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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Schnitzler versus Freud


Para os que querem preencher o final de semana com uma literatura light, pero no mucho, aqui vai uma sugestão que certamente abalará as estruturas psíquicas de um leitor desavisado.
O livro O Retorno de Casanova, do médico austríaco Arthur Schnitzler, foi publicado em 1918, e aborda uma hipotética volta do conturbado personagem histórico Giacomo Casanova à então república de Veneza.
Velho, falido e desmoralizado, Casanova esperava tudo, menos se apaixonar. E aí então...
Para os que desconhecem o autor, Schnitzler trabalha em espelho no mesmo território psicanalítico do Dr. Sigmund Freud, escrevendo romances que parecem casos clínicos, como o famoso Breve Romance de Sonho, filmado por Stanley \Kubric em 1999 (De Olhos Bem Fechados).
Freud chegou mesmo a expressar, em carta dirigida a Schnitzler em 1922, a admiração pela sua obra.

 "Sempre que me deixo absorver profundamente por suas belas criações, parece-me encontrar, sob a superfície poética, as mesmas suposições antecipadas, os interesses e conclusões que reconheço como meus próprios. Ficou-me a impressão de que o senhor sabe por intuição – realmente, a partir de uma fina auto-observação – tudo que tenho descoberto em outras pessoas por meio de laborioso trabalho". Sigmund Freud

Bom mergulho na leitura, aos que ousarem fazê-lo!

domingo, 29 de setembro de 2013

Aposentadoria prematura ou por invalidez?


Como fã da Fórmula 1, me dói escrever sobre a provável saída de Felipe Massa do palco da principal categoria do automobilismo mundial.
Acompanho sua carreira desde a desastrosa estréia pela Sauber em 2002 (foi substituído no meio da temporada), incluindo a volta em 2004 e 2005 pela mesma equipe (duas boas temporadas) e a triunfal ida à "mãe" Ferrari, de cuja escola de pilotos ele descende.
Dois bons anos (2006 e 2007) e um maravilhoso 2008, quando quase saiu do limbo dos pilotos não-campeões.
Sua marca era uma pitada de agressividade, algo juvenil até.
Mas uma mera mola, arremessada do carro de Barrichello no treino do GP da Hungria de 2009, mudou toda a história, interferindo no seu próprio curso e talvez no de todo o automobilismo brasileiro.
Traumatismo crânio-encefálico, com afundamento frontal esquerdo aberto, foi o diagnóstico dado em Budapeste, tendo sido feita craniotomia descompressiva.
A segunda parte do tratamento neurocirúrgico, a cranioplastia, foi executada algumas semanas depois em São Paulo, tendo havido então o vazamento de algumas informações através da rádio-cipó, fonte inesgotável e nada confiável de fofocas.
Massa teria tido contusão cerebral, bifrontal, discreta e de predomínio à esquerda. Usou anti-convulsivante profilático por 6 meses e analgésicos opióides por mais tempo, segundo as mesmas obscuras fontes médicas.
O fato é que, a partir de 2010, a performance do piloto paulista esteve sempre muito aquém do seu colega de Ferrari, Fernando Alonso: de 0,4 a 0,7 segundo mais lento a cada volta! Uma eternidade, no mundo da Fórmula 1.
Hoje me ponho a pensar se Massa não deveria ter se aposentado logo após o acidente, pois nas últimas quatro temporadas nada mostrou na pista que justificasse a sua permanência na categoria máxima do automobilismo.
Mesmo no mundo maravilhoso criado pela Rede Globo, a fantasia com que Galvão Bueno e seu séquito acéfalo querem lavar nossos cérebros não mais convence, nem sequer aos neófitos no esporte motorizado.
Apesar de dispor de milhões de dólares de patrocinadores, equipe alguma parece ter real interesse no nosso Massa. Vide toda a impressa especializada mundo afora.
Triste ocaso de um rápido e simpático piloto que quase foi campeão.
Quase!

terça-feira, 4 de junho de 2013

Memento


Matéria publicada ontem na Folha de SP me trouxe à tona a figura de Brenda Milner, notável neurocientista nonagenária que surfa num assunto que me fascina: a memória.
A britânica de 94 anos (fará 95 em 15/07 próximo) pesquisa a diferença entre os hemisférios direito e esquerdo e está baseada atualmente no Montreal Neurological Institute, braço da renomada universidade McGill, orgulho canadense desde os tempos coloniais.
A pesquisadora nos forneceu e fornece um importante legado de conceitos referentes a diferentes tipos de aprendizado e ao fracionamento da memória e, principalmente, nos mostra que os neurônios não devem se “aposentar” jamais.
Vida longa à Prof. Milner!

"I wouldn't want to be lying on a beach somewhere—I'd feel like the world is passing me by. 
I like to make a little noise when I walk."

Brenda Milner

terça-feira, 30 de abril de 2013

O muro de arrimo do "doutorzeco"

Claudio de Moura Castro

A notícia trágica desaba sobre uma universidade séria: levou bomba no MEC o curso de engenharia civil! O assunto justifica infindáveis elucubrações, mas me detenho apenas em um aspecto, por ser uma birra minha, por décadas.
Na justificada ânsia de consertar, foram trocados seis professores. Não tinham mestrado e foram substituídos por doutores em tempo integral, como gosta o MEC. Com isso, atende-se a uma das exigências para reabrir os vestibulares.
Esse remendo está no epicentro de um dos maiores equívocos do MEC. A legislação do ensino superior veio da cabeça de cientistas - alguns notáveis. Por isso, as atividades clássicas de pesquisa nas áreas científicas foram corretamente tratadas e valorizadas.
Lastimavelmente, esse marco legal ignorou a existência, dentro do ensino superior, de cursos profissionais e de serviço. Em engenharia, direito, administração, pedagogia e outros é necessário somar bons professores nas disciplinas de fonnação teórica aos das aplicadas. E, de quebra, cumpre oferecer a experiência prática de aplicar.
Em um livro clássico (The Reflective Practitioner), D. Schoen fala das ruminações não verbalizadas dos profissionais ao realizar o seu trabalho. São descritas como experiência tácita, "teoria do olho clínico", ou o interstício não codificado entre o que descreve a teoria e o ato de fazer. Daí que: (1) adquirir essa metalinguagem é parte inseparável da profissionalização; (2) apenas verdadeiros profissionais podem transmitir essa dimensão do profissionalismo; (3) leva tempo para formar um profissional.
Um belo exemplo é dado pelo programa de um hospital australiano que, por seu sucesso, foi replicado pelo mundo afora. A direção do hospital notou que morriam três quartos dos pacientes por parada cardíaca. Identificando o problema como demora no atendimento, criou uma equipe sempre pronta para agir tão logo ouvisse pelos alto-falantes o termo "Code Blue". Com isso, caiu a mortalidade, mas apenas alguns pontos porcentuais. Nova providência: qualquer médico ou enfenneira poderia acionar o Code Blue, mesmo que os sinais vitais do paciente estivessem nonnais. Ou seja, se o jeitão estivesse suspeito, mesmo sem os sintomas clássicos, poderiam soar o alarme. Surpresa! A mortalidade caiu para menos da metade. Moral da história: o que salva os pacientes é o que não está nos livros de medicina, mas na "teoria da prática". É o "olho clínico". O próprio médico não sabe explicar por que chegou a tal diagnóstico, mas intui que algo está errado. Os novatos precisam adquirir tal experiência, mas apenas quem a tem pode oferecê-Ia.
Portanto, cada disciplina requer professores com o perfil talhado para ela. Do professor de cálculo, nada melhor do que exigir um doutorado. Mas o professor que ensina a construir prédios deveria ser alguém que acumulou anos no canteiro de obras. Se houvesse doutores com essa experiência, tanto melhor. Mas não há, pois doutorados preparam para a pesquisa e para a universidade.
Se o MEC melhora as notas de quem substitui verdadeiros profissionais por jovens doutores que nada sabem de construir prédios, o resultado desse equívoco é grotesco. Premia quem ensina uma profissão que não tem, apenas leu livros e escreveu papers.
Os professores dispensados, com mais de 35 anos de experiência, tinham escritório de engenharia respeitado e prestavam consultaria. E, obviamente, ensinavam em tempo parcial, pois não poderiam abandonar sua empresa. Para os alunos, isso é ótimo, assegura que o professor ensina a engenharia que se pratica de verdade. Para o MEC, tempo parcial perde ponto. Não deveria ser o contrário, perder ponto se fosse tempo integral?
Igualmente ausente das políticas públicas é a valorização da competência na sala de aula. É a didática do cotidiano, adquirida com a experiência. No caso, professores consagrados e estimados pelos alunos foram substituídos por jovens que ainda vão aprender a dar aula. Péssimo para os alunos, mas não comove o MEC.
Conversa de corredor na universidade: "Pois é, tiraram nossos engenheirões e os substituíram por 'doutorzecos' que jamais fizeram um muro de arrimo". Quem tem razão, os alunos ou o MEC?
CLAUDIO DE MOURA CASTRO é economista.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Vinte e um, três vezes


Há exatamente um ano, eu quase desabei em emoção ao escrever aqui no Flanar sobre o DIA INTERNACIONAL DA SÍNDROME DE DOWN, e optei por comemorar esta data em 2013 apenas com imagens.
Reproduzo acima um portrait feito pela artista americana Joan Butler Gore, de onde transbordam dois atributos sempre presentes nos olhinhos puxados dos anjos sem asa: o vazio de ego e a plenitude da inocência.
Comemoremos, famílias e amigos dos Down!

segunda-feira, 18 de março de 2013

Discuta em língua estrangeira!


Quer controlar as suas emoções na hora de tomar decisões? Faça-o em idioma estrangeiro!
Há tempos que tenho a convicção de que usar uma segunda língua em situações em que precisamos aguçar a razão, contrapondo-a à emoção, pode ser muito útil numa gama de momentos cruciais de nossas vidas.
Pude testar empiricamente esta ideia no período em que morei fora do Brasil, tanto no aspecto profissional quanto nas relações interpessoais, e acabei por concluir para os meus próprios botões que tendemos a brigar menos, a questionar menos e a evitar conflitos diretos usando este artifício.
Mas era apenas um feeling meu, uma observação livre, e eu jamais havia lido nada a este respeito até a semana passada, quando um link da revista  Mente e Cérebro me levou a uma interessante publicação de autoria de Boaz Keysar, de 2011, no periódico PsychologicalScience.
A princípio, seria intuitivo pensar que as pessoas tomam decisões independentemente de qual língua estejam usando para a comunicação. Keysar e seu grupo da Universidade de Chicago, no entanto, demostraram ser justamente o oposto em seis experimentos.
Portanto, fica a informação de cunho prático: em situações adversas, no trabalho ou na vida pessoal, tente argumentar em língua estrangeira e a chance de obter um maior equilíbrio entre perdas e ganhos aumentará muito.
Just do it!

domingo, 24 de fevereiro de 2013

O milagre da vida


Se há algo que me intriga desde a infância é a origem da vida, especialmente a dos seres humanos.
Sempre tentei entender, mesmo que parcialmente, como seria o mágico momento em que duas células são unidas por vital energia e chegam a desenvolver um novo Homo sapiens sapiens inteirinho a partir daquele ponto.
O estudo da biologia, da química e do catecismo no colégio logo se mostraram insuficientes para responder as minhas básicas perguntas.
Na faculdade continuei sem entender a maioria dos porques, porém logo absorvi a ideia de que somos máquinas biológicas de tal complexidade que precisamos de especialistas para cada sistema dos nossos organismos. Mas novamente fracassaram a embriologia, a genética e até a obstetrícia em me fornecer explicações capazes de apaziguar  a sede desse saber específico.
Bem, acabei por desistir de entender e optei por aceitar a origem da vida como algo idiopático. Um milagre biológico!
E tudo isso veio a tona em minha mente com a mera notícia do nascimento de um pequeno amigo, rotulado carinhosamente de Fernandinho, ocorrido há dois dias aqui mesmo no planeta Terra, latitude  -23° 32' e 51” e longitude -46° 38' 10”.
O pai, orgulhoso, me informa que ele nasceu chorando vigorosamente e que já é torcedor da Ferrari e de um clube de futebol aqui de Belém, cujo nome prefiro não digitar neste post por uma questão de estética.
Pensei numa maneira de registrar a bandeirada de chegada do Fernandinho de forma digital, torcendo para que no futuro algum cyberarqueólogo descubra esta singela homenagem ao meu amiguinho, pelo qual, apesar de ainda não conhecê-lo pessoalmente, já nutro sentimentos bons e fortes. Quem entende as emoções?!
Deixo então as minhas boas-vindas, em uma língua que certamente será a oficial da futura ciência que chamar-se-á Cyberarqueologia
WELCOME TO THE JUNGLE, LITTLE FERNANDO!

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Com ou sem contraste?


Talvez a imprensa seja sensacionalista porque nós, humanos, definitivamente o somos.
E a notícia da morte de três pacientes por injeção de contraste à base de Gadolíneo (Gd), durante exames de Ressonância Magnética em Campinas, no início da semana, repercutirá por anos a fio.
De agora em diante os pacientes brasileiros dificilmente aceitarão a injeção do dito contraste, mesmo que tal atitude dificulte o diagnóstico de uma gama enorme de patologias, como tumores, processos inflamatórios e doenças degenerativas.
Curiosamente os contrastes a base de Gadolíneo, usados em todo o mundo para otimizar as imagens adquiridas pelo método, são tidos como extremamente seguros, sendo as reações anafiláticas raríssimas (algo entre 1/4.000.000 e 1/50.000.000).
O que aconteceu em Campinas ainda será investigado e muitas possibilidades têm sido aventadas.
Pessoalmente acredito que outra substância tenha sido acondicionada nos frascos, seringas ou mesmo no soro usado para a diluição. Falha humana, de equipamento ou mesmo contaminação proposital não podem ser descartados num raciocínio inicial.
Vejo que o esclarecimento da causa das mortes e a sua divulgação ampla talvez possam minimizar o efeito bombástico causado pelo excesso de sensacionalismo empregado pela mídia neste caso.
Afinal, é muito mais "perigoso" tomar um simples comprimido de um analgésico com dipirona, por exemplo, do que receber uma injeção de gadolíneo.
Mas quem acredita nisso?

Halo de captação de Gd - toxoplasmose cerebral

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Sobre o atendimento às vítimas de Santa Maria-RS

"Mas numa coisa ninguém nos supera: em solidariedade"
Ruy Castro, em: "Escrito em fogo" (30/01/13)

A catástrofe ocorrida no Rio Grande do Sul asfixiou nossas almas. Toda a sociedade civil está mobilizada, seja gestual, seja sentimentalmente.
Um dos elementos gestuais é a abordagem médica. Houve uma grande mobilização dos profissionais de saúde no RS e da cidade de Porto Alegre, que recebeu muitas vítimas. O SAMU Porto Alegre regulou os fluxos em contato direto com SAMU Santa Maria. Equipes de pré-hospitalar e serviços privados realizaram transportes. Todos de mãos dadas: Hospitais, Secretarias Municipal e Estadual, Governo Federal, Exército, Aeronáutica, Força Nacional e SUS.
Foram 48 pacientes removidos por aeromédico (avião/helicóptero) até a manhã de 28/01. O Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre tem dez doentes internados. Os demais foram Hospital de Clínicas, Cristo Redentor, Nossa Senhora da Conceição e em Canoas. Segundo o Dr. Luciano Silveira Eifler, membro Diretoria da SBAIT (Sociedade Brasileira de para o Atendimento Integrado ao Traumatizado) e coordenador do Núcleo de Educação Permanente (NEP) do SAMU, “foi feito contato com estes hospitais e a SBAIT-RS se colocou à disposição para o que for necessário, transmitindo, inclusive a preocupação e solidariedade provenientes do centro do país e outros Estados, permanecendo os médicos em alerta e mobilizados”. A Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ) também está mobilizada no atendimento das vítimas junto com muitas instituições e voluntários.
Sabe-se que os médicos estão fazendo um excelente trabalho na transferência e tratamento das vítimas de Queimadura e de Inalação de fumaça (queimadura por monóxido de carbono sobre a via aérea e pulmão), uma complicação de mortalidade elevada. Apesar do número assombroso de casos e da gravidade de cada um, os resultados têm sido animadores. Até o momento apenas um caso foi a óbito (2%), devido à queimadura de 70% da pele (nesses a mortalidade é próxima de 100%). Por sua vez, sabe-se que alguns pacientes já estão em “desmame” da ventilação mecânica e com possibilidade de breve alta da UTI.
Mas essa questão gestual foi mais além. O Dr. Luciano Eifler, da diretoria da SBAIT-RS, na tarde desta quarta-feira, propôs utilizar a rede de cooperação via telemedicina em que participam diferentes centros (inclusive Belém, Hospital Barros Barreto - UFPA), com o apoio da SBAIT, Universidade de Miami e Sociedade Panamericana de Trauma. Dessa maneira ocorreu uma teleconferência numa rede formada entre Miami e Unicamp. Foi nessa quarta feira, 30/01, às 15:00h.
Os hospitais de Porto Alegre apresentaram alguns casos mais complicados, inclusive para troca de experiências com serviços do Brasil e exterior (Universidade de Miami, Universidade da Califórnia, San Diego -UCSD e Universidade de Toronto). A discussão foi predominantemente em português. Alguns estrangeiros, conforme a contribuição, usaram a língua inglesa.
Nesta sexta-feira, às 10h local, nova discussão será aberta via telemedicina, no mesmo local (HUJBB-UFPA). O grupo gaúcho mostrará alguns casos que estão revertendo em sucesso. Nós daqui podemos até contribuir, porém o que mais nos motiva é o que temos para aprender.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Cérebros e mapas


O século 16 foi o período da nossa história mais sulcado por embarcações que tinham a missão de reconhecer o mundo e de mapeá-lo para o nosso entendimento e deleite.
Naquele tempo os oceanos eram (e ainda permanecem) fontes inesgotáveis de surpresas, e começaram a confirmar uma forte suspeita de que a complexidade do mundo é tal que não devemos ousar nos aproximar dos seus fundamentos.
Séculos se passaram e nos arriscamos, mesmo sem ainda conhecermos sequer o fundo dos mesmos oceanos singrados pelos nosso antepassados, a romper essa ilha de trevas, de desconhecimento e de inércia na qual não nos conformamos em viver.
E, com todo o respeito à física quântica e à astrofísica, dissecar o cérebro humano nos seus aspectos morfológicos, neuro-bioquímicos e fisiológicos, me parece ser a tarefa mais importante a ser executada pelo homem neste momento histórico.
Os potenciais de exploração cerebral só não são maiores do que os riscos envolvidos em se arranhar profundamente a ética e a moral. Afinal, manipular cirúrgica- e/ou quimicamente o córtex normal apenas para angariar informações para a nossa espécie, não é um ato isento de pesadas críticas.
Mas e se houver uma patologia envolvida? Podemos explorar um pouquinho além do propósito inicial da cirurgia, estimulando áreas próximas?
Vou ilustrar com um fato do cenário neurocirúrgico contemporâneo, publicado em periódico idôneo e reverberado mundo afora em congressos específicos na área da Neurocirurgia Funcional.
Há poucos anos, durante procedimento de Neuromodulação (implante de eletrodos no cérebro para posterior estímulo elétrico), visando tratar descargas elétricas anômalas em um paciente portador de um tipo de epilepsia do lobo temporal, houve um pequeno desvio do alvo (região a ser estimulada) e os neurocirurgiões canadenses se depararam com algo inusitado.
Ao se estimular as áreas “erradas” durante a cirurgia (que é feita em grande parte em vigília plena), o paciente relatou lembranças extremamente vívidas de um episódio ocorrido em sua infância, o qual aparentemente era destituído de importância. Houve então uma descrição meticulosa de odores, de cores de objetos, de frases longas ditas por parentes e até de sentimentos experimentados naquele momento  “esquecido” antes do estímulo.
Tudo foi documentado e publicado, e desde então o mesmo grupo passou a ampliar a área de pesquisa, tendo havido relato verbal em um congresso recente de mais seis procedimentos semelhantes, sempre aproveitando cirurgias para epilepsia, e, é claro com o consentimento dos pacientes.
Podemos concluir, leigos ou não, que tudo relacionado à memória está lá, guardado no cérebro. Absolutamente tudo registrado durante as nossas vidas. O problema é como acessar essas informações.
Fica então a pergunta final no ar: se, na fronteira do saber, nem tudo estará dentro de possíveis inteligibilidades, até onde nos levará um punhado de conhecimento que até poucos anos repousava nos braços da ficção científica? Teremos capacidade de compreender o mapa cerebral que apenas começamos a traçar?
O século 16 parece não ter acabado.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Achados e perdidos


“Somos aquilo que lembramos.”

“Somos aquilo que lembramos e aquilo que esquecemos.”
(releitura feita por Ivan Izquierdo)


Pouco entendemos sobre o real mecanismo pelo qual adquirimos e armazenamos as informações, e muito menos sobre como realmente as perdemos.
Se esquecer é essencialmente  tão importante quanto lembrar como parece (e é!), me pergunto se a indústria farmacêutica não investirá num futuro breve em remédios para apagar memórias, talvez com a mesma sofreguidão quer o faz para desenvolver substâncias que as preservem.
A seletividade do quanto e do que poderá ser deletado talvez dê início ao processo de desconstrução verdadeira da essência do ser humano: a humanidade.
Mas, quem se importará, se lucrativo for?!
Quem viver, verá. 
Quem viver, verá, mas talvez não lembrará.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O álcool e a criatividade

Modest Mussorgsky

A genialidade e o consumo exagerado de bebidas alcóolicas frequentemente se encontram em algum ponto da vida de artistas, pensadores, cientistas e mesmo de profissionais como médicos, advogados, empresários, engenheiros e professores.
O álcool, se ingerido em pequenas doses, aproxima as pessoas e as desinibe e talvez por isso tenha sido tradicionalmente um companheiro do homem em sua trajetória social desde tempos remotos. Quando utilizado como um hábito, no entanto, pode levar o usuário à obrigação de consumi-lo com frequência crescente, trazendo à tona seu enorme poder destruidor, inclusive através da devastação da capacidade criativa. Como então definir o ponto exato do início de sua nocividade e como rotular o usuário?
Em termos etimológicos, alcóolatra seria a pessoa que adora a bebida, e não necessariamente um viciado, um doente. Encaixa-se aqui a figura do colecionador de bebidas, por exemplo. Alcoolista seria aquele que nutre simpatia pelo álcool, o dito “bebedor social”, e alcoólico seria o verbete mais adequado para caracterizar o doente por abuso desta substância, aquele que é realmente dependente do álcool, ou seja, a pessoa que perdeu a capacidade de se abster do uso da bebida.
O primeiro nome que me vem à cabeça quando penso em um artista influenciado e/ou destruído pelo álcool é o do compositor russo Modest Mussorgsky, autor da famosa (e belíssima) ópera Boris Godunov (1870).
Aos 35 anos, Mussorgsky já assumia ser um bebedor inveterado, e era comumente encontrado caído pelas ruas de Moscou, como um mendigo. As suas composições passaram a ficar em grande parte incompletas, graças à interrupção do processo criativo pela intoxicação alcoólica.
Até os retratos do músico não escondem os sinais do vício, revelando um fácies típico dos alcoólicos, edemaciado e com o nariz avermelhado.
Além de Boris Godunov, sua música Noite no Monte Calvo ficou muito conhecida através do desenho Fantasia, de Walt Disney, assim como a releitura de Quadros de uma Exposição, feita nos anos 1970 pelo grupo inglês de rock progressivo, Emerson, Lake & Palmer.
Mas como impedir a transformação de um alcoolista em um alcoólico, evitando assim a destruição social e profissional de uma pessoa?
Parece não haver uma só resposta, pois a complexidade do tema envolve fatores genéticos, ambientais e psicológicos.
Nós, humanos, temos prazer em beber e tal pode ser cultuado sem culpa, desde que os nossos cérebros saibam nos fazer parar alguns passos antes da intoxicação.
Saúde!

sábado, 14 de julho de 2012

Transtorno de humor e experiência criativa


A relação entre doenças tipo Transtorno Bipolar e arte sempre me fascinou.
Considerando que os transtornos de humor (depressão e mania), em surtos, são experiências extremas para todas as pessoas por eles acometidas, assim como para as suas famílias e amigos, é de se presumir que estes episódios possam ter um papel importante na capacidade criativa de um grande artista.
Em contra-partida, se os estados francos de mania ou depressão são praticamente incompatíveis com pensamentos ou ações eficazes, eu imagino que uma certa "dose" de patologia num momento preciso da vida do artista seja o "toque de gênio" para o insight criativo.
A lista de "pacientes-artistas" (supostamente) acometidos por transtorno grave de humor é extensa, segundo o livro Touched With Fire (New York Free Press, 1991), da psiquiatra americana Kay Redfield Jamison, autoridade mundial nesta doença.
Dentre os escritores, destacam-se Andersen, Balzac, Mark Twain, Dickens, Emerson, Faulkner, Scott Fitzgerald, Hemingway, Hermann Hesse, Mary Shelley, Robert Louis Stevenson, Tolstoy, Edgar Allan Poe, Dylan Thomas, Walt Whitman, Baudelaire, William Blake, Lord Byron, Emily Dickinson, T. S. Eliot, Victor Hugo, Robert Lowell e Mayakovsky, entre dezenas de outros.
Na música, os casos mais famosos são os de Robert Schumann (vide Schumann e a Psicose, aqui no blog), Mussorgsky, Handel e Hector Berlioz, e nas artes plásticas também há nomes importantíssimos para a história da humanidade, tais como Michelangelo Buonarroti, Paul Gauguin, Van Gogh, Pollock e Edward Munch.
Muitos dos mencionados acima estiveram internados em instituições psiquiátricas, tentaram o suicídio ou mesmo tiveram êxito em cometê-lo.
A pergunta que insiste em assolar o meu pensamento é: se os artistas em questão tivessem sido adequadamente tratados, quantas obras-primas o mundo teria deixado de conhecer?

domingo, 8 de julho de 2012

Salinâmbulo


Será obrigatório o uso de óculos em enterros, no município paraense de Salinópolis?
Em caso afirmativo, pelo falecido e/ou pelos demais presentes?
Tratar-se-á de mais um caso da ilegal (e muito habitual) venda casada?
Alguém conhece ou ouviu falar de uma instituição comercial similar?

PS: o título da postagem é inspirado no blog Belenâmbulo, do nosso cybercolleague Wagner.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Para cérebros curiosos


O cenário londrino de museus é sempre movimentado, com um fluxo constante de exposições e de eventos de destaque mundial, englobando os mais variados ramos da atividade humana.
No interessantíssimo Wellcome Collection, próximo à estação de metrô Euston Square, encontra-se em andamento a mostra Brains: the mind as matter, cuja versão disponível on-line nos dá uma boa ideia dos aspectos médicos, científicos, culturais e tecnológicos envolvidos no estudo deste órgão único, misterioso e inspirador, o cérebro.
As mentes curiosas não podem deixar de passear por esta verdadeira república de imagens, palavras e vídeos sobre o cérebro, a maravilhosa estrutura orgânica que nos comanda.
Imperdível!

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Prevenção da AIDS


A liberação pelo FDA do medicamento Truvada, uma combinação poderosa de dois anti-virais (Tenofovir/Emtricitabina),  para uso em grupos de risco de AIDS com o objetivo de prevenir a infecção pelo vírus, parece finalmente estar por um fio.
Em poucos dias ou semanas espera-se que seja dada a autorização oficial pelo órgão americano regulador da saúde para que o medicamento seja usado na dose de 1 comprimido/dia por pessoas saudáveis.
As pessoas que trabalham em hospitais de referência para o tratamento da doença e os casais com um dos parceiros infectados pelo HIV deverão ter prioridade no acesso ao medicamento.
Os efeitos colaterais não são poucos e nem desprezíveis (diarreia, tonturas, náuseas e vômitos), o custo é elevado e a proteção parece ser menor para as mulheres, mas já será um bom começo, uma tímida aurora na luta profilática contra este poderoso inimigo.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Escolhendo sabiamente


A campanha Choosing Wisely, desencadeada em dezembro último por várias associações médicas americanas com o objetivo de conscientizar médicos e pacientes sobre o excesso de exames solicitados e feitos, culminou com o lançamento ontem de uma lista de 45 exames que devem ser pedidos com menor frequência.
Em breve mais 40 exames serão acrescentados à lista, a qual pode ser consultada no próprio site da campanha.
Como médico e prestador de serviços aos planos de saúde, vejo claramente boa fé na ideia original, assim como má fé na maneira como a mesma pode ser executada.
É indiscutível que a moderna medicina dispõe de instrumentos precisos e muitas vezes caros de diagnóstico à disposição do médico responsável por conduzir a propedêutica e ulterior terapêutica de um paciente.
Também não é difícil presumir que a auto-referência e/ou os interesses financeiros ocultos possam levar facilmente ao sobre-diagnóstico, com ênfase à solicitação de exames rentáveis e talvez desnecessários, que venham a gerar consequentemente tratamentos desnecessários.
A dura restrição aos exames pode induzir o médico a deixar de solicitar o que é necessário, ficando passível inclusive de penalidades legais pelo seu ato.
A "central de boatos" indica há algum tempo que um grande plano de saúde atuante em nossa cidade estaria prestes a remunerar os médicos credenciados com uma tabela inversamente proporcional ao gasto em exames por ele gerado. Quem pedisse menos exames, receberia um coeficiente de honorários maior do que aquele de maior "sinistralidade". O recado embutido no boato parece ser o seguinte: peçam menos exames, ou receberão menos do que os seus colegas "bonzinhos"!
Acho eu que essa hipotética situação caracterizaria uma forma de assédio ou mesmo de abuso moral.
A saída parece ser o equilíbrio e o bom senso na dose de utilização da caneta para pedir exames, não esquecendo que enquanto tudo dá certo, o médico é o herói, mas quando algo vai mal, porque "ele deixou de pedir tal exame", qual a cabeça que rola primeiro?

domingo, 1 de abril de 2012

Mal de Azar

Foto: Tom Dib

Maguila, o boxeador brasileiro aposentado, sempre nos divertiu com seus comentários bem próprios e muitas vezes absurdos.
A notícia veiculada há 2 anos de que ele seria portador da Doença de Alzheimer de certa forma o silenciou, interrompendo inclusive uma nova carreira, a de sambista (?!!).
Pois hoje o nosso Maguila, aquele que ousou subir no ringue com (ou melhor, contra) Evander Holyfield e George Foreman, revelou em entrevista ao UOL Esporte que não toma os remédios para combater o mal, e que também é contra o UFC.
Leia alguns fragmentos abaixo:

“Para mim, aquilo é briga de rua. O cara joga o outro no chão e bate até sangrar. Se o juiz não separar, mata o cara” (sobre o UFC)

“Não tem nada de Mal de Azar [Alzheimer]. Minha mãe morreu com 89 anos com Mal de Azar, e todas as irmãs dela têm Mal de Azar. Vai morrer tudo com isso. Eu estou bem, graças a Deus. Eu tenho é muita safadeza” (sobre a doença)

Para mim, a entrevista deixou bem claro que Maguila faz falta ao Brasil.
E muita!

quinta-feira, 22 de março de 2012

O fim da calvície?


Imagem: Kendyl

A boa notícia para os carecas chegou hoje da Pensilvânia, via BBC Brasil: identificada forte pista biológica para a calvície.
A chave da gênese da desagradável falta de cabelo na cabeça estaria na proteína prostaglandina D sintetase, presente em grande quantidade nas células dos folículos capilares das áreas calvas.
Agora é só achar como bloquear o receptor da dita proteína nas células, para pelo menos retardar o avanço da calvície.
Pede-se calma aos milhões de carecas mundo afora, pois quem sabe em poucos anos o remédio estará nas prateleiras das farmácias.

quarta-feira, 21 de março de 2012

3 vezes 21



Hoje é o Dia Internacional da Síndrome de Down e desde cedo venho lendo e assistindo matérias sobre a inclusão dos portadores nas escolas e sobre rapazes e moças com a síndrome que chegam à universidade e ao mercado de trabalho.
Como irmão de um Down, aliás o mais bonito e meigo que jamais vi, acabei ficando um pouco ressentido com o foco excessivo nas exceções e a falta de menções sobre a regra.
O dia-a-dia de um Down e de sua família não é tão fácil quanto o de todo mundo, pois as dificuldades e os obstáculos tornam-se mais íngremes e o olhar velado do preconceito ainda mina no caminho do cotidiano. As preocupações conscientes e inconscientes jamais abandonam as mentes de seus pais e parentes.
A grande maioria não consegue se alfabetizar, não importa qual a metodologia empregada, por um limite neurológico, assim como a possibilidade de uma vida independente é extremamente remota.
O aprendizado se faz por repetição exaustiva e a estrutura familiar é a base de todo o psiquismo de um Down.
Aliás, hoje deveria ser comemorado também o dia das famílias dos portadores da Síndrome de Down, grupos de pessoas abençoadas pela chance de convivência com anjos sem asas e de olhinhos puxados.