Alô, alô interior! Alô, alô interior! Atenção, Dona Cleinha! Atenção,
Dona Cleinha! Seu filho Durval manda avisar que a esposa Jandirá acabou de
parir. É seu primeiro neto e se chama Antonio - Tonico para os mais íntimos...
A mensagem saiu de uma
rádio difusora, a primeira forma de se comunicar pelo interior, principalmente da
Amazônia. Essa espécie de pombo-correio eletrônico-sonoro era o meio de se matar
saudade, anunciar notas fúnebres, felicitações de aniversário, além de outros
enunciados do cotidiano da floresta. São mensagens por vezes íntimas e
pessoais, que em boa parte, só se tornam públicas pela necessidade da
informação.
Agora me vem esse
moço, Ney Conceição, fazer-nos lembrar desses tempos idos de vida interiorana,
ao lançar o quarto trabalho de música instrumental, intitulado “Alô, alô
interior!”. O título nos remete a esse alumbramento, essa coisa nostálgica. O
trabalho é fruto de pesquisa da musicalidade interiorana, daí o título. Percebe-se
tal elemento na zabumba, triângulo e sanfona, entre tantos elementos acústicos.
Do frevo ao carimbó, a sonoridade desse artista embala o resultado de sua
pesquisa: magnífica. As pitadas de jazz enobrecem o disco
Se hoje Ney Conceição é
considerado um dos maiores contra-baixistas do país, o produto do
experimentalismo só podia ter lançamento no Teatro Experimental Waldemar
Henrique, em Belém, sua casa. Acompanhado de músicos locais e nacionais, esse
paraense da gema do açaí, por ora assentado no sudeste do País, deixa claro que
o título remete a uma forma de se comunicar, de enviar notícias de um mundo geograficamente
maior para outro mais distante, através da arte. Nada melhor do que a música,
uma metáfora das ondas tropicais dos rádios, para esse trabalho de autopsia da
história das difusoras.
O show de lançamento (13/01/2013),
em si, foi eletrizante, estonteante. Atingiu a maior amplitude de onda quando tocou a música-título
em homenagem ao interiorano Dominguinhos, entubado numa CTI, sob risco de
sucumbir. Foi uma espécie de oração ao ritmo do nordeste. Além de Arimatéia, um
trumpetista participativo de realengo que tufava a jugular com seus
sopros metálicos, havia ainda o baterista Cristiano Galvão e o percussionista
Dadadá. As Participações do trio Manari e Sebastião Tapajós fez-nos mostrar
quão possível é a integração entre os povos, basta ler a partitura da vida. Mas
o maior destaque, afora o Ney, foi o carioca Luiz Otávio, de 23 anos, tecladista.
Converteu-se em Stevie Wonder e reluziu. Reluziu no sentido jazzístico, ainda
que suas turvas retinas lhe escondam a luz.

A platéia estava extasiada.
Eram músicos, artistas de outras áreas, professores ligados à arte, e eu,
acompanhado de meu filho, um irrequieto contrabaixista e admirador do Ney. Olivar
Barreto contorcia seu pomo; Almirzinho Gabriel se maravilhava; Nego Nelson
pedia bis. Marcos Puff, o destemido Ariel e uma turma de saxofonistas invadiram
o palco, no final, para regozijar Ney. Uma festa interiorana, dessas com
direito a bingo. João Pedro, o filho, dedilhava às escondidas um contrabaixo
que eu fingia ver. E eu? Só batia palmas. Era o que me restava. É a única coisa
que sei fazer.
... Alô, alô interior! Alô, alô interior!
Atenção Dona Cleinha! Atenção Dona Cleinha! Ele manda dizer também: assim que findar
o resguardo, e tão logo as chuvas minguarem, ele pega um popopô no rumo da boca
e vara por aí. Prepare um caldo de Gurijuba que é pra dar sustância pro Bacuri
e também pra ele já ter nas ideias a vida de pescador.