sexta-feira, 17 de novembro de 2023

De Corisco a Hamlet: a vida privada da quimioterapia.

 Todo remédio é veneno disfarçado.

Paracelsus, médico do século XVI.



Todo veneno pode ser um remédio disfarçado.

Siddhartha Mukherjee, médico indiano.


Por falar em conflito Israel-Hamas, o que aconteceu na primeira guerra mundial merece ser revisitado. O gás mostarda, introduzido pelos alemães, hoje proscrito dos conflitos (por causar envenenamento, reduzindo a capacidade de combate do inimigo), era um terror. Milhares morreram

Se ali foi o início da guerra química, também foi o pré-laboratório da "oncologia química"... 

(Faz bem saber que as ondas de ontem banham o hoje em busca de amanhãs, atina o poeta Corisco)

Alguns aliados, feridos da primeira guerra, que inalaram o gás mostarda, foram levados às pressas aos EUA para estudos - outros foram à necropsia, infelizmente. Entre os sobreviventes, porém morreram tardiamente, os glóbulos brancos haviam praticamente desaparecido do sangue, e a medula óssea estava depauperada. Conclusão: O gás causava aplasia medular grave.

(Abriu-se a ferida, reluz Corisco...)

...Mas Louis Goodman e Albert Gilman, da Universidade Yale, estiveram interessados em estudar o fenômeno. Tiveram a dedução que o efeito  nocivo da mostarda poderia ser utilizado num ambiente hospitalar, em doses menores e monitoradas, para envenenar o excesso de glóbulos brancos de natureza malignaO duo observou alguns casos de regressão de leucemia em doses clínicas. Os resultados ficaram em sigilo até o fim da segunda guerra. Publicaram os dados em 1946. Foram-se 30 anos na corrida contra o câncer.

A observação científica acendeu a palavra "quimioterapia", logo incluída no dicionário da farmacologia médica, exatamente por ter origem como agente químico de guerra. Com isso, a conexão entre a guerra química do campo de batalha com a guerra química do corpo humano tomou prumo, e uma ficou refém do palavrório da outra. Ou seja, na fronteira entre esses dois temas, definir o momento em que a palavra de um passa a ser de outro é semelhante a criar fronteiras no espaço. Então ressignificados foram criados: "alvo cirúrgico de guerra" e "aliança de combate ao câncer" são dois exemplos do que se ouve nos jornais que noticiam a guerra e nas associações médicas envolvidas com a cancerologia. 

Assim sendo, o discurso de Paracelsus, lá na epígrafe, dá voz e vez a Mukherjee, ao completar uma especialidade para tratar o câncer, vez que cirurgia e radioterapia já tinham seus papeis definidos

A proto-especialidade, que aqui cognominei de "oncologia química", edificou-se no subsolo do Childrens' hospital, pelas bermas da avenida Longwood, próximo à Escola Médica de Harvard e Hospital Brigham. Tudo por conta da abnegação de Sidney Farber, um patologista que abandona o formol e o microscópio em 1947 para se entrincheirar de vez na guerra contra o câncer.  

primeira alça de mira de Farber foi a leucemia linfoblástica aguda — raro tumor sanguíneo que ocupava o centro das atenções do Children's Hospital, em Boston. Ele usou com pioneirismo um derivado do ácido fólico, aquele mesmo que se usa para tratar anemia. De Farber de ontem nasce o Instituto Dana-Farber de hoje, conhecido centro mundial de pesquisa do câncer.  

O problema da mostarda e outros era o efeito colateral devastador, por demasiada toxicidade aos tecidos sadios. Eram verdadeiros bombardeios ao território humano, tal como a guerra, sem diferenciar células malignas das sãs. O inimigo câncer é ardiloso, por isso precisava de abordagem em proporção maior, como bem grifa Sheakspeare, em Hamlet: 

Males que crescem desesperadamente só podem ser eliminados com mecanismos desesperados.

Até se chegar à terapia-alvo, que usa drogas para bombardear seletivamente células cancerígenas que sofram mutações, provocando menor dano às células normais

(O que dirão que fomos dará o tom do que seremos, finaliza Corisco) 

Na terapia-alvo, o termo "alvo" nasce da guerra, mas a própria guerra não o incorpora, por não dispor de meios que separe as células terroristas da população civil. É o custo da teoria hamletiana; foi o que se grifou na história da oncologia.

sábado, 4 de novembro de 2023

O tubernáculo dos milagres

O vau do mundo é a coragem...

Guimarães Rosa, em: Grande Sertão: Veredas

Duas enfermidades desoxigenam minha humanidade: câncer e tuberculose. Por isso, toda casa que cuida desses enfermos merece gabo, amplexos e apoio. Cognomino tais lugares de tabernáculo da medicina, onde se guarda a hóstia sagrada da cura.

O câncer me fez diferente não só por viver seu cotidiano, mas também por ter lido O pavilhão dos cancerosos, de Alexandr Soljenitsyn. A obra se passa no Ubezquistão de 1950, ao expor uma doença totalmente abandonada. Depois veio O imperador de todos os males, de Siddhartha Mukherjee, já com o olhar contemporâneo da esperança. Obras para se entender o câncer no aspecto histórico, social e científico. 

Sobre a tuberculose não basta A montanha mágica, de Thomas Mann ou o poema Pneumotórax, de Manuel Bandeira, mas também conhecer os sanatórios, que hoje ganham outra feição e abrem leitos para os oncológicos. A tuberculose já chegou à cura medicamentosa; o câncer vem ganhando efeito, mas a peso de custos excruciantes, por isso as apostas seguem pelos caminhos da cirurgia. Da tuberculose restaram apenas as sequelas e alguns casos de resistência a drogas. É quando a cirurgia pede vez.

Outro dia fomos bater em Macapá. Um ex-aluno, o Fábio, me ligou para ver um caso de sequela de tuberculose que desafiava seu bisturi. Ele pôs na sala e, junto com a minha esposa mais o Nicolás, médico-residente do Chile que passava temporada em Belém, pegamos o pássaro de ferro e pousamos na rua da FAB, no Alberto Lima. Quem nos recebeu foi um velho amigo morador da Lagoa dos Índios que, no interstício das horas, desembrulhou o passado estudantil com boa prosa e muita gargalhada.

Na sala de cirurgia travamos batalha. Operação de quase cinco horas. Outra batalha foi contra anestesista - até para isso os coitados dos tísicos levam ferroada. 

Zarpamos de volta, mas a paciente ficou muito grave, apesar do empenho da equipe do CTI. Costumo chamar esses lugares de Tabernáculo dos Milagres. Para tuberculose, Tubernáculo dos Milagres, mesmo que a morte sempre rodeie. Na mesma semana, já em Belém, operamos um segundo caso, também desafiante. 

Quem acreditou que não seria difícil? Cada milagre é uma conta no misericordioso colar de Deus.

Há alguns anos ouvi um aluno me perguntar, ao pé do ouvido, por que só alguns operavam tuberculose. Levei dez anos mastigando esse pensamento. Ontem o reencontrei e ele abriu o jogo: “na realidade, eles empurravam adiante, pois dá muito trabalho”. Sempre lembro de Nietzche nestas horas: E aqueles que foram vistos dançando, foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.

Não é que se goste de operar tuberculose, mas ela é chamamento para o octógono em que usamos a luva de látex para lutar contra um inimigo casca dura. É uma operação mais trabalhosa e requer habilidade desafiante: jogo de mão, perna e fôlego. Por isso, de uns tempos para cá, para enfrentar as provocações da cirurgia da tuberculose, resolvi imputar o pensamento socrático na caneta de Guimarães Rosa: “Eu quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa”. Por isso, à luta. 

Guardei a frase rosiana como se fosse cruz e alho, só para nocautear vampiros que vilipendiam os sequelados da tuberculose. Essas orações literárias nos levam a viver com mais músculo para espantar morcegos e sanguessugas e, assim, não sair desse mundo com malfeituras tatuadas no peito. Há de se viver para criar calos e anticorpos, pular fogueiras e afugentar bruxas.