Amanheci
com dor nas panturrilhas nesta quarta-feira de cinzas. Tive que tomar um
relaxante muscular para me locomover entre o quarto e o banheiro. Eu mais
parecia aquele besouro de Kafka, preso ao leito. Tudo por causa nobre:
carnaval.
Esses dias
eu pulei muito por aqui. O Rio, hoje, pulsa
Carnaval. É zabumba, surdo, triângulo e sopros. Bebe-se, urina-se, come-se,
dança-se, canta-se e beija-se como nunca nos últimos tempos, segundo Ruy Castro.
Pulei feito pipoca, por isso meus gastrocnêmios estão pedindo um relax pós-carnaval.
| Bloco "Balança meu coreto" |
Entre um
bloco e outro, entre a praia e a feirinha, avistei diversos conhecidos pela
cidade. Certamente estavam se direcionando à Sapucaí. Acho legal, afinal os
paraenses estão em voga neste carnaval com o tema da Imperatriz Leopoldinense.
Porém, o melhor carnaval do Rio não está nas escolas de samba, tampouco nos
retiros espirituais. Está nas ruas. Tenho visto isso há mais de três anos,
quando voltei a frequentar o Rio por esse motivo. Blocos como o “Largo do
Machado, mas não largo copo” e “Simpatia é quase amor”, são exemplos que a
criatividade não está só nos pés, mas no espírito também. Vê-se da janela, de
forma sutil, ressurgindo uma velha cultura, que acaba se comportando como
contracultura à ditadura do sambódromo e da televisão. Resultado: ruas tufadas
de gringos e turistas brasileiros para acompanhar mais de 400 blocos de sujos. Nem
os nativos estão partindo para os balneários. Foram mais de 900 turistas
hospedados em hotéis. Estima-se quase 2 milhões no total. O Rio ri, sorri,
bamburra, apesar de se espernear com os royalties do Petróleo.
Morei aqui
entre as décadas de 80 e 90, mas nunca vi o Rio assim. Tenho a impressão que o carioca
está cansado do controle remoto da tevê. Agora, a passarela do samba passou ser
a rua, com seus rituais e marchinhas. Quanto tempo que eu não cantava “olha a
cabeleira do Zezé...”
















