terça-feira, 1 de dezembro de 2020

“Bojack Horseman” é a melhor animação que você nunca viu

 "Nunca ria de dragões vivos." 

Personagem Gandalf, de J.R. Tolkien.

        O que te faz ser preso por uma série? Independente da sua resposta, Bojack garantirá que ele não passe despercebido.

O árduo e perfeito trabalho em ser um anti-herói, faz com que Bojack seja uma série extremamente difícil de ser comparada. Não por ser a melhor série que existe ou por algum brilhantismo na produção, mas por ser única e dificilmente colocada em uma única denominação de gênero. Cómedia? Drama? Comédia dramática? Drama cômico? Bem... Essa animação começou a me prender no exato momento em que eu não sabia mais o que esperar dela: nem risadas, nem angústias. Apenas deixei com que ela me surpreendesse.

Em um mundo utópico pela originalidade ao misturar seres antropomórficos com seres humanos em uma única sociedade, Bojack é uma ex-celebridade que vive em um limbo niilista entre a glória e marasmo, numa mansão, viciado em esbórnia, além de conviver com personagens com características bem individuais e totalmente diferentes das dele. A série debocha de um cavalo falante, que é a personificação do pessimismo; dá patada em todo mundo e que nada está à altura de satisfazer seu ego ou fazer com que enxergue o mundo de maneira diferente. A série explana os atores do conflito que resulta nessa apatia do personagem, como a própria sociedade e o seu histórico familiar conturbado. Bojack mostra bem que a estrada para satisfação pessoal é longa e cheia de pedras. E é exatamente por isso que é fácil aceitá-lo. 

Além da sua personalidade arrogante e ríspida, Bojack não economiza em desprezar o otimismo bobo que eventualmente o rodeia ou algum tipo de seriedade no seu trabalho. Mas o que é mais agudo nos problemas de Bojack é a relação com o seu pior inimigo... Sim! Bojack tem alguém que atrapalha ele mais do que a própria sociedade hollywoodiana. Esse inimigo vai se mostrando aos poucos, na série, sem nem mesmo se perceber.

Em um episódio você está rindo e achando que está assistindo uma comédia boba, no outro já está preocupado se Bojack conseguirá contornar as adversidades. Apesar de toda a fama, dinheiro e poder que ele tem, esse inimigo, ainda assim, consegue colocá-lo pra baixo e manter com que Bojack necessite sempre de um novo episódio com o intuito de vencer essa batalha, que se torna cada vez mais difícil quando nós e o protagonista percebemos que o inimigo é o próprio Bojack - é ser o Bojack e que não há cura pra isso. 

Na verdade não só ele, mas todos os personagens que a série apresenta têm suas particularidades problemáticas, mas especificamente Bojack pode te causar inveja com tudo que tem, mas também pode te acalmar quando o mesmo mostra tudo o que lhe falta. Com o tempo, Bojack deixa de ser um mero alívio cômico no seu dia a dia e começa a se tornar um amigo...

E se eu pudesse dar um conselho a esse amigo diria pra assistir “Bojack Horseman”.

Danilo Normando

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

A luz bruxuleante de uma poronga - parte II

 Feito menino que se lambuza com melado assaltado da despensa do avô seringueiro, nalgum canto das florestas da Amazônia Ocidental, eis-me aqui contrito, lacrimejando alegrias imponderáveis, celebrando junto a todos nossos ancestrais, grato pela oportunidade de comungar com esta gente bandoleira que se alimenta de luz coruscante e calor humano.

Quando os espelhinhos e miçangas são postos ali nas bordas da terceira margem, na confluência de um ponto qualquer do espaço-tempo, estou sempre atento. Ora pescando, ora mergulhando, ora descansando nalguma praia, ao amanhecer, colho palavras orvalhadas de profundo senso estético. Lambuzo-me novamente. Abro o coração e a vida toda ao meu redor vem me habitar. 

Corisco, Labareda e outros tantos que riscam no céu e na terra prosas e versos, depositam suas armas, arrancam as roupas e caem n'água. Meninos e meninas, um a um, mergulham de cabeça, uns voando de castanheiras altas, outros vindo em voos rasantes, rio acima, outros se teleportando... 

Poucos se conhecem, mas nos confraternizamos feito criança nos parquinhos da infância primeira quando somos todos livres para amar e dar inocentes beijos babados...

Sigamos entrelaçados, letra a letra, raio a raio, calorosamente irmanados!

(Sabá de Abadia, das Terras de Rondon, contente e grato)

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

A luz bruxuleante de uma poronga

O meu amor se magicou no dia que o arco íris lambeu as pontas do Rio e os dedos do Cristo. Feito esfinge, de braços abertos, mergulhou nas águas salgadas, desaguou preto, retinto - pra devoção dos homens afeitos ao sol da cor e veio varar em boca de rio.

Este dito mundo nasceu do abraço entre o rio e floresta, lá pelas ilhargas do rio Acre, donde me vi pedaço de gente carnificado sobre osso. Depois esses dois mundos, floresta e rio, se amaram, se encantaram, frutificaram em seres, mangues, mitos e nas ocas e malocas dois curumins brotaram feito gente grande de minha mistura afro-disíaca. Hoje eles ganharam mundo na barcarola daquele Acre-manifesto, a bem do amor e do conhecimento.

É desse mundo que venho, de mistureba de cores - é o mundo que tenho guardado, imaginado, imaculado, que serve de porto quando a noite de sábado chega imprevista e tudo que resta é beber um vinho e assentar sobre o colo da terra que, feito mãe, estende o abraço pro filho que berra e se esconde dentro dos poetas e dos sofrimentos alheios...

Venho aqui, afeito à poesia de Corisco, para falar deste mundo alheio e do abismo que alberga o sofrimento, que se esvoaça no pensamento: “O abismo olha de volta, com uma flor nas mãos.”  

Há um lustro, subsidiado por essa poesia de Corisco, que desferi de meu parabelo feito devaneio pelos renováveis palimpsestos atemporais, assim como pelo pergaminho de Sabá de Abadia e pela alegria de Zabelê, criei uma lista de transmissão para fins de desejar bom dia: bom dia!

Inicialmente era uma forma de dar bom dia aos, aos sábados. Depois passou a incluir a sexta, assim que os primeiros grânulos do sol abraçavam a minha floresta, até findar em domingo. Na medida do possível, sempre muito cedo. Cognominei de Bando de Corisco em homenagem ao poeta, que vive escondido nas redondezas, e que me batizou de Labareda.

A coisa foi crescendo e me absorvendo. Fui pondo mais amigos que respiram literatura e a lista foi ganhando megabites, giga e tera - tomando fôlego e virando rotina. A cada um deles foi sendo batizado com a alegria que merecem: Os nomes seriam uma forma de imitar “Grande Sertão: Veredas”. Fui sendo consumido pela poesia, pelos incrementos pontuais de Sabá e por aqueles que arvoravam a escrever para nossa bandoleiragem. Cada vez mais ficou puro-malte conversar com cada um que responde às postagens.

Não sou da poesia, mas em algumas oportunidades, como esta, Labareda se verga pelas letras e posta aqui e ali um modesto texto. É quando desopilo de minha rotina escaldante, agora recheada pela pandemia.

Já tem tanta gente, que perdi o controle. Vez por outra mudo o telefone e acabo perdendo alguns números e a lista fica desfalcada e emudecida de pessoas que tanto estimo. Nesses cinco anos, perdemos Zabelê para um entupimento nas coronas e o Paulo Bandeira para o abecedário do AVC, mas a lista também ganhou ilustres e virtuosos ligados às letras. Alguns músicos, como o Nemequi e Nilson Chaves. Sim, o Nilson, que sempre estava participando, enviando sinal de positivo, aprovando cada texto e cada resposta. Nunca escreveu, mas sinalizava.

Certa vez, no meio da pandemia, ele me ligou para pedir ajuda sobre alguém que precisava de meu estetoscópio - alguém contaminado pelo Corona. No final da ligação, ele me perguntou se aquela lista de transmissão havia acabado, pois nunca mais recebera os textos. Ele fora um desses que acabou escapando de minha atenção.

Fiquei apequenado, porque jamais imaginei que ele fosse sentir falta de nossas postagens, afinal, o Nilson representa claramente a voz da Amazônia, pois suas canções voam por esses recantos, entre floresta e rios.

Sei que nestas próximas semanas o Nilson não estará nos encontros do bando, mas queira ele saber, ao ler esta, que estaremos orando para que logo se recupere e abandone aquele vírus, pois o Bando tem a certeza absoluta que porá tapioca e farinha d’água no caldo da bandoleiragem e seguirá firme pelas ribeiras da poesia destemida de Corisco.


domingo, 8 de novembro de 2020

Passeio dominical de um apanhador de mangas.

Não me venha com loxias! 
Conselho que não entendo, 
não me praz: é agouro!
Guimarães Rosa, em: "Urubuquaquá, no pinhém

    Recebi de um amigo, neste domingo, ainda cedo, um texto do excelente Alexandre Garcia sobre a pandemia. Craque com as palavras, Garcia é capaz de driblar nossos neurônios com frases estonteantes e fazer gols de letra: “higiene neurótica impede que o corpo crie anticorpos”.

Mas não é pelo fato ser craque que eu não possa roubar-lhe a bola, mesmo que tenha que dar uma canelada - ou uma caneta. Faz parte do futebol; é do jornalismo.

Recebi o texto quando já estava de volta para casa nesta manhã de domingo, após passar visita em meus pacientes operados e em alguns amigos que foram infectados pelo SARSCoV2, mas que andam pagando uma etapa no CTI e Unidades Intermediárias.

Deixei aquele texto pregado na tela do computador e saí para dar a caminhada. Nesta época gosto de voltar pela Generalíssimo para apanhar mangas que vão ao chão e se debruçam sobre as calçadas. Juntei umas cinco entre bolso e a própria mão. Pra semana já tenho boa sobremesa.

Enquanto juntava as mangas cegava-me a imagem do texto. A dúvida era hamletiana: respondo ou não. Será que meu amigo ficaria aborrecido... O Alexandre sei que não, pois ele já deve estar acostumado a ler estes escritos das cavernas e levar botinadas de zagueiros sem recursos nas letras, tal como eu. Mas queria mesmo era falar ao amigo, que segue enclausurado com RT-PCR positivo para o dito-cujo. Diga-se: está enclausurado para não contaminar mais ninguém.

Então juntei umas palavras toscas e uns pensamentos de jogador-sem-recurso e pus no meu alforje, que carrego à sombra da ciência. Decidi responder ao amigo.

Segue...

O Garcia escreveu um texto jornalístico, não um texto científico. Isso é a primeira coisa que vi, apesar de ter feito poucas referências a artigos. Mas escreveu com uma primazia que certamente deve ter deixado meu amigo desassossegado. Tem mais: ainda escreveu acima do cabeçalho com esferográfica: “eu já sabia desde o dia 19/03/2020”. Pergunto por onde anda a verdade e essa tal sabedoria embasada no texto jornalístico.

Como o meu lado dominante é a ciência, sob a base socrática “Só sei que nada sei”, nem por isso deixo de ler outras coisas que representem o pensamento da humanidade. Pus-me, sem infectar ninguém, a buscar saber o que é SABER ou VERDADE, nesse terreno baldio da epidemia.

Repensar todos os caminhos percorridos pela ciência ao longo de tantos séculos, assim como leituras filosóficas, era minha missão quando chegasse em casa. Lá terei cancha para rever o tema. A começar por Karl Popper, fundador do cientificismo, a Mario Bunge, que conceituou cientificismo como “a concepção segundo a qual a investigação científica é o melhor modo de se assegurar um conhecimento factual preciso”. O cientificismo vem do positivismo lógico como braço do Iluminismo, na incessante busca da razão. Sou fã não só desses dois estudiosos, mas também de toda corrente positivista fundada por Augusto Comte, cuja razão, sob o pêndulo do Garcia, mais parece loxia, se consultarmos o léxico de Guimarães Rosa.

Portanto, voltando a apanhar mangas, posso dizer que a dita-verdade apregoada no texto em epígrafe, não é absoluta, independente de não discordar, mas ver os amigos de futebol olhando pelo canto do olho para o tubo, ou seja, à beira da entubação - ou da cova, como ele mesmo cita – me faz rever as verdades daquele texto. O que precisamos, de fato, é de um registro científico acerca do tema, ou seja: vamos sendo imunizados pelas ruas ou preferirmos nos trancafiar em casa a esperar a vacina. Mas não é só ciência por ciência, é pôr o registro do Campelo em parelha com uma revisão sistemática, ou outro pesquisador, para se tirar conclusões do que é melhor.

E sobre as máscaras. Perguntei ao prof. David Normando, da UFPA, dada nossa convivência bem próxima e que recentemente publicou um artigo internacional de revisão sistemática sobre o uso de máscaras. Ele me respondeu o seguinte: “Prefiro a filosofia do só sei que nada sei”. Completou: “Estou cansado e até impaciente com o descarte da ciência.” Embora seja um pensamento de Sócrates, a frase é um trocadilho proposital com Reneè Descartes.

Mas tudo bem... É jornalismo e o dom de conseguir driblar os pensamentos com as palavras só pertence a craques. Entretanto para ele me fazer acreditar precisamos pesquisar e a pandemia criou um campo com arquibancada bastante adequado para isso, mas o que fazemos é apenas negar a ciência, ou seja, deixar a arquibancada vazia de verdades. Precisa-se das revisões sistemáticas, se tiver, e citar outros estudos. Neste casos, para mim, estamos abjurando a filosofia positivista.

Se chamarmos as universidades para produzir essa resposta, quem surgirá será Drummond: “Minas não há mais, José, para onde...”. Porque  não há pesquisa e aí não posso desdizer o que o Garcia escreveu, mas me dêem o direito também de desconfiar, pois do outro lado tem o humanismo, irmandade e um bando de gente jovem no meio da rua, pagando uma etapa nos hospitais para serem imunizados em doses cavalares, sem direito a pinote - Aí ninguém merece chupar essa manga!

sábado, 7 de novembro de 2020

Encontros e desencontros, parte III

 Se o "amor é um fogo que arde sem se ver" não desacredito de mais nada! Fogo que cauteriza, que faz ferida cicatrizar. Amor e perdão conjugados, como boa receita de viver. 

O amor à vida - nossa e alheia - torna-se aventura nos ensaios poéticos do Corisco e do Labareda. 

Um risca o chão com o giz mágico já provado por Zé Ramalho e provoca o outro para trocar figuras poéticas. 

O outro saca o punhal da palavra e revolve mundos e fundos, delicadamente, pois evocar passados idos, porém fincados na memória, é desentranhar relíquias que merecem carinho antes de serem expostas... 

Do baú destes dois tem de tudo. Muito mais coisas que o regateiro do Alayde tinha a oferecer. Coisas etéreas, do reino da imaginação, que se tornam reais como rapadura ou melado. Adoçam a vida e dão sustância! 

(Sabá de Abadia clamando por dias mais amenos em que a poesia nos embriague e faça morada em nosso coração). 

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Encontros e desencontros, parte II

            Ontem, ao desfolhar Corisco, revi meu passado às margens do Envira, das terras de Galvêz Imperador. Foi como lambesse a pele dessa infância cheia de perebas, mordida de pium e rasgos da rua - e ainda sentir gosto adocicado.

Remeti-me ao passado no interior do Acre, acreditem, pois é bem difícil frear esse oração da infância, que descarrega todas as sinapses da candura ao refazimento dos dizeres de Corisco. Nos refazimentos, há sempre uma das minhas pernas procurando a do Saci; a Matinta Pereira, que sempre me fez medo em noites de alagamento, ou mesmo o temido Mapinguari, que se escondia entre uma touceira e outra quando íamos apanhar goiaba no sítio do seu Guimarães, do outro lado da pista do aeroporto. 

Naquele interior tinha mundo: o terçol era tratado apenas aquecendo a aliança da d. Marina na barra da saia: “difícil explicar essas coisas pros não iniciados”, diria o poeta. Talvez seja essa minha ojeriza ao “ralo-ruim”.

Então... Por desadestramento literário, surrupiei este do Corisco, cuja infância beirava a minha, a de Tom Sawyer, Pedrinho do Sitio, Huckleberry Flinn ou mesmo Oliver Twist e David Copperfield. Todos eles dormem no interior de semelhanças... ou no sonambulismo de Manoel de Barros: “Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos.”

No meu quintal de vestígios, o Mississipi de Sawyer também se junta ao Envira do Orleilson. O Tâmisa de Oliver se converte no Juruá e se estica até o Purus do meu portão, que ficava confronte a uma praça, cujo coreto servia de palco para encenarmos nossos sonhos. Naquela Macondo, tudo virava a mesma água, o mesmo banho de açude, rio ou igarapé de quando a gente pulava da ponte arriscando golpe na testa ou mordida de Surucucu-Bico-de-Jaca.

Como então compreender que pelos raios dessa infância nos encontrávamos com todos esse filhos do imaginário de Dickens, Monteiro Lobato e Mark Twain. E os castigos de minha mãe, combinado com o nosso pai, mas que seu Martins, vizinho que não tinha menino, sempre ficava aguardando A volta à rua com picolés de graviola. 

Eu, particularmente, me dava muito bem com quase todos daquela infância, principalmente os da boleiragem: o Chico Boca Preta (que já soube que anda por Belém), os gêmeos Cosme e Damião, assim como o Zé Antonio - que hoje faz parte do bando. Alguns tinham nomes esquisitos, como o Orleilson e o Kieffer, hoje o prefeito da cidade, mas quem me intrigava mesmo era o Mim. Sei lá donde veio esse apelido, assim como o Mauro Macaxeira, filho de um extrativista de borracha, que não se misturava com a nossa raça vira-lata.

Dali fiz o tesouro da minha infância, junto dos correligionário Toninho formiga, Paulo Ieiê e Marcelo Louro Cor de Bosta. Era dali que partíamos em expedições com o Escurinho, Julio Verne, Elesbão, Victor Hugo, Luís Camiranga e Miguel de Cervantes no rumo dos igarapés, furos, praias, praças e o rio Envira da memória.

Bom também era esperar o Alayde, na beira do rio. O Alayde era um desses navios que vinham de Manaus, varando o Solimões, até bater no porto, afugentando as pescarias de Mandim e Piranha. Vinha em março, quando as águas subiam. Ali tinha açúcar, sal e melaço por um bom tempo; funcionava como um supermercado itinerante, e se chamava regatão. Segundo o padre Renato, ainda antes de casar: herança do ciclo da borracha.  

Por fim, Corisco estrela-se em poesia: “Quando a lua, que iluminava os esconderijos, dava aviso que estava chegando, era hora de engavetar os sonhos até que o dia seguinte nos permitisse novo passeio pela imaginação."

Obrigado, Corisco. Guardamos de ti a poesia que o mundo insiste em esconder. Se pudesse te pedir alguma coisa, pediria para que tempo fosse lento toda vez que escrevesses; para que o tempo se juntasse em torno de tua poesia e rezasses pela planura da vida e daquele passado.

Labareda.

Encontros e desencontros

Difícil explicar essas coisas pros não iniciados. 

Eles jamais acreditariam que o Mississipi se junta ao Caeté pra formar Ajuruteua, Picanço, Mboiasukanga, ... Jamais.

Como então compreender que nós, moleques de Benquerença, nos encontrávamos com Tom Sawyer no rio do Cereja, no Curro, rio da Serra, D. Henriqueta, Aprijo, Pedro Pretinho, ... todos fugidos de alguém: ele da Tia Polly e nós dos castigos da Profa. Maricota, que tinha todo apoio dos nossos pais.

Eu, particularmente, me dava muito bem com um amigo do Tom, que ele chamava de Huck e eu de Fino, porque só quando o tempo me fez adulto eu entendi que o nome dele era Huckleberry Finn; complicado demais pra quem só tinha amigo Bené, Zé, Caíca, Sabá, Parú, Caga-Osso, e o máximo de esquisitice era o Ludisvalco, sei lá donde veio esse apelido.

Por sua vez Tom gostava muito do nosso Totonho. Coisa que só se explica pela atração que os marginais sentem um pelo outro. E, por favor, não confundam marginais, que vivem às margens, com criminosos. As margens têm lugar pra muitos e quando escasseiam, ou lotam, logo surge a terceira.

Pois é, vocês podem perguntar de onde nos conhecíamos; simples meus caros watsons, do Tesouro da Juventude. Era dali que partíamos em expedições com Mark Twain, Verne, Dickens, Hugo, Cervantes, Lobato, etc...pelos igarapés, furos, praias, praças, velas e vielas de Benquerença. 

Quando a lua, que iluminava os esconderijos, dava aviso que estava chegando, era hora de engavetar os sonhos até que o dia seguinte nos permitisse novo passeio pela imaginação. 

Não quero parecer saudosista e muito menos um cabôco lamentoso, mas tenho uma forte impressão que o Mississipi e o Caeté andam um tanto desencontrados dos moleques de hoje.


Corisco.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Por que Aldir?

Essa é uma pergunta que me faço desde que balas e balas cruzaram meu espaço sem aviso prévio, mas com endereço certo.

Penso que minha identidade se deu quando ele esclareceu que seu coração se fez humano por ser suburbano.

Acho que foi aí; bem aí; nesse momento mágico onde as identidades se abraçam na distância e o atirador de facas quer acertar sua jugular.

Tão eu que, um suburbano nascido numa aldeia amazônica na ilharga do mundo, esperando uma virgem pra me dar descanso, encontro esse Macunaíma que sabe de todas as trapaças enquanto encaçapa uma de fina, gravando um band aid na lua branca do convés.

Um chope, Dinamite, pelos deuses que levaram meus amigos inseparáveis e me trouxeram a ressaca mortal dos tempos sem adeuses dentro da escuridão sem claridade mas com sabor de lua nova.

Vou à Penha pra não ser teu acaso e pedir que minha sina seja o abraço da ostra na pérola; o beijo da morte a te dizer pra sempre adeus.

Sim, quero a paixão de pendurar o anel de ouro e correr atrás do perdão que só virá com a pancada na orelha no pandeiro e samba no pé. 

E quando restar só o mês de fevereiro e o meu país estiver perdido no salseiro eu serei resistência, como um bêbado equilibrando-se na esperança, e vestido de Aldir lutarei até a última nota do samba. 


Corisco.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Infância enferrujada

Por José Antônio (amigo de infância, perdido na solidão do passado)

Gravado na profundeza das minhas retinas, lá onde as reminiscências se escondem, bem remotas, mais ainda vividas, estão os Normandos.

Família paraense ancorada de mala e cuia, cachorro, periquito e papagaio nas ribanceiras do Envira, na minha terrinha Feijó, interior do Acre.

Senhor Geraldo Normando, o pai, funcionário de carreira do Banco da Amazônia, não sei por que carga d’águas resolveu se aventurar naquelas longínquas terras dos Ashaninka, Shanenawa, Kulinas e Kaxinawá, meus amados conterrâneos e legítimos herdeiros das terras do bem-virá.

Dele, o histrionismo, a risada um tanto Fafá (quem sabe não foram amigos de infância lá pelas bandas do Pará) e tirar uma onda com os amigos são suas marcas indeléveis e bem vívidas na minha memória.

Dona Marina, a matriarca, como esquecer? Sua dedicação e sempre atencioso carinho dedicados aos amigos de seus filhos, e é claro os inesquecíveis e deliciosos ponches servidos nos lanches da tarde, nos intervalos dos intermináveis jogos de botão, estão aqui gravadas para sempre.

De Roger, o primogênito e herdeiro do pomposo nome do pai “Geraldo Roger Normando” acrescido é claro do Junior, lembro bem, a voz um tanto fina e que assim como o corpo traziam traços do pai na cor da pele, e de Dona Marina, na silhueta, além é claro o histrionismo e gozação que sempre fazia com os amigos, mas, sobretudo as aulas mútuas de chutes. Ele com o pé direito e eu com o esquerdo, no objetivo único de nos tornarmos ambidestros. Não sei pra ele, pra mim deu muito certo. Meu pé esquerdo tornou-se bem mais preciso nos chutes que o direito. Que não me deixam mentir os guarda traves do Independência, Juventus, Andirá e Vasco da Gama - do Acre, é claro.

De David Normando, o Toninho, como assim o chamávamos, recordo a vasta cabeleira e é claro o gosto um tanto quanto exótico por comer formigas. Dizia ele que era para ativar a memória. Parece que deu certo. Em conversa recente lembrou até de França Vaz, o maior mentiroso de Feijó, mas que, segundo Zé Arnaldo, deixou de mentir quando se viu confrontado com Jorge Viana, ex governador do nosso querido, amado, idolatrado e salve salve, único e para sempre onipotente Estado Independente do Acre.

Paulo, do que restou de lembranças das minhas gastas retinas, era uma cópia quase perfeita do pai, tanto na cor da pele quanto nos quilinhos a mais no físico. Diria que assim: meio parrudinho.

Já Marcelo, o mais novo, o que me resta nas minhas enferrujadas reminiscências é que seria meio parecido com Toninho, e que tinha também muitos traços de Dona Marina.

Quanto às Normandas, não sei se porque na época, éramos muitos meninos e não tínhamos, ainda, aquele interesse comum aos adolescentes. Roger, David, Paulo e Marcelo perderam a oportunidade de ter-me como cunhado. Realmente a lembrança delas é muito fátua. Só lembro que uma tinha a cor da mãe, e a outra a cor do pai.

No mais são boas, velhas e eternas reminiscências, reminiscências essas eternizadas na poesia e musica do grande poeta e cantor popular Antonio Carlos Belchior Nascimento “Quando eu não tinha o olhar lacrimoso que hoje eu trago e tenho, Quando adoçava meu pranto e meu sono no bagaço de cana do engenho. Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus. Fazendo eu mesmo o meu caminho. Por entre a as fileiras do milho verde que ondeia com saudade do verde marinho. Eu era alegre como um rio, um bicho, um bando de pardais, Como um galo quando havia. Quando havia galos, noites e quintais. Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo mal que a força sempre faz. Não sou feliz, mas não sou mudo. Hoje eu canto muito mais”

domingo, 30 de agosto de 2020

Coisas do Éden (Corisco)

Espero que todos se divirtam. 

Não há muito mais o que fazer nesse mundo.

Leminski 


Benquerença é minha sina, meu destino, meu benquerer. Tenho quase certeza que lá se situava o Jardim do Éden original e só mudou quando os franceses invadiram o paraíso e comeram o abricó proibido que a cobra grande, que mora no rio Caeté, ofereceu pra eles.

Não fosse isso, o que explicaria a profusão de figuras absolutamente especiais que pontificaram naquelas plagas? Como: Fogo na Roupa, Tarabian, Bocage, Hesse Garcia, Zé  do Óculos, O Nosso, Dr.Heráclito, a Para Grande, a Barba Cresce, e mais uma infinidade de artistas que não cabem em tão curto espaço. 

Isso tudo voltou ao recordar a passagem do Ponce de Leon por Benquerença.

Ele chegou com a pompa de quem descobriu a Fonte da Juventude e anunciou que ficaria fechado em um caixão durante cinco dias sem comer nem beber nada, nadica de nada.

Vocês, leitores, podem imaginar o rebuliço em Benquerença. 

A cidade se dividiu em 3: os que acreditaram, os incrédulos e os que foram pra zona discutir o assunto, entre esses o tal de Ponce de Leon.

Meu informante era Otxoa Dila que jurava pros moleques que Ponce era uma agente franquista incumbido de solapar o crescente movimento em apoio à república espanhola que florescia naquela cidadela banhada de espanhóis, contrários ao franquismo.

E Otxoa Dila bradava: "No passará".

Nós não entendíamos nada. O que era franquismo, solapar, república espanhola... em compensação acreditávamos em Otxoa e "No passará" significava que Ponce não passaria um dia de fome no caixão.

Os dias passavam e era chegada a hora de Ponce demonstrar sua mágica. 

E assim se fez. Em meio a um foguetório ensurdecedor Ponce foi trancado num caixão, sob o olhar de quase toda a cidade, postado e vigiados na frente do Edf. Heráclito.

Os feirantes da Aldeia, penalizados com a situação, ao fim da feira, deixavam a xepa ao redor do caixão para o caso de extrema necessidade.

Deu-se, então, o milagre que marcaria Benquerença para sempre. Da xepa deixada ao lado do caixão nem rastro aparecia no dia seguinte. O que acontecia? Quem usava? O caixão continuava fechado. Os vigias confessaram que davam uma cochilada, muito breve.

Bem, cinco dias depois o caixão foi aberto e Ponce de Leon surgiu mais gordo e tranquilo do que havia entrado e ao levantar deu um arroto de satisfação. 

Ponce havia redescoberto a Fonte da Juventude: a crendice popular.

Corisco

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Uma jornada ao vidro fosco

    Fred Hoyle era um astrônomo brincalhão e adorava burilar ideias. Reza a lenda que na Inglaterra pós-guerra, em entrevista à BBC, alcunhou o termo Big Bang à teoria de criação do universo. Sobraram gracejos. Ele quis falar, de forma frajola, sobre a explosão que gerou as galáxias há 13,8 bilhões de anos e do tiroteio de átomos a partir do Buraco Negro. Ainda não se sabe quem apertou o gatilho: se Deus ou mudança de temperatura do universo, mas o bang-bang do Big Bang pegou e ricocheteou, apesar dos sussurros durante a entrevista. A palavra vestiu-se de delírio. 
    A partir dessa expansão do universo nascem: ampulheta, espaço e as horas dos relógios. Einstein, Hawkins, Carl Sagan, Edwin Hubble e uns tantos mais andaram debruçando seus cotovelos sobre a teoria. Tal conteúdo ganhou densidade com a recente descoberta do Bóson de Higgs, em laboratório, e ficou conhecida como Partícula de Deus. 
    Desde então, os astrônomos quando olham para o céu noturno e veem aqueles vaga lumes piscando, certamente vem à tona a entrevista do bem-humorado Hoyle. 
    Decerto também a oncologia pulmonar teve seu Big Bang, assim como seu Fred Hoyle. Com os tomógrafos helicoidais de alta resolução – nossos telescópios –, partículas em forma de poeira, menores que meio centímetro, passaram a ser visualizadas no cosmo pulmonar. A esse achado chamou-se de vidro fosco. O vidro fosco é o nosso Big-Bang, pois o pulmão, repleto de ar, deixa passar, frivolamente, os raios colimados, mantendo o desenho dos brônquios e vasos. Porém, quando há qualquer perda da transparência, a imagem torna-se fosca, empoeirada e o pulmão fica despolido. 
    Deixa ver que, no início do século passado, John George Adami, professor de Patologia na McGill University-Canadá, cria o termo “lepídico”, que viria a ser o vidro fosco na tradução imagética. A palavra vem do grego: “escama de peixe”. Ele quis dizer em seu livro Princípios de Patologia, que lepídico refere-se à lesão circunscrita que descama e escorre para o interior do alvéolo e por lá se acumula feito poeira, a ponto de formar um amontoado justaposto como “escamas de peixe”. Assim sublinhou: "são células tumorais de adenocarcinoma, proliferando ao longo da superfície de paredes alveolares intactas, sem invasão estromal ou vascular." 
    Desde então, quando se mira a tomografia e veem aquele desenho opaco, solitário, ofuscando o parênquima pulmonar, desconfia-se do adenocarcinoma, tal como os astrônomos vislumbram as galáxias em seus telescópios. 
    Com melhor entendimento do padrão em vidro fosco, agora em evidência pela nova peste, houve necessidade de se refazer a classificação anatomopatológica do câncer de pulmão e, desde então, Adami não foi o mesmo: a pneumologia mudou sua rotina e a oncologia torácica viveu a catarse. 
    Com esse diapasão, IASLC-ATS-ERS, maestrinas interessadas no assunto puseram o vidro fosco e o padrão lepídico numa mesma sinfonia e desenharam nova classificação da categoria T. Trouxeram à baila desenhos geométricos para se recalcular o estadiamento. A inclusão desses elementos morfológicos, restritos ao adenocarcinoma, deu novo rumo ao tratamento cirúrgico, assim como ao prognóstico. 
    O incessante rastreamento (do inglês screening) em busca dos vidros foscos tornou-se a maior fissura da atualidade, em que se vislumbram melhores resultados para a cura do câncer pulmonar. 
    Porém, uma próxima conquista tem pressa e busca por tumores avançados. É bem provável que não passe mais pelas lentes de George Adami, tampouco pelo Big Bang tomográfico; é provável que venha pelos filamentos helicoidais da linguagem genética do EGFR, ALK, PDL1... Mas deixemos a poeira dessa peste passar.

Texto originalmente publicado no Jornal da Sociedade Brasileia de Cirurgia Torácica

domingo, 2 de agosto de 2020

As bombas

Nasci nos anos 1950 e cresci ouvindo falar em bombas atômicas e duma briga do fim do mundo entre uma águia e um urso. 
Enquanto isso nos divertíamos com foguetinhos, estalinhos, pequenas bombas, pés de moleques, fio cheiroso, fogueiras e todo tipo de artefato junino que juntasse crianças e famílias nas ruas de Benquerença. Se o mundo fosse acabar, ou se fosse continuar a guerra, já tínhamos nosso arsenal nuclear. Sim, nuclear, porque em torno desse núcleo junino, entre bombas, fogueiras, foguetes, quadrilhas (juninas)e comida farta, foram gerados amores, namoros, filhos e famílias e o máximo de preocupação que a corrida armamentista causava era saber se a Laika sobreviveria ao passeio espacial, ou que nome iria se formar na bacia onde pingavam as ceras das velas descortinando promessas de união de corpos.
Os países ricos e brigões desenvolveram novas bombas e novas promessas de fim do mundo. Em Benquerença, o maior conflito bélico que eu conhecia era uma promessa contida na frase: "te espero lá fora". 
Fui traído e perdi um dente no Monsenhor Mâncio porque meu desafeto não me esperou lá fora e me emporradou dentro do Grupo.
E assim se deu minha infância em Benquerença. 
A guerra esfriou, outras se travaram, o asfalto e a energia elétrica acabaram com a fogueira e a magia das sombras nas ruas; minha namorada não apareceu na bacia das almas e aprendi a conviver com as bombas que insistem em explodir no jardim.

Corisco.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Pôs-se o sol

Nisto Febo nas águas encerrou,
Co'o carro de cristal, o claro dia,
Dando cargo à irmã, que alumiasse
O largo mundo, enquanto repousasse.
Camões, em: “Os Lusíadas”

Numa confluência das ilhargas dos Umaris com as beiradas do Reduto, o bairro das estreitadas ruas de Belém, havia uma edificação que desde tempos idos exalava aroma de Pau Rosa. Criatura dos irmãos Santiago, lusos que há 90 anos ousaram pôr a floresta em barra escura e transparente, como as águas do Rio Negro, só para as pessoas se banharem. Deram ao filho o nome do Deus Sol: Phebo, desarquivado no português arcaico; despregado da poesia camoniana.
Encravada na Bocaiúva, esquina com a Ó de Almeida, a Phebo exalava seu aroma de frescor de banho recém tomado, misturando-se às plumas da sumaúma que completavam a atmosfera européia nos domínios do Deus Phebo. A nascente foi após o ciclo da borracha amazônica, 1930. Todo o buquê do bairro, ou fumegava pelos esgotos, deixando uma espuma em cada boca de lobo, ou pelas chaminés, aromatizando boa parte do bairro.
Agora a história é outra. Perdemos parte de nossa identidade olorosa; não teremos mais a memória olfativa do banheiro de nossos pais e avós. Ela não mais nos acompanhará. A Phebo fechou suas portas e nossos esgotos retomarão aos odores da tragédia sanitária inesgotável. Nossa senhora cheirosa nos deixou e os ratos do Reduto voltarão a viver entre garças e urubus ao largo do Ver-O-Peso. 
A marca pegou o Ita no Norte e foi pro Rio morar. Sucumbiu à vontade da Granado, nova detentora de seu destino. O rótulo ficou esmagado pela cidade que lhe espremia entre a nova febre imobiliária de um dos mais valorizados bairros da Flor do Grão-Pará.
Adeus ao Sol e seus odores. Ficamos sob a luz e suas fragrâncias em nossas narinas profundas da memória. Memória que não se esquiva de um passado milagroso, temperado pela aeração do bairro e pelos corredores do passado incólume, farpando o tempo com seus ingredientes de retrospecção em ideias avulsas.
Quem por lá passa e vê os escombros, sente que um oco ecoa dentro das lembranças. Se desaba um pedaço de nossa história a cada tijolo demolido, a anosmia das ervas e lavandas, que no últimos anos esteve ausente da olfação de nossas ruas, agora vira sintoma irremediável.
Se bem que os deuses poderiam, sob o movimento pendular de turíbulos, esfumaçarem incenso pelos ares daquelas encruzilhadas, mesmo que contenha apenas uma gota/quarteirão daqueles vapores, mesmo que nasçam dos esgotos, pois agora são reminiscências que adormecem em nossas pituítas por onde escorriam misturas de perfumes de flores, jasmins e ervas, a céu aberto.

João Celecindo e Labareda, ambos do bando de Corisco

sexta-feira, 10 de julho de 2020

A tempestade perfeita


Final de ano de 2019. Decidimos fazer um destino diferente: Dubai. Três famílias, totalizando 12 brazucas em busca do sonho das “Mil e uma Noites”.  
Lugar único, onde o dinheiro advindo do petróleo prepara o mundo árabe para o futuro sem combustível fóssil. Tudo é suntuoso; voltado para o turismo. Fechamos nossa festa com vista distante, ainda linda, da Burj Khalifa. Festa inesquecível. Família e amigos confraternizando a chegada de um ano que tinha tudo para ser maravilhoso.
Passado revellión já ensaiávamos a segunda perna da viagem: Singapura, que encanta pela modernidade e tradição. Uma China colonizada por Ingleses. centro financeiro e industrial do sudeste asiático, porém, na quinta-feira, 2, o mundo foi surpreendido pela morte de Qassem Soleimani, chefe militar do Irã, dos mais poderosos da antiga Pérsia. Morreu em ataque com drone dos Estados Unidos em Bagdá, Iraque.
Para apimentar a viagem, a notícia posterior: derrubada de avião comercial ucraniano, por engano. Deu-se a verdadeira dimensão do risco que corríamos. A tensão surgia com o alvorecer do novo ano. Não conseguíamos relaxar, pois estávamos separados do Irã apenas pelo estreito de Ormuz. No entanto a viagem para Singapura foi maravilhosa. Sem maiores problemas, conseguimos sair daquele ambiente hostil.
Desembarcamos dia 04 no mais moderno e bonito aeroporto do mundo. Um belo cartão de boas-vindas a Singapura. Ao final do finger, já no longo corredor, seguíamos o fluxo dos demais passageiros no nosso grupo, normalmente zombeteiro, coisa de nosso sangue latino, quando à frente havia um leve estreitamento no corredor com uma fila indiana. Era um equipamento cercado por pessoas com roupas brancas. Ao passar pelo dito equipamento tive a curiosidade de virar e olhar para a tela. Vi que se tratava de equipamento de leitura térmica corporal. Logo veio à cabeça as vagas notícias sobre uma tal gripe detectada na China. Chegamos a comentar entre nós, mas nada que nos assustasse e desviasse nossa atenção daquele aeroporto fenomenal.
As férias transcorreram na maior tranqüilidade, embora tivéssemos que retornar para Abu Dhabi, cidade ainda sob tensão. Ao final das férias, refletindo sobre os fatos, estivemos na proximidade de uma tempestade perfeita. Às portas de um conflito armado, de um lado, e nas barbas do maior algoz, o SARS-CoV-2. Penso nisso e dá vontade de abraçar a família. A angústia de guerra, embora muito pouco premente, foi mais detectável do que o risco maior, o nascedouro de uma terrível pandemia.
Isso tudo me fez lembrar os refugiados sírios que, bem mais do que nós, viveram o terror da guerra e a impotência em proteger seus filhos do flagelo da fome e da morte. Medo do possível não é nada perto do terror do inevitável, pois outro dia li uma notícia que me fez reatar que tudo aquilo que passamos. O jornal retrata a história de Khadouj Makhzoum, de 55 anos. Essa síria sobreviveu aos bombardeios em Aleppo, na guerra que assola sua terra natal por mais de nove anos, com mais de 380 mil mortes, e forçou mais 11 milhões de compatriotas a virarem as costas para seu berço.
Khadouj teve sorte. Veio parar no Brasil, graças ao seu filho Abdulbaset Jarour, que mora em São Paulo. Mas a sorte não durou muito tempo. A jovem senhora escapara da guerra da Síria, mas se deparara com outro monstro terrível, não no corredor de um aeroporto, mas num corredor de hospital. Foi mais uma vítima da pandemia no Brasil, país que lhe surgiu como esperança de vida nova. Infelizmente, diferente de nós, não escapou da sua tempestade perfeita. Diante disso, a aventura no oriente, não passou de uma leve chuva, a encharcar a memória e a ensinar a valorizar as oportunidades que a vida insiste em nos oferece.

João Celecindo Grilo, do bando de Corisco

domingo, 21 de junho de 2020

Paranatinga infinito

Devo confessar a estas páginas que me sinto uma gota de espuma ao léu por tentar escrever sobre Ruy Paranatinga Barata em seu centenário de nascimento. Mas me arrisco a riscar idéias e transpor o limbo que soterra minha inanição literária.
Do pouco que eu sei - e não me atrevo a esticar nada -, além de suas andanças que vi pelas noites belenenses, também ia de proa pela poesia e pela música amazônica. É nítido que Ruy subtraía dos tesos e das beiradas de rio a matéria prima de sua assinação. Reatar seus versos para reaver esse centenário, faz-me lembrar a sina dos vagalumes: de viverem a ziguezaguear pelas matas nos confins da escuridão, com fins de mostrar sua assinatura.
Mas como o vagalume produz a sua assinatura? A resposta é que esses insetos apanham o oxigênio da natureza e recombinam com uma substância chamada luciferina para produzir a luz sem gerar queima de energia. Entretanto os cientistas ainda não sabem como eles ligam e desligam suas luzes (É segredo de poetas. Talvez Paranatinga, um tapuio com sangue de índio, tenha a resposta embrenhada em seus uni-versos).
E como o Paranatinga sentenciou sua assinatura? A resposta é que esse ser iluminado apanhava o oxigênio das palavras e recombinava com uma substância chamada eritro-poetina, que corre nas veias, dentro das hemácias dos poetas, até alcançar sinapses plangentes e esguicharem-se em seu cenário de verde-mundo. Os cientistas só não sabem como os poetas vagalumiam-se diante desta quimioluminescência. Conhecer esse ciclo por inteiro e transformá-lo em poesia é tarefa das mais difíceis e nenhum cientista ousa pôr seu método em risco para entender este enigma. 
Sendo o poeta pessoa plural, que vagueia por todas as áreas do conhecimento até alcançar os versos, poder-se-ia dizer, então, que o poema é a completude do homem, mas que, para se tornar lembrança infinita ele precisa do aval da natureza, obtida  entre o diálogo da escrita obsessiva e seu húmus, d'onde extrai-se a raiz de termos criptografados na língua nativa. Assim é o Paranatinga, uma forma de espanto entre tantos entretantos e haveres da verborragia: Araguary, Anapu, Anauerá, Canaticu, Maruim, Bararoá, Tajupará, Tauari, Tupinambá...                 
O que inspiraria este artista? Seria, então, o resto de sol no mar - a última luz do dia? Vejamos. Se existe alguma arte em tudo que circunda a floresta amazônica, cortada por rios e atalhos d’água, então, se juntarmos os últimos raios solares que apagam o plano de cada dia, estaremos diante da natureza pedindo o poema; estaremos diante dos pirilampos pedindo a noite; estaremos no meio do rio, no canto da rua, rogando por Ruy. Então, basta qualquer espaço nu: pedra, chão, papel, asfalto – ou mesmo um tosco tronco submerso-, para transformar o olhar semiótico da floresta em tinta que escorra pela caneta do poeta, até tingir o seu mundo com as cores da folha do paricá.
(Ou seja...)
Assim como o vagalume precisa daquela fotoproteína para sua assinatura, Parantinga precisava da fotolucidez, o estalo da criação de seus versos únicos. Assim, de forma crua e rendilhada, ele expunha seu murmúrio contextualizado de imagens e sons que podem ser auscultados rés às suas origens, ou sob a forma de acordes, que precisam de vozes alçadas na fonte propulsora do filho Paulo André, violeiro de encantos e gingados bamboleantes, que deu a Paranatinga asas para ir além da floresta.
Ruy -meu caro Paranatinga-, mesmo alhures, deixe duas ou três pedras de gelo a tilintar pelo teu copo vazio; depois peça ao Zé Bastos três dedos do melhor uísque do Bar do Parque para que o pavio da lamparina reacenda as velas de teu centésimo aniversário de vida. No último gole, suspenda a taça no rumo do teatro do céu e peça para que os pirilampos acendam as luzes de teus versos para que brindemos a poesia que nos revigora em tempos de recolhimento.


Roger Normando, professor de cirurgia torácica da UFPA. 
Editor-chefe do Jornal da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Os rastros de Grendel

Sóis da meia-noite se despedem, recuam para o crepúsculo da noite eterna
Ecos da montanha tocam como sinos badalando os passos de recolher,
Indicam o finalizar das tarefas diárias
Eles depositam sua fé em portas de carvalho ricas em quinino,
se escondem à luz de velas em orações.
O pânico se infiltra no chão manchado de sangue do Império do Centro.
enquanto Grendel persegue a noite rumo ao velho continente
O andante noturno procura suas refeições vindo do oriente.
Prepare as piras fúnebres, Europa.
As músicas de ninar não curam mais o pavor,
Dentro de seus olhos, seus olhos tremem.
Figuras de madeira, deuses pagãos, encaram cegamente o oceano,
Próxima fronteira.
Apelos por ajuda saem dos nevoeiros além dos oceânicos,
Rogam por um salvador nascido de sonhos da ciência
Eles sabem que suas vidas estão perdidas até o momento,
As cabeças sacerdotais se inclinam de vergonha e impotência.
Eles não podem enfrentar a multidão trêmula em convulsão
que se encolhe diante do nome de Grendel.
O andarilho noturno procura suas refeições ao longo do caminho.
Prepare as piras fúnebres
As músicas de ninar não curam mais o pânico.
Dentro de seus olhos, seus olhos fervem.
Quando Grendel deixa sua casa coberta de musgo
Advindo das cavernas repletas de morcegos
Ao longo do caminho da floresta oriental, ele adentra o salão do rei Hrothgar.
Ele sabe que a vitória está garantida,
Até a chegada de um herói.
Suas garras vão pingar sangue mortal enquanto os raios da lua assombram o céu do ocidente
O caminhante procura suas refeições a Oeste
Prepare as piras fúnebres
As músicas de rezar não curam mais o pavor.
Dentro de seus olhos, seus olhos fecham.
Até a chegada Beowulf, em sua armadura branca,
Como um jaleco forjado no fogo laboral,
Ele vencerá com a astúcia dos sábios,
Armas acumuladas ao longo do caminhar da raça Sapiens. 
Amparado no ombro de gigantes pregressos,
Ele vencerá e dará aos súditos do rei Hrothgar.
A redenção final, o abraço esquecido e o entoar dos sinos do retorno ao labor.

João Celecindo Grilo, do bando de Corisco.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

What ?!?!

Celecindo foi a Londres, em férias com a esposa, cunhado e mais outro casal de amigos em Maio de 2016. Visitaram, logicamente, todos os pontos turísticos usuais: palácios, museus, Tâmisa, London Eye, etc...
No último dia, com alguma sobra de tempo, Celecindo pediu licença aos participantes para expressar o desejo de visitar um lugar fora do roteiro: o distrito do Soho. Era para conhecer um famoso poço d’água localizado na Broad Street. Era só meter tração no tênis e disparar off road. Todos concordaram, desde que explicasse os motivos daquele destino. A explicação ocorreu durante o trajeto.
O ano foi 1854. Londres foi tomada por uma doença de origem desconhecida, que estava matando milhares de bretões, totalizando mais de 23 mil. A praga teve início na Índia e se alastrou muro-além. Só na Rússia mais de um milhão padeceram. Tal pandemia foi a que provocou mais mortos no século XIX. 
Entretanto o médico John Snow (Quem é fã da série Game of Thrones notou a associação com o bastardo Stark) foi destacado a trabalhar no olho do furação, o distrito de Soho. Resolveu mapear os casos, passando de casa em casa para saber onde estavam os mais letais. Lançava os dados em uma planilha para montar o mapa sanitárioa. O Soho de hoje fica entre o Regent Park e o Tâmisa.  Neste levantamento ficou claro que havia um padrão geográfico na disposição dos casos.
Ao chegar em certa casa para entrevistar o único sobrevivente de uma família, o rapaz contou-lhe com muito pesar fato de não ter podido ajudar, pois passava o dia fora, trabalhando em outro distrito, retornando muito tarde da noite somente para dormir. Com este relato deu-se o gatilho e Snow detonou à queima-roupa a teoria mais aceita naquele momento: a de contaminação pelo ar. O que de fato existia era tão somente o mal cheiro dos corpos definhando-se em diarreias, que levava à interpretação distorcida da transmissão pelo ar.
Da teoria partiu para o epicentro do Soho, onde havia uma bomba d’água, e que ali poderia estar a fonte do caos. Os sistemas de distribuição de água era privado e dividido por distritos, mas existiam bombas manuais de uso comunitário, em terrenos públicos. O médico iniciou sua luta para inutilizar a bomba localizada na Broad Street. Não foi nada fácil, pois estariam retirando a única fonte de abastecimento hídrico de uma região pobre, seriamente afetada por uma doença que gerava um odor arrepiante. Por ser douto no assunto convenceu as autoridades a removerem a alavanca que fazia a bomba operar. Com isso, os casos caíram absurdamente e ficou provada a relação da Cólera à veiculação hídrica.
Enfim, cortando pela estação Picadilly, chegou-se ao desejado marco da ciência moderna. Porém, onde deveria estar a bomba esclarecedora, para surpresa, não havia nada, exceto alguns homens trabalhando na calçada. Boquiaberto, perguntou a um dos operários: 
- Não deveria ter uma bomba d’água histórica, aqui?
- Sim, mas tivemos de removê-la. Depois de amanhã colocaremos novamente.
- “What?”. 
O vocativo saiu num jato. Tarde demais... Já estavam de passagem comprada para Amsterdã, com reserva concorrida para o Museu Van Gogh.
Para não perder a viagem, do outro lado da rua tinha um belo prédio onde tinha uma pequena placa em homenagem ao pai da epidemiologia moderna: John Snow. A comitiva ficou satisfeita de estar onde a história da ciência se fez na sua forma mais nobre: a preventiva, que evita milhares de mortes.
            Ao chegar em Amsterdã, mal ajustaram as malas e se direcionaram ao então museu Van Gogh. Tinham curiosidade em ver "Os Girassóis", um dos quadros mais belo da arte impressionista, que estaria ali em temporada. Era um domingo e, depois de cerca de duas horas na fila, incomodados por um chuvisco, consegui-se adentrar e começar a visitação. Eis que, diante da parede, nada havia, exceto um under repair.
- “What?” Saíram dali e remarcaram o retorno ao Brasil. Na mala, Celecindo guardou um girassol de plástico comprado aquele mesmo domingo na feira de Keukenhof.

Autores: Jader Vieira Leite, Doutor em engenharia sanitária e ambiental pela Escola Politécnica/USP. 
Roger Normando, médico e professor de Cirurgia Torácica da Universidade Federal do Pará.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

O Enigma de 1918

Há cerca de dois anos, enquanto passeava pela University Road, nos arredores de Coral Springs, Florida, a Barnes&Noble expusera Book of medicine. O calhamaço reunia as maiores notícias médicas em 150 anos do New York Times.
De repente, ao despertar certo domingo em meio à pandemia, fiz ranger as folhas daquele livro ao abrir minhas pálpebras piscantes na página 21 de março de 1997, em que o periódico Science publica os estudos do virologista Jefferey Taunbenberger sobre o agente da pandemia de 1918, até então desconhecido à luz da ciência.
A notícia correu o mundo oitenta anos após a epidemia, com assinatura da bióloga e jornalista Gina Kolata, coordenadora da coletânea do NY Times. A lâmina afiada de Taunbenberger retirou amostras do Alaska, Nova York e Kansas. Ampliou o RNA do vírus pelo método revolucionário de PCR. O trabalho durou dois anos. Os 15 mil nucleotídeos (vigas que sustentam o RNA) estavam estilhaçados em 200 pedaços e a outra parte estava carcomida pelo tempo. Montou-se o quebra-cabeça e concluiu-se que o vírus era um H1N1 de alta letalidade, encontrado entre aves e porcos.  
A onda gripal de 1918, que só acabou em 1920, em sua maioria entrava pelos cais dos portos, em que pese inicialmente ter viajado em mochilas e faringes dos soldados americanos que haviam treinados no interior do Kansas e enviados à França, no fim da guerra. Alguns já chegaram febris; depois contaminaram ingleses e chegaram aos portos de Espanha e Portugal até findar no Brasil - mesmo sem a globalização de hoje, veio bater aqui no Curro Velho.
Inigo Crespo, um amigo e cirurgião de Zaragoza, envia-me algumas fontes sobre a epidemia de 1918, alertando-me para a injustiça histórica. Aponta que os ingleses começaram com essa pavulagem. Segundo a historiadora Adriana Goulart, a idéia de Espanha esconder a doença foi noticiada pela London’s Royal Academy of Medicine. Mais tarde, porém, poucos acreditavam neste fato, pois as rádios madrilenhas, ávidas por noticiar o mundo, não deixaram de informar sobre a nova gripe.
Jornais da Trípice Entente aproveitam e disseminam que os miasmas que ancoravam em portos espanhois vinham em garrafas de náufragos lançadas ao mar pela tríplice aliança e, quando abertas em praias ou portos, havia cheiro de rosas partindo o ar, cujas pétalas eram enxurrada de vírus - uma espécie de castigo à neutralidade dos cervantes à guerra. Aldir Blanc cria a metáfora de Nova Granada de Espanha, na canção Corsário, por tratar de potente arma de guerra.
A humanidade mal contabilizava 30 milhões de mortos nas trincheiras da guerra e tinha que somar às covas comunitárias mais 50 a 100 milhões com a nova Gripe, equivalendo ¼ da população mundial.
Só oitenta anos depois, com o progresso da Genética e Biologia Molecular, a exumação dos cadáveres conservados em formaldeído puderam ser reexaminados. Retirar espécimes de pulmão com restos de secreção para aplicar técnicas modernas precisava de coragem e determinação. Tudo foi escrito por Kolata em: “Flu: the story of the great influenza pandemic of 1918 and the search for the virus that caused it”. O artigo de Taunbenberger ainda levou o prêmio científico do ano da conhecida revista inglesa The Lancet. Conclusão do pesquisador: “Eu não posso sustentar um fragmento de gene e dar a resposta a tudo. O que temos é apenas o início de uma história”. 
Dito e feito. O achado do virologista foi ensaio para a epidemia seguinte, a Gripe Suína de 2009, procedente do México. Foi uma questão de desengavetar o que existia para criar a vacina capaz de conferir imunidade contra o H1N1, e aplicar na população. Deu certo.
Com os laboratórios de Biologia Celular aos olhos, o que podemos ver sobre o SARS-CoV-2 é uma nova história ao microscópio. Sabemos que já houve o seqüenciamento do RNA do vírus, ainda na China, mas até surgir vacina e estudar as mutações, teremos que entender a recente história das epidemias. E se jubilarmos passado não tem como entendermos as nossas atuais incertezas, que abrem picadas à luz de lamparina para nosso desespero e mal-presságio.