Se quisermos compreender os primórdios
que justificam a criação e a existência da cirurgia torácica e da pneumologia
é necessário buscar essas bases na história da tuberculose
Artur Gomes Neto & Wander Mattos Cardoso,in: Cirurgia Torácica Contemporânea
A tuberculose (TB)
tanto nos ensinou - mesmo sob o penar de grandes perdas - que cada estampidos que dela ressoa faz-nos esperançar por novidades.
Um estampido ecoou: chegamos à Bedaquilina, ou melhor, ao esquema BPaL (Bedaquilina, Pretomanida e Linezolida). É oral e tem curta duração (6 meses) para a TB-MR. As taxas de cura superam 85% em algumas séries otimistas e ainda elimina o uso de injetáveis... Já nos faz ninar!
Ressalta-se a cura TB-MR no Brasil: no máximo 53%, conforme publicação brasileira de Dalcomo e cols (1999),
em que o Hospital Barros Barreto (HUJBB-UFPA) fez parte desse estudo. Ou seja, sobra boa leva de pacientes com janelas escancaradas para
cirurgia exerética. Foi quando pulamos a janela para desenvolver nosso estudo, a partir de 2006, liderado por Ninarosa Cardoso, que contribuiu para o estudo de Dalcomo.
Ainda não, segundo French MDR-TB Management Group. A resposta mais honesta e atual: o BPaL reduz a necessidade de cirurgia na TB-MR, mas não acaba em definitivo. O estudo francês é marcado pela magia do método científico. A justifica-se o NÃO pela formação de cavidades com paredes espessas que funcionam como um bunker, a proteger os bacilos de bombardeios de antibióticos. Nesse material, a cirurgia foi realizada em 12 (26,7%) pacientes, com conversão da cultura de escarro em 75% dos casos. O estudo alcançou 80% de desfechos favoráveis, esticando a Bedaquilina por quase um ano. Deu certo, mas tiveram que policiar rigorosamente os efeitos colaterais da droga.
Ao juntarmos os dois estudos, o daqui (ainda não publicado) e o francês, poder-se-ia dizer que é um acalento para quem vive lutando contra a TB-MR. O BPaL melhora taxas de conversão de cultura e tempo de tratamento, diminui mortalidade, permite esquemas totalmente orais e reduz falência terapêutica em cenários mais hostis. Resultado direto: menos pacientes chegam à sala de operações por falha medicamentosa. Mais cura, se incluirmos a cirurgia.
Vale sublinhar que nem toda falência é farmacológica. Muitas são anatômicas, pois as drogas não revertem os bunkers pulmonares, não resolve bronquectasias extensas, tampouco elimina focos mal perfudidos. No relato francês, 80% da população do estudo saiu do leste europeu, já com doença escavada, em busca de cura. Essa é a diferença do HUJBB-UFPA, em que a imediata abordagem farmacológica diminui a chance de formar cavidades, por conseguinte, eliminar as cirurgias.
Por fim, assim como na oncologia torácica, a introdução dos imunoterápicos não afastou o bisturi do câncer, mas freou ressecções. Ou seja, se a cirurgia, em ambas situações perde protagonismo, é alvo em cenários específicos. Imagine substituir pneumonectomias por lobectomias: é ou não grande avanço? Se não for, é esperança.
O fato é que, se esquecermos na gaveta a sempre indomável tuberculose, perderemos a esperança, parte de nosso lado humano, o espírito aberto ao que vier e nossa confiança junto à ciência, que tem estado em constante ajuste e confronto. Sigamos aplaudindo a magia do método científico em cada passo, mesmo que seja dado de forma lenta, mas que estufa nosso espírito.
French MDR-TB Management Group. Long-term outcome and
safety of prolonged bedaquiline treatment for multidrug-resistant tuberculosis.
Eur Respir J. 2017 Mar 22;49(3):1601799.
Dalcomo MP, Melo FF, Cardoso N. e cols Estudo de
efetividade de esquemas alternativos para o tratamento da tuberculose
multirresistente no Brasil. J Pneumol 25(2) – mar-abr de 1999.


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