quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

É o fim da cirurgia da tuberculose multirresistente?

 Se quisermos compreender os primórdios

que justificam a criação e a existência da cirurgia torácica e da pneumologia

                                                                       é necessário buscar essas bases na história da tuberculose  

Artur Gomes Neto & Wander Mattos Cardoso,in: Cirurgia Torácica Contemporânea

 

A tuberculose (TB) tanto nos ensinou - mesmo sob o penar de grandes perdas - que cada estampidos que dela ressoa faz-nos esperançar por novidades.

Um estampido ecoou: chegamos à Bedaquilina, ou melhor, ao esquema BPaL (BedaquilinaPretomanida e Linezolida). É oral e tem curta duração (6 meses) para a TB-MR. As taxas de cura superam 85% em algumas séries otimistas e ainda elimina o uso de injetáveis... Já nos faz ninar!

Ressalta-se a cura TB-MR no Brasil: no máximo 53%, conforme publicação brasileira de Dalcomo e cols (1999), em que o Hospital Barros Barreto (HUJBB-UFPA) fez parte desse estudo. Ou seja, sobra boa leva de pacientes com janelas escancaradas para cirurgia exerética. Foi quando pulamos a janela para desenvolver nosso estudo, a partir de 2006, liderado por Ninarosa Cardoso, que contribuiu para o estudo de Dalcomo. 

        Já o BPaL foi implantado no Brasil em novembro de 2021. No HUJBB-UFPA, centro de referência para tratamento da tuberculose na Amazônia, 84 pacientes foram estudados: 77% foram curados, com mortalidade de 1%. Depois do BPaL, aqui pelas ribeiras do Guamá, nenhum caso operado, ou seja... É o fim da cirurgia da tuberculose multirresistente?

Ainda não, segundo French MDR-TB Management Group. A resposta mais honesta e atual: o BPaL reduz a necessidade de cirurgia na TB-MR, mas não acaba em definitivo. O estudo francês é marcado pela magia do método científico. A justifica-se o NÃO pela formação de cavidades com paredes espessas que funcionam como um bunker, a proteger os bacilos de bombardeios de antibióticos. Nesse material, a cirurgia foi realizada em 12 (26,7%) pacientes, com conversão da cultura de escarro em 75% dos casos. O estudo alcançou 80% de desfechos favoráveis, esticando a Bedaquilina por quase um ano. Deu certo, mas tiveram que policiar rigorosamente os efeitos colaterais da droga.

Ao juntarmos os dois estudos, o daqui (ainda não publicado) e o francês, poder-se-ia dizer que é um acalento para quem vive lutando contra a TB-MR. O BPaL melhora taxas de conversão de cultura e tempo de tratamento, diminui mortalidade, permite esquemas totalmente orais e reduz falência terapêutica em cenários mais hostis. Resultado direto: menos pacientes chegam à sala de operações por falha medicamentosa. Mais cura, se incluirmos a cirurgia.

Vale sublinhar que nem toda falência é farmacológica. Muitas são anatômicas, pois as drogas não revertem os bunkers pulmonares, não resolve bronquectasias extensas, tampouco elimina focos mal perfudidos. No relato francês, 80% da população do estudo saiu do leste europeu, já com doença escavada, em busca de cura. Essa é a diferença do HUJBB-UFPA, em que a imediata abordagem farmacológica diminui a chance de formar cavidades, por conseguinte, eliminar as cirurgias. 

Por fim, assim como na oncologia torácica, a introdução dos imunoterápicos não afastou o bisturi do câncer, mas freou ressecções. Ou seja, se a cirurgia, em ambas situações perde protagonismo, é alvo em cenários específicos. Imagine substituir pneumonectomias por lobectomias: é ou não grande avanço? Se não for, é esperança.

O fato é que, se esquecermos na gaveta a sempre indomável tuberculose, perderemos a esperança, parte de nosso lado humano, o espírito aberto ao que vier e nossa confiança junto à ciência, que tem estado em constante ajuste e confronto. Sigamos aplaudindo a magia do método científico em cada passo, mesmo que seja dado de forma lenta, mas que estufa nosso espírito.

 

French MDR-TB Management Group. Long-term outcome and safety of prolonged bedaquiline treatment for multidrug-resistant tuberculosis. Eur Respir J. 2017 Mar 22;49(3):1601799.

Dalcomo MP, Melo FF, Cardoso N. e cols Estudo de efetividade de esquemas alternativos para o tratamento da tuberculose multirresistente no Brasil. J Pneumol 25(2) – mar-abr de 1999.

 

Roger Normando, professor de cirurgia torácica, Universidade Federal do Pará.
Carlos Albério, professor de pneumologia, Universidade Federal do Pará

domingo, 18 de janeiro de 2026

"EDAC" é daqui?


 

Ao despois de depois,

andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova

e eu não gosto de língua inventada.

Sempre arreneguei de esperantos e volapuques.

Manuel Bandeira em carta a Guimarães Rosa, após leitura de Grande Sertão: Veredas.

 

Duas provocações: no título e na epígrafe: “EDAC e “volapuques”, independentes de sabermos o que Guimarães Rosa fez com a língua de Fernando Pessoa; independente do que o cirurgião torácico faz com a língua portuguesa.

Comecemos pelo Bandeira. Volapuques foi a tentativa do padre alemão Martin Schleyer (1831-1912) criar uma língua artificial em 1879, com base especial no inglês e alguns elementos do alemão, francês e latim, cujo ideário de comunicação não foi bem-sucedido (vol (mundo) + pük (fala) → Volapük = “língua do mundo”). Esse padre não é o do balão, mas voou alto para tentar alcançar a torre de Babel.

Já EDAC vem do inglês: Excessive Dynamic Airway Collapse. Isoladamente não significa absolutamente nada para quem não esteja familiarizado com o jargão médico. O paciente quando ouve toma um susto. Apesar de não se tratar de anglicismo consagrado, é sigla repleta de contexto, por isso, antes de explicar a doença, precisa-se explicar a sigla, que carrega certa musicalidade.

(Já pensou EDAC na voz do Sinatra? - EDAC, I did it my way...)

Mas aí me vem o João Aléssio, professor de Cirurgia Torácica da UNIFESP (Escola Paulista de Medicina), com essa: “I'M EDAC! AND YOU, Roger? Depois seguiu: "No Stress! Don't worry...”

Adorei a provocação. Aléssio gosta de polêmicas e discussões frajolas, e quem já acompanhou a “Reunião da Pizza” entre os paulistas sabe muito bem do que estou falando. No mais, ao me provocar, sabe que de alguma forma vou recorrer a Guimarães Rosa.

Vale Manuel Bandeira com um “plus a mais” de Guimarães Rosa? O meu volapuquês foi pra devolver a provocação a João Aléssio com o EDAC.

           Para ele, “A língua é viva e influenciável, mostra bem para onde irá um povo. As culturas mais fortes dominarão as mais fracas, seja pela força das armas e do dinheiro, como influenciando fortemente a sua própria educação [leia-se: tupi-guarani]. O que seria falar e escrever um simples EDAC nos tempos de Facebook, Instagram, Whatsapp, Twitter e até do Tik-Tok? Ocorre que EDAC isoladamente não é nada, é uma sigla de outra língua. Não é um anglicismo de domínio habitual; é uma sigla vazia”. Na postagem seguinte ele grifa: “é perda de tempo quando se tem palavra em português para definir claramente as doenças e se usa o inglês. Sempre dizemos que temos que difundir o diagnóstico do colapso da membrana posterior da traqueia para os pneumologistas e os clínicos. Imaginem... primeiro temos que explicar o significado da sigla e depois a própria doença. It’s not easy! O mundo moderno não deve ser ágil e prático? Para que confusões e ainda com outras línguas e países[?] And...be happy!"

Pelo lado de fora do João Aléssio, EDAC é exemplo qual SIDA/AIDS. Pelo lado neurolinguístico, EDAC, na voz de Frank Sinatra, tem mais sonoridade. Dá até para aportuguesar: O paciente está edaquisado - Don’t worry!!!. Talvez prefiramos EDAC não por desprezo à nossa língua, mas por impulsão, por musicalidade. EDAC inclusive nos favoreceu para escrever o título, deixando a retórica ambígua cuja oralidade se torna provocativa e com estilística típica, quase jazzística. Deixa o texto com o peso de uma pluma.

Essa discussão lingüística volapuquiana, no entanto, não diminui a importância médica do tema. Pelo contrário. Estudos recentes mostram que o colapso excessivo das vias aéreas centrais — englobando tanto o EDAC quanto a traqueobroncomalácia (TBM) — é mais comum do que se imagina e, frequentemente subdiagnosticada. Os sintomas se confundem com asma, DPOC ou refluxo, retardando o diagnóstico correto.

Do ponto de vista anátomo-funcional, há diferenças claras: no EDAC, ocorre a invaginação exagerada da parede posterior da traqueia; na TBM o problema está no enfraquecimento do arcabouço cartilagenoso, que desaba durante o ciclo respiratório. Em que pese a diferença na estrutura anatômica, o impacto clínico é semelhante: tosse intensa, dispneia, infecções respiratórias recorrentes e prejuízo da qualidade de vida.

Mas a melhor notícia vem de longe. Chao, De Angelis e cols. retratam em seu recente artigo (2025) resultados animadores do tratamento cirúrgico. Para os cirurgiões do Beth Israel Medical Center (Boston), a traqueobroncoplastia mostrou melhora significativa dos sintomas e da qualidade de vida, tanto nos pacientes com EDAC quanto nos com TBM, com taxas de complicações e desfechos semelhantes entre os grupos. Exatamente o que observamos em nossa prática cirúrgica. Em outras palavras: independente da sigla, tratar as disfunções das vias aéreas centrais funcionou bem para os 73 bostonianos que fizeram parte do estudo, com melhorias significativas na qualidade de vida e no teste de caminhada de 6min.

Escrever sobre essa polêmica não é só gesto de simpatia aos que apreciam a ambigüidade lingüística, mas acima de tudo uma divisória semântica no diagnóstico, jogando xadrez com as palavras. Esse é, a nosso ver, a maior mensagem, independente se estejamos ou não criando uma espécie de "esperanto-volapuque cibernético universal”, conforme aferiram João Aléssio e Manuel Bandeira.

Bom saber que existem esses defensores da língua-pátria. Eles mantém-se com seus volumes correntes pulmonares sem forçar a necessidade de outras línguas. Já não basta o que fizemos com o tupi-guarani e o nheengatu?

 

 Referência:

Cho JM, De Angelis P, Mathew F e cols. Tracheobronchoplasty for Excessive Dynamic Airway Collapse and Tracheobronchomalacia: A Comparative Analysis of Distinct Airway Disorders. Ann Thorac Surg 2025;120:1062-71.


Roger Normando. Professor de Cirurgia Torácica - Universidade Federal do Pará.

sábado, 10 de janeiro de 2026

La spedizione italo-amazzonica

Vengo da un paese che si chiama Pará
che ha nei Caraibi il suo porto sul mare
Paulo André e Ruy Barata, nella canzone:
 Porto Caribe

    Sulla soglia della piccola locanda, in un rituale di commiato, Marcello cammina a capo chino, respirando un’aria stanca e con gli occhi colmi di tristezza: è ora di partire. È il ritorno.

    È stato un viaggio breve con la famiglia italo-brasiliana, ma intenso — nonostante il ginocchio consumato, che ha insistito nel ricordare un passato maledetto dal calcio e da lunghi interventi chirurgici.

    Il momento culminante del viaggio è arrivato quando siamo giunti a Jamaraquá, area della Foresta Nazionale del Tapajós, nel comune di Belterra (Pará), dopo due ore di navigazione in motoscafo da Alter-do-Chão. All’arrivo, tambaqui e pirarucu ci hanno condotto a una completa pienezza prandiale. Da lì abbiamo tratto l’energia necessaria per affrontare i cinque chilometri di salita, fino a raggiungere la cima.

    Con un bastone preso in prestito dal Mosè biblico, ci siamo aperti il cammino fino a un ruscello dalle acque limpide. Ci siamo immersi per sentire il freddo della foresta ai piedi — un bagno per evocare gli spiriti della selva e versare il calore dell’anima. Dopo aver riempito le borracce con l’acqua della sorgente, abbiamo affrontato l’ultimo tratto della salita, ripido e impegnativo — il ginocchio già brontolava.

    La foresta custodisce in ognuno di noi un po’ di Curupira, Matinta-Perera e Boitatá, figure protettrici di quel santuario, parte dell’immaginario nativo. La sensazione era quella di trovarsi in un punto sacro del pianeta, sotto la loro protezione — purché non offendessimo l’impero di Jurupari.

    


Giunti al punto più alto, abbiamo deposto i bagagli e ci siamo preparati a visitare la madre di tutti gli alberi: la samaúma alta sessanta metri, a soli cento metri dal punto di appoggio. L’incontro è stato estatico. Una lezione di piccolezza. Abbiamo calcolato quante persone, mano nella mano, sarebbero servite per circondarla: diciotto. Secondo la guida, ha appena raggiunto la maggiore età — cinquecento anni.

    Tornati al campo, mentre la notte calava, ci siamo spinti fino al belvedere per contemplare l’incontro tra il fiume e la foresta. Un’immensità capace di colmare il vuoto della nostra ignoranza. In lontananza si scorgevano carichi di cereali diretti verso l’Atlantico attraverso le ampie vene del Tapajós, pronti a conquistare il mondo.

   Mentre ammiravamo l’orizzonte, le nostre guide preparavano la piracaia (dal tupi pira, pesce; caia, arrostire), con tambaqui e mapará dai sapori intensi.

    Alla fine, le amache hanno cullato la notte di tutti noi dopo i racconti inquietanti della foresta e dei suoi incantamenti, narrati da una delle guide. Spruzzi di pioggia, il canto profondo delle scimmie urlatrici e il gracidio delle rane hanno accompagnato il nostro riposo fino a tarda notte. Nel buio assoluto, l’unica luce naturale era quella delle lucciole.

    Mi sono svegliato con gli occhi aperti, in attesa dei sussurri di qualche pajé. Non sono arrivati. Abbiamo allora salutato l’ora del caffè — semplice, come tutto lì, ma sufficiente per prepararci ai cinque chilometri di discesa ripida, capaci di annientare definitivamente qualsiasi ginocchio scricchiolante.

    Durante il ritorno ci siamo imbattuti in una piacevole sorpresa: una riserva archeologica. Frammenti di ceramica dei nostri antenati. In quei luoghi vissero i Munduruku. Si suppone che ogni pezzo abbia circa cinquecento anni, sepolto dalle intemperie della foresta primaria. Chi tenta di portarne via uno come ricordo, se lo vede riprendere dal Mapinguari.

    Giunti a valle, abbiamo concluso la spedizione attraversando igapó che ospitano caimani e aquile arpie, tra la foresta e il fiume immenso. Un viaggio nel silenzio degli dèi.

    Poi siamo rientrati alla nostra base, ad Alter-do-Chão. È rimasta alle spalle un’altra tra le tante esperienze vissute in armonia con questo humus vitale.

    Questa narrazione è un atto argomentativo inserito in un contesto culturale, attraversato dal momento in cui l’Amazzonia invoca la propria sopravvivenza. È alfabetizzazione intesa come pratica sociale di chi si riconosce nella pelle della foresta, dei fiumi e dei popoli. Nulla in questo insieme di parole è privo di carattere personale — talvolta mitologico — ma tutto è condivisibile con chi respira l’ossigeno che sgorga dalla hylea amazzonica.


Testo originale in portoghese tradotto da IA (ChatGPT)

Roger Normando, professore di chirurgia toracica presso l'Università Federale del Pará.



A tal expedição ítalo-amazônica

“Eu sou de um país que se chama Pará
Que tem no Caribe seu porto de mar”

Paulo André e Ruy Barata, em Porto Caribe

Na porta da pequena pousada, em ritual de despedida, Marcello caminha cabisbaixo, respirando o ar cansado e com os olhos tomados de tristeza: é hora de partir. É a volta.

Foi uma viagem curta com a famiglia ítalo-brasiliana, mas intensa — apesar do joelho corroído, que insistiu em reclamar de um passado amaldiçoado pelo futebol e por longas cirurgias.

O epítome da jornada se deu quando chegamos a Jamaraquá, área da Floresta Nacional do Tapajós, no município de Belterra (Pará), após duas horas de barco a motor desde Alter-do-Chão. Na chegada, tambaqui e pirarucu nos levaram à completa plenitude prandial. Dali extraímos a seiva necessária para enfrentar os cinco quilômetros de subida morro acima, até alcançar o cume.

Com um cajado emprestado de Moisés bíblico, abrimos caminho até um riacho de águas diáfanas. Mergulhamos para sentir o frio da floresta nos pés — um banho para invocar os espíritos da mata e verter o chamego da alma. Após encher as garrafas com água da fonte, encaramos o último trecho da subida, íngreme e exigente — o joelho já resmungava.

A floresta guarda em cada um de nós um pouco de Curupira, Matinta-Perera e Boitatá, figuras protetoras daquele santuário, parte do imaginário nativo. A sensação era de estar em um ponto sagrado do planeta, sob sua proteção — desde que não magoássemos o império de Jurupari.

No ponto mais alto, arriamos as trouxas e nos preparamos para visitar a mãe de todas as árvores: a samaumeira de 60 metros, a apenas cem metros do apoio. O encontro foi extasiante. Uma lição de pequenez. Calculamos quantas pessoas, de mãos dadas, seriam necessárias para circundá-la: dezoito. Segundo o guia, ela acaba de atingir a maioridade — 500 anos.

De volta ao acampamento, com a noite caindo, seguimos até o mirante para contemplar o encontro do rio com a floresta. Uma imensidão capaz de preencher o vazio da nossa ignorância. Ao longe, viam-se carregamentos de grãos rumando ao Atlântico pelas veias largas do Tapajós, para ganhar o mundo.

Enquanto apreciávamos o horizonte, nossos guias preparavam a piracaia (do tupi pira, peixe; caia, assar), com tambaqui e mapará de sabores marcantes.

Ao final, as redes embalaram a noite após relatos medonhos da floresta e de seus encantamentos, narrados por um dos guias. Borrifos de chuva, o tenor das guaribas e o coaxar dos sapos acompanharam nosso descanso madrugada adentro. No breu absoluto, a única luz natural era a dos vaga-lumes.

Amanheci desperto, à espera de cochichos de algum pajé. Não vieram. Saudamos, então, a hora do café — simples, como tudo ali, porém suficiente para nos preparar para os cinco quilômetros de descida íngreme, capazes de aniquilar de vez qualquer joelho crocante.

No retorno, fomos surpreendidos por uma reserva arqueológica: fragmentos de cerâmica de nossos antepassados. Ali viveram os Munduruku. Supõe-se que cada peça tenha cerca de quinhentos anos, soterrada pelas intempéries da floresta primária. Quem tentar levar uma lembrança, o Mapinguari toma de volta.

Já embaixo, completamos a expedição atravessando igapós que abrigam jacarés e gaviões-reais, entre a floresta e o rio imenso. Uma travessia pelo silêncio dos deuses.

Depois, retornamos à base em Alter-do-Chão. Ficaram para trás mais uma entre tantas vivências harmonizadas com esse húmus vital.

Esta narrativa é uma atitude argumentativa inserida em um contexto cultural, atravessada pelo momento em que a Amazônia clama por sobrevivência. Trata-se de letramento como prática social de alguém que se vê na epiderme da floresta, dos rios e dos povos. Nada neste amontoado de palavras deixa de ser particular — por vezes mitológico —, mas tudo é partilhável com quem respira o oxigênio que brota da hiléia amazônica.