eram idênticos aos da tia tal. Porém, a criança tinha olhar carinhoso cheio de brilho e alento, olhava fundo dos olhos de cada um que a punha no colo, arrancando olhos mareados e bem querer.

    O sorriso tomou o lugar da ira nos dois lados da cerca. Ninguém acreditava que isso um dia podia acontecer. Todo o mundo e o mundo todo sorriu. O produto do amor de Israel e Palestina uniu as famílias. O ódio transformou-se em amor. Na vila todos suspiravam aliviados. Teve até brinde farto na mercearia do Osmar e algazarra na casa das moças-dama.

    Não se tocava em má palavra ou lembrança de dor. As armas foram depositadas bem longe dos olhos e as armaduras lançadas na desmemória. O olhar firme nos olhos dos graúdos determinava acordo e respeito, trégua e deslembrança.

    Da união de Israel e Palestina nasceu uma linda menina, que passou a ser o xodó das duas famílias. Esse anjo quebrou todos os rancores e amansou todas as dores. Depois disso, os de lá e os de cá, cruzaram caminhos sem esbarrão e fustigamentos, de maneira diferente, tolerantes. Aquele rascunho de acordo transformou-se em traço forte e firme.

    Nas primeiras luzes do sol de domingo do batizado, sem combinarem previamente, os graúdos e as graúdas dos dois lados, abriram dez metros de cerca e armaram a mesa do almoço na linha divisória entre as duas terras. Afirmavam, sem palavras e com olhares concedentes e outros sorridentes, mesas, cadeiras e comilanças se achegavam. Foi bonito ver aquela gente aquietar, foi bonito ver aquelas duas famílias quase se abraçarem.

    Teve leitão assado e muito vinho. Bolo de milho e macaxeira frita. A meninada, agora misturada, corria pelo terreiro, gritando e gargalhando como só as crianças sabem fazer. Era sinfonia doce aos ouvidos quase esquecidos de momentos assim. Nunca mais houve qualquer tipo de atrito. As duas fazendas se uniram e fizeram uma só. Os graúdos e graúdas aproveitaram a achegação, e, talvez o cansaço da vida de discórdia. Cozeram a paz e futuro de mansidão por aqueles lados. 

    Da terra antes esturricada e seca, por causa da falta de chuva, agora, depois do poço para irrigação, cavado pelas mãos comunitárias das famílias, via-se sumir no horizonte, para além do Riacho Fino dquele imenso parreiral, onde são colhidas uvas de primeira qualidade, que produz um vinho com buquê incomparável.

    A menina, que uniu as famílias, recebeu o nome de Maria da Paz. A fazenda, que acolhe agora as duas famílias, recebeu o nome de... Terra Santa.

Autor: Dudu Neves

quinta-feira, 4 de março de 2021

O insólito perguntador

 A gente não se dava com ele, mas ele se dava com a gente.

Não fazia parte da turma, mas vez ou outra aparecia na casa do Caíca e ficava peruando nossa conversa, o pif-paf, pegava as mangas do quintal, folheava O Cruzeiro e ainda fazia mímica facial em cada virada de página; ria sozinho do Amigo da Onça, enfim...não se abatia com nossa pose de "não te conheço".

Quando estava conosco participava de tudo. Se íamos brincar bola, ele ia; se íamos pro igarapé, ele ia; empinar papagaio, jogar peteca, pião, fura-fura, brincar de pira, tudo, tudo, tudo. Era um chato. Mas, então, por que o aturávamos?

Porque éramos um tanto quanto metidinhos a sabichões. Estudiosos, filhos de professoras, boas notas, e o nosso "amigo", calado a maior parte do tempo, fazia umas perguntas que nos liquidavam. Tipo: "Que dia começou a Idade Média?" Pronto. Era o bastante pra nos tirar do prumo. Disfarçávamos. Dizíamos: "mamãe tá chamando" e saíamos correndo em busca de livros à procura da resposta. 

O que tinha na época era o almanaque Abril; quando estávamos dispostos, corríamos até a casa de seu Manolo que guardava uma edições amareladas da Barsa. Quando a gente mais precisava de certo assunto, a página faltava. Chegamos até a desconfiar que aquele moleque entrava ali, rasgava a página e depois ia desafiar a gente.

Decidimos contratar o Maricélio pra seguir o "amigo" e descobrir onde ele morava, estudava; quem eram os pais, etc... essas coisas básicas.

Foi um investimento perdido. Cada um de nós pagou uma peteca boliviana, daquela multicolorida, e nada. O Maricélio disse que era prá lá do campo de aviação, só que o moleque sumia por um caminho estreito, de mata fechada, onde se dizia que existia uma sussuarana, felino valente.

Devia ser uma entidade, aquele pirralho.

Seus questionamentos, num tempo sem Google, eram um desafio e tanto.

Acostumamo-nos com sua presença e sumiço, até que ele evaporou de vez.

Benquerença é tão cheia de mistérios.

Conto isso porque creio que esse nosso "amigo", com suas perguntas estranhas e provocantes, foi fundamental pra nos despertar o interesse pela busca, por querer saber, por ir além do aparente... É certo que não encontraremos respostas para tudo, e as páginas desaparecidas do saber persistem até hoje. O que ficou gravado na gente, é que a gente tinha um desafio pela busca. 

Lembrei dessa história porque, nesses tempos esquisitos, haja o mundo a falar de ciência: de pesquisa, de randomização, duplo-cego, multicêntrico. Essas coisas que nos deixam catatônicos. 

Pra mim a ciência é cheia de mistérios, assim como esse amigo do elo perdido. Uma hora é uma coisa, outra hora é outra coisa, depois não é nem uma nem outra e sempre tem um perigo, uma escuridão no caminho - um medo de ir em frente por causa da sussuarana e dos descaminhos. A ciência, de uns tempos para cá, começou a rebuscar em mim, e eu a pensar onde tudo começou. Começou na casa do Caíca, lá em Benquerença, quando investimos no Maricélio e não deu em nada.

Lembro bem da sua última pergunta, em meio a uma porrinha pra ver quem ia comprar o Q-Suco da merenda junto com pão-doce. Ele, sem a menor compostura, perguntou de chofre: "Que horas morreu a Renascença?"

 

Corisco e Labareda

terça-feira, 2 de março de 2021

E pela estrada que me leva a Maceió...

... Eu descobri uma trupe de médicos envolvida com afazeres da cirurgia torácica. Todos participando ativamente. É que por lá tem o grupo da Santa Casa de Maceió, que veste a roupa, põe o gorro e máscara, e tocam serviço com sistematização, a ponto de realizar evento ao vivo sem levar em consideração as amarras que a região impõe  - e sem se sentirem vitimizados por esse fato. Eles já ficaram conhecidos no Brasil por serem pioneiros em lobectomias por vídeo sem uso de OPME (conhecida como deviceless), para beneficiar pacientes do SUS. E isso não é pouco.

    No final de semana de 26 e 27 de fevereiro, por meio de EAD, realizaram o simpósio “Câncer de Pulmão Estágio I – do diagnóstico ao tratamento”. O simpósio teve 508 visitações, algo que já se torna notável. Na sexta-feira, na abertura, nada mais, nada menos que o espanhol Ramón Rami Porta fez uma magnífica apresentação acerca do que representa, na atualidade, o câncer de pulmão na fase precoce (estádio I). Em seguida, a turma de brasileiros de diversas especialidades honrou a origem e todos fizeram verdadeiras fruições com seus horizontes científicos. Eles transdiagnosticaram o câncer precoce dentro de uma verdadeira rede de cooperativismo. Trupe do bem... coisa feiticeira!

    No sábado, dia de centro cirúrgico, outra trupe lançou-se com afinco e sorver na desenvoltura do tratamento cirúrgico. De um lado, encasalados, os moderadores. Do outro, no centro do teatro (assim o centro cirúrgico era chamado pelos antigos), os comandantes Artur Gomes Neto (Alagoas) e Paula Ugalde (Canadá). Aquele exercia com sua batuta a função clínica, selecionando os casos cheios de ramificações terapêuticas, e Paula, na função artística, dava ritmo e malabarismo cadenciados pelos trampolins anatômicos, tal como uma bailarina do “cirque du soleil”.

    Houve procedimento diagnóstico ao vivo na sala de tomografia, além de outros operatórios, realizados no teatro: segmentectomia não anatômica e segmentectomia anatômica no mesmo paciente, com dois cânceres sincrônicos em lados diferentes e uma lobectomia - todos com linfadenectomia regrada, conforme prescreveu o catalão Rami Porta, na noite anterior.

    Essas longas estradas – tipo as que nos levam a Maceió – educam o olhar, a audição e nossas perspectivas. Percebe-se isso no canto do Tiê ou ao ler um excerto de Graciliano Ramos, em "Vidas Secas": Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito.“


sábado, 6 de fevereiro de 2021

O Veloso da Benquerença

O Rex Bar, em Benquerença, fazia as vezes do Veloso, em Ipanema, e servia como observatório para o andar marujeiro das garotas que se punham a ondular no calçadão que margeia o Caeté.

Tom e Vinícius nunca estiveram fisicamente no local, mas espiritualmente eram figurinhas carimbadas nas mesas que adornavam esse sindicato de artistas.

Quantas vezes – quantas!-, eles foram convocados a embalar o andar das princesas em seus trotoir domingueiros nas vitrines das ruas.

Às vezes, um cantador das antigas, empolgado com a garota que passava, puxava um "Menina Moça"  (você  botão de rosa, mais menina que mulher...) e acendia o coro dos contentes que se esmerava em elogios e cantadas, nem sempre adequadas ao decoro e aos bons costumes, provocando variadas respostas das que vinham e passavam num doce balanço a caminho do rio. Desde um disfarçado muxoxo a um resplendoroso nem-te-ligo, com aquele olhar dissimulado que só as mulheres praticam com a arte do desdém.

O Rex-Veloso-Bar era pródigo em figuras que o transformavam no point da cidade.

Curiosamente as figuras femininas não eram frequentes nesse clube do bolinha cabôco, aí pelos anos 1970. Creio que uma das que quebrou essa barreira cultural foi a Lindanor Celina, que toda noite, após as aulas do que chamaram de curso polivalente para as professoras de Benquerença, se socava no Rex-Veloso-Bar a bom se fartar de cantorias, elevando o nível cultural do Rex a níveis nunca vistos ou ouvidos. Merecidamente foi eleita, por unanimidade, madrinha da Bandalambike, entidade de caráter lítero-etílico-carnavalesco, cujos membros, em sua maioria, eram cativos do Rex-Veloso-Bar.

Waldemar Henrique tornou-se habitual no canto de uma professora que, também, era do Carlos Gomes.

Certa vez fui posto à prova nas minhas habilidades violonistas e me virei como pude.

Uma noite, após hectolitros de cerveja, entremeados de uma ou outra lapada de caju amigo, pra sentar a birita. Segundo o Decano da instituição, Cabo Rei Nonato, e várias de Tom, Vinícius, Chico, Waldik, um circunstante foi chegando pra perto de mim e pediu: "Não dá pra fazeres uma Garota de Ipanema pra nós?" Olhei assustado pro amigo da hora e respondi: "No estado que me encontro não faço nem Garota de Capanema".

O Rex-Veloso-Bar era uma parada.

Corisco

sábado, 2 de janeiro de 2021

Esse tal de ano novo (ou Recital de ano novo)

Esse tal de Ano Novo faz de mim uma fritada de ovos mexidos. 

Primeiro me alegro por responder presente à chamada; depois fico sorumbático e ensimesmado por saber que na próxima posso não estar na folha da chamada.

E aí? 

E aí peço ajuda ao anda-Já e vou direto até a geladeira encher o copo com gelo pra congelar o tempo.

Não me diga que você achou que eu entrei nessa a partir do ser e o nada, ou, o mundo como vontade e como representação? 

Mais respeito. Sou do Canil e também do Bando de Corisco. Tenho um copo a zelar. Ok, Labareda?

Então, voltando à cold cow, aqueço o gelo com uma boa dose de Cavalo Branco e ponho-me a pensar sobre o dilema do Ano Novo. Rio ou Choro? Ou faço uma composição dialética entre a tese a antítese e tomo mais uma como síntese?

Pensei ligar pros meus conselheiros espirituais: Zé, Luiz, Milton, Roger, Maca, Fernandinho... Desisti. Eles deviam estar muito ocupados com suas arrumações da virada do ano. Não era hora de incomodá-los com essas questões menores. Botei mais uma. 

E assim se deu. Entre umas e outras, entre sínteses e dialéticas, conclui que era melhor aproveitar a festa e deixar a chamada pra outra hora.

Assim sendo: tim-tim. Feliz Ano Novo.


Corisco.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

o Corre-liso

    A principal avenida de Benquerença é absurdamente enorme. Vai bater no Atlântico, passando por cima de um mangal. Quando os Beatles a conheceram fizeram The Long and Winding Road. Começa no trevo do Morro e termina no mar, em Ajuruteua, por cima de umas tantas pontes. 

    Quando passo por ela, por trás da igreja Matriz, meus olhos, numa molecagem de fazer inveja, desfazem os concretos existentes e refazem o admirável, o inigualável, o insuperável Corre-Liso, o melhor campo de pelada de Benquerença. 

    Ali se deram os maiores embates de futebol: às vezes arte, às vezes desastre, às vezes des-arte, como costumava escrevinhar Manoel de Barros. 

    Ali, também, se consagrou um artista da bola: Hélio Mata Roma - pros pais; pra nós era o Buriri, terror das zagas e goleiros. Rápido como um raio, a bola tinha um chamego especial com seus pés: não se afastava deles. Certa vez ele foi bater uma falta a 35 jardas do gol e a bola entrou na forquilha do Bracáli, goleirão famoso do Remo que andava em férias por Benquerença e achou de tirar barato com o Buriri no Corre-liso. Dizem que o Ronaldinho Gaúcho, ao ser convocado para a copa da Ásia, andou vendo DVD pirateado do Buriri, vendido na feira, às margens do Caeté. O David Seaman que o diga.

Seu irmão, o Galo Rhode, que os pais teimavam em chamar de Iran, pontificava pela precisão das porradas que distribuía em campo. Seu forte era o MMA, esporte iniciado em Benquerença, quando o Corre-Liso se transformava em octógono, sem juiz pra atrapalhar porque era o primeiro a entrar no couro. Tenho uma cicatriz na canela direita com o carimbo do Galo.  

Joguei muito naquela arena esportiva, bem antes de me tornar contador de prosa. Sempre fui um jogador entre o assim e o assado. Não tive a sorte do Labareda que teve o Quarentinha a lhe orientar os passes e passos lá pelas quebradas da Curuzu. 

Meu melhor passe foi numa encenação de sessão espírita pra desalojar um zagueiro perna-de-pau que insistia em quebrar os craques da grande arte. Um tapa no pé do ouvido tirou o beque de campo e o fez correr em meu encalço. Nunca pegou, mas foi desde então que pendurei meu kichute.

Os deuses da pelota nada esquecem e, de súbito, veio "baixando" aquela jogada sensacional que fiz, "matando" a bola no peito e, quando, no ar, preparava o voleio fatal, um despreparado (terá sido aquele zagueiro?) buzinou atrás de mim. A bicicleta, como sói acontecer aos devaneios, foi sumindo no ar... As cortinas do passado se fecharam e a dureza das construções voltou a ocupar o espaço que um dia alimentou a geração que sonhava ser Pelé.

O Corre-Liso não resistiu à necessidade da urbe. Mas, duvide-o-dó se algum atleta peladeiro de Benquerença não guarda, pra sempre, aquela jogada fantástica emoldurada na memória, só à espera de ser resgatada do tempo. 


Corisco / Labareda.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Os filósofos de Benquerença

Já bem disse Labareda, cidadão benquerencista, que Benquerença é muito além de seu tempo. 

É fato. Não conheço outro interior com a profusão de filósofos como lá. 

Ao tempo do meu aprendizado local havia duas academias muito famosas: Liz e Rex Bar. Nesses templos pontificavam inúmeros filósofos que não vou citar agora por absoluta falta de espaço. 

Falo apenas do meu mestre maior: Pandiscola, Pândis, Picolé ou Lord, como era conhecido nas academias.

Era costume termos acaloradas discussões após a ingestão preparatória de algumas garrafas de caju-açu que faziam as vezes de compêndios filosóficos. 

Pra quem não conhece o famoso caju-açu de Benquerença tem, mais ou menos, a cor do guaraná Jesus, da terra do nosso vizinho. E, Jesus, o maior dos filósofos, opera a mesma glossolalia pentecostal  citada na Bíblia, porque na meiota da garrafa já se fala vários idiomas.

Pândis costumava citar, no Rex Bar, o filósofo de Kronembier, que eu lhe soprava ao pé do ouvido: é Königsberg. Kronembier era marca de cerveja. Aí então o filósofo se empolgava, entornava mais um caju e pedia tira gosto de metafísica pra D. Rosilda. Era como ele chamava o filé-com-cebola que, segundo ele, era um exercício metafísico. E como nunca o agradava, ele desandava a falar em imperativo categórico e dizia que não esculhambava o tira gosto, apenas realizava a crítica da razão prática. Para o caju-açu ele reservava a crítica da razão pura, porque não aceitava mistura.

Lord tinha resposta pra tudo.  Perguntado sobre um pássaro diferente que víramos no rumo de Ajuruteua, ele matou a pau: "É Maçarico-Pombo, espécie não catalogada". Dizer o quê!

Quando soube que Nietzsche chamou seu ídolo de "esse chinês de Königsberg", jurou: "o dia que esse Nilton vier aqui eu acabo com ele". Com o apoio de todos pedimos mais uma garrafa. Era a derradeira. 

Essas aulas sobre o iluminismo acabavam, forçosamente, quando a igreja de São Benedito se iluminava e nós íamos filosofar em outra academia, porque disputar com São Benedito nem os filósofos de Benquerença. 

Corisco.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

O espírito de natal

     A casa fincada na beira do rio foi construída com esmero. Do açaizeiro tudo foi aproveitado para o assoalho, vigas, paredes, estames e palhas para a cobertura. A estiva que fazia ponte da casa ao trapiche, pronunciada a dez metros no rio, criava um cenário harmonioso e nostálgico àquela palafita.

    José, pescador e carpinteiro, casou-se com Maria. Foram morar ali, na beira da ilha das onças, bem em frente a Belém, às margens do Rio Guamá. Era pôr-do-sol quando Maria chegou ao lar pela primeira vez. Uma leve luz deitava-se sobre a casa e arredores. Ficou encantada com a paisagem. Emocionada mareou o olhar.

    O tempo acompanhou a correnteza do rio. Naquela noite de natal, Maria sentada no trapiche, via José lançar a rede de pesca na esperança de garantir algum peixe para a ceia. Acariciava a barriga de nove meses com ar aflito, uma vez que a escassez de pescado andava rondando o lugar. Apesar de toda dificuldade para andar, no fim da tarde, havia colhido algumas flores de algodão e um bonito galho de goiabeira. Cobriu os galhos com os tufos da flor e pôs na sala sua arvore de natal. Em oração silenciosa pediu fartura e saúde ao filho que chegaria. Ao ver aquela cena José dobrou os olhos. Sabia que estava difícil conseguir algum pescado. Quase nada se tinha em casa para um prato de comida. Ela abraçou o marido e acalentando cochichou: - O mais importante é o espírito de Natal. Dessa vez o marido mareou o olhar.

    Após armar a rede de pesca, José remou de volta ao trapiche e para sua surpresa, o barco a motor “B/M Reis Magos” vindo do município de Abaetetuba para o Natal em Belém encalhou, enganchando a hélice na rede de pesca de José. Maria tomou um susto. José decepcionado retornou ao rio. Um pouco nervoso, resmungou aos tripulantes a falta de atenção. Com a mulher a ponto de parir, queria apenas algum peixe para a ceia. Os três tripulantes velhinhos entreolharam-se, ouviram em silencio, e desculparam-se citando o espírito de natal. José ouviu calado. Desenganchou a rede. Assustou-se quando Maria gritou seu nome no trapiche. Com o coração na mão remou sem se despedir ou cobrar o prejuízo. Correu com Maria para dentro da casa. Uma estrela cadente riscou o céu, espelhando linda luz sobre as águas do rio Guamá, bem na hora que Maria e José recebiam seu filho dentro daquela palafita.

    A porta rangeu lentamente revelando os três velhinhos entrando no ambiente, cada um trazia nas mãos presentes, comida farta, uma rede de pesca novinha, um berço rústico, brinquedos e um presépio todo feito em miriti que foi posto ao pé da arvore feita por Maria. Em silêncio vieram e assim partiram.

    Maria abraçou José junto ao filho, beijou e cochichou em seu ouvido: - Esse é o espírito do Natal. Maria e José emocionados marearam os olhos agradecendo e acalentando o recém-nascido Jesus.

    Texto de autoria do compositor paraense Dudu Neves.

sábado, 19 de dezembro de 2020

A rede

     Um amigo já havia dito que Benquerença tinha algo de Macondo, do livro "Cem anos de solidão". Ele tem razão. De alguma forma as cidades do interior são um tipo de Macondo. É só olhar pelo retrovisor do passado, tal como escreveu Gabriel Garcia Marquez. 

   Foi aí que lembrei da presença da internet, do zap, do Instagram e das diversas alternativas de comunicação existentes em Benquerença, já na década de 1950. Tinha pleno funcionamento e desenvolvimento. Tudo isso naquela época funcionava muito bem, mesmo quando ocorria queda do sinal, que até agora ninguém saber explicar se era 4G ou 5G.

    Se não, como explicar aquela surra que o Priscolete dos Santos pegou do pai ao gazetar a aula pra ir pro igarapé da D. Henriqueta? Prisco, quando pisou o pé no portão, era o vap-vap do cinto pra tudo que era lado. Priscolete ficou uns 15 dias sem poder tirar a camisa na hora da pelada.

    Como as senhoras sabiam, instantaneamente, da chegada de nova puta na zona do Café Puro ou no Pitinga? A primeira a saber era a Fatinha, uma baixinha de metro e meio de altura que falava pelos cotovelos... e tornozelos. A partir dela a notícia atravessava a ponte e batia lá no sítio do seu Elesbão, já perto da cidade vizinha.

    E as retransmissoras instaladas nas manicures? E as costureiras que alastravam fake news os bairros? Com um máximo detalhe e sem direito a mojis e memes: era expressão facial instantânea com direito a suspiro. 

    E as professoras? Sabiam tudo! Naquela nossa Macondo era necessário extremo cuidado e zelo pra que segredos fossem preservados. 

    Se dependesse de mim ninguém saberia, por exemplo, que o Rui foi preso no polícia-ladrão ao perguntarem: "Diga onde está o tesouro". Ele respondeu: "Não digarei". Foi preso pelo futuro-do-presente e solto em 15 minutos, pois seu Noio, um advogado de porta de cadeia, porém poeta de bar, afirmara que o verbo era tão irregular quanto o "pendão da esperança" do hino à Bandeira. Rui não tinha conhecimento que aquele era um verbo torto, e só dobrava para a esquina do puteiro. 

    Mas o zap foi mais rápido e souberam na hora que o Rui fora solto pelo Noio. Tanto no Morro, quanto na Boca da Estrada, bairros diametralmente opostos de Benquerença. Daí em diante o Rui só queria ser polícia. Ele faria as perguntas ao lado de um livro de gramática para não cometer injustiça social ou abuso de poder.

    E o comportamento do meu pai com o velho Portuga, da padaria. Só contava piada sacaneando os "patrícios". Até o dia que o Portuga disse: "Ô Bocage, se contares mais uma de português ponho-te pra fora". O pai disse: "Nunca mais. Era uma vez dois chineses: o Manéu e o Joaquim..." Como era a única padaria de Benquerença, o Portuga suspendeu a venda de pão para nós. Só nos restava comer cuscuz. Essa história se espalhou na hora pelo mercado, o maior Data Center de Benquerença. 

    Só pra ilustrar a rapidez do espalhamento das notícias na terrinha: uma vez, o Lobo, inventor do samba tapuio, ao sair duma festa no Time Negra e ao passar na esquina da igreja matriz, foi abordado pelo padre Vitaliano, que o intimou: "Venha confessar, meu filho, soube que você roubou a galinha com farofa que era do leilão do Lamberto".

- Quem contou? Veio do céu, através de um raio. Respondeu o padre.

    Estava na rede, na nuvem. São os mistérios de Benquerença, uma cidade além de seu tempo. 

Corisco e Labareda

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

A casa dos anjos

     Por longo tempo Benquerença foi um burgo apequenado onde o progresso teimava em chegar devagar e às vezes perdia o horário do trem e aí é que não chegava mesmo. As ruas eram abertas na terra pra passagem das vacas e cavalos e os homens aproveitavam os caminhos. As luzes dormiam cedo. As comidas ficavam na banha do porco. A água era do poço amazônico. As retretes no fundo do quintal. As camadas de gente se misturavam como os virados de sarapatel e não se distinguia com nitidez quem era rico e quem era pobre. O máximo de sociologia aplicada aos casos era que os pobres pediam farinha em lata de leite ninho e tinham apelidos peculiares como: "vinagreira", "vinte quatro" e cada família tinha seu pobre pra alimentar.

    O mercado sempre foi o centro de fofocas e notícias. Sabia-se de tudo lá. Foi nesse ambiente que ouvi falar da Casa dos Anjos.

    Eu andava com vontade de ser padre e achei natural pedir pra mamãe pra ver os anjos lá da casa, quem sabe eles não ajudavam na minha vocação. 

    Quase apanhei uma surra, sem explicação, e fui proibido de falar nesse assunto. Entreouvi a mãe dizendo pro pai: "é isso que dá ficar falando nessas coisas na frente das crianças".

    Minha curiosidade era um ioiô que ia e voltava e logo me perdia em outras questões de maior importância, como procurar, no céu estrelado, o posto de gasolina onde o Sputnik abastecia. Perguntei pra Tia Quidoca que história era aquela e ela me disse que era tudo invenção de americano: "Já viste a estrada, fio?"

    Tempo passando e numa noite sonhei acrobacias e contorcionismos com a menina do circo e explodi de alegria. Gostei tanto  daquele calafrio e arrepio que, com amigos, passamos a fazer concurso pra ver quem explodia mais longe. Até que o Maricélio disse que com mulher era melhor. Só em sonhos eu sabia, mas o Maricélio garantiu que com mulher era melhor porque tinha uma casa onde as mulheres ensinavam a gente a explodir e elas cobravam pelas aulas. Pra menino novo elas podiam até ensinar de graça, se se engraçassem dele. Mas pra velho elas cobravam, ele dizia.

    Andei desconfiado da conversa porque senti que aquela casa não era estranha e já fora assunto na minha. 

    Me fiz de leso e perguntei pro Tarum, mais velho e mais adiantado nas artes da vida, o que era aquela casa e como entrar nela. 

    Ele riu, passou a mão na minha cabeça e disse: "pelo jeito tu não vais ser padre nunca. Aquela é a casa da Tia Maria, é a Casa dos Anjos. É um puteiro. A gente vai lá trepar com as meninas e levar aquelas que não querem ter os filhos que carregam na barriga. Tia Maria tira. É aborto o nome disso".

    Saí correndo, apavorado, desatinado. Fiquei dias e dias sem falar com ninguém, querendo a maior distância da Casa dos Anjos, com pavor de ver criança morta perto da casa.

    Quando consegui falar sobre o assunto, depois de pensar muito com quem me abrir e revelar esses segredos, escolhi, sabiamente, falar com a empregada de casa, uma maranhense bonitinha que só. Ela me explicou, com muito carinho e zelo, pra onde vão os anjinhos e como se dá o processo de explosão dos corpos de homem com mulher e eu me acostumei a explodir, quase todo dia, com ela. Menos uns dias que ela não  me olhava e nem falava comigo. Só mais tarde fui saber o porquê. 


Corisco.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

“Bojack Horseman” é a melhor animação que você nunca viu

 "Nunca ria de dragões vivos." 

Personagem Gandalf, de J.R. Tolkien.

        O que te faz ser preso por uma série? Independente da sua resposta, Bojack garantirá que ele não passe despercebido.

O árduo e perfeito trabalho em ser um anti-herói, faz com que Bojack seja uma série extremamente difícil de ser comparada. Não por ser a melhor série que existe ou por algum brilhantismo na produção, mas por ser única e dificilmente colocada em uma única denominação de gênero. Cómedia? Drama? Comédia dramática? Drama cômico? Bem... Essa animação começou a me prender no exato momento em que eu não sabia mais o que esperar dela: nem risadas, nem angústias. Apenas deixei com que ela me surpreendesse.

Em um mundo utópico pela originalidade ao misturar seres antropomórficos com seres humanos em uma única sociedade, Bojack é uma ex-celebridade que vive em um limbo niilista entre a glória e marasmo, numa mansão, viciado em esbórnia, além de conviver com personagens com características bem individuais e totalmente diferentes das dele. A série debocha de um cavalo falante, que é a personificação do pessimismo; dá patada em todo mundo e que nada está à altura de satisfazer seu ego ou fazer com que enxergue o mundo de maneira diferente. A série explana os atores do conflito que resulta nessa apatia do personagem, como a própria sociedade e o seu histórico familiar conturbado. Bojack mostra bem que a estrada para satisfação pessoal é longa e cheia de pedras. E é exatamente por isso que é fácil aceitá-lo. 

Além da sua personalidade arrogante e ríspida, Bojack não economiza em desprezar o otimismo bobo que eventualmente o rodeia ou algum tipo de seriedade no seu trabalho. Mas o que é mais agudo nos problemas de Bojack é a relação com o seu pior inimigo... Sim! Bojack tem alguém que atrapalha ele mais do que a própria sociedade hollywoodiana. Esse inimigo vai se mostrando aos poucos, na série, sem nem mesmo se perceber.

Em um episódio você está rindo e achando que está assistindo uma comédia boba, no outro já está preocupado se Bojack conseguirá contornar as adversidades. Apesar de toda a fama, dinheiro e poder que ele tem, esse inimigo, ainda assim, consegue colocá-lo pra baixo e manter com que Bojack necessite sempre de um novo episódio com o intuito de vencer essa batalha, que se torna cada vez mais difícil quando nós e o protagonista percebemos que o inimigo é o próprio Bojack - é ser o Bojack e que não há cura pra isso. 

Na verdade não só ele, mas todos os personagens que a série apresenta têm suas particularidades problemáticas, mas especificamente Bojack pode te causar inveja com tudo que tem, mas também pode te acalmar quando o mesmo mostra tudo o que lhe falta. Com o tempo, Bojack deixa de ser um mero alívio cômico no seu dia a dia e começa a se tornar um amigo...

E se eu pudesse dar um conselho a esse amigo diria pra assistir “Bojack Horseman”.

Danilo Normando

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

A luz bruxuleante de uma poronga - parte II

 Feito menino que se lambuza com melado assaltado da despensa do avô seringueiro, nalgum canto das florestas da Amazônia Ocidental, eis-me aqui contrito, lacrimejando alegrias imponderáveis, celebrando junto a todos nossos ancestrais, grato pela oportunidade de comungar com esta gente bandoleira que se alimenta de luz coruscante e calor humano.

Quando os espelhinhos e miçangas são postos ali nas bordas da terceira margem, na confluência de um ponto qualquer do espaço-tempo, estou sempre atento. Ora pescando, ora mergulhando, ora descansando nalguma praia, ao amanhecer, colho palavras orvalhadas de profundo senso estético. Lambuzo-me novamente. Abro o coração e a vida toda ao meu redor vem me habitar. 

Corisco, Labareda e outros tantos que riscam no céu e na terra prosas e versos, depositam suas armas, arrancam as roupas e caem n'água. Meninos e meninas, um a um, mergulham de cabeça, uns voando de castanheiras altas, outros vindo em voos rasantes, rio acima, outros se teleportando... 

Poucos se conhecem, mas nos confraternizamos feito criança nos parquinhos da infância primeira quando somos todos livres para amar e dar inocentes beijos babados...

Sigamos entrelaçados, letra a letra, raio a raio, calorosamente irmanados!

(Sabá de Abadia, das Terras de Rondon, contente e grato)

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

A luz bruxuleante de uma poronga

O meu amor se magicou no dia que o arco íris lambeu as pontas do Rio e os dedos do Cristo. Feito esfinge, de braços abertos, mergulhou nas águas salgadas, desaguou preto, retinto - pra devoção dos homens afeitos ao sol da cor e veio varar em boca de rio.

Este dito mundo nasceu do abraço entre o rio e floresta, lá pelas ilhargas do rio Acre, donde me vi pedaço de gente carnificado sobre osso. Depois esses dois mundos, floresta e rio, se amaram, se encantaram, frutificaram em seres, mangues, mitos e nas ocas e malocas dois curumins brotaram feito gente grande de minha mistura afro-disíaca. Hoje eles ganharam mundo na barcarola daquele Acre-manifesto, a bem do amor e do conhecimento.

É desse mundo que venho, de mistureba de cores - é o mundo que tenho guardado, imaginado, imaculado, que serve de porto quando a noite de sábado chega imprevista e tudo que resta é beber um vinho e assentar sobre o colo da terra que, feito mãe, estende o abraço pro filho que berra e se esconde dentro dos poetas e dos sofrimentos alheios...

Venho aqui, afeito à poesia de Corisco, para falar deste mundo alheio e do abismo que alberga o sofrimento, que se esvoaça no pensamento: “O abismo olha de volta, com uma flor nas mãos.”  

Há um lustro, subsidiado por essa poesia de Corisco, que desferi de meu parabelo feito devaneio pelos renováveis palimpsestos atemporais, assim como pelo pergaminho de Sabá de Abadia e pela alegria de Zabelê, criei uma lista de transmissão para fins de desejar bom dia: bom dia!

Inicialmente era uma forma de dar bom dia aos, aos sábados. Depois passou a incluir a sexta, assim que os primeiros grânulos do sol abraçavam a minha floresta, até findar em domingo. Na medida do possível, sempre muito cedo. Cognominei de Bando de Corisco em homenagem ao poeta, que vive escondido nas redondezas, e que me batizou de Labareda.

A coisa foi crescendo e me absorvendo. Fui pondo mais amigos que respiram literatura e a lista foi ganhando megabites, giga e tera - tomando fôlego e virando rotina. A cada um deles foi sendo batizado com a alegria que merecem: Os nomes seriam uma forma de imitar “Grande Sertão: Veredas”. Fui sendo consumido pela poesia, pelos incrementos pontuais de Sabá e por aqueles que arvoravam a escrever para nossa bandoleiragem. Cada vez mais ficou puro-malte conversar com cada um que responde às postagens.

Não sou da poesia, mas em algumas oportunidades, como esta, Labareda se verga pelas letras e posta aqui e ali um modesto texto. É quando desopilo de minha rotina escaldante, agora recheada pela pandemia.

Já tem tanta gente, que perdi o controle. Vez por outra mudo o telefone e acabo perdendo alguns números e a lista fica desfalcada e emudecida de pessoas que tanto estimo. Nesses cinco anos, perdemos Zabelê para um entupimento nas coronas e o Paulo Bandeira para o abecedário do AVC, mas a lista também ganhou ilustres e virtuosos ligados às letras. Alguns músicos, como o Nemequi e Nilson Chaves. Sim, o Nilson, que sempre estava participando, enviando sinal de positivo, aprovando cada texto e cada resposta. Nunca escreveu, mas sinalizava.

Certa vez, no meio da pandemia, ele me ligou para pedir ajuda sobre alguém que precisava de meu estetoscópio - alguém contaminado pelo Corona. No final da ligação, ele me perguntou se aquela lista de transmissão havia acabado, pois nunca mais recebera os textos. Ele fora um desses que acabou escapando de minha atenção.

Fiquei apequenado, porque jamais imaginei que ele fosse sentir falta de nossas postagens, afinal, o Nilson representa claramente a voz da Amazônia, pois suas canções voam por esses recantos, entre floresta e rios.

Sei que nestas próximas semanas o Nilson não estará nos encontros do bando, mas queira ele saber, ao ler esta, que estaremos orando para que logo se recupere e abandone aquele vírus, pois o Bando tem a certeza absoluta que porá tapioca e farinha d’água no caldo da bandoleiragem e seguirá firme pelas ribeiras da poesia destemida de Corisco.