Terça-feira, no Rio de Janeiro. Aeroporto Internacional Antonio Carlos Jobim, 16:00 horas. Ali, no Galeão, se podia ouvir qualquer coisa menos bossa nova. A situação estava absolutamente caótica, com pessoas no salão de embarque aguardando ordem de embarque desde as 11 horas da manhã, quando lá cheguei para pegar meu vôo.
Com o
black out da navegação aérea do país, ali se via de tudo e aquela voz sussurrante, de suprema sacerdotisa da camoniana ilhas dos amores, havia sumido do sistema de som interno do aeroporto. Seria ainda uma octogenária Iris Lettieri a dona daquela voz, interroguei comigo.
Compunham aquela cena vários executivos sentados no chão, matutando problemas guardados em notebooks, crianças as carreiras, velhinhas passando mal de fome, passageiros pedindo sempre a mesma informação no balcão das companhias aéreas e a novidade de evangélicos com a Bíblia em punho imprecando aos gritos contra aquela situação. Um deles, em alto e bom som, percorria o salão de embarque esclarecendo a quem lhe desse ou não o ouvido que tudo não passava de um sinal dos tempos, fruto da vida de descrenças dos homens no reino divino!
Depois de esperar quatro horas, finalmente, a voz da velhota Lettieri ou de alguma cover sua chamou-me para embarque imediato.
Dentro da aeronave, já sentado, novo tumulto na lenta contagem regressiva para chegar em casa. Estavam embarcando passageiros de vôo anterior cancelado, com igual destino, mas desde que estivessem sem bagagem, ou apenas com bagagem de mão.
Ocorre que um cidadão não aceitou a diretriz da companhia e em carreira do finger ao charuto alcançou o primeiro assento que pode alcançar e, zás, afivelou-se, assumindo a posição fetal. Ao seu lado, na janela, uma velhinha mal piscava de pânico.
Aos apelos dos comissários o insurgente dizia com toda calma que dali não sairia, ninguém o tiraria, e a companhia que lhe mandasse a bagagem despachada no outro vôo, que fosse dali a quinze dias, a quinze meses, a quinze anos, ou, se não quizesse, não mandasse, porque naquela situação pouco lhe importava. O que ele queria mesmo era sair dali e logo.
Alguém mais afoito pede que chamem a polícia, quem sabe ansioso por algum apelo de lincha, tão comum a maldade nessas situações limites. Felizmente um e outro apelo não foram atendidos em razão da solidariedade dos demais passageiros, que poderavam que aquela situação estava fora da rotina, e, como tal, obrigava que se usasse de bom senso para solucionar o problema.
Depois de idas e vindas, finalmente a companhia aérea aquiesceu ao óbvio e o insurgente pode ser deixado em paz, sem que fosse necessária a concorrência de qualquer medida extrema.
Enquanto isso, ao meu lado, a garota de pouco mais de vinte anos enviava ao namorado
um torpedo, quando foi interrompida pela comissária com o aviso de que as portas da aeronave logo seriam fechadas e, em razão das normas de segurança, deveria desligar o equipamento de imediato.Com ar contrariado pela interrupção, a dona da gargantilha Ana Lídia desligou o aparelho não sem antes beijá-lo, como complemento de um ritual que a levaria o mais depressa possível para os braços do amado, decerto impacientíssimo em algum saguão de aeroporto brasileiro, com olhos fixos no
monitor de chegadas/ arrivals, todas em situação de atraso técnico ou canceladas.
Quando o comandante informava que alcançáramos altitude de cruzeiro, ouço na fileira ao lado o insurgente explicar a velhinha que o avião é o meio de transporte mais seguro no mundo, e que decidira agir rápido, daquele modo, porque se não deixaria de ser padrinho no casamento do tio mais novo, que aconteceria na manhã seguinte, em Santo Antonio do Descoberto, interiorzão de Goiás. Tinha razão a turma do deixa disso. Solidariedade está acima de tudo.