sexta-feira, 3 de junho de 2022

Eu vi um homem de vestes negras empunhando o tridente

No roteiro clínico diário não é raro a gente se deparar com destrambelhamentos, de modo a classificar um caso ou outro como surreal. Aí desembaço os óculos com a flanela e vou buscar fundura nas palavras. O tema é cirurgia segura.

Entende-se que um dos pensamentos primazes da medicina não se restringe apenas a estudar o órgão doente; tem que saber em o lado. É lição que se aprende na dialética da graduação. Na Residência a cobrança é mais espinhosa. Se descuidar pode custar visita ao inferno. Nenhum professor permite que o residente chegue à sala de cirurgia sem ter à frente o exame de imagem que demonstre o lado a ser operado. No meu caso, o chefe de serviço não permitia sequer o laudo - tinha que ser a imagem.

Certa vez ele flagrou um residente – parece que não era eu – fazendo pequeno procedimento, sem a radiografia torácica à frente, confiando apenas na memória.  Ele chegou de surpresa. Perguntou o lado. O silêncio foi sepucral. Vi o residente beijar o cramulhão. Da parede saía um homem de vestes negras empunhando um tridente, que penetrava pelas costas. Ele soltou um berro em silêncio. Ficou estatuado por alguns segundos. Sumiu-lhe o sangue do rosto. Escorreu um suor medonho. Senti um fio de pólvora na sala.   

O livro de Atul Gawande chamado “checklist manifesto” descreve todo o bê-á-bá da cirurgia segura. É como se o médico, na vez de piloto de avião, preparasse uma travessia sobre o atlântico, onde tudo é checado, do primeiro ao último fio de cabelo de cada paciente e de cada piloto. Hoje a ciência cirúrgica camba por estes meandros, e os hospitais-acreditados são supervisionados por várias organizações médicas para obter uma boa nota ONA - uma espécie de graduação no quesito segurança.

Uma das principais bandeiras é a identificação do paciente. Operar o paciente errado vira casa de maribondo. Se acrescentar o lado errado  pode se considerar ida ao inferno de Dante sem precisar bater à porta. Isso aconteceu comigo.

Estava sentado, por começar a descrever um procedimento considerado simples -drenagem pleural no CTI. Havia acabado de realizar, chancelado pela enfermagem com acreditação. Foi quando o amigo neurocirurgião entra esbaforido, pela porta principal, e me aborda:

- Drenaste a Nirvanna, que está em morte cerebral. Ela teve uma complicação no lado direito do tórax e, por conta dessa complicação teve parada cardíaca e entrou em coma profundo. Tem 20 anos de idade.

- Não, não... Drenei a Clareana, do lado esquerdo, que também está em coma. Tem 19 anos.

-Nada disso, drenaste a Nirvanna, no lado direito.

- Tu estás confundindo. O nome dela é Clareana e foi o lado esquerdo.

Nada disso, meu amigo, drenaste a Nirvanna, lado direito.

- Tu estás enganado, meu amigo, o nome dela é Clareana e foi do lado esquerdo.

Quando foi pela quarta vez, vi-me beijar o cramulhão. Eu percebi que da parede saía um homem de vestes negras empunhando um tridente, que penetrava pela frente, no meu peito. Soltei um berro em silêncio. Fiquei estatuado por alguns segundos. Sumiu-me o sangue do rosto. Escorreu um suor medonho. Senti um cheiro de pólvora no ar. Eu já olhava para a enfermeira que me acompanhou com um olhar totalmente entregue ao Capa Preta. Faltou-me também o fôlego.

Foi quando a mesma enfermeira perguntou se estávamos falando da mesma paciente. Pronto! Silêncio vernal. Ouvi passarinhos.

A partir de então fui beijado por um anjo. Eu percebi que da parede saía Hipócrates com seu caduceus e fazia o sinal da cruz na minha testa. Soltei emoção calado. O sangue voltou a circular. Senti um cheiro de patchouli.

Depois de alguns segundos pensei em esfolar o meu amigo. Só não o fiz porque em menos de 24 horas ele perdera duas jovens pelo mesmo motivo. O coração dele era menor que o meu e estava precisando de muitas costuras. As costas dele carregavam mais desmazelo que as minhas. Então cheguei em casa e pus limão e gelo na cicuta de Sócrates e transformei em caipirinha. Bebi numa talagada só; desceu aveludada.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Todo congresso tem conversa de boteco - desconstruindo o metaverso

                                                                                       “-Quem tem saudades nunca está sozinho!”

Josué Montello, em: “O silêncio da confissão

 “Após noite longa em claro, ora andando entre a alcova e o quarto de vestir, ora sentada na poltrona junto à janela, ora deitada na cama desfeita, ela não saberia dizer ao certo o que sentia com a boca amarga, os olhos doloridos, um aperto na cabeça, à altura das têmporas. De repente esquecia-se de tudo para apenas pensar no novo dia que ia viver”. Assim se inicia o romance “O silêncio da confissão”, do maranhense Josué Montello, ao retratar o confinamento de sua principal personagem, após desatino na vida.

Não obstante, retomar o “velho normal” dos congressos após longa estiagem de eventos presenciais parece prenúncio dos próximos dias a se viver. Não que abandonemos o avanço tecnológico das confortáveis reuniões via web, impostas pelo confinamento, mas o silêncio e os desencontros transformaram-nos em avatares a viver metaversos. Parecia que tudo havia acabado para sempre por imposição de um destino implacável. Tudo isso, agora, começa a ser página solta, flutuando ao léu.

Em recente evento soteropolitano organizado pelo Grupo de Estudo em Oncologia Torácica (GBOT) e SBCT, dois ou três pequenos grupos de cirurgiões, nos intervalos das palestras, reuniam-se ao lado de fora, experimentando o desconfinamento: igual a reaproximação, congraçamento. A conversa foi da robótica às traquinagens na traqueia. Muito se aprende nessas prosas, que dão motes para bons textos e algumas viradas na rotina, ao misturar arte e a vivência científica.

Esse evento fez-me lembrar o espaço 2001, aquela odisséia do congresso em Gramado-RS, marcado pela explosão da Simpatectomia e pela ausência de Robert Ginsberg, que em seguida morreria de câncer de pulmão – a mesma doença que passou a vida inteira estudando e ensinando. Era o segundo dia do evento e eu subia, com algum esforço, pouco depois das sete da manhã, pela ladeira íngreme que dava acesso ao hotel do evento. No meio do caminho fui alcançado por um cirurgião maratonista, que puxou conversa. Eu esbaforindo, como se tivesse escalando o Aconcágua, e ele como se passeando pelo parque do Ibirapuera numa manhã primaveril de domingo. Dizia-me que todo congresso deveria ter um tema logo cedo e depois era fechar a cortina e sentarmos à mesa para papo de boteco regado a capuccino ou bom vinho. De forma descontraída, dizia que o melhor do congresso era o lado de fora das convenções. Salvei aquele dois-dedos-de-prosa no escaninho de minha memória por esses 20 anos.

As prosas off-road podem gerar espasmo de idéias e não raras vezes acrescenta  também elementos nas rotinas. A partir de então, o fiat lux se junta ao novo e tal como um gole de sabedoria, sacia a lacuna que carece. É isso que alimenta os dedos de prosa.

Em verdade, as conversas de boteco, em meio a eventos, sibilam sob silêncio e ressoam dentro do peito de cada um - tirando as bravatas, claro – e acabam deixando-nos enjaulados, numa chuva de mindset. Trata-se de uma confissão nua, como se as vestes que lhes vestem coubessem nas almas que delas precisam. Não se mede em quantum ou hertz, pois possuem luz própria, sistemas autônomos e sinapses personalizadas. Ao serem expostas ao consumo público, seja numa palestra ou em nova conversa informal, viram nuvens que se formam e se deformam nos passeios pelos ares - de um aeroporto a outro -, cujas ideias flutuam pelo cotidiano, até se transformar de vez em voz científica.

Será que o cirurgião focado atrai as coisas certas ou o forte curso das idéias exclui as erradas? Para a maioria dos cirurgiões é a mistura dos dois. No de hoje, o tema renasce de situação vivida há 20 anos para se juntar ao saudosismo do retorno às conversas de congressos, cujas reuniões pela web nos deixaram órfãos do espírito de congraçamento e dos abraços.

terça-feira, 12 de abril de 2022

Por que escrever?


    
        Todos os dias, em silêncio, um verso pede para nascer, sem acordar as crianças. Os primeiros raios apalpam a manhã, mas a vista da janela do quarto em que habito, por esses dias, tem um céu cheio de nuvens acinzentadas que hibernam as montanhas que rodeiam a cidade, batem à minha janela, assim como ofuscam os próprios raios de sol.

Os carros passam para os dois lados, pela mesma via, como se fossem para os mesmos destinos, ou avessos.

Sentado no parapeito da janela olho para fora à cata de mim, incrustado nesse mundo esférico e frenético, que não respeita as leis da natureza. Assim a chuva se impõe em meio ao assombroso tino do horizonte pronto para esconder o dia.

Uma jovem cruza o jardim, elegante, com guarda-chuva colorido, enriquecendo de contraste a fotografia desse dia denso.

Queria era que a beleza d'aurora chegasse leve e breve como convém à anunciação do dia, nascendo de um buraco negro para sugar-me palavras ao redor sem deixar perguntas, dúvidas e incertezas, de modo a cumprir o destino do dia, a sina de escrevinhador e ser questão ante à rima.

Não há som da natureza, apenas o dos carros zanzando para direita e esquerda, açoitando o meu ouvido de primata.

Talvez valha um Milestone no trompete de Mile Davis para que afoguemos o tropeço da revolução industrial ou se apegar a Manoel de Barros: “Sobre o nada eu tenho profundidades”.

Labareda e Corisco.

terça-feira, 5 de abril de 2022

As páginas solitárias da guerra


 
 A morte tece seu fio de vida feito do avesso

Dori Caymmi e Edu Lobo, na canção: "Desenredo" 

Caminhar por ruas estreitas e largas ou adentrar a shoppings parecem ações comuns dos reles viajantes em passeio. É ler de tudo. Natural que nos deparemos com imagens e propagandas para o chamamento a gastos: livrarias e livreiros é-me rotina. 

Assim adentrei em determinada livraria de Braga, Portugal, quando me deparei com o guia "Cultiva a saúde com livros". Na capa a linda jovem amontoa livros nos braços e põe um estetoscópio no pescoço. Fiquei a me perguntar como a imagem do estetoscópio aliado à leitura poderia salvar vidas.

 O editorial era sobre a guerra na Ucrânia. O guia relata que determinada jornalista recolhia depoimentos aqui e acolá, enxergava rostos aflitos e agitados, alguns chorosos e amargurados, tensos, inquietos, até que mais adiante observou uma jovem ucraniana com a cara num livro. Ao fundo percebia-se pó impregnado nos móveis de uma sala que aparentava ter perdido parte das paredes; ao redor muita agitação, relatava o autor do editorial. 

Em meio aos escombros deste fluxo contínuo e incontrolável de imagens televisivas e informação frenética sobre a tal guerra, numa amálgama de explosões e refugiados e feridos e mortos e soldados e testemunhos e discursos e opiniões e teorias e ruínas e mais refugiados e sirenes e bânqueres e choros e tiros e mais ruínas e tanques e mísseis e estratégias e apoios humanitários e refugiados. Tudo muito nervoso e angustiante, num desespero e desnorteamento sem fim. Assistir à reportagem de uma ucraniana calmamente sentada com um livro à sua frente, totalmente envolvida, abrigada numa cave enquanto decorria um ataque de mísseis, me deixou tonteado. À sua volta crianças choravam, mães carpiam e bramiam, outras rezavam com nervos à flor da pele. Os poucos homens que por lá estavam não paravam quietos, angustiados, sem saber o que fazer. O que se passava com aquela moça? As palavras dos demais saiam atropeladas, sem conseguirem conter-lhes o desvario e a ansiedade. Ela, plácida e serena, lendo um livro no alfabeto cirílico, alheia a toda aquela barafunda.

A jornalista se achega e pergunta-lhe o que está fazendo. Ela responde que está lendo, com certo ar de lógica. A jornalista, incrédula, imbuída daquele frenesi alucinado que de repente parece ter tomado conta do mundo, pergunta-lhe como consegue. A ucraniana, tranquila, com voz calma, explica-lhe que, quando ler, tudo o que a rodeia desaparece, que mergulha na história do livro e passa para outro mundo, esse onde decorre a narrativa, alheando-a dos medos e temores da guerra, dos horrores do presente. E diz isto com um quase sorriso, numa serenidade e bondade que contrastam vivamente com tudo a que a circunda, mesmo com essa excitação profissional de jornalista em situação de notícia. Depois cala-se e mergulha de novo na leitura. 


A jornalista continuou seu delirante inquérito, mas guardei esta leitura de pura lucidez em cenário de guerra, e agora já tinha como aliar ao estetoscópio: "a literatura é que nos pode salvar do manicômio".

Decerto os caminhos conhecidos da guerra não dão conta das agonias de seus filhos, pois há um futuro incerto acontecendo lá fora. Mas a vida pede um corredor humanitário e segue habitando-nos bem além das escolhas que fazemos.

Por mim, continuaríamos a ter asas pra brincar de passarinho em nossos sonhos e dar a mão a Deus, se ele quisesse passear numa praça em Kiev. Mais tarde, em qualquer boteco, poríamos o coração à mesa e celebraríamos a comunhão dos homens. 

Texto adaptado do escritor angolano Adolfo Luxúria Canibal e do poeta Corisco.

sábado, 19 de março de 2022

As flores da guerra

    Encheram a terra de fronteiras, 

carregaram o céu de bandeiras, 

mas só há duas nações - a dos vivos e dos mortos. 

Mia Couto 


 Enquanto escrevo esse texto, o mundo lá fora explode e uma criança tremula a bandeira azul e amarela de seu país - tal como uma flor -, ao lado de uma poeira de estupidez que a cerca. Outra atravessa a fronteira sozinha, acompanhada pelas flores que a ladeiam, carregando no seu alforje um retalho de esperança. Quase 100 crianças já morreram e mais de um milhão passaram pelas fronteiras da Ucrânia.

    O que nos choca nas imagens que correm o mundo pela Reuters, além do tanto de mortes, é o fato de que elas não mostram um lugar previamente precário sendo cada vez mais devastado; não, vemos lugares previamente frondosos e bem estruturados transformados em ruínas: são prédios residenciais esburacados por mísseis. Estamos testemunhando o progresso contra o progresso; dinheiro contra o dinheiro; sofisticação tecnológica contra algumas das cidades mais desenvolvidas do mundo. O mais letal que o dinheiro pode comprar contra o mais belo urbanismo que o dinheiro pode cultivar. Não há belas artes, não há belas flores nos jardins, há balas e bolas de canhões. Não há riqueza e não há tradição que nos impeça de agirmos contra nós mesmos e, assim, a jornada virou um paradoxo delirante.

    Importa-nos muito, e estamos aqui, seguindo incólumes, sobrevivendo e assistindo à derrota de uma pandemia frente às vacinas – embora haja alguns que desdenhem - enquanto a dita nação tenta roubar a cena com seus deuses-déspotas. Se construímos nosso próprio cenário de progresso e se tentamos nos desafogar desse mar negro da discórdia, resta-nos a solidariedade.  Talvez, dada a diversidade de opiniões e ações, sejamos merecendentes dessa guerra.

    Em situações de desassossego, como o de hoje e o de ontem com a Síria, valha resgatar os poetas. O meu predileto é Corisco, que me mandou o texto seguinte sob forma de mantra para acalmar minhas desordens e minhas histerias. Ele dizia que as flores da rua de um bombardeio nascem secas, em vida. Se buscam o sol por instinto, por necessidade, pela vitamina B12, crescem à força, impelidas pela necessidade, mas na mesma dose de força fenecem. As flores da desesperança plasmam a seiva da desgraça, e as trapaças se agarram ao destino, como desatino dos desassistidos; dos que buscam o nada quando já perderam tudo - exceto restos e migalhas de vida.

    No minuto seguinte do próxima amanhã, e se os déspotas permitirem, as flores do pântano social são vistas como coisa normal e a abelha há de apreciá-la no próximo voo. 

    Ao curso natural das guerras, há uma consequência natural das flores regadas às migalhas das caridades das gentes: a morte das flores das ruas, que são acordes ressonantes; que Deus se apiede de Deus por esses buquês que, também são seus, que, aliás, são nossos.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

A CADEIRA QUE NOS SUPORTA

            Era sexta-feira ensolarada na cidade de Prestino, perto do Lago Como, na Lombardia, norte da Itália. Giacomo passa acelerado para ir almoçar em casa e matar a fome que lhe perturba. Nota que a árvore no jardim do sobrado daquela senhorinha esquisita está preste a cair. Se acontecer, um grande galho pode quebrar parte do telhado do lado esquerdo da casa. Seria melhor avisar alguém sobre isso. Mas, já faz algum tempo que ele não via aquela pequena senhora, cujo nome nem lembrava mais. Provavelmente, nem estivesse em casa, saído junto com parentes, fugindo da pandemia que castigou tanto esta parte do país, nos últimos dois anos. 

        Ao entrar em casa, o jovem pega o telefone e liga para o atual proprietário da casa, pois sabia que a senhora havia vendido esta para o Sr. Allan, mantendo o direito de usufruto. O cidadão suíço abastardo também era o proprietário da casa onde Giacomo morava de aluguel, por isso a lógica para conectar os fatos.

        O Sr. Allan conta para Giacomo que já havia um tempo que não falava com a Sra. Marinella Beretta. Ele informou que entraria em contato com a polícia local, para ver se notificavam a sua inquilina. 

    No mesmo dia, uma viatura dos bombeiros foi ao local de residência da senhora Beretta, para verificar a situação e programar o corte da árvore, que sofria com os ventos fortes desta época do ano na região Lombarda. 

        Bateram à porta por 15 minutos, sem sucesso. Tomaram a decisão de entrar no recinto. Ao abrirem a porta à força e depararam-se com uma sala arrumada, porém com ar de abandono. Chamando o nome da senhorinha foram adentrando cômodo a cômodo, até chegarem à cozinha. Lá viram a senhora sentada em uma cadeira de cabeça baixa apoiada na mesa, totalmente imóvel. Ao tocá-la, o sargento Guiseppe toma pé da verdadeira situação. A Sra. Marinella Beretta estava rígida como se fosse parte da mobília. Ela estava mumificada em sua solidão. 

        O seu corpo, já há muito sem vida, jazia no seu trono de reclusão e esquecimento. Pelo estado de mumificação, a morte foi calculada como ocorrida há dois anos. O que coincide com as últimas datas de contato visual com seus vizinhos, pois não era afeita a prosa. Essa aversão ao contato não passava de uma inferência, uma vez que não se tem um costume local de interagir com os anciões solitários.

        Marillena Beretta esperou por dois anos para que uma árvore lhe fizesse ser notada. Era uma sombra a existir. Uma figura sem importância. Mais uma vítima da solidão que assola 40% dos idosos italianos, esquecidos pelos parentes e amigos do passado. 

        Não foi situação exclusiva dos filhos de Romulo e Remo. Existem inúmeras vidas esquecidas, com suas cabeças prateadas e suas mãos enrugadas. 

        Como estão os seus velhos? Estão sentados esperando uma árvore cair? Não espere muito para revê-los. Pois nem todos tem um jardim com árvores.


Jader Leite, jardineiro de espírito e de alma

sábado, 1 de janeiro de 2022

Scamparini acerta tiro direto no meu peito

                                                                          There's a lady who's sure all that glitters is gold

And she's buying a stairway to heaven

Led Zepellin, na canção: Starway to heaven.

 

“No dia em que Yana Milinic resolveu ir para a guerra, já tinha tomado a decisão irrevogável de morrer”. Assim está a primeira frase de “Atirem direto no meu coração”, estreia de Ilze Scamparini no campo da literatura. Ao final da obra, a autora paulista, correspondente da Globo em Roma, nos arrebata e queda ao chão com seus estilhaços literários. Foi grata surpresa. 

Sou, há muito, admirador do jornalismo cantarolado de Ilze. A forma como sonoriza seus textos, em parte, está na obra. Li como se tivesse o ouvido grudado num áudio-livro, com a voz de Ilze ao pé da orelha. É leitura com fundo musical: Led Zepellin. Porque há rajadas de guitarras em meio a um texto de resistência ao establishment.

Descobri essa nova Ilze atravessando as ruas de Botafogo, numa livraria de renome. Andava me ocupando da saúde da família, quando achei um tempinho de visitar a tal livraria, além de saborear um bom cafezinho, como sempre faço quando vou ao Rio.

Logo na entrada me deparei com o livro. Retrata a guerra de Kosovo, um pequeno pedaço de terra onde cristãos ortodoxos digladiam-se com  albaneses e muçulmanos pela posse territorial, após a ruptura da Iugoslávia de Tito. Sem querer entrar no mérito internacionalista, Ilze se transforma em Paola durante seu relato e consegue traduzir o sentimento da sérvia Yana Milinic, a personagem principal que vendeu a alma ao diabo, por conta de seu nacionalismo beligerante. Numa das cenas ela invade pequeno hospital e, com sangue nos olhos foi capaz de atirar na cabeça do cirurgião em pleno campo operatório e no paciente que se encontrava sobre a mesa de cirurgia, com o abdome aberto. Ambos ficaram na pedra. Por sua vez foi capaz de chorar sobre o corpo de uma criança fuzilada pelo parceiro de farda.

Para relembrar essa guerra já esquecida, Scamparini dá ouvido à guerrilheira Yana, entre vários encontros, e também revigora-se por meios de revisão historiográfica. Na época, 1998, por conta de questões étnicas, Kosovo tentava ser independente, mas o governo sérvio do ditador Slobodan Milošević não estava disposto a ceder. No romance, a protagonista Yana veste a farda da Raposa Vermelha, grupo miliciano ultranacionalista que defende a cartilha do ditador.

A narrativa é taquicardizante. A sensação é de o leitor estar nas trincheiras da guerra, ouvindo rajadas dos Snippers, aviões da OTAN passando por cima da cabeça e torcendo por Yana no octógono contra Lady Tortura. Se quiserem entender visceralmente a guerra de Kosovo, não comprem livro de história. Viagem para o terreno kosovar nas asas de Ilze, que se faz Yana pelo lado de dentro dos sérvios da resistência, que buscaram com faca nos dentes a independência política de seu povo.

Até a sede que Yana sofre escalando as colinas foi transferida para mim. Naquele momento fechei as páginas do livro e fui até a geladeira tomar uns goles para ajudar a corrigir sua desidratação, pois a descarga de adrenalina que escapava da leitura atingiu minha goela em cheio; perdi o sono.

Ao escolher vestir a farda da resistência, Yana foi iluminada pelo avesso dos breus. Era quem enxergava o caminho em noites de lua cheia ao lado de seus companheiros. Não via riscos em tropeçar nos medos que a sua razão de mulher do campo semeou ao longo do tempo pendurado na baioneta de seu fuzil.

sábado, 18 de dezembro de 2021

Cirurgia de traqueia: Um lustro ilustre e seus elos no mesmo paralelo

         Dezembro, nove, 2021. A data representa o dia em que recebemos a notícia pelo diretor do hospital Galileu que o PROGRAMA DE CIRURGIA DE TRAQUEIA havia sido reaprovado pela atual diretoria, com apoio da Secretaria de Saúde do Pará. Ou seja: seguiríamos por mais uma temporada dando voz aos silenciados pelas avarias e seqüelas da entubação e outras mazelas.

O programa nasceu para aliviar cerca de 20 pacientes que batiam à porta de hospitais, sem haver eco. A previsão era de seis meses de duração, com provável prorrogação para mais seis. Ao longo da jornada ele precisou esticar, por conta da necessidade de contemplar o interior do Estado. Também surgiram as estenoses da laringe – espécie de “terra de ninguém” -, envolvendo a glote e a subglote, assim como os ferimentos cervicais complexos, fruto da degoladora violência urbana. Hoje completamos o quinquênio.

Essa extensão do programa, em que pese torná-lo mais complexo, teve como desfecho positivo o fato de não ter ocorrido transferência de tratamento para outros centros (TFD), e acabamos nos abastecendo  da expertise. Isso, para uma política de saúde pode representar vitória não só no plano econômico, mas principalmente humanístico, sem esquecer a contribuição científica e o congraçamento com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica, pois temos recebido cirurgiões de diversos centros.

Por sua vez o organograma do hospital criou uma ala específica, com clínicos habilitados para conviver com os detalhes da doença, além de insumos totalmente voltado para este de programa.

Por tudo isso, resolvemos comemorar o lustro com caso desafiante: estenose de 3cm a dois anéis da Carina traqueal. Ou seja, aos olhos dos brônquios, lá embaixo. Ao serrar o esterno, estávamos entremeado pelo coração, veia Cava, Aorta e Esôfago. A lesão estava atrás das artéria e veia Inominada. Não precisaria definir como estruturas nobilíssima. 

Havia um campo visual limitado, onde tivemos que nos revezar para findar a operação. Para comandar a batuta convidamos o presidente da SBCT, Artur Gomes, um apaixonado pelo tema. E para testemunhar o fato, mais dois estrangeiros - um carioca e um maranhense - ajudaram a soprar as cinco velas desse aniversário, cuja comemoração foi dentro do próprio centro cirúrgico com todas as fontes de oxigênio ligadas e uma explosão de desafios e resiliência. O procedimento durou mais que o esperado, mas o resultado foi surpreendente, com o paciente precocemente em casa, respirando normal – e sem cânula de traqueostomia -, desafogando a fila que já recebeu mais de duzentos pacientes e ainda tem uma carrada pela frente.

Naquele sábado, antes de aterrissar no centro cirúrgico, demos uma parada na conveniência da esquina, anexa ao posto de gasolina, para degustar um café e ganhar tutano. Naquele momento fizemos um rearranjo da estratégia cirúrgica. Na hora de pagar a conta, o proprietário, um velho amigo de ensino médio, pediu para “deixar pra lá”, louvando aquele trabalho e os convidados ilustres. Era um bom sinal; aquele tipo de gente era a mesma que iríamos encontrar no Galileu. Dito e feito. Fomos recebidos pela equipe de anestesia, enfermagem e pelo diretor da instituição que, após breve apresentação, nos liberou para o campo de batalha.

Se há algum sucesso para esse programa, diríamos, foi pelos olhares que os todos deram, assim como pela brilhante ideia dos gestores que tiveram músculo para aguentar o programa durante dois anos de epidemia. No total, recepcionamos mais de 25 cirurgiões do Brasil (RS, AL, PR, RJ, PE, MA, GO, AM, AP, DF) e até estrangeiros para apresentar o serviço e vivenciarem os casos. Ninguém menos que os professores José Camargo (RS) e Paula Ugalde (Canadá/EUA) deram vozes ao programa, assim como os demais cirurgiões de ponta - que não são poucos.

Não obstante, acabamos mais aprendendo que ensinando.  Em alguns casos usamos alta tecnologia com laser – com patrocínio das grandes empresas -, mas o que mais aguça o programa são as intervenções cirúrgicas envolvendo laringe e traqueia. Embora não disponhamos do arsenal tecnológico de ponta, seguimos no programa sob as letras de Ernest Hemingway: “agora não é hora de pensar no que você não tem. Pense no que você pode fazer com o que existe”.

Seguimos, doravante, criando esse elos...

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Gato Preto V - O mundo de Edgar Allan Poe

Para a mais louca e, ainda assim, mais caseira narrativa que eu escrevi, não esperei nem solicitei sua crença. Esperava mesmo que fosse ficção, casos nos quais meus próprios sentidos rejeitam a evidência. Ainda assim, não estou louco - e muito certamente eu não o sonhei. Meu propósito imediato é colocar, perante o mundo, simplesmente, sucintamente e sem comentários, uma série de meros eventos mundanos. Ainda assim, eu não tentarei explicá-los. Para mim, eles representaram nada além do gosto pela literatura - para muitos, eles parecerão menos terríveis e mais barrocos. Daqui em diante, talvez, alguma ideia possa surgir e reduzir meu fantasma a um lugar comum - alguma ideia mais calma, mais lógica e muito menos excitante do que a minha, e que perceberá, nas circunstâncias que detalho com assombro, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos bastante naturais.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Gato Preto IV

Quando mais jovem, Mundinho visitava Algodoal, pequena ilha na costa amazônica do Atlântico. Lá conheceu a Luiza Brunegra, uma mulher linda que gostava de batida. Mundinho tinha carestia de dinheiro, mas reservava alguns trocos para momentos libidinosos, quando a noite brotava naquele lugarejo, ao som do carimbó. Então sacou do bolso suas parcas finanças para comprar de batida de Genipapo com Gato Preto. Beberam até o talo. Ao avançar a noite, Mundinho queria moer a solidão da sua linda, mas ela não tinha ignição. Então ele pôs a moça nas costas e desapareceu pela estrada de areia.  Quando chegou à casa dela, ainda havia uma escada íngreme. Ao tentar escalar o primeiro degrau vomitou todo o Genipapo, ficando dentro de seu estômago apenas o gato. Voltou rastejando e ouvindo a voz do gato por cerca de uma semana. Até hoje, quando mira um Felis Catus, Mundinho sente-se nauseabundo.

Gato Preto III

Era meia-noite de sexta-feira-treze, quando Gato Preto cruzou a estrada, após ter passado por debaixo da escada. Jerônimo vinha a 80 e tentou frear. Não deu. Acertou o gato em cheio. Fez questão de enterrar. Caminhou no sentido da floresta, que tinha um fundo azul, cuja lua iluminava a dança, a roda, a festa. Chorando, lá despejou o gato. Na última mão de areia, outros gatos e um lobisomem surgem e atacam. Com medo, e o coração saindo pela boca, Jerônimo pegou o beco em disparada. Tropeçou e caiu na beira da estrada. Vinha um carro prata a 80, que passou por cima de seu braço estirado. Teve o rádio fraturado, segundo o ortopedista. Ficou bom tempo na tipoia. Todas as sextas-feiras-treze, ao ligar a ignição do carro, o rádio disparava um “Secos e Molhados”.

Gato Preto II

 Era casa com um vasto quintal, cheio de árvores e passarinhos. Vez por outra o gato preto da vizinha pulava para o quintal do pirralho. O pirralho, sem os pais saberem, colecionava pedras de brita, de uma construção ao lado. Enquanto os pais tiravam sesta, o pirralho costumava caçar passarinho no quintal, mas o gato preto da vizinha era alvo mais fácil. Não matou passarinho, mas certo dia acertou o gato, que ficou cego.  A vizinha jogou praga pro pirralho, dedurou aos pais e o menino sofreu castigo severo. Quando a vizinha morreu de infarto e de desgosto, o gato ficou atazanando o moleque, até que certo dia, ao verter água, viu pedrinhas sair pelo seu passarinho, que se assemelhavam àquelas que jogava no gato. Os pais procuraram o médico de rins. Era caso de operação. O menino se tornaria médico veterinário.

Gato Preto I

 Uma jovem hipocondríaca se dizia asmática. Relatava que tinha um gato dentro do peito. Foi ao médico em busca de solução. Descobriu um com habilidades manuais em doenças do peito. Percebendo o psicodistúrbio o dito médico propôs que retirasse o gato através de cirurgia de peito aberto. Ela ficou feliz. Após fazer avaliação pré-operatória, na sala de operação, o cirurgião traçou um raso e pequeno risco na pele do lado esquerdo e depois costurou. Tirou de dentro de sua mochila um gato branco. Deu para a jovem assim que ela despertara da anestesia.  Duas semanas depois ela volta dizendo que não era aquele gato. O gato dela era preto e estava no lado esquerdo.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

SUSrealismo literário


           Somos obrigados a tomar decisões

que costumo chamar de decisões de carne e osso.

Ali, à beira do leito, olhando para a expressão de sofrimento do doente,

estamos expostos, contaminados pela emoção.

Marcio Maranhão, em: Sob Pressão, 2014

         Flanando pelos sebos cariocas, num roteiro que sempre gostei de fazer pelas cidades onde passo, encontrei SOB PRESSÃO, na Buarque de Macedo, Largo do Machado. Findei a leitura num fôlego só, aliás, durante um voo de cerca de três horas até Belém. Estupefato e taquicárdico, retornei ao início do livro e achei o telefone do autor em dedicatória ao amigo Ronaldo Gomes. Então, após aterrissagem, abandonei minha timidez e enviei uma mensagem ao autor, parabenizando-o pela obra, que a meu ver mereceria ser premiada - se é que já não foi.

Descobri que Marcio Maranhão é um cirurgião torácico, também formado no Rio de Janeiro. Alguns dos personagens daquele livro eu conheço: Carlos Alberto Guimarães, grande cirurgião desde os tempos de minha passagem pelo Rio como residente e depois em congressos e UNIFESP; o Miraldi começando a carreira. Mas o que mais importa é que o livro emociona. O tempero é apimentado em pitadas mais rascantes a provocar ciúmes a Atul Gawande, Groopman, James Cole, Henry Marsh e outros consagrados médicos da literatura saxônica.

Sem deixar de fora a linguagem regional, a narrativa sobe os morros cariocas municiado das verdades que compõem o SUS surrealista, ao destripar a saúde pública brasileira com a destreza de um bom e titulado cirurgião. Quem o lê e viveu aquela atmosfera sente-se um personagem do livro, quiçá, o autor, dada sua realidade pruriginosa. Para que melhor me entendam, Maranhão se apoia tanto sobre o SUS quanto em sua biblioteca, ao visitar Nietzsche, Moacyr Scliar, Zuenir Ventura e outros mais. Viaja numa ambulância do SAMU com os vidros abertos e sirene em alerta, em busca de palavras e formas para descortinar o caos da medicina em sua “amplitude mais nefasta”, como retrata o autor.  

Destarte, vivi a nítida impressão que o seriado da rede Globo tinha como fonte de inspiração aqueles relatos - e isso talvez já lhe seja um prêmio. Quando retornou a mensagem, Marcio me confirmou e, mais que isso, ficou intrigado com a forma que eu havia traçado o caminho para contar essa história. 

Confesso que não assisti nenhum episódio televisivo, mas deverei prestar mais atenção, enviesado por esse tique-taque narrativo, agora em carga audiovisual.

Guardando devidas proporções, os caminhares literários do autor se transformam num imaginário bem visceral, que me fizeram relembrar o consagrado TROPA DE ELITE, uma película marcante na história do cinema brasileiro contemporâneo. Ao relatar tal fato a Jorane Castro, em conversa de corredor de hospital, a professora do curso de Cinema da Universidade Federal do Pará bate com a mão na mesa e diz: "é melhor que Tropa de Elite".

Então, para finalizar, mandei na postagem mensagem um pequeno texto do poeta francês Paul Valéry, que também achei no mesmo sebo: "Belo instante, sacada do tempo. Tu sustentas por meio de um homem [narrador] um olhar de universo, uma parcela daquilo que existe contra toda coisa. Respiro em ti uma potência indefinível, tal como a potência que há no ar antes da tempestade".

Pedi ao escritor que não se esqueça de agradecer a Ronaldo Gomes por tamanha generosidade...

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Relicário biográfico do Água Preta


 Quem, naquela época,

que fazia parte do círculo de amizade dos Normandos,

que não tenha recebido o afeto de dona Marina

e os seus maravilhosos lanches...

Zeca, filho de nossa infância acreana

 

Deus, como bom relojoeiro, havia construído e dado corda no grande relógio universal. Ao pôr pra rodar os ponteiros do tempo, após esse máximo ato inicial, o Criador teria se retirado, fechado a cortina e deixado a criatura em perfeito exercício para dar os primeiros passos para desvendar Gaia. Depois era só se achegar ao que hoje se conhece como Água Preta e beber um gole de vida.

Foi há cinco anos, em quase quatro horas de voadeira, na maré baixa, que partimos de Santarém, desviando bancos de areia. Atravessamos boa parte do rio Tapajós, singrando o encontro das águas com o gigante Amazonas, no prumo do desconhecido, até varar no que chamamos cafundós do Judas, ou melhor, Água Preta, d’onde minha mãe havia sido parida pelos espasmos da floresta. 

No lugar, distante das ondas cibernéticas, havia uma casa modesta e uns parentes, de bubuia, à nossa espera. Ancoramos, escalamos barranco, proseamos, tomamos café de coador e sentimos a atmosfera do lugar. Ali afoguei a curiosidade em saber como fui parar no útero de minha mãe. Ou seja, precisava entender como o ponteiro giraria para completar a volta do relógio universal.

Tudo porque passamos parte da infância no interior do Acre e Rondônia, ouvindo as vozes daquele lugar, feito um sonâmbulo hamletiano de "ser ou não ser". Só depois é que aportamos em Belém do Pará, mas, à medida que fomos crescendo, ela foi deixando de contar sobre a infância das ribeiras. Paresque ela sabia que a medida que os músculos tufavam e o pomo protuberava já não tinha tanta graça contar sobre sua vida de criança. Haveria, sim, de estar construindo outras infâncias -  as nossas. 

Diferente de nosso pai, com infância mais sofrida em Boa Vista, ele se silenciava. Com alguns goles de cerveja tentava iniciar, mas começava a soluçar e nunca findava. Nem o nome do pai ele dizia, e sequer sabíamos se ele sabia. Só o da mãe, cujo nome foi emprestado a uma de minhas irmãs. Nosso pai ficou como o segredo indecifrável - e já se foi.

Depois da infância, minha mãe aportou em Santarém, para ser criada em casa de família e ajudar em tarefas do lar. Virou aplicadora de injeção na Farmácia Veloso, na Siqueira Campos, a única da cidade, até se casar e pegar o beco, no rumo do Acre, rio Juruá, onde começa nossa história. Também contava versões de sua Santarém, de suas irmãs de trabalho Ilka e Júlia. Suas memórias nos levavam a conhecer Água Preta e Alter-do-Chão, mas o tempo escasso me empurrava pro tatame, até fazer aquela dita viagem.

Minha mãe entrelaçava os filhos tal como fios de palha (ou linho, digamos), aprumando destino na cadência de cada traço, sem deixar de mostrar-nos os nós. Daí foi desatando um-a-um até chegar aos quase 87 e se casar com mister Parkinson. Também teve uma filha que pediu emprestada ao útero da terra e só largou quando já tinha uns quarenta. O mais novo, hoje com mais de cinqüenta, ficou com ela até o ponteiro do relógio findar a volta e esperar o canto do Cuco em pleno outubro dos sinos de Nazaré. Dos seis filhos, chegaram 11 netos e uma bisneta por nome Alice Marina. Esta-umazinha deu fim ao legado que seus olhos alcançariam. Entre os netos, uns tem nome de santo, outros são misturados com a modernidade, sem deixar de escapar outra Marina entre tantos YaNormando - por conta da origem roraimense do patriarca e a intima convivência com os verdadeiro donos da terra.

Ou seja: O tempo não passa impunemente para ninguém, mesmo aos que nasceram com os genes da Água Preta. Ela, sim, forma conosco uma corrente em movimento e de mudança para estarmos juntos, feito dança e pingos de chuva das duas da tarde, representando pra nós, enquanto houver vida em todos os tons, o sentido da finitude, para que nos preservemos até que rasguemos a passagem de volta e nos leve para muito além das aguas do Água Preta.

domingo, 17 de outubro de 2021

PELOS VEIOS VIVOS DA MEMÓRIA: DE HALSTED À SEGMENTECTOMIA PULMONAR NO CÂNCER PRECOCE

 

– Doutor...

– Doutor –  repetiu Jane Crawford – que é isto?

McDowell encarou e respondeu:

– Creio que um tumor.

Ela tornou:

Corte essa coisa, doutor! Eu resisto ao sofrimento!...

O diálogo data de 1809. Até então, as dores de uma operação eram aliviadas pela reza de um salmo em voz alta ou com pedaço de pano entre os dentes, com a mandíbula em trismo. A obra de Jurgen Thorwald, O século dos cirurgiões, atinge, num grau de extremo excesso as mais delicadas – ou brutais – e quase inatingíveis circunvoluções da memória da cirurgia.

Exploradora desses plainos abandonados que a brisa do cotidiano sopra, a anestesia só chegaria ao assoalho dos teatros operatórios 40 anos mais tarde, pela via inalatória, com o éter sulfúrico e o gás do riso. Era o alvorecer do novo testamento da bíblia cirúrgica, cujas primeiras páginas haviam de ser escritas por William Halsted.

Pai de grande parte – senão da maioria – do pensamento cirúrgico americano do final do século 19, e boa parte do 20, William Stewart Halsted (1852-1922), nascido em berço de ouro, deixou raízes profundas em seu roteiro de vida. Tomou-se de fama não só pelas habilidades manuais, mas pela valentia de enfrentar o câncer na ponta do bisturi, quando só existiam fé em Deus e resignação.

Ele criou a mastectomia radical, primeira forma de tratamento da neoplasia de mama– hoje à sombra do passado.A técnica consistia na retirada completa da mama, incluindo músculos da parede, arcos costais, tecido supraclavicular (incluso a própria clavícula) e axilar. Alguns de seus seguidores retiravam até tecido mediastinal, passando a criar a ultrarradicalidade. Assim resplandeceu a “atmosfera halstediana”, que se tornou boom e percorreu todos os EUA. Também se infiltrou em outras especialidades, entre elas, a própria cirurgia oncológica pulmonar. A operação de Halsted desprezava o tamanho e extensão do tumor. O lema era aplicar a “teoria centrífuga” e realizar a mutilação.

Para o escritor Siddhartha Mukherjee, essa “atmosfera halstediana” quase secular mereceu algumas considerações críticas, conforme descreve em seu premiado best-seller O imperador de todos os males: uma biografia do câncer (prêmio Pulitzer 2011). Mukherjee faz uma espécie de autópsia da cabeça de Halsted, tentando entender a raiz daquele roteiro. Ele encena um velório de 90 anos e formula crítica mordaz à teoria: “o trabalho do cirurgião era conter essa difusão centrífuga, cortando cada pedaço dela no corpo, como se agarrasse a roda no meio de um giro. Isso significa tratar de forma agressiva e definitiva o câncer incipiente. Quanto mais o cirurgião cortava, mais curava”. Fica claro pela narrativa de Mukherjee que, a teoria de Halsted deixa grande atraso na cura do câncer de mama.

Genius on the edge: the bizarre double life of Dr. William Stewart Halsted (também de 2011, sem tradução para o português), obra do escritor e cirurgião plástico Gerald Imber, revela outra face do que foi considerado o maior cirurgião estadunidense. Era adicto, rígido, dolorosamente tímido, recluso, inacessível, muitas vezes severo, sarcástico e até cruel. Em suas reuniões de poucos amigos, substituía o cafezinho da tarde por doses de morfina, prenunciando o comportamento da era pré-cocaína de Nova York. Durante as férias em sua fazenda, quando relaxado e feliz, era um anfitrião encantador. Fica a questão: os delírios límbicos de Halsted foram responsáveis por esse encaracolamento da história do câncer, ou era mesmo um cidadão de bravatas? Ainda: seria a evolução natural do conhecimento, sendo Halsted o mensageiro da agonia?

Para a maioria dos seguidores de Halsted, seu maior valor está em seu invencionismo frente a dilemas inestimáveis como o câncer, quando nada se tinha além dos templos sagrados para orações. Naquele crepúsculo do século XX tentou-se eliminar, sem sucesso, o tumor de mama somente com radiação. A quimioterapia inexistia e foi somente em 1970 que apareceu a adjuvância; um pouco mais tarde, em 1986, é descoberto o HER2, iniciando a terapia-alvo. Nesse diapasão, dada a alta prevalência do câncer de mama, a arte no cabo do bisturi pedia salvo-conduto, e Halsted apresentava-se como destemido, fazendo de sua virtude de cirurgião o ideário de uma época.

A cana de braço com os halstedianos começa em 1950, quando os Crile – pai e filho –, discípulos do próprio Halsted, juntamente com Bernard Fischer, reacendem as ideias do jovem londrino Geoffrey Keynes, que combinava radioterapia a cirurgias econômicas. Quando expôs seus relatos, em 1924, Keynes foi zombado e suas ideias antirradicalistas foram sepultadas diante dos musculosos halstedianos.

Keynes tinha visão futurista, porém só possuía relato de casos ante a grande amostra dos adversários. Sofreu chacota e teve que sair de cena. Os trials, duplo-cegos randomizados e meta-análises amadureceram bem depois, e desaguaram no que se conhece hoje como medicina baseada em evidência, que só começou a gerar algum impacto bem depois da Segunda Guerra e com a criação da Cochrane Library. Foi nesse suporte que Crile – pai e filho – e Bernard Fischer traçaram novos caminhos.

 Nota-se, ao longo da leitura, que a tinta da caneta de Mukherjee mergulha em pH ácido e submete o extrato cirúrgico a uma escala secundária: “Os cirurgiões que tinham criado o mundo da cirurgia radical, a duras penas não tinham, absolutamente, incentivo nenhum para revolucioná-la”. O escritor reitera que “o evangelho da profissão cirúrgica” começou a amarelar suas páginas em 1973 com a chegada definitiva da “mastectomia econômica” associada à quimio/radioterapia, após estudo comparativo em larga escala.

Decerto Mukherjee romanceia o câncer como ninguém, mas deixa Halsted como um malfeitor. Cria uma aversão ao passado, mas sem dar vigor à quimioterapia, restrita a mostarda, alcaloides e folatos. A irradiação era com isótopos de polônio e rádio, estudados pelo casal Curie ainda no fundo de um galpão. Bem depois é que chega a bomba de Cobalto e as coisas envergam. A arte na ponta do bisturi, não obstante, era a única forma de desfigurar o rosto infame dos cancros.

Halsted fundou um séquito gigantesco de estrelas ao criar o primeiro programa de residência médica na história, no famoso hospital Johns Hopkins, após passar uma temporada com Theodor Billroth, em Viena. Lá desenvolveu operações originais para hérnia, bócio, aneurismas, doenças intestinais e da vesícula biliar; foi um dos primeiros defensores dos procedimentos assépticos; introduziu o uso de luvas finas de borracha. Sua ênfase na manutenção da homeostase completa, ou metabolismo corporal equilibrado durante as operações cirúrgicas, delicadeza no manuseio de tecidos vivos, realinhamento preciso dos tecidos cortados (postulados de Halsted) e sua criação de residências hospitalares em treinamento contribuíram muito para o avanço da cirurgia nos EUA e mundo afora, além da criação de diversos instrumentais cirúrgicos. A mastectomia foi apenas mais uma de suas vastas contribuições, ou seja, Halsted participa gloriosamente da história da cirurgia moderna em todos os seus matizes.

Qualquer filósofo definiria Halsted como um escolástico, ou seja, buscava associar a razão aristotélica –e platônica– com a fé (na arte), ao viver a experiência do olhar cirúrgico daquele momento, que acabava de emergir dos teatros cirúrgicos de Baltimore e Nova York. Mas Mukherjee leva para sua narrativa o desmascaramento do mito que jamais existiu. Halsted apenas foi uma forma de vida que surge na história universal com nova mentalidade, mas foi tratado como se tivesse feito crimes nefandos e de espectros medonhos. São capítulos de teor antropofágico.

Foi nesse solo agitado que se semeou o amanhã da terapêutica do câncer. Não foi diferente na tuberculose, úlcera péptica e esquizofrenia. Para desavisados: o italiano Forlanini também teria retardado o surgimento da quimioterapia antituberculose ao apontar o bisturi para o pulmão; diriam o mesmo de Billroth e Latarjet para úlcera péptica, antes do H. pylori; não seria diferente em relação a António Moniz e Almeida Lima, da Universidade de Lisboa, para a lobotomia frontal no tratamento da esquizofrenia. 

Sobre a cirurgia pulmonar, é possível que a atmosfera halstediana e a teoria centrífuga tenham passeado pela calçada de Evarts Graham, ao tratar um nódulo pulmonar com a retirada de todo o pulmão. Para Rodney Landreneau e Matthew Schuchert (2019), a teoria centrífuga também foi defendida pela maioria dos cirurgiões torácicos da época ao elegerem a pneumonectomia como a única ressecção apropriada para o câncer. Embora a lobectomia tenha começado a ser utilizada em meados do século 20, não foi considerada uma alternativa até 1962, quando saiu o trabalho seminal de Shimkin e cols. acerca da equivalência da sobrevida entre lobectomia e pneumonectomia para câncer precoce.

Mais à frente Mukherjee amortece o verbo: “para mudar a cirurgia é preciso ser cirurgião” e descreve o início da jornada da cirurgia conservadora para o câncer de mama, quando Bernard Fisher emplaca cientificamente a “mastectomia simples” em publicação revolucionária (1973), com ensaio multicêntrico e rigor estatístico apurado.

Consonante a 1973, nasce a cirurgia oncológica conservadora pulmonar. Foi pelas mãos de Robert Jensik, de Chicago. A publicação memorável foi no J Thorac Cardiovasc Surg. Ele relata sua experiência de 15 anos, após sua vivência (e convivência “na pele”) com a tuberculose. Acabou por transferir ao câncer o conceito de ressecção segmentar de pulmão, deixando, peremptoriamente, um contraponto à lobectomia e pneumonectomia em cânceres precoces. Sua refinada técnica, infelizmente, tornou-se arte perdida por mais de 20 anos, quando Robert Ginsberg e o Lung Cancer Group (1995) entram em cena e revalidam suas ideias com o famoso Randomized trial in limited resection in T1N0M0 NSCLC. Ginsberg fez com Jensik o que os Crile e Fisher fizeram com o Geoffrey Keynes em relação à cirurgia conservadora da mama, porém sem desqualificar Graham.

Com a crescente da cirurgia torácica pela VATS/RATS, a segmentectomia encurta os passos na caminhada para a cura do câncer precoce, conforme revê Ramón Rami-Porta, cirurgião da Catalunya. Ele ainda acrescenta, em suas caminhadas pelas ruas da pacata Terrassa, que a “linfomania” deve seguir rigorosa.

A criticidade de Mukherjee tenta arranhar o legado halstediano, que revive duas eternas questões, descartadas em sua obra: a permanência enraizada da arte no meio cirúrgico – quando não havia outra alternativa; e os avanços tecnológicos, que fazem perdurar e seduzir o pensamento clínico como tentativa de corrigir “erros” de outrora. Se esses dois cognatos ofuscaram nossa alfabetização científica, certamente não foi por Halsted, conforme retrata Peter Olch, um halstediano convicto que, se vivo estivesse, rasgaria algumas páginas de a página 243: “A cirurgia, tradicional machadinha de guerra no combate ao câncer, era considerada primitiva, indiscriminada e desgastante demais”. 

A bem dizer, os feitos da medicina sempre se instauram a cada cruzamento de achados (papers) na relação tempo-espaço, de modo a deixar um invólucro do vivencial exposto em atmosferas acadêmicas, enlaçada por uma discussão ética confortável, mesmo sendo apenas na hora de tomar um cafezinho em intervalos de congressos. Há de se ratificar que questões como as das neoplasias fogem a apreciações lineares diante de tantos alcances e progressos. Mukherjee, um oncologista nato e apaixonado por literatura, faz uma releitura inflexível da história e deixa seu texto anacrônico, sem esforçar para reconhecer uma era. Obviamente que o leitor atento, no alto da montanha, em transe tibetana, não se deixará levar por essa dissonância cheia de armadilhas em sua intertextualidade.  Se a obra premiada procura negar a autonomia de uma era tribalista, quando só tínhamos o silêncio das mortes, não podemos torcer o nariz, tampouco jogar ao relento o despertar daquele homem, mesmo diante de teorias científicas imaturas.

Não há dúvida que a atmosfera da época, repleta de arte na ponta de bisturi, foi ovacionada e aplaudida, mas agora, as nuvens de incenso que subiam dos altares erguidos em sua memória, dissiparam-se pelas ventanias das redescobertas, fazendo surgir novas vertentes. E assim, foi-se dando terreno às evidências científicas, à interpretação estatística dos achados, à genética, à farmacologia, à Cochrane… e o mundo viu a machadinha dos mutiladores serem substituídas por rajadas de agentes químicos e pequenas incisões. 

Aquela atmosfera halstediana eterniza um momento histórico e arranca um átimo da temporalidade, conferindo-lhe perenidade ao tempo, sem eliminar o buquê, a marca, ou mesmo o feitiço que decorrem precisamente de nossa fragilidade científica. Para mudar basta estar inserido na temporalidade, sem necessitar desenraizar o criadouro, pois, se as ideias de um novo legado foram ganhando corpo e cabeça, esquartejá-las com os alfinetes da literatura é o mesmo que olhar o passado pelo buraco da fechadura.

Em Contos do nascer da Terra, do escritor moçambicano Mia Couto, um homem deita-se ao chão e repousa a cabeça sobre uma almofada de areia, até que dorme e sonha com seu mundo. Ao despertar tenta levantar-se, mas não consegue. Chama a mulher e pede-lhe ajuda. Ela olha por debaixo da nuca do marido, puxa-lhe a cabeça, mas em vão. Cavouca e vê que a cabeça do marido criara raízes. Ele pede para cortá-las. A esposa puxa a faca e dá o talho. Não dói, mas sangra e logo coagula. Ela desiste. A vizinhança tenta escavar; quanto mais tentam, mais se chega ao fundo. Retiram toneladas de chão e... nada. Concluíram: as raízes daquela cabeça davam volta ao mundo.


Texto originalmente publicado no 

JORNAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIRURGIA TORÁCICA (SBCT)