sábado, 31 de outubro de 2026

Esboço da História universal da cirurgia torácica e sua contribuição para o Brasil

 Esboço da História universal da cirurgia torácica e sua contribuição para o Brasil

 

Roger Normando

João Pedro Normando 

“[...] e não é exagero afirmar que a ressecção pulmonar para tuberculose foi o ponto de partida da cirurgia torácica moderna.” 

J Deslauriers, B Nelems, FG Pearson in: Evolution of Thoracic Surgery in Canada (2015)

 

    A história remota da cirurgia torácica começa pelo espaço pleural, a partir do empiema. Os cirurgiões de outrora souberam diagnosticar e tratar cirurgicamente o empiema pleural com Hipócrates, que descreveu minuciosamente esta doença, da sintomatologia ao diagnóstico; descrição conservada pelo tempo como exemplo clássico e genial. Nela se aborda também o tratamento mediante a abertura da cavidade pleural por incisão intercostal, extração lenta e cuidadosa do pus, introdução de tubos de drenagem e, por último, lavagens da cavidade com azeite e vinho.

    O tratamento das supurações torácicas, como ensinava Hipócrates, caiu no esquecimento durante a Idade Média. Alguns cirurgiões de épocas seguintes desaconselhavam esse tratamento.

    Somente no século XIX despertou-se novamente o interesse pelo empiema pleural. O tratamento voltou a estabelecer-se, mantendo os princípios gregos. A drenagem foi utilizada novamente por volta dos anos 1870 e 1880. Alguns acrescentaram a drenagem por aspiração.

    Os ferimentos torácicos penetrantes também resguardaram as ideias de Hipócrates, e foram também perfeitamente conhecidos pelos médicos da antiguidade, porém se esbarravam no desconhecimento da mecânica toracopulmonar e o sistema de selo d’água.

    Os ferimentos torácicos foram tratadas na Antiguidade e na Idade Média, assim como em parte da Idade Moderna, mediante o tamponamento, convertendo o pneumotórax aberto em fechado. 

    Os cirurgiões de outrora ainda aplicavam o método idealizado por Hipócrates (drenagem aberta, sem selo) até o final do século XIX, quando o sistema de selo d'água surgiu, com a drenagem em sifão (por volta de 1875-1876). Um tubo intercostal era ligado a outro mergulhado em líquido, de modo que o ar e o pus saíam, mas não voltavam à pleura, resolvendo o grande desafio do pneumotórax e do colapso pulmonar. Essa foi a grande contribuição do século XIX, ou seja uma vez violada (pelo cirurgião) ou violentada (agressão física interpessoal), o papel da cirurgia era de restabelecer a expansão pulmonar e somente o sistema de selo d’água (fechado) seria capaz.

    No século XX, o sistema fechado se popularizou na cirurgia torácica a partir da Primeira Guerra Mundial, com a Comissão do Empiema do Exército Americano (1918-1919). Depois vieram a sucção contínua associada ao selo, já na década de 1920.

    Quanto ao pulmão, a base principal da cirurgia torácica, é algo que somente se conseguiu em tempos recentes, cujo desenvolvimento ocorreu por volta da metade do século XX, após a independência da anestesiologia.

    Ainda no século XX, os raios X foram revolucionários para o diagnóstico das doenças pulmonares. Ainda hoje o método se encontra pleno. O diagnóstico das doenças pulmonares foi aperfeiçoado ainda mais com a broncoscopia, assim como o exame direto da cavidade pleural por meio da toracoscopia, por Jacobaeus, seguida da toracotomia exploradora.

    Para o desenvolvimento da técnica operatória teve importância transcendental a descoberta da antissepsia e da assepsia, assim como a da anestesia geral. Ambas as descobertas procedem, como se sabe, da segunda metade do século XIX. A cirurgia, de um modo geral, prosperou enormemente desde essa data, por conseguinte, os demais ramos. A Alemanha contribuiu mais que qualquer outro país para esse desenvolvimento, mediante os trabalhos de seus médicos geniais e de eminentes “cirurgiões práticos” (chamemos assim para separar a formação educacional por meio dos programas de residência médica num outro plano de discussão).

    Ao findar o século XIX e começar o XX, com as operações pleurais definidas,  já se praticavam numerosas operações na parede torácica inteiramente novas quanto à sua magnitude e concepção, apesar de esta se basear em razões empíricas. Tratava-se, em sua maior parte, de ressecções costais para a cura dos empiemas, das cavidades residuais na pleura, etc.

    As intervenções endotorácicas, ou seja, aquelas que se praticavam através da cavidade pleural amplamente aberta, só se praticaram de modo sistemático quando os trabalhos experimentais evidenciaram seus fundamentos e sua técnica para servir como base para a moderna cirurgia torácica. Esses trabalhos se dirigiram, por um lado, ao conhecimento da circulação pulmonar em suas diferentes fases; por outro, procurou-se estudar os efeitos da ligadura dos brônquios e da ressecção dos lobos do pulmão.

    Os trabalhos sistemáticos sobre os efeitos deletérios do pneumotórax operatório aberto foram os pontos mais importantes, e deve-se principalmente a Sauerbruch. Como consequência desses trabalhos, estabeleceu-se a doutrina da respiração sob pressão diferencial. Considera-se Sauerbruch o responsável por esse método terapêutico e, portanto, merecidamente, o pai da cirurgia torácica moderna. No decurso das décadas seguintes realizaram-se notáveis aperfeiçoamentos na narcose com pressão diferencial, especialmente na Inglaterra e nos EUA, onde a anestesiologia ganhou autonomia.

    O tratamento das distintas doenças pulmonares alcançou grandes progressos paralelamente ao desenvolvimento dos métodos diagnósticos, da investigação experimental e da técnica operatória e anestésica.

    Com essa base de conhecimento fisiopatológico, já era hora de enfrentar a tuberculose e as demais doenças infecciosas com abordagens mais definidoras da cura. A tuberculose ocupou lugar preferente nesses estudos.

    Inicialmente (1822) concebeu-se a ideia genial de aconselhar para essa cura o pneumotórax artificial, mas esse meio de tratamento só foi aplicado pela primeira vez após 60 anos, pelo italiano Forlanini (1882). O método foi aperfeiçoado posteriormente por uma série de pesquisadores, à frente dos quais se encontrava Brauer, a quem se pode considerar o principal propulsor da colapsoterapia na tuberculose. Graças a esses trabalhos, aprendeu-se a efetuar colapsos seletivos, eficazes e bem localizados da zona pulmonar afetada, recorrendo, inclusive, em ocasiões ao pneumotórax bilateral. A experiência demonstrou que a colapsoterapia associado à descoberta da toracoscopia, assim como pela liberação das aderências (apicólise) - que se opõem à ação do pneumotórax -, ampliaram a aplicação desse método.

    Já a toracoplastia desenvolveu-se de modo totalmente independente do pneumotórax. Os primeiros passos nesta via foram as grandes mutilações (“desossamentos torácicos”) com a ressecção costal paravertebral subescapular, e a toracoplastia total paravertebral do alemão Ferdinand Sauerbruch, no início do século XX.

    A combinação da toracoplastia com a apicólise (pneumólise) intrapleural teve grande transcendência. A apicólise extrapleural chegou em seguida pelo francês Tuffier. Mais adiante tornou-se mais popular, mas eram operações com uma série de dificuldades. Por um lado, não parecia coisa fácil descolar radicalmente o pulmão da parede e, pela grande sangramento sem banco de sangue para transfusão, por outro, era difícil manter o colapso primitivo do pulmão impedindo-o de voltar a expandir-se secundariamente.

    Uma vez definido o roteiro cirúrgico da tísica, assim denominada a tuberculose, o tratamento cirúrgico dos abscessos e da necrose do pulmão por meio da drenagem fez-se com uma margem de segurança cada vez maior mediante a produção artificial de aderências da pleura, por plumbagem com parafina, ou por tamponamento extrapleural. Nos EUA realizaram-se numerosos trabalhos experimentais e clínicos sobre a etiologia e a patogenia dos abscessos do pulmão. Foram trabalhos ampliaram grandemente os conhecimentos atuais sobre o tema.

    Foi Tuffier (Paris, 1891) que fez a ressecção apical por tuberculose citada como a primeira com sucesso e depois Macwen (Glasgow, 1895) ressecou lobo por tuberculose, com sobrevida longa do paciente, o que lhe rendeu o crédito das primeiras lobectomias bem-sucedidas.

    A bronquectasia foi considerada antes como uma afecção quase intratável, tendo em vista que os antibióticos ainda não havia chegado às farmácias. Havia-se tentado a colapsoterapia, mas sem qualquer resultado. A broncografia tornou possível o mapeamento exato das bronquiectasias, permitindo estabelecer a extensão do mal dentro de cada pulmão. Sauerbruch pôs os primeiros marcos para um tratamento radical desta doença mediante suas lobectomias em vários tempos, após produzir artificialmente aderências da pleura. Assim começaram a praticar-se extirpações de toda a parte afetada do pulmão, seguindo a via traçada por diversos cirurgiões. Chegou-se a praticar a lobectomia completa em única sessão, abrindo-se caminho através da cavidade pleural amplamente incisada. Essa simplificação da técnica tornou a operação mais frequente e passou a abranger maior número de casos.

    O aperfeiçoamento da técnica permitiram reunir séries importantíssimas das mesmas, com mortalidade relativamente pequena a uma plêiade de cirurgiões estadunidenses e ingleses.

    Por fim os tumores do pulmão realizaram progressos com o aperfeiçoamento do diagnóstico pela radiografia, broncografia, broncoscopia e exame microscópico dos escarros. As lobectomias e as pneumonectomias foram praticadas naqueles momentos com frequência cada vez maior. A técnica da extirpação total do pulmão tornou-se muito mais segura mediante a dissecção e a ligadura separada dos vasos e dos brônquios no hilo, o que constitui, por sua vez, um aperfeiçoamento da manobra aconselhada anteriormente por Sauerbruch, que consistia na ligadura preliminar da artéria pulmonar, ou na ligadura da veia pulmonar, pelos seus antecessores. Esses progressos cirúrgicos permitiram curar alguns casos de câncer do pulmão, afecção que antes se considerava superior a todo recurso.

    A cirurgia exerética do câncer de pulmão foi realizada com sucesso por Graham e Singer (St. Louis, 1933), que fizeram a primeira pneumonectomia por câncer de pulmão com sobrevida longa, em um médico que viveu cerca de três décadas. Posteriormente o câncer de pulmão encontrou suporte na quimioterapia e radioterapia para alçar desenvolvimento e chegar aos dias atuais.

 

Figura 1: Linha do tempo da cirurgia torácica no mundo

 

 

Considerações finais

    Percorrido este longo arco, que vai da incisão descrita por Hipócrates, passando pela ressecção pulmonar, até se chegar à contemporaneidade do transplante e à cirurgia minimamente invasiva, percebe-se que a cirurgia torácica nasceu do acúmulo de observações repletas de ciência e paciência; de esquecimentos e de redescobertas. O empiema drenado na antiguidade, abandonado na Idade Média e retomado no século XIX, puramente porque o selo d’água domou o pneumotórax e descolapsou o pulmão; a antissepsia, a anestesia e a pressão diferencial de Sauerbruch abriram a caixa torácica ao cirurgião para contornar e vencer os riscos do pneumotórax cirúrgico; a radiologia, a broncoscopia e a toracoscopia que lhe deram olhos; a colapsoterapia e a toracoplastia, hoje superadas, mas testemunharam uma época em que se operava com parcos recursos. Tudo isso compõe a história em que cada passo dependeu do anterior, em que o saber, mais de uma vez, precisou ser revisitado, até se chegar ao século XX das ressecções pulmonares anatômicas. Foi desse patrimônio, forjado sobretudo na Europa e na América do Norte, que se valeram os cirurgiões brasileiros ao introduzir e adaptar entre nós tais técnicas.

    Se por um lado, a especialidade no Brasil é indiscutivelmente sólida e robusta na aplicação das técnicas mais modernas, mantendo padrões de qualidade comparáveis a centros expoentes do Ocidente, por outro a especialidade ainda enfrenta desafios comuns a grandes países com distorções sociais e econômicas, resultando em disparidades regionais que impedem o acesso universal de toda a população a essa assistência médica qualificada.

    Conhecer esse percurso é mais que exercício de erudição, é condição para compreender de onde viemos, para nos situarmos na contribuição que o Brasil deu, e continua a dar, à especialidade.

    É essa memória que os capítulos seguintes vão procurar registrar. 

 

Bibliografia

1) Santos Fo. L.  Historia Geral da Medicina Brasileira, pg3-14. 1976. Ed. HUCITEC-EDUSP

1) Semb C. Cirugia del pulmón, in: Kirschner M., Nordmann O. Cirugía: tratado de patologia quirúrgica  general y especial. Editora Labor, 1945.

2) Wilkins EW, Urshel Jr HC. General thoracic surgery: history and development, in: Pearson FG, Cooper J, Deslauriers Thoracic Surgery. 2nd edition, pg. 1-8, 2002.

3) Deslauriers J, Pearson FG, Nelems B. Plagues and thoracic surgeons: history of surgery for tunerculosis in Canada, in: Evolution  of thoracic Surgery in Canada, 2015.

4) Miller JI Jr. The history of surgery of empyema, thoracoplasty, Eloesser flap, and muscle flap transposition. Chest Surg Clin N Am. 2000 Feb;10(1):45-53, viii. PMID: 10689526.

5) Normando R, Normando JP. Thoracic Surgery - Notes on Its History in Brazil. Port J Card Thorac Vasc Surg. 2025 Aug 31;32(2):9-15.

6) Normando R, Normando JP. Thoracic Surgery - notes for its history in Brazil (Part II): Lung transplantation. Port J Card Thorac Vasc Surg. 2026 Feb 17;32(4):13-17.

7) Vannucci F, de Castro CCB. Thoracic surgery in Brazil: an overview. J Thorac Dis. 2022 Aug;14(8):3083-3090.

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

É o fim da medicina pelo sacerdócio?

Ao final da década de 80, ainda na residência médica, eu costumava sair, às terças, do hospital da Beneficência Portuguesa-RJ, para pegar o busão e saltar na Central do Brasil, para mais um plantão noturno na equipe Chapot-Prévost, do hospital Souza Aguiar. Ao amanhecer retornávamos para cumprir a carga horária da residência médica já com as pálpebras pesadas. Às cinco da tarde da quarta-feira havia sessão clinica, findando às sete.  Aos domingos subia a estrada de Jacarepaguá para mais uma jornada de 24 horas – extra para melhorar o apurado. Da janela, via-se a galera passar para a praia do Recreio, mas sem destilar inveja. Ali buscávamos oportunidades.

Quem conhece um pouco de Friedrich Nietzsche sabe do que estamos falando. Ele criou um dos pensamentos mais esfuziantes sobre o assunto: “aquilo que não te mata te deixa mais forte”. Nesse bordão sobrevivemos eu e todos aqueles que se veem nesse relato.

Marty Makary é cirurgião de renome nos EUA, a ponto de enfrentar Trump, sem tremer, quando esteve na direção do FDA. Em seu recente livro, Blind Spots, questiona os programas de residência médica que insistem em plantões de 36 horas e carga horária estendida, demonizando o modelo clássico criado por William Halsted ao final do século 19. A doutrina halstediana prima pela cultura de precisar se sacrificar para se tornar médico forte. No sentido inverso, Makary relata que o torpor provocado pela privação de sono seja teste de resistência e, como não bastasse, carrega mentores rigorosos - não obstante, rudes.  

Para Makary, foi método criado pelos "sumos sacerdotes” para formar cirurgiões. Residentes escalavam o topo do limite físico e mental. Mesmo assim acreditava-se, de alguma forma, que era necessário. A maioria sobrevivia e ainda seguia na mesma toada quando ganhavam o canudo.

Há tendência em mudar o panorama atual, com restrições à carga horária. Em alguns casos, tribunais de justiça estão apoiando a nova ordem. Entretanto a busca pela demonização à figura de Halsted, o criador do modelo, talvez seja exagero. Percebe-se no pensamento de Makary que ele não aceita e ainda chama o movimento de “seita”: Operar sem dormir era distintivo de honra. Hoje é visto como uma atitude irresponsável. Muitos dos que viveram à época insistem que aqueles eram ‘bons tempos’ e que os estudantes e residentes de hoje precisam trabalhar mais.

Ele retrata como “dissonância cognitiva” e a “justificativa do esforço” para compor sua defesa, além de explicar a perpetuação de muitos dogmas da medicina.

No filme “Whisplash, em busca da perfeição (2014)” é um bom paralelo para dialogar com o tema. É a história de um baterista que chega à exaustão para poder se tornar um músico de jazz reconhecido. É a mais fiel cópia do pensamento de Halsted no beat de Nietzsche, que finda por laurear os que se dedicam ao extremo.

Se a película é tradução extrema desse tema, por sua vez a plateia sai sem saber se aplaude a vitória artística ou testemunha a vitória do abuso. O filme combina bem com este ensaio, sem necessariamente representar condenação à geração halstediana - aquela que me embalou. É um relato que reconhece a beleza perigosa do mito antes de desmontá-lo. Seria caso de se reger uma iconoclastia a Halsted, ou seria apenas um saudosismo disfarçado que me embalas?

Mas há uma ironia biográfica pouco descrita: Halsted era dependente de cocaína e depois de morfina. Construiu a doutrina da resistência sobre-humana enquanto ele mesmo dependia de substâncias para sustentar o ritmo. Ou seja, os "sumos sacerdotes halstedianos" descendem de um fundador que não superava a exaustão por força de filosofia, quiçá caráter, mas a mascarava quimicamente. Isso não invalida a citação de Nietzsche, mas ressignifica bastante o mito de origem.

Por fim, vale refletir se melhoraremos se desconstruirmos o modelo atual e progredir na iconoclastia de Halsted. Pelo visto, é o que está se anunciando.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

O Sequestro da delegada

        A doutora Nazaré Belém comandava o setorial de Marambaia havia onze anos, e nesse tempo todo aprendera a distinguir sequestros de verdade daqueles que a imprensa panfletava. Sabia a diferença entre refém e desaparecido, entre resgate pago e corpo mergulhado na baía do Guajará. Era pródiga no ofício e não carregava pavulagem no curriculum. Não dormia, não descansava, vivia às voltas com negociação e mapas de rota de fuga espalhados pela mesa, tal um tabuleiro de xadrez. Não se cansava de buscar justiça na sua forma mais social. O esposo convivia bem aquela rotina.

Foi numa terça-feira de calor pegajoso, ainda breada depois de um plantão de trinta e seis horas atrás de um sequestrador que trocava de carro a cada esquina, quando sentiu a primeira pontada. Fina com uma agulhada, lateral, como se alguém lhe desse uma estocada nas costelas para chamar atenção. Não deu bola. Delegada intensa não adoece em serviço.

A pontada pleural voltou no dia seguinte. Percebeu que não era muscular e nem estava na conta do trabalho. Desconfiava de coisa feia, como se estivesse perdida no porão de uma emboscada em busca de um meliante astuto. Só que agora o porão era a própria caixa torácica.

Foi então que veio o relâmpago - não o de inteligência policial, ou um seqüestro relâmpago, mas aquele outro, mais raro: o da lucidez sobre o próprio corpo. Nazaré, que investigava sequestros havia mais de uma década, recebeu a notícia médica com um misto de ironia e pavor: abrigava um Sequestro, ou seja, um pedaço do próprio pulmão, isolado, irrigado por um vaso clandestino vindo direto da aorta, vivendo à revelia de tudo o que órgão deveria fazer. Uma refém dentro dela mesma, estando no cativeiro desde antes de nascer, à espera de ser localizado.

O cirurgião foi claro quando explica o óbvio a quem só sabe explicar crimes: Sequestro Pulmonar, CID Q33.2, malformação congênita - pedaço de tecido pulmonar que nunca se conectou de verdade ao pulmão, alimentado por um vaso aberrante, simulando pneumonia e até mesmo tumor, em alguns casos. Resolução: mesa cirúrgica e bisturi. Tirar o refém, fechar o caso, arquivar a ocorrência.

A cirurgia correu bem. O vaso sanguíneo aberrante que o alimentava foi ligado com a precisão de quem sabe que um erro ali seria uma hemorragia sem negociação possível. A doutora acordou leve, como não se sentia desde a última diligência pela redondeza do bairro.

Voltou ao setorial 45 dias depois, com fôlego refeito. Seus parceiros notaram a diferença antes mesmo de perguntar: tinha riso frouxo, atendia telefonema com menos urgência na voz, e uma vez chegou a dizer que talvez fosse hora de pensar em outro tipo de vida... mas recuou. Aquilo estava no DNA dela. Até voltou a fazer corrida de rua e já tem projetos de fazer maratonas.

Hoje, dizem pelos corredores da delegacia, que a doutora-delegada ainda resolve casos difíceis. Mas há uma policial antes e uma depois na sua biografia: a cicatriz que só ela e o cirurgião conhecem o duplo sentido: a data em que deixou de ser refém do próprio corpo para seguir sendo, como sempre foi, desafiadora e caçadora de sequestros.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

O Paradoxo do Essencial: “Daraxon”, fiat lux contra o câncer

                                                                                                                            Roger Normando e Jader Leite

Durante a COP30, realizada na beirada da floresta amazônica, uma das discussões mais inflamadas foi a representatividade da Amazônia para o planeta. Apenas 1,3% da superfície total do globo ou 7% da área de terras, sabendo-se que a importância ecológica é inquestionável: 50% da biodiversidade mundial e 20% de toda água doce do planeta. É muita função para pouco mais de 1% da terra.

Outro paradoxo é o pâncreas. Tem menos de 0,1% do peso em relação à massa total do corpo humano e mede entre 15 e 25 cm de comprimento e pesa em média de 60 a 100 gramas.  Cabe na palma da mão e é capaz de determinar o destino de uma vida inteira e causar o maior nó na medicina. Pequeno em tamanho e gigantesco em importância, o pâncreas guarda dentre tantas intempéries, uma genética desafiante, ou melhor, uma arma de grosso calibre: o gene K-RAS. Seu gatilho pode disparar um dos cânceres mais nocivos ao homem.

O câncer de pâncreas figura entre os diagnósticos mais temidos da medicina, por ser silencioso, agressivo e associado a algumas das menores taxas de sobrevida em oncologia. Médicos sentem-se impotentes diante desta neoplasia. Mais parece um OVNI bombardeando a terra.

Mas aí a ASCO (Sociedade Americana de Oncologia Clínica) lança um fleet paralisante de Chicago para chamar atenção do mundo científico: o Daraxonrasib cujos novos resultados controlam a doença, duplicando a sobrevida em casos avançados. Um comprimido capaz de detonar o carrasco gene K-RAS. Não faltaram aplausos após o anúncio do resultado da pesquisa. Não são aplausos protocolares, nem entusiasmo de ocasião, tampouco gritos frenéticos de “wohoo”. Fosse um concerto, equivaleria ao uníssono “Bravo, Bravo!”, com todos de pé. Talvez por isso aquelas palmas tão impactantes ecoaram por todo o planeta, não só pelas redes sociais, mas em manchetes nos principais tablóides. Havia ali a percepção de que algo importante estava acontecendo. Foi uma comichão na oncologia, após décadas em que essa neoplasia simbolizou, e ainda representa dos maiores desafios da medicina. Os resultados da pesquisa foram capazes de alterar perspectivas que pareciam consolidadas até então.

Podemos assim dizer que o K-RAS achou quem o desligasse da tomada, cujo nome é até difícil de pronunciar: Daraxonrasib, que vai acabar reduzido a Daraxon, ou Dara, no meio oncológico. Mesmo sem representar a cura é fiat lux na escuridão da oncologia; é esperança, é ciência, não é milagre, diga-se.

Para quem não é da área médica, vale contextualizar: o congresso da ASCO é o principal encontro mundial de oncologia. É ali que costumam apresentar os avanços mais relevantes no diagnóstico e tratamento do câncer. Não costuma ser um ambiente conhecido por euforia. Cientistas são treinados para desconfiar dos próprios resultados, questionarem conclusões de outros e celebrar com prudência cada alcance. Entre nós, Clarissa Baldotto, membro do GBOT (Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica), que se dedica ao câncer de pulmão, estava radiante: “é pensar que possa ter perspectivas para outros tumores que tenham o mesmo tipo de mutação”. O outro, no caso, é o câncer de pulmão.

Mesmo que seja um pequeno passo para a medicina, foi o ganho de esperança que floresceu no pequeno pâncreas, desafiando a lógica das proporções.

Talvez a natureza esteja o tempo todo tentando nos ensinar que grandeza não se mede em hectares, centímetros ou gramas, mede-se em impacto... em palmas – e o pâncreas cabe na palma da mão.

Sim, precisamos de mais COP, assim como de mais ASCO. Afinal, o futuro costuma começar em lugares que poucos percebem, mas que sustentam o equilíbrio... Porque toda vez que a ciência faz-se em luz, a humanidade inteira enxerga um pouco mais além.

Jader Leite - Doutor em engenharia hidráulica e ambiental, Universidade de São Paulo (USP)

Roger Normando – Professor de Cirurgia Torácica, Universidade Federal do Pará (UFPA) e Membro GBOT (Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica)

 

Artigo originalmente publicado no jornal “O diário do Pará”

La Paradoja de lo Esencial: “Daraxon”, fiat lux contra el cáncer

        Durante la COP30, celebrada en los confines del bosque amazónico, uno de los debates más encendidos giró en torno a la representatividad de la Amazonía para el planeta. Apenas el 1,3 % de la superficie total del globo, o el 7 % de las tierras emergidas, y sin embargo su importancia ecológica es incuestionable: el 50 % de la biodiversidad mundial y el 20 % de toda el agua dulce del planeta. Es una función colosal para poco más del 1 % de la Tierra.

    El páncreas presenta una paradoja semejante. Representa menos del 0,1 % del peso corporal total, mide entre 15 y 25 cm de longitud y pesa en promedio entre 60 y 100 gramos. Cabe en la palma de la mano y, sin embargo, es capaz de determinar el destino de una vida entera y de provocar el mayor enredo de la medicina. Pequeño en tamaño y gigantesco en importancia, el páncreas alberga, entre tantas complejidades, una genética desafiante —o más bien, un arma de grueso calibre: el gen KRAS. Su gatillo puede desencadenar uno de los cánceres más letales para el ser humano.

        El cáncer de páncreas figura entre los diagnósticos más temidos de la medicina: silencioso, agresivo y asociado a algunas de las tasas de supervivencia más bajas en oncología. Los médicos se sienten impotentes ante esta neoplasia. Parece, casi, un OVNI bombardeando la Tierra.

        Y entonces la ASCO (Sociedad Americana de Oncología Clínica) lanzó desde Chicago una andanada que paralizó al mundo científico: el Daraxonrasib, cuyos nuevos resultados demostraron control de la enfermedad y duplicaron la supervivencia en casos avanzados. Una sola pastilla capaz de silenciar al gen verdugo KRAS. Los aplausos no tardaron en llegar tras el anuncio de los resultados. No fueron aplausos protocolares, ni entusiasmo de circunstancias, ni gritos frenéticos de «¡wohoo!». De haber sido un concierto, habría equivalido al unánime «¡Bravo, bravo!» con todos de pie. Quizá por eso aquellas palmas tan contundentes resonaron en todo el planeta: no solo en las redes sociales, sino en los titulares de los principales diarios del mundo. Había allí la percepción de que algo importante estaba ocurriendo. Fue un escalofrío en la oncología, tras décadas en que esta neoplasia simbolizó —y aún representa— uno de los mayores desafíos de la medicina. Los resultados de la investigación lograron alterar perspectivas que hasta entonces parecían consolidadas.

        Podemos decir, pues, que el KRAS por fin encontró quien lo desenchufara, y ese alguien tiene un nombre difícil de pronunciar: Daraxonrasib, que no tardará en reducirse a Daraxon, o simplemente Dara, en los círculos oncológicos. Aun sin representar la cura, es fiat lux en la oscuridad de la oncología; es esperanza, es ciencia —y no un milagro, quéde claro.

        Para quienes no son del ámbito médico, vale la pena contextualizar: el congreso de la ASCO es el principal encuentro mundial de oncología. Es allí donde suelen presentarse los avances más relevantes en el diagnóstico y tratamiento del cáncer. No es un entorno conocido por la euforia. Los científicos están entrenados para desconfiar de sus propios resultados, para cuestionar las conclusiones ajenas y para celebrar cada logro con prudencia. Entre los presentes estaba Clarissa Baldotto, miembro del GBOT (Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica), dedicada al cáncer de pulmón, y estaba radiante: «pensar que puedan abrirse perspectivas para otros tumores que tengan el mismo tipo de mutación». El «otro», en este caso, es el cáncer de pulmón.

        Aunque sea un pequeño paso para la medicina, fue una ganancia de esperanza que floreció en el pequeño páncreas, desafiando toda lógica de las proporciones.

        Quizá la naturaleza intente enseñarnos constantemente que la grandeza no se mide en hectáreas, centímetros ni gramos, sino en impacto… en aplausos. Y el páncreas cabe en la palma de la mano.

        Sí, necesitamos más COP, así como más ASCO. Al fin y al cabo, el futuro suele comenzar en lugares que pocos advierten, pero que sostienen el equilibrio… Porque cada vez que la ciencia se convierte en luz, toda la humanidad ve un poco más lejos.

Jader Leite — Doctor en Ingeniería Hidráulica y Ambiental, Universidad de São Paulo (USP)

Roger Normando — Profesor de Cirugía Torácica, Universidad Federal de Pará (UFPA) y Miembro del GBOT (Grupo Brasileño de Oncología Torácica)

Artículo originalmente publicado en el periódico “O Diário do Pará”

The Paradox of the Essential: “Daraxon”, fiat lux against Cancer

         During COP30, held on the edge of the Amazon rainforest, one of the most heated debates concerned the significance of the Amazon for the planet. It covers just 1.3% of the Earth’s total surface area, or 7% of its land area — yet its ecological importance is beyond dispute: 50% of the world’s biodiversity and 20% of all freshwater on the planet. That is an enormous function for little more than 1% of the Earth.

        The pancreas presents a similar paradox. It accounts for less than 0.1% of the human body’s total weight, measuring between 15 and 25 cm in length and weighing an average of 60 to 100 grams. It fits in the palm of a hand, and yet it is capable of determining the fate of an entire life and of tying medicine into its greatest knot. Small in size and colossal in importance, the pancreas harbors, among so many challenges, a particularly daunting piece of genetic machinery — or rather, a heavy-calibre weapon: the K-RAS gene. Its trigger can fire one of the most lethal cancers known to humankind.

    Pancreatic cancer ranks among the most feared diagnoses in medicine: silent, aggressive, and associated with some of the lowest survival rates in oncology. Physicians feel powerless before this malignancy. It bears an uncanny resemblance to a UFO bombarding the earth.

    And then ASCO (the American Society of Clinical Oncology) launched a stunning broadside from Chicago to seize the attention of the scientific world: Daraxonrasib, whose new results demonstrated disease control and doubled survival in advanced cases. A single tablet capable of silencing the executioner K-RAS gene. Applause was not lacking after the announcement of the research findings. Not the ceremonial kind, nor the polite enthusiasm of the moment, nor frenzied shouts of “woo-hoo.” Had it been a concert, it would have been the unanimous “Bravo, Bravo!” with everyone on their feet. Perhaps that is why those resonant palms echoed across the entire planet — not merely through social media, but in headlines in the world’s leading publications. There was a collective sense that something important was happening. It was a spark in oncology, after decades in which this malignancy had come to symbolize, and still represents, one of medicine’s greatest challenges. The research results proved capable of shifting perspectives that until then had seemed firmly entrenched.

        We can thus say that K-RAS has finally met its match — the compound that can pull it from the socket. Its name is even difficult to pronounce: Daraxonrasib, which will no doubt be shortened to Daraxon, or simply Dara, in oncological circles. Even without representing a cure, it is fiat lux in the darkness of oncology; it is hope, it is science — and emphatically not a miracle.

        For those outside the medical field, some context is in order: the ASCO congress is the world’s foremost oncology gathering. It is there that the most relevant advances in cancer diagnosis and treatment are typically presented. It is not an environment known for euphoria. Scientists are trained to distrust their own results, to question others’ conclusions, and to celebrate each achievement with measured caution. Among those present was Clarissa Baldotto, a member of GBOT (Brazilian Thoracic Oncology Group), who focuses on lung cancer and was positively radiant: “just to think that there could be prospects for other tumors carrying the same type of mutation.” The “other” in question is lung cancer.

        Even if it is a small step for medicine, it was a gain in hope that blossomed within the small pancreas, defying all logic of proportions.

        Perhaps nature is constantly trying to teach us that greatness is not measured in hectares, centimetres, or grams — but in impact… in applause. And the pancreas fits in the palm of a hand.

        Yes, we need more COPs, just as we need more ASCOs. After all, the future tends to begin in places few perceive — but which sustain the balance… Because every time science makes itself into light, all of humanity sees a little further ahead.

Jader Leite — Doctor in Hydraulic and Environmental Engineering, University of São Paulo (USP)

Roger Normando — Professor of Thoracic Surgery, Federal University of Pará (UFPA) and Member of GBOT (Brazilian Thoracic Oncology Group)

Article originally published in the newspaper “O Diário do Pará”

terça-feira, 26 de maio de 2026

Antonio Gaudí between rivers and forests

  The next day, the sun was still beginning to lick 

the gentle curves of the treeless hills.              

 Pepetela, Angolan writer, in: Tales of Death


        An unforgettable landscape surrounded me the other day, while I was traveling: the Tapajós National Forest, seen from the top of one of its hills. From there, seated in the shade of a kapok tree, my eyes spread the green all the way to the near bank of the river. In the middle of it, a barge was carrying grain out to the world. And, already losing its sharpness, the far bank returns to my eyes, dissolving into the sfumato of the setting sun. That imagery always comes back to my retina whenever I admire other landscapes.

        For wandering the world paying attention to views, colors, and directions, I find myself always placing the human being at the center of the palette and the planet. That is why I called on Pepetela for the epigraph, to give voice to the curves that Antonio Gaudí traced in Catalonia.

        Both at the foot of the Sagrada Família and from the heights of Montjuïc, in Barcelona, there is an expanse of breathtaking beauty. From there, the spires of the Sagrada Família rise above the city, drawing the eye in, set against the monochromatic urban plane under the reflections of the last rays of sunlight, with the shadow of the mountains in the background. A Carioca would immediately quip, with their eternal humor: "just like the hills of Rio de Janeiro."

(A note: this is not meant as a negative image; it is simply a translation of Pepetela, in his Tales of Death, about the treeless hills, replaced by dwellings.)

        As a traveling outsider in thought, I soon reflected: what connects us when we correlate Barcelona with the Amazon rainforest mentioned at the beginning of this text? It all begins with the striking image that stood out: the Sagrada Família, at 172.5 meters tall. It is the defining landmark of the Barcelona skyline. The structure deliberately falls short of the height of the mountains out of respect for God, the creator of all — so Gaudí portrayed it — knowing that Catalonia, marked by the Gothic Quarter, had been the cradle and pinnacle of Christian civilization.

    When borrowing Gaudí's eyes, one perceives in his works a deep respect for Christianity; yet, by reproducing the forms of nature in his many sculptures scattered across the city, he draws more from Baruch Spinoza, for whom God and nature are one and the same, with Gaudí merely an interpreter.

    Another nature he admired was the human one. In La Pedrera, the so-called "lung space," right at the entrance, is a system of natural ventilation and thermal regulation at the center of the semicircular residential building spanning several floors. In the entrance atrium, he treats the work as an ecosystem functioning just like the respiratory system. Looking up at the ceiling, the polyhedral image of the pulmonary alveolus is revealed, with the sky visible beyond. Thus, Gaudí was able to embody Spinoza within a mineral forest of stone and creativity, transforming Barcelona into something vibrant, perhaps even delirious.

        One might say that human beings do not live in natural environments alone; above all, they need to create an aesthetic that calms the heart and eases the breath. That is what Gaudí did.

        And so, upon climbing to the highest point of Montjuïc to take in that view of Barcelona, he builds the cathedral and so many other works solely to relieve the eye from the sight of a deforested city. Then he descends the hill and goes on to face the challenge of giving life to stone.

        If the Amazon on this side represents a deep indigenous memory — origin, biodiversity, the slow rhythm of nature — Barcelona, in turn, symbolizes the human capacity to transform belief, aesthetics, and geometry into tangible civilization, leaving a cruel question as to whether Sapiens is trying to define itself as guardian… or predator.

        Surely the human destiny does not lie in choosing between forests and cathedrals, but in discovering whether our intelligence will mature before we destroy the natural and symbolic foundations that sustain us — or perhaps these are different manifestations of the same human narrative: one shaped by evolution over millions of years; the other by collective imagination in just a few centuries. This suggests that each identity is not merely territory, but an affective repertoire, through which we travel — we from here to there, and they from there to here — to better understand this consonance of gazes.


Translation produced with AI assistance.

Roger Normando, professor of thoracic surgery, Universidade Federal do Pará, Brazil.

Antonio Gaudí entre ríos y bosques

 Al día siguiente, aún el sol comenzaba a lamer las suaves curvas 

de las colinas sin árboles. 

Pepetela, escritor angoleño, en: Cuentos de muerte


    Un paisaje inolvidable me rodeó el otro día, durante un viaje: el Bosque Nacional del Tapajós, visto desde lo alto de una de sus colinas. Desde allí, sentado a la sombra de una ceiba, mis ojos extendieron el verde hasta la orilla de este lado del río. En medio de él, una balsa transportaba granos hacia el mundo. Y, ya perdiendo nitidez, la otra orilla regresa a mis ojos, ya en el sfumato del sol al ponerse. Ese imaginario siempre vuelve a mi retina cuando admiro otros paisajes.

    Por andar por el mundo prestando atención a vistas, colores y rumbos, vivo proyectando al hombre como centro de la paleta y del planeta. Por eso convoqué a Pepetela para el epígrafe, al dar voz a las curvas que Antonio Gaudí trazó en Cataluña.

    Tanto a los pies de la Sagrada Familia como desde lo alto del Montjuïc, en Barcelona, hay una explanada de belleza. Desde allí, las cúspides de la Sagrada Familia se destacan sobre la ciudad, donde el ojo se quedó pegado, entre el monocromático plano urbano bajo los reflejos de los últimos rayos de sol, con la sombra de las montañas al fondo. Un carioca lo diría enseguida, con su eterno humor: "igualito a los morros de Río de Janeiro".

    (Una aclaración: no se pretende que sea una imagen negativa; tan solo traduciendo a Pepetela, en sus Cuentos de muerte, sobre las colinas sin árboles, sustituidas por viviendas).

    Como forastero viajero en el pensamiento, reflexioné de inmediato: ¿qué punto nos une al correlacionar Barcelona con la selva amazónica mencionada al inicio del texto? Todo parte de la imagen insólita que se destacaba: la Sagrada Familia, con sus 172,5 m. Es un punto de referencia en el paisaje barcelonés. La obra solo no supera la altura de las montañas por respeto a Dios, el creador de todo —retrata Gaudí—, sabiendo él que Cataluña, marcada por el barrio Gótico, había sido cuna y cúspide de la civilización cristiana.

    Al tomar prestados los ojos de Gaudí, se percibe en sus obras respeto al cristianismo; sin embargo, al reproducir los trazos de la naturaleza en sus diversas esculturas esparcidas por la ciudad, incorpora más a Baruch Spinoza, para quien Dios y naturaleza son elementos únicos, y él apenas un intérprete.

    Otra naturaleza que él admiraba es la humana. En La Pedrera, el "espacio pulmón", ya en la entrada, es un sistema de ventilación natural y regulación térmica en el centro del condominio semicircular compuesto por varios pisos. En el atrio de entrada, trata la obra como un ecosistema que funciona igual que el sistema respiratorio. Al mirar hacia el techo, la imagen poliédrica del alvéolo pulmonar se expone, con el cielo al fondo. Así, Gaudí fue capaz de reproducir a Spinoza en un bosque mineral de piedra y creatividad, transformando Barcelona en algo pujante, quizás delirante.

    Se diría que el ser humano no vive solo en ambientes naturales; sobre todo necesita crear una estética que le calme el corazón y le alivie la respiración. Eso fue lo que Gaudí hizo.

    Por eso, al subir hasta el punto más alto del Montjuïc para proyectar ese paisaje de Barcelona, construye la catedral y tantas otras obras únicamente para aliviar la vista de la ciudad deforestada. Luego baja el cerro y sigue hacia el desafío de dar vida al concreto.

        Si la Amazonia de aquí representa una memoria autóctona profunda —el origen, la biodiversidad, el tiempo lento de la naturaleza—, Barcelona simboliza, a su vez, la capacidad humana de transformar creencias, estética y geometría en civilización tangible, dejando una cruel duda sobre si el Sapiens estaría intentando definirse como guardián… o como depredador.

        Sin duda, el destino humano no está en elegir entre bosques y catedrales, sino en descubrir si nuestra inteligencia madurará antes de que destruyamos las bases naturales y simbólicas que nos sostienen; o quizás sean manifestaciones distintas de la misma narrativa humana: una creada por la evolución durante millones de años; otra por la imaginación colectiva en pocos siglos. Esto sugiere que cada identidad no sea solo territorio, sino repertorio afectivo, en el que circulamos - nosotros de aquí para allá y ellos de allá para acá - para entender mejor esa consonancia de miradas.


Roger Normando, professor de Cirurgia Torácica - Universidade Federal do Pará e membro titulado da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica.

Traducción realizada con apoyo de IA