domingo, 15 de julho de 2018
quinta-feira, 28 de junho de 2018
Academia Nacional de Medicina, 21 de junho de 2018
Senhoras e senhores, boa noite.
Saúdo
inicialmente o presidente desta casa, o acadêmico Jorge Alberto Costa e Silva,
o qual, em seu nome, reitero saudações aos demais colegas médicos e membros desta Academia.
É
uma satisfação muito grande estar aqui. Recebi o convite de supetão. Na
vida o bom chega de súbito. O resto, o que desperta tranqüilo é aquilo que, sem
darmos conta, já havia acontecido. Um convite desses alivia-me os nervos e abre
as comportas de
minhas coronárias, sem deixar de ser desafiante, trepidante.
De
imediato me fez rever outro recente convite feito pelo presidente do CBC, Savino
Gasparini, para escrever sobre Jesse Teixeira para o Colégio Brasileiro de
Cirurgiões. O texto será brevemente publicado na revista do CBC.
Eu me lembro muito bem a primeira
vez que vi Jesse Teixeira. Como tantos cirurgiões de sua geração ele está
indelevelmente ligado a uma paisagem de minha vida que me assinala no espaço e no
tempo de aprendizado.
A primeira frase que eu conheci foi:
“Sinto-me satisfeito quando meus estagiários acabam o período de residência
sabendo como drenar uma pleura”. Quando li a palavra estagiário tive uma
dor em pontada ao respirar fundo. Eu acabara de chegar aquele lugar e estava me
pondo em desafio - estaria eu ali apenas com esta
perspectiva? A de aprender a drenar tórax?
A partir desta frase nasce a ideia de pesquisar sobre a
vida de Jesse Teixeira. O alvo inicial seria um desafio literário. Como era o
seu processo de criação? Ler seus textos é serpentear por um labirinto de pensamentos
de causar cuíra no juízo. Esta ideia reavivou-se depois que li um discurso
realizado no Hospital Mandaqui, ainda na década de 70, porventura da abertura
de um congresso, em que ele reconstrói a história da cirurgia torácica como um
personagem que vagueia entre a cortical e a medular de uma especialidade que todos
tentavam decifrar.
O sentido educador e memorialista de seus textos elevam
aos recônditos de uma leitura palatável. Por ser autodidata na especialidade, pois
o professor não teve professor, quanto esmero havia ao construir uma cartilha
de rotinas, escrevendo sobre o que fazia e o que criava. Tenho quase todas
guardadas em minha casa, e me foram doadas pelo próprio.
Ele descreveu cada ideia, passo a passo, ao longo de seus
mais de 50 anos como médico. Desde o Broncobar, com o famoso sinal da gota,
para diagnóstico de
doenças brônquicas por meio de broncografia, até o seus clampes e no auxílio do pulmoventilador de JJ Cabral de
Almeida, seu fiel anestesiologista. Sobre tudo isso, ele escreveu como quem
prepara seus alunos para o aprendizado. Como se fosse uma cartilha de boas
maneiras.
Tem um grifo de Emerson, escritor americano que viveu
nos idos de 1800: If we encounter a man
of rare intellect, we should ask him what books He reads. Então eu ficava
me perguntando sobre Jesse Teixeira. De que fonte literária ele bebia, ao
escrever com tanta suavidade o seu pesado cotidiano?
Por intermédio de Jesse Teixeira Neto, fui revisitar a
casa onde ele morou e rever a família, na rua Cedro, em novembro de 2016. Lá me
encontrei seus filhos Bebel, Sebastião e d. Gleusa e fui muito bem recebido. No
compartimento onde d. Gleusa se encontrava, à minha espera, havia uma grande
estante, que ocupava toda a parede e estava socada de livros. Chamou-me atenção,
entre tantos autores universais, um médico que se transfigurou em escritor:
Pedro Nava. Nava era um memorialista, e penso que Jesse Teixeira tinha a
mesma verve memorialista. Um
pouco diferente de Jesse, Nava partia do problema (a desgraçada doença) para o
encantamento com a medicina. Tinha umas expressões que lembram, entre tantos, Oscar Wilde ou o
nosso Augusto dos Anjos, em suas perplexidades de pensamentos. Jesse era bem mais
sutil.
- Que pensas da vida? Perguntaram a
Pedro Nava.
- A vida é como um anfiteatro
anatômico: aí estudamos as chagas sempre abertas, vemos a podridão, o mal, o
horror, o cancro e o pior de tudo a “hipocrisia do otimismo”, tudo num montão
de lama – a sociedade.
— Que carreira pretendes seguir?
- A medicina.
— Por que a escolheste?
Porque é a que me oferece mais encantos, porque
por intermédio dela, estudarei este emaranhado de vasos, esta reunião de
músculos, esta teia de nervos que compõem este monte de elementos
apodrecidos."
Certamente, por
morar no Rio de Janeiro e serem contemporâneos, penso que os dois deviam se
encontrar em tradicionais chás desta academia pra tomar um gole de memória e
tradição. Muito provavelmente devem estar nos ouvindo em algum canto desta casa.
- Jesse, quem é esse
tapuio, que vem lá do Norte
pra falar de ti? Sussurraria Nava, com seu humor ácido.
Os demais elementos que compunham a sua verve
literária vêm da
leitura científica e do incansável exercício profissional até lapidar todas as
ideias e pôr no
papel. É o que se chama de refinamento do cotidiano.
Mas quem conviveu com o professor sabe que a
boa leitura e a sua educação foram apenas o carretel pra ser o grande mestre, o
loquaz oportuno e o cirurgião de esmero. “Enquanto
existir algum cirurgião de tórax que trabalhe com seriedade, que busque
obstinadamente a inalcançável perfeição e que valorize a dignidade e a
elegância, Jesse Teixeira continuará vivo”, grifou José Camargo, num escrito
chamado, “Jesse Teixeira: um cirurgião”.
Para Fabio Jatene tinha também altruísmo. Ele costumava dizer que no seu serviço, "nenhum paciente era rejeitado, seja pela gravidade da doença, seja pela sua
situação econômica". Posso afirmar que num dos depoimentos biográficos que coletei,
ouvi o mesmo de seu filho Sebastião... e eu vivi isso à flor da minha pele,
quando fui seu residente.
Jesse foi presidente do maior colegiado de cirurgia da America
Latina, o CBC, com apenas 43 anos. Tornou-se não só fonte de inspiração a
muitos jovens, mas também cortejado por renomados estrangeiros, destacando-se o
canadense Grifith Pearson e vários brasileiros.
Eu confesso que gostaria de ter mais
tempo para falar do meu professor, mas não é escopo deste evento. Até mesmo
porque não é tão simples se achar palavras e sair borrifando aqui e ali para dizer
de um acadêmico. Isto aqui é um templo sagrado de pensadores, e a palavra, como
atriz, é cheia de segredos e tem seus disfarces: vem envolta em véus e o
falante tem que saber usar a pena para desvirginar o verbo. Há até dor no parto
das palavras. É quando ela vem atravessada para se abrir à ideia, como se, ao falar, ficasse
impactada na cricóide.
Essas são as minhas palavras, transfiguradas
em realidade, ressignificando a dor que a gente sente quando sente a lembrança desse grão-mestre.
O bicho-sentimento, que se comporta
como um comichão, que caminha com qualquer aluno, naqueles primeiros dias de
convívio era mistura de incerteza, lacuna e torpor, marcados desde quando
éramos meros estagiários.
Com o bicho em doma, ao longo do
convívio, afrouxaram-se as cordas do relógio, colocava-se tudo em vagareza e
aliviava-se a dor pleural. Assim íamos construindo nossas notas, nossos passos.
O professor quando falava, sua saliva lustrava nossos sapatos e aí começávamos
a caminhar mais a vontade, reluzindo saberes, mesmo que o piso fosse
escorregadio.
Cirurgião forte, como este de quem
falamos, se enternece mesmo é com a amplidão de seus estilos e de seus
ensinamentos. Aí lentamente íamos ganhando tônus e nos sentindo mais sóbrios,
comparado ao torpor inicial. É assim a catarse do aprendizado que todos seus
residentes viveram ao longo daquele convívio.
... e se
alguém encontrá-lo, agora, estará ao lado de sua sombra – a família –, aquela
que o conduziu por toda a vida. Ele, mesmo-mesmo, estará pastoreando seus meninos,
sereno, com o olhar distante, desejoso de, na madrugada, deixar-se brincar com
os vaga-lumes e tornar a escuridão leito vago para o aprendizado que se iniciou
à luz de lamparina ao ler aquela placa na entrada do serviço.
Muito
obrigado.
segunda-feira, 7 de maio de 2018
A cor da violência
Lúcio Flávio Pinto, na
abertura de sua agenda amazônica, assim define Belém (e por quê não o Brasil?), frente a onda de violência que acarpeta de sangue a cidade: “Já não se sabe com exatidão quem está
matando e quem está morrendo nesses homicídios por atacado. A confusão é
grande. Podem ser milícias ou o tráfico acertando contas [...]. Até investigar a sério ficou difícil, tão
numerosas são as ocorrências...”
Os textos do jornalista escapelam o couro cabeludo da grande mídia e
afronta os senhores do poder. Seus pensamentos críticos cortam mais que faca amolada em
esmeril. Quem lê suas dissecações textuais, vive com as idéias em constante fagulhamento.
Lembrei dele ao encontrar um adolescente, na BR, vendendo
o jornal de domingo, numa gaza que separa a “civilização” da periferia - onde se diz que a barbárie tem a chamejante cor vermelha. A manchete berrava:
“Belém do Pará, refém do crime”. Eu lia enquanto semáforo vermelho. Espirrei com um gosto de epistaxe. Não era alergia, mas elegia - esse poema policial enclausurado na
melancolia das manchetes nossas de todo dia.
Como todo retorno de BR, o semáforo demora. Baixei o vidro do carro e uma lufada de ar quente veio no meu rosto, até o jornaleiro se aproximar. Puxei assunto, para amenizar o sol do equador - queimando a moleira do garoto, protegida apenas por um boné.
- “Com essa minha alergia, quase espirro sangue
com a manchete de hoje”.
- “O governo não faz nada, chefia”, respondeu ele em tom de propaganda eleitoreira, e já me oferecendo o periódico, quiçá um voto.
- “A gente também não ajuda... Você, sim, está
ajudando”.
Ele soltou um “obrigado”, sem eu saber se foi pelo troco que deixei ou pelo elogio.
Fui. Ao chegar ao hospital
Metropolitano de Urgência e Emergência, onde se recebe as vítimas da violência urbana, quis saber o saldo do
sanguinário sábado, rutilante naquela manchete. Sobre o dito saldo, mais vale o
silêncio das calçadas lavadas após a passagem do rabecão.
Sigo na visita, cadenciada pelos residentes e estudantes. A convivência com eles me faz esquecer aquela estampa de jornal, aquele sol na moleira do menino, assim como a segunda-feira, vigiando o saldo de domingo. Tudo na vã esperança que a terça-feira seja véspera do amanhã e um elo do branco com o amarelo e outros azuis e verdes à sombra da esperança de outras cores.
Na volta pra casa, redescubro que a violência viola as cores da vida: do vermelho ao violeta; do branco ao preto - principalmente.
Sigo na visita, cadenciada pelos residentes e estudantes. A convivência com eles me faz esquecer aquela estampa de jornal, aquele sol na moleira do menino, assim como a segunda-feira, vigiando o saldo de domingo. Tudo na vã esperança que a terça-feira seja véspera do amanhã e um elo do branco com o amarelo e outros azuis e verdes à sombra da esperança de outras cores.
Na volta pra casa, redescubro que a violência viola as cores da vida: do vermelho ao violeta; do branco ao preto - principalmente.
terça-feira, 1 de maio de 2018
Top Knife, jornada na poesia
Se um dia me perguntarem
o que serei.
Digo: médico de palavras
simples.
Dessas que usam no
alicerce da vida...
Priscila Franco, poeta.
A gente vive mesmo é de calçar sandálias, vagar
mundos e contar fatos. De vez em quando sobra um tempinho para trabalhar e
dar de comer pros peixinhos. Contar fatos me parece combinar com chocolate
quente, então deixemos a fumaça desenhar arabescos no ar e penetrar pelas narinas.
Aconteceu por volta de 2008, num congresso Pan-americano, em Campinas. Eu tive uma participação longe de ser
modesta, mas o meu interesse maior era conhecer o Keneth Mattox, considerado o bardo da cirurgia mundial, e apertar a mão daquele caubói texano. Ele já escreveu vários livros; comandou o resgate das vítimas do Katrina; de quebra também escreveu um capítulo denso num livro de cirurgia que escrevi em 2007 (EDUFPA) - e ainda fez a
introdução.
Eu precisava agradecer...
Eu precisava agradecer...
Na mesma laçada Mattox havia lançado “Top Knife –
a arte e a estratégia da cirurgia do trauma.” Claro que comprei e ganhei um
autógrafo, além de uma foto ao lado do baluarte. Alto, largo e claro, trajava um paletó de marca, envergava uma gravata com a bandeira texana e um chapelão ao melhor estilo caubói; tinha um ar juvenil e vivaz de quem só envelhece pelas rugas, pois pela alma haviam esquecido de avisar-lhe que os anos se passaram. Tivemos um bom aproach, apesar do meu inglês açaí-com-tapioca, e o dele, de texano com voz de trovão em estilo teatral.
Já de volta a Belém, na sala de aula e em
visita com os alunos às enfermarias - e o top knife mattoxiano sobraçado -, uma jovem me abordou e achou o título assaz interessante, pois não é comum livros acadêmicos
com alcunhas roliudianas. Disse-lhe que havia conversado com o autor e que era uma
homenagem ao filme Top Gun – ases indomáveis, cuja estratégia de guerra do filme poderia ser comparada à da sala
cirúrgica em situações “in extremis”.
A aluna se chamava Priscila. Ela anotou aquilo tudo e me mandou no dia
seguinte um texto curto chamado “Top Knife – jornada na cirurgia”. Era uma alusão ao livro de Mattox. O texto é
simplesmente fantástico e representa o olhar de um estudante frente às ciladas cirúrgicas. Ele encontra-se afixado na porta do Serviço de Cirurgia e será abertura do manual de cirurgia da UFPA, endereçado aos alunos.
Após se graduar,
Priscila Franco pegou o beco e foi para São Paulo fazer residência médica. Seu último texto postado foi de julho de 2011 e nunca mais li mais nada. Fui para o noticiário e achei o motivo: depois de um
plantão pesado, voltando para casa por uma dessas estradas paulistas, um caminhão
invadiu sua pista e ceifou sua vida. Alguns acharam que ela estava cansada do plantão e
havia perdido o reflexo. O que ficou da médica, escritora e poeta foram
alguns versos, lembranças do internato e também essa pequena peça que dorme de luz acesa nas ideias de Keneth Mattox, e que será imortalizada em breve.
O
que temos agora é uma amostra grátis de tantos poemas que ela prescreveu.
São textos incrustados na contextualização médica, com uma estética provocadora que invoca um transplante
de ideias e de resistência à verborragia indolente, quase sangrante, que assola a linguagem médica - que ora dorme apedrejando o inconsciente, ora passeia pela poesia moderna jogando flores ao léu.
Se um dia me perguntarem o que serei
Digo: médico de palavras simples
Dessas que usam no alicerce da vida
Mas que andam ao descaso por aí...
A palavra paixão.
Virou esquizofrênica!
Anda tendo alucinações.
Acha que é amor.
Virou esquizofrênica!
Anda tendo alucinações.
Acha que é amor.
E o amor? Hipocondríaco!
Deu-se mil doenças...
E parece que morre amanhã...
Deu-se mil doenças...
E parece que morre amanhã...
A coragem, em regular estado geral,
diz que contraiu o vírus da indolência
e desmotivação.
diz que contraiu o vírus da indolência
e desmotivação.
A amizade nem se fala...
Uma febre de origem desconhecida.
Parece a palavra colega quando estava doente.
Será que é a mesma coisa?
Uma febre de origem desconhecida.
Parece a palavra colega quando estava doente.
Será que é a mesma coisa?
O respeito é o mais perdido.
Não sabe nem que médico procurar.
Pode ser o mesmo da educação,
que anda se queixando,há tempos,
de dores na sua espinha dorsal...
Não sabe nem que médico procurar.
Pode ser o mesmo da educação,
que anda se queixando,há tempos,
de dores na sua espinha dorsal...
A fidelidade, por acidente de trabalho,
adquiriu doença venérea.
Queixa-se de esquentamento...
adquiriu doença venérea.
Queixa-se de esquentamento...
A gratidão.
Diagnóstico a esclarecer.
Parece doença rara.
Diagnóstico a esclarecer.
Parece doença rara.
A honestidade, coitada.
Para essa, nem concorrência tem...
Talvez a mais moribunda de todas...
Para essa, nem concorrência tem...
Talvez a mais moribunda de todas...
E oxalá que ninguém morra dessas
verdades...
Se um dia me perguntarem o que serei
Digo médico de palavras simples
Médico de palavras simples
Palavras simples
Simples!
segunda-feira, 5 de março de 2018
Ao mestre com carinho
O
domingo, 25, era de um fevereiro pós-carnaval 2018. O Rio de Janeiro, sob os
auspícios do exército, vigiava os morros, entretanto, havia uma porta de
igreja, no bairro da Gávea, totalmente aberta, e cercada por favelas da
Rocinha e Vidigal. Trata-se de uma igreja ampla e moderna, pelas quais os
vitrais reproduzem desenhos de Cândido Portinari. Lá, o
padre Djalma, com um olho grudado na missa e outro na hóstia, via
os holofotes da nova ordem.
Entre
tantas famílias presentes naquela missa dominical, havia os Teixeira, composta
de três descendentes diretos e uma leva de treze netos, acomodados em fileiras de bancos. Com a amizade que guardava, o padre destacou a história do
patriarca Jesse Teixeira.
Aquele
domingo 25 e aquela família dizem-lhe algum respeito? Provavelmente não, se
você for um médico formado depois de 1993, ano da morte de Jesse, aos 75. Foi a partir desta década que uma geração inteira começou a se conectar à tecnologia - que eclodiu no final daquele período, com a chegada da
videocirurgia.
Enquanto a tecnologia ensaiava sua chegada ao interior da caixa torácica, vivia-se a grande epopéia dos transplantes pulmonares no Brasil; a cirurgia da traqueia tornara-se mais forte na especialidade e,
logo em seguida, o memorial da América Latina via o resplandecer de uma nova sociedade médica, a dos cirurgiões torácicos.
Mas,
aquele domingo, dizia-lhe alguma coisa? Sim. Cem anos atrás nascia Jesse Pandolpho Teixeira
e aquela família estava ali para celebrar seu nascimento, massivamente
representada por filhos, netos e bisnetos. A cirurgiã Maria Morard representava
todos os seus discípulos espalhado por esse imenso país.
Com a
vocação médica despertada desde a adolescência, Jesse partiu de sua cidade
natal, Vitória, no Espírito Santo, para o Rio de Janeiro, ainda aos 16 anos,
e logo ingressou na faculdade de medicina. Triunfou por formar uma escola médica
de cirurgiões torácicos e uma legião de admiradores. Fundou seu próprio
programa de residência, que começou no Sanatório Santa Maria, em Jacarepaguá, e depois foi alicerçado na Rua da Glória, hospital da Beneficência
Portuguesa. Furtou-se à sedução das grandes dos cânones universitários, porém sem abandonar
os princípios da academia e os rigores da metodologia científica. Publicou muito e escreveu capítulos e livro. Viajou pelo mundo, disseminando a cultura cirúrgica do Brasil, sempre ao lado de sua Gleusa.
Juntou-se
a Haroldo Meyer e João Batista Arruda para estender seu professorado ao
Hospital de Curicica e formar duas escolas de cirurgia com as mesmas rotinas. Participou ativamente do nascimento da especialidade, nos final dos anos 40, quando a anestesia geral ainda era sonho quimérico. Tomou a cirurgia da tuberculose como seu maior legado e depois se estendeu ao
câncer de pulmão, cirurgia da traqueia e parede torácica. Participou do
nascimento da cirurgia cardíaca e ovacionou o transplante pulmonar. Criou vários instrumentos
cirúrgicos e adaptou outros, mas o maior de todos os seus legados foram os
ensinamentos, que ainda se estendeu a um dos filhos.
Juntou-se
a Haroldo Meyer e João Batista Arruda para estender seu professorado ao
Hospital de Curicica e formar duas escolas de cirurgia com as mesmas rotinas. Participou ativamente do nascimento da especialidade, nos final dos anos 40, quando a anestesia geral ainda era sonho quimérico. Tomou a cirurgia da tuberculose como seu maior legado e depois se estendeu ao
câncer de pulmão, cirurgia da traqueia e parede torácica. Participou do
nascimento da cirurgia cardíaca e ovacionou o transplante pulmonar. Criou vários instrumentos
cirúrgicos e adaptou outros, mas o maior de todos os seus legados foram os
ensinamentos, que ainda se estendeu a um dos filhos.
“Não sei
como as lembranças são conservadas, mas algumas duram para sempre...”, grifou
José Camargo em “Saudades do meu pai”, texto que simboliza os ensinamentos e a
convivência paternalista. Pode muito bem representar a lembrança remota e adocicada de
ares respirados em meio à poluição de desânimos diários, que só nos salva da asfixia quando olhamos para frente e percebemos que a porta da igreja sempre estará aberta.
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018
O nomadismo da cirurgia
“(...) todos os curandeiros eram malditos
sanguessugas que faziam mais mal do que bem...”
Do personagem Bukerel em O físico, de Noah Gordon
Rob
Cole é um órfão inglês que, após a perda dos pais, torna-se um assistente de
curandeiro e deseja vencer a doença. Depois de adulto ouve falar de
uma fabulosa escola de medicina na Pérsia, liderada por Avicena, para onde
viaja a fim de aprender os segredos da cura. O cenário é da Idade Média e está
romanceado em O Físico, de Noah Gordon. Nota-se que o termo físico servia também, à
época, para designar os médicos.
Diego
Rivas é um cirurgião espanhol da Galícia que, após visitar os EUA, toma confiança em realizar operações complexas mediante única mini-incisão
(uniportal). Abraça a técnica operatória, passa a divulgá-la no mundo médico e
ganha devotos. Depois dos 40 anos, comemorados no Brasil, ouve falar da escola
de cirurgia da China e, em pouco tempo, estará num hospital de Shangai, onde
foi aninhado. A intensa prática o levará a se aprimorar e, pouco depois, passa
a ensinar sua técnica, mundo afora.
A
pretensão aqui não é contar, com precisão, tópicos da cirurgia contemporânea, mas
tão somente narrar a grande aventura de um nômade que, dos caminhos de Compostela, segue para o oriente, em época onde
fronteiras estrangeiras fecham-se com trancas de castelo medieval, sabendo-se
que a China de hoje, além da riqueza industrial, tem outra maior que encanta: o
saber.
Da
saga do jovem Rob, vê-se certo paralelo de poucos homens que ainda ousam, nos
dias de hoje, romper fronteiras. Isto nos faz crer que a muralha da China tornou-se
apenas ponto turístico em meio à tênue linha do passado da lembrança da divisão
das estepes. Os chineses de hoje abordam com grande propriedade e leveza a partilha
de ensinamentos, tal como o persa Avicena, personagem de Gordon.
Usando
figuras reais que se tornaram mito - como o próprio Avicena-, Diego procura
desvestir-se de um possível olhar maniqueísta ocidental, para traçar um
panorama da riqueza cultural e social não só da China, mas de outros tantos lugares
que visita – muitas vezes o Brasil –, para mostrar as origens do eterno aprendizado
entre os povos, independente de suas idiossincrasias e tez racial. Isso o possibilita
mesclar sabedoria com abraços fraternos.
Sem
deixar de apontar as origens antropológicas de cada elemento que edifica a
formação do cirurgião moderno, Diego transfere para cada aprendiz de sua
técnica o mesmo olhar com que o sábio Avicena fita Rob Cole, mistura típica de
fascínio que acomete qualquer pessoa que abandona seu húmus e seu modo de
pensar, para se pôr de pé diante de outra sociedade.
No
meio desse caldeirão, o cirurgião-nômade tempera todas as questões filosóficas
e dados históricos com as cores e os cheiros do mundo, deixando os temores de
lado a cada caminhada, sob a epiderme de Rob Cole.
O
nomadismo de Rob e os ensinamentos de Avicena convivem no mesmo paletó de Diego,
que faz de seus périplos pelos quatro cantos um tempo histórico num templo vivo e
presente no imaginário coletivo de seus séquitos, que também passam a visitá-lo
entre a Galícia, seu umbigo, e Shangai, sua Pérsia.
Lembremos
das lendas da Távola Redonda e dos cavaleiros de armadura para nos debruçar sobre
o fervilhante caldeirão cultural no qual os homens d’antanho se fitavam serenamente.
Depois vieram os diálogos entre Dom Quixote e Sancho, até se chegar aos embaraços
criados, hoje, por aqueles que travam a troca do conhecimento. Diego afugenta
tudo isso, pois é personagem encantado e vivo, que parece sair das páginas da
literatura rútila. É um desses que duvidamos poder existir, mas que convive ao
nosso lado, nestes tempos arredios e de olhares atravessados.
O
Diego de hoje se veste de Rob Cole para sentar na poltrona e
esperar as portas travarem para decolagem. Assim que aterrissa reverte-se em
Avicena e passa a ensinar pela luz da convivência, não importando o que esteja
no foco daquele que busca extirpar, suturar, aliviar ou curar, seja horizonte
amplo ou campo estreito, seja olhar grande ou pequeno.
Roger Normando – Professor de Cirurgia Torácica,
Universidade Federal do Pará, Brasil.
domingo, 10 de dezembro de 2017
Das margens do Tucunduba às do Atlântico, 30 anos alvissareiros
“Sei
que nada será como antes, amanhã
[...] Alvoroço em meu coração”
Milton Nascimento e Fernando Brant, em “Nada Será
como antes”
Eram
garotos que escutavam Beatles e Rolling Stones e ainda buscavam alvoroço no
coração pintado em mil tons de cores e néctares. Viviam ainda a
adolescência, quando receberam a lista convocatória, pelas ondas do rádio, que deveriam
alojar-se numa choupana - espécie de tapera, cabana -, às margens do rio
Tucunduba, afluente do Guamá. Na bata rala, várias vezes costuradas e faltando
botões, as certezas: caneta, papel, leitura, suor e o sapato carcomido pelos
sonhos.
No começo
era o silêncio: amorfo, vasto e cinzento. Depois foram sentando e se
apossando de cada espaço sobre a madeira dura, a amassar os glúteos de ferro.
Poucas salas de aula tinham refrigeração, e o calor equinocial aquecia a empreitada. Sentados na sala de aula ouvia-se o popopô dos barcos, cochichos e o
desenho da ciência: da anatomia à fisiologia, do exercício da farmacologia à
cirurgia, do estetoscópio ao martelo de Buck. Deixa estar que o silêncio foi
dando vez a vozes e os grunhidos foram rompendo a timidez, transformando-se em
amizades sinceras, grudadas ao pericárdio e à pleura.
E lá foram eles, seguindo mundo, a pegar carona na melodia do amanhã e enfrentar desvarios; só podiam pedir socorro e milagres, livros e mestres.
E lá foram eles, seguindo mundo, a pegar carona na melodia do amanhã e enfrentar desvarios; só podiam pedir socorro e milagres, livros e mestres.
Chegou o canudo e aqueles adolescentes mudos e telepáticos agora tinham voz, escolha na mão e
ideia na cabeça. Cada um pegou seu beco e se aprumou na estrada, mas sempre com rosas na mão esquerda - o lado do coração. Só esqueceram de avisar que o
caminho era escalafobético, cheio de espinhos, piçarra e, quando chovia, se
tornava escorregadio e lamaçal - porém, anímico, sempre anímico.
Mas o
primeiro sol, de incógnito firmamento, começou a dourar a amplidão e, lentamente,
revelava-se ao amor, o juramento. Havia o mergulho -
escalonado, diga-se - para o interior dos artigos, livros e tantos alfarrábios por vezes transformados em pergaminhos e escrituras sagradas do deus Asclépio,
caminhando em passadas curtas com seu caduceu, na busca da cura.
Depois veio o contato com a fragilidade humana da ingloriosa doença, sem falar daquelas perdas que jamais se admitia. Abrir um peito para aliviar uma dor ou tomar um elixir para transformar sorrisos, sempre foram dilemas a ser enfrentado com a solvência das leituras e a audição dos mestres, transferida ao longo da jornada que veio pelas veias de Lucas, o discípulo, até a alquimia; de Ambroise Parè, numa primeira fase, até aos robóticos dias atuais.
Depois veio o contato com a fragilidade humana da ingloriosa doença, sem falar daquelas perdas que jamais se admitia. Abrir um peito para aliviar uma dor ou tomar um elixir para transformar sorrisos, sempre foram dilemas a ser enfrentado com a solvência das leituras e a audição dos mestres, transferida ao longo da jornada que veio pelas veias de Lucas, o discípulo, até a alquimia; de Ambroise Parè, numa primeira fase, até aos robóticos dias atuais.
E lá iam
eles seguindo mundo...
Do
estreito Tucunduba até se chegar ao Atlântico, sob a linha do equador, correram
os 30 anos de hoje, à sombra do ontem. Daquelas margens plácidas, onde tudo começou, sob a sombra
de uma choupana, muitos caminhos foram seguidos, mas a cama para o descanso
sempre guardou um travesseiro macio, feito de penas de aves de rapinas,
produzidas, de forma sustentável, no laboratório de cada neurônio incrustado
nos fundamentos éticos e na determinação de Hipócrates, à sombra dos plátonos - sem desmerecer as noites sem sonos, ao lado da próxima hemorragia e morte.
Nesses
dias de rememoração e de revigoro, entre passeios e a flambagem do alimento
nosso de cada dia, a poção ecumênica foi guardada, em forma de agradecimento,
pelos cordeiros de Deus, tragado pelo desejo inesgotável existente atrás dos olhos de cada um.
O encontro al mare trouxe a maré, a brisa da noite e a certeza que a vida deve ser festejada como se fosse marujo à espera do próximo porto, na pérgula da piscina, em torno do fogo ou sob meia dose de caipirinha para se dançar até exaurir a última mitocôndria, feito meninos que perderam o juízo da maioridade antes de ganhar o juízo final.
O encontro al mare trouxe a maré, a brisa da noite e a certeza que a vida deve ser festejada como se fosse marujo à espera do próximo porto, na pérgula da piscina, em torno do fogo ou sob meia dose de caipirinha para se dançar até exaurir a última mitocôndria, feito meninos que perderam o juízo da maioridade antes de ganhar o juízo final.
domingo, 12 de novembro de 2017
Licença para nascer
"Quer durar,
quer crescer,
gente quer luzir..."
Caetano Veloso, em: "Gente"
Nasci pedindo “por favor”, pois
precisava não só que o ar entrasse pelas narinas, mas também bisbilhotar a vida
com os olhos do céu. E deu no que deu, pois a primeira noção foi que o céu era
amarelo-âmbar, tal como aquela luz que saia daquele foco fosco presente na sala
de parto. E que diferença isso faria para ter o nascimento registrado? Ficou lá
pelas brenhas do Acre minha rescisão de contrato com o útero de minha mãe.
Antes mesmo de nascer li não sei onde que o bom da vida
era ter amigos para fazer gols de bicicleta, monareta para pedalar pelas ruas e
algum dinheiro para cruzar oceanos; também uma namorada para andar de mãos
dadas com o anoitecer do Rio de Janeiro, e ter filhos para sentir dessas
emoções de fibrilar o coração.
Mas é história de filho que a gente
gosta de contar pros cadernos, dessas de sentir a cororonária se contorcer e
depois fazer um cateterismo para ver se aguenta mais tranco.
Hoje, domingo, acordei cedo, acabei meus
afazeres e fui deixar um dos filhos numa escola do subúrbio, para fazer a prova
do ENEM. Ele já é um veterano para essas emboscadas, mas me pediu para fazer
este carreto uma vez mais. Quer tentar o ensino público superior num curso
disputadíssimo. Eu não pedi e nem apelei. Foi de boa, pois já faz duas
faculdades que mal consegue dar conta.
Mas ENEM, de novo? Sonhos. Desafios.
Inquietudes. Ele não respondeu assim, mas eu criptografei pelo wifi, cujas
ondas circulam entre seus olhos castanhos e a minha massa cinzenta.
Enfrentamos grande engarrafamento, mas
chegamos a tempo. Afinal, onde ele fez a prova, numa escola do Guamá, tem certa
vizinhança geográfica com seu desafio e a distância e não faz diferença para
quem deseja a satisfação de ouvir a voz do Pinduca no rádio.
No caminho de volta, após desejar boa sorte
e dar um beijo na fronte, revivi toda a trajetória de sua infância de todos os
dias, durante vários anos: acordar cedo para prepará-lo para ir à escola - do
banho ao calçamento dos sapatos. Achei que aquele ato rotineiro tivesse ficado
no fundo da minha caixa de pandora e que jamais aquilo pudesse me emocionar.
Sim, me emocionou, hoje.
Sim, pelo que, ele, com a vida acadêmica definida,
resolve voltar e recomeçar novamente, ao sol do meio-dia de despelar o
toutiço.
Vi-me um pouco, ali. Vi também os primos enfrentando
a disputa, naquela vontade formigante de estar envolvido no conhecimento e
encarar os desafios de um Quixote diante de moinho de ventos. Existe, sim,
nele, uma espécie de comichão que dá brotoeja e faz todo menino querer ser
gente de cidadania.
E neste exato momento da volta – eu,
sozinho - a rádio do carro toca Caetano: “Gente é pra brilhar, não pra morrer
de fome.” A musica se engancha em encantamento, fosforilo e, desatento, quase atropelo
um feirante da Barão de Igarapé-Miri.
O caminho de volta foi ardente. Tive a
sensação que jovens deste tipo têm sonhos que dormem num prato fundo e
necessita de muito feijão pra saciar todo aquela marmita. Continuarei, por
todos os sóis de meio-dia, a carregar em punho essa marmita, na sã esperança de
que valeu a pena ter a placenta rompida num espasmo daquele chão sob a luz
amarelo-âmbar daquele foco frágil daquela sala de parto. Acho que o tal foco
fez-me confundir a cor do céu, que eu havia lido num poema de Fernando Pessoa
ainda na barriga da minha mãe.
domingo, 24 de setembro de 2017
O general em sua caverna
Quem
serve a uma revolução ara no mar...
Garcia Marquez, em: “O general em seu labirinto”
A colombiana Santa
Marta fica na divisa com a Venezuela. Lá, Simon Bolívar, o libertador da América,
encavernado numa tuberculose (TB) passou os últimos dias de vida.
Toda esta historiografia está em “O general em seu labirinto”, de Gabriel Garcia Márquez, ressaltando que "El libertador" relutou em aceitar tratamento médico. Uma prova: ”o doente piorou ainda mais no fim de semana, por causa de um copo de leite de jumenta que tomou por sua conta e risco, escondido dos médicos.”
Toda esta historiografia está em “O general em seu labirinto”, de Gabriel Garcia Márquez, ressaltando que "El libertador" relutou em aceitar tratamento médico. Uma prova: ”o doente piorou ainda mais no fim de semana, por causa de um copo de leite de jumenta que tomou por sua conta e risco, escondido dos médicos.”
Ressalta-se que a cura médica da TB ainda não existia e o que se fazia era
higiene pessoal, isolamento em área ventilada com janelões, particularmente em
região montanhosa, além de repouso, conforme o cenário de Thomas Mann em “A montanha
mágica”.
Bolívar morreu em 1830, quando ainda se falava em miasmas e pneumas, cuja TB se chamava Tísica. O bacilo foi descoberto somente em 1882 e dez
anos depois surgiram os primeiros tratamento efetivos - o cirúrgico-, destacando-se
as desconjuntadas operações de toracoplastias, em que se desmantelava o tórax retirando-se várias costelas. Foi somente em 1946 que apareceu
a primeira droga-alvo e a humanidade se livrou das mutilações cirúrgicas.
A casa
onde o general passou os últimos dias era simples. O seu quarto de sobrado dava
de frente para o mar. Tinha escarradeira, jarra dágua com toalha, cama e
banheira. A velha casa da alfândega, que se vê hoje para visitação, tem parede
amarela e dois quadros de pessoas que fizeram parte de seus últimos dias, entre
eles, dr. Reverend, seu médico de cabeceira. Há lá, esculpido em mármore carrara,
o mirrado corpo do general, para exposição e selfies.
Quem não
puder chegar até Santa Marta, que faça uma passagem pelas muralhas de Cartagena
das índias e visite a Ábaco – livros e café -, na Calle de la Mantilla. Foi o que fiz.
Fuçei até achar, por acaso, os 33 boletins médicos do dr. Reverend,
reunidos numa só apostila de 87 páginas, que retratam os últimos dias do general.
Na necropsia ele
descreve que suas pleuras estavam aderidas e seus pulmões endurecidos. O
direito, quando espremido, purgava um manancial da cor vinhosa. Tradução médica:
caverna tuberculosa.
O jovem médico tinha apenas 35 anos, havia chegado da França e tinha
responsabilidade do tamanho da Nova-Granada. O doutor assumiu o caso após
discussão com seus pares, que se cegavam à Tísica. Sem outros meios, o
diagnóstico se fazia no olhar clínico e a confirmação era somente pós-morte.
Bolívar tinha 47 de idade e muitas conquistas, mas dentro de sua humildade
dizia que tais vitórias não cabiam numa banda de sapatos.
Após o
enterro, outro general ofereceu ao médico, pela dedicação, o cargo de
cirurgião-chefe do exército. Ele respondeu: “prefiro minha liberdade a todo
emprego assalariado”. Ainda se negou a receber recompensa pecuniária. Disse que
fez por admirá-lo. Ficou junto dele até o último arfo. Logo após, desapareceu.
Ressurgiu em Paris, escrevendo tais relatos clínicos, em 1866.
Em 2010 os restos mortais de Bolívar, que se
encontram no panteão nacional da Venezuela, foram exumados por determinação de Hugo
Chávez, ao achar que havia conspiração e envenenamento, tal como ocorrera com
Napoleão Bonaparte. A análise levou ao diagnóstico radicalmente diferente ao
de Reverend, mas não confirmou a hipótese estilhaçada de Chávez.
Os ossos exumados foram devolvidos. O espírito do general, por destino, não
demorou a recepcionar o de Chávez, mas é improvável que no labirinto cavernoso
do subsolo do panteão, o déspota esteja maduro suficiente para entender que
conquista se faz com passos e não rasgando um boletim médico, ou a própria
constituição.
quinta-feira, 17 de agosto de 2017
A lição de Obama contra a ultradireita
O ex-presidente norteamericano Barack Obama ganhou ontem as manchetes dos jornais de todo o mundo após a repercussão de suas declarações sobre o conflito ocorrido na cidade de Charlottesville no último final de semana, que resultou na morte de uma mulher.
O vergonhoso evento foi patrocinado por grupos de extrema direita de supremacia branca, tais como:
Ku Klux Klan e organizações neo nazistas, que intensificam suas ações após o apoio político e financeiro ao candidato de ultradireita Donald Trump, –– filho –– de um notório membro da KKK.
Publicado na noite do último sábado, 12/8, o post em questão de Obama no Twitter foi o primeiro de vários do ex-presidente dos EUA sobre os acontecimentos do final de semana na Virgínia.
Com mais de 3,6 milhões de curtidas, o tuíte utiliza uma citação atribuída ao ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor sua pele, seu background ou sua religião” ("No one is born hating another person because of the color of his skin or his background or his religion...", no original, em inglês). E usa uma foto de Obama cumprimentando quatro crianças em uma janela.
Além disso, a mensagem em questão de Obama já possui quase 1,5 milhão de retuítes até o momento.
Para chegar a esse número recorde, o tuíte de Obama superou uma publicação feita há alguns meses pela cantora pop Ariana Grande logo após um ataque terrorista realizado durante um show seu em Manchester, na Inglaterra.
quinta-feira, 3 de agosto de 2017
Sobre balaços, atropelamentos e esfaqueados
Tenho uns poucos livros emprestados que jamais devolvi
- uns quatro. Um me fascina: “War surgery”, do comitê internacional da Cruz Vermelha. Antonio Venturieri, cirurgião paraense
que esteve no Afeganistão, emprestou-me, por saber do meu fascínio pelo tema. Esqueci de devolver.
Dia desses folheava o calhamaço de 350 páginas para
entender as armas de guerras e as lacerações que provocam nos órgãos internos de
um guerrilheiro abatido. Porque os fuzis já não ecoam só na Síria. O estampido está
nos morros cariocas e daqui a pouco zunirá pelos bairros do Jurunas, Guamá, Terra firme e
aqui debaixo do prédio onde moro.
Outro dia, no maior hospital de trauma de nosso
estado, um homem adentrou pela emergência, já gaspeando. Fora baleado por
determinada facção do Jurunas. Ao exame físico havia uma brecha no rebordo
torácico. Era arma de guerra. Aí já não é só zunido, é trovoada, fuzilamento.
No caminho de ida a Salinas, à frente da policia
rodoviária federal, na Belém-Brasília, havia um carro totalmente danificado, guinchado
a três metros do chão, encaixado no outdoor,
numa arte plástica bem elaborada, com dizeres de alerta sobre o risco da imprudência
nas rodovias - afinal de contas é verão por aqui pela amazônia, tempo de aproveitar as férias
e meter o pé na estrada.
Pouco adiantou. A sinistralidade continua elevada e,
se somarmos às motocicletas urbanas, a lista embaça o caos no trânsito. Na
volta da viagem a arte já não existia. O carro já não estava. Quem sabe uma
motocicleta fosse mais representativa.
E sobre esfaqueamentos? Arma em extinção!
Nos anos noventa, um artigo original mostrou, no HPSM, que a principal causa de ferimentos no tronco era arma branca. Certa
vez, numa micareta na atual João Paulo II, a ambulância socorrera três
esfaqueados no mesmo carreto. Dois deles tinham ferimentos graves no coração, e
outro, várias estocadas no abdome. Todos sobreviveram. Se as lesões cardíacas
fossem por arma de fogo, certamente a chance de vida seria bem menor.
Hoje, os tiros e as motocicletas ultrapassaram as armas brancas, inclusive no
sertão da Paraíba, terra das peixeiras.
Surge, agora, uma série televisiva sobre violência, ao
olhar esbugalhado da sala de emergência. Com narrativa romanceada ao modo de
Tess Geratssen, Edyr Proença ou Rubem Fonseca, “Sob pressão” nada tem a ver com
as series glamourosas americanas totalmente hi-tech, hi-fi ou wifi. Depois
“Profissão repórter” faz abordagem epidérmica sobre as salas de emergências do
Rio de Janeiro. Parece muito claro que a emissora direciona seu portfólio para
uma página bruta da nossa sociedade, não só eviscerando as deficiências do
atendimento e a alta taxa de homicídios, mas, acima de tudo, o cotidiano do
cirurgião-mago que, noite adentro, além de tirar coelhos da cartola, reza por
milagres de salvar vidas - ou pelo menos postergar a morte.
O fagocitado “War Surgery” deixa escorrer a idéia que
a dor das guerras é maior que as estatísticas: Em certos conflitos, o fardo dos feridos de guerra é maior que as
conseqüências de saúde pública. É aí que a série de TV se engancha, mas os
números de nossa incivilidade sangram as finanças do Estado, cortam a carne e
deixam poças de coágulos a escorrer pelas valas abertas de nossas cidades, e Belém fica entre as dez
capitais mais violentas do país (mapa da violência, 2016).
Artigo publicado originalmente em "O liberal", 03/08/2017
sábado, 15 de julho de 2017
Os tentilhões da tuberculose
Darwin escreveu o roteiro da teoria da evolução das espécies num
filme de longas eras passando em horas, e cada milênio reduzido a
minutos. Os atores eram tentilhões e o diretor não era Spielberg, mas o próprio
roteirista.
Tentilhões alimentavam-se de frutas até o crescimento
galopante de sua população em Galápagos. Uma estação nefasta abateu-se sobre a
ilha e o estoque de frutos escasseou. Em alguma parte do numeroso bando havia uma
variante com bico rígido capaz de quebrar sementes. Enquanto a fome devastava o
nicho, aquela variante sobrevivia alimentando-se de sementes duras. Ela se
reproduziu, e começou a aparecer nova espécie mutante. A anomalia tornou-se
norma e a norma buliu com a cabeça de Darwin. O roteiro de Galápagos ganhou
outras esferas.
Aos tentilhões cabe um olhar espichado, por exemplo, para
entender a resistência bacteriana. Os micróbios também sofreram alterações do
meio-ambiente (leia-se antibióticos) e, tal como a estação nefasta em
Galápagos, uma variante do grupo, com membrana celular especial, não permitiu
que o antibiótico - ingerido de forma irregular ou em subdoses – penetrasse na
bactéria, e passou a resistir àquela droga. A anomalia tornou-se norma e
transmitiu à geração seguinte o gene da resistência.
Foi o que aconteceu com a penicilina. Ao longo dos
anos surgiam cepas penicilino-resistentes que passaram a tomar conta das
pneumonias. Por falta de orientação, conhecimento e programa de governo,
Tetrex, Benzetacil, Sintomicetina e a Frademicina, marcas consagradas, eram
tiradas das prateleiras das farmácias - e biroscas do interior - e injetadas na
veia de quem tivesse um simples resfriado, ali, ao lado dos balcões. Por esse
viés, as bactérias se tornaram fortes - e não as medicações fracas - e necessitou-se
produzir novos antibióticos, até se chegar ao hoje.
Ante ao quadro monstruoso das infecções uma, em
particular, volta a aterrorizar a pangeia: a tuberculose pulmonar (TB), retrato
esquelético dos tentilhões de Darwin. Uma virada no tratamento da tuberculose, por conta
de uma sociedade distante de informação, fez surgir bacilos resistentes,
denominados TBMR, sendo a forma XDR resistente a
todas as drogas. Como se não bastasse ser a principal causa de morte por
infecção no mundo, a TB piorou com a AIDS, os guetos e a população carcerária. A OMS já
prevê caos.
Do
outro lado do atlântico, chama atenção a onda de europeização da TB, que passa pelo
mediterrâneo albergada em pulmões de africanos e sírios, onde o programa de
controle da doença é pífio e boa parte de imigrantes já chega com formas
multirresistentes.
Na Mundurucus, o antigo
sanatório segue em alerta para combater essa nova apocalipse, incluindo até o
velho tratamento cirúrgico em versão mais moderna e segura. O programa só não
vai mais adiante por falta de apoio para agregar a tecnologia do vídeo, alternativa que europeus começam a encenar.
É uma guerra sem
fim, com novo capítulo. E não bastam tisiologistas e afins lutarem. É hora de tossir com estridor para que nossas baforadas alvejem as montanhas nebulosas do
planalto central e possamos contaminar gestores. Do contrário, é rasgar o
roteiro cinematográfico de Darwin e esquecer que os tentilhões representaram um
laboratório a céu aberto, em que estamos tendo a ousadia de ignorar.
Artigo originalmente publicado em "O Liberal", em 15 de julho de 2017
sexta-feira, 30 de junho de 2017
Da Vinci aporta em Belém
Roger Normando, professor de cirurgia torácica - UFPA
O domingo começou ensolarado neste 11 de
junho, quando o Da Vinci aportou em Belém para trazer boas novas aos Xamãs da
floresta. Não, não falamos das cinzas de Leonardo da Vinci, artista e
intelectual renascentista. Falamos, sim, do robô adquirido por um dos hospitais
paraenses, para auxiliar cirurgiões na retirada de uma próstata tumoral.
Inicialmente pede-se vênia ao escritor Raimundo
Sodré para tentar explicar todo este avanço tecnológico, sem que se veja como
pavulagem: Calhou d’eu entender que este
momento que vivemos, embora permeado de dramaticidades e extravagâncias, seja
também de reviravoltas, de revoluções.
Antes desta tecnologia aportar em Belém a robótica
já vive rotina. Na Califórnia, há 11 anos, com o cirurgião alocado em Seattle,
o Da Vinci auxiliou numa operação complexa. Longe desta pompa inicial, atualmente se realizam operações
com o cirurgião ao lado do paciente, sentado num console joystick, como se
dirigisse um fórmula 1, com um segundo cirurgião no campo operatório. No Brasil, a nova plataforma foi usada em 2008
num procedimento urológico, em
São Paulo.
A
maior reviravolta está na cinesiologia, ao possibilitar maior amplitude de
movimentos, se comparado à mão cirúrgica - além da visão em 3D. A grande
crítica é o custo, além de maior tempo de aprendizagem, redução no
espaço para os participantes e falta de sensação
tátil, que deve ser reavaliada em futuras gerações de robôs.
Além da urologia já há indicações para
outros compartimentos: cirurgias cardiovascular, torácica,
digestiva, ginecológica, oncológica e proctológica, entre tantas.
Na verdade, o que se viu naquela
manhã foram braços robóticos, cujas articulações têm movimentos que tornam
um grande aliado em operações cujos espaços são limitados, ou em que é
necessário o detalhamento topográfico do órgão explorado. Os braços terminam
numa espécie de pata que lembra a de um crustáceo, digamos assim, cujos
movimentos superam aos da humana mão. Isto no campo visual limitado representa
um ganho inimaginável.
Para
se tornar um cirurgião-robô precisa-se de treinamento e certificação, tornando o
programa seguro. Os cirurgiões paraenses desta epopéia fizeram treinamento em
Bogotá, pois no Brasil ainda está sendo preparado um centro no Rio de Janeiro.
E os perigos? Isaac Asimov, que romanceou
robôs desde 1957 antes de se tornarem hominídeos, afere: qualquer avanço tecnológico pode ser perigoso. O fogo era perigoso no
princípio, assim como (até mais) a fala - e ambos ainda são perigosos nos dias
de hoje -, mas os seres humanos não seriam humanos sem eles.
A pioneira operação com robô, no Norte do
Brasil, neste domingo ensolarado, foi num sexagenário, com baixo risco de complicações
relacionadas à impotência sexual e ao descontrole da micção, estas, as maiores
contribuições desta tecnologia à cirurgia prostática. A operação terminou por
volta do meio dia com uma tromba d`água bem paraense. Estariam os Xamãs da
floresta emocionados ao perceberem a pajelança do Da Vinci entre seus
habitantes, por isso mandaram lágrimas de euforia?
Oxalá seja novo axioma e se possa aspirar, com
uma simples cânula, as adversidades que porventura apareçam. Portanto,
sigamos...
artigo originalmente publicado em O liberal, de 28/09/2017
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