segunda-feira, 31 de março de 2014

É muito denso pra Ela. San Telmo, tranqui!

Aquelas ruas frias. Frias e nuas. Mas nuas de gente. Prenhes de segredos. Que sedutoras pareciam. Como era bom caminhar por elas e sentir os pelos do corpo se arrepiarem um a um. Como era bom não ter medo. Ainda repugnava a frase “eu não mereço ser estuprada”. Repugnava, porque estava certa e segura que ninguém merecia. Ninguém! Aliás, é crime. Nem mesmo para fazer alusão a uma pesquisa, por mais asqueroso que parecesse o resultado.

A madrugada sempre surpreende e fascina. E ela queria seguir. Mas lembrava da dor da frustração ao perceber esperanças que escorrem pelo ralo. Não é por um partido. Não é pelo PT se subjugar ao PMDB, no Pará. De 249 a 100. É por amor à justiça e repulsa ao desejo alheio de simplesmente ter algumas migalhas de poder.

Ela caminhava. Ainda incrédula com a segurança solitária que lhe acompanhava. Podia seguir, com frio e pensamentos, até não se sabe quanto e onde. Apreciava caminhar. Caminhar só e sob poucas luzes. Por entre lixeiras e arquiteturas de diferentes matizes. Por entre carros estacionados que lha causavam riso e indiferença.

Um país que viveu seis golpes de estado. Seis. Por esse motivo ou por esse e outros mais, sabe a importância de valorizar sua história. Argentina. Liberdade. Liberdade. Liberdade. E o Brasil? A mais longa ditadura da América Latina terminou mesmo? Cinquenta anos e ... fim? Nem memória, muito menos justiça se vê. Menos ainda um governo e uma sociedade que honre sua trajetória de dores e amores.

Paredes grafitadas no caminho fazem lembrar que as tentativas de uma imposição espúria de soberbos ainda querem se manter. Ah, Venezuela! Chaves como Evita. Mitos. E ambos têm o que ensinar. Cada um em seu quadrado. Têm!

Os raros que vagavam nas ruas não sinalizaram com um possível atentado violento ao pudor àquela moribunda. E ela pode se dar ao luxo de escrever, depois de um bonito aconchego à amiga que regressava ao país hermano. Ela pode se dar ao luxo de compartilhar duas garrafas de vinho e voltar para casa. Assim, como se... nada...

Parece que San Telmo ainda fará parte de sua vida por um bom tempo...

segunda-feira, 24 de março de 2014

Poucos foram às ruas defender novo golpe. Mas quantos mandam em nós?

Seria mesmo assustador ver manifestações pró-golpe em todo país com um número exuberante de adesões. Seria. Por outro lado, quantos mesmo detém o poder no Brasil? E quantos, dos que detém cargos e posições de mando, estão engajados na defesa da maioria da população e dos tradicionalmente excluídos? Quem são os “cabeças” do Executivo, Legislativo, Judiciário e Mídia? 

Acredito que faz sentido terem sido tão poucos os que foram às ruas defender mais um golpe no Brasil. É simbólico. E se for isso mesmo... é também um péssimo sinal.

terça-feira, 18 de março de 2014

Do verbo estribuchar

Nós, brasileiros, temos grandes semelhanças com nossos vizinhos latinos. A despeito das diferenças, obviamente. E me dou conta disso com mais ênfase a cada dia mais que passo aqui na Argentina, país que expõe, aparentemente, muito mais seu incômodo com esse distanciamento a que fazemos questão de manter, assim como também mantém lá seus preconceitos, é bem verdade. Faço este “nariz de cera”, como se poderia dizer jornalisticamente, instigada por uma série de encartes do jornal Página | 12 – quem é leitor do Flanar e de alguns dos meus textos já deve ter percebido meu chamego com o periódico. Pois bem, eles oferecem agora oito encartes intitulados “Pensadores de la Patria Grande”. E a justificativa é inspiradora. Eis uma pequena parte dela: “nossas escolas e universidades nos ensinam enfaticamente a história da Espanha, Inglaterra ou França e nos mantém ignorantes da história do Brasil, da Colômbia ou do México”. Foi para fazer frente a esta cultura que o jornal argumentou a série de publicações.

Essa ladainha vem muito ao encontro de uma inquietação minha desde as primeiras semanas que cheguei aqui. Por que nos mantivemos na tradição de estudar o inglês e não o espanhol, se o Brasil é vizinho de quase todos os países da América Latina? À exceção de Chile e Equador, temos limites geográficos com todos os demais. E temos muito em comum para compartilhar, aprender e lutar juntos.

A proposta do jornal é proporcionar aos leitores informações sobre líderes que empunharam bandeiras da liberdade, da autonomia dos povos, dos direitos humanos, da união entre os hermanos. Mal sabemos quem foi Quintino Lira, no Pará, quanto mais quem foi o “bandido sublime, Augusto César Sandino”. As machetes dos jornais são incapazes de nominar a "mulher arrastada", quando se chama Cláudia da Silva Ferreira, quanto mais falar mais do que aquilo que seja conveniente sobre Venezuela, Argentina e Bolívia, por exemplo.

O certo é que, a despeito da ignorância da maioria de nós sobre a história Latino-Americana, há quem saiba de nós e há quem pretenda saber. Outro dia, quando disse a um norte-americano que eu sou de Belém do Pará, ele me perguntou certeiro: ah, perto das Guianas e Suriname, não é? Por outro lado, nenhum dos portenhos sabe o que é a região Norte do Brasil; sabem talvez tanto quanto muitos dos próprios brasileiros. No máximo, mais ou menos onde está a Bahia. E é daí pra baixo do país.

Pra completar minha angústia e surpresa, dou de cara com um artigo publicado pelo jornal espanhol El País, em que o jornalista diz o que eu considero barbaridades sobre o Brasil. Juan Arias tem a coragem de afirmar que o “Brasil está bem curado das feridas da ditadura militar e hoje os quartéis não assustam ninguém”. Só eu que pasmo com uma declaração desta? As pérolas são muitas e deste nível pra pior. Querem outra?

“Desde que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso colocou o Ministério do Exército nas mãos de um civil, as Forças Armadas passaram a ser no país uma instituição democrática como as outras. Não existem no Brasil ruídos de sabres”.

E quando ele louva nossos três poderes? Uma beleza! Executivo, Legislativo e Judiciário numa perfeita sintonia. Bem de fato estão, mas para nossa desgraça, não para o bem geral da nação canarinho. "Pena" que escreveu em parágrafo distante sobre a liberdade de imprensa que temos, porque, afinal não existem os donos da mídia no país a Copa de 2014.

Será uma escola? A mesma do Diogo Mainardi? Como se diz tudo isso impunemente? Como se diz isso à revelia de tantos protestos contra todo tipo de violações aos direitos humanos no país? Ainda que estejamos em outro contexto, que não mais o de uma ditadura militar e que, sim, podemos reconhecer alguns avanços – forçados pela sociedade civil organizada - na direção de uma sociedade menos desigual e menos injusta – não vivemos nesse país das maravilhas que este senhor articulista pretende difundir como verdade.

Ah! Já falei demais. Já estou estribuchando. Já é praticamente quase a bem dizer um pedido de socorro, nobres leitores.

segunda-feira, 17 de março de 2014

O Mais Médico: fantasia da saúde

Por Lúcio Flávio Pinto, jornalista

Arthur Chiara, com menos de um mês no cargo de ministro da Saúde, já se imortalizou. Será lembrado para sempre como o autor de uma das frases mais debochadas da história da saúde pública no Brasil. Ele disse que o Mais Médicos é o "maior programa de provimento de médicos da história da humanidade". É um
rompante que pode ser comparado ao do deputado Francelino Pereira. No auge da ditadura militar, ele disse que o partido que presidia, a Arena (Aliança Renovadora Nacional), cuja passividade a fez merecer o título de "partido do sim, senhor", era, na verdade, "o maior partido  político do Ocidente".
O novo ministro de Dima Rousseff recorreu à grandiloquência para esconder a nudez do rei. Negou que a fuga de médicos cubanos, a insubmissão de um deles, Ramona Rodriguez, que entrou na justiça contra o programa, a iminência de uma ação do Ministério Público Trabalhista e as críticas políticas tivessem influído na decisão do governo de mudar a remuneração dos médicos cubanos. Eles recebiam, no Brasil, 10 vezes menos do que os demais médicos estrangeiros, além de sofrerem diversas limitações e constrangimentos exclusivos, que jamais um país independente (e decente) imporia a estrangeiros em seu território.
     O reajuste será de 300% a partir deste mês. Além dos 400 dólares que recebiam no Brasil, os médicos cubano passarão a ter direito aos US$ 600 que eram  depositados em nome deles em Cuba acrescido de US$ 245. O novo valor nivelará à bolsa à bolsa paga pelo governo a um médico residente nacional.
Os profissionais brasileiros mal (ou pessimamente) remunerados pelo mesmo governo podiam valer-se desses precedentes para suas campanhas de melhorias de sua remuneração e de suas condições de trabalho. A grandiosidade e a generosidade expressas pelo ministro da saúde são raríssimas nos gestores públicos. Se bem que o novo pagamento feito aos médicos cubanos apenas equivalerá aos gastos com sua hospedagem e alimentação. Esse item é bancado pelas prefeituras dos municípios onde os médicos atuam.
Com suas lentes de aumento (cor de rosa), o ministro Chioro encheu a boca para declarar o programa, com 9,4 mil médicos, dos quais apenas dois mil não são cubanos, como o maior da história da humanidade. Logo depois de ter dado um toque de humanidade ao Mais Médicos, por sua brutal desumanidade, agora retocada e atualizada às péssimas condições da saúde no Brasil. Tão ruins, por fatores endógenos, que fizeram os brilhantes estrategistas conceberem a importação de médicos como a única solução, embora externa.
Mas há um detalhe importante que subsiste a todas as tentativas feitas para corrigir o programa. Por que os médicos cubanos não foram inscritos diretamente no Mais Médicos, como todos os outros estrangeiros que aceitaram o chamado do governo brasileiro? Por que tiveram que aderir ao acordo assinado pelo Brasil com a Organização Pan-Americana de Saúde e esta com a Mercantil Cubana de Serviços Médicos Cubanos S/A, uma obscura empresa privada?
A justificativa é de que esse modo adotado por Cuba em todos os países para qual enviou seu esculápios. A parcela do médico depositada em Cuba, junto com todas as medidas restritivas que lhe foram impostas e a vigilância de um observador (a "máxima direção da missão cubana no Brasil”; talvez um agente do eficiente serviço secreto cubano?), seria a garantia do retorno dessas pessoas não seu país de origem. Como grande parte do que o país hospedeiro paga é retida pelo governo cubano, a exportação de médicos se tornou uma das maiores fontes de renda do país.
É mais rentável do que exportar minério de ferro, soja ou carne animal. Mas, nas condições do acerto, equivale a exportar carne humana qualificada, como se a escravidão ainda subsistisse.
O governo tentou retocar o impacto negativo que a revelação do conteúdo do "acordo" provocou. Alegou que os médicos cubanos estavam recebendo bolsas, conforme lei aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pela presidente da república. Médicos formados há muito tempo e atuando diretamente nos municípios recebendo bolsas, como iniciantes?
O Brasil, que foi o país que por mais tempo adotou a escravidão africana, suprimindo-a meio século depois da gigante Inglaterra, não pode-se permitir servir de instrumento para essa nova ignomínia, ainda que maquilada e de serventia nacional.

Lucio Flavio Pinto é jornalista e editor do “Jornal Pessoal”.

Festa das cores na Índia celebra fim do inverno

A festa que fazem indianos a cada mês de março - e este ano dia 17 - para celebrar o fim do inverno, é assim, com chuva de água e pó colorido.

Uma bonita celebração, que deixo em homenagem a este blog e a todos que fazem parte dele, sejam como autores de postagens, leitores ou comentaristas.

Completamos oito anos hoje, graças, em especial, à aposta do querido Carlos Barretto.

Escolhamos nossas cores e bailemos, ou não.

Que venham outros anos mais pela frente! Eu quero!

Foto: Reuters/Ahmad Masood


domingo, 16 de março de 2014

João e Maria, filhos de Crimeia

As lágrima da Princesa Crimeia sustentam o choro,
A Guerra fria reaquece o quintal dos czares,
Stálin levanta do túmulo e prepara seu bodoque para ensaiar um rock para as matinês
Diálogo? Monólogo? Diplomacia?
Quem me dera que o faz-de-conta terminasse assim,
Agora só os batalhões e seus canhões cruzando fronteiras, mares, muros e morros
Morre-se de traumatismo ucraniano.

Garota Sucam, que seja. Usemos galochas na chuva!


 Galochas da Havaiana e plataforma que vi aqui

Uma das situações que me surpreenderam quando estive recentemente em Belém foi ver todo mundo, ou quase todos, com sapatos que permitem que os pés fiquem totalmente molhados durante a chuva, isso quando os sapatos não arrebentam. Sim, eu também já fui assim um dia, porque, na verdade, mais surpreendente foi como meus compatriotas me olhavam quando percebiam que nos meus pés havia galocha. Aprendi o valor delas quando passei a morar em Buenos Aires.

Logo que cheguei aqui foram elas que me chamaram atenção. Elas, as galochas. E elas, as mulheres, porque não lembro de ter visto homens usando. É tão mais óbvio usar galochas em tempos de chuva! Mais curtas, mais largas, com ou sem estampas. Não importa. A vantagem é simplesmente não estragar os sapatos e preservar a saúde, ainda que seja só a dos pés. Não, gente, aqui em Buenos Aires não se usa no inverno, para aquecer. As galochas não esquentam assim, como sugeriu minha mãe. E olha que meus pés suam um bocado.

Botas de plástico em Belém é coisa de operário, né? Garota Sucam, chegaram a me dizer na minha terra natal. Mas faz todo sentido usá-las. E o pior é que nem vejo nas lojas da cidade. A não ser algumas menos atrativas, no comércio, e em lojas especializadas em produtos para obras. A despeito desta vantagem das portenhas em apostar nas galochas, elas têm um outro gosto que se parece com o de mulheres de Belém e que não me atraem nadica de nada. Aliás, causam muito estranhamento: os sapatos plataforma.

Caramba, não entra na minha cabeça dura como alguém pode escolher usar esse modelo, que pra mim é quase um trambolho! Certo, gosto não se discute, mas deixo claro que eu acho muito feio. E para além disso, o que convenceria alguém a usar nos pés algo tão pouco anatômico, desconfortável?

Quando olho as garotas usando plataforma, seja em Belém ou Buenos Aires – onde parece que é mais comum - noto fácil, fácil como elas caminham de forma muita estranha, e o caminhar parece bastante com o que os pés – e os sapatos - permitem. Está bem, eu sei das exceções. Estou falando de modo geral, levem sempre em conta.

As indústrias têm que servir à nós, e não o contrário. Não nos “adaptemos” às bestialidades fabricadas por aí.

sábado, 15 de março de 2014

Humpf! Ela voltou...

Ora vejam só! A pequena chorou feito bezerro desmamado depois da apunhalada de quem, em tese, seria seu herói. As horas passaram. Ela desabafou em ombro virtual. O agora anti-herói insiste em alguns contatos, sem receber atenção daquela desolada. E chega uma mensagem muito mais que bem-vinda, ainda que quase lacônica: Oi. Como estás?

Era justo aquele guri! As ideias começaram a debater entre si na cabeça dela. E não é que o corpo meio definhado dela pulsou? Apressou-se: - Um pouco triste, mas tocando a vida. E você?

- Ah, pare tristeza. Eu estou indo aí perto da sua casa.

- Jura? Que tal uma cerveja ou um vinho para esquentar nessa chuva inconsolável? [não podia perder a oportunidade, de jeito nenhum, a gatilheira]

- Que lindo convite! Aceito.

Latejou feito louca com aquela prontidão. Que segurança mais atraente. Era ele, e parecia estar certo do convite que ia receber. Era aquele mocinho que trabalhava na loja próximo à casa dela e quem ela sempre espiava da janela. Uma carinha de bebê, no duro correspondente à idade dele, mas que ela desconfiou ter sido enviado apropriadamente pelos céus naquele dia de tanta dor.

Ela não teve tempo de tomar banho e se aprumar, como seria justo e digno para as intenções dela, e talvez dele também. Garantiu alguns detalhes capazes de inspirar e o recebeu afetuosamente, com a gentileza que ele sempre ofereceu a ela. Mas agora tinha um vinho nas mãos e estavam a sós na casa dela. Diferencial imponente.

Conversas. Goles. Baforadas. Algumas lágrimas desgraçadamente (ou não) acabaram por escapulir dos olhos dela. Nenhum sinal de sedução... Mais uma garrafa de vinho! Dois breves lances na escada, mas eram escuros e ele a surpreendeu com um beijo voraz, interrompendo a fala dela. Alguns bons instantes se passaram, com direito a mãos quentes e carinhos. Ela preferia que não terminassem, tamanha a ansiedade. Seguiu adiante e tentou manter as ideias encadeadas, mas teve de admitir que era... difícil.

Passaram ao documentário, agora não mais sentadinhos cada um na sua cadeira, um de frente pro outro. Já estavam no sofá. Entre comentários e risos, carícias. Que pele mais macia ele tinha! O nariz, a boca e os olhos eram perfeitos! O nariz, em especial, agradava muita a ela. Um encanto. Mais de dez anos de diferença, a menos, faz diferença mesmo.

Foram capazes de ver quase até o finzinho do documentário. O fim seria demais implosivo. Na terceira tentativa, alcançaram a cumplicidade. Um grau de experiência. Mas alguns mais de pressa. Equação que não fechou redondinha. Noves fora? Foi um bom começo. Depois dormiram.

O despertar foi gostoso, cheio de dengos, mimos compartilhados entre conversas saborosas. Humpf! Ela gostou. Humpf! Ela quer mais. Ela tem "calafrios" até agora. Humpf! Ela voltou.

quarta-feira, 12 de março de 2014

O susto. O surto

Pra ela, transar com aquele cara nunca foi mais importante que a admiração mútua que sentiam; que a parceria deles em projetos apaixonantes, inusitados ou banais que fossem; que as risadas cúmplices e que as instabilidades pessoais ultrapassadas juntos.

Mas que companheiro aceita que sua garota transe com outra pessoa? Que ex-companheira aceita que seu amor passe a compartilhar com outra criatura tudo o que era especialmente para ela? Era passado, como se tivesse sido ultrapassado. Mas ela ruminava isso diante da afronta recente. Sentiu-se mais que traída. Nem isso, na verdade. Humilhada, sim. O que não admitiria jamais.

Ele dormiu na porta da casa; no chão; do lado de fora. Ela sentou no piso de madeira, velho e antigo. Brincou de picotar um tecido esquecido no sofá e que parecia ter importância. Cheirou; nada. Aparecia um olho. Dois. Não conseguia recortar um sorriso. Virava e revirava o pano, feito brincadeira de criança. Depois desistiu.

Por cima e por primeiro, o lixo do banheiro. Depois, os lixos de escritório e do modesto jardim, com um pouco de cinzas e pontas de cigarro que restavam na sacada. Não, calmamente. Nada de gritos ou lágrimas.

Um banho de defumação na casa. Solitariamente. Com solenidade no coração.

domingo, 9 de março de 2014

Programa Mais Médicos em Melgaço (PA) vira tema de documentário




Este é o primeiro vídeo que assisto sobre o programa Mais Médicos, do Governo Federal, com o acompanhamento in loco da atuação de profissionais cubanos - neste caso de duas médicas - junto à população brasileira. A equipe de produção, que realizou o documentário utilizando recursos doados por quem tivesse interesse (crowdfunding), elegeu a cidade com mais baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) no país: Melgaço/Arquipélago do Marajó/Pará. Daí o vídeo se chamar “Dr. Melgaço”.

Além de bem feito - com boa fotografia e roteiro - de cabo a rabo o filme só reitera meu total apoio ao programa, que já mostra os primeiros resultados esperados: prevenir doenças entre as pessoas mais excluídas de assistência à saúde. Taí o documentário pra mostrar.


sábado, 8 de março de 2014

Ora "quem"! Sorvete na testa

É muito provável que boa parte dos leitores do blog já tenha ouvido falar do Café Tortoni quando se trata de passear por Buenos Aires (AR). Coisas do tipo: é o mais antigo; é lindo; e outras coisas do gênero. Endosso. Aliás, eu mesma, quando estive em Buenos Aires com minha família, fui visitá-lo e fiquei bem impressionada. O detalhe é que reconheci - entre os três bonecos de cera (talvez) e em tamanho real que adornam o lugar - as duas figuras masculinas. Ah! Claro! Jorge Luis Borges, que já havia passado pelas minhas leituras um par de vezes; e o solene Carlos Gardel, ainda que não esteja entre minhas vozes prediletas. Mas quem era aquela mulher entre os dois? Uma tal Alfonsina Storni; estava escrito. Não me soou familiar. As três obras de arte, obviamente, estavam ali representando frequentadores ilustres e assíduos, como muitos outros escritores, cantores e jornalistas que passaram por lá. Ainda assim, não me interessei em saber quem havia sido Alfonsina Storni. Eis que, dia desses, alguns anos depois, em um merecido descanso dos estudos e de bubuia diante do meu canal favorito na Argentina, o Encuentro, sou surpreendida por um programa sobre aquela, justo aquela terceira figura a quem dei tão pouca importância. Que dura vida ela teve! E que beleza de audácia para enfrentá-la também. Sempre acho que não vou dar conta quando vejo histórias assim. Se fosse comigo, hummmm. Já até me acostumei com essa minha reação derrotista. O gostoso mesmo foi sentir uma vontade louca de comprar os livros dela citados na tela; ler os poemas e textos que ela escreveu, alguns até assinados com nome masculino. Ainda não consegui. Mas já tenho lido algumas coisas pela internet, pra aliviar a cuíra.

Alfonsina Storni entregou sua carne ao mar, aos 46 anos de idade. E deixo aqui suas últimas letras, escritas poucos dias antes do suicídio, e que foram entregues ao jornal para o qual escrevia à época, sob o título “Vou dormir”.

    Voy a dormir
    Dientes de flores, cofia de rocío,                                 
    manos de hierbas, tú, nodriza fina,   
    tenme prestas las sábanas terrosas   
    y el edredón de musgos escardados.   
       
    Voy a dormir, nodriza mía, acuéstame.   
    Ponme una lámpara a la cabecera;   
    una constelación, la que te guste;   
    todas son buenas, bájala un poquito.   
       
    Déjame sola: oyes romper los brotes...   
    te acuna un pie celeste desde arriba   
    y un pájaro te traza unos compases   
       
    para que olvides... Gracias... Ah, un encargo:   
    si él llama nuevamente por teléfono   
    le dices que no insista, que he salido.   

sábado, 1 de março de 2014

“Não vou mais esquentar o banco da Justiça”



“O Gatilheiro: a história de Quintino da Silva Lira”. Quinze minutos de um belo extrato da participação de um justiceiro diante da luta travada entre colonos e latifundiários no nordeste paraense; da luta travada contra uma justiça que até hoje não garante a democratização da terra e privilegia grileiros, num Pará onde existem, em papéis furados, dois estados.

Gostei muito de como o filme de André Miranda e Cláudia Kahwage percorre depoimentos de quem esteve junto a Quintino Lira e de quem lembra dele com o respeito de uma boa amizade. Há quase uma mitificação do gatilheiro, e me convenceu. Estão ali o companheiro de luta Chico Barbudo; Joaquim, um dos amigos que o acompanhavam quando a polícia fechou-lhe o cerco antes de matá-lo;  o colono Zé Cabelo; entre outros. As cenas do velório e do sepultamento mostram a serviço de quem Quintino estava: populares não lhe pouparam homenagens.

O filme entrelaça aos depoimentos uma série não exaustiva de fotografias de época. Nossa! E mais uma vez se comprova a importância de Miguel Chikaoka para a construção da história do estado. Muitas imagens são dele no filme.


Vinte e nove anos se passaram da morte de Quintino - autor da frase que dá nome à postagem - e o cotidiano fundiário e agrário do Pará não mudou muito. A Justiça? Difícil fazer a defesa dela. Reforma agrária? Companheiros de movimentos como o MST podem contar bem sobre isso.

Como sei que muita gente não vai pular carnaval em nenhuma agrupação momesca e tampouco encontrará espaços públicos, como museus, abertos, por incrível que parece, sim eles fecham, deixo o filme como um agrado a quem puder desfrutar de internet.


E parabéns aos realizadores, pelo trabalho. Certamente penaram um bocado para chegar a esta etapa.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Serão as águas de março?

Março se aproxima. E o que me faz lembrar de que "março se aproxima" não são suas águas. É uma tormenta um pouco maior. É quando o Brasil chegará aos 50 anos da ditadura que golpeou toda a sociedade, ou pelo menos a maior parte dela. E é também quando se contabilizam os 38 anos do terrorismo de Estado que igualmente estraçalhou a Argentina. O país vizinho que, por vários anos, foi tido como um pedaço da Europa na América Latina se adiantou infinitamente mais que o Brasil no processo de recuperação de suas estruturas, de sua história, de sua firmeza nos enfrentamentos políticos e na judicialização dos crimes.

Uma das situações que me fez lembrar disso, pela enésima vez, sei lá, foi o anúncio de que, neste mês de março, a Argentina vai disponibilizar à sociedade documentos significativos do período da ditadura e que foram encontrados jogados às traças num sótão. O que mais me chamou a atenção foi o intervalo de tempo entre o dia em que os hermanos se depararam ocasionalmente com os documentos e o dia em que vão disponibilizar ao público, já limpas e digitalizadas: três meses. Três!

“A partir de marzo, cuando se cumplan 38 años del último golpe de Estado, la documentación secreta de las juntas militares encontrada por el Gobierno en el subsuelo del Edificio Cóndor será exhibida para que ´la sociedad constate cómo el poder militar estaba subordinado al poder económico´". - toda a notícia no jornal Página 12

Quem trabalha com este tipo procedimento sabe que, três meses, é pouco tempo. Há, portanto, que ter atitude política, além de dinheiro pra garanti-lo

Pois é... e o Brasil? Como anda a quitar seus débitos com a história? Como anda a Comissão Nacional da Verdade, que pediu prorrogação dos dois anos de atividade em que já está metida? Que temos de concreto às mãos da população? Ainda que seja parcial. Como andam as mobilizações regionais, estaduais, locais? Já temos até material suficiente para uma séria investigação sobre desaparecidos na democracia, mas não temos responsabilidade com os que sofreram há 50 anos?

“O Instituto de Segurança Pública (ISP) do Estado do Rio de Janeiro reconhece que o desaparecimento de pessoas assumiu viés de alta desde o início dos anos 1990. Em 1991 foram registrados 2.616 casos. Em 2003, o número pulou para 4.800 desaparecidos, e depois de uma queda de 19,4% no governo de Rosinha Garotinho – foram 3.877 em 2006, recuperou o fôlego no governo Cabral quando os sumiços aumentaram 32%.” - toda a notícia na Agência Pública.

Desculpem a amargura, leitores. Às vezes é difícil contê-la.

Já fomos mais cuidadosos

Por dois anos consecutivos, o confrade Francisco Rocha lamentou que eu tivesse feito uma postagem em alusão ao aniversário de nosso editor-chefe, Carlos Barretto, antes dele. O tempo passou e acabamos nos afastando daqui do Flanar. No meu caso, mil coisas virando o mundo de ponta-cabeça, além das exigências do mestrado, subtraíram-me o tempo antes dedicado à blogosfera. Meu blog pessoal também desandou há pelo menos um ano e meio.

Ontem, passou o natalício do nosso grande amigo e não surgiu uma postagem a respeito. De certa forma, o Facebook é o culpado, porque acabamos transferindo para lá manifestações que antes fazíamos no blog. É uma pena.

Ainda que tardiamente, e ancorado no fato de haver parabenizado o Barretto por telefone, no dia correto, queria deixar este registro de amizade, de respeito e de admiração, a uma pessoa que valorizo por sua visão crítica de mundo, de nossa sociedade, da própria profissão; por seu texto preciso e inteligente; por sua disponibilidade quando de minhas ligações inoportunas e por tantos outros motivos.

Feliz aniversário, Barretto. É um privilégio privar de tua amizade, mesmo que sejam relações basicamente virtuais. Mas é um virtual realista e isso vale muito, muito mesmo. Grande abraço.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Harmonias bonitas, possíveis, sem juízo final

Como você revista um homem que antes era mulher? Essa é uma das perguntas na nova cartilha de treinamento da Polícia na Bélgica. A publicação faz parte de uma campanha que quer  preparar melhor os policiais a lidar com os cidadãos transgêneros. Esse é mais um passo, ou melhor, um pulo à frente nesse pequeno paìs, que foi o segundo no mundo a permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo (isso há mais de 10 anos) e onde a mudança de sexo nos documentos civis é um procedimento administrativo e não judicial. E desde então , a família, a ordem e a segunça pública não desmoronaram. Vão bem, obrigado.
Na reportagem sobre a iniciativa de Polícia, publicada no jornal  Het Nieuwsblad semana passada (foto acima) , o personagem na foto é o agente Arend Vandecasteele, 36 anos de idade, 16 dos quais trabalhando na Polícia da província belgo-flamenga  de Limburg. Nos primeiros dez anos de serviço ele era uma inspetora, mulher. Há seis anos, ele ganhou um novo prenome, depois de um período de transformação. Durante a mudança, ele continuou a trabalhar, de modo que os colegas acompanharam a transição física. "A maioria dos colegas inspetores demonstrou compreensão. Uma minoria, um pouco menos, mas eu posso melhor lidar com piadinhas, desde que tudo fique na esfera dessa nova campanha de treinamento: Respeito pelos outros!" Arend trabalha no grupo de Intervenção Especializada - um corpo de elite da polícia onde a exigência de capacidade física é constante. Ele é um de uma dezena de policiais transgêneros na Polícia belga - que aliás tem um grupo LGBT organizado: a Rainbow Cops Belgium (banner do site abaixo).
Como diz Caetano Veloso,  na canção Fora de Ordem:
"Eu não espero pelo dia
Em que todos
Os homens concordem
Apenas sei de diversas
Harmonias bonitas
Possíveis sem juízo final.."




quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Rock na veia: Rolling Stones e Beatles

Para os amantes do bom rock que não podem ir a Liverpool ou a qualquer outro canto londrino, dou-lhe StudioPub, em Belém (Presidente Pernambuco, próximo a Gentil). Nesta sexta, Rolling Stones e Beatles, versões “cover”, é a pedida que antecede ao Momo. O clima é bom, tem uma boa cerveja e a galera manda bem nos vocais e instrumentais. Quem abre o show são os Rollings, a partir de 23h, cuja página do facebook revela: "em Rolling Stones Cover Belém no Studio Pub fazendo aquele show de sempre: frenético, ousado e caótico. Não vem com essa de gel no cabelo e bora lá curtir esse som!"

Confiram...   

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Massive Attack no bairro

O inverno - este ano, ameno, mas cinzento e pontuado de tempestades -  ainda não acabou. Mas a luz do verão é antecipada pelo anúncio das atrações dos festivais na Bélgica. O nosso querido Cactus Festival, sai na frente com uma bomba: vai trazer Massive Attack,  o  grupo inglês de trip-hop e rock experimental; O Massive Attack é conhecido por ser engajadíssimo politico e socialmente.
Jùa estùa na agenda: dia 14 de julho, no Minnewater Park, aqui  no bairro ao lado.
Tomara que eles tragem a Liz Faser, a super vocalista do Cocteau Twins, que canta Teardrop com eles neste vídeo em 1998.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Uma democracia cheia de não-me-toques

Observações muito oportunas. Ainda que algumas delas já sejam até obsoletas, como bem poderia dizer a querida Marise Morbach, não devemos cansar do tema. Eu mesma já cheguei a dizer a amigos, por ocasião de outros debates, que já não faço esforço para convencer ninguém: ponho as cartas na mesa e tomo minha decisão. Cada um tome a sua. Um tanto egoísta, sim, mas talvez mais justo com as possibilidades e conveniências de cada cidadão.

Adotamos a democracia em nosso sistema político e fazemos questão de bradar o termo como se ele fosse um molde só, que caberia em qualquer sociedade, e, mais ainda, como se a democracia fosse o mais nobre de todos os modelos de organização social. Estou convicta de que devemos a ela determinados avanços nas relações humanas. Mas mais convicta estou de que ela se satura, como se saturam os acordos que fazemos em nossas relações amorosas – uma novidade que aprendi recente com meu querido Carlos Barreto. Um texto interessante e provocador, vale a pena ser lido sem muitos pudores, caros internautas: Seis mitos sobre el comunismo que se cumplen en el capitalismo

Ora vejam: em nome desta tal democracia que temos no Brasil, o governo lança mão de uma lei antiterrorismo, como se os movimentos populares que defendem seus direitos fossem criminosos! E mais: como se o próprio Estado não cometesse barbaridades que ficam absolutamente impunes! E tudo isso faz parte do nosso dito sistema democrático. Obviamente, em tempos turbulentos em todo o mundo e em tempos de Copa no Brasil, olhos internacionais estão firmemente voltados para nós e nossas decisões, e deixo aqui apenas uma das notícias.

Aposto na união dos movimentos sociais, como o texto lincado propõe. Temos interesses em comum, mais que diferenças, e estas diferenças podem ficar cada uma delas em seus respectivos lugares de resistência. Aposto na união como a melhor ferramenta de avanços estruturais e sólidos para nossa sociedade.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O silêncio das pessoas de bem


It may well be that we will have to repent in this generation. Not merely for the vitriolic words and the violent actions of the bad people, but for the appalling silence and indifference of the good people.

 É bem possível que teremos que nos arrepender nesta geração. Não apenas pelas palavras mordazes e as ações violentas de pessoas más, mas pelo silêncio terrível e indiferença das pessoas de bem  -Martin Luther King Jr.




Hoje, ao ler a nota acima, no trem, a caminho de Bruxelas, lembrei de Luther King.

Publicado hoje no jornal Metro, Bélgica (edição em francês):

"O Brasil  registrou 312 mortes de homossexuais, travestis e transsexuais em 2013, ou seja 7,7% a menos em relação ao ano anterior, mas que dá ao país o prêmio de 'campeão mundial dos crimes homofóbicos', anunciou ontem o Grupo Gay da Bahia. "

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O rádio, a propriedade cruzada e as esperanças que vão e que vêm

E hoje se comemora o Dia Mundial do Rádio. Logo faço questão de lembrar da rádio Resistência FM. Daí recordo também que o PMDB tomou conta da pasta do Ministério das Comunicações durante os dois governos de Lula. Que tristeza de gestão... Mas uma esperança ressurgiu com Dilma! Afinal, um petista, Paulo Bernardo, sentou na cadeira que foi ocupada por Hélio Costa. Nada. Me senti enganada. Traída. Por mim mesma. Mas traída. Onde despejar esperanças? Bem, o latifúndio do "espaço aéreo" não é menor que o do "espaço terrestre". Resolvo, assim, tão cheia de poucas expectativas, deixar aos internautas uma leitura que talvez sirva para refletirmos sobre a semelhança de realidades nas Américas, mais especificamente sobre o que passa no México, passando também pelo paradoxo argentino. A nefasta, mil vezes nefasta, propriedade cruzada, tão própria do Brasil.

Saudações!

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Pós-greve de jornalistas. Dias de tormenta.


Reproduzo a seguir texto postado hoje pelos integrantes do movimento grevista do Diário do Pará e DOL, deslanchado em setembro de 2013.

Pelo que sei, a única greve de jornalistas no Pará foi na década de 1980. Seguramente isso não significa que a categoria estivesse bem das pernas, sem motivo para se valer deste direito constitucional. Tampouco significa que os operários da informação estivessem utilizando outros recursos para negociar com os patrões e fazer frente a condições deploráveis de trabalho, e que estão mais pra lá dos salários. Lamentável. De todo modo, esse cenário torna o movimento paredista recente extremamente do ponto de vista histórico. Ainda que eu tenha minhas críticas, já reveladas publicamente aos colegas, quanto a algumas táticas que se valeram durante o processo, estive sempre, explicitamente, apoiando a greve.

Os dias que se seguem após a greve têm sido cada vez mais vexatórios para o grupo de comunicação da família Barbalho. Rolou a dança das cadeiras na Redação, seguida da demissão paulatina de cada um que fez parte da greve. E uma demissão digna de indignação: os jornalistas denunciam que chegam para trabalhar e são recebidos na Recepção com a carta de demissão! Hoje foi mais um desses dias.

Eu aposto que este é um momento privilegiado para retomarmos um processo que há muito está abandonado. Enquanto as faculdades cospem cada vez mais novos jornalistas para o mercado, perdemos a capacidade de nos tornarmos críticos do nosso próprio cotidiano e da nossa atividade; abandonamos a condição de nos tornarmos fortes quando abrimos mão de nos politizarmos, o que obviamente não significa partidarizar nossas reflexões!

Espero que aproveitemos a ocasião para voltarmos a nos unir, a criar uma rotina de organização e de formação política. É fundamental para nós, enquanto categoria, e precioso para a sociedade da qual fazemos parte.

No mais, deixo minha solidariedade aos colegas e minha expectativa de que outras categorias possam se unir à causa.


"A arbitrariedade não cessa no grupo RBA. Lideranças do movimento paredista organizado na redação em setembro do ano passado, os jornalistas Elias Santos e Thamires Figueiredo foram demitidos esta tarde na recepção da empresa. Já são nove demissões ocorridas nas mesmas circunstâncias desde o fim da estabilidade firmada em acordo coletivo. Durante o estado de greve, outro jornalista já havia sido desligado - uma clara tentativa de intimidação à categoria que não recuou.

Elias Santos atuou como repórter em diversas editorias do Diário do Pará durante dois anos e meio. Nos primeiros seis meses, foi privado pelo Jornal - que se auto intitula o maior do Estado – do direito básico de qualquer trabalhador: a carteira de trabalho assinada. O mesmo aconteceu com Thamires, que iniciou sua trajetória na empresa como estagiária e trabalhou durante sete meses sem nenhum registro na carteira profissional.
Cansados das precárias condições de trabalho, Elias e Thamires ajudaram a organizar uma greve vitoriosa que terminou com a conquista de um reajuste salarial que chegará a 50% no próximo abril, aquisição de equipamentos de segurança como coletes a prova de balas e, acreditem, papel higiênico e sabonete nos banheiros.

Na última segunda feira (3), em audiência trabalhista que julga o grupo pela prática de assédio moral, a empresa disse que a demissão dos jornalistas representa um corte de gastos natural, sem relação com a Greve Diário/DOL.

A empresa não pode deixar de assumir que todos os profissionais demitidos participaram ativamente do movimento paredista e que já houve substituições com a contratação de novos jornalistas. Apesar da prática repetida nesta tarde, o Grupo RBA negou à Juíza que as demissões se deem de maneira vexatória no hall de entrada da empresa. O argumento é de que, costumeiramente, uma sala anexa à recepção do Diário do Pará seja utilizada para demissões e contratações. Apenas para esclarecer, lembramos que os dez jornalistas demitidos até aqui assinaram os documentos referentes à contratação no departamento de Recursos Humanos localizado no segundo piso da empresa. Não há sala anexa à recepção.

É inadmissível que qualquer empresa esconda-se por detrás de uma política revanchista. O grupo RBA sustenta-se, hoje, sobre a égide do terrorismo e da perseguição praticados contra os trabalhadores que participaram do movimento legal que foi a greve dos jornalistas. Essas demissões são uma tentativa mesquinha de calar quem pôs o dedo na ferida e mostrou ao Brasil inteiro como uma das famílias mais poderosas do país trata seus trabalhadores. Lamentamos que dia após dia os Barbalho, obrigados pelos trabalhadores a oferecer mais dignidade aos jornalistas empregados, ratifiquem perante a sociedade sua postura autoritária, tacanha e anti democrática."

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

E fevereiro só começou

Como citou a colega Adelaide Oliveira, fevereiro só começou... Ainda assim, já temos que lamentar notícias que apontam seu lead para o mundo das artes. Uma delas traz à tona, mais uma vez, o tragi-cômico Woody Allen.

Cometido por famosos ou não, seja contra crianças ou adultos, o abuso sexual costuma levantar antiga polêmica. Geralmente o crime é executado "a quatro paredes", aos olhos de vítima e algoz. Daí, como garantir a veracidade costuma ser um dilema. Sim, porque ainda que tenhamos obrigação de dar crédito ao depoimento de quem sofreu o abuso - notadamente a parte mais fragilizada dos casos que vieram à tona até hoje -, também temos de garantir o direito de defesa para o acusado. E já foram confirmados casos de erro de julgamento. É possível que ocorra. Assim como é possível a saída ilesa de abusadores, especialmente quando têm condições financeiras e/ou políticas para atestar sua pseudo-inocência.

Aliás, não custa lembrar que o abuso é crime, não ser pedófilo.

Outra notícia não menos dura dá conta do assassinato do brilhante cineasta brasileiro Eduardo Coutinho. O crime cometido pelo filho segue desenhando a culpa à esquizofrenia, e isso me faz lembrar, dentre outras coisas, de como nossa sociedade tem lidado com esses casos; o tratamento penal dado a quem é portador de “doença mental”. Há quem tome proveito de um possível diagnóstico, sim. Como não considero encerrado o tema de como lidar com quem de fato é portador de alguma delas. Como atender a sede de justiça para todos? Para enfermos, criminosos, vítimas (não necessariamente uma classificação excluindo a outra).

A propósito: Argentina começa registro nacional de pacientes internados.

Acrescento outro dilema, provocado com a notícia da morte do ator Philip Seymour Hoffman. A princípio, a tese é de que teria sido por overdose. Cheguei uma vez a comentar no blog, por ocasião da morte de Sócrates, que temos direito de fazer escolhas, como a de usar a droga que nos apetece. Cada um envereda pelo caminho que mais lhe parece conveniente para lidar com suas dores e alegrias. E, claro, é responsável pelas conseqüências de escolher as drogas ou um surto para isso. Por outro lado, chega, sim, um momento em que perdemos a possibilidade de fazer algumas escolhas e ter mais que o Estado por perto, ter gente querida por perto, é fundamental também para nos auxiliar.

Que início de fevereiro, não? Que venham as boas novas!

Ruminações pós-Celac

Em meio às naturais disputas políticas contidas na difusão de informações sobre a Celac pela imprensa brasileira, é preciso haver mais reflexão de nossa parte sobre essa estratégia de enfrentamento que é a cúpula.

Já considerei mais importante discutir temas locais que regionais. Era como pensar a fome numa amplitude mundial, diante da fome roncando na própria barriga. Às vezes até chega a ser improvável. Mas nenhum dos filtros é menos relevante. E se temos a barriga um pouquinho satisfeita, aposto que pode valer muito à pena nossa participação nesse debate.


Particularmente, eu me identifiquei com essa leitura: A América Latina da Celac


Há mais uma AQUI também.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Ai, que saudade da minha bicicletinha?


É assim que começa o texto do jornal argentino Página | 12, sob o título de "Cristina, 'un domingo memorable'". Ele é todo uma costura das tuitadas da presidenta. Talvez seja o exemplo mais denso que encontrei para me remeter ao que pode ser um imbróglio para alguns jornalistas ou editorias: utilizar do que está publicado nas mídias sociais como fonte primária de informação para matéria jornalística.

Há quem abomine o recurso. Considere que não é legítimo ou mesmo digno. Há quem aproveite algumas postagens para compor suas matérias; quem não consiga outra fonte de informação e precise se valer das mídias sociais; ou ainda que acesse algumas fontes por outras ferramentas, há quem saiba tirar bom proveito das novas tecnologias da informação e comunicação.

Quanto não pode ser feito com novas nuances de um tema que foi vastamente explorado a partir de releases e dados formais? Maravilha, não?

No Brasil mesmo existem exemplos desse uso. Na Argentina, não percebi conflitos pelo uso desta tática. Por que deveria haver?

Ai, que saudade da minha bicicletinha?


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Sebastianismo e saudosismo

Há um certo sebastianismo em algumas famílias. Há sempre quem viva no passado, achando que os tempos idos eram mais felizes, que as pessoas eram melhores e que os antepassados eram mais valorosos. Nem tudo é verdade.

Também entre os parentes mortos há aqueles que foram desonestos, desumanos, maus profissionais, pais ausentes, péssimos maridos.

Mas a morte, como se fosse efetivamente aquilo que liberta a alma boa do corpo vil, apaga os defeitos e ressalta as qualidades - mesmo as inexistentes.

Também é verdade que, como os parentes de pessoas mortas, há quem ache que sua cidade, seu tempo de juventude, seu passado não tão distante era melhor que hoje. Será isso fato ou imaginação?

Talvez seja bom lembrar que o mito sebastiano original nunca se resolveu. Até hoje os portugueses, saudosistas como nenhum povo há - até pelo uso da palavra "saudade", que dizem não existir com esse significado em nenhuma outra língua -, continuam esperando o retorno de Dom Sebastião das areias de Marrocos. Esperam há cinco séculos. Esperam por alguém que sequer viram partir.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

We gaan naar de Oscar, hè!

The Belgium's nominated  for the 2014 foreign language film Oscar category is a powerful and haunting tale of love, death and bluegrass – a mournful song played on a broken instrument, with striking visual accompaniment ( The Guardian)

A Bélgica vai aos Oscar 2014 com um forte candidato: The Broken Circle Breakdown, do diretor flamengo Felix Van Groeningen. Como o jornal inglês (menção acima)  define: é mesmo um poderoso e doído conto de amor morte e bluegrass - essa country music que assim como o sertanejo no Brasil - pelo menos aquele "das antigas" -  tem a capacidade de unir beleza, simplicidade e melancolia.
Espero que com essa nominação, o filme tenha distribuição no Brasil. Roteiro, fotografia e produção são impecáveis. Não foi à toa que o filme ganhou 11 prêmios internacionais. Mas o que fica marcado nos espectadores é mesmo a performance dos atores: Johan Heldenbergh é  excelente. E acima dele, a atriz Veerle Baetens chega ao sublime. Ela ganhou o European Film Award deste ano. Com certeza a atuação dela merecia a indicação ao Oscar de melhor atriz. Sorry Merryl  Streep, mas prefiro a  Veerle.
Enquanto, não chega no Brasil, vale a pena conferir o site do filme.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O ano é 2017


Lá por 2017, o celular já era ubíquo. Pelas ruas e ônibus, pelas escolas e repartições, parques e praias, só se viam seres humanos curvados, de cabeça baixa, servis como cachorrinhos a babar sobre as telas de cristal líquido, para onde quer que se olhasse -mas quem olhava?


Antônio Prata, jornalista.

Que venha 2014!

Que ano é hoje?
Um dia eu soube:
o hoje me foge.
O amanhã?
Perfura meu peito com a adaga da esperança
Assim fui;
assim chego...

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Simone e Rodolfo. Uma dupla irreparável

Justifico de pronto que não considero memória artigo de museu, no sentido mais estrito de se fazer referência a um momento que passou e serve apenas para ser contemplado eventualmente numa moldura sobre a parede. Assim, me dou a liberdade de postar outra vez sobre um tema que, mais do que passado, deve ser trampolim para uma reflexão profícua sobre nosso cotidiano e sobre em que cumbuca temos de meter a mão para transformar nossa realidade em dias melhores. Tanto vangloriamos a democracia. Mas a que tipo de democracia nos referimos? Sim, existem vários modelos dela. E será mesmo que este modelo sob o jugo da qual vivemos ainda merece ser sustentado? Tenho muitas dúvidas sobre isso, quase certeza de que ela está vencida. Está mofada.

Narigão de cera, como se diria no bordão jornalístico. Mas é isso. Foi assim que dei conta para apresentar aos leitores duas paixões que me foram lembradas hoje pelas mídias sociais: Simone de Beauvoir, que completaria 106 anos hoje se estivesse viva, e Rodolfo Walsh, morto há 37 anos pela ditadura argentina. Uma dupla genial. Cada um na sua frente de pensamento e atuação. Ambos irreparáveis.

Lembrei de Todos os Homens São Mortais, livro assinado pela francesa - uma das musas do feminismo - e que li há alguns anos. Década de 90. Ah, e que de emprestado ficou sumido, para nunca mais voltar às minhas mãos #Humpf . Também lembrei da bela, precisa e dura carta aberta escrita pelo argentino, na véspera de seu sequestro e assassinato e que fazia ferrenha análise da violência contra os direitos humanos implementada pelos ditadores no país hermano.

Deixo essas duas propostas de leitura aos navegantes. O livro, não sei se tenho como oferecer. Mas a carta está AQUI. Diga-se de passagem, Rodolfo Walsh tem livros excelentes! Disso trato um pouco depois.

Um salve a quem tem o pulso ainda pulsante!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

179 anos da Revolta da Cabanagem, num oferecimento de Armando Queiroz

Armando Queiroz é um dos artistas paraenses que eu admiro muito. Todos os trabalhos dele dos quais lembro me emocionaram, tamanha a sutileza das mensagens que oferece; tamanha a delicadeza e a força ao tratar de temas cotidianos. E, sim, ele é uma pessoa encantadora também. Portanto, vou me valer dessas virtudes para deixar aos leitores do Flanar um recorte da obra intitulada Tempo Cabano, instalação que tive a oportunidade de apreciar aqui em Belém (PA), há alguns anos, e que faz alusão a um levante extremamente precioso para história do estado, mas que ainda é refém de nosso desdém.

Explico o motivo de me referir à obra como recorte: não encontrei uma imagem do conjunto da instalação, por isso posto imagens que fizeram parte dela, digo as fotos de O Cabano Paraense (Alfredo Norfini) e de Vendedor de Amendoim (Luiz Braga); e a imagem de uma moeda de época abaixo de um grão de amendoim, encobertas por um aquário. Que me perdoem Armando e leitores, porque sei que é muito tosco fazer isso com uma obra de arte/instalação, mas foi a tesoura do desejo. O mais importante é lembrar que temos artistas paraenses dotados de talento refinado e que estamos há exatos 179 anos da Revolta da Cabanagem.