sexta-feira, 20 de março de 2020

No ninho do Minho



Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que pode esta língua?
Caetano Veloso, na canção: “Língua”

Ao lado da Sé de Braga, na região do Minho, um gajo de solene aparência vende toalhas de mesa com poemas escritos na protolíngua local. Explica à brasileira que aquele sotaque os distingue na lusofonia: vizinhança com a Galícia - mais acima, em Espanha.
Em Corunha, Galícia, um grupo de cirurgiões brasileiros visita um hospital e posa para foto. Na porta do centro cirúrgico está sobrescrito: Unidade de Cirurxía Torácica. Isso mesmo! Cirurgia com "x".
Na realidade, o Minho aninhou a raiz da neolatina língua portuguesa. Foi lá que o nosso rude e doloroso idioma veio à luz. A nossa língua, de viço agreste, veio da Itália, região do Lácio, próximo a Roma. Era falada por soldados, camponeses e camadas populares, que migraram para a Galícia, esse recanto esquecido da península ibérica. Lá fincaram bandeira sem delimitar território. Depois, como numa irmandade, desceram para Portugal sem marcar fronteira.
Ora, pois, como a poesia está para a prosa, então parti de Braga rumo à Galícia, só para sentir na tuba auditiva a raiz de nossa lira singela.
Não deu pé: chuva medonha. Paramos em Viana do Castelo, fronteira. A bela cidade, para nos salvar, guarda boas livrarias. Entrei, bati os sapatos, sentei e pus-me a ler sobre nosso ouro rico de ganga impura. Comecei a depurar por Afonso Henriques, o primeiro rei. Nascido em Guimarães, berço de Portugal, ele oficializou a língua como galego-portuguesa, após expulsar os árabes e uns poucos normandos que sobraram da invasão viking. Com isso, o rei retira a língua de Camões do exílio e põe na rota das grandes nações. Historiadores aferem que Portugal, verdadeiramente, nasce neste exato momento.
Li também que o primeiro poeta foi o rei dom Dinis. Desconfio até que aquelas trovas impressas nos souvenirs próximo à Sé de Braga começaram com esse poeta galego.
Então, a partir do rei, da poesia e da criatividade, a língua ganha rua, contornos, e passa a se chamar a língua do reino. A partir daí ela desce para Lisboa, reconhece os versos de Luiz Vaz e vai parar no Algarves para ganhar adaptações e sotaques. Do continente lança-se ao mar e atinge ilhas vizinhas, África e o Oriente; cria confusões de prosódias ao atravessar o Atlântico para invocar Gregório de Matos Guerra, o “Boca do Inferno”, no lado brasileiro; aguça Olavo Bilac, no poema que exalta a última flor do Lácio. Depois veio a música “Língua”, de Caetano, tudo junto e misturado no mesmo sangue, com a boa dose de lirismo: “como se num suave azulejo o rio Amazonas, que corre Trás-os-Montes, numa pororoca, desaguasse no Tejo”, diria Chico Buarque.
No último século, com a expansão do castelhano e as regras para o português do norte, começou a ocorrer divergência no que se falava nas ruas e, definitivamente, ela se separa do galego. Mas ficaram rastros em sua pronúncia, como a palavra “cirurxía”, por exemplo.
Ao visitar o dileto Gonzales-Rivas, oriundo da Galícia, que mora na China e por lá anda divulgando a cirurgia torácica ultramoderna, ele apresentou-me a jovem Isabel, cirurgiã galega que hoje mora em Madrid, e foi aluna sua. Na roda de conversa eu falava português, sem qualquer tentativa de me desdobrar no portunhol e os dois me entendiam muito bem. Então, alhures, ouvi os gorjeios do galego deixados ao fundo do ninho do Minho, quando despertou minha curiosidade...
    Na livraria, já era fim do dia. Continuei sentado, a escutar o silêncio da chuva cerzindo o tempo, até me deparar com “O Livro do Desassossego”. Ali vi a inculta e bela vestir-se do manto régio da transliteração greco-romana, sob os versos de “Minha pátria é minha língua”. Lá o esplendor da syntaxe de Fernando Pessoa fez-me entender que a última Flor do Lácio deixara ao léu uma pétala de rosa entre vielas e castelos de Guimarães, até que os descendentes de Guimarães Rosa pudessem juntá-la, guardá-la na alma e enternecer o imenso Portugal.

domingo, 8 de março de 2020

Cirurgia nas pontas do lápis e bisturi




“Vento que passas, leva-me contigo. Sou poeira também...”
Miguel Torga, poeta português.



"Viver é etecétera...", grifou Guimarães Rosa e, como o ponto final ainda não aportou em minha jangada de textos, sigo entre vírgulas e reticências a esperar a página em branco (ou cinza...) ganhar estampa. Desde então ando cavoucando coragem em cada ideia alvissareira em que me jogo, e me lanço ao desafio, tal como o pescador em sua jangada imbui-se da jornada ao mar.
Uma dessas ideias se interpôs em missão a Viena para realizar um curso prático na área cirúrgica. Semana antes de embarcar, recebi convite para fazer uma paragem em Lisboa para dar uma aula no hospital São José (Centro Hospitalar Universitário de Lisboa), referência maior em urgência naquela cidade. O tema cabia perfeitamente na minha vivência, por isso, fiquei honrado pelo convite. Aceitei na bucha.

Já em terras lusíadas, a Avenida Liberdade se expandia em cada passo. Dobrei o Rossio e me direcionei ao hospital com o pulso fechado. A arquitetura do lugar, até chegar ao salão nobre, é um relicário da nobreza portuguesa. Neste roteiro, caminhei pela memória de um país e de um povo, sob afrescos e iluminuras e entre paredes entulhadas de memória. Vi nas escrituras um corolário de elementos historiográficos que levaram à insignificância de minha presença: desde a reconstrução do hospital após o terremoto de 1755, passando pelos desígnios da dinastia pombalina até os mandamentos de Salazar e o Estado Novo. Aquela academia de cirurgia, então criada pelo enfermeiro-mor Luiz de Vasconcelos, mereceu resistir a essas intempéries. Ali se ouve as tessituras do tempo em notas afixadas às paredes do templo - sagrado ao ensino e ao assistencialismo. Ao escrever esta página, veio-me à memória um excerto de Lobo Antunes: “Regressando aos santos, sandálias sempre”.

Não finda aí, e a aula seria o de menos...
Consoante ao novo desafio, antes de iniciar a leitura, conheci os professores Oliveira Martins e Novo de Matos, coordenadores do serviço. Mas um detalhe na sala de espera e de reuniões me chamou atenção. Estava afixada à parede o anúncio da aula - que muito me honrou -, e um quadro branco à meia altura da parede, com desenhos feitos à mão. Não eram desenhos quaisquer, mas expressões da cirurgia com traços vivos de arte - arte como pão e vinho diário para quem dela precisa.
Ao indagar a autoria, Martins levantou o dedo; abandonou a sala... e voltou. Voltou com um livro na mão - um regalo. Ali continha alguns de seus desenhos que costuma fazer após cada emboscada cirúrgica de urgência, agora transfigurado em livro. "Cadernos de um cirurgião" é uma leitura de desenhos que se debruça no cotidiano da arte cirúrgica, ora pela dedicação profissional, ora pela causa acadêmica, conforme descreve o escritor Guilherme Martins: "É um exercício em que várias artes se cruzam. A arte do médico tem o seu próprio movimento, a sua concentração, o planeamento, a encenação, a liturgia, o gesto, a aplicação certeira dos instrumentos de precisão, o bisturi com a sua magia, tudo para que o resultado seja próximo da perfeição, que permita recuperar a saúde e o bem-estar da pessoa que o cirurgião opera. Já de si a palavra 'operar' é ambivalente - falamos de obra, de criação e de recriação. Estamos na ligação entre a arte e a ciência. E, como dizia Rômulo de Carvalho, que conhecemos a vida inteira como um outro Kant, por cujas rotinas podíamos acertar os nossos relógios: 'não somos, em última análise, o método, o processo, a forma e o modo. E se falo de encontro de várias artes, chego com a ilustração destes 'Cadernos' - o desenho, como movimento, como gesto e como representação."
No caminho de volta, a Avenida Liberdade me retoma o pulso e, na clara ideia daquela artéria da cidade, tentei fazer valer todos os caminhos por onde se busca viver eteceteramente.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Ruína

Mulher, 25, apaixonada por psicopata. Traída, apontou o cano do revólver para a nuca -dele-, mas acertou o próprio pulmão. Sobreviveu, mas restou-lhe os estilhaços da culpa. O itinerante, durante o transporte para o teatro cirúrgico sapecou-lhe o verbo: - Por que não atiraste nele?" Ela, simploriamente, respondeu: - "Eu ficaria encarcerada o resto da vida e perderia a confiança de todos os meus amigos. Então escolhi a própria morte". A escolha se transformou numa abertura de um palmo, no peito, para desencarcerar a dor da vitória sobre o destino. Restaram coágulos sobre a mesa e dois pares de luvas evertidas penduradas na aba da lixeira, deixando escorrer o sal rútilo-vinhoso e um certo cheiro de desconfiança do mundo. Tudo, agora, segue sob outra pele, em gotas de Rivotril-a-granel e em passos de Gardel. 

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Uma colher de chá aos chineses


A china de outrora traduz o selo da longevidade na pintura “Grande tio-avô Yizhai na idade de 85”, período da dinastia Ming (1368 a 1644) – pós-queda dos Mongóis. A obra em pergaminho é citada como autoria de Ruan Zude (1561 ou 1621), exposta no MMA, Nova York. 
Não obstante, durante a visita à Cidade Proibida, em Beijing, encontra-se a escultura de uma tartaruga com cabeça de dragão fincada na entrada de uma das tantas edificações. Representa a longevidade que os chineses d’antanho já se preocupavam. Está na alimentação o ponto-chave, tendo o chá como a melhor inferência. 
Quem visita a China percebe a quantidade de idosos nas calçadas e alguns até escalando a Grande Muralha, mesmo em passos de cágado. Num país em que a prevalência de cânceres de pulmão é alta e onde vive a maior população do planeta, a arte Ming vale como referência milenar aos bons hábitos alimentares, e isso pode superar o contrapeso das doenças cancerígenas numa população geneticamente desfavorável, que vive num bioma nocivo por conta de agentes carcinogênicos inalatórios (poluição). 
Se arregalarmos um dos olhos e vislumbrarmos os asiáticos, um sachê de chá todos os dias poderá acrescentar uns passinhos a mais nos degraus do tempo. Com o outro olho, atiçado pela ciência, a gente começa a ver que ômega-3 versus radicais livres precisam ser bem entendidos para nos alimentarmos de forma serena e oxigenada.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

O lusco-fosco

Fotografia de Adriana Varejão
Quem visita o Museu de arte de Lima, Peru, pode se defrontar com esta peça em cerâmica, datada de 1400-1532 d.C. A imagem transporta-nos à figura de um crustáceo, no centro de um alguidar, com os olhos esbugalhados, prestes a dar um salto no colo da mira. A imagem ficou consagrada na medicina como uma representação do mal, o Câncer, considerada doença clandestina, a qual se fala sussurando, por representar malfeitura da natureza (uma tradução simbólica da mutação - o crustáceo - no núcleo celular - o alguidar). Pergunta-se se a morte por Câncer pode ser evitada. Não é possível considerar todas as variantes como factíveis de controle - ou mesmo cura-, mas o que mais se faz é lutar contra essa avassaladora doença, desde a sua raiz genética até a extirpação. O de pulmão, o mais avassalador de todos, representa preocupação pelo silêncio dos sintomas, e que nos assusta pela imagética que abeira o cotidiano de cirurgião. Portanto, se virem três, ou uma multidão de médicos agrupados por idéias e vontades, saibam que eles estão envolvidos no objetivo de tirar do fosso o fosco olhar a este universo desvairado.
Tirar do fosso o olhar fosco é deixá-lo bandear por aí em busca de outras luzes, mais sutis, mas não menos potentes. É o mesmo que interpretar as estrelas do céu, ou o Big Bang que a ciência rascunha em seus desenhos, mas que ainda não conseguiu a solidez. Para esta missiva, o olhar poético é sempre farol na escuridão, em meio às tormentas. O seu combustível é a fé e a imaginação, a experiência e a ousadia de buscar a cicatrização. 
É um olhar modesto, acolhedor, que sabe que não pode tudo sozinho, daí a busca do auxílio de mãos e ombros, para erguer e acolher - ao que chamamos de board
É um olhar de instante, que relampeia na escuridão, mas ilumina caminhos. Nem que o caminho seja estreito, curto, sem a luz do sol para o amanhã, sem a perspectiva de sanar a dor ou recuperar fôlego. Um passo a mais pode ser a distância entre a desistência ou a vitória. Um olhar desses, firme na tempestade, é sempre inspirador, não importa o que aconteça depois - neste tempo ao alcance das mãos -, mas que nos foge às rédeas. 

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Para sempre, Bettina!

No ambulatório pergunta-se ao jovem Esdras Edgar, prestes a concluir o grau médico, quando se sentiu pela primeira vez abraçado pela medicina. Não respondeu de imediato. Olhou para o próprio umbigo e depois estendeu e recolheu o olhar para Isadora, sua colega, ao lado. Após alguns segundos rememorou todas as páginas de seus PDF e, sem gaguejar, respondeu lucidamente: “foi quando colhi a primeira história clínica.”
Relatou naquele momento que havia recebido a aula teórica de propedêutica e, aguçado para colocar em prática, vestiu-se a caráter: jaleco alvinho com caneta BIC no bolso, calça nova e tênis branco com mais de mil léguas de pisadas. A aula é estruturada numa sequência desde os primeiros sintomas e como evoluem ao longo do tempo de doença - se melhoraram, se pioraram. Também se usa medicamento e se há resposta. Algo sobre familiares e modo de vida. A última parte da anamnese inclui hábitos, como o de fumar ou mesmo de praticar esportes.
Todas essas informações dão ao médico o claro entendimento da natureza e da origem das condições clínicas e como elas se encaixam dentro de um padrão. É o ritual acadêmico. A partir de então é gerado o diagnóstico. Depois vem a segunda anamnese, a terceira, e a partir de então temos um roteirista. É o que se considera alfabetização clínica.
Tinha razão, o Esdras. É o primeiro contato físico com pessoas doentes e normalmente acontece no início do terceiro ano... E não dá pra esquecer o professor.
Veio-me a lembrança de Bettina Ferro e Souza no momento daquela resposta. Aí o tempo parou e me rendeu na coleira, apertando minha jugular. Como as pessoas passam depressa, sussurrou o tempo, em meu cangote.  Parece que a gente consegue parar o tempo e perceber que ele – o próprio tempo -, feito visgo, adere à pele e vai bater no juízo. 
Ao ver a fotografia da professora Bettina estampada na página de um editorial da Revista da Sociedade Brasileira de Cardiologia eu revi aquelas primeiras aulas dos porões da Santa Casa de Misericórdia, onde tínhamos que aprender a escutar e auscultar pacientes. Título do editorial: “Perfil dos cardiologistas brasileiros: um olhar sobre a liderança feminina...”. Destaque à ativista médica que nos ensinava como ouvir a onomatopéia tum-tá das batidas cardíacas ou aquecer as mãos para apalpar o fígado. Bettina era baixinha e magérrima, porém sua estatura e seu peso nada tinham a ver com sua capacidade de ser mensageira de Asclépio.
Fora da sala de aula costumava-se ver Bettina aos domingos, cedo-cedo, subindo as escadarias da Beneficente Portuguesa para frequentar a missa, pois era uma religiosa fervorosa. Caminhava com uma leveza que lembrava a sua forma de se expressar e de ensinar a ler eletrocardiograma.
Àquela altura, meados da década de oitenta, quase aposentada, teve suas apostilas transformada em livro por uma grande editora brasileira. O livro tinha dois tomos. Um deles, de pura prática médica, cortejava a coleta de informações para se compor uma boa história clínica junto com o exame físico e era o que se chamava de adestramento do exame físico. Era o que mais tinha a ver com aqueles muros e pilares. Assim, o Brasil conheceu a maior obra da literatura médica oriunda dos porões da Santa Casa. Ademais, foi espelho para uma geração de professores que até hoje mantém a aura daqueles aprendizados como esteio do ensino dentro dos muros universitários de todo Brasil. Consoante a tais fatos, doou seu nome para um dos Hospitais da UFPA.
Naquela resposta jovial estavam todas as reverberações que o lançaram a responder à pergunta. E, no meio de cada um que sofreu influência ontogênica daquele embrião de ensino, não há como abolir de dentro do peito um sentimento que te lambuze, quando se revive. A tentativa de esquecer não passa de um destempero vil que se veste de fantasminha e vem fazer assombração em noites de alumbramento.

domingo, 28 de julho de 2019

MOÇO DE JUÍZO, OBEDIENTE

Por Sabá de Abadia

 Menina ainda, Joana, de Jupira
era capaz de fazer indagação
de fazer qualquer ancestral
se revirar no caixão…

- Quantas palavras há de caber
aí nesta coisa que lhe atravessa a
garganta, este nó que lhe entorpece
os sentidos, este sentimento que lhe
corta em muitas tiras o próprio coração?

- Se palavras tropeçam na língua
não será porque chegaram de
longe estoporadas,  feridas
e famintas de claridão?

- Se é possível tirar, extrair é também
então possível enfiar palavras adentro
feito bálsamo, alento, bisturi ou fermento?

- Será que existe parteiro de palavras
engasgadas, dessas que azedam
e permanecem nas entranhas
purulentas, atoladas?

Joana se fez poeta e de verso em verso
no palco e no consultório faz com a
palavra afiada feito cutelo o que
pouca gente faz: partejo do
que é justo, bom e belo.

Conheci esta rara figura ao visitar
no sertão de Pernambuco um familiar.

Disse-me ela em linguagem direta:

“Eu cutuco, porém não machuco
dou berro, mas sussurro
arranco espinhos
e educo”.

Por carta, hoje, sou seu analisando
um paciente sempre presente.

Pois logo ela me escreveu dizendo
que não bota em ninguém cangalha
antolho ou exige atitude de carneiro!

Mas pediu-me postura, estado alerta,
falando-me delicada como ferro quente,
pronto a marcar, mergulhado em braseiro.

“Ou tu te abre, ó filho de flor de urtiga
ou te caço feito rês fujona e te dou coça!

Se desejas a cura abra tuas comportas
mesmo que haja só chorume
e tudo cheire à fossa…”

Ela escreve e fala sempre em versos
como se fosse um cantador de repente.

Eu, comportado, atendo a seus comandos
pois já me fiz um moço de juízo, obediente…

26jul2019

domingo, 30 de junho de 2019

As ruas da minha aldeia


Para Corisco,  bando e quem mais se achegar
Para meus amigos de infância, em Feijó-Acre.

As ruas de minha infância guardam os festejos juninos dentro de mim sob marcação de zabumbas, sanfonas e triângulos. Hoje, se faço acordes com este silêncio das ruas de antanho, é porque faço essa colagem impressionista, tomando o pincel das mãos de Monet e guardando em minha parede.
As ruas da minha infância, hoje, olharam-me com estranhamento, como uma espécie de coruja de hábitos crepusculares, que guardam no meu sistema límbico o voo calado daquela meninice, como se fosse texto de Twain.
Ultimamente, distantes deste passado entre as terras de Tom Sawyer e da Matinta-Perera, venho tentando ajustar as cores daquelas ruas, mas não há combinação com minha tez e a colorida fama de memorialista. É tudo sensação. São sensações, pois meus pés não se arrastam no asfalto de hoje como nas ruas de outrora, alhures, pois meu passado de pedra, pó, lama e dedos descalços no açoite do sol escalpelam o toutiço e sustentam o desejo de viver solenemente alegre, ao ver os terreiros bebendo açaí na cuia com granola a desafiar as raízes simplórias existentes nos encantamentos de Paes Loureiro.
Talvez eu ande hoje nas camadas underground - estilo surrounding - de ater-me sob estrondo e estorvo da cidade grande, agoniada e desassistida de passado e de Pasárgada.
Tem o sol, mas o sol não incomoda tanto; as pessoas sim. Estas bem mais que dois sóis guardados no subsolo desta retórica. Ando, ardo e misturo tudo na minha farofa de banana pestilenta, quando vejo um homem puxando carroça com um punhado de cacarecos no lombo, para comprar o pão que o diabo untou no lodo. Lá na frente ele se veste de Bukowski e dá duas talagadas na dor de ter que viver mais um dia.
As ruas de hoje, prédios de hoje, gente de hoje, esgotos de agora, são cores insalubres de uma verdade descontinuada e segredos liquidificados. Eis que os olhares da miséria e medo são parte do enredo das calçadas irregulares e das caminhadas que insistimos em fazer por conta do ácido graxo que embeleza meu prazer de lamber os dedos na hora da fome, enquanto leio Bauman.
Íngremes entre a distância do que fui e do que sou, vejo aí que a poesia se rasteja em andrajos e me disfarça dos arcanjos para ganhar voto de bom São Miguel do Caos, em busca de quem a veja ou reconheça por trás das cortinas que atordoam Hamlet.
Tropeço em incômodos homens bem vestidos que têm pressa de chegar a algum lugar, que o leve ao nada. Trocamos pontos de vista, mas a vista já exagera no foco e acabo vendo o vestido curto da moça que rebola na hora de dizer adeus pelo canto do olho. É a hora que me desobriga de concordâncias verbais e volto pra casa para ver que a vida valeria se insistir em amar as ruas daquela minha aldeia, que guarda no cocuruto a velha farsa de fingir que não existiu, ou de fingir que não conhecia aquele rio curvilíneo que me banhava de infância.
Porque há um vasto estoque de delinquências a serem percorridas logo após a beirada de calçada de minha infância. O bar, um bar aberto, que pode ser o do Abel a espera do socorro do amigo perpetuado no passado onde moram tucujus, cujas flechas passam e me arrastam pelo amazoniamento de ser palavra verde, som equalizado do Curupira e pulso arterial que ribomba na floresta nômade dos Yanomami, donde eu vim rastejando para ouvir Joãozinho Gomes.
Sim, um bar, não um cocar! Foi a partir daí que dei os ombros àquele Acre de minha infância, onde pude despejar todo meu temor, toda descrença de curumim ao cuspir a última gota de esperança que resta no ducto sujo do meu pâncreas, pois limpa é a alma e o poema que vêm da bonança das ruas de meu terreiro de são João, das valas, dos esconderijos das vidas, onde o poeta Gullar fez-se irmandade com a calçada que anda em desavença com as palavras que guardo dentro de mim, ao vir à tona para se fantasiar de poesia.

Labareda, do Bando de Corisco

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Sujeição ao verbo SER

A gente quando escreve faz com agulha e linha na mão, tal a rendeira, tal cirurgião de antigamente. Também a gente puxa o mundo para dentro de si e põe no colo, mas o que sai não passa de calango torrado.
Uma prova disso vejo no amigo Corisco, ao dizer que poesia não serve pra nada. É quando ele se senta no chão, a Manuel de Barros, e sapeca versos fortes, que dão saltos mortais e parecem sucumbir logo ali na esquina. Mente que nem sente, mas ele se escora no Pessoa, e diz: poeta é fingidor. Ele se finge de morto pra comer o cupuaçu do coveiro, pois logo que é tirado do pé é azedo que nem abóbora com elixir paregórico ao leite de magnésio.
Aí certo dia fui em busca de inspiração para escrever com a linha na mão estas mal traçadas letras. Dei uma de Marcel Proust e vazei pelas ruas de Paris, ou melhor, pelas beirada da Pariquis, e fui bater na Benjamin. Não para me encontrar com Paulo André, tampouco Clovis ou Antônio Maria, no esfumaçado Cosa Nostra. Parei antes: Moquén. Uns dez metros aquém.
Soube que o Paulo Cal, o Tito e o Elias Pinto andam por lá, degustando o moqueado do Moquén. Deve ser bom, pois esta trinca não costuma dar bote errado.  
Sentei e vi o Chef na minha direção, afinal era o primeiro a chegar. Fui de Tambaqui. Deu liga. Ele falou dos sonhos, dos temperos, da sua nova vida acadêmica e de suas viagens gastroenteroestrelares. O tambaqui harmonizava com o papo do chef. As paredes, mais um tanto-mais. O homem era de alto quilate e Surucuá teria passado por ali para dar cor àquela alma e àquela parede printada por um cortesão da mais nobre arte.
Falamos de nosso passado nos arredores do Tucunduba. Sim, pois somos contemporâneos de faculdade. Falamos daquele rio que singra nosso tempo estudantil, feito bisturi que corta a carne do nosso passado incontornável, de lá donde o Guamá fez a curva até largo de Santa Luzia, convivendo nos porões da Santa Casa. Tudo passou feito faísca queimando, sem dó, o glicogênio de outrora que nos amaldiçoa agora.
Sobremesa? Não, água. Não esquece que minhas coronárias já guardam algumas placas tectônicas de cálcio insalubre e a qualquer momento posso bater o cacau. E o meu colesterol mais lembra que a vida é breve. Ainda bem que a arte seja longa, diria nosso Hipócrates.
       Logo depois o Moquén inchou. Mas eu já tinha de partir. Antes chegou o Luiz e passamos a rir sem direito à preposição, verbo e educação. Tomara que a vida continue nos dando ocasião para o riso solto, pois, ao escrever, finjo-me de ladrão e escapo de encruzilhadas e do tédio, e passo a roubar fingimento de escritor para ver se a vida me desabrevia. Afinal, estou aqui pra lamber palavras e o tempero quem vai dar aos textos é  a poesia nossa de cada dia, com direito a um Pinot Noir e um pedaço de tapioca ao gosto do chef.

sábado, 25 de maio de 2019

Vida rápida

A vida, essa trágica piada,
passa com uma pressa danada.
Não a acompanho como deveria.
O que houve com o tempo e os costumes?
Pra onde foram a mortadela e a moela?
Os "tira gosto" estão saudáveis demais
pra quem busca suicídios a médio prazo.
Fumar já não pode,
beber sem se exceder,
e logo logo o câncer será proibido.
A vida está rápida e a morte tomando distância.
As folhas perdem espaço pras telas
e meus dedos não se dão com elas.
Os livros. Ah! Os livros.
Minha última quimera,
minha cidadela,
onde quero enterrar meus olhos,
meus ossos, meus vícios,
os disfarces, artifícios
e me perder de vez
até virar história
contada em noite de chuva,
com barulho de trovão,
quando nada mais restar,
nem rádio ou televisão;
uma história sem palco,
com a chamada terminal:
senhoras e senhores
acabou o espetáculo.

Corisco.

sábado, 18 de maio de 2019

Convite à Morte

Entre.
Fique à vontade.
São cinco horas.
Hora do chá.
Mate, Camomila ou Erva Cidreira?
Açúcar, adoçante ou ao natural?
A Sra. manda. É seu dia, seu momento.
Não lhe acompanho.
Não por falta de educação.
É que acabei de usar um remédio pra dor,
e o doutor disse pra evitar contrariedades.
Se estou esperando alguém?
Confesso que pensei convidar Deus pra esse encontro,
mas andamos tão afastados que não mais espero por Ele.
Talvez Ele não queira ouvir a penúltima blasfêmia,
ou lhe causar embaraço.
Renovo o gesto:
fique à vontade,
faça o que deve,
não se apiede de mim.
Sem pressa.
Acabe o chá.
É o tempo do último cigarro.
O que eu quero, por fim?
Recite os primeiros versos da Tabacaria.
Sim, aquela do Álvaro, ou do Fernando;
tanto faz.
O que importa agora?
Faça isso e eu vou.
Sem metafísica.

Corisco

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Beirada de praça

Em Cordisburgo planta-se conversa em todas as beiradas. Juvenal, 88 anos, homem da roça, sentava-se à porta de sua casa, defronte ao Portal Grande Sertão, enquanto eu passeava apreciando o monumento. Dei "bom dia" e ele respondeu de prontidão: "bom dia". Depois completou: "Que dia é hoje?". "Terça-feira", respondi.... "a morte esqueceu de me buscar. Bebi muita cachaça, mas estou achando que isso me fez bem". Vi boa prosa, ali. Sentei. Percebi que era cego: - "Glaucoma", respondeu. Não se intimidou e mandou mais conversa. Farto, levantei, bati a chave e saí. Tive a sensação roseana que "Primeiras estórias" nascera de prosa em beirada de pracinha e não na vendinha de Florduardo.


domingo, 12 de maio de 2019

Política

Hoje não vou falar de política.
Há coisas mais importantes.
Quero falar do azul do céu,
dos pássaros, do sol, do meu chapéu;
quero dizer que a vida é bela
sem esta ou aquela fofoca ou intriga;
quero assistir o passeio das pessoas,
das brancas, das negras e suas cores,
o passatempo dos bares
o movimento da vida.
Mas uma névoa encobre o céu, o sol
e a fuligem sujou meu chapéu;
nos jornais os colunistas ocupam tempo e espaço
com o vestido da madame,
ou o vazio que não fecha o laço.
O preconceito dita os costumes
entre falsidades e azedumes.
O bar secou,
os que interessam sumiram,
e eu me perguntei:
não há nenhuma política
que dê rumo pros homens?

Corisco.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Bendito desconhecido


...quanto ao desconhecido, amigo
posso dizer-te que é o terreno
que prefiro pisar nestes
dias confusos.

Quem tem a bússola da fé
entranhada no coração
nada teme.

Se desorienta quem esquece
de atualizar referências,
principalmente as
do coração.

Perder-se em meio a debates
em que o embate é feito
com espada de papel
nos renova!

Vez ou outra uma ideia intransigente
dura, caquética ou carcomida
cai por terra, fulminada!

Desconhecido é caminho
de descobertas.

Por isso não tenho essas pressas
de aprendizado, de conhecer tudo,
pois gula costuma nos enfastiar.

Vou brincando, assim, de recortar e colar.

Depois troco figurinhas!


(Sabá de Abadia, em dias de euforia por motivo algum, pois assim que é bom, ora porra!).

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Anotações

Palavras são postas a procura de olhares
e não há acaso no encontro de olhos e letras.
A identidade se faz presente antes,
ao tempo das navegações
nas águas maternas,
desde as notas e anotações genéticas
que dia após dia encorpam a alma.
Daí dá-se a paixão,
com a leveza das sedas,
a sutileza das fadas,
o encantamento dos sonhos,
o delírio que a sanidade empresta ao espírito
para o gozo urgente da entrega;
até que um verso torto
lhes cause desconforto
e os olhos, 
entre espantados e assustados, 
nunca mais retomem a paz.

Corisco

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Minha Praça em Bragança

Minha praça não era uma Piaza Navona, São Marcos, ou uma Praça Vermelha, mas pelo menos uma vez por ano ela superava todas as praças do mundo porque tinha preás advinhadores, carrossel, barquinhas, moças que viravam gorilas, muita garapa com pão doce e um desfile incessante das meninas mais bonitas da cidade num trottoir inspirador de poetas e vagabundos em pleno ofício de não ter o que fazer.
Minha praça teve a ousadia de confrontar uma Igreja e um bar que, soberbo e soberano, se impunha numa porfia estimulante com o templo consagrado, posto que frequentados, de forma desbalanceada, pelos mesmos personagens que pecavam em uma casa e buscavam perdão na outra. 
Duas belezas singulares. 
O bar com seus vitrais maravilhosos espelhavam os melhores sorvetes, picolés, comentários e bêbados da cidade.
A Igreja guardava imagens aterrorizantes, como a do Senhor Morto, e apaixonantes como as da Mãe do Senhor, pródigas na expiação das culpas.
No meio, arbitrando a disputa, um obelisco dividia as paixões e impedia a Casa dos Padres de se meter na luta enquanto alimentava amores, desfeitas e taumaturgos em formação.
Meus olhos acompanharam o amadurecimento e o envelhecimento da praça.
Hoje ela não me reconhece mais, mas  continua inesquecível para mim.

Corisco

domingo, 17 de março de 2019

A arte por um fio


Eu trocaria uma mina de diamantes por um copo de água pura da nascente.” 
Julio Verne, em: Viagem ao Centro da Terra (1864).

Desde quando o homem dominou o fogo as coisas nunca mais foram a mesma. Criou a religião e suas vertentes aguçadas, inventou a arte como forma de redimensionar a roda da vida, viu a filosofia como a primeira sombra de sua alma e só bem depois brechou a ciência pela luneta de Galileu.
Pelos meandros da construção desta modernidade, um sábio grego, na ilha de Cós, transformou igreja em hospital para separar a doença da religião. Inventou a cura, e o que era para ser discreto e incauto ganhou proporções atemporais.
Daí veio um francês e, com toque de gran chef, misturou gema de ovo, óleo de rosas e terebintina e untou num ferimento de guerra. Parè descobriu que a mistura provocava cicatrização rápida. Assim nasceu a cirurgia moderna recheada de arte para dar gosto e densidade à medicina.
Depois chegou a tecnologia, soltando faísca pra tudo que é ponta. Puseram a pusilânime faísca em chamas e as labaredas da ciência atearam fogo, a ponto de viajar a pontos diametralmente opostos: da lua ao centro da célula.
E depois de todos esses nuances, o Sapiens, incansável e assaz criativo, não se conformou e resolveu colocar calor até mesmo nas discussões. A verdade é que os contrapontos são os verdadeiros combustíveis às muitas faíscas que existem em nós, e quem não souber pôr a cabeça no congelador é melhor nem entrar no calor dessa discussão. Assim nasceram os congressos e os fios deste texto.
A questão é que os congressos médicos discutem cada vez mais ciência e tecnologia e cada vez menos arte. Há tendência de tê-la apenas como uma vicissitude que deve ser guardada no escaninho de cada serviço, para que em eventos ganhe a alcunha de hands on, só para soar mais contemporâneo.
Num evento recente para lançamento de determinado dispositivo na área da cirurgia, em São Paulo, um dos coordenadores flambou nossas idéias e descreveu um novo produto para suturar pulmão. Relatou que o dispositivo mecânico, independente de quem use, passa a ser equânime - seja ao jovem cirurgião, seja ao catedrático – e a costura terá a mesma estética. Com isso os resultados melhoram, a indústria tufa os bolsos e se retira a arte da ribalta cirúrgica.
Próximo de cem por cento da nossa massa cerebral, para não falar de outras vísceras menores, está consagrada à contemplação e à adoração do high-tech, deixando um mínimo espaço à turgescência da criatividade e idéias sustentáveis, por isso, a arte cirúrgica deverá desaparecer lentamente, só que o lado desumano da tecnologia é o custo, e nem todos têm acesso a essa “mina de diamante”. O evento de São Paulo foi fascinante e nos pareia com os grandes centros mundiais, mas move uma geometria piramidal que desfavorece a base, onde estão os mais necessitados - aqueles que batem à porta dos hospitais públicos rezando que sua operação seja a laser.
Mas do outro lado do país, com faísca no cérebro, firmeza nas mãos e pendor no coração, um pequeno grupo de cirurgiões do SUS vem aprimorando a arte de realizar ressecções pulmonares sem essa tecnologia toda (conhecida como OPME). Tudo na munheca - passando fio, esticando o dedo e dando nó. Se o único problema é o tempo cirúrgico mais esticado, por sua vez, esse grupo nos desafoga do caos que representa a desigualdade social em nosso país.
Havemos de estar aptos a reconhecer que a grandeza da arte cirúrgica não é apenas ego insuflado, se do outro lado da linha existem necessitados.
Por fim, não há qualquer tutorial para se criar idéias, pois vivemos de lampejos, haja vista que, perante incertezas, sabedoria é errar pela insistência, tão somente para não se desistir da vida, pois sempre há um canceroso ou um tuberculoso do outro lado da rua precisando de nossos laços e de nós.
Insistiremos com a arte enquanto houver esfomeados.

Texto do Jornal da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica adaptado para este blog

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Aos filhos de Camilo - pelo centenário da Faculdade de Medicina e Cirurgia

Rejeitando o profundo amontoado de quimeras tão antigas quanto a ilusão humana, guardando no canto do meu peito os mestres alquimistas, eu me vi sentado àquela sala, a auscultar o murmúrio da multidão que me aproxima aos cem anos de criação da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará. Eu tinha ao meu lado a doce companhia de minhas solidões quarteladas aos meus trinta anos de existência profissional e acadêmica.
Tive a impressão - coagulada impressão -, que a matéria se dissolveu em meu epicanto e se fez o corpo das coisas em forma de suspiro, de modo a toldar a janela de vidro, após cada lágrima salgada embebida pelo fio do tempo. Agora, o ramo da parábola que o relógio registrou num sextante, foi sujeito-objeto de minhas láureas, se é que existem, se é que existiram.
Vi desde a belle Époque do Zé Maria e a aquarela histórica do Ari traduzir-se em verbo. Tu que foste verbo, tu que és estado de palavra...
Depois do triunfo conjugado no púlpito – “ser ou não ser” é apenas minha questão -, finjo vestir-me do bardo e me sair moribundo pela solidão das ruas que marcam minhas pegadas pelas soleiras de Santa Luzia - aquele casarão imenso que transformou água em vinho e me tirou dos porões onde catapultei meus cadernos.
Daquele fundo partira minha orgânica vida, ignorância-mor, em tarefas de dispensário, em meio a cadáveres, que mais pareciam seres a me apresentarem o caminho de alhures. Fui bater e ouvir o barulho da cremalheira e o tique-taque de meus pulsos quando vi a primeira artéria jorrar em meus olhos e borrar minha sabedoria sobre o que nada sei. Vi indigentes que esperavam pacientemente cada manhã para ouvir o sussurro do que somos a cada página lida à sombra de uma lamparina. Nesta aplicação total, eu excluí a piedade, mas me aparelhei do novo a partir daquela esquina, de seus muros, chafarizes e folhas de um ipê-roxo acarpetando-me com ternura para que eu pudesse pisar nas veias perdidas pelas horas de sono.
Como o olho de Deus em certas gravuras, eu me vi Hipócrates à frente de Parè e tive que enterrar vivo Galeno e seu aristotelismo. Mas foi Camilo, quem se vestiu de Ronaldo Araújo, aquele cão de guarda que rosnara seus sonhos surrealistas, feitos daqui e de acolá. Começou a sair-se pelos desfiladeiros e operou espíritos com a lâmina da sabedoria, até se achegar às vísceras e tornar menos experimental o que a sociedade condenou.
Viu-se a vida de tapuios lamber a morte, mas viu-se distintos homens visitarem a biblioteca e a lousa para dar parapeito ao abismo sem cair no cadafalso.
Não, não. Ante ao decreto da morte, aquelas paredes resistiram e puseram-se de novo a escrever o grão da ciência e da arte - ó arte! -, e foste apenas vítima dos sonhadores com o olho mais longe que a linha do equador permitia,  sem tombar do corpus. Deu-se o hoje, em brados retubantes, sob as desavenças dos desertores imperialistas, que sofisticam ideias para nada dizer.
Foram-se homens, ficou o tempo apedregulhado em forma de germe, a dar grãos para que pães alimentem a fome de bem-aventurados que se vestem de branco para esclarecer que a vida não brota em cada em escalada mensurável, mas em gestos senhorio de gnomos, mesmo que custe calcular algebricamente o centenário de um caminho longevo e destemido.
Geraldo Roger Normando - Professor do Departamento de Cirurgia – UFPA.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

A dor do parto e de partir

Um amigo cirurgião do Paraná, o Vlau, em meio a uma carona, confessa-me que os filhos começam a abandonar a gente a partir do parto, quando as cremalheiras das pinças de Kelly tilintam para reparar o cordão umbilical. Depois vem a tesoura de Metzembaum e completa o serviço. Pronto: pais e filhos separados.
Eu não discordo do Vlau, apesar do magnetismo do laço familiar azougar nossos corações- Depois vai se oxidando e amadurecendo para dar vez à partida. Naquele instante, o Vlau fez minha respiração, ruidosamente, tropeçar sobre a metáfora e me deixar, de rescaldo, uma disritmia.
Aí comecei a rever que aquele cobertor deixando as pernas de fora, o nariz escorrendo, a ideia mal arrumada no caderno foram lembranças desencavernadas naquela conversa. Depois de vinte e poucos anos de convívio ao pé da casa - e a faculdade já findada-, a vida dá um sopro e eles voam com as nossas roupas e sapatos - e ainda levam algumas de nossas meias e cuecas.
Sem dinheiro no bolso arriscam-se a grandes fóruns universitários e a nossa saudade passa a ser arrematada por longas travessias, fingindo comprar açaí na esquina da Perebebuí.
E lá vamos os dois, ouro de mina, atrás de suas pepitas a serem lapidadas, pois ao brilho ainda falta muito esmeril. Portas em automático e fim de ano juntos no mesmo quarto de hotel. Um sopro - ou mesmo um ronco - para abolir o tiquetaque dos relógios e tudo vira champanhe e sete pulinhos ao mar, alhures, para brindar o novo que chega. É o plano.
[Pausa pra inspirar]
Ao descer no primeiro aeroporto e pegar o metrô já me deparo com o primeiro laço. Logo em seguida o segundo e a cidade abre os braços, como se fosse um cordial abraço ao Estevão da Tabacaria. Depois seguimos batendo perna, a prosear, e ver que o tempo os tornou mais belos e as paragens em sebos e livrarias os tornaram mais vivos. Aí uma visita ao Chiado para ver Karl Marx, Engel, Karl Popper, Carr e Paulo Freire para sentir o gosto da hóstia que comungamos.
[Pausa pra expirar]
Por Londres o inverno deixa a cidade fosca. O céu é baixo, pois o sol passeia no outro hemisfério. A luz leve não deixa sombra. Tirar a mão do bolso é banhar-se no Ártico, trincando ossos, tendões e nervos, dificultando as passadas. Sigo ao lado dos rebentos em caminhadas sobre soleiras de universidades, jardins, museus e livrarias, com direito a uns espirros pela friagem. Às quatro horas a escuridão começa a invadir nossos passos e damos-por-visto depois de achar um Dickens de 1867 e reler Sophia Andresen ou alguns livretos da Oxford Press. O final do dia é regado a vinho e conversas acadêmicas, até o sono bater.
A vida por esses trópicos tem ritmo erudito, pois um Nobel visita a sala de aula como eu visito as canções do Paulo e Ruy Barata.
[Apneia]
A respiração paralisa quando já é tempo de nos separarmos. A volta dói mais que espinha de peixe riscando a goela. Aquele tilintar dos Kelly visita a memória e se converte na sonoridade de uma velha canção do Milton. A despedida na estação me faz ter a sensação de “gente que chega pra ficar e gente que vai pra nunca mais…”
Adiante, ao sentar no trem após a última oração, a vista turva. A baixa temperatura gera uma perda de visibilidade e os óculos embaçam, mas ainda consigo ler que estamos chegando a Gatwick - e mais a frente o Tejo. É o caminho se encurtando e a gente deixando, ao longo da viagem, sulcos em nosso órgão mais afetivos.
Foram-se os meninos ficaram os homens, seus livros, suas ideias e a esperança de um mundo justo, acomodado em suas mochilas carcomidas pelo desafio. As lembranças ficaram pelos muros de Coimbra, Sussex, Minho, Oxford e Cambridge, regadas a discussões sobre ética a Nicômaco, o próximo governo e, por que não (?) o futebol.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Entre bazófias e confidências

     Quando as bazófias ou as confidências de um cirurgião privam-se de procurar histórias dentro de seu espaço glorioso, basta caminhar até uma livraria para sacar um autor e certamente um mosaico áurico, cujo valor ninguém ignora, salta aos olhos. E as linhas douradas vão vangloriar-se bem a sua frente.
       Basta desvirginar as primeiras folhas que as linhas passam a paginas douradas de uma boa leitura, te arrancam do foco da rotina e te põe a gravitar entre o real e o imaginário, como se fosse num filme de astronauta - em visão tridimensional e magnificada - a caminho de uma galáxia desconhecida. 
      Antes que a gente volte ao mundo real, caia e rale os cotovelos, dormitar neste momento anti-newtoniano e planar feito um personagem de Julio Verne, pode fazer de nossas hélices cerebrais uma drone pelo mundo futurista, pelo mundo presente ou mesmo a um passado renascentista.
      E conviver com isso é simplesmente auscultar o frêmito da felicidade em um pulmão tísico.
     Foi o que me aconteceu ao ler o poeta Antonio Moura e alguns de seus poemas. Ele se debruça sobre uma linguagem sagaz ligando pensamentos silábicos a palavras anti-monotonias, que passam pela gente como um sopro e nos proporciona uma delícia que permeia entre a lambida num chocolate amargo da ilha do Combu e a realeza do açaí sem açúcar tirado direto do tacho.
      Num desses sábados, andando por uma das livrarias da cidade, encontrei os livros do poeta. Ali permaneci, em pé, como se levitando no espaço sideral. Abri um deles e enfiei o nariz naqueles versos, para sentir o buquê de sua poesia... Segue Nosferatu:

Quando a lua uiva
sobre sonos e sopra
o pó das sepulturas,
exalo meu perfume e
negro lume, escapo

A capa, asa de negrume
envolve teu corpo, ar
repiando o dorso, car
ícia de brasa gelada

E por fim deixo em tua
pele-página, orifícios,
dupla marca, ver
melho sangue: cravada
   
        E não é que num piscar de olhos o poeta aparece bem à minha frente? Eu estava com o livro “A Outra Voz.” Ele queria autografar, mas não tínhamos caneta. Eu disse: não precisa, poeta. Ele retrucou: é que quando a gente encontra um leitor de poesia a gente acha um diamante.
Estava feita a dedicatória.

Labareda, pelas artérias de Corisco

domingo, 7 de outubro de 2018

Amana Katu: os rumos da cirurgia

A ciência não avança, 
a ciência alcança 
a ciência em si.
Gilberto Gil / Arnaldo Antunes, na canção "A ciência em si"

         Como há muita chuva na Amazônia, nada mais espoleta do que olhar para o céu e ver se uma gota de ideia cai no olho, molha alma e fertiliza cérebros para gerar boa ação.

Foi o que fez uma dúzia de estudantes de uma universidade pública da Amazônia. De tanto apanhar chuva lançaram uma ideia sustentável: recolher água da chuva que escorre pelas bicas para matar a sede. Cognominaram de Amana Katu; Vem do tupi-guarani e significa chuva boa.
Como fazem? Recolhem a água da bica, cheia de impropriedades bioquímicas, e transformam em água potável por meio de método simples e de baixo custo, utilizando bombonas da indústria alimentícia (tambores plásticos que armazenam até 240 litros).

Os jovens estudam à margem do rio Guamá, Belém, e na outra margem existem algumas ilhas, cujos moradores não têm água potável. E no que deu? Os garotos atravessaram o rio e foram levar o projeto para os ribeirinhos. Deu foi certo e eles foram bater no vale do Silício com o objetivo de apresentar, in locu, a montagem. Ficaram entre outros três programas mundiais, após competirem com 27 países e mais de 130 projetos. É a primeira vez que o Brasil chega à final desta competição californiana.

Pra transformar a travessia de rio em travessia de mar, eles ergueram as mãos pro céu e pediram ajuda ao deus Tupã para receber doações. Deu certo e os garotos pegaram o Ita do norte. Dois deles, Paulo Vinicius e Waleska, caíram nas graças da Google e foram mais além: participaram de treinamentos na empresa. Uma enxurrada de sonhos para estes garotos!

Na realidade, o que os estudantes fizeram, em forma de experimentalismo científico, estamos todos os dias a fazer, por conta da escassez de recursos na região. Um dos campos mais ávidos para inovações deste tipo é a medicina, especificamente a cirurgia.

Vivendo (ou sobrevivendo) em hospitais sucateados e carentes de recurso, volta e meia lançamos mão de idéias e recursos sustentáveis que, se estivéssemos diante de uma câmara técnica de uma grande multinacional seria certo a guilhotina em praça pública sob trovões e relâmpagos. Decerto, na esfera californiana, o destino seria outro, mesmo que a ideia custasse a bagatela de um paneiro de açaí. Mas o que nos impulsiona é a teia de idéias dos garotos do Guamá, que foram da idade da pedra à idade do silício num salto maior que a universidade onde estudam.

Um parêntese: avanços tecnológicos estão cada vez mais presentes na cirurgia, mas o ritual de hoje é: “idéia boa” é aquela capaz de ter financiamento e gerar lucro. Portanto, se o mundo é high-tech, o Amana Katu deveria ser enterrado, assim como a arte cirúrgica “sustentável” e seus lampejos. 

A razão de tudo é que o caminho da tecnologia é escorregadio, encarece o sistema e dificulta o acesso aos desfavorecidos (leia-se SUS). Fazer adaptações ou ajustes pode causar uma fúria a grandes multinacionais ou a uma fração da sociedade. Mas não à d. Celestina, que numa operação por vídeo no hospital universitário, foi-lhe retirado um tumor canceroso do pulmão. Obteve alta já no segundo dia, utilizando método moderno e minimamente invasivo. As vantagens são: menos dor, infecção e tempo de internação. O custo é alto com material descartável (insumos) e uma operação como essa pode passar de 10 mil reais. O custo da operação de d. Celestina, usando uma ideia sustentável para obter o mesmo resultado, foi bem menos que 500 reais. 
Nada disso significa pendurar a cabeça do cirurgião numa guilhotina e aumentar riscos, pois tudo deve ser feito com critério clínico e responsabilidade. A equipe cirúrgica deve estar habilitada para realizar esse tipo de procedimento. Só vai resplandecer se o cirurgião olhar para os exemplos do Amana Katu e dispuserem-se a entrar na chuva sem esquecer de olhar para a segunda margem do rio.