domingo, 8 de maio de 2016

São tristes os invernos

Marcelo, no Benguí, cultiva um pequeno jardim na frente de sua casa. Dia desses me ligou relatando febre, dor de cabeça e lassidão extenuante, compatíveis com essas viroses soltas por esse Brasil varonil. Ele me pergunta: Chikungunya, Zika ou Dengo meu? Impossível responder por telefone, apesar de seu bom humor, já que no ouvido clínico elas têm mais semelhanças que diferenças.
João, vozinho que mora em Ipiranga (SP), também zelava por seu jardim. Apresentou o mesmo quadro clínico, mas necessitou ir urgente ao Hospital do Servidor Estadual. O diagnóstico diferencial fechou em Dengue hemorrágica por conta da queda de plaquetas (células da coagulação) e falência multi-orgânica fulminante.
Ah! Como são tristes nossos invernos de norte a sul.
Ambos teriam que fazer exames para definir o diagnóstico, mas a mira era o algoz Aedes. Marcelo lembrou-se de sua infância interiorana e teve uma epifania: mesmo abatido pegou ônibus no rumo da Castilho França e tratou logo de aviar um mosquiteiro - sim, um mosquiteiro. Até procurou DTT, mas disseram que há anos não fabricavam.
Na manhã seguinte, Marcelo observou que o teto de seu mosqueteiro estava repleto de carapanãs. Também viu que sua vizinhança não havia controle dos criadouros, sem falar do lixo e esgotos a céu aberto, que pioram no inverno. Daí, para não encrencar com vizinhos resolveu apenas se defender com mosqueteiro. João, em São Paulo, não teve a ideia e sucumbiu.
Aedes aegypti, o vetor desses males, depende de condições sanitárias. Quanto mais precariedade, maior será sua condição de sobrevivência e multiplicação. Calor, água e gotícula de sangue humano são os ingredientes encontrados na natureza que lhes dão sustância. Acrescenta-se aí o tempo das chuvas. Os ovos colocados na superfície de um depósito de água parada eclodem e dão origem à larva, de onde saem adultos entre sete e dez dias. Quando a fêmea pica um “dengoso”, contrai o vírus, depois ela infecta – somente a fêmea – uma pessoa saudável com nova picada.
A estratégia de combate ao mosquito ficou clara tão logo o ciclo biológico foi esclarecido, há mais de cem anos pelos brasileiros Adolf Lutz e Emilio Ribas, na época da febre amarela. É bem mais fácil derrotar o criadouro do que a legião de vampirinhos sedentos, pois seus ovos são resistentes e podem ficar viáveis por meses, segundo Ricardo Lourenço, da Fiocruz. Pior foi ouvir dos sanitaristas que 80% dos criadouros estão nos lares. Isso dói. É como se fôssemos culpados da convulsão febril de uma criança, ou da morte do vovô João.
Ah! Como foram tristes nossos invernos...
Com esse diapasão, Oswaldo Cruz erradicou o mosquito em 1903, no Rio. Ele dirigiu a “brigada mata-mosquito”, plano de higienização da cidade. Adentrou nas casas valendo-se de um tribunal exclusivo para esta causa. Erradicou o Aedes, ganhou estátua de herói, mas mesmo assim cidadãos viram sua privacidade invadida.
Os mosquitos zumbizando e a nossa modorra intelectual estão deixando rastros de negligência na escalada de mortes nesse país, a ponto do mosquiteiro ser quesito básico de segurança. Se o discurso político é o da anti-pobreza, desfechos como o do vovô João revelam notas fúnebres das mortes inaceitáveis.
Noves fora: zero. Faltam-nos Oswaldos e sobram cruzes em nossos quintais. Como ainda serão tristes nossos invernos!

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Iguana iguana

Imagem: Scylla Lage Neto


Terra natal
lugar para morrer
Waremoko*

Mansaku Itami

*nome japonês da planta pimpinela (homófono da frase "eu também, portanto...")



domingo, 1 de maio de 2016

Entre bananeiras que separam quintais

...mas o avanço da ciência esmaga as obras-primas
Julio Verne, em: “Da terra à lua”

Vivia noutras esferas, o menino. Sempre que o chamavam para jogar bola de gude ele se esquivava e danava-se a trancafiar-se no quarto que dividia com três irmãos. Na boca da noite se esgueirava pela janela da casa a apreciar lua e estrelas. Vez por outra ia à varanda olhar a rua ou ao quintal apreciar o céu, sem passar além das bananeiras que dividiam o quintal vizinho, onde guardada estava a surpresa dos anos vindouros...
Ficou assim depois de ler Julio Verne. Passou a desejar sondar mundos abissais e interestelares quando a noite vestia aquele mundo.
Após mirar céu e seus olhos serem invadidos pela escuridão do lugar, baixava a cabeça e dava noutra varanda, pegada à sua. Lá ele descobriu que tinha uma luz de vela dentro de uma menina que crescia e sonhava com livros. O menino Julio no nome estava sempre a olhar aquela menina que, no facho de suas retinas, achava foco na pele da leitura dela.
Quem seria?
Foi depois de uma estação chuvosa de inverno amazônico, em que corpos adolescentes arrancaram suspiros de árvores, bichos e crepúsculos cúmplices; que muros romperam-se por entre bananeiras. Eis que iniciaram conversas.
Ele dizia que a lua não era longe e, subindo num balão cheio de um gás obtido do azoto, trinta e sete vezes mais leve que o hidrogênio, atingiria a lua após dezenove dias de travessia.
Ela suspirou; ar lhe faltou; quase desmaia. Ele a acudiu com água da cacimba, que havia numa cumbuca ao lado; achou que tivesse falado alguma asneira.
Ela recobrou-se depois de duas goladas, e disse:
- Não. Nada de asneira. Foi um certo Hans Pfael, de Roterdã, quem disse isso.
-Sim, é verdade, respondeu Julio, estupefato e com os olhos arregalados.
- Agora entendo o porquê de seu nome. Uma homenagem a Julio Verne?
-Sim. Foi meu pai quem alcunhou. Ele costumava lê-lo.
Já recuperada, retornaram ao livro de Verne. Leram juntos: “Assim, há alguns anos um geômetra alemão propôs enviar uma comissão de sábios para as estepes da Sibéria. Ali, em vastas planícies, deviam fazer desenhar imensas figuras geométricas, por meio de refletores luminosos, entre outras, a do quadrado da hipotenusa. Qualquer ser inteligente, dizia este geômetra, deve compreender o destino científico dessa figura“.
Assim se descobriram leitores. Assim descobriram a química do amor entre páginas de ficção científica.
Eles não se abalaram com o vendaval de palavras que ululavam pelos quintais, entre bananeiras, feito cercas que separavam os dois terrenos. Palavras novas eram agraciadas com beijos demorados e abraços em redemoinhos.
Os curumins cresciam e continuaram lendo a dois. Seus amigos não entendiam aquela mistura de sentimentos.
Outros curumins surgiram após desenlaces de DNA. As horas suprimidas a passar, de uma âmbula para a outra, feito relógio de marcar tempo, transformaram-se em livros espalhados pela casa, alargando-lhes o quintal e a vida.
Hoje as histórias contadas inundam a varanda de lembranças tantas. Lembram juntos e acompanhados dos filhos a epopeia das bananeiras que faziam fronteiras e se tornaram ninho de aventura quando olhavam para o céu.


Em parceria com Abel Sidney

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Wavelength

Imagem: Scylla Lage Neto



"Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada."

Cecília Meireles

segunda-feira, 28 de março de 2016

Ivete

Ivete. Eu admiro Ivete desde que a vi pela primeira vez na escola da minha filha. Eu havia passado por ela na rua, enquanto caminhava para buscar Helena. Ivete estava sentada no chão, na calçada perto do colégio. Ela vendia incenso. Negra. Corpulenta. Cabelos trançados. Rosto sereno e simpático. Trocamos algumas palavras durante a espera pela abertura do portão e soube, dentre outras coisas, que ela tentava uma vaga para a filha em uma escola mais próxima do seu trabalho, porque a falta de vaga no refeitório do “Bernardino Rivadavia” inviabilizava as tarefas dela. Eu não havia pensado em trocar de colégio, mas insistia pela abertura de vaga. Ir quatro vezes ao colégio durante o dia, de fato, é bastante inconveniente para a rotina diária. Conversamos sobre o uso de turbantes, ela mostrou fotos das tranças que faz nas praias. Só descobri seu nome no segundo dia de conversa. Perguntei como andava sua procura por outro colégio e ela disse que seu marido, finalmente, conseguiu uma vaga no refeitório da escola. Tudo resolvido. Disse também que vendia coisas lindas para as crianças, como meias. E me mostrou alguns pares. Vi que não tinha nenhum para os pés de Helena, justifiquei e ela confirmou quando viu os pés da minha pequena grande garota. Nesse meio tempo, ela me contou que era da Libéria e haviam sido colonizados por norte-americanos, por isso falava inglês; ainda que já estivesse adaptada ao espanhol há oito anos. Disse que eu deveria conhecer a África, tanto que gosto de turbantes, e que eu deveria pedir a Deus que solucionasse a falta de vagas no comedor. Eu senti muita sinceridade, nenhuma ironia, na sugestão dela. Ivete contou que seu marido solucionou tudo, porque não a queria ver vendendo coisas na rua enfrente à escola da sua filha. Ele dizia pra ela que a filha sofreria chacota dos colegas... ... ... Ivete disse ainda que se sente sufocada com tantos prédios, em Buenos Aires. No seu país, respira melhor o ar que a natureza oferece. Eu comparei à Amazônia, onde eu também podia encontrar lugares maravilhosos para me refazer. Eu e Ivete sempre conversamos na porta da escola. E depois seguimos nossos rumos. Tão distantes e tão próximos.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Tudo está cravado na memória


Tem espaço para repudiar a violência contra as mulheres? Tem, sim!


Tem espaço para criatividade de cada um sair às ruas? Tem, sim!


Tem espaço pra todo mundo.


Todo 24 de Março, desde que estou na Argentina, sinto uma cuíra enorme para participar da marcha pelo dia da memória pela verdade e justiça. É um marco contra a ditadura genocida, que eclodiu há 40 anos aqui. Respeito minha cuíra. Sempre vou. Este ano, houve um clima especialmente raro. Primeiro porque o presidente norte-americano, Barack Obama, deixou seu rastro na capital, onde se concentra o maior número de pessoas nas ruas. Grandes protagonistas dessa luta, representantes das organizações Madres y Abuelas justificadamente repudiaram a presença da autoridade máxima do país yanke, reconhecidamente cúmplice do golpe. Eu também achei um acinte. Mas ele não chegou à toa, afinal, depois de uma década de governo popular, está no poder Mauricio Macri, muito alinhado às políticas norte-americanas. Dias antes da chegada dele já se via cartazes de repúdio nas ruas.

O processo de construção da marcha não contou com o apoio do Estado desta vez. E isso se notou na marcha. E se notou pelo porte dos carros-som, da estrutura de palco e telão, das programações das tv´s Pública e do Ministério da Educação, o canal Encontro. Uma pena. Uma perda. Ainda assim, nenhum passo atrás. É o bordão. E foi seguido criteriosamente. Estavam juntos movimentos da sociedade civil organizada, político-partidários e sindicais. Estavam juntos coletivos que atuam na área dos direitos humanos, de diferentes frentes de batalha. Reconhecia-se cada um. Gente com bebê, com crianças e jovens; gente com mobilidade reduzida. Parece um dia de total cumplicidade, um pacto velado.

Aqueles gritos de guerra que ouvi desde o metrô que usamos para nos deslocar até a Avenida 9 de Julho se repetiram outras vezes nas ruas. E muitos outros também. Cada um a seu tempo. As Madres e Abuelas sempre por primeiro na marcha. Elas são protagonistas desta luta e são reconhecidas como tal.

Minha filha acompanhou um pouco do que já sabia pelo que ouviu de mim e da professora na escola. Observou, perguntou...fez suas leituras. Fomos em busca de um posto do jornal Tiempo Argentino. O diário não sai às ruas desde fevereiro, quando o grupo de comunicação do qual faz parte deu a ordem. O Grupo 23 não paga os mais de cem trabalhadores desde dezembro, nem salário, nem o meio décimo terceiro. Os trabalhadores se mantêm em luta e decidiram fazer uma edição especial sobre os 40 anos do golpe genocida. Fizeram parceria com uma gráfica que também já passou por situação semelhante e hoje é uma empresa recuperada pelos trabalhadores. Foram 30 mil exemplares, em menção aos 30 mil desaparecidos registrados. Quem sabe com a renda os operários da informação não conseguem minimizar suas dívidas acumuladas pela imperícia dos empresários?

O dia também é de felizes encontros. Parece incrível as pessoas encontrarem amigos em meio a multidões. Eu encontrei. E os que eu encontrei também encontraram. “Ela foi uma das seqüestras na ditadura. Foi pra um exílio e teve uma experiência em Cuba que foi retratada para um filme que estréia no próximo dia 7 de abril”, me disse Fábio Oliva.

Eu só tenho a agradecer a oportunidade que sempre alimenta a esperança por um mundo melhor.

Música sugerida: Todo esta guardado en la memoria, de Leon Gieco.

sexta-feira, 18 de março de 2016

À sombra da tapera

O verbo sagrado pelas remotas paragens...
William Blake

Quem de nós, entre uma aula outra na faculdade do largo de Santa Luzia não foi até o PSM realizar uma sutura ou prescrever “uma” Benzetacil? Para muitos, o velho PSM foi o quintal da faculdade onde albergou nossos primeiros passos, ainda quando a chuva do conhecimento apenas respingava nas apostilas da Bettina Ferro ou nos cadernos de Patologia do Ronaldo Araújo - mestres, ambos. Foi tapera onde ouvimos as primeiras dores do alheio, assim como as lamúrias de seus familiares.
Naquela Belém de outrora não havia pós-graduação. Fazíamos o papel do médico residente de hoje, guardadas devidas proporções da comparação. Resultado: muito precocemente abandonávamos o cós das calças dos professores e nos enfurnávamos no PSM.
Vários de nós, na calada das escuras, terminávamos as operações que os cirurgiões começavam, ou, iniciávamos as que eles findavam. Baços e segmentos de intestinos lacerados por bala, faca, eram retirados. Fígados eram costurados. Saíamos com os sapatos tintados de sangue ou com pitiú das apendicites “sufuradas”. E o que dizer dos puxões de orelha da Estelita, técnica de enfermagem de quase dois metros de altura e meio de largura que, por “galinharmos” muito, só falava berrando: “vumbora, vumbora, que cedo tenho Ver-o-Peso”.
Certa vez dois gatunos, fingindo doença, internaram-se, proclamaram assalto e fugiram com pertences de vários pacientes, médicos e funcionários. Denunciados, a policia foi atrás e trocou tiros. Um dos meliantes foi atingido no torso, tombou e virou paciente. Foi prontamente acudido e levado para o próprio PSM e lá encontrou os mesmo médicos furtados. Atentos, eles prestaram o atendimento e o dito sobreviveu -mas sem devolver os pertences. Em contrapartida, teve que deixar quase dois litros de sangue no frasco de drenagem, pedaço do pulmão na mesa, parte do intestino no balde e a algema sedenta no leito do CTI.
Todo pronto-socorro tem histórias perdidas em madrugadas inesquecíveis, mas guarda outras amargas que o fel da profissão sempre destilou. Foi quando certa um catedrático da Unicamp, de passagem por Belém, quis conhecer o tal, de tanto que eu falava em congressos, de tanto que escrevia em publicações científicas... Não passou da porta. Ele se amofinou; eu me acabrunhei.
De uns tempos prá cá aquela velha tapera já vinha se desfigurando à sombra de um passado longevo e memorável a cada grito de dor, a cada incisão. O fim do ciclo ocorreu há oito meses. Um incêndio pôs pacientes e médicos pra correr, e ainda ceifou três acamados que não tiveram como se jogar da janela do segundo andar.
Após oito meses de reconstrução (95 anos de idade), ele volta a funcionar no mesmo loci. Ressurge das cinzas e acaba de ser inaugurado, mas já ganha manchetes tristes em meio a paredes novas, pinturas alegres, chão vistoso e focos com lâmpadas de LED. A reinauguração simbólica foi questionada numa operação - não cirúrgica - que ainda é investigada, e mereceu estampa nos jornais e redes sociais.

Aquela dócil tapera, hoje sinapse da minha memória reativada é, para a maioria de uns tantos, avos de um passado intransferível. Que a sorte atomize-nos o costume de lembrar as páginas embaçadas pelo tempo, ruínas da memória ancoradas na tapera que fez sombra para nosso aprendizado. Assim o verbo sagrado passa por remotas paragens... remotas paisagens.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Estou de volta pro meu aconchego



Clique meu, de amadora e pronto, falei. Ah! Ri muito desses óculos do Pepe.

Teatro da Sociedade Hebraica Argentina. Dia 17 de março de 2016. As ruas de Buenos Aires ferviam a 37 graus. E a fila era grande para entrar no auditório, meia hora antes do ponteiro acusar o início da aula inaugural do curso internacional América Latina: cidadania, direito e igualdade. O silêncio da imprensa diante da presença de José Pepe Mujica na cidade me causou uma sensação estranha. Sempre lembrava da presença avassaladora do ex-presidente do Uruguai e...

O salão do lado de fora estava preparado com telão e amplificador para garantir acolhida a quem não conseguisse lugar no plenário da casa fundada em 1968. Gente ao meu redor guardava lugar para outros que, em tese, estavam por vir e eu não sabia se era certo ou errado deixar as pessoas presentes em pé ou não enquanto isso. Os privilegiados chegavam a seu tempo. Entre eles, o candidato da Frente para a Vitória a prefeito da capital da nação, Mariano Recalde. Tão bonito quanto nas peças de campanha.

Helena coloca nos meus ouvidos a música Tá Tranquilo, Tá Favorável. O bordão eu usava sem nem saber que era um funk e a falta de ar-refrigerado dizia pra mim que não tava mole, não. Sindicalistas se reconheciam e se cumprimentavam longamente. Uma das responsáveis pelo curso é a uma faculdade criada por iniciativa de 40 organizações sindicais, a Umet.

O burburinho já se notava mais alto. As palmas eclodiam às 16h30. Era tempo de começar. E minutos depois os aplausos eram para o simpático Pepe, de mãos dadas à sua companheira e senadora Lucia Topolansky. Feições suaves e meigas, pisada firme. Gostei de escutar de Pablo Gentili que agradecia a ela em especial, porque tem seus méritos próprios na luta por um mundo melhor, ainda que tantas vezes esteja como a parceira daquele esposo posto à prova.

Hipnotizei com aqueles dois algodõezinhos embelezando o palco até o fim da tarde, sob sequências de euforia do público. Até porque... o discurso era pra isso mesmo, era uma animação política, um jorrar de flores de esperança, um sopro de inspiração.

E eu vibrei quando uma das moças da organização do evento se sentou numa cadeira sempre apontada como ocupada. Antes que a dona do trono repetisse para a milésima pessoa que não podia, a moça retrucou qualquer coisa baixinho e ambas ficaram caladas lado a lado.

Uma hora de conferência. Uma despedida poética levantou suspiros engasgados quando aquele senhor disse que se sentia como um jovem, mesmo à beira do fim.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Geração Smartphone II – a infomaré

                                                                                                                                                        Eu quero entrar na rede 
                                                                                                                                                                pra contactar 
                                                                                                                                                    os lares do Nepal, 
                                                                                                                                                       os bares do Gabão... 
Gilberto Gil, em: Pela internet

Semana passada Amaury Dantas escreveu, ambientado no metro quadrado de um elevador, a relação entre os Smartphones e essa geração de adolescentes. Dois cirurgiões experientes, Hamilton Petry (PUC-RS) e Rami-Porta (Universidade de Barcelona) e a jornalista Erika Morhy (Buenos Aires-ARG) atinaram para o tema, n´outro lado da linha.
E o que esta contra-geração poderia esperar desses dispositivos? Gilberto Gil se oporia a Bob Dylan e diria que a resposta não vem soprando no vento, mas nos gigabytes que compõe as velas da jangada que veleja nessa infomaré.
Foi na vazante da maré, às margens plácidas da baia do Guajará, em momento de visitação e laser nos pontos turísticos de Belém que, em 2014, durante um congresso de cirurgia dentro do magno congresso médico-amazônico, que fundamos, no WhatsApp, a rede social CONNECT (Sigla do Centro-Oeste, Norte e Nordeste de Cirurgia Torácica). Conclamamos todos que tivessem Smarts a compartilhar esse novo mundo virtual para ampliar abraços. Começamos discutindo temas gerais a casos clínicos mais simples.
Salvo engano foi de Natal-RN que se postou o primeiro caso complexo, sobre cirurgia de costelas, empregando a técnica do simpático Jean-Marie Wihlm, francês que vez por outra está entre nós. A interatividade da discussão, com participação dos diversos cirurgiões espalhados pela floresta, sertão e cerrado ficou interessante e ganhou amplitude clínica. Mais casos vieram e acabamos descobrindo uma fonte farta de aprendizado e, acima de tudo, de convivência saudável.  Só não ficou mais atraente porque sempre aparecia uma latinha de cerveja no meio da discussão quando a sexta-feira vergava à frente.
 Reciclamos a latinha. Criamos um segundo grupo, o CLINICAL CONNECT, com os mesmo atores, porém com enredo fechado para discussão clínica - para não se perder o foco na medicina. Elias Amorim, do Maranhão, abriu a sessão. Aproveitou e pediu a inclusão da poesia sutil. Sem perder fôlego, o grupo seguiu a plenos pulmões. Hoje vários casos são discutidos semanalmente e a discussão pega vento ao baixar vídeos, fotos, radiografias e artigos científicos.
O baluarte do grupo é Manoel Ximenes, de Brasília, 81 anos e dono de uma ativa participação, dando oportunidade ímpar de abençoar a todos com sua experiência. Mas a candura da rede é embalada por Paula Ugalde, baiana de coração-pulmão, mas que hoje é professora e cirurgiã da Universidade de Laval (Quebec-Canadá). Ela sempre está enviando casos instigantes com decisões mirabolantes e uma disposição inebriante, já que é uma das expertises mundiais na área da tecnologia e avanços em cirurgia.
Assim vamos injetando ares em nossos Smartphones, sem dispensar sequer o sagrado domingo, as horas de descanso ou mesmo o metro quadrado do elevador.
O fato é que desde a revolução industrial, a odisséia da tecnologia muda como o ritmo do mar, que agora veleja nesta vastidão das redes sociais a bordo de um Smartphone, sem exigir senha e senilidade. Fatal, mesmo, é olhar a biruta e saber rumo do vento, para que se possa ajustar as velas e seguir viagem. O resto é sombra criptografada do passado.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Geração Smartphone

                                                                                     Amaury Dantas, médico e escritor

Entrei no elevador e encontrei duas adolescentes conversando. Como todas adolescentes, belas, bonitas e agitadas. Uma dizia não acreditar em políticos, são todos ladrões, bandidos. E a outra, ainda que não parasse de mexer no celular, balançando a cabeça, concordava plenamente. Intruso, perguntei: Quer dizer então que nas próximas eleições vocês não votarão em ninguém? Espantadas, entreolharam-se, e uma disse: Meu voto é nulo. E a outra ficou calada com sorriso impune.
A viagem no elevador foi rápida. Chegando ao térreo, como bom cavalheiro, abri a porta e as damas saíram com seus whatsapps e cabelos esvoaçantes. Parece que iam para academia de ginástica.
Fiquei pensando o quanto a juventude vem sofrendo sem a percepção exata das responsabilidades do estado, diante das trapalhadas do governo e sem se dar conta do poder da sociedade. Afinal, estado, governo e sociedade são entidades diferentes e nem sempre seus conceitos são bem compreendidos.
Gostaria imensamente de ter-lhes dito que fora da política é impossível sonhar com mundo mais justo e democrático. Que sem democracia, sem estado de direito e sem eleições livres, jamais haverá possibilidades de mais cidadania, educação, emprego, melhor distribuição de renda e, por conseguinte, menos corrupção, violência, autoritarismo, assaltos, sequestros e mortes.
Perdi oportunidade de dizer-lhes que nenhuma forma de ditadura vale a pena porque castram a liberdade de opinião, de expressão, de associação. Já vimos esse filme. Já vivemos isso. Mas elas, não. Votar nulo ou branco é tolice, é omissão. 
Queria também que elas soubessem que o romance Cinquenta tons de cinza é uma porcaria. Muito melhor ler o Pssica, do nosso Edyr Augusto, genial; que Umberto Eco, do Nome da Rosa, falecido na semana passada, é maravilhoso; que seria muito bom lessem a  entrevista que D. Erwin Kraütler – Bispo da Prelazia do Xingu – concedeu ao jornalista João Carlos Pereira, testemunho de humanidade, lucidez e coerência, digna de ser colocada 
em um quadro; e que o poeta dos Estatutos do Homem, Thiago de Mello, está de parabéns, pois acaba de completar 90 anos.
Enfim, não consegui lhes dizer, sem moralismo careta, que a vida não se resume a Big Brothers, Coca-Cola, Smartphones, Calipso e academias de malhação. Talvez na próxima viagem.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Argentina: de volta ao passado

A Lei de Meios da Argentina nem bem começa a ser implantada e já está claramente ameaçada pelo governo do presidente Mauricio Macri. Basta dar uma passada de olhos nos protestos e cartazes, que dizem: na lei de meios não se toca.

Democratizar os meios de comunicação tem sido bandeira de luta em vários países, alguns deles com nítidos avanços neste sentido. Talvez a Argentina seja um dos mais recentes a comemorar o inicio da implantação da Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual (Lei 26.522), ou simplesmente Lei de Meios, que tem sido amplamente debatida há mais de 20 anos. O cenário midiático no país azul e branco é muito parecido com o do Brasil, tanto no que se refere à concentração quanto às garantias de liberdade de expressão, para citar apenas dois elementos que compõem este cenário.  Aí está o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) que bem ilustra essa batalha.

A contextualização exposta aqui está a serviço de um momento crucial que vive a Argentina sob a égide de uma espécie de neomenemista, poderia-se comparar. Mauricio Macri tem provocado indignação de todos que fazem parte da rede de direitos humanos, que segue viva.

Dezenas de membros do coletivo Coalizão Para Uma Comunicação Democrática (CCD) estiveram reunidos na tarde de ontem (23) no auditório da Associação Argentina de Atores. Membros de sindicatos, cooperativas, organizações partidárias, movimentos sociais e profissionais liberais ligados à defesa da Lei de Meios e seus princípios afinavam a orquestra que sai às ruas no próximo dia 3. É quando se realizará o Congresso Nacional da CCD e se fará um ato público que culmine com a sensibilização de parlamentares, para que ajudem a garantir a aplicação da lei, ameaçada por decretos do novo presidente.

Aliás, em dois meses de governo, Macri já emitiu mais Decretos de Necessidade e Urgência (DNU) que sua antecessora, Cristina Kirchner, em dois mandatos presidenciais.

Durante a reunião, um assunto veio à tona e tem duas vias de observação. A via imediata diz respeito à liberdade cerceada para a cobertura de manifestações públicas, como a que ocorre no dia de hoje (24) em todo o país, quando os funcionários do Estado farão uma greve nacional. Um dos aspectos definidos pelo protocolo de segurança de Mauricio Macri informa que a imprensa ficará confinada em espaço previamente definido e gradeado até autorização da polícia, para que possa se misturar aos manifestantes. Além de poder ser compreendida como uma clara ameaça direta aos comunicadores, pode também ser analisada como um severo golpe à liberdade da atividade jornalística em si. Abro um parêntese para lembrar o valor que têm as fotografias de protestos durante a ditadura para que se chegue a informações queimadas em fornos, em memórias, em porões escabrosos das tripas humanas.

Membros da CCD tem se organizado em quase todo o país, para contribuir com um documento a ser defendido no próximo dia 3 de março, em Buenos Aires. Deixo aqui os 21 pontos, apenas em seus títulos:

1- A comunicação é um direito humano que inclui todos os suportes e plataformas
2- A regulação deve promover a diversidade e o pluralismo
3- Função ativa do Estado
4- Preservação e sustentabilidade do novo sistema de meios
5- Serviço e interesse público
6- Não discriminação e acesso universal
7- Autoridade com participação federal e social
8- Publicidade estatal com sentido inclusivo
9- Propriedade diversificada com pluralismo
10- Licenças locais e nacionais
11- Conteúdo nacional, próprio, local e independente
12- Privacidade dos dados
13- Neutralidade e interconexão transparente
14- O acesso à internet é um direito humano
15- Participação plural na governança das comunicações e internet
16- Acesso à informação publica
17- Soberania nas comunicações
18- Conteúdos de interesse relevante
19- Direitos do publico e dos usuários dos serviços audiovisuais e das TIC`s
20- Criação de emprego nacional digno
21- Regulamentação com plenos direitos

Sobre o cerceamento à liberdade de expressão na Argentina, o jornalista e professor Laurindo Leal Filho também escreveu e recomendo.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Temos tudo a ver com isso

Numa passada de olhos sobre o que já se denominou #macrismo, na Argentina, para se referir às políticas do recém eleito presidente Maurício Macri, podemos chegar a algumas suposições que não são improváveis, ainda que sejam suposições. De cara, sua posição dilacerante sobre o Parlamento – para se ter uma leve idéia, já foram emitidos mais decretos que os dois governos de Cristina Kirchner. Não menos autoritária e atávica é sua presença sobre tudo o que diz respeito aos meios de comunicação, tema que se encaminhava para o aprofundamento da democratização há cerca de 20 anos, até alcançar a comemorada Lei de Meios. O cerceamento tem sido cada vez mais explícito e duro, o que volta a dar fôlego aos grandes monopólios midiáticos. E uma terceira linha que vem se demonstrando também prioritária ao #macrismo é o esfacelamento das organizações populares, forte característica do país do “panelaço”, politizado, sim, e muito!

É uma cena de caos e barbárie? Eu diria que é. Mas como de um limão é possível se fazer uma boa limonada, voltam com mais vigor até mesmo organizações que haviam arrefecido, dadas as conquistas que ajudaram a construir.

É simplesmente impossível não se contagiar com o clima político da Argentina. Tudo pulsa forte demais. Podem ser focadas as pelejas: uma passagem no metrô subiu de 5 pesos para 10 pesos, em dois meses, para as pessoas que não usam o cartão específico do serviço. No caixa do supermercado, uma senhora pergunta ao atendente a razão de um aumento de 300% no valor de um produto. Aposentados perdem seus subsídios e milhares de trabalhadores são demitidos, com nítido indício de perseguição ideológica. Ué, e as promessas de campanha, que garantiam um país da alegria? Esse está estampado só nas capas de jornal, claro.

Depois de manifestações multitudinárias que já aconteceram desde dezembro e da agenda que segue farta para protestar contra as decisões #macristas , está na agulha a greve nacional de funcionários do Estado, dia 24. Dia 3 de março chega o grande encontro e marcha da Coalização para uma Comunicação Democrática (CCD).

Que venham mais boas novas! Mas atenção: elas não chegarão pelos tradicionais veículos de massa. Não chegarão! E os veículos populares sofrem perseguição pungente dia após dia. Temos todos a ver com isso. Lembremos sempre que muitos países latino-americanos foram cúmplices em golpes de estado e que determinações estrangeiras incontáveis vezes foram responsáveis por nos deixar de joelhos no chão e cabelos em pé.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Balacobaco, telecoteco e ziriguidum

“Carnaval chegou ao fim / ai de mim / Só me sobraram os sermões / quando rasguei a fantasia e as ilusões”, confessa-me o poeta da mercearia Antonio Corisco, no meu zap particular, ao final da festa de Momo. É verdade, Corisco! Quantas ilusões de carnaval desescondem-se nos dias de folia. Desfolham-se as piratas, pierrôs, colombinas, palhaços e tantas outras... tantas ilusões, tantos relatos...
A gente se imiscuindo é que colhe material para bons relatos, já dizia Stanislaw Ponte Preta, jornalista e escritor, em suas crônicas do cotidiano do Rio de Janeiro. E o melhor lugar para se coletar eventuais histórias é o Carnaval de rua: seja do Rio (ou do sambódromo, mesmo), Salvador, New Orleans, Barranquilla, Veneza ou mesmo da Cidade Velha. Não basta ficar de longe só escutando samba, espreitando o bumbum paticumbum e espantar o calor com abano. Tem que ir pra rua e se fantasiar de balacobaco, telecoteco ou ziriguidum e deixar a água rolar, ou melhor, o suor escorrer até o dedão do pé, chegar em casa com a planta do pé esfolada, camisa cheia de batom e com inhaca de derrubar gambá. Depois a gente coloca gelo na cabeça, puxa cadeira, senta, coloca a perna pro ar, conta umas prosas e reinventa outras.
Na verdade, histórias de carnaval funcionam como elixires para quem vive uma cultura doente. Ainda mais: tal arte pode ajudar a curar, ou pelo menos funcionar como paliativo às nossas agruras que virão nos vindouros dias do ano.
A história de folias tem sido mais mais valiosas que a de nosso país, que anda sem luz e preso pelo silêncio da cruz que nos espanta a cada delação. Se o drama é a distancia entre o que pode ser dito e o que não deve ser mencionado nos clássicos das páginas policiais de Brasilia, no carnaval isso não existe e tudo fica desenhado nas fantasias ou pichado nos tapumes das obras da cidade. Exemplo foi visto na rua do Catete, Rio de Janeiro, próximo à saída do irreverente bloco “Balança meu Catete”, um desses dizeres: “A arte veio salvar o que estava perdido”. Quem assina é Ellion, poeta urbano.  Acredito no Ellion, como acredito na minha ciência preferida.
Na zona norte, vila Valqueire do mesmo Rio de Janeiro, desfilava no bloco de sujos uma jovem senhora com pouco mais de 70 anos, que tinha uma energia conspirada em contos infanto-juvenis. Espremida na multidão que fazia a curva na rua, mas na audição da marchinha conhecida na voz de Cássia Elleres, ela cantarolava feito soprano, gesticulando com a mão direita, onde empunhava um sapo, e na esquerda a coroa de um príncipe momo - nada de rei gordo com abdome flácido. Pedia um beijo na promessa de transformar seu beijoqueiro em príncipe brejeiro de Valqueire. Ganhou vários singelos beijos e saiu maravilhada com seus pretendes. Bem provável que tenha acordado na quarta com o seu teto pintado na cor azul e sem nuvens no seu céu.   
O céu do Brasil, na quarta, estava cinzento. No país do mosquito e dos hospitais abarrotados de esfaqueados e baleados, sobraram fantasias rasgada e ilusões de amores vis. Conforme sentenciou meu poeta da mercearia, voltaremos a viver os sermões dos impedidos de folia e sem arroubos de genialidade, mas estaremos com a alma mais leve para enfrentar o ano que acaba de começar.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O previsível também impressiona

Tem muita coisa que é previsível, mas que mesmo assim assusta ou impressiona. A mim, sim. O céu estrelado ou enluarado sempre, sempre me encanta. Olhar o mar ou o rio inevitavelmente me hipnotiza. Me apascenta o peito. Um conservador no poder me põe irascível. Não consigo controlar, mesmo sabendo que suas medidas sejam obvias. Maurício Macri, presidente da Argentina, por exemplo, tem sido um desastre pra minha sanidade.

Dá pra digerir um tipo que já publicou mais decretos, em um mês no poder, que a presidente anterior, em dois governos? Decreto! Sabem que nome se pode dar a isso, não é?

Ex prefeito de Buenos Aires e ex presidente do Boca Juniors, Macri já tem em sua conta a retirada do ar de mais de 10 mil arquivos da agência de notícias do Ministério da Justiça e Direitos Humanos. Matérias sobre o trágico incêndio em Iron Montain e a vinculação do banco HSBC na causa; a recuperação do neto de Estela de Carlotto, presidente da entidade Avós da Praça de Maio e que teve sua família destroçada pela última ditadura; sobre a proliferação de fábricas têxteis clandestinas; e sobre a violenta repressão no hospital psiquiátrico Borda. Que propósito tem alguém que pretende esconder informações deste calibre? Bom não é, mas como consegue fazer isso? Que democracia é essa que não consegue dar um freio?

É certo que a população argentina é muito combativa e tem se valido de diferentes meios para fazer frente a medidas insanas como estas. Um alívio. A imprensa brasileira, como também era de se esperar, anda caladinha, quando antes fazia questão de bombardear Cristina Kirchner. É absolutamente necessário lançarmos mão de diferentes veículos de comunicação para compreendermos cenários como estes. Se já é necessário para termos idéia do que ocorre no nosso próprio país, imagine no país alheio?

É por essas outras vias que conseguimos perceber o jogo que faz um governo que já se sabia conservador, mas que nos faz perder as estribeiras quando põe a mão na massa. Esse vídeo desmascara as motivações de demissões massivas e, sobretudo, seletivas na área da comunicação. Macartismo a pleno! Ainda nos dias atuais, sim. Eu me escandalizo.

No Brasil, nosso cenário não é favorável. Na área da comunicação também. Fiquemos de olhos bem abertos. Os trabalhadores, da mesma e de diferentes áreas, precisamos estar unidos para o embate. Ele não é simples e não é fácil, mas possível e profícuo. Nossa mídia continua dramaticamente concentrada e temos alguns braços dispostos a resistir e lutar. Respira. Nada.

Canais como o russo RT e o venezuelano Telesur podem ser acessados pela internet. Merecem seu crivo, como todos, mas oferecem outras versões que as jorradas pelos oligopólios.

Atualização: Lembrei de dizer que não ficou por isso mesmo a retirada das informações da agência de notícas do ar. Foi criado um espaço virtual para todas elas. Isso é bonito pra caramba!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Bananeira, Baudelaire e Bandeira. Exatamente nesta ordem

        Aprende-se com Charles Baudelaire que a literatura é o espaço para estender o imaginário e possibilitar a crítica ao real. Por isso hoje me achego ao pé do ouvido deste flâneur para narrar a morte de Bananeira, um miserável que tomou destino embrulhado no famoso poema "Pneumotórax" de Manuel Bandeira.

      Bananeira era um sexagenário guardador de carros que vivia pelas imediações da Bráz de Aguiar. Tinha as barbas por fazer, a lembrar Hemingway; era maltrapilho, mas tinha alma boa e guardava humor nas idéias. Contam que carregava na cintura um objeto para espantar pivetes. Quando pediam para mostrar, sacava um pente. Segundo ele, funcionava bem.  

     Amigos lembram que Bananeira tinha apenas o defeito de torcer pelo Paysandu e, quando seu time vencia saia plantando bananeira pela calçada, daí o cognome. Mas o que ele não tinha de bom, mesmo-mesmo, eram os pulmões sapecados da fuligem do tabaco.  

      Certa manhã, ao despertar de sono no próprio casebre, tossiu e escarrou sangue. Sem conhecer Bandeira, “Manuel” Bananeira fez auto-diagnóstico de Tuberculose, sem ter a chance de dizer trinta e três.

      Compenetrado na própria semiologia resolveu procurar o SUS na doce ilusão de que apenas meia dúzia de pílulas resolveria tudo. Começou pelo posto de saúde, mas ali ficou sem sentir melhora. 
   O sangramento se avolumava a cada dia, a cada tosse. Desesperou-se. Resolveu lançar sua dor no peito dos amigos da Bráz.

   Rena, comerciante local em quem depositava profunda confiança, foi seu ouvido. Sensibilizara-se ao ver raios de sangue num lenço, cujo relato era turvado de lágrimas. Dentro de seu altruísmo procurou ajudar o camarada que, dada gentileza, costumava, cedo-cedo, acompanhá-la para abrir a porta de seu comércio e trazê-la de volta até o carro, quando o expediente encerrava. Para os pingos da tarde, sempre havia o guarda-chuva-amigo do Bananeira.

    Rena pagou pelos exames, que chegou ao especialista em velocidade de 50 gigabytes, por fiar amizades. Diagnóstico diferencial: câncer avançado de pulmão.

    Do Hospital Barros Barreto, para recomeçar o périplo, foi encaminhado ao Ofir Loyola, aonde se confirmou o diagnóstico por biopsia. Era tarde. Bananeira faleceu com a pele do peito toda marcada para radioterapia que vislumbrava. Entre os primeiros sintomas e a caixa-grande o abraço durou 40 dias. Morte trágica em menos de 12 horas após a falta de ar instalada, destino comum ao tumor que mais mata homens.

    Bananeira foi um homem que viveu, ao sol, rodeado de amigos e, entre lua e estrelas achava no tabagismo, e muito provavelmente em outras fumaças, o grande companheiro para o vasto céu de sua solidão. O apurado foi apenas um detalhe nas calçadas da Bráz.

     Diante da surdez do SUS, os amigos da Braz acompanharam toda a peregrinação até sua chegada ao esquife. Viram também a Medicina anestesiada, pois os médicos se acostumaram a viver com esse caminho chafurdo que o sistema impõe.

    Diz-se que “Manuel” Bananeira morreu na ilusão da Tuberculose ao ser embalado no poema de Bandeira, mesmo sem saber dançar tango argentino.
Mas o que isso importa, se a lembrança maior era a de plantar bananeira?

Labareda do bando de Corisco

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Formigamento de adolescente - Reminiscencias de Belém

“...És minha morena, és a flor que cheira o Grão-Pará”
(Chico Sena, em: "Flor do Grão-Pará")

      Mulher nenhuma tem sentimento na mesma concentração química, na mesma osmolaridade, por isso, mulher não tem fórmula, não se reza cartilha. Decora-se tabuada, rua e a capital da Síria, mulher não. A poesia, assim como mulher, assim como o amor - também não. Poesia é o retumbar no peito ao se ler Drummond e Leminski. Mulher também. E beber o caldo da mulher desejada como se fosse todo o licor do amor pode causar formigamento incurável pelo resto da vida.
      Tenho um desses formigamentos para contar - comicha há tempo. Começou quando eu ainda morava no interior do Acre. Lá tive infância calma, mas já abicorava umas pequenas de longe. Algumas me viam como aquele riacho de águas calmas que passa por debaixo da ponte do Jardim de Monet, em Giverny, apreciada naquela pintura impressionista do museu D’Orsay. Às vezes eu também era poço fundo, feito cacimba de quintal. Neste eu me via em outras meninas. 
    Tenho essa pagina a ser colada no futuro do pretérito do verbo hoje, assim, fatalmente assim, entre o singular e o plural de minha memória, pois degustei benquerenças no escuro de minha alma ressabiada; escorreguei em fartas coxas divagadas em sonhos; brechei vazios da minha de minhas mãos cálidas e lambi os beiços da euforia com mel de açucena.
        Em seguida mudei pra cidade grande e senti a catarse. Foi um choque em alta voltagem de corrente alternada. Tudo é mais voraz, célere. Desde buzina dos carros, arranha-céus e do amasso nas meninas. Desta parte de Eros relembro que conheci o cinema de Maria Schneider, em “último tango em Paris”. Nela revi amores morais e imorais.
         Foi quando certo dia, empurrado pelo Tico-Mico, parei nas imediações da primeiro de março, centro da cidade, ao lado da sede dos correios, logo após a sessão de “último tango...”. Era domingo tarde da noite. Lá havia umas luzes vermelhas que borravam os batons rútilos das putas. Rolava muito brega alteado em estridentes agudos e, à meia luz, cigarros esfumaçavam a penumbra. Dedos e unhas pintadas estavam em consonância com lábios chameguentos, demasiadamente pidões. Era o beco onde procurava minha Schneider.
          Eu me achegava, em passos tímidos, àquele destino. Já próximo, ou melhor, com um pé dentro, um estampido ressoou da esquina... Gente corria pra todo lado. Fiz os kilômetros de vantagem que separavam meu quarto daquela cena de faroeste em velocidade de raio. Nem vi Tico-Mico. quando olhava à frente, parecia que a terra, ela sozinha, corria em errância. 
       O meu quarto, por uns tempos, transformou-se em cárcere privado. Papai e Mamãe desconfiaram, os irmãos não. Sempre que recordava o zunido, vinha-me o pensamento daqueles lábios cheirando espoleta dos revólveres da infância. Quando me deparava com o escuro dos rincões de minha casa me encontrava frente a frente com o terror. Sonambulei dias, pois a cidade eriçava meus pelos.
         Duas semanas depois botei a cara na rua. Vi Tico-Mico pelo canto de olho. Nunca mais tocamos no assunto. Tinha a sensação que havia mais ontens do que amanhãs e o que desejava mesmo era que o tempo se adiasse.
      Dia desses nos reunimos na esquina da padaria "a Bijou" e retomamos conversas pregressas. Ao tomar uns goles de cervejas puxei pela memória. A dele falhou, mas no olhar por cima dos óculos houve denúncia. Ele ainda está encarcerado no próprio passado, apesar de escapado daquela bala perdida. Percebia apenas sombra nas respostas dele.
         Belém espavoriu minha adolescência e me faz, nesse canto do relembranças, tentar ser abduzido àquela vida brejeira de rever amores vis que a precederam. Mas a Morena cidade cravou em mim a adolescência e os ganhos, de tal forma que eu não mais suportaria abdução e distância e, tal como um cego no meu próprio destino misturei os tempos do passado com os tempos vigentes. Deu em saudades polvorosas...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

De tanto falar à ousadia de não silenciar

Apresentar um livro sobre segurança pública, justiça e direitos humanos na Amazônia é uma ousadia. Não pelo tema em si. Afinal, falamos dele todos os dias, usamos diferentes ferramentas para discutir sobre ele, sentimos na pele a presença dele. Mas é por isso mesmo que o tema é ousado. A naturalização da violência é vil demais para cruzamos os braços e calarmos a boca, num esforço de avançar para uma transformação digna em sociedades que se crêem avançadas em tantos setores - sim, calar pode ser o mesmo que repetir exaustivamente, por isso empreguei aqui a palavra, que de pronto é antítese do falar.

Pessoalmente, poderia definir assim, como ousada, a iniciativa da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH), que apresenta pela segunda vez uma obra com esse perfil e definida no formato de caderno.

Abro um parêntese para o termo caderno. Ele pode ser vulgarmente compreendido como uma compilação de folhas a serem lidas e obedecidas, após milimetricamente copiadas numa clássica sala de aula. Eu prefiro acreditar que a obra foi batizada assim por sua livre construção, e construção de uma obra que instiga a expansão das idéias, não sua mera reprodução ou relatoria. E digo isso porque a organização desta obra, sob batuta da advogada Anna Lins, coordenadora do Programa Acesso à Justiça (PAJ) mantido pela entidade, foi feita de forma coletiva. Contou com a colaboração de diferentes segmentos sociais, movimentos populares, instituições de diferentes matizes e pessoas com diversos níveis de inserção política e compreensão dos assuntos que atravessam a questão da violência e da justiça no Pará e na região. Um método louvável, trabalhoso e principalmente responsável diante de tamanho desafio que é vencer a crueldade das violações que nos assustam a cada dia.

Em artigos coletivos ou individuais, o caderno “Segurança pública e justiça: direitos humanos na Amazônia” revela o compromisso de todos e cada um, aliados a uma entidade que se mantém e se renova há 38 anos na região. Aborda desde a criminalização de movimentos sociais a conflitos fundiários; do controle social frente à segurança pública ao papel da Ouvidoria do Sistema de Segurança Pública no Pará; da polêmica redução da maioridade penal ao genocídio da juventude negra; do controle da letalidade policial à tortura; do lugar da mídia nesse contexto às audiências de custódia; da desmilitarização da segurança pública ao atendimento a vítimas de violência no Pará. Dentre outros temas, também está a reflexão sobre grupos de extermínio e milícias no Estado, pauta que já rendeu a formação de uma comissão parlamentar de inquérito e a entrega do respectivo relatório ao governador do Pará. Pauta que ontem mesmo acrescentou um dedo de prosa nesta história.

Pulsante, a discussão sobre intolerância religiosa, ataques a terreiros e suas lideranças é assinada por Arthur Leandro. Ele abordará o mesmo tema na sede do Instituto Nangetu, durante a apresentação do livro ao público, amanhã (08), às 19h. A obra foi lançada no último dia 09 de dezembro e está à venda por R$30.

É meu convite aos leitores do Flanar. Vamos?

| P.S: Atualizado para revisão dos temas abordados no livro.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Dois mil e qualquer coisa

                                                   "mantinha os livros que se deveria ler para sobreviver aos remorsos”
Garcia Marquez, em: “Viver para contar”

       A gente vive vestindo o ano novo e desvestindo o velho toda vez que cruza por essa fronteira do tempo (tempo esse fatiado no poema do Drummond que vive rondando as redes sociais). Apaguei as velas de 2015 certo de acender a de dois mil e qualquer coisa engajado na fé do horizonte adiante que meu nariz.
         Se vou conseguir? Ainda não sei, mas soprei. E, confesso: fiquei ofegante, esbaforido. O problema maior é que a gente não consegue separar a vida, vis-à-vis, da poesia. É um avalanche de otimismo que ronda a virada de ano e aí tudo se mistura e vai dar nas sobras do banquete do primeiro de Janeiro.
      Mas não desdigo: 2015 foi um ano que não vai se acabar da memória. Ficará rastejando entre cochicho de rapariga e comentário de economista na GloboNews. Ano que a gente, quando lembrar, vai gerar um friozinho na espinhela e o trunfo final: EU SOBREVIVI. Isso mesmo, vencido no gogó, no peito e na etnia de cada brasileirinho pé-de-chinelo que nem eu.
        Vencer o quê? Toda essa corrupção sem meter uma bala na cabeça ou uma faca no precórdio. Se bem que ainda vem o imposto de renda e mais lava-jato. O projétil ainda pode estilhaçar meu cérebro, pois o tambor do revolver estará girando com o cano apontado para o céu da minha boca.
       Quem poderá me aliviar desse infortúnio será Moro e a Policia Federal, nossos heróis republicanos dos tempos modernos. Eles têm a chave do milagre da cadeia para 2019, pois dezesseis e os outros anos, segundo os babalorixás da economia, já foram pro ralo e só veremos resquícios dele nos anais de história do futuro - mesmo que os anais fiquem pra frente e nos acerte na ampola do Reto.
       Para me refazer dessa ziguezera até dois mil e qualquer coisa vou-me empanturrar de versos dos grandes poetas para sacudir minha alma, dar a volta por cima lá em Pasárgada. Também tomarei uns comprimidinhos de prosa anti-melancolia, à prova de bala, mas em doses máximas de Sildenafil, para sobreviver aos anos vindouros. Se resistir terei bom prognóstico e futuro ereto.
      Para isso convoquei os livros que ainda não li e meus parceiros de literatura, como José de Jesus Camargo (Zero Hora, Porto Alegre), Raimundo Sodré, Amauri Braga e Paulo Renato (O liberal) e o Elias Pinto (Diário do Pará). Também tem as subversões do Antonio Corisco, que diligencia os versos do Canil, essa ONG de vira-latas que vez por outra rosna à porta de boteco e nos faz rir feito Papai Noel.
        No campo assistencial tem ainda o Chico Chiquinho, filho da Margô que vive longe e fica me dizendo que o depois de amanhã é logo amanhã, só para eu logo visitá-lo. Tem ainda o natal dos ribeirinhos, que o meu irmão David faz no Tucumanduba e, como diz o Berê, é sentimento altruísta injetado direto na veia, com jelco 14, o mesmo que se usa nas salas de emergência. Sem esquecer o Abel Sidney, de Porto Velho, que carrega sua sagacidade nas palavras desde quando nos conhecemos às margens do rio Machado, que vai dar no Madeira.
        Para esses tenho endossado o fervor da fé nas palavras e ações. E que resolvi tomá-las pra mim, como o vinho do cotidiano, e fazer dessa cantilena a água de beber no cantil do meu imaginário de escrevinhador de bugigangas.
          Então, que venha 2016.

Labareda do bando de Corisco