sábado, 9 de maio de 2026

"The hues and the blues of being happy"

  Porto is a city of splendors. It holds, along the banks of the Douro, that romantic space perfectly suited for celebrating those milestone birthdays ending in a round number — the forties through the nineties. This time, it was my wife's. We celebrated joyfully alongside family, listening to whatever the cobblestones of the Ribeira had to offer that spring evening, the dark river before us and the cheerful chatter of tables full of French tourists behind us. The occasion called for exactly that: a pleasant setting and lively people, both from near and far.

  Seated, savoring a red wine from the Alentejo, she gets up and heads to the restroom. At that precise moment, a flower seller appears before me — I suspect with a little help from Mr. Vasco, a waiter who carries in his mouth the mortal remains of a set of teeth from the days of the Carnation Revolution, yet possessed of an uncommon and genuinely Portuguese warmth that more than compensates for any gap in the dental arch. I bought a splendid pink rose for just a few euros. It was the least the occasion, the river, and the wine were asking for.

  A young blonde woman, fine-featured and lovely, sitting nearby, notices the gesture and hints to her boyfriend that she'd like the same. It didn't take long. He gave her two, in matching pink. The one-upmanship earned a delighted smile from her and a knuckle bump — at the metacarpophalangeal joints, as we say — between him and me, the way people greet each other when they understand without needing words. I said: *clever of you — you took advantage of my opening.*

   We couldn't help but notice his smile. His teeth were entirely disordered, yellowed, and decayed — partly, no doubt, thanks to the pack of cigarettes on the table. After a brief exchange, in which he told us about his trip to São Paulo, we said our goodbyes by the Douro, while he was still drawing in the slow-death tar. I wished him well and suggested he take better care of his health, being so young. A reflex remark from a surgeon — even on holiday, even without a white coat and far from any scalpel.

  Ten or fifteen steps later, I regretted it. I turned back to apologize for having commented on the habit. It was none of my business. Nobody there had asked for a clinical opinion on the banks of the Douro.

 I'm glad I went back. With good humor, the Englishman replied: *Don't worry about it. I was cured of a lymphoma a few years ago, and I've been living with a colostomy since then.* He lifted his jacket and showed us the bag he carries on the left side of his abdomen, a wide support band wrapped around his torso, bearing witness to an abdominal infection. He spoke with a quiet naturalness, the ease of a man who has already made peace with his own body and his own story.

  I walked away carrying a lesson I hadn't expected to take from that evening.

  The regret came before his reply — in those ten or fifteen steps back. The lesson wasn't taught by the Englishman. I had already arrived at it on my own. He merely confirmed, with a disarming grace, what he must have taught so many others before. That says something about what happens when you step out of the role of physician, fold the white coat into your suitcase, and become, simply, a person among many others.

  There is a quiet irony that runs through the whole scene: a man who has spent his life protecting lungs, apologizing to a lymphoma survivor for having brought up the subject of cigarettes. And on top of that, the survivor smiles. Not from indifference to his health, but because he has already negotiated with death in a way that renders any well-meaning advice small — almost naïve — against the scale of what he has already lived through and still carries in his body and his memory. His smile was not denial. It was his own scale of values, forged in chemotherapy and surgery.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

As cores e as dores de ser feliz

Porto é uma cidade de esplendores. Guarda à beira do Douro o espaço romântico próprio para se comemorar aniversários que se enquadrem num desses "entas" — dos quarentas aos noventas. Dessa vez foi o da esposa. Comemoramos de modo prazenteiro ao lado de familiares, ouvindo o que a calçada da Ribeira tinha a oferecer naquela noite primaveresca, com o rio escuro à frente e o tagarelar alegre das mesas cheias de franceses atrás. O aniversário pedia exatamente aquilo: lugar agradável e gente alegre de fora e de casa.

Sentados, degustando um tinto alentejano, ela se levanta e vai à casa de banho. Exatamente nesse momento um florista aparece à frente, acho até que ajudado pelo Sr. Vasco, um garçom que esconde na boca os restos mortais de uma dentição dos tempos da Revolução dos Cravos, mas dotado de uma incomum e genuína simpatia portuguesa que compensa qualquer lacuna na arcada dentária. Comprei uma rosa esplendorosa cor-de-rosa, por raros euros. Era o mínimo que o aniversário, o rio e o vinho pediam.

Uma jovem loura, com rosto fino e bonito, sentada ao lado, vê o gesto e suscita ao namorado a mesma rosa. Não deu outra. Só que ele a presenteou com duas, no mesmo tom. A superação gerou um sorriso encantado dela e uma saudação  com um choque nas articulações metacarpofalangianas entre mim e ele, como fazem os que se entendem sem precisar de palavras. Eu disse: - você é esperto, hein! Aproveitou a minha deixa.

Chamou-nos atenção o sorriso dele. Dentes totalmente desestruturados, amarelados e cariados, em parte por conta da carteira de cigarro sobre a mesa. Após breve diálogo, contando-nos sobre a sua viagem a São Paulo, despedimo-nos à beira do Douro, com ele ainda tragando o alcatrão da morte-lenta. Desejei-lhe boa sorte e disse para ter mais cuidados com a saúde, por ser tão jovem. Um alerta que saiu de forma reflexa para um cirurgião, mesmo em férias, mesmo sem jaleco e longe do bisturi.

Após uns dez ou quinze passos, me arrependi. Retornei para pedir desculpas por ter comentado sobre o vício. Não tenho nada a ver. Ninguém ali pediu uma opinião clínica à beira do Douro. 

Ainda bem que voltei. Com bom humor, o britânico respondeu: Não se preocupe. Já fui curado de um linfoma ha fez anos e estou com uma colostomia. Levantou o casaco e nos mostrou a bolsa que carrega no lado esquerdo do abdômen, com uma imensa faixa de contenção ao redor do tronco, contando a história de uma infecção abdominal. Falava com naturalidade serena, de quem já fez as pazes com o próprio corpo e com a própria história.

Fui embora com uma lição que não esperava levar daquela noite.

O arrependimento chegou antes da resposta dele, naqueles dez ou quinze passos de volta. A lição que tirei não foi ensinada pelo britânico. Eu já havia chegado lá sozinho. Ele apenas confirmou, com uma elegância desconcertante, o que já devia ter ensinado a tantos outros. Isso diz algo sobre o que acontece quando se sai do papel de médico, se guarda o jaleco na mala e se torna, simplesmente, gente entre tantos mais.

Há uma ironia delicada que atravessa toda a cena de quem passa a vida protegendo pulmões e pede desculpas a um sobrevivente de linfoma por ter tocado no assunto do cigarro. E ainda por cima o sobrevivente sorri. Não por descaso com a saúde, mas porque já negociou com a morte de um modo que torna qualquer conselho bem-intencionado, algo pequeno, quase ingênuo, diante da escala do que já viveu e ainda carrega no corpo e na memória. O sorriso dele não era negação, era própria escala de valores, forjada em quimioterapia e cirurgia.


domingo, 3 de maio de 2026

Conexão Belém-Lisboa


              O avião mal havia "descolado" de Belém quando Lisboa atravessou-me a memória. Não a cidade em si, mas Lisbel.

Conheci-a numa tarde chuvosa, dessas em que o ar parece carregar histórias antigas no bairro Cidade Velha. A menina de 10 anos tinha nos traços a delicadeza de dois mundos: o pai, português de fala mansa e olhar saudoso do Tejo, com nítidos traços mouros; a mãe, paraense de riso fácil, com a leveza de quem cresceu à beira do Guamá: cabelos lisos, a lembrar a genética tupinambá.

Diziam que o encontro dos dois fora improvável, quase um capricho do destino, porém desses caprichos que acertam em cheio. O amor deles não quis ser apenas vivido; quis ser lembrado. E assim nasceu o nome: Lisbel. Não apenas uma junção de sílabas, mas uma ponte invisível entre duas margens do Atlântic; um elo que dispensava mapas. Enquanto o avião ganhava altitude, pensei que talvez certas distâncias não existam de fato. Há nomes que encurtam oceanos, histórias que fazem cidades caberem dentro de uma pessoa. Lisbel era uma dessas histórias. E, de algum modo, naquele voo, Lisboa já não era destino — era lembrança.

sábado, 7 de março de 2026

Biofilme e sapopemas: a anatomia da osteomielite esternal à luz da natureza

A caminho do hospital onde trabalho, uma notícia inquietante invadiu o rádio: envenenamento de árvores na vila de Alter-do-Chão. Injetaram nas raízes para elas tombarem. Caso de polícia!

    Quem visita Alter-do-Chão e arredores, incluindo a Floresta Nacional do Tapajós, vai se deparar com árvores elegantes. A Samaumeira é uma delas. É a mais emblemática da floresta amazônica. Conhecida por sua robustez, mas é a altura que impressiona. É chamada de mãe da floresta. Podem atingir mais de sessenta metros de altura e desenvolver troncos de grandes diâmetros, capazes de suportar o abraço de 18 adultos.  Diante delas somos anões.

Na cultura amazônica, a samaúma é frequentemente considerada uma árvore sagrada, associada a mitos, espiritualidade e conexão com o passado. Reza a lenda que em seus subsolos existem restos mortais de nossos ancestrais. Suas raízes gigantescas, em formato tabulares, são conhecidas como sapopemas. As estruturas se projetam lateralmente a partir da base do tronco e podem alcançar vários metros de extensão. Não imagino essas raízes, da altura de um muro, sendo maltratadas por alguém.

Ainda com a notícia martelando na cabeça, cheguei ao hospital para ver o caso de um idoso de 83 anos, que apresentava abscesso na borda costal esquerda, há três meses. Havia um chamamento no peito: incisão esternal para acesso à revascularização do miocárdio (ponte de safena), ocorrida há quatro anos. Na cicatriz havia uma fístula cutânea, minando pus; outra à altura do umbigo, também purgando. Convivia passivamente com aquele fardo. A família foi incisiva: “o abscesso da lateral não tem nada a ver com a operação cardíaca, por isso lhe chamaram”. Perguntei-lhe o que tinha a dizer acerca da supuração próxima ao umbigo, tão distante quanto o dito abscesso.  

 O corpo humano é um sistema estrutural complexo nos quais ossos, músculos, órgãos e tecidos funcionam de forma integrada para manter equilíbrio e garantir a sobrevivência do organismo. Os diversos componentes do tórax estão conectados com todo o corpo humano. O esterno é um deles. Funciona como aquelas sapopemas. Digamos que as cartilagens presas ao esterno, assim como músculos, nervos, vasos e sistema linfático sejam exatamente essa conexão estrutural representada pelas raízes das árvores.  

O que o vozinho tem, de fato, é uma osteomielite crônica fistulada do esterno. A infecção é óssea. É frequentemente causada por bactérias que invadem o osso por disseminação sanguínea ou por contigüidade - como nos procedimentos cirúrgicos cardíacos. O comprometimento do esterno pode levar à destruição progressiva do osso, afetando a estabilidade da floresta torácica e toda a eco-vizinhança. É um desses transtornos que nenhum cirurgião pode se esquivar.

A relação conceitual entre anatomia humana e arquitetura da natureza leva-nos a correlacionar os mecanismos da osteomielite esternal com a estrutura radicular da samaúma. A abordagem comparativa entre os dois sistemas explora conceitos de suporte estrutural, disseminação de dano, adaptação ecológica e integridade funcional.

Aí nasce um novo conceito: o de biofilme. Ou seja, há a contaminação, persistência de bactérias em microambientes, que contribuem para destruição óssea e falha terapêutica. Esse biofilme entra em hibernação e à medida que o tempo vai passando as bactérias vão se enraizando pelas camadas mais profundas por contigüidade, até purgar no próprio leito esternal ou mais adiante, como no umbigo e rebordo costal do vozinho. Esse caminho pode durar meses ou anos, até eclodir um furúnculo mais distante e ficar jorrando pus eternamente, configurando as fístulas. É o caso do nosso acima, cuja infecção caminhou pelo forro da caixa torácica, até chegar à região condrocondral, como se fossem sapopemas.

Assim como a samaúma sustenta a floresta com suas raízes profundas, o esterno sustenta a arquitetura do tórax. Ambos são pilares de um sistema maior, onde cada conexão - raiz ou cartilagem - participa de uma intricada rede de equilíbrio e vida. Quando o veneno alcança as raízes da árvore, a floresta inteira pressente o colapso. Da mesma forma, quando a infecção se insinua no osso, ela não se limita a um ponto isolado.

A osteomielite do esterno, tal como o envenenamento da samaúma, revela que as estruturas mais robustas também guardam vulnerabilidades invisíveis. E assim, entre raízes e cartilagens, entre floresta e anatomia, compreende-se o que é interdependência.

  

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

É o fim da cirurgia da tuberculose multirresistente?

 Se quisermos compreender os primórdios

que justificam a criação e a existência da cirurgia torácica e da pneumologia

                                                                       é necessário buscar essas bases na história da tuberculose  

Artur Gomes Neto & Wander Mattos Cardoso,in: Cirurgia Torácica Contemporânea

 

 Os corredores estreitos e ventilados dos velhos sanatórios não apenas rangem nossas memórias, as trituram. Os passos ecoam pelos anos ao ritmo dos tambores tupinambás, que não pedem dança da chuva, mas ovação: há algo novo na liturgia farmacológica do tratamento da tuberculose (TB). 

Uma lâmpada acendeu no fim do corredor: a Bedaquilina. Só ou bem acompanhada, ela tem mudado o tratamento da forma multirresistente (TB-MR). Além de oral, o tratamento atual está associado à Protomanida e Linezolida. É mais curto (6 meses). As taxas de cura superam 85% em algumas séries, e ainda elimina o uso de injetáveis... É um facho de luz na escuridão.

Ressalta-se sobre a cura medicamentosa da TB-MR no Brasil, até então: no máximo 53%, conforme publicação brasileira de Dalcomo e cols (1999), em que o Hospital Barros Barreto (HUJBB-UFPA) fez parte do estudo. Ou seja, sobram pacientes com janelas entreabertas para cirurgia exerética. Foi quando escancaramos a do nosso centro de referência em tuberculose para desenvolver uma observação cirúrgica de 20 anos.

                A Bedaquilina foi implantada no Brasil no final de 2021. No HUJBB-UFPA, centro de referência terciária para tratamento da tuberculose na Amazônia, 84 pacientes foram observados com tratamento por 18 meses (associada à levofloxacino, linezolida e terizidona). Destes, 77% foram curados, com mortalidade de 1%. Desde então, aqui pelas ribeiras do Guamá, nenhum caso operado, ao menos por enquanto! 
    
         É o fim da cirurgia da TB-MR?

Ainda não, segundo French MDR-TB Management Group. A resposta mais honesta: a associação da Bedaquilina, com outras drogas reduz a necessidade de cirurgia na TB-MR, mas não acaba. A cirurgia foi realizada em 12 pacientes (26,7%), com conversão da cultura de escarro em 75%. O estudo é marcado por uma esticada do uso da Bedaquilina por quase um ano. Deu certo, mas tiveram que policiar rigorosamente os efeitos colaterais das drogas, principalmente os cardiológicos. A justificativa dos autores por não se atingir cifras melhores foi a formação de cavidades de paredes espessas que  funcionam como um bunker, a proteger os bacilos de bombardeios de antibióticos; também bronquiectasias extensas e focos mal perfudidos. No relato francês, 80% da população do estudo era do leste europeu e já chegaram com doença avançada.

Eis a diferença entre o material do HUJBB-UFPA e o estudo francês, em que a abordagem farmacológica precoce diminuiu a chance de formar cavidades, por conseguinte, a taxa cirúrgica é menor: zero.

Ao juntarmos os estudos daqui (ainda não publicado) com o francês, poder-se-ia dizer que é um acalento para quem vive na luta contra a TBMR. A Bedaquilina com sua associações melhoram as taxas de conversão de cultura, tempo de tratamento, mortalidade; permite esquemas totalmente orais e reduz falência terapêutica em cenários mais hostis. Resultado direto: Mais cura, menos cirurgia.

Por fim, o paralelo com a oncologia: a introdução de imunoterápicos e o surgimento de novos conceitos não afastaram o bisturi do câncer de pulmão, mas repensaram as ressecções. Ou seja, a cirurgia não perde protagonismo na tuberculose, na verdade torna-se alvo em cenários específicos. Imagine substituir pneumonectomias por lobectomias: é ou não grande avanço? É a esperança que já acontece no câncer pulmonar.

O fato é que, se esquecermos os corredores dos sanatórios de nossas memórias, perderemos esperança e parte de nossa face altruísta, assim como o espírito aberto ao que vier; também nossa confiança junto à ciência, que tem estado em constante ajuste e confronto.

Dalcomo MP, Melo FF, Cardoso N. e cols Estudo de efetividade de esquemas alternativos para o tratamento da tuberculose multirresistente no Brasil. J Pneumol 25(2) – mar-abr de 1999.

French MDR-TB Management Group. Long-term outcome and safety of prolonged bedaquiline treatment for multidrug-resistant tuberculosis. Eur Respir J. 2017 Mar 22;49(3):1601799.


 

Roger Normando, professor de cirurgia torácica, Universidade Federal do Pará.
Carlos Albério, professor de pneumologia, Universidade Federal do Pará e coordenador do centro de referência terciária em tuberculose - Secretaria de Saúde do Estado do Pará.

domingo, 18 de janeiro de 2026

"EDAC" é daqui?


 

Ao despois de depois,

andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova

e eu não gosto de língua inventada.

Sempre arreneguei de esperantos e volapuques.

Manuel Bandeira em carta a Guimarães Rosa, após leitura de Grande Sertão: Veredas.

 

Duas provocações: no título e na epígrafe: “EDAC e “volapuques”, independentes de sabermos o que Guimarães Rosa fez com a língua de Fernando Pessoa; independente do que o cirurgião torácico faz com a língua portuguesa.

Comecemos pelo Bandeira. Volapuques foi a tentativa do padre alemão Martin Schleyer (1831-1912) criar uma língua artificial em 1879, com base especial no inglês e alguns elementos do alemão, francês e latim, cujo ideário de comunicação não foi bem-sucedido (vol (mundo) + pük (fala) → Volapük = “língua do mundo”). Esse padre não é o do balão, mas voou alto para tentar alcançar a torre de Babel.

Já EDAC vem do inglês: Excessive Dynamic Airway Collapse. Isoladamente não significa absolutamente nada para quem não esteja familiarizado com o jargão médico. O paciente quando ouve toma um susto. Apesar de não se tratar de anglicismo consagrado, é sigla repleta de contexto, por isso, antes de explicar a doença, precisa-se explicar a sigla, que carrega certa musicalidade.

(Já pensou EDAC na voz do Sinatra? - EDAC, I did it my way...)

Mas aí me vem o João Aléssio, professor de Cirurgia Torácica da UNIFESP (Escola Paulista de Medicina), com essa: “I'M EDAC! AND YOU, Roger? Depois seguiu: "No Stress! Don't worry...”

Adorei a provocação. Aléssio gosta de polêmicas e discussões frajolas, e quem já acompanhou a “Reunião da Pizza” entre os paulistas sabe muito bem do que estou falando. No mais, ao me provocar, sabe que de alguma forma vou recorrer a Guimarães Rosa.

Vale Manuel Bandeira com um “plus a mais” de Guimarães Rosa? O meu volapuquês foi pra devolver a provocação a João Aléssio com o EDAC.

           Para ele, “A língua é viva e influenciável, mostra bem para onde irá um povo. As culturas mais fortes dominarão as mais fracas, seja pela força das armas e do dinheiro, como influenciando fortemente a sua própria educação [leia-se: tupi-guarani]. O que seria falar e escrever um simples EDAC nos tempos de Facebook, Instagram, Whatsapp, Twitter e até do Tik-Tok? Ocorre que EDAC isoladamente não é nada, é uma sigla de outra língua. Não é um anglicismo de domínio habitual; é uma sigla vazia”. Na postagem seguinte ele grifa: “é perda de tempo quando se tem palavra em português para definir claramente as doenças e se usa o inglês. Sempre dizemos que temos que difundir o diagnóstico do colapso da membrana posterior da traqueia para os pneumologistas e os clínicos. Imaginem... primeiro temos que explicar o significado da sigla e depois a própria doença. It’s not easy! O mundo moderno não deve ser ágil e prático? Para que confusões e ainda com outras línguas e países[?] And...be happy!"

Pelo lado de fora do João Aléssio, EDAC é exemplo qual SIDA/AIDS. Pelo lado neurolinguístico, EDAC, na voz de Frank Sinatra, tem mais sonoridade. Dá até para aportuguesar: O paciente está edaquisado - Don’t worry!!!. Talvez prefiramos EDAC não por desprezo à nossa língua, mas por impulsão, por musicalidade. EDAC inclusive nos favoreceu para escrever o título, deixando a retórica ambígua cuja oralidade se torna provocativa e com estilística típica, quase jazzística. Deixa o texto com o peso de uma pluma.

Essa discussão lingüística volapuquiana, no entanto, não diminui a importância médica do tema. Pelo contrário. Estudos recentes mostram que o colapso excessivo das vias aéreas centrais — englobando tanto o EDAC quanto a traqueobroncomalácia (TBM) — é mais comum do que se imagina e, frequentemente subdiagnosticada. Os sintomas se confundem com asma, DPOC ou refluxo, retardando o diagnóstico correto.

Do ponto de vista anátomo-funcional, há diferenças claras: no EDAC, ocorre a invaginação exagerada da parede posterior da traqueia; na TBM o problema está no enfraquecimento do arcabouço cartilagenoso, que desaba durante o ciclo respiratório. Em que pese a diferença na estrutura anatômica, o impacto clínico é semelhante: tosse intensa, dispneia, infecções respiratórias recorrentes e prejuízo da qualidade de vida.

Mas a melhor notícia vem de longe. Chao, De Angelis e cols. retratam em seu recente artigo (2025) resultados animadores do tratamento cirúrgico. Para os cirurgiões do Beth Israel Medical Center (Boston), a traqueobroncoplastia mostrou melhora significativa dos sintomas e da qualidade de vida, tanto nos pacientes com EDAC quanto nos com TBM, com taxas de complicações e desfechos semelhantes entre os grupos. Exatamente o que observamos em nossa prática cirúrgica. Em outras palavras: independente da sigla, tratar as disfunções das vias aéreas centrais funcionou bem para os 73 bostonianos que fizeram parte do estudo, com melhorias significativas na qualidade de vida e no teste de caminhada de 6min.

Escrever sobre essa polêmica não é só gesto de simpatia aos que apreciam a ambigüidade lingüística, mas acima de tudo uma divisória semântica no diagnóstico, jogando xadrez com as palavras. Esse é, a nosso ver, a maior mensagem, independente se estejamos ou não criando uma espécie de "esperanto-volapuque cibernético universal”, conforme aferiram João Aléssio e Manuel Bandeira.

Bom saber que existem esses defensores da língua-pátria. Eles mantém-se com seus volumes correntes pulmonares sem forçar a necessidade de outras línguas. Já não basta o que fizemos com o tupi-guarani e o nheengatu?

 

 Referência:

Cho JM, De Angelis P, Mathew F e cols. Tracheobronchoplasty for Excessive Dynamic Airway Collapse and Tracheobronchomalacia: A Comparative Analysis of Distinct Airway Disorders. Ann Thorac Surg 2025;120:1062-71.


Roger Normando. Professor de Cirurgia Torácica - Universidade Federal do Pará.

sábado, 10 de janeiro de 2026

La spedizione italo-amazzonica

Vengo da un paese che si chiama Pará
che ha nei Caraibi il suo porto sul mare
Paulo André e Ruy Barata, nella canzone:
 Porto Caribe

    Sulla soglia della piccola locanda, in un rituale di commiato, Marcello cammina a capo chino, respirando un’aria stanca e con gli occhi colmi di tristezza: è ora di partire. È il ritorno.

    È stato un viaggio breve con la famiglia italo-brasiliana, ma intenso — nonostante il ginocchio consumato, che ha insistito nel ricordare un passato maledetto dal calcio e da lunghi interventi chirurgici.

    Il momento culminante del viaggio è arrivato quando siamo giunti a Jamaraquá, area della Foresta Nazionale del Tapajós, nel comune di Belterra (Pará), dopo due ore di navigazione in motoscafo da Alter-do-Chão. All’arrivo, tambaqui e pirarucu ci hanno condotto a una completa pienezza prandiale. Da lì abbiamo tratto l’energia necessaria per affrontare i cinque chilometri di salita, fino a raggiungere la cima.

    Con un bastone preso in prestito dal Mosè biblico, ci siamo aperti il cammino fino a un ruscello dalle acque limpide. Ci siamo immersi per sentire il freddo della foresta ai piedi — un bagno per evocare gli spiriti della selva e versare il calore dell’anima. Dopo aver riempito le borracce con l’acqua della sorgente, abbiamo affrontato l’ultimo tratto della salita, ripido e impegnativo — il ginocchio già brontolava.

    La foresta custodisce in ognuno di noi un po’ di Curupira, Matinta-Perera e Boitatá, figure protettrici di quel santuario, parte dell’immaginario nativo. La sensazione era quella di trovarsi in un punto sacro del pianeta, sotto la loro protezione — purché non offendessimo l’impero di Jurupari.

    


Giunti al punto più alto, abbiamo deposto i bagagli e ci siamo preparati a visitare la madre di tutti gli alberi: la samaúma alta sessanta metri, a soli cento metri dal punto di appoggio. L’incontro è stato estatico. Una lezione di piccolezza. Abbiamo calcolato quante persone, mano nella mano, sarebbero servite per circondarla: diciotto. Secondo la guida, ha appena raggiunto la maggiore età — cinquecento anni.

    Tornati al campo, mentre la notte calava, ci siamo spinti fino al belvedere per contemplare l’incontro tra il fiume e la foresta. Un’immensità capace di colmare il vuoto della nostra ignoranza. In lontananza si scorgevano carichi di cereali diretti verso l’Atlantico attraverso le ampie vene del Tapajós, pronti a conquistare il mondo.

   Mentre ammiravamo l’orizzonte, le nostre guide preparavano la piracaia (dal tupi pira, pesce; caia, arrostire), con tambaqui e mapará dai sapori intensi.

    Alla fine, le amache hanno cullato la notte di tutti noi dopo i racconti inquietanti della foresta e dei suoi incantamenti, narrati da una delle guide. Spruzzi di pioggia, il canto profondo delle scimmie urlatrici e il gracidio delle rane hanno accompagnato il nostro riposo fino a tarda notte. Nel buio assoluto, l’unica luce naturale era quella delle lucciole.

    Mi sono svegliato con gli occhi aperti, in attesa dei sussurri di qualche pajé. Non sono arrivati. Abbiamo allora salutato l’ora del caffè — semplice, come tutto lì, ma sufficiente per prepararci ai cinque chilometri di discesa ripida, capaci di annientare definitivamente qualsiasi ginocchio scricchiolante.

    Durante il ritorno ci siamo imbattuti in una piacevole sorpresa: una riserva archeologica. Frammenti di ceramica dei nostri antenati. In quei luoghi vissero i Munduruku. Si suppone che ogni pezzo abbia circa cinquecento anni, sepolto dalle intemperie della foresta primaria. Chi tenta di portarne via uno come ricordo, se lo vede riprendere dal Mapinguari.

    Giunti a valle, abbiamo concluso la spedizione attraversando igapó che ospitano caimani e aquile arpie, tra la foresta e il fiume immenso. Un viaggio nel silenzio degli dèi.

    Poi siamo rientrati alla nostra base, ad Alter-do-Chão. È rimasta alle spalle un’altra tra le tante esperienze vissute in armonia con questo humus vitale.

    Questa narrazione è un atto argomentativo inserito in un contesto culturale, attraversato dal momento in cui l’Amazzonia invoca la propria sopravvivenza. È alfabetizzazione intesa come pratica sociale di chi si riconosce nella pelle della foresta, dei fiumi e dei popoli. Nulla in questo insieme di parole è privo di carattere personale — talvolta mitologico — ma tutto è condivisibile con chi respira l’ossigeno che sgorga dalla hylea amazzonica.


Testo originale in portoghese tradotto da IA (ChatGPT)

Roger Normando, professore di chirurgia toracica presso l'Università Federale del Pará.



A tal expedição ítalo-amazônica

“Eu sou de um país que se chama Pará
Que tem no Caribe seu porto de mar”

Paulo André e Ruy Barata, em Porto Caribe

Na porta da pequena pousada, em ritual de despedida, Marcello caminha cabisbaixo, respirando o ar cansado e com os olhos tomados de tristeza: é hora de partir. É a volta.

Foi uma viagem curta com a famiglia ítalo-brasiliana, mas intensa — apesar do joelho corroído, que insistiu em reclamar de um passado amaldiçoado pelo futebol e por longas cirurgias.

O epítome da jornada se deu quando chegamos a Jamaraquá, área da Floresta Nacional do Tapajós, no município de Belterra (Pará), após duas horas de barco a motor desde Alter-do-Chão. Na chegada, tambaqui e pirarucu nos levaram à completa plenitude prandial. Dali extraímos a seiva necessária para enfrentar os cinco quilômetros de subida morro acima, até alcançar o cume.

Com um cajado emprestado de Moisés bíblico, abrimos caminho até um riacho de águas diáfanas. Mergulhamos para sentir o frio da floresta nos pés — um banho para invocar os espíritos da mata e verter o chamego da alma. Após encher as garrafas com água da fonte, encaramos o último trecho da subida, íngreme e exigente — o joelho já resmungava.

A floresta guarda em cada um de nós um pouco de Curupira, Matinta-Perera e Boitatá, figuras protetoras daquele santuário, parte do imaginário nativo. A sensação era de estar em um ponto sagrado do planeta, sob sua proteção — desde que não magoássemos o império de Jurupari.

No ponto mais alto, arriamos as trouxas e nos preparamos para visitar a mãe de todas as árvores: a samaumeira de 60 metros, a apenas cem metros do apoio. O encontro foi extasiante. Uma lição de pequenez. Calculamos quantas pessoas, de mãos dadas, seriam necessárias para circundá-la: dezoito. Segundo o guia, ela acaba de atingir a maioridade — 500 anos.

De volta ao acampamento, com a noite caindo, seguimos até o mirante para contemplar o encontro do rio com a floresta. Uma imensidão capaz de preencher o vazio da nossa ignorância. Ao longe, viam-se carregamentos de grãos rumando ao Atlântico pelas veias largas do Tapajós, para ganhar o mundo.

Enquanto apreciávamos o horizonte, nossos guias preparavam a piracaia (do tupi pira, peixe; caia, assar), com tambaqui e mapará de sabores marcantes.

Ao final, as redes embalaram a noite após relatos medonhos da floresta e de seus encantamentos, narrados por um dos guias. Borrifos de chuva, o tenor das guaribas e o coaxar dos sapos acompanharam nosso descanso madrugada adentro. No breu absoluto, a única luz natural era a dos vaga-lumes.

Amanheci desperto, à espera de cochichos de algum pajé. Não vieram. Saudamos, então, a hora do café — simples, como tudo ali, porém suficiente para nos preparar para os cinco quilômetros de descida íngreme, capazes de aniquilar de vez qualquer joelho crocante.

No retorno, fomos surpreendidos por uma reserva arqueológica: fragmentos de cerâmica de nossos antepassados. Ali viveram os Munduruku. Supõe-se que cada peça tenha cerca de quinhentos anos, soterrada pelas intempéries da floresta primária. Quem tentar levar uma lembrança, o Mapinguari toma de volta.

Já embaixo, completamos a expedição atravessando igapós que abrigam jacarés e gaviões-reais, entre a floresta e o rio imenso. Uma travessia pelo silêncio dos deuses.

Depois, retornamos à base em Alter-do-Chão. Ficaram para trás mais uma entre tantas vivências harmonizadas com esse húmus vital.

Esta narrativa é uma atitude argumentativa inserida em um contexto cultural, atravessada pelo momento em que a Amazônia clama por sobrevivência. Trata-se de letramento como prática social de alguém que se vê na epiderme da floresta, dos rios e dos povos. Nada neste amontoado de palavras deixa de ser particular — por vezes mitológico —, mas tudo é partilhável com quem respira o oxigênio que brota da hiléia amazônica.