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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Retomar armas e território

Trecho final do ótimo texto de Paulo Henrique Amorim, Não é sobre drogas. É sobre território e armas, estúpido, sobre a retomada do morro do Alemão.

Teleférico do Morro do Alemão (Imagem: Conversa Afiada)

O Obama manda no Bronx. No Bronx não tem traficante armado, pronto para enfrentar a polícia e Nova York.
Mas, tem muito mauricinho que cheira. Como em todo lugar do mundo. Só na elite branca de São Paulo é que ninguém cheira nem faz aborto.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Calçada É Saúde

Minha sogra, 70 anos, machucou-se bastante quando caiu às 19 horas de hoje, na calçada em frente a farmácia Big Ben, na Praça Bastista Campos (Belém-Pará). Felizmente não há gravidade nas contusões e ferimentos que sofreu.
Que o desgoverno municipal não cuide da conservação das vias públicas, da saúde e da própria cidade qualquer um que more ou visite Belém sabe. Que aquela rede de farmácias não zele pela calçada onde seus consumidores transitam diariamente é um desaforo, e dá a medida da falta de urbanidade, empresarial inclusive, que ultimamente tem prosperado na cidade do já teve dias melhores.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Cadeado em porta arrombada

Precisou morrer mais um para que a PM viesse à rua. As esquinas do Umarizal, caminhos pelos quais passo todos os dias, estão lotadas de policiais militares em duplas, de moto ou a pé. Dizem que é a resposta à chamada que a governadora Ana Júlia deu ontem à cúpula da (in)Segurança Pública.

Sem planejamento e ações mais profundas, porém, o máximo que vai acontecer é um pequeno amansamento das condições vigentes. E depois da casa arrombada, alguém acredita que este planejamento virá?

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O direito de morrer velho

Qualquer pessoa, em sã consciência, deseja viver muito. Morrer velho é a aspiração certa de todos.

Para isso, é preciso ter saúde, alimentar-se direito, zelar por si mesmo e ter sorte, ao final das contas.

Uma grande parte da responsabilidade de se alcançar este fim, evidentemente, é nossa; mas desde que saímos das cavernas e adotamos formas gregárias de viver, criamos mecanismos de proteção que vão além da mera auto-defesa. O Estado, ou qualquer outra forma de organização humana, é o encarregado de prover a proteção da vida daqueles que vivem sob suas leis ou regras. É assim desde tempos imemoriais.

Em nosso rincão, porém, esta obrigação não vem sendo cumprida. Morreu mais um ontem, que não chegou nem perto da terceira idade. Com 30 e poucos anos, o advogado Marcelo Castelo Branco Iúdice foi mais uma vítima da violência que assola o Estado.

Marcelo não era meu amigo. Era o que se convenciona chamar de “conhecido”, alguém com quem não se tem intimidade, mas cujo rosto é familiar pelos contatos frequentes. Cumprimentava-o sempre no fórum, em reuniões de classe, em restaurantes, em encontros de advogados. Era ainda muito jovem, e de aparência jovial. É mais um a quem o Estado negou o direito de morrer velho.

Ontem ele, anteontem um médico renomado de 54 anos, um pouco antes um sociólogo e blogueiro de pouco mais de 40. Tantos outros já foram vítimas, em bairros centrais ou periféricos. Nada disso abala a sonolência dos órgãos de Segurança Pública. Se antes a sensação era de insegurança, nas infelizes palavras de um ex-governador, hoje ela é de completo abandono. Vivemos o verdadeiro faroeste caboclo, sem apelo a ninguém e sem consolo – afinal, a morte não tem meio-termo, como dizia o poeta Cacaso.

Enquanto isso, em boa parte da capital, o ódio e o desalento da população alimentam novos criminosos, criados na forma de justiceiros. Retornamos ao tempo da auto-defesa, sob o olhar placidamente bovino da Administração Pública.

Cuidado, meus amigos. Previnam-se de todas as formas possíveis. A Grande Ceifadora tem brandido sua foice próxima a nossas cabeças, todos os dias, em todos os cantos. Estamos comprovadamente sós.

Só não podemos fomentar a sede de vingança privada. Somos humanos e, portanto, maiores que este conceito irracional. O Estado é quem deve cumprir sua parte. Cabe a nós chamá-lo à razão.

Lamento, por fim, iniciar o ano produzindo uma postagem destas. É mais um direito que o Estado nos nega: o da alegria.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Perigo já chegou a "bucólica"

Infelizmente, Mosqueiro não está mais incólume a onda de violência que assola a região metropolitana de Belém. E aqui vai um solene aviso aos corredores e praticantes de caminhadas, que adotam a beira mar para este saudável exercício físico, especialmente se estiverem portando seus mp3 players.
Na semana passada, um destes corredores foi assaltado e esfaqueado por dois rapazes que o abordaram em uma bicicleta. Segundo informações, a vítima teria falecido em decorrência dos ferimentos.
Portanto, estejam atentos e avisados.
Que lástima!

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Fogo contra Fogo

Na ótima película de Michael Mann, Robert De Niro e Al Pacino são profissionais gabaritados que lutam para vencer um ao outro, em um jogo de gato e rato. O filme coloca na mira policiais e bandidos em lados opostos, como é normal que seja. O Neil McCauley de De Niro não é um bandido qualquer; é um PhD do crime.

Na versão nacional e real de Fogo contra Fogo, bandidos e mocinhos deveriam estar do mesmo lado. A cena do assalto a banco e tiroteio no centro de Los Angeles (uma das mais espetaculares e tensas do cinema norte-americano) transferiu-se da ficção para a realidade das ruas de São Paulo, onde policiais civis e militares se confrontaram ontem, em decorrência da greve dos primeiros. Entre as corporações, a população, aterrorizada.

Em nenhum lugar do país se pode falar em ilhas de segurança. Se há exceções ao caos da segurança pública que há tempos se instaurou no Brasil, desconheço-as. Em São Paulo, especialmente, os governos tucanos esmeraram-se em tornar a cidade o paraíso da violência: PCC, FEBEM, grupos de extermínio e, agora, confronto entre policiais. José Serra, para variar, não admite seus erros; coloca-os na conta dos chamados atos políticos.

Evidentemente, este privilégio não é peessedebista. Por aqui, passamos da sensação tucana para a certeza petista da insegurança. Em que pese, agora, haver visivelmente mais PM's nas ruas da capital, as estatísticas de crimes não parecem diminuir.

Todos clamamos, amedrontados, por poder andar despreocupados pelas vias da cidade. O Estado ainda parece fazer ouvidos moucos. É "o horror, o horror", como diria o General Kurtz.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Os loucos de duas rodas

Já tive moto e não me lembro de ter tido maiores problemas conduzindo o veículo que é vendido na embalagem especialmente preparada pelos marketeiros como "sensação de liberdade", "contato com a natureza"... A realidade das ruas e estradas é muito diferente desse mundo idílico de 30'' de comercial de televisão.

Em primeiro lugar gostaria muitíssimo que o Detran divulgasse a média de autuação de motoqueiros em Belém. Em Brasília ela é dia 25 motociclistas que trafegam em locais proibidos, como calçadas, canteiros e jardins. Ao cortar caminho, os condutores colocam a vida de pedestres em risco.

Infração gravíssima sobre duas rodas é o cotidiano dos grandes centros e de cidades de porte médio no interior. Com a chegada de concorrentes asiáticos o preço de uma moto popular despencou e hoje é possível adquirir o veículo por até R$ 3.500,00 à vista para um modelo 125 Cc.

Somo obrigados a ver todos os dias Na EPTG, os motoqueiros atravessarem o canteiro em um retorno improvisado para entrar em uma das vias de acessos ao SIA. Duas das prinicipais vias do DF para ir ao trabalho por motoristas que moram nas cidades satélites.

No meu caso é ainda pior.

As supermotos dos moradores do Lago Sul apontam no retrovisor e passam como um raio tirando fino dos retrovisores dos carros. Uma afronta diária em que não se tem a quem recorrer.

Andar pela calçada não é sinônimo de proteção contra atropelamentos em Brasília. Mesmo em passeios afastados das vias, o pedestre precisa dividir o espaço com motociclistas que preferem cometer uma infração de trânsito gravíssima a fazer o caminho mais longo. O Detran tenta coibir a prática e aplica, em média, 25 multas de R$ 574 por dia, mas os infratores não desistem e colocam adultos e crianças em perigo.

Em vários pardais, as motos, devido a curta distância entre eixos e peso infinitamente menor que o dos carros, passam acima da velocidade permitida para o techo e não são detectados. Resultado: impunidade e estímulo à prática de mais loucuras.

No Plano Piloto, segundo reportagem hoje do jornal Correio Braziliense, o problema é maior nas quadras em que a ligação direta é fechada — na W1, entre as quadras 100 e 300, ou na L1, entre as quadras 200 e 400. Na manhã de 22 de setembro, o Correio passou uma hora na 304/104 Sul, onde há uma escola de educação infantil. A reportagem presenciou mais de 10 motos passando pela calçada ou pelo gramado. A presença de pedestres, mesmo crianças pequenas acompanhadas dos pais, não intimida os condutores, que chegam a expulsar pessoas das calçadas.

Não é apenas quem usa a moto como profissão — os motoboys — que desrespeita a lei. Nos flagrantes feitos pela reportagem, há até mais motos usadas apenas como meio de transporte do que como veículos de entrega. Mas até funcionários de empresas públicas, como os Correios, ignoram o Código de Trânsito Brasileiro, que prevê sete pontos na carteira do infrator, além da multa.

O que diz a lei
Motos e carros não podem transitar fora das vias construídas para esse fim. O Artigo 193 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) considera gravíssima a infração de quem passa com veículos sobre calçadas, passeios, passarelas, ciclovias, ciclofaixas, ilhas, refúgios, ajardinamentos, canteiros centrais ou divisores de pista de rolamento, acostamentos, marcas de canalização, gramados e jardins públicos. Além da multa de R$ 574, o motorista ganha sete pontos na carteira de habilitação.

A minha queixa basicamente é contra o próprio Detran que deveria coibir essa esculambação e pouco faz.

Para ilustrar, o dinheiro arrecado Detran-DF com multas em julho deste ano foi o maior dos últimos 18 meses: R$ 8.576.855. O balanço divulgado pela primeira vez no site do órgão revela uma tendência de aumento. Desde abril, a receita cresceu entre 3,56% e 26,53%. De janeiro a julho, as multas renderam aos cofres R$ 54.728.855. A média é de R$ 256.942 por dia. O equivalente a um apartamento de dois quartos no Sudoeste econômico, um dos locais mais valorizados de Brasília.

Somente em junho e julho, foram R$ 2,8 milhões a mais nos cofres em comparação com o mesmo período de 2007. A decisão de colocar mais homens nas ruas ocorreu depois que as mortes no trânsito bateram recordes em abril: 56 vítimas. O pior número de abril dos últimos 11 anos.

Agora pasmem! Do total arrecadado, apenas 3,52%, ou R$ 1.872.471, são destinados exclusivamente para a educação no trânsito, obrigatório por lei para esse fim.

Transparência
Ao tornar público quanto arrecada com multas e onde o recurso é aplicado, o Detran-DF se antecipou à exigência do Projeto de Lei Complementar nº 767, apelidado informalmente de “emenda do multômetro”. A proposta é da bancada do PT na Câmara Legislativa e prevê que os dados sejam publicados a cada três meses, no Diário Oficial do DF e na internet. Projeto semelhante poderia ser apresentado pelos deputados estaduais do Pará. Mas, há interesse em mexer na caixa-preta das multas do Detran paraense?

O demonstrativo deve especificar ainda o mês e o ano, os valores totais da receita, as multas separadas por região administrativa, a tipificação da infração (gravíssima, grave, média ou leve), o horário de aplicação da multa e o órgão arrecadador. O objetivo, segundo o deputado Cabo Patrício, líder do PT na Câmara, é por um fim à “caixa-preta das multas”.

Uma perguntinha para finalizar. Você já viu alguma ação educativa ou de prevenção de acidentes assinada pelo Detran — qualquer Detran — daqui ou dacolá, que não seja na Semana Nacional de Trânsito?

Eis uma questão que renderia ótimas reportagens para os jornais. Por que não as fazem?

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Um patrulheiro diferente para sua casa ou escritório



Se você possui um ponto de acesso ou rotedor wireless em sua casa, já sabe das maravilhas que esta tecnologia pode fazer. Acessar a web de qualquer ponto da casa sem a necessidade de fios, por si só, é quase mágica.
Pois saiba que a tecnologia wireless pode fazer muito mais por você.
Conheça então o WowWee Rovio. Um "patrulheiro" eletrônico, que vigia sua casa com áudio e vídeo 24 h. Ele passeia pela casa na sua ausência e em caso de invasão, avisa através de e-mail.
Para tanto, possui uma antena para conexão wireless ao seu roteador.
Ele também carrega sua bateria automaticamente. E como ele faz isso? Ao detectar que sua bateria atingiu níveis críticos, encaminha-se sozinho a uma espécie de dock station (algo como uma garagem bem pequena) acoplando-se aos terminais elétricos, lá permanecendo até carga completa de sua bateria, retomando o patrulhamento. Suas habilidades são grandes. Vale a pena saber mais sobre o pequeno robô.
Veja aqui algumas fotografias. Aqui um video do You Tube.
E aqui, uma visita ao sítio da empresa que o fabrica.

sábado, 13 de setembro de 2008

Pardais... Araras... Sempre Alertas!

O Globo faz uma enquete quanto a se desligarem os equipamentos eletrônicos de controle da velocidade à noite, em razão de proteger o patrimônio e a integridade física dos motoristas. A conseqüência óbvia é dar sinal verde para os chamados "pegas" urbanos, outra forma de criminalidade resultado dos devaneios sonhados por mauricinhos, que imaginam-se pilotos imbatíveis de Fórmula-1 em tempo e lugar completamente equivocados.
A questão proposta é uma falsa questão, para não dizê-la burra. Na verdade, para os cidadãos e seus patrimônios serem protegidos, basta acordar dos quartéis a polícia, pondo-a de prontidão nas imediações dos pardais ou araras após as 21 horas. Com esta medida coibem-se assaltos, sequestros, latrocínios, estupros e atentados violento a pudor, e ainda garante-se que ninguém seja atropelado, politraumatizado e mesmo morto em razão de colisões por avanço no sinal vermelho 0u excesso de velocidade. E ponto final.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Operações policiais

Agora há pouco, este poster, à caminho de casa, teve a oportunidade de assistir a ao menos 2 operações policiais em bairros distintos de Belém. Uma do BOPE no Guamá e outra da PM no Jurunas, às proximidades do shopping Iguatemi. Ambas, envolviam abordagem de ônibus, por coincidência ou não, da mesma empresa. Todas, com policiais fortemente armados e quase simultâneas.
Ao menos, vi a polícia nas ruas. Coisa que não via há algum tempo e não sei se continuarei a ver na sequência. Espero sinceramente que sim.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Contrastes e matizes

Enquanto no post Surpresas em NYC, fica claro que naquela cidade americana pode-se circular livremente pela cidade usando sua câmera digital, por aqui - e isto não é nenhuma surpresa - pense apenas 1 vez antes de fazê-lo. Andar com traquitanas penduradas no pescoço em Belém, é um ato de loucura.
Veja o que aconteceu com este cidadão, segundo o Repórter Diário.

O jornalista e antropólogo Eduardo Fenianos, o “Urbenauta”, que faz uma espécie de giro nacional, foi roubado anteontem, enquanto fotografava ruas de Belém. Além de sua câmera fotográfica, levaram também o aparelho GPS.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Um novo Rio de Janeiro

Quando sediou a Eco 92, o Rio de Janeiro foi invadido pelas Forças Armadas, que mantiveram os participantes da Cúpula das Nações Unidas sob segurança. Posteriormente, porém, o caos retomou seu espaço e hoje o descalabro da violência é o que se vê todos os dias, nos noticiários sobre a Cidade Maravilhosa.

Belém, por sua vez, iniciou as discussões a respeito do projeto de segurança para os mais 80 mil visitantes que, estima-se, acorrerão à cidade para participar do Fórum Social Mundial, no início do ano que vem. O Repórter Diário de hoje aponta investimentos no setor de 49 milhões de reais, "visando proteger a demanda suplementar".

Pergunto: e a demanda originária, como fica? Respondo: fica como o menino Gilberto, que morreu anteontem, vítima de um assalto nas imediações do Colégio Universo, em um bairro central de Belém.

Aparentemente, a solução carioca será adotada por aqui. Não haverá combate consistente ao crime, com o intuito de tornar Belém uma cidade segura. Haverá, isto sim, maquiagem, para esconder as crateras de deficiência e incompetência de onde emerge a violência que toma, a cada dia mais, as ruas da capital.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Ó Paí Ó

Só lhes falta o céu cair sobre a cabeça. Não bastasse a história pútrida do conluio entre militares e traficantes cariocas, que resultou na execução de três jovens, o Rio de Janeiro pede mais desgraça. As tais milícias que dividem o controle dos morros desceu para o asfalto. Em várias ruas de Copacabana a segurança é feita por elas, por meio de empresas, com o apoio dos condomínios. Moradores que discordam têm medo de não contribuir e sofrer conseqüências. É o Estado desmilinguindo-se.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Prisão principesca

Em uma história ficcional, o sítio Migalhas descreve detalhes e apresenta fotos da prisão onde
atualmente está encarcerado o ex-banqueiro Salvatore Cacciola. O relato é muito instrutivo, principalmente para os habitantes de um país onde a Administração Pública gere cárceres como o da delegacia de polícia de Vigia, no nordeste do Estado, cuja interdição foi requerida hoje à Justiça pelo Ministério Público Estadual.

O relato do Migalhas pode ser lido aqui.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Violência e a Igreja Católica - II

Em comentário ao post Violência e a Igreja Católica, Oliver, articulista do Flanar, apresenta uma lúcida e bem fundada contribuição ao debate. Vale a pena a leitura.

Usarei de um jargão de gestão para explicar meu pensamento sobre o assunto, com as escusas necessárias e justificadas pois não sou exatamente um católico, em que pese ter recebido o sacramento batismal.

Penso que a Igreja Católica tem buscado inserir a questão da violência na agenda do catolicismo nacional, mas tem tido inegável insucesso em tornar efetiva local e regionalmente essa agenda.


Por exemplo, quando avaliamos a linha do tempo das Campanhas da Fraternidade observamos claramente a preocupação da CNBB com respeito à questão da violência entre nós. De forma mais ou menos explícita, declarada ou por inferência, podemos identificar a claríssima preocupação com a violência em suas diferentes expressões sociais:


1983 - Tema: Fraternidade e Violência/ Lema: Fraternidade sim, violência não

1984 - Tema: Fraternidade e Vida/ Lema: Para que todos tenham Vida
1985 - Tema: Fraternidade e fome/ Lema: Pão para quem tem fome
1986 - Tema: Fraternidade e Terra/Lema:Terra de Deus, terra de irmãos
1987 - Tema: Fraternidade e o menor/ Lema: Quem acolhe o menor, a Mim acolhe
1990 - Tema: Fraternidade e a Mulher/ Lema: Mulher e homem a imagem de Deus
1996 - Tema:A Fraternidade e os Encarcerados/ Lema: Cristo liberta de todas as prisões.
2001 - Tema e lema: Vida sim, drogas não!
2008 - Tema: Fraternidade e defesa da vida/ Lema: Escolhe, pois a vida.
2009 - Tema: Fraternidade e Segurança Pública/ Lema: A paz é fruto da justiça.

Então o que falta em 25 anos de Campanha de Fraternidade, para que a mais antiga instituição religiosa do país, que se confunde com o próprio achamento dele, possa imprimir uma presença mais efetiva no combate a violência no país, considerando os marcos lógicos estabelecidos claramente nos concílios da CNBB?


Três hipóteses combinadas: o progressivo combate a partir dos anos 80, intra-institucional contra o grupo de religiosos adeptos da Teologia da Libertação (os padres-melancias, como pejorativamente os chamava o colunista Ibrahim Sued: verdes por fora, vermelhos por dentro), pregadores de um socialismo cristão à esquerda, num momento em que o Mundo experimentava as primeiras modificações do eixo do poder global, de que é símbolo o desmoronamento do bloco socialista europeu e soviético, a glasnost , a democratização da Polônia e a eleição de Carol Wojtila, o extraordninário Papa João Paulo II, para conduzir o realinhamento da Igreja Católica Romana e, last but not least, sua sucessão pelo Cardeal Ratzinguer, religioso claramente identificado com o pensamento mais ortodoxo do catolicismo romano.


Essas questões externas foram para o padroado nacional avassaladoras, se consideramos que estiveram associadas à progressiva e constante precariedade da formação religiosa dos religiosos católicos no país – quanti e qualitativamente -, assim como a um cenário político nacional de progressiva permissividade com a solução de nossos problemas sociais, fato claramente agravado pela onda neoliberal que chegou a nossas praias em um verão que não foi exatamente aquele do Gabeira.


A dicotomia horizontal e vertical entre pensadores estratégicos (Bispos) e pensadores operacionais (Cônegos,Padres,Freiras, Diáconos,etc) quando acirrada a esse ponto, em termos de planejamento estratégico, fazem o projeto se enfraquecer tremendamente no mundo real, tornando-se - com o perdão da palavra, na falta de outra - em caricatura de si próprio. Há, portanto, claramente indícios de que os pactos devem ser revistos, sob risco de perder-se o protagonismo que o rebanho exige de um pastor atencioso.


A análise é pertinente: a iniciativa deixa de ser o problema, já que, efetivamente, as Campanhas da Fraternidade têm reiterado o apelo ao combate à violência; mas, como Oliver bem destacou, a política da Igreja nos países emergentes, principalmente após o realinhamento da instituição com seu viés mais conservador, é de não-interferência nos assuntos de ordem mundana, por assim dizer.

Mas o discurso da Igreja Católica Apostólica Romana continua sendo o da preocupação social. Esta, inclusive, reitero, é corolário da mensagem primeva do Cristianismo. O projeto de atuação não pode ser impedido pela falta de aproximação entre os chamados pensadores estratégicos e os pensadores operacionais.

domingo, 4 de maio de 2008

Violência e a Igreja Católica

Há quase um mês atrás, a defensora pública Vera Ximenes Pontes foi brutalmente assassinada, dentro de sua casa.

Vera, segundo relatos que ouvi de parentes e amigos no velório, era quase paranóica com sua segurança. Atuando na lida diária com criminosos, sempre andava pelas ruas em constante estado de vigilância. Tinha especial cuidado com a entrada de sua residência, cujas portas e gradis mantinha permanentemente fechada.

Na época, as suspeitas imediatas da polícia eram de que o homicídio poderia ter sido praticado por alguém conhecido da defensora. Alguns aspectos da cena do crime - em especial, a inexistência de violação a fechaduras e a atitude sempre cautelosa da vítima - tornaram necessária a assunção desta hipótese.

O fato é que se tratou de mais um crime hediondo praticado em nossa cidade. Houve requintes de crueldade: Vera foi amordaçada, teve os pés amarrados e foi encontrada de bruços, com marcas de estrangulamento. Não foi dada qualquer chance de defesa à vítima. A advogada morava em uma área central de Belém, na Travessa 14 de Abril, em frente ao Hospital Ofir Loyola, no bairro de São Brás.

Dias antes, eu havia tomado conhecimento de outro crime praticado contra pessoas próximas a mim. A irmã de uma advogada de meu escritório e seu namorado foram seqüestrados, às 11 da noite de uma sexta-feira, na porta do restaurante La Traviata, no início da Doca de Souza Franco. Descaradamente, na frente de quantos estavam no estabelecimento àquela hora, o casal foi abordado ao estacionar o carro. Levados, padeceram momentos de terror até que os bandidos os deixassem na frente do Hospital Barros Barreto. Perderam tudo o que portavam no momento, inclusive as malas da menina, que iria viajar na madrugada do dia seguinte.

Além da crítica óbvia ao descalabro da segurança pública, cujo alvo fácil são as autoridades municipais, estaduais e federais, há um componente nestes e em outros muitos crimes, todos recentes – como é o caso da menina Isabella Nardoni – que ultrapassa o caráter burocrático e estatístico do fato: sob o ponto de vista humanístico, é cruel verificar que enquanto a humanidade evolui, sob a perspectiva teórica, na defesa e proteção das garantias individuais, dos direitos humanos e de tudo o que está inserido nestas rubricas (notadamente a tolerância, o respeito ao próximo e a indistinta proteção do direito à vida, sob todas as suas formas), a espécie humana não consegue perder seu componente mais irracional, cunhado na violência.

Se o pensamento evoluiu, o homem em seus atos, ao que parece, não. Certo é que a frase encerra um paradoxo, já que o pensamento deriva de ninguém menos que o próprio homem; mas é inegável que a condição diferencial entre o homem e o animal irracional – a possibilidade de formação de uma cultura, pela acumulação e transmissão de conhecimento de uma geração à outra – vem sendo mitigada pelas ações cada vez mais violentas que o ser humano, em um tempo de tamanho avanço tecnológico, adota contra seu igual, o planeta, o clima.

Tempos atrás, conversando com um amigo cuja prática católica vai além da mera presença em missas dominicais, ouvi dele uma crítica pontual e diferente à Igreja. Superando a crítica sempre lembrada (e até mesmo algo simplista) que reclama da lentidão do Catolicismo em acompanhar as mudanças do mundo, ele aludiu a uma espécie de ausência da Igreja dos movimentos anti-violência, a uma estranha omissão no cumprimento de sua missão primordial, que é de repercutir a lição principal de seu fundador, Jesus Cristo: o amais vos uns aos outros.

Disse-me este amigo que entendia que a Igreja teria esta obrigação de se aproximar dos governos e liderar um movimento, uma verdadeira cruzada humanista. Deveria fazê-lo sem burlar o Estado laico, evidentemente, e até por isso mesmo associando-se a outras instituições religiosas, outros credos, nesta função. Afinal, o ponto comum das religiões, supõe-se, é difundir o altruísmo; estender este aspecto à política seria, evidentemente, um ótimo negócio.

A solução para a segurança pública, além das óbvias (mas não adotadas) ações estatais, está na liderança da sociedade civil por parte dos movimentos religiosos? Não creio. Mas devo concordar que a Igreja Católica, mais popular instituição religiosa do país, está fazendo falta neste debate.

segunda-feira, 24 de março de 2008

De dentro para fora

Não bastassem os índices alarmantes de violência nas ruas da capital e do interior paraoaras, agora o Secretário Geraldo Araújo se depara com uma nova onda de terror, que demonstra a falência do sistema de segurança pública do Estado: cresce assustadoramente o número de fugas de presos de delegacias e seccionais urbanas.

Às condições subumanas das carceragens, soma-se o baixíssimo grau de inviolabilidade das celas paraenses, decorrentes dos mais diversos fatores. Como diria o dito popular, a fome se alia à vontade de comer.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Escuderia Lecoq

Os jornais de hoje, em Belém, repercutem a prisão de 32 envolvidos em um esquadrão da morte que atuava principalmente na periferia da capital e interiores.

O grupo de extermínio era composto principalmente de policiais: nada menos que 13 PMs faziam parte do bando, que, presume-se, está envolvido em vários assassinatos até então não resolvidos, e todos com o mesmo modus operandi: em motocicletas, com capacetes, em dupla, os homicidas aproximavam-se das vítimas e desferiam-lhes tiros a queima-roupa, sem qualquer razão aparente. Não havia latrocínio; pareciam, efetivamente, assassínios encomendados.

Entretanto, esquadrões desta natureza não agem por conta própria. Há financiadores do crime. Certamente a Polícia já sabe disso, e deve prosseguir nas investigações pelos próximos dias, quem sabe meses.

As investigações, de acordo com as reportagens sobre o assunto, vinham sendo realizadas desde o segundo semestre de 2007. O deslanche da operação, porém, lembra muito a prática da Polícia Federal. Talvez seja a primeira mostra do resultado da chamada federalização das polícias no governo estadual, com a participação direta do novo secretário de Segurança Pública, Geraldo Araújo.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Tragédia anunciada

O que ninguém queria aconteceu. No início da tarde, saiu a seguinte notícia na Redação OnLine das ORM:

A Polícia Civil está investigando um assalto seguido de morte ocorrido no bairro da Cremação, na manhã desta quarta-feira(27). Haroldo Luís Pereira Moreira, de aproximadamente 50 anos, foi a vítima mas a polícia ainda está apurando as circunstâncias do crime.

Segundo as primeiras informações divulgadas pela Polícia Civil, o assalto ocorreu por volta das 8h30 da manhã. Quatro bandidos praticaram o crime, mas não se sabe ainda se a vítima foi assassinada por ter reagido.

Durante a ação, o homem foi ferido à bala e levado às pressas para o Pronto Socorro do Guamá, mas não resistiu aos ferimentos e morreu no final da manhã.

Haroldo Luís Pereira Moreira era cunhado de Tuca Carepa, um dos irmãos da Governadora Ana Júlia Carepa.

A Polícia já identificou os quatro assaltantes e faz buscas na área para tentar localizá-los.

Quando se fala na crescente insegurança pública do Estado, neste ou em qualquer outro blog, sempre aparece um comentarista dizendo que a situação só mudará se um familiar de gestor público ou parlamentar for vítima da violência que consome o cidadão comum. Com esta tragédia, não falta mais nada.

Em reunião realizada há 2 semanas com todo seu secretariado, a governadora Ana Júlia solicitou planos de contenção de gastos de todos os auxiliares. O único isentado foi o secretário Geraldo Araújo, da Segurança Pública. Falta, agora, a ação; o orçamento, ao que parece, vai existir.

O plano de segurança falha, porém, pela falta de medidas complementares. Afinal, educação, combate à pobreza, geração de emprego e renda, acesso à cultura e ações de cidadania serão atingidos pelo cutelo palaciano. E, por mais que a galera do prende-e-arrebenta não creia, nenhuma política de segurança pública será efetiva se só se ativer à repressão do crime.

No plano pessoal, solidarizo-me na dor do Tuca, figura humana querida e de uma simpatia que poucos possuem, e de sua família.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Crianças às feras

No domingo passado, foi finalmente identificado e preso André Barbosa, o "Monstro da CEASA", que confessou ser o autor do assassínio de três adolescentes, cujos corpos foram encontrados nas matas que circundam a Central de Abastecimento.

Não quero falar dos crimes em si. Isto, a imprensa sensacionalista já faz. O que quero suscitar é o vínculo pouco sutil, à luz das estatísticas, da associação entre violência e miséria.

Segundo dados da UNICEF, o fundo para a infância da Organização das Nações Unidas, o índice de pobreza da população brasileira é de 27,6%. Entre as crianças, porém, este percentual aumenta para 44%. Além disso, o Ministério da Saúde concluiu, em estudos recentes, que agressões e acidentes domésticos são a maior causa de morte de crianças na primeira infância, isto é, entre 0 e 6 anos, e que 96% dos casos de violência física e 64% dos casos de abuso sexual contra estas mesmas crianças são cometidos por familiares e pessoas próximas.

O caso do assassino das matas da CEASA é exemplar: segundo ele próprio e os parentes das vítimas, que o reconheceram, André Barbosa era próximo das famílias dos menores. Aproveitava esta proximidade para, em confiança, levá-los até o local onde cometia os crimes. Os menores, sem ocupação mais freqüente, sócio-educativa e construtiva que não fosse passar as tardes em lan-houses do bairro do Guamá, onde moravam, eram alvos fáceis de seu algoz.

Além destes, um dado mais amplo joga luz sobre o cenário em que crimes como os cometidos por André são construídos. Julgo imprescindível ter em mente que a população mundial, nos últimos 40 anos, dobrou; já a riqueza mundial aumentou 28 vezes. A existência da pobreza (e seus males associados) em meio a tanta pujança econômica do planeta é uma distorção que, mesmo disfarçada por alguns, não consegue vencer os dados.

É neste cenário que grassa a possibilidade da violência e do crime. Não nasce somente de um click, de um estalo que dá no cerébro de um infeliz, em determinado momento de sua vida, e que o impulsiona a uma vida de desrespeito à vida alheia.

Evidentemente, André terá que pagar, com a mais dura das penas possíveis previstas no Código Penal, pelos crimes cometidos. Porém, o perigo não se esgota com sua prisão. Outros milhares de Andrés, como inúmeros outros tipos de potenciais criminosos, estão prontos para assim se descobrir, ou ainda por nascer.