A doutora Nazaré Belém comandava o setorial de Marambaia havia onze anos, e nesse tempo todo aprendera a distinguir sequestros de verdade daqueles que a imprensa panfletava. Sabia a diferença entre refém e desaparecido, entre resgate pago e corpo mergulhado na baía do Guajará. Era pródiga no ofício e não carregava pavulagem no curriculum. Não dormia, não descansava, vivia às voltas com negociação e mapas de rota de fuga espalhados pela mesa, tal um tabuleiro de xadrez. Não se cansava de buscar justiça na sua forma mais social. O esposo convivia bem aquela rotina.
Foi numa terça-feira de calor pegajoso, ainda
breada depois de um plantão de trinta e seis horas atrás de um sequestrador que
trocava de carro a cada esquina, quando sentiu a primeira pontada. Fina com uma
agulhada, lateral, como se alguém lhe desse uma estocada nas costelas para
chamar atenção. Não deu bola. Delegada intensa não adoece em serviço.
A pontada pleural voltou no dia seguinte. Percebeu
que não era muscular e nem estava na conta do trabalho. Desconfiava de coisa
feia, como se estivesse perdida no porão de uma emboscada em busca de um
meliante astuto. Só que agora o porão era a própria caixa torácica.
Foi então que veio o relâmpago - não o de
inteligência policial, ou um seqüestro relâmpago, mas aquele outro, mais raro:
o da lucidez sobre o próprio corpo. Nazaré, que investigava sequestros havia
mais de uma década, recebeu a notícia médica com um misto de ironia e pavor:
abrigava um Sequestro, ou seja, um pedaço do próprio pulmão, isolado, irrigado
por um vaso clandestino vindo direto da aorta, vivendo à revelia de tudo o que
órgão deveria fazer. Uma refém dentro dela mesma, estando no cativeiro desde
antes de nascer, à espera de ser localizado.
O cirurgião foi claro quando explica o óbvio a quem
só sabe explicar crimes: Sequestro Pulmonar, CID Q33.2, malformação congênita -
pedaço de tecido pulmonar que nunca se conectou de verdade ao pulmão,
alimentado por um vaso aberrante, simulando pneumonia e até mesmo tumor, em alguns
casos. Resolução: mesa cirúrgica e bisturi. Tirar o refém, fechar o caso,
arquivar a ocorrência.
A cirurgia correu bem. O vaso sanguíneo aberrante
que o alimentava foi ligado com a precisão de quem sabe que um erro ali seria
uma hemorragia sem negociação possível. A doutora acordou leve, como não se
sentia desde a última diligência pela redondeza do bairro.
Voltou ao setorial 45 dias depois, com fôlego
refeito. Seus parceiros notaram a diferença antes mesmo de perguntar: tinha
riso frouxo, atendia telefonema com menos urgência na voz, e uma vez chegou a
dizer que talvez fosse hora de pensar em outro tipo de vida... mas recuou.
Aquilo estava no DNA dela. Até voltou a fazer corrida de rua e já tem projetos
de fazer maratonas.
Hoje, dizem pelos corredores da delegacia, que a
doutora-delegada ainda resolve casos difíceis. Mas há uma policial antes e uma
depois na sua biografia: a cicatriz que só ela e o cirurgião conhecem o duplo
sentido: a data em que deixou de ser refém do próprio corpo para seguir sendo,
como sempre foi, desafiadora e caçadora de sequestros.













