A tal de copa está acabando. Quando a obsessão em torno desse assunto passar, a imprensa ficará dominada pelo noticiário político. E este é um ano eleitoral importante, não apenas pelo motivo óbvio de termos eleições nacionais, mas também por ser o primeiro pleito pós julgamento do caso "mensalão", que com certeza trouxe mudanças psicológicas para os envolvidos com política partidária.
No plano federal, um teste está para ser feito: o PT continua no comando se o candidato não é Lula, com seu fenomenal carisma junto às massas mais humildes? No plano estadual, também uma disputa polarizada, mas com coalizões antes impensáveis.
Nessas horas, a saudade do Juvêncio de Arruda ganha o componente adicional de saudade do blogueiro político bem informado, crítico e de escrita envolvente. Seria um ano para muitas pautas. De lá onde se encontra, espero que ele esteja intercedendo por nós junto aos Mais Altos. Porque aqui, ao nível da superfície, a coisa tá feia. De mal a pior.
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segunda-feira, 7 de julho de 2014
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Ele mesmo
Lendo a edição de hoje do Diário do Pará, percebe-se com clareza que o PMDB está sendo ele mesmo, nada mais que o PMDB de sempre.
Em notas sucessivas, faz críticas ácidas e levanta suspeições contra o governo tucano, a quem deu sustentação desde o primeiro momento. Mas como já estamos em pleno clima pré-eleitoral (!!!) e o rompimento entre as duas legendas já foi anunciado, porque a turma do Jáder deve se coligar com o PT, como em âmbito nacional, de repente o jornal que nosso saudoso Juvêncio de Arruda chamava de folha sobrancelhuda mudou a redação.
O negócio é nunca perder um bom negócio. Ora se negocia com o PT, supostamente com vistas a lançar o nome de Helder Barbalho ao governo (e Paulo Rocha para o Senado), ora se causa um constrangimento para os tucanos, que, a despeito de seu inexpressivo governo, têm fortes chances de reeleição porque dispõem da máquina pública para usar como coisa privada.
Em suma, de um lado ou de outro, eu quero é me dar bem.
Em notas sucessivas, faz críticas ácidas e levanta suspeições contra o governo tucano, a quem deu sustentação desde o primeiro momento. Mas como já estamos em pleno clima pré-eleitoral (!!!) e o rompimento entre as duas legendas já foi anunciado, porque a turma do Jáder deve se coligar com o PT, como em âmbito nacional, de repente o jornal que nosso saudoso Juvêncio de Arruda chamava de folha sobrancelhuda mudou a redação.
O negócio é nunca perder um bom negócio. Ora se negocia com o PT, supostamente com vistas a lançar o nome de Helder Barbalho ao governo (e Paulo Rocha para o Senado), ora se causa um constrangimento para os tucanos, que, a despeito de seu inexpressivo governo, têm fortes chances de reeleição porque dispõem da máquina pública para usar como coisa privada.
Em suma, de um lado ou de outro, eu quero é me dar bem.
segunda-feira, 3 de junho de 2013
Avaliação bem regular
Acabou de ser divulgada a primeira pesquisa de opinião pública sobre o governo de Zenaldo "Não Sou Mágico" Coutinho. A pesquisa do Instituto Acertar foi divulgada pelo Blog do Bacana, que fornece algumas informações sobre a metodologia da coleta de dados.
Não sou cientista político. Mas sou brasileiro e, como tal, adoro meter o bedelho em assuntos sobre os quais não tenho especial capacidade de avaliar. Para mitigar a minha prepotência, deixo claro que neste assunto fui chamado, sim, porque sou eleitor, morador e contribuinte de Belém; logo, a matéria é do meu interesse mais direto. Além disso, deixo claro que meus comentários são meras impressões leigas, sem nenhuma pretensão de segurança ou cientificidade.
No mais, deixo clara a minha rejeição ao PSDB e seus quadros, o que certamente influencia de forma prévia a minha percepção do caso. Ao menos tenho a honestidade de declará-lo ostensivamente.
Aparentemente, os dados têm sido interpretados como favoráveis à atual gestão municipal. Mas não acho que seja bem assim. Explico-me.
Coutinho foi eleito com 56,61% dos votos válidos, nada de consagrador, mas um índice superior aos 47,3% de aprovação registrados na pesquisa. Ou seja, em apenas quatro meses (a coleta de dados se deu na primeira quinzena de maio), sem nenhum incidente, considerando apenas a rotina administrativa, o prefeito já não conseguiu emplacar a mesma aceitação de outubro passado. Além disso, esse percentual abrange três faixas de análise, correspondentes a "ótimo", "bom" e "regular positivo". Como o melhor índice é "bom" (27,4%), vá lá que não esteja mal na foto. Mas apenas 3,2% de "ótimo" já é sintomático.
Outrossim, não me arvoro em discutir com estatísticos, mas eu não estou pessoalmente convencido de que "regular" devesse ser considerado como aprovação do governo, seja lá que governo for.
Mas o segundo quadro é ainda mais problemático:
Desde a campanha eleitoral do ano passado se comentava à boca miúda que qualquer prefeito eleito teria uma oportunidade de ouro de ser considerado um verdadeiro estadista, porque qualquer mequetrefe superaria, e muito, Duciomar Costa. Mas 34,8% dos entrevistados considerou a gestão atual igual à anterior. Eu me mataria, se fosse o prefeito. A coisa piora quando se observa que os que apontaram uma melhoria foram apenas 35,9%. O nada desprezível índice de 9% aponta piora (eu me mataria e me condenaria à execração da memória). Ao todo, a gestão tucana é mal-avaliada, em comparação à Era das Trevas Totais, por nada menos que 43,8% dos entrevistados!
Honestamente, você acha mesmo que se pode considerar essa uma avaliação positiva? Vamos chutar o balde: 20,3% dos entrevistados ainda não sabem dizer se Coutinho é melhor. Se um cara me dissesse não saber se eu sou melhor ou pior do que Duciomar Costa, eu já me mataria. Juro por Deus.
Arrisco um palpite final: a avaliação desfavorável de Coutinho é decorrência de que, em seus quatro meses de governo — aliás, até agora — não aconteceu nada. Políticos vivem de fazer de um palito uma floresta inteira, de modo que, quando nada é apresentado, é porque nada existe, de fato. Apenas a velha ação de limpeza de canais (a mais velha estratégia de todo neoprefeito) e a continuação de algumas obras, ainda que de fato muito importantes.
O imbróglio BRT, p. ex., continua como dantes. A imprensa comum noticiou que os contratos com a Caixa Econômica Federal já foram assinados e, a partir daí, a ordem de serviço poderia sair em 30 dias, mas o prefeito tentaria liberá-la em 7 dias. Claro que este prazo expirou e, por enquanto, nem sinal de retomada das obras. É claro que isso irrita o cidadão comum e pesa em eventual avaliação.
Chamo a atenção, por fim, para o fato de que o principal padrinho de Coutinho é o governador Simão Jatene, de quem se pode falar que, estando no terceiro ano de seu mandato, ainda não disse a que veio. Os governos de propaganda, marca maior do tucanato, já não funcionam como antes, embora paguem muito bem (como tem noticiado a jornalista Ana Célia Pinheiro em uma série de reportagens, em seu blog). Então se o afilhado puxar o padrinho, já era.
Estou aberto às réplicas. As educadas, por favor, como educada foi esta postagem.
Não sou cientista político. Mas sou brasileiro e, como tal, adoro meter o bedelho em assuntos sobre os quais não tenho especial capacidade de avaliar. Para mitigar a minha prepotência, deixo claro que neste assunto fui chamado, sim, porque sou eleitor, morador e contribuinte de Belém; logo, a matéria é do meu interesse mais direto. Além disso, deixo claro que meus comentários são meras impressões leigas, sem nenhuma pretensão de segurança ou cientificidade.
No mais, deixo clara a minha rejeição ao PSDB e seus quadros, o que certamente influencia de forma prévia a minha percepção do caso. Ao menos tenho a honestidade de declará-lo ostensivamente.
Aparentemente, os dados têm sido interpretados como favoráveis à atual gestão municipal. Mas não acho que seja bem assim. Explico-me.
Coutinho foi eleito com 56,61% dos votos válidos, nada de consagrador, mas um índice superior aos 47,3% de aprovação registrados na pesquisa. Ou seja, em apenas quatro meses (a coleta de dados se deu na primeira quinzena de maio), sem nenhum incidente, considerando apenas a rotina administrativa, o prefeito já não conseguiu emplacar a mesma aceitação de outubro passado. Além disso, esse percentual abrange três faixas de análise, correspondentes a "ótimo", "bom" e "regular positivo". Como o melhor índice é "bom" (27,4%), vá lá que não esteja mal na foto. Mas apenas 3,2% de "ótimo" já é sintomático.
Outrossim, não me arvoro em discutir com estatísticos, mas eu não estou pessoalmente convencido de que "regular" devesse ser considerado como aprovação do governo, seja lá que governo for.
Mas o segundo quadro é ainda mais problemático:
Desde a campanha eleitoral do ano passado se comentava à boca miúda que qualquer prefeito eleito teria uma oportunidade de ouro de ser considerado um verdadeiro estadista, porque qualquer mequetrefe superaria, e muito, Duciomar Costa. Mas 34,8% dos entrevistados considerou a gestão atual igual à anterior. Eu me mataria, se fosse o prefeito. A coisa piora quando se observa que os que apontaram uma melhoria foram apenas 35,9%. O nada desprezível índice de 9% aponta piora (eu me mataria e me condenaria à execração da memória). Ao todo, a gestão tucana é mal-avaliada, em comparação à Era das Trevas Totais, por nada menos que 43,8% dos entrevistados!
Honestamente, você acha mesmo que se pode considerar essa uma avaliação positiva? Vamos chutar o balde: 20,3% dos entrevistados ainda não sabem dizer se Coutinho é melhor. Se um cara me dissesse não saber se eu sou melhor ou pior do que Duciomar Costa, eu já me mataria. Juro por Deus.
Arrisco um palpite final: a avaliação desfavorável de Coutinho é decorrência de que, em seus quatro meses de governo — aliás, até agora — não aconteceu nada. Políticos vivem de fazer de um palito uma floresta inteira, de modo que, quando nada é apresentado, é porque nada existe, de fato. Apenas a velha ação de limpeza de canais (a mais velha estratégia de todo neoprefeito) e a continuação de algumas obras, ainda que de fato muito importantes.
O imbróglio BRT, p. ex., continua como dantes. A imprensa comum noticiou que os contratos com a Caixa Econômica Federal já foram assinados e, a partir daí, a ordem de serviço poderia sair em 30 dias, mas o prefeito tentaria liberá-la em 7 dias. Claro que este prazo expirou e, por enquanto, nem sinal de retomada das obras. É claro que isso irrita o cidadão comum e pesa em eventual avaliação.
Chamo a atenção, por fim, para o fato de que o principal padrinho de Coutinho é o governador Simão Jatene, de quem se pode falar que, estando no terceiro ano de seu mandato, ainda não disse a que veio. Os governos de propaganda, marca maior do tucanato, já não funcionam como antes, embora paguem muito bem (como tem noticiado a jornalista Ana Célia Pinheiro em uma série de reportagens, em seu blog). Então se o afilhado puxar o padrinho, já era.
Estou aberto às réplicas. As educadas, por favor, como educada foi esta postagem.
sábado, 4 de maio de 2013
The wall
“Eu sou de um país que se chama Pará” - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO
O Estado de S.Paulo - 03/05/2013
Por que tanta gente de talento não chega ao Sul? Onde fica o muro que nos separa?
BELÉM
Quando a mediadora Renata Ferreira disse que o meu conto o homem que viu a osga comer meu filho a tinha aterrorizado, assustei-me. Não tenho este conto. Ela riu e explicou:“O que vocês chamam de lagarto ou lagartixa, chamamos de osga.Aliás, está no Aurélio”. Estava certa, o conto existe.
Quando ouvi a fotógrafa Elza Lima contar uma história minha em que os olhos dos cavalos do carrossel de meu avô eram petecas, reagi: “Como petecas? Eram bolas de gude”. Elza: “Pois aqui, petecas são as bolasde gude”.Caminhava pelo Espaço Palmeira, um feirão popular, no centro da cidade.Aqui foi uma tradicional fábrica de bolachas, biscoitos e doces, fundada em 1892. Demolida, restou uma área de piso concretada sobre a qual se armam as barracas.Então,ouvi: “Vamos fazer nossa sombra aqui”, disse o mulato de chapéu branco. E sentou-se com dois amigos num canto. Não havia sombra alguma, ao contrário, era um solão, mas gostei da expressão. Porque grande e diverso é o Brasil.
Vim para a 17.ª Feira Pan-Amazônica do Livro, que no ano passado vendeu 850 mil livros, me contou Paulo Chaves Fernandes, secretário de Cultura, arquiteto que criou as Docas e o Mangal das Garças, imperdíveis. A Pan-Amazônica deste ano termina no próximo domingo com Affonso Romano de Sant’Anna. Pelo palco principal passaram Ziraldo,Tony Bellotto, Cristovão Tezza, Guilherme Fiuza, Tiago Santana e José Castello. Para terem ideia, o folheto com a programação tem 74 páginas com oficinas, seminários, aulas, lançamentos, mesas-redondas, salão do humor.
Tudo acontece no Hangar, um centro de convenções moderno e funcional. Ao falarmos,temos à nossa disposição auditórios variadosque vãode300 a 1.500 espectadores. Distante daqueles espaços fechados por divisórias de eucatex da Bienal do Livro de São Paulo, ondea barulheira do salão penetra e ninguém ouve o que se fala.
Lembrei-me que estive na primeira Pan-Amazônica, ainda no centro, sufocada, apertada, mas cheia de gente. Assim como me lembro de uma casa de sucos da terra, onde havia um de pinha que era puro regalo. A casa fechou, virou loja. Por outro lado,nas sorveterias você mergulha a colher em taças de sorvete de tapioca (deslumbrante), buriti, bacuri, cupuaçu, açaí, graviola, manga.
Quem me indicou a Cairu como o melhor sorvete da cidade foi Fafá de Belém. Opinião considerável.O Pará é terra da Fafá, da Gaby Amarantos, da Dira Paes, da Olga Savary (que está na cidade em que nasceu, emocionada,há muito não vinha), Leah Soares. E de Dalcídio Jurandir, um dos grandes escritores brasileiros de todos os tempos.
A feira deste ano foi dedicada a Ruy Barata, poeta, compositor, jornalista, político progressista, ícone paraense, homem que navegou em todas as águas. Dele é a frase epígrafe desta 17.ª Pan-Amazônica: “Eu sou de um país que se chama Pará”. Milhares de crianças vagando entre centenas de estandes. Perguntando: “O senhor é escritor?”. Correndo atrás do Ziraldo, que se intitula “o velhinho maluquinho”. Vi Ziraldo, com tremenda luxação no ombro, cheio de dores, sentar-se e autografar centenas de livros. Mais do que profissional, ele ama o que fez e adora ver ameninada em torno.
Certa noite,fomos jantar nas Docas, olhando o rio de frente.Chegavam homens feitos querendo tirar uma foto com o “menino maluquinho”. Chegavam também jovens querendo uma foto com TonyBellotto, que tinha acabado de fazer uma bela fala sobre seu romance Machu Picchu.Depois,elas viravam para mim:“ E o senhor é alguma coisa?”.Respondi com a maior seriedade: “Não, sou apenas pai do Bellotto”. E elas: “Não precisamos tirar fotos do senhor, não?”. Felizes com minha negativa, partiam, ruidosas, enquanto voltávamos ao filé de filhote, peixe delicioso, com risoto de pupunha e jambu, e ao pato com tucupi. Belém é sabor e é necessário comer, de preferência à noite, no Mangal das Garças, parque nascido à beira- rio,cheio de pássaros, tartarugas, borboletário. Iguanas verdes, figuras pré-históricas, vagueiam pelos gramados.
Tomei um avião e cheguei a Marabá 50 minutos depois. O nome da cidade vem de um poema de Gonçalves Dias. Região ligada à siderurgia e celebrizada pela Serra Pelada. Estudantes e professores se juntaram no Cine Marrocos para conversar com escritores. É a Pan-Amazônica expandida. A feira não acontece apenas em Belém, vai ao interior, agrega, abre-se às populações. A ideia avança pelo Brasil. A fotógrafa Elza Limame contou que esta “feira fora de feira” nasceu após a leitura de uma crônica, aqui, minha no jornal, falando de Fortaleza, da bienal fora da bienal, quando autores vão aos bairros e às cidades do interior. Andressa Malcher, coordenadora,apanhou a ideia no ar e desenvolveu.
Sentei-me no palco ao lado de Ademir Brás, jornalista, advogado e poeta de primeira linha. Ele descreve sua terra, a gente, as paisagens, o Rio Tocantins,manso e largo, silencioso. Pequenas casas coloridas inclinam se para as águas. A poesia de Ademir oscila entre a ternura e a indignação, com ritmo e afeto. Por ele e pelos jovens, soube do Pará.E contei das coisas de cá. Porque tanta gente de talento como Ademir não chega ao Sul? Onde fica o muro que nos separa?
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Por onde anda?
Em maio de 2007, o saudoso Juvêncio de Arruda postou o seguinte texto (aliás, primoroso na concisão, no ritmo e na poética) no seu Quinta Emenda:
O Engenheiro Roberto
O Engenheiro Roberto
Roberto é um jovem de pouco mais de 20 anos.
Santareno, vive a mais de mil kms de casa, em Marabá, onde é aluno da primeira turma de Engenharia de Minas, no campus da UFPA inaugurado por Lula em fevereiro de 2006.
Infra de primeiro mundo, o curso do Roberto, construído com ajuda da CVRD. Professores doutores, laboratórios moderníssimos, ambiente acadêmico.
Mas Roberto sobrevive em condições duríssimas, dando aulas no primeiro grau da rede pública municipal, a R$ 4,20 a hora/aula. "Já dei aula até de geografia", disse-me encabulado, como se tivesse cometido uma infração.
Mora num kit net com mais cinco colegas - de diferentes cidades dos quatro cantos do Pará - que comemoram quando a mãe de um deles passa uma temporada por lá, sinônimo de roupa passada e comida decente.
Nas primeiras férias, saudoso de casa, encarou a Transamazônica na última viagem da temporada: o inverno havia começado e a estrada seria interrompida.
Não deu outra: foram cinco dias de viagem.
O busão quebrou duas vêzes, e Roberto, sem grana para mais de dois dias, pediu comida nas casas simples da beira da estrada.
Semestre seguinte a saudade apertou de nôvo e Roberto, escaldado, resolveu encarar uma carona nos caminhões da PA-150 até Nova Déli.
Três etapas, com escalas em Goianésia e Tailândia, para troca de caminhão.
Desembarcou na capital com R$ 10,00 no bolso e foi direto prá Estrada Nova, atrás de um barco para Santarém.
Encontrou o Nélio Correa, dos maiores, e pediu carona.
Ganhou, em troca de um dia e meio de trabalho, em cima de uma bóia, lavando o casco do navio. E tres dias de esfregão no convés de passageiros até chegar em casa.
Agora em julho Roberto quer repetir a dose, prá poder cheirar o suvaco das lindas santarenas e beijar a mãe, no bairro da Prainha, reduto dos arigós, como êle.
Ficou de passar cá em casa, antes de pegar o navio.
Vai encher a pança de comida e levar um farnel prá subir o Amazonas.
Vai levar, também, a admiração deste poster.
Roberto daqui mais tres ou quatro anos vai ganhar uma grana, muito bem empregado. Enquanto isso come o pão que o diabo amassou porque a família é dura e nenhuma entidade - tipo essas que tem grana para remunerar consultorias caríssimas - tem grana para ajudar os estudos do rapaz.
Há interesses maiores.
Inda bem que o Roberto é maior que eles.
Pisa aí, garôto!
Santareno, vive a mais de mil kms de casa, em Marabá, onde é aluno da primeira turma de Engenharia de Minas, no campus da UFPA inaugurado por Lula em fevereiro de 2006.
Infra de primeiro mundo, o curso do Roberto, construído com ajuda da CVRD. Professores doutores, laboratórios moderníssimos, ambiente acadêmico.
Mas Roberto sobrevive em condições duríssimas, dando aulas no primeiro grau da rede pública municipal, a R$ 4,20 a hora/aula. "Já dei aula até de geografia", disse-me encabulado, como se tivesse cometido uma infração.
Mora num kit net com mais cinco colegas - de diferentes cidades dos quatro cantos do Pará - que comemoram quando a mãe de um deles passa uma temporada por lá, sinônimo de roupa passada e comida decente.
Nas primeiras férias, saudoso de casa, encarou a Transamazônica na última viagem da temporada: o inverno havia começado e a estrada seria interrompida.
Não deu outra: foram cinco dias de viagem.
O busão quebrou duas vêzes, e Roberto, sem grana para mais de dois dias, pediu comida nas casas simples da beira da estrada.
Semestre seguinte a saudade apertou de nôvo e Roberto, escaldado, resolveu encarar uma carona nos caminhões da PA-150 até Nova Déli.
Três etapas, com escalas em Goianésia e Tailândia, para troca de caminhão.
Desembarcou na capital com R$ 10,00 no bolso e foi direto prá Estrada Nova, atrás de um barco para Santarém.
Encontrou o Nélio Correa, dos maiores, e pediu carona.
Ganhou, em troca de um dia e meio de trabalho, em cima de uma bóia, lavando o casco do navio. E tres dias de esfregão no convés de passageiros até chegar em casa.
Agora em julho Roberto quer repetir a dose, prá poder cheirar o suvaco das lindas santarenas e beijar a mãe, no bairro da Prainha, reduto dos arigós, como êle.
Ficou de passar cá em casa, antes de pegar o navio.
Vai encher a pança de comida e levar um farnel prá subir o Amazonas.
Vai levar, também, a admiração deste poster.
Roberto daqui mais tres ou quatro anos vai ganhar uma grana, muito bem empregado. Enquanto isso come o pão que o diabo amassou porque a família é dura e nenhuma entidade - tipo essas que tem grana para remunerar consultorias caríssimas - tem grana para ajudar os estudos do rapaz.
Há interesses maiores.
Inda bem que o Roberto é maior que eles.
Pisa aí, garôto!
São comuns em programas de TV e sites esportivos quadros do tipo "por onde anda" e "que fim levou". Seria o caso, aqui, de perguntar (o que talvez nossa co-editora, a querida Marise Morbach, possa responder): por onde anda o Roberto?
sábado, 30 de março de 2013
Benedito Nunes no Estadão
Olha só que legal: o portal do Estadão publicou, ontem, matéria intitulada "Retrato de um heroi civilizador", falando sobre o paraense Benedito Nunes, em seu caderno de cultura. Com o detalhe de que o Estadão não possui editorias regionais, como outros portais. Assim, o trabalho do grande filósofo paraense não foi tratado como um nicho; foi-lhe, isto sim, reconhecido um valor para a cultura nacional — o que não é nenhuma surpresa para nós, mas que pode surpreender se confrontado com o habitual etnocentrismo de certas regiões do país.
Uma grata surpresa.
Uma grata surpresa.
terça-feira, 12 de março de 2013
Farinha nas alturas
Como entender o preço de R$ 8,00 cobrado nas feiras e supermercados por um quilograma de farinha?
Hoje um produtor rural de São Francisco do Pará me forneceu um número estarrecedor, que confundiu o meu já parco raciocínio econômico: ele vende "uma saca" de 60 kg da farinha que produz em seu sítio, por R$ 30,00, na origem (cinquenta centavos por quilo!).
Quem me ajuda a compreender um acréscimo de 1.500 % até o preço final?!...
Quem explica - Harvard ou Freud?
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Os esquemas de sempre
A esta hora, já devem ter concluído a varrição do salão onde comemoraram o resultado das eleições do último domingo, por isso é hora de pensar em alguma coisa que tenha cara de trabalho. Se bem que trabalho de político é montar esquemas de governo (entenda esquemas como quiser), ainda mais considerando que o jabuti eleito não é lá muito familiarizado com esse negócio de expediente.
A pergunta que se impõe é: Zenaldo Coutinho fará um bom governo à frente da prefeitura? Respondo: sim, fará. Mesmo que não faça.
Explico: Almir Gabriel fez um bom governo em seus 8 anos à frente do governo do Estado? Jatene fez um bom governo nos 4 anos subsequentes? Está fazendo um bom governo agora? Tanto faz. Não importa. Simplesmente não importa. Seus incontáveis aliados sempre proclamam aos quatro ventos que tudo que é feito pelo PSDB é simplesmente irretocável; os outros, quaisquer outros, é que fazem tudo errado.
Parafraseando o arquiteto e blogueiro Flávio Nassar, enquanto em vários Estados do país a espécie Tuccanus biccus longus está quase extinta, aqui no Pará ela cresce e se multiplica. Com certeza não é por amor à natureza, mas por uma extraordinária cobertura. Não me refiro à cobertura vegetal, mas a uma impressionante união entre governo do Estado (e agora seu almoxarifado, na capital) e todos os setores do poder público (inclusive aqueles que deveriam ser isentos ou fiscalizadores), a iniciativa privada e metade da imprensa local (que são duas grandes empresas de comunicação).
Com a patota toda falando a mesma língua, como alguém pode errar? Por aqui, o esquema de legitimação do tucanato é aquele magistralmente definido pelo ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, Rubens Ricúpero: "Eu não tenho escrúpulos: o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde."
Foi assim durante 12 anos e, passado um breve interregno — sempre disse que o meu maior rancor contra o desastroso governo Ana Júlia foi pavimentar o caminho para o retorno da tucanalha —, está sendo novamente.
Então chegou a vez de Zenaldo governar do jeito que todo tucano governa: com apoio de todos os lados e, particularmente, maioria folgada na Câmara dos Vereadores, não por acaso cognominada Casa de Noca pelo nosso saudoso e sempre lembrado (inclusive por isto) Juvêncio de Arruda. Naquele honorável sodalício, ela aprovará o que bem entender. Por conseguinte, não existe a menor possibilidade de fazer um governo ruim. Por mais que faça um catastrófico.
Veja-se que até Duciomar Costa brilhou como um sol no legislativo mirim (nomenclatura empregada de propósito). Só não conseguiu enganar quanto ao horror que representava. Mas mesmo assim se re-elegeu.
Mantenho, entretanto, minhas réstia de esperança. A partir de janeiro, havemos de ficar melhor do que estamos agora. Deus ajude.
A pergunta que se impõe é: Zenaldo Coutinho fará um bom governo à frente da prefeitura? Respondo: sim, fará. Mesmo que não faça.
Explico: Almir Gabriel fez um bom governo em seus 8 anos à frente do governo do Estado? Jatene fez um bom governo nos 4 anos subsequentes? Está fazendo um bom governo agora? Tanto faz. Não importa. Simplesmente não importa. Seus incontáveis aliados sempre proclamam aos quatro ventos que tudo que é feito pelo PSDB é simplesmente irretocável; os outros, quaisquer outros, é que fazem tudo errado.
Parafraseando o arquiteto e blogueiro Flávio Nassar, enquanto em vários Estados do país a espécie Tuccanus biccus longus está quase extinta, aqui no Pará ela cresce e se multiplica. Com certeza não é por amor à natureza, mas por uma extraordinária cobertura. Não me refiro à cobertura vegetal, mas a uma impressionante união entre governo do Estado (e agora seu almoxarifado, na capital) e todos os setores do poder público (inclusive aqueles que deveriam ser isentos ou fiscalizadores), a iniciativa privada e metade da imprensa local (que são duas grandes empresas de comunicação).
Com a patota toda falando a mesma língua, como alguém pode errar? Por aqui, o esquema de legitimação do tucanato é aquele magistralmente definido pelo ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, Rubens Ricúpero: "Eu não tenho escrúpulos: o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde."
Foi assim durante 12 anos e, passado um breve interregno — sempre disse que o meu maior rancor contra o desastroso governo Ana Júlia foi pavimentar o caminho para o retorno da tucanalha —, está sendo novamente.
Então chegou a vez de Zenaldo governar do jeito que todo tucano governa: com apoio de todos os lados e, particularmente, maioria folgada na Câmara dos Vereadores, não por acaso cognominada Casa de Noca pelo nosso saudoso e sempre lembrado (inclusive por isto) Juvêncio de Arruda. Naquele honorável sodalício, ela aprovará o que bem entender. Por conseguinte, não existe a menor possibilidade de fazer um governo ruim. Por mais que faça um catastrófico.
Veja-se que até Duciomar Costa brilhou como um sol no legislativo mirim (nomenclatura empregada de propósito). Só não conseguiu enganar quanto ao horror que representava. Mas mesmo assim se re-elegeu.
Mantenho, entretanto, minhas réstia de esperança. A partir de janeiro, havemos de ficar melhor do que estamos agora. Deus ajude.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Quanto custa morar no Pará?
Li hoje, em um desses painéis informativos de elevador, que o custo médio da construção civil no Pará alcançou o valor de R$ 813,91 no primeiro semestre.
Imediatamente me veio à cabeça uma pergunta que já fiz aqui mesmo, no Flanar, para a qual nenhuma resposta satisfatória apareceu: como as construtoras chegam ao preço de quase R$ 6.000,00 o metro quadrado, como alguns empreendimentos ostentam?
Haverá quem pondere que no preço da construção não está incluído o custo dos terrenos onde são construídos os condomínios. Não está mesmo? E os salários dos operários? E os impostos? Não creio que a formação do preço decorra tão somente dos custos do material.
Alguém pode explicar essa lógica, destrinchar esse teorema, explicar esse cálculo?
domingo, 8 de julho de 2012
Salinâmbulo
Será obrigatório o uso de óculos em enterros, no município paraense de Salinópolis?
Em caso afirmativo, pelo falecido e/ou pelos demais presentes?
Tratar-se-á de mais um caso da ilegal (e muito habitual) venda casada?
Alguém conhece ou ouviu falar de uma instituição comercial similar?
PS: o título da postagem é inspirado no blog Belenâmbulo, do nosso cybercolleague Wagner.
terça-feira, 19 de junho de 2012
O buraco é mais embaixo
O clube social mais elitista da cidade deu vexame com falta de energia elétrica em suas dependências, no último final de semana, com o detalhe de que havia um evento acontecendo lá. Como era o clube que é, o administrador judicial da Rede Celpa tratou de se coçar. Mas a pressa para contentar os "ricos" da cidade não esconde um problema muito mais grave.
No último dia 14, a ex-governadora Ana Júlia Carepa publicou uma irônica postagem em seu blog, acerca da inauguração de um conjunto habitacional no Município de Mocajuba, inaugurado agora, mas que teria sido feito à razão de 98% na gestão anterior. Motivo de não ter sido entregue antes? A Rede Celpa não ligara a energia.
Por fim, conta-me uma amiga que ela e o marido compraram uma sala no Urbe Office, elegante edifício comercial recentemente entregue, ali na Serzedêlo Corrêa com Rua dos Mundurucus, em Batista Campos. Há alguns dias, na reunião de instalação do condomínio, a construtora esclareceu que houve atraso na entrega por um motivo. Adivinham qual? Falta de energia. A Rede Celpa não teve, por algum tempo, como produzir a energia necessária para suprir a nova demanda.
Sintomas. Sintomas de que, a qualquer momento, poderemos estar totalmente às escuras ou viver no acende-apaga muito mais do que hoje. E sem chance de indenização pelos prejuízos, já que nossos créditos seriam quirografários. A cidade está crescendo e a todo momento surgem novos espigões, a demandar energia, assim como estabelecimentos econômicos. Como manter tudo funcionando? A solução, claro, já foi proposta e se encontra "em estudo" perante a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL): aumento da tarifa para o consumidor.
Quem mais poderia bancar essa fatura?
Com o detalhe que se estará pagando mais caro por um serviço cada vez pior. Ou serviço nenhum, Deus nos livre.
No último dia 14, a ex-governadora Ana Júlia Carepa publicou uma irônica postagem em seu blog, acerca da inauguração de um conjunto habitacional no Município de Mocajuba, inaugurado agora, mas que teria sido feito à razão de 98% na gestão anterior. Motivo de não ter sido entregue antes? A Rede Celpa não ligara a energia.
Por fim, conta-me uma amiga que ela e o marido compraram uma sala no Urbe Office, elegante edifício comercial recentemente entregue, ali na Serzedêlo Corrêa com Rua dos Mundurucus, em Batista Campos. Há alguns dias, na reunião de instalação do condomínio, a construtora esclareceu que houve atraso na entrega por um motivo. Adivinham qual? Falta de energia. A Rede Celpa não teve, por algum tempo, como produzir a energia necessária para suprir a nova demanda.
Sintomas. Sintomas de que, a qualquer momento, poderemos estar totalmente às escuras ou viver no acende-apaga muito mais do que hoje. E sem chance de indenização pelos prejuízos, já que nossos créditos seriam quirografários. A cidade está crescendo e a todo momento surgem novos espigões, a demandar energia, assim como estabelecimentos econômicos. Como manter tudo funcionando? A solução, claro, já foi proposta e se encontra "em estudo" perante a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL): aumento da tarifa para o consumidor.
Quem mais poderia bancar essa fatura?
Com o detalhe que se estará pagando mais caro por um serviço cada vez pior. Ou serviço nenhum, Deus nos livre.
sábado, 2 de junho de 2012
Sábado, na beira do rio
Habitat (Imagem: Scylla Lage Neto)
Lar (Imagem: Scylla Lage Neto)
Combustível (Imagem: Scylla Lage Neto)
Referencial (Imagem: Scylla Lage Neto)
domingo, 25 de março de 2012
Cadê o consolo?
Quando Belém deixou de ser escolhida como sub-sede da Copa do Mundo de 2014, essa vergonha que está drenando bilhões de reais que poderiam ser utilizados em coisa útil, o mundinho paraense veio abaixo. A governadora Ana Júlia pagou caro por isso, mas foram prometidos alguns prêmios de consolação, tais como usarem a nossa estrutura (inegavelmente superior à de Manaus, hoje) para treinos e sediarmos a Copa América. Mas, segundo a imprensa, o evento internacional não mais será realizado aqui.
E agora? O governador Simão Jatene será cobrado por isso? Alguém dirá que faltou "articulação política" e "competência", mote empregado pelos próprios tucanos na hora de fazer campanha?
Enfim, Belém perdeu naquela época e perdeu de novo. Motivos existem, mas a minha pergunta continua a mesma: não deveríamos estar mais empenhados em construir o nosso futuro independentemente de fatores externos, ainda mais aqueles para os quais só existem negociatas entre cabeças coroadas que sequer sabem onde fica o Pará?
E agora? O governador Simão Jatene será cobrado por isso? Alguém dirá que faltou "articulação política" e "competência", mote empregado pelos próprios tucanos na hora de fazer campanha?
Enfim, Belém perdeu naquela época e perdeu de novo. Motivos existem, mas a minha pergunta continua a mesma: não deveríamos estar mais empenhados em construir o nosso futuro independentemente de fatores externos, ainda mais aqueles para os quais só existem negociatas entre cabeças coroadas que sequer sabem onde fica o Pará?
quinta-feira, 15 de março de 2012
"Sai daí!"
Lúdica, bem humorada, mas ao mesmo tempo precisa a inserção gratuita do PCdoB na televisão. Nela, o pré-candidato a prefeito de Belém, Jorge Panzera, aparece listando números e fatos que revelam os indicadores sociais haitianos do nosso Estado, a partir de notícias que têm sido amplamente divulgadas por diferentes veículos de comunicação, faz tempo. Ao final, Panzera olha para a imagem do governador Simão Jatene e solta um divertido "sai daí!".
Sei que o tucanato conta uma legião de fieis seguidores, os quais se movem com sentimentos quase religiosos, mas temos que reconhecer que o marqueteiro (seja lá quem for) acertou a mão dessa vez. Em poucos segundos, a mensagem é passada e ainda por cima se cria um código para ficar na cabeça das pessoas.
Sai daí!
Sei que o tucanato conta uma legião de fieis seguidores, os quais se movem com sentimentos quase religiosos, mas temos que reconhecer que o marqueteiro (seja lá quem for) acertou a mão dessa vez. Em poucos segundos, a mensagem é passada e ainda por cima se cria um código para ficar na cabeça das pessoas.
Sai daí!
segunda-feira, 12 de março de 2012
Belém da década de 1980

Na tarde chuvosa de ontem caiu de paraquedas (ou de guarda-chuva?) no meu colo um DVD bastante curioso, o documentário Belém aos 80, dirigido por Januário Guedes e lançado pela Sol Informática.
O filme, cujo ano de produção não consegui identificar, passeia por vários aspectos da Cidade das Mangueiras na fatídica década de 1980, mas tem como ponto forte a abordagem do então efervescente cenário cultural.
A fotografia, o teatro, a música e as artes plásticas são dissecados com propriedade através de entrevistas feitas com personalidades como Emanuel Nassar, PP Condurú, Simões, Miguel Chikaoka, Luis Braga, Walter Bandeira, Eloi Iglesias, Edgar augusto, Edyr Augusto e Paes Loureiro, entre outros.
Lucio Flávio Pinto também contribui à obra com interessante depoimento sobre o assassinato de Paulo Fonteles, disponível no You Tube.
Os vídeos musicais e das peças de teatro da época, oriundos principalmente da TV Cultura, são uma preciosidade tanto para os que viveram aquela década quanto para os que tem curiosidade sobre a Belém que "já teve" tanta coisa boa.
Ganhei a tarde e a semana inteira.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
sábado, 10 de dezembro de 2011
A última especulação antes da votação
Uma coisa que me surpreendeu, quando divulgaram a primeira pesquisa sobre intenções de voto do plebiscito que ocorrerá amanhã, foi que a rejeição ao Carajás era maior que ao Tapajós. Uma diferença pequena, mas que se confirmou o tempo todo. Minha surpresa se atrelava a uma percepção simplória de que uma região com mais habitantes, mais dinheiro e interesses privados muito mais nítidos deveria ter mais força para conduzir sua campanha. Com o tempo, fui entendendo a moral da história e, esta semana, um conhecido meu, ao explicar o seu voto pessoal, acabou dizendo algo que, acredito, seja um pensamento maior, capaz de explicar esses números.
Meu amigo nasceu em Santarém e está radicado há duas décadas em Belém. Aqui trabalha e criou uma filha. Remetendo-se a sua infância, e portanto há um tempo muito anterior às campanhas de hoje e mesmo aos movimentos políticos que ensejaram o plebiscito, disse que a população do Oeste do Estado sempre se sentiu tão isolada do Leste — um isolamento natural, de fundo geográfico —, que muitos realmente nunca se consideraram paraenses. Havia vínculos mais fortes com Manaus do que com Belém. Isto se percebe até nas manifestações culturais populares: vejam-se as semelhanças entre o Festival das Tribos de Juruti e o Festival de Parintins. São manifestações próprias, diferentes das nossas, que têm mais a ver com os cabeçudos, com as tradições marajoaras, da marujada de Bragança, etc. Embora, é claro, o boi não nos seja nada estranho — que o diga o Arraial do Pavulagem.
O movimento pró-Tapajós seria, assim, a materialização de um sentimento genuinamente popular, que talvez por isso se disseminou mais, mesmo com menos gente e muito menos dinheiro.
Já o Estado de Carajás seria obra de um povo forasteiro (a expressão, muito lembrada nas últimas semanas, foi usada por meu amigo), de diferentes procedências e que por isso mesmo não possui nenhum vínculo étnico, cultural ou emocional com a nossa região, a qual lhes pareceria apenas um lugar onde se fixar, trabalhar e ganhar dinheiro. Não vejo nenhum problema nisso, desde que o trabalho seja honesto. Afinal de contas, sou avesso a essa xenofobia toda. Uma pessoa que se fixa em nossa região só não é paraense de nascimento, mas passou a ser um indivíduo socialmente produtivo para nós. O processo não é recente, por isso os filhos e netos desses imigrantes já são paraenses de nascimento, se isso faz alguma diferença. E se são divisionistas, não podem ser criticados, já que apenas expressam um pensamento de seus antepassados, uma fórmula que deu certo de algum modo.
Mesmo assim, para meu amigo o movimento pró-Carajás é um projeto que não nasceu no povo, e sim em partidos políticos, mas que seduziu o povo porque, convenhamos, tem lá muitos atrativos para aquela região. Assim, ele votará 77 para Tapajós e 55 para Carajás.
Vale lembrar que os vínculos entre o Sudeste do Estado e a capital sempre foram mais fortes do que em relação ao Oeste. Se nada mais pudesse ser dito, lembremos que o nome do Município de Paragominas foi produzido pela fusão dos locais de origem dos imigrantes e do ponto onde se fixaram. Eles sempre souberam que estavam no Pará.
Honestamente, abstraindo preferências pessoais, nunca achei que houvesse a menor chance de o projeto divisionista ter sucesso. Amanhã, a partir do final da tarde, acabará o disse-me-disse e restará apenas a dura realidade. O que mais me incomoda — além de pensar nos milhões e milhões de reais gastos para se chegar a uma resposta que já se conhecia de antemão, mas tudo bem: democracia é isso —, é pensar no que vem depois.
O lado vencedor não saberá vencer. Espero deboche, menosprezo e mais xenofobia. Estou certo de que sentirei vergonha das coisas que serão ditas. E o lado perdedor imprecará todas as suas maldições e fará ameaças. Sentirei muita raiva, porque toda vez que escuto alguém me chamar de "elite", fico com vontade de socar esse idiota.
Se Belém — uma cidade com 6% de saneamento básico, trânsito quase estagnado e condições de saúde altamente deficitárias — pode ser considerada elite, então o planeta Terra se tornou realmente um lugar muito ruim para se viver.
Meu amigo nasceu em Santarém e está radicado há duas décadas em Belém. Aqui trabalha e criou uma filha. Remetendo-se a sua infância, e portanto há um tempo muito anterior às campanhas de hoje e mesmo aos movimentos políticos que ensejaram o plebiscito, disse que a população do Oeste do Estado sempre se sentiu tão isolada do Leste — um isolamento natural, de fundo geográfico —, que muitos realmente nunca se consideraram paraenses. Havia vínculos mais fortes com Manaus do que com Belém. Isto se percebe até nas manifestações culturais populares: vejam-se as semelhanças entre o Festival das Tribos de Juruti e o Festival de Parintins. São manifestações próprias, diferentes das nossas, que têm mais a ver com os cabeçudos, com as tradições marajoaras, da marujada de Bragança, etc. Embora, é claro, o boi não nos seja nada estranho — que o diga o Arraial do Pavulagem.
O movimento pró-Tapajós seria, assim, a materialização de um sentimento genuinamente popular, que talvez por isso se disseminou mais, mesmo com menos gente e muito menos dinheiro.
Já o Estado de Carajás seria obra de um povo forasteiro (a expressão, muito lembrada nas últimas semanas, foi usada por meu amigo), de diferentes procedências e que por isso mesmo não possui nenhum vínculo étnico, cultural ou emocional com a nossa região, a qual lhes pareceria apenas um lugar onde se fixar, trabalhar e ganhar dinheiro. Não vejo nenhum problema nisso, desde que o trabalho seja honesto. Afinal de contas, sou avesso a essa xenofobia toda. Uma pessoa que se fixa em nossa região só não é paraense de nascimento, mas passou a ser um indivíduo socialmente produtivo para nós. O processo não é recente, por isso os filhos e netos desses imigrantes já são paraenses de nascimento, se isso faz alguma diferença. E se são divisionistas, não podem ser criticados, já que apenas expressam um pensamento de seus antepassados, uma fórmula que deu certo de algum modo.
Mesmo assim, para meu amigo o movimento pró-Carajás é um projeto que não nasceu no povo, e sim em partidos políticos, mas que seduziu o povo porque, convenhamos, tem lá muitos atrativos para aquela região. Assim, ele votará 77 para Tapajós e 55 para Carajás.
Vale lembrar que os vínculos entre o Sudeste do Estado e a capital sempre foram mais fortes do que em relação ao Oeste. Se nada mais pudesse ser dito, lembremos que o nome do Município de Paragominas foi produzido pela fusão dos locais de origem dos imigrantes e do ponto onde se fixaram. Eles sempre souberam que estavam no Pará.
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Honestamente, abstraindo preferências pessoais, nunca achei que houvesse a menor chance de o projeto divisionista ter sucesso. Amanhã, a partir do final da tarde, acabará o disse-me-disse e restará apenas a dura realidade. O que mais me incomoda — além de pensar nos milhões e milhões de reais gastos para se chegar a uma resposta que já se conhecia de antemão, mas tudo bem: democracia é isso —, é pensar no que vem depois.
O lado vencedor não saberá vencer. Espero deboche, menosprezo e mais xenofobia. Estou certo de que sentirei vergonha das coisas que serão ditas. E o lado perdedor imprecará todas as suas maldições e fará ameaças. Sentirei muita raiva, porque toda vez que escuto alguém me chamar de "elite", fico com vontade de socar esse idiota.
Se Belém — uma cidade com 6% de saneamento básico, trânsito quase estagnado e condições de saúde altamente deficitárias — pode ser considerada elite, então o planeta Terra se tornou realmente um lugar muito ruim para se viver.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Jeep Salinópolis

A Jeep lançou no Salão de Náutica de Paris um protótipo chamado Jeep Wrangler Nautic Blanche, bastente apropriado para os frequentadores da praia do Atalaia, em Salinas.
Além da cor e dos detalhes em madeira, o carro trará uma tenda para ser armada no teto e um par de cadeiras de lona.
Há espaço para pranchas de kitesurf e para o tradicional isopor de biritex.
Me pergunto se uma porção de pratiqueira frita não seria um excelente opcional...
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Pará de contradições
No Consultor Jurídico:
Matéria completa, sobre a divisão do Estado: http://www.conjur.com.br/2011-ago-08/eleitor-respondera-separacao-tapajos-carajas
(*) Na verdade, são 144 Munícípios, incluído o de Mojuí dos Campos, desmembrado de Santarém, cuja criação formal se deve à Lei estadual n. 6.268, de 1999. A efetiva instalação depende da realização das primeiras eleições municipais, no próximo ano.
O estado do Pará vive hoje um processo contraditório. Por um lado, se consolida no cenário nacional pelo acelerado crescimento econômico, a frente do ranking de exportação do país. Por outro lado, carrega um dos piores índices de desenvolvimento humano e social.
A economia paraense está em plena expansão, hoje com um promissor polo industrial e uma sólida economia de mineração que fez o estado registrar nos cinco primeiros meses de 2011 o segundo maior superávit (US$ 4,416 bilhões) do país, perdendo apenas para Minas Gerais (US$ 5,886 bilhões).
Considerado o segundo maior estado do Brasil em dimensão territorial, o Pará tem hoje 143 municípios(*) e 7,1 milhões de habitantes. O estado apresenta um quadro altamente concentrado de riquezas e investimentos públicos.
Das dez regiões mais pobres do Brasil, cinco estão no Pará. Estudo do Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará — Idesp — mostra que a região prevista para Carajás recebe somente 4,7% dos gastos públicos estaduais em segurança, hoje fortemente marcada por conflitos agrários e considerada seis vezes mais violenta do que o estado de São Paulo (Ministério da Justiça/2011).
Ainda segundo o Idesp, são baixíssimos os gastos com educação e desporto (1,3%) e transporte (10%). A enorme diferença de repasses de recursos públicos costuma ser explicada pelo baixo contingente populacional e peso da economia, embora a região ocupe o 13º lugar no ranking do PIB e tenha população maior do que oito estados do país.
Matéria completa, sobre a divisão do Estado: http://www.conjur.com.br/2011-ago-08/eleitor-respondera-separacao-tapajos-carajas
(*) Na verdade, são 144 Munícípios, incluído o de Mojuí dos Campos, desmembrado de Santarém, cuja criação formal se deve à Lei estadual n. 6.268, de 1999. A efetiva instalação depende da realização das primeiras eleições municipais, no próximo ano.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Medidas extremas
Em outras épocas, quando eu saía para jogar bilhar com um grupo de amigos — todos incompetentes para o jogo, embora nenhum tanto quanto eu —, um deles costumava dizer que, na dúvida sobre qual jogada fazer, só havia uma opção: "porradão". Aí ele dava a tacada mais violenta que podia e esperava as consequências.
A técnica de jogo do meu amigo (se é que se pode chamar para isso de "técnica") parece ter sido levada para a vida real por alguém na Assembleia Legislativa. Pelo menos foi o que noticiou o plantão do Portal ORM às 8h28 desta manhã:
Caso Alepa: Deputado denuncia que processos desapareceram
Deputado Edmilson Rodrigues (PSol) denunciou que 53 processos licitatórios sumiram da sala da Comissão Especial de Licitações de Obras (Celo) da Assembléia Legislativa do Pará. Arquivos contidos no computador do referido grupo técnico também foram apagados. O presidente do Poder, deputado Manoel Pioneiro (PSDB), informou que ambos os problemas, que prejudicam a investigação sobre as fraudes no Legislativo, estão sendo averiguados.
Da tribuna, Edmilson Rodrigues cobrou explições da presidência por causa dos prejuízos que a perda de documentos administrativos pode causar às investigações das fraudes ocorridas na Alepa antes de 2010, ano administrativo em análise pelo Ministério Público Estadual.
Ele levantou a suspeita de queima de arquivo porque o suposto sumiço ocorre em meio à denúncia feita pelo MPE de que 105 processos licitatórios realizados em 2010 foram fraudados.
Para o psolista, o fato se torna ainda mais estranho ao se observar que a comissão de licitações responsável pelos processos classificados pelo MP como fraudados é a mesma que organizava os processos agora tidos como desaparecidos.
A prática não é inédita. Dizem as más línguas que, quando vira um governo que não fez seu sucessor, é um tal de HD desaparecendo que muito me intriga ninguém ter sido preso por isso até hoje.
A ser verdadeira a acusação do pré-candidato a triprefeito de Belém (o que, presumo, ninguém duvida), o fato, com sua inevitável carga criminal, pode respingar no atual presidente da casa, que até aqui se tem esforçado por fazer todo mundo acreditar que ele não tem culpa de nada, já que assumiu o bonde somente em 2011.
Mais um capítulo emocionante dessa triste novela.
A técnica de jogo do meu amigo (se é que se pode chamar para isso de "técnica") parece ter sido levada para a vida real por alguém na Assembleia Legislativa. Pelo menos foi o que noticiou o plantão do Portal ORM às 8h28 desta manhã:
Caso Alepa: Deputado denuncia que processos desapareceram
Deputado Edmilson Rodrigues (PSol) denunciou que 53 processos licitatórios sumiram da sala da Comissão Especial de Licitações de Obras (Celo) da Assembléia Legislativa do Pará. Arquivos contidos no computador do referido grupo técnico também foram apagados. O presidente do Poder, deputado Manoel Pioneiro (PSDB), informou que ambos os problemas, que prejudicam a investigação sobre as fraudes no Legislativo, estão sendo averiguados.
Da tribuna, Edmilson Rodrigues cobrou explições da presidência por causa dos prejuízos que a perda de documentos administrativos pode causar às investigações das fraudes ocorridas na Alepa antes de 2010, ano administrativo em análise pelo Ministério Público Estadual.
Ele levantou a suspeita de queima de arquivo porque o suposto sumiço ocorre em meio à denúncia feita pelo MPE de que 105 processos licitatórios realizados em 2010 foram fraudados.
Para o psolista, o fato se torna ainda mais estranho ao se observar que a comissão de licitações responsável pelos processos classificados pelo MP como fraudados é a mesma que organizava os processos agora tidos como desaparecidos.
A prática não é inédita. Dizem as más línguas que, quando vira um governo que não fez seu sucessor, é um tal de HD desaparecendo que muito me intriga ninguém ter sido preso por isso até hoje.
A ser verdadeira a acusação do pré-candidato a triprefeito de Belém (o que, presumo, ninguém duvida), o fato, com sua inevitável carga criminal, pode respingar no atual presidente da casa, que até aqui se tem esforçado por fazer todo mundo acreditar que ele não tem culpa de nada, já que assumiu o bonde somente em 2011.
Mais um capítulo emocionante dessa triste novela.
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