segunda-feira, 24 de setembro de 2007

As orquídeas de Maripá

É tempo de violências. O crescendo com que o problema vem afligindo a população paraense e a moralidade das instituições públicas aproxima-se do insuportável. Notícias sobre o assunto abandonaram as páginas policiais e foram com enfoque mais holístico objeto de editorial e de reportagens bem cuidadas. O Diário do Pará saiu nesse aspecto à frente. É destaque no contexto atual, a viagem do Delegado Benassuly à Medellin, Colômbia, para conhecer as ações governamentais que derrubaram a criminalidade e suas ações violentas a níveis toleráveis e antes inimagináveis. Louvável a atitude do policial e da governadora, que denotam vivo interesse em intervir e superar o quadro desinteligência pública e sua incapacidade de enfrentar o mais poderoso inimigo do bem comum e das relações sociais na urbe moderna. Relevar a violência urbana num programa/plano de governo, conforme antes sentido, é cutucar onça com vara curta. Um dia ela vem e te come com a melhor das sensações, a dela.
Não obstante, qualquer que seja o plano governamental contra as violências, dois aspectos são fundamentais para o sucesso. Primeiro: deve ter transversalidade nos diversos orgãos de governo, de modo a reunir esforços num eixo executivo que realize não só ações policiais, judiciária e penal, mas sobretudo as de inclusão no território social. Segundo: no território social, o plano terá de construir pontes sólidas com atores institucionais privados importantes e, especialmente, conquistar o apoio incondicional da população. Sem ela, tal qual na dengue, é impossível vencer a epidemia de violência que ora vivemos.
Enquanto escrevo esse texto, tenho a minha frente a revista piauí, expondo as suas primeiras páginas. Lia o artigo simpático Maripá, sempre à frente, que usarei para ilustrar esse post.
Os maripaenses do Paraná são felizes, pois vivem em uma cidade de 5,5 mil habitantes com criminalidade zero. De base econômica agropecuária, é conhecida como a Rainha das Orquídeas. Na cidade existem para embelezar a vista cerca de 200 mil orquídeas de 100 espécies diferentes. Quem fiscaliza a segurança desse patrimônio é a população e 50 estudantes, anualmente distinguidos com tal honraria. A prefeitura põe 130 mil reais/ano para financiar a manutenção do grande orquidário a céu aberto.
Nesse paraíso, pra que delegacia? Os maripaenses fecharam a única existente e fizeram dela a sede do conselho tutelar. Mas, animação não falta. Anualmente a cidade é sacudida por visitantes, atraídos pela festa da orquídea e do peixe, quanto então é realizado o concorrido Arrancadão dos Tratores.
Qual o segredo dessa tranquilidade, que faz Maripá a 5a. cidade do Paraná em qualidade de vida? É a população pequena? Decerto ajuda, mas a razão está nas ruas da cidade que têm olhos que dela cuidam, olhos do poder público e olhos da população; no fato de que a cidade satisfaz as necessidades sócio-econômicas de seus cidadãos e na existência de um esforço coletivo para manter condições e oportunidades socais que não permitam vicejar entre suas flores e frutos a erva daninha do crime e da violência. Em Maripá e Medellin, nunca é tempo de murici, quando cada um cuida de si.

4 comentários:

crisblog disse...

Oliver, vamos ver se mudará depois dessa matéria na Piauí. Está também no YouTube. Eles dizem "bandido aqui não tem vez" ! Sabes o que eles fazem? os próprios moradores encaminharam os ladrões(de orquídeas), para a única delegacia que agora está extinta(último caso de roubo). O texto diz: a população mostrou na prática que onde atua o longo braço da sociedade a polícia não tem muito o que fazer.
"Longo braço"...fiquei com isso na mente. O município tem apenas 17 anos. É parâmetro para estudo?

Beijos.

Oliver disse...

Em todo caso é um caso. Comentei o artigo em razão de que ele reproduz na informação sobre Maripá alguns elementos da tese de Jane Jacobs, autora de Vida e Morte das Grandes Cidades, que é um senhor livro. Está claro que a violência em Belém se acentuou a partir dos anos 90. Eu já tinha intuído isto. Para mim é claro que Belém é uma cidade de perfil excludente, imersa num Estado igual. Não há estratégias governamentais que criem oportunidades sociais às pessoas pobres. Por outro lado, a adoção do modelo de insulamento do comércio, das diversões e da moradia responde em parte pela degradação de algumas áreas nobres da cidade. Comércio, Campina, mas também uma parte da Cidade Velha. São áreas de sombra para a violência, porque as ruas estão mortas, sem olhos que as vigiem no sentido policial e no sentido do cuidar. É uma discussão rica e que não se esgota aqui. Mas, a certeza fica: enfrenta-se a violência com espírito comunitário, com a vontade férrea da sociedade, e não com ações isoladas, heróicas e individualistas. Daí a ironia com o tempo de murici.
A propósito: o Delegado Benassuly bem poderia resgatar a transparência da informação sobre a violência em Belém, publicando periodicamente em homepage o que vem sendo sonegado desde uns governos que você sabe o nome. É um bom começo, se o fizer.
Muito obrigado pelo comentário.

crisblog disse...

Comércio, Campina e Cidade Velha. Arquitetura. Abandono. Patrimônio. Nossa história. Walter Gropius, um dos maiores arquitetos do planeta, dizia que criação e amor da beleza são elementares para uma experiência da felicidade. Ele era um organizador de espaços. Etiquetado como “estilo Bauhaus”. Ele dizia que a cor preferida dele era o “colorido”. Sabes, Oliver, a violência também passa por aí. Ausência de amor e de conhecimento. “Boa arquitetura deve refletir a vida da época. E isto exige conhecimento íntimo das questões biológicas, sociais, técnicas e artísticas” – Gropius.

Perdoa-me pegar esse atalho.

Beijos.

Oliver disse...

Um dos atalhos possíveis, de fato, a boa arquitetura deve ser uma reflexão sobre a época que a produz e sobre as épocas que a antecederam. De igual modo o urbanismo. Vale.