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domingo, 18 de agosto de 2013

Duas décadas de design



Para os apreciadores do design de alta performance, o vídeo acima da equipe Sauber de Fórmula 1 é um deleite sensorial.
É muito interessante observar a evolução dos projetos dos bólidos de competição em duas décadas, especialmente nos anos 90, quando o regulamento permitia maiores mudanças por parte dos projetistas.
Penso que não é à toa que máquinas criadas por "meros" engenheiros frequentem as exposições de museus de arte, como o MoMa, por exemplo.
A trilogia sonho, arte e engenharia parece ter links neuronais bem patentes.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Memento


Matéria publicada ontem na Folha de SP me trouxe à tona a figura de Brenda Milner, notável neurocientista nonagenária que surfa num assunto que me fascina: a memória.
A britânica de 94 anos (fará 95 em 15/07 próximo) pesquisa a diferença entre os hemisférios direito e esquerdo e está baseada atualmente no Montreal Neurological Institute, braço da renomada universidade McGill, orgulho canadense desde os tempos coloniais.
A pesquisadora nos forneceu e fornece um importante legado de conceitos referentes a diferentes tipos de aprendizado e ao fracionamento da memória e, principalmente, nos mostra que os neurônios não devem se “aposentar” jamais.
Vida longa à Prof. Milner!

"I wouldn't want to be lying on a beach somewhere—I'd feel like the world is passing me by. 
I like to make a little noise when I walk."

Brenda Milner

segunda-feira, 18 de março de 2013

Discuta em língua estrangeira!


Quer controlar as suas emoções na hora de tomar decisões? Faça-o em idioma estrangeiro!
Há tempos que tenho a convicção de que usar uma segunda língua em situações em que precisamos aguçar a razão, contrapondo-a à emoção, pode ser muito útil numa gama de momentos cruciais de nossas vidas.
Pude testar empiricamente esta ideia no período em que morei fora do Brasil, tanto no aspecto profissional quanto nas relações interpessoais, e acabei por concluir para os meus próprios botões que tendemos a brigar menos, a questionar menos e a evitar conflitos diretos usando este artifício.
Mas era apenas um feeling meu, uma observação livre, e eu jamais havia lido nada a este respeito até a semana passada, quando um link da revista  Mente e Cérebro me levou a uma interessante publicação de autoria de Boaz Keysar, de 2011, no periódico PsychologicalScience.
A princípio, seria intuitivo pensar que as pessoas tomam decisões independentemente de qual língua estejam usando para a comunicação. Keysar e seu grupo da Universidade de Chicago, no entanto, demostraram ser justamente o oposto em seis experimentos.
Portanto, fica a informação de cunho prático: em situações adversas, no trabalho ou na vida pessoal, tente argumentar em língua estrangeira e a chance de obter um maior equilíbrio entre perdas e ganhos aumentará muito.
Just do it!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Inexplicável e imponderável



Alguns vídeos atingem um tal grau de popularidade no You Tube que fica difícil explicar o porque de tantas visualizações.
Dois exemplos claros (ou obscuros?) para mim são o do vendedor paquistanês anunciando peixe por uma libra esterlina em um mercado londrino (acima; mais de 30 milhões de views em duas versões) e o nacional E o Pintinho Piu (abaixo; 25 milhões de visualizações).
Os dois vídeos têm em comum o bom humor, a produção de baixo custo e melodias que facilmente se transformam em poderosos memes, grudando por horas nas nossas memórias.
No final de tudo o culpado parece ser o nosso próprio cérebro, esta máquina maravilhosa que tem inclusive a capacidade de zombar dos proprietários: nós mesmos!



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Brahms, melancolia e blues

Johannes Brahms



O termo melancolia tem sido usado nas neurociências como uma característica da depressão, seja na sua forma endógena, somática ou mesmo biológica, e tem a ver com a tristeza de forma direta.
Instintivamente acabamos por relacionar esta sensação a um céu cinzento, bem carregado de nuvens e/ou envolto por névoa, semelhante ao ora presente no dito inverno paraense. Se associarmos uma música triste a pensamentos ligeiramente negativos e repetidos (pensar num ente querido ausente, por exemplo), haverá uma grande possibilidade de surgir uma inquietação dentro de nós, uma agonia, como diz o sábio caboco.
Há poucos anos vivi uma experiência neurosensorial algo melancólica quando fui assistir a uma apresentação da Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz, cujo programa englobava algumas peças do compositor alemão Johannes Brahms.
O mês era dezembro e o inverno já mostrava as suas cinzas garras num dia exatamente como foi a última segunda-feira, aqui em Belém.
Enquanto a sinfônica tocava com maestria a enérgica e sombria Sonata Número 3, fui invadido por uma sensação de paixão e tristeza brutais e meu cérebro foi devastado por uma tempestade de neurotransmissores antagônicos. E tudo catalisado instantaneamente pelo lirismo romântico de Brahms.
Ao sair do da Paz fui obrigado a procurar mais melancolia e li alguma coisa de T. S. Eliot (ou algo parecido – os registros estão confusos na memória), apaziguando assim o meu sistema límbico.
Pois na última segunda, debaixo daquele temporal, sob raios e trovões, agradecendo aos deuses o fato d’eu não estar atravessando a barco a Baía do Marajó, inundei o carro com um poderoso blues de Buddy Guy, “Feels LikeRain”, e voilá, a mesmíssima sensação retornou de forma brutal.
Na hora, tive a certeza de que as mesmas áreas cerebrais e os mesmos neurotransmissores estavam envolvidos, tal a similitude e a intensidade das emoções desencadeadas nas duas ocasiões.
Foi um verdadeiro e curioso déja vu (ou déja senti?).
Lendo ontem um pouco de uma biografia de Brahms, descobri que o mesmo nutriu uma paixão (supostamente não-correspondida) pela esposa do seu mentor Schumann, Clara. Este fato, somado a uma infância difícil, às circunstâncias peculiares de sua vida profissional e a uma provável tendência depressiva, pode ter contribuído para a obra daquele que é o compositor favorito de muitos maestros e musicistas mundo afora.
E equalizando as duas experiências que vivi, cheguei a conclusão simplória de que o nosso inverno amazônico é uma espécie de guardião da melancolia que sub-existe nas profundezas de nossas mentes.
Vida longa ao inverno, ao blues e à música de Brahms!
E haja melancolia...

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Cérebros e mapas


O século 16 foi o período da nossa história mais sulcado por embarcações que tinham a missão de reconhecer o mundo e de mapeá-lo para o nosso entendimento e deleite.
Naquele tempo os oceanos eram (e ainda permanecem) fontes inesgotáveis de surpresas, e começaram a confirmar uma forte suspeita de que a complexidade do mundo é tal que não devemos ousar nos aproximar dos seus fundamentos.
Séculos se passaram e nos arriscamos, mesmo sem ainda conhecermos sequer o fundo dos mesmos oceanos singrados pelos nosso antepassados, a romper essa ilha de trevas, de desconhecimento e de inércia na qual não nos conformamos em viver.
E, com todo o respeito à física quântica e à astrofísica, dissecar o cérebro humano nos seus aspectos morfológicos, neuro-bioquímicos e fisiológicos, me parece ser a tarefa mais importante a ser executada pelo homem neste momento histórico.
Os potenciais de exploração cerebral só não são maiores do que os riscos envolvidos em se arranhar profundamente a ética e a moral. Afinal, manipular cirúrgica- e/ou quimicamente o córtex normal apenas para angariar informações para a nossa espécie, não é um ato isento de pesadas críticas.
Mas e se houver uma patologia envolvida? Podemos explorar um pouquinho além do propósito inicial da cirurgia, estimulando áreas próximas?
Vou ilustrar com um fato do cenário neurocirúrgico contemporâneo, publicado em periódico idôneo e reverberado mundo afora em congressos específicos na área da Neurocirurgia Funcional.
Há poucos anos, durante procedimento de Neuromodulação (implante de eletrodos no cérebro para posterior estímulo elétrico), visando tratar descargas elétricas anômalas em um paciente portador de um tipo de epilepsia do lobo temporal, houve um pequeno desvio do alvo (região a ser estimulada) e os neurocirurgiões canadenses se depararam com algo inusitado.
Ao se estimular as áreas “erradas” durante a cirurgia (que é feita em grande parte em vigília plena), o paciente relatou lembranças extremamente vívidas de um episódio ocorrido em sua infância, o qual aparentemente era destituído de importância. Houve então uma descrição meticulosa de odores, de cores de objetos, de frases longas ditas por parentes e até de sentimentos experimentados naquele momento  “esquecido” antes do estímulo.
Tudo foi documentado e publicado, e desde então o mesmo grupo passou a ampliar a área de pesquisa, tendo havido relato verbal em um congresso recente de mais seis procedimentos semelhantes, sempre aproveitando cirurgias para epilepsia, e, é claro com o consentimento dos pacientes.
Podemos concluir, leigos ou não, que tudo relacionado à memória está lá, guardado no cérebro. Absolutamente tudo registrado durante as nossas vidas. O problema é como acessar essas informações.
Fica então a pergunta final no ar: se, na fronteira do saber, nem tudo estará dentro de possíveis inteligibilidades, até onde nos levará um punhado de conhecimento que até poucos anos repousava nos braços da ficção científica? Teremos capacidade de compreender o mapa cerebral que apenas começamos a traçar?
O século 16 parece não ter acabado.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Achados e perdidos


“Somos aquilo que lembramos.”

“Somos aquilo que lembramos e aquilo que esquecemos.”
(releitura feita por Ivan Izquierdo)


Pouco entendemos sobre o real mecanismo pelo qual adquirimos e armazenamos as informações, e muito menos sobre como realmente as perdemos.
Se esquecer é essencialmente  tão importante quanto lembrar como parece (e é!), me pergunto se a indústria farmacêutica não investirá num futuro breve em remédios para apagar memórias, talvez com a mesma sofreguidão quer o faz para desenvolver substâncias que as preservem.
A seletividade do quanto e do que poderá ser deletado talvez dê início ao processo de desconstrução verdadeira da essência do ser humano: a humanidade.
Mas, quem se importará, se lucrativo for?!
Quem viver, verá. 
Quem viver, verá, mas talvez não lembrará.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O álcool e a criatividade

Modest Mussorgsky

A genialidade e o consumo exagerado de bebidas alcóolicas frequentemente se encontram em algum ponto da vida de artistas, pensadores, cientistas e mesmo de profissionais como médicos, advogados, empresários, engenheiros e professores.
O álcool, se ingerido em pequenas doses, aproxima as pessoas e as desinibe e talvez por isso tenha sido tradicionalmente um companheiro do homem em sua trajetória social desde tempos remotos. Quando utilizado como um hábito, no entanto, pode levar o usuário à obrigação de consumi-lo com frequência crescente, trazendo à tona seu enorme poder destruidor, inclusive através da devastação da capacidade criativa. Como então definir o ponto exato do início de sua nocividade e como rotular o usuário?
Em termos etimológicos, alcóolatra seria a pessoa que adora a bebida, e não necessariamente um viciado, um doente. Encaixa-se aqui a figura do colecionador de bebidas, por exemplo. Alcoolista seria aquele que nutre simpatia pelo álcool, o dito “bebedor social”, e alcoólico seria o verbete mais adequado para caracterizar o doente por abuso desta substância, aquele que é realmente dependente do álcool, ou seja, a pessoa que perdeu a capacidade de se abster do uso da bebida.
O primeiro nome que me vem à cabeça quando penso em um artista influenciado e/ou destruído pelo álcool é o do compositor russo Modest Mussorgsky, autor da famosa (e belíssima) ópera Boris Godunov (1870).
Aos 35 anos, Mussorgsky já assumia ser um bebedor inveterado, e era comumente encontrado caído pelas ruas de Moscou, como um mendigo. As suas composições passaram a ficar em grande parte incompletas, graças à interrupção do processo criativo pela intoxicação alcoólica.
Até os retratos do músico não escondem os sinais do vício, revelando um fácies típico dos alcoólicos, edemaciado e com o nariz avermelhado.
Além de Boris Godunov, sua música Noite no Monte Calvo ficou muito conhecida através do desenho Fantasia, de Walt Disney, assim como a releitura de Quadros de uma Exposição, feita nos anos 1970 pelo grupo inglês de rock progressivo, Emerson, Lake & Palmer.
Mas como impedir a transformação de um alcoolista em um alcoólico, evitando assim a destruição social e profissional de uma pessoa?
Parece não haver uma só resposta, pois a complexidade do tema envolve fatores genéticos, ambientais e psicológicos.
Nós, humanos, temos prazer em beber e tal pode ser cultuado sem culpa, desde que os nossos cérebros saibam nos fazer parar alguns passos antes da intoxicação.
Saúde!

domingo, 26 de agosto de 2012

Tripla recordação

Mary, da versão 1990 de Total Recall

Quando assisti ao filme Blade Runner, no luminoso verão carioca de 1983, acabei projetado brutalmente em direção à obra do então recém-falecido escritor americano Philip K. Dick.
Encontrei muito mais do que a minha jovem mente jamais poderia esperar de um escritor de ficção científica, na forma de perguntas primárias sem resposta, ilusões dos sentidos, caos social projetado com maestria e, principalmente, a pergunta que até hoje assola as neurociências: o que é real?
Se tudo o que vivemos depende do que os nossos ainda pouco explorados sistemas neuronais arquivam, e de como o fazem, não podemos ser facilmente ilusões, arquivos errônea- ou propositadamente mal interpretados? Meros arquivos corrompidos???!!!
E na minha memória, Dick, que por acaso escrevia mal, assoberbado por tantas idéias em tão pouco tempo (vide o post Hipergrafia - talento ou doença?), produziu um punhado de contos geniais, entre eles We Can Remember It For You, Wholesale, Minority Report, Paycheck, A Scanner Darkly, The Golden Man e The Adjustment Team. Sua capacidade de síntese era assustadora - em 20 ou 30 páginas ele entuchava tantos pensamentos e contra-pensamentos que 2 ou 3 horas de filme não são capazes de dissecá-los todos.
Todos os contos mencionados acima foram filmados nos últimos anos (e mais alguns outros), e o primeiro  (Podemos Recordar para Você, por um Preço Razoável, em português), de 1966, ganhou sua segunda versão cinematográfica, Total Recall (fomos de novo premiados com o terrível título da versão brasileira de 1990, O Vingador do Futuro).
Antes de assistir à versão 2012, cometi o erro de reler o conto, e logo na véspera.
Depois de ir ao cinema, cometi o segundo erro, o de rever em DVD a primeira versão, do diretor holandês Paul Verhoeven.
Dick resumiria o filme assim: terabytes de ação, muita referência oca, atores fracos, nenhum humor, roteiro disforme e 125 milhões de dólares jogados fora.
Ok, menos - haverá lucro!
Mas aposto que nem a molecada criada no mundo digital dos games e dos filmes de ação vai lembrar deste filme.
Arquivo excluído definitivamente!

PS: sim, Mary, a prostituta de três peitos, dá um canja na nova versão.

sábado, 14 de julho de 2012

Transtorno de humor e experiência criativa


A relação entre doenças tipo Transtorno Bipolar e arte sempre me fascinou.
Considerando que os transtornos de humor (depressão e mania), em surtos, são experiências extremas para todas as pessoas por eles acometidas, assim como para as suas famílias e amigos, é de se presumir que estes episódios possam ter um papel importante na capacidade criativa de um grande artista.
Em contra-partida, se os estados francos de mania ou depressão são praticamente incompatíveis com pensamentos ou ações eficazes, eu imagino que uma certa "dose" de patologia num momento preciso da vida do artista seja o "toque de gênio" para o insight criativo.
A lista de "pacientes-artistas" (supostamente) acometidos por transtorno grave de humor é extensa, segundo o livro Touched With Fire (New York Free Press, 1991), da psiquiatra americana Kay Redfield Jamison, autoridade mundial nesta doença.
Dentre os escritores, destacam-se Andersen, Balzac, Mark Twain, Dickens, Emerson, Faulkner, Scott Fitzgerald, Hemingway, Hermann Hesse, Mary Shelley, Robert Louis Stevenson, Tolstoy, Edgar Allan Poe, Dylan Thomas, Walt Whitman, Baudelaire, William Blake, Lord Byron, Emily Dickinson, T. S. Eliot, Victor Hugo, Robert Lowell e Mayakovsky, entre dezenas de outros.
Na música, os casos mais famosos são os de Robert Schumann (vide Schumann e a Psicose, aqui no blog), Mussorgsky, Handel e Hector Berlioz, e nas artes plásticas também há nomes importantíssimos para a história da humanidade, tais como Michelangelo Buonarroti, Paul Gauguin, Van Gogh, Pollock e Edward Munch.
Muitos dos mencionados acima estiveram internados em instituições psiquiátricas, tentaram o suicídio ou mesmo tiveram êxito em cometê-lo.
A pergunta que insiste em assolar o meu pensamento é: se os artistas em questão tivessem sido adequadamente tratados, quantas obras-primas o mundo teria deixado de conhecer?

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Schumann e a psicose


Robert Schumann

Há muitos anos eu ouvi uma história curiosa sobre o renomado compositor musical alemão Robert Alexander Schumann e que tomei como verdadeira até a presente data.
Segundo um amigo pianista, Schumann havia tentado o suicídio por volta dos 40 anos de idade por não suportar mais ouvir a nota de forma ininterrupta, dia após dia, e que a causa de tal distúrbio teria sido uma otite adquirida na infância.
Pois hoje ganhei de presente um livro curioso, escrito por André Luiz Iorio, psiquiatra da USP-SP, chamado MÚSICA E PSICOSE - A COMPLEXA VIDA E OBRA DE ROBERT SCHUMANN (Editora Leitura Médica), que abalou a minha ideia pré-concebida sobre o compositor.
O autor, além de médico psiquiatria, tem extensa formação musical em piano, harmonia e contra-ponto, e fez uma profunda análise fenomenológico-existencial que passou pelas cartas da juventude, pelo diário pessoal do músico, chegando até às suas partituras.
Apesar do tom estritamente científico da obra, fica bem claro que a música de Schumann expressa de forma brutal, e ao mesmo tempo cristalina, as forças escondidas que emanavam de sua existência atormentada.
Schumann era portador de uma forma de psicose e a nota poderia ser "apenas" uma alucinação auditiva.
Fiquei pensando em quantos gênios, de tantas áreas do conhecimento humano, não sofreram (ou sofrem) de doenças mentais ou neurológicas, e em quanto a patologia não tem sido importante para as artes, ciências, religiões e para a própria história da humanidade.
Afinal, existe um linha de pensamento na moderna neurologia que diz mais ou menos assim: "toda doença pode trazer algo de bom para o paciente, redundando numa vida melhor do que o mesmo apresentava antes de adoecer".
Será?!...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Eternamente jovens



Um dos raciocínios mais equivocados que costumamos ter é achar que vivemos com as mesmas células (ou um grande número delas) por todas a nossa existência.
A maioria das células vivas raramente consegue durar um mês inteiro, com a honrosa exceção dos neurônios (recebemos 100 bilhões e os renovamos a nível de seus componentes celulares) e dos hepatócitos (que sobrevivem vários anos).
O bioquímico belga Christian de Duve, ganhador do prêmio Nobel de Fisiologia/Medicina em 1974, nos mostrou que as células do fígado têm todos os seus componentes renovados em poucos dias.
O cientista americano David Bodanis argumenta em The Secret Family que não há uma só parte nossa, nem mesmo uma simples molécula, que tenha estado conosco há 9 anos.
Em português claro, abaixo dos 2 kg de células mortas que constituem a nossa pele, estaremos sempre novinhos em folha.
Até o fim.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O mistério do Autismo



Poucas doenças do cérebro e do comportamento são tão enigmáticas quanto o Autismo.
Nas últimas décadas tem havido pouco progresso no entendimento real da patologia, que se manifesta clinicamente por um cortejo sintomatológico vasto, que inclui a dificuldade para as relações sociais (em graus variáveis, podendo chegar ao extremo da incapacidade absoluta de comunicação), a execução de movimentos repetidos e estereotipados, sensibilidade ao som e à luz e alterações comportamentais.
Fico, portanto, muito retraído quando vejo artigos como o publicado semana passada no JAMA, Journal of the American Medical Association, que descreve uma população neuronal maior do que o normal em certas regiões do lobo frontal de 7 pacientes autistas submetidos à autopsia (a maioria morreu por afogamento). O peso do cérebro também revelou-se acima do esperado.
A conclusão do trabalho aponta para uma provável causa intra-uterina do Autismo, realçando o substrato neurológico em detrimento do psiquiátrico.
Curiosamente já houve publicações no passado que indicavam um menor número de neurônios, em outras áreas cerebrais.
Enfim, creio que a prevista união futura da neurologia com a psiquiatria e um trabalho transdisciplinar exaustivo possam focar um faixo de luz nesta patologia, fadada até aqui à escuridão.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Limites da inteligência




Nós temos dentro de nossas caixas cranianas uma poderosa “máquina de pensar”, uma espécie de “pudim de leite” constituído de neurônios (mais de cem bilhões), células de suporte, líquido cefalorraquiano e vasos sanguíneos. Podemos ficar ainda mais inteligentes do que somos, ampliando a nossa já enorme capacidade de processamento?


A primeira idéia que nos vem à cabeça é a de que os cérebros maiores levariam vantagens sobre os menores, um pensamento, aliás, bem vigente nas décadas iniciais do século XX. O alto consumo energético e a lentidão das conexões mais longas passam então a ser fatores limitantes à expansão da inteligência.


Aliás, é justamente nos axônios, nas conexões entre os neurônios, que reside a maior dificuldade física para o aprimoramento do funcionamento cerebral. Um melhor “cabeamento” cerebral aumentaria o consumo e precisaria de um espaço desproporcional em nossos crânios.


Tornar os nossos axônios mais “finos” talvez esbarrasse em limites termodinâmicos, criando uma comunicação “ruidosa” e pouco efetiva.


Se a nossa massa cinzenta é poderosa, o mesmo não podemos dizer de nossa massa branca, do nosso “lento” serviço de “correio” axonal, que transformou-se no nosso “calcanhar de Aquiles” da evolução cerebral.


Se, individualmente, não podemos aumentar a nossa inteligência, tendo que confiar na carga genética que recebemos de nossos ancestrais, coletivamente ainda o poderemos fazê-lo, como uma espécie.


Penso que o futuro mostrará que sim.






Imagens: Eshel Ben Jacob (projeto Colonial Intelligence)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Como pensam os cães


Imagem: Stanford University

O entendimento do funcionamento do cérebro de mamíferos “inferiores” a nós, primatas “evoluídos”, talvez possa ser de grande utilidade para o desenvolvimento de técnicas diagnósticas ou mesmo terapêuticas a serem aplicadas nos humanos num futuro breve.
Quão inteligentes são os cães? Eles podem processar informações de modo parecido ao nosso?
A questão é complicada, começando pelo ceticismo exacerbado que envolve as pesquisas sobre inteligência dos cachorros.
Poucos estudos científicos sérios têm sido publicados sobre o tema, alguns dos quais realçando a capacidade canina para executar tarefas complexas, aprender idiomas, ou mesmo pressentir crises convulsivas de seus donos com antecedência de até 5 minutos.
O pesquisador Stanley Coren, professor de psicologia da Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e autor de vários livros sobre cães, afirma que o cão médio equivale intelectualmente a uma criança de 2 a 2,5 anos, tendo inclusive a capacidade de compreender alguns conceitos abstratos. É um defensor da idéia de que o processamento cerebral do cão não é tão divergente quando comparado ao nosso.
Outros, como Clive Wynne, professor de psicologia da Universidade da Flórida, discordam de Coren e pensam que os cães podem ter habilidades no aprendizado da leitura de pistas humanas, o que não significa que estejam pensando como pessoas. O mundo de um cachorro gira em torno de seu dono primário, e ele irá tentar arduamente responder a essa pessoa para com o objetivo de conseguir os seus objetos de desejo, como comida, carinho ou cuidados.
De qualquer forma, mesmo sendo talvez apenas um feliz acidente evolutivo das espécies, o fato de que o pensamento dos dois amigos, Canis lupus familiares e Homo sapiens sapiens, se sobrepõe de um modo suficiente para que possamos ter relações tão estreitas e gratificante com os cães, é por si só maravilhoso.
Apenas devemos evitar a armadilha psíquica de achar que os cães vêem o mundo como nós.
Eles pensam como cães.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Semana da Consciência Cerebral


Desde 2008 um grupo de universidades, hospitais e de diversas associações profissionais e de pacientes mundo afora realiza a Brain Awareness Week, com o objetivo de informar o público sobre os avanços das pesquisas referentes ao cérebro.

Neste ano, a imagem de um cérebro normal, contraposta a de um cérebro de portador da doença de Alzheimer, divulgada por um dos maiores “bancos de cérebros” existentes, o do Hospital Universitário Idee Belle, em Chêne-Bourg, Suíça, chocou o mundo.

Me parece absolutamente desnecessário atrelar palavras à imagem abaixo para que possamos entender a verdadeira devastação neuronal que ocorre nesta moléstia, assim como fica muito clara a necessidade de uma política mundial de investimentos direcionados às neurociências nas próximas décadas.


Cérebro normal e com doença de Alzheimer

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Neuromarketing



Muito se fala em Neuromarketing na mídia, como se esta nova "ciência" tivesse a real capacidade de ajudar a vender os mais variados produtos, de carros a shampus.
Apesar do grande potencial, o uso prático da Neurociência como ferramenta efetiva de marketing com o intuito de desvendar os segredos da mente de eventual consumidores, me parece ainda embrionário.
O sucesso e/ou o fracasso de um produto, de um logotipo ou de qualquer tipo de lançamento no mercado depende muito da resposta do comprador, da empatia gerada pela propaganda ou da estratégia de marketing utilizada.
Como interpretar as mínimas variações na reação de um olhar diante do produto, das alterações ínfimas no ritmo cardíaco ou do registro das ondas cerebrais por eletrencafalograma?
Na verdade, a maneira como o consumidor conhece a marca influencia a localização do “arquivo” na sua memória afetiva, e o posterior valor dado ao mesmo.
Resumindo, o primeiro contato é importantíssimo para a atitude da pessoa, a curto e a longo prazos.
No Brasil, que seja do meu conhecimento, apenas a firma Millward Brown, sócia do IBOBE, utiliza o método.
A restrição que eu faço, como leigo em marketing e como profissional da área neurológica, diz respeito ao exame mais utilizado no momento, o eletrencefalograma, bastante primitivo para a finalidade.
Com o avanço e maior disponibilidade de outros exames, como a Ressonância Funcional, talvez então as nossas mentes sejam invadidas pouco a pouco.
E não restam dúvidas de que os primeiros “astronautas” que “pisarão’ no solo virgem de nossos cérebros serão os marketeiros, a serviço dos empresários.
Será uma verdadeira “Cruzada Capitalista” nos territórios da memória e do desejo.
Para a nossa sorte e glória, ainda demorará bastante.
Eu espero.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Dicas de memória



Guarde esses números: mais de 5 milhões de norte-americanos sofrem do Mal de Alzheimer e a projeção para o ano 2050 supera os 15 milhões de enfermos.
O que fazer então, na prática, para manter os neurônios bem "lubrificados" durante os anos de declínio dos nossos cérebros?
As pessoas idosas em melhor forma cerebral parecem mais ativas e bem humoradas, e, apesar das evidências científicas serem mínimas, algumas dicas podem ser úteis.

1- Novas pesquisas endossam o que já se fala há décadas: o stress e a ansiedade são definitivamente nocivos para o cérebro, inclusive para o seu envelhecimento. Há um relato recente que relaciona diretamente o Transtorno Cognitivo Leve (forma precursora da Doença de Alzheimer) com o stress crônico. Portanto, declare guerra ao stress.

2- Jogos para o cérebro (quebra-cabeças, palavras-cruzadas, caça-palavras e outros) divertem e melhoram o nosso humor. Para quem não gosta dessas atividades, ler e/ou brincar com números (Sudoku) pode ser uma excelente alternativa.

3- Descanse. O sono insuficiente, antes ou depois do aprendizado, dificulta ou mesmo impede a absorção definitiva das informações em nossas memórias. Há trabalhos que relacionam melhora de até 30% na memorização após uma simples e boa noite de sono.

4- O coração e o sistema circulatório, inclusive cerebral, se beneficiam com dieta saudável, exercícios regulares e talvez com o consumo de álcool em doses baixas. Há evidências de que o consumo de uma dose diária de bebida alcoólica (uma taça de vinho, um copo de cerveja ou uma dose de um destilado) retarda a evolução das demências já instaladas.

5- Trapaceie o seu cérebro: faça listas, amarre um fio no dedo, repita em voz alta o que quer gravar ou mesmo peça ajuda a outras pessoas. Apenas não se entregue!

Resumindo, aqueles que conseguirem chegar à senilidade bem-humorados, ativos e com uma só taça de vinho na mão, poderão flanar em alto estilo por muito tempo.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Inspiração patológica



Existe um jargão na neurologia que diz mais ou menos assim: “toda doença sempre traz alguma espécie de benefício para o paciente, podendo da patologia advir uma pessoa melhor como um todo”.
Se é verdade ou mero consolo, eu não o sei, mas em alguns ramos da atividade humana, como na literatura, a doença tem exercido importância absoluta no resultado final.
Talvez o exemplo mais clássico seja o do escritor inglês Lewis Carroll (pseudônimo de Charles L. Dogson), autor de Alice no País das Maravilhas e de Alice no País do Espelho.
Carroll apresentava crises terríveis e freqüentes de enxaqueca, com dor latejante e alterações visuais complexas, tipo distorções da realidade visual, tendo registrado-as detalhadamente em seu diário.
Pois ao leitor atento não passa desapercebido o fato de que as alucinações de Alice, vendo os objetos aumentando e diminuindo de tamanho (como o gato reduzido ao seu sorriso), têm um cunho patológico e relação direta com a enxaqueca do autor (e/ou com a tintura de ópio que usava para aliviar as dores).
E talvez esse seja um dos pontos que torna a obra tão interessante através de gerações.
Outros escritores “enxaquecosos” famosos são Virginia Woolf, Miguel de Cervantes e o neurologista Oliver Sacks, autor de O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu.
Ah, Freud também sofria de enxaqueca.
E isso pode explicar muita coisa...

sábado, 23 de outubro de 2010

No limiar da (in) sanidade


Há tempos, a moradora de rua conhecida coma “a Louca da Vila Bolonha” adotou a frente do prédio onde moro como o seu campo de batalha privado.
Geralmente no meio da manhã, a dita senhora que habitualmente perambula pelas redondezas do Palacete Bolonha, aparece descalça, maquiada, suja, porém “arrumada” e sempre aos berros.
As conversas e gritos com pessoas e vozes que somente ela pode ouvir logo se transformam em acessos repentinos de raiva e pedras voam generosamente sobre transeuntes, casas e carros que têm a infelicidade de por ali estar.
Os moradores, curiosos e assustados ao mesmo tempo, se trancam e evitam sair durante os acessos de agressividade (eu, inclusive). No entanto, do alto do meu apartamento posso ver claramente que a maioria acaba não resistindo à tentação de espiá-la, como se fosse um animal raro, um ser selvagem ou mesmo um alienígena.
Sempre que a cena se repete me pego pensando nos doentes mentais que vagueiam e vagaram pelas ruas das vilas e das cidades deste mundo durante os últimos séculos, em quantos deles foram trancados, mal-tratados ou mesmo não-tratados e até mortos deliberadamente.
Nos tempos atuais, ditos modernos, não mais existe a “nau dos loucos”, mas é inegável que os homens e mulheres privados de suas sanidades mentais, 450 milhões de pessoas ao todo(segundo a OMS), continuam sendo tratados como loucos no discurso cotidiano dos “terráqueos” e excluídos de muitas maneiras (algumas das quais, subliminares).
As neurociências avançaram um pouquinho recentemente, mas é bem claro que ainda se mantêm muito aquém da plena compreensão de doenças como a esquizofrenia e o transtorno bipolar. E, enquanto não entendermos melhor as patologias, estaremos fadados a tratá-las de forma inadequada.
Eu recomendaria aos flâneurs e aos amigos comentaristas a leitura de uma obra literária ímpar, Entre a Razão e a Ilusão (Editora Segmento Farma), escrita a 6 mãos pelo psiquiatra Rodrigo Affonseca Bressan, pela terapeuta ocupacional Cecília Cruz de Villares e pelo vice-presidente da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia, Jorge Cândido de Assis (portador de esquizofrenia).
A leitura deste livro definitivamente pode nos ajudar a penetrar um pouco na condição não linear e pouco racional dos estados de consciência oscilantes, como os da “Louca da Vila Bolonha”.
É como afastar um véu e tentar ver um fragmento do seu real rosto: do rosto da Maria, da Joana ou da Nazaré, quando ela ainda tinha um nome.
Vale a pena.