Mostrando postagens com marcador Belém. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Belém. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Belém e sua violência além das fronteiras

(foto: do site da TV Éen)

Os quatro policiais desta foto, em roupas da PM do Pará, não são policiais brasileiros, mas quatro agentes de Polícia belga, da cidade de Leuven. Eles  estiveram uma semana em Belém para viver a vida de policial na "10ª cidade mais perigosa do mundo", segundo o anúncio da TV Éen, a TV pública flamenga, campeã de audiência no norte da Bélgica. O programa vai ar daqui a pouco, em horário nobre.É um episódio de Profissão sem Fronteira (em flamengo, Beroep zonder grenzen) -  um reality program  super prestigiado e muito bem feito. A idéia é simples: levar dois ou mais profissionais para exercer, durante uma semana, a profissão deles num país completamente diferente.
Vou assistir. Claro, de coração na mão, lamentando ver o Brasil, e mais precisamente, nossa Belém pelo lado mais negativo que se possa imaginar. O trailer, você pode ver aqui, site da Éen. 

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O direito de morrer velho - parte II

Em janeiro de 2009, produzi essa postagem:

Qualquer pessoa, em sã consciência, deseja viver muito. Morrer velho é a aspiração certa de todos.

Para isso, é preciso ter saúde, alimentar-se direito, zelar por si mesmo e ter sorte, ao final das contas.

Uma grande parte da responsabilidade de se alcançar este fim, evidentemente, é nossa; mas desde que saímos das cavernas e adotamos formas gregárias de viver, criamos mecanismos de proteção que vão além da mera auto-defesa. O Estado, ou qualquer outra forma de organização humana, é o encarregado de prover a proteção da vida daqueles que vivem sob suas leis ou regras. É assim desde tempos imemoriais.

Em nosso rincão, porém, esta obrigação não vem sendo cumprida. Morreu mais um ontem, que não chegou nem perto da terceira idade. Com 30 e poucos anos, o advogado Marcelo Castelo Branco Iúdice foi mais uma vítima da violência que assola o Estado.

Marcelo não era meu amigo. Era o que se convenciona chamar de “conhecido”, alguém com quem não se tem intimidade, mas cujo rosto é familiar pelos contatos frequentes. Cumprimentava-o sempre no fórum, em reuniões de classe, em restaurantes, em encontros de advogados. Era ainda muito jovem, e de aparência jovial. É mais um a quem o Estado negou o direito de morrer velho.

Ontem ele, anteontem um médico renomado de 54 anos, um pouco antes um sociólogo e blogueiro de pouco mais de 40. Tantos outros já foram vítimas, em bairros centrais ou periféricos. Nada disso abala a sonolência dos órgãos de Segurança Pública. Se antes a sensação era de insegurança, nas infelizes palavras de um ex-governador, hoje ela é de completo abandono. Vivemos o verdadeiro faroeste caboclo, sem apelo a ninguém e sem consolo – afinal, a morte não tem meio-termo, como dizia o poeta Cacaso.

Enquanto isso, em boa parte da capital, o ódio e o desalento da população alimentam novos criminosos, criados na forma de justiceiros. Retornamos ao tempo da auto-defesa, sob o olhar placidamente bovino da Administração Pública.

Cuidado, meus amigos. Previnam-se de todas as formas possíveis. A Grande Ceifadora tem brandido sua foice próxima a nossas cabeças, todos os dias, em todos os cantos. Estamos comprovadamente sós.

Só não podemos fomentar a sede de vingança privada. Somos humanos e, portanto, maiores que este conceito irracional. O Estado é quem deve cumprir sua parte. Cabe a nós chamá-lo à razão.

Lamento, por fim, iniciar o ano produzindo uma postagem destas. É mais um direito que o Estado nos nega: o da alegria.


Hoje, 4 anos e 8 meses depois, só mudaria o nome da vítima - de Marcelo Iúdice para Luigi Freire. A sensação de desalento e abandono é a mesma. Infelizmente.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Avaliação bem regular

Acabou de ser divulgada a primeira pesquisa de opinião pública sobre o governo de Zenaldo "Não Sou Mágico" Coutinho. A pesquisa do Instituto Acertar foi divulgada pelo Blog do Bacana, que fornece algumas informações sobre a metodologia da coleta de dados.

Não sou cientista político. Mas sou brasileiro e, como tal, adoro meter o bedelho em assuntos sobre os quais não tenho especial capacidade de avaliar. Para mitigar a minha prepotência, deixo claro que neste assunto fui chamado, sim, porque sou eleitor, morador e contribuinte de Belém; logo, a matéria é do meu interesse mais direto. Além disso, deixo claro que meus comentários são meras impressões leigas, sem nenhuma pretensão de segurança ou cientificidade.

No mais, deixo clara a minha rejeição ao PSDB e seus quadros, o que certamente influencia de forma prévia a minha percepção do caso. Ao menos tenho a honestidade de declará-lo ostensivamente.

Aparentemente, os dados têm sido interpretados como favoráveis à atual gestão municipal. Mas não acho que seja bem assim. Explico-me.


Coutinho foi eleito com 56,61% dos votos válidos, nada de consagrador, mas um índice superior aos 47,3% de aprovação registrados na pesquisa. Ou seja, em apenas quatro meses (a coleta de dados se deu na primeira quinzena de maio), sem nenhum incidente, considerando apenas a rotina administrativa, o prefeito já não conseguiu emplacar a mesma aceitação de outubro passado. Além disso, esse percentual abrange três faixas de análise, correspondentes a "ótimo", "bom" e "regular positivo". Como o melhor índice é "bom" (27,4%), vá lá que não esteja mal na foto. Mas apenas 3,2% de "ótimo" já é sintomático.

Outrossim, não me arvoro em discutir com estatísticos, mas eu não estou pessoalmente convencido de que "regular" devesse ser considerado como aprovação do governo, seja lá que governo for.

Mas o segundo quadro é ainda mais problemático:


Desde a campanha eleitoral do ano passado se comentava à boca miúda que qualquer prefeito eleito teria uma oportunidade de ouro de ser considerado um verdadeiro estadista, porque qualquer mequetrefe superaria, e muito, Duciomar Costa. Mas 34,8% dos entrevistados considerou a gestão atual igual à anterior. Eu me mataria, se fosse o prefeito. A coisa piora quando se observa que os que apontaram uma melhoria foram apenas 35,9%. O nada desprezível índice de 9% aponta piora (eu me mataria e me condenaria à execração da memória). Ao todo, a gestão tucana é mal-avaliada, em comparação à Era das Trevas Totais, por nada menos que 43,8% dos entrevistados!

Honestamente, você acha mesmo que se pode considerar essa uma avaliação positiva? Vamos chutar o balde: 20,3% dos entrevistados ainda não sabem dizer se Coutinho é melhor. Se um cara me dissesse não saber se eu sou melhor ou pior do que Duciomar Costa, eu já me mataria. Juro por Deus.

Arrisco um palpite final: a avaliação desfavorável de Coutinho é decorrência de que, em seus quatro meses de governo — aliás, até agora — não aconteceu nada. Políticos vivem de fazer de um palito uma floresta inteira, de modo que, quando nada é apresentado, é porque nada existe, de fato. Apenas a velha ação de limpeza de canais (a mais velha estratégia de todo neoprefeito) e a continuação de algumas obras, ainda que de fato muito importantes.

O imbróglio BRT, p. ex., continua como dantes. A imprensa comum noticiou que os contratos com a Caixa Econômica Federal já foram assinados e, a partir daí, a ordem de serviço poderia sair em 30 dias, mas o prefeito tentaria liberá-la em 7 dias. Claro que este prazo expirou e, por enquanto, nem sinal de retomada das obras. É claro que isso irrita o cidadão comum e pesa em eventual avaliação.

Chamo a atenção, por fim, para o fato de que o principal padrinho de Coutinho é o governador Simão Jatene, de quem se pode falar que, estando no terceiro ano de seu mandato, ainda não disse a que veio. Os governos de propaganda, marca maior do tucanato, já não funcionam como antes, embora paguem muito bem (como tem noticiado a jornalista Ana Célia Pinheiro em uma série de reportagens, em seu blog). Então se o afilhado puxar o padrinho, já era.

Estou aberto às réplicas. As educadas, por favor, como educada foi esta postagem.

sábado, 4 de maio de 2013

The wall



“Eu sou de um país que se chama Pará” - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO
O Estado de S.Paulo - 03/05/2013

Por que tanta gente de talento não chega ao Sul? Onde fica o muro que nos separa?

BELÉM

Quando a mediadora Renata Ferreira disse que o meu conto o homem que viu a osga comer meu filho a tinha aterrorizado, assustei-me. Não tenho este conto. Ela riu e explicou:“O que vocês chamam de lagarto ou lagartixa, chamamos de osga.Aliás, está no Aurélio”. Estava certa, o conto existe.
Quando ouvi a fotógrafa Elza Lima contar uma história minha em que os olhos dos cavalos do carrossel de meu avô eram petecas, reagi: “Como petecas? Eram bolas de gude”. Elza: “Pois aqui, petecas são as bolasde gude”.Caminhava pelo Espaço Palmeira, um feirão popular, no centro da cidade.Aqui foi uma tradicional fábrica de bolachas, biscoitos e doces, fundada em 1892. Demolida, restou uma área de piso concretada sobre a qual se armam as barracas.Então,ouvi: “Vamos fazer nossa sombra aqui”, disse o mulato de chapéu branco. E sentou-se com dois amigos num canto. Não havia sombra alguma, ao contrário, era um solão, mas gostei da expressão. Porque grande e diverso é o Brasil.

Vim para a 17.ª Feira Pan-Amazônica do Livro, que no ano passado vendeu 850 mil livros, me contou Paulo Chaves Fernandes, secretário de Cultura, arquiteto que criou as Docas e o Mangal das Garças, imperdíveis. A Pan-Amazônica deste ano termina no próximo domingo com Affonso Romano de Sant’Anna. Pelo palco principal passaram Ziraldo,Tony Bellotto, Cristovão Tezza, Guilherme Fiuza, Tiago Santana e José Castello. Para terem ideia, o folheto com a programação tem 74 páginas com oficinas, seminários, aulas, lançamentos, mesas-redondas, salão do humor.

Tudo acontece no Hangar, um centro de convenções moderno e funcional. Ao falarmos,temos à nossa disposição auditórios variadosque vãode300 a 1.500 espectadores. Distante daqueles espaços fechados por divisórias de eucatex da Bienal do Livro de São Paulo, ondea barulheira do salão penetra e ninguém ouve o que se fala.

Lembrei-me que estive na primeira Pan-Amazônica, ainda no centro, sufocada, apertada, mas cheia de gente. Assim como me lembro de uma casa de sucos da terra, onde havia um de pinha que era puro regalo. A casa fechou, virou loja. Por outro lado,nas sorveterias você mergulha a colher em taças de sorvete de tapioca (deslumbrante), buriti, bacuri, cupuaçu, açaí, graviola, manga.

Quem me indicou a Cairu como o melhor sorvete da cidade foi Fafá de Belém. Opinião considerável.O Pará é terra da Fafá, da Gaby Amarantos, da Dira Paes, da Olga Savary (que está na cidade em que nasceu, emocionada,há muito não vinha), Leah Soares. E de Dalcídio Jurandir, um dos grandes escritores brasileiros de todos os tempos.

A feira deste ano foi dedicada a Ruy Barata, poeta, compositor, jornalista, político progressista, ícone paraense, homem que navegou em todas as águas. Dele é a frase epígrafe desta 17.ª Pan-Amazônica: “Eu sou de um país que se chama Pará”. Milhares de crianças vagando entre centenas de estandes. Perguntando: “O senhor é escritor?”. Correndo atrás do Ziraldo, que se intitula “o velhinho maluquinho”. Vi Ziraldo, com tremenda luxação no ombro, cheio de dores, sentar-se e autografar centenas de livros. Mais do que profissional, ele ama o que fez e adora ver ameninada em torno.

Certa noite,fomos jantar nas Docas, olhando o rio de frente.Chegavam homens feitos querendo tirar uma foto com o “menino maluquinho”. Chegavam também jovens querendo uma foto com TonyBellotto, que tinha acabado de fazer uma bela fala sobre seu romance Machu Picchu.Depois,elas viravam para mim:“ E o senhor é alguma coisa?”.Respondi com a maior seriedade: “Não, sou apenas pai do Bellotto”. E elas: “Não precisamos tirar fotos do senhor, não?”. Felizes com minha negativa, partiam, ruidosas, enquanto voltávamos ao filé de filhote, peixe delicioso, com risoto de pupunha e jambu, e ao pato com tucupi. Belém é sabor e é necessário comer, de preferência à noite, no Mangal das Garças, parque nascido à beira- rio,cheio de pássaros, tartarugas, borboletário. Iguanas verdes, figuras pré-históricas, vagueiam pelos gramados.

Tomei um avião e cheguei a Marabá 50 minutos depois. O nome da cidade vem de um poema de Gonçalves Dias. Região ligada à siderurgia e celebrizada pela Serra Pelada. Estudantes e professores se juntaram no Cine Marrocos para conversar com escritores. É a Pan-Amazônica expandida. A feira não acontece apenas em Belém, vai ao interior, agrega, abre-se às populações. A ideia avança pelo Brasil. A fotógrafa Elza Limame contou que esta “feira fora de feira” nasceu após a leitura de uma crônica, aqui, minha no jornal, falando de Fortaleza, da bienal fora da bienal, quando autores vão aos bairros e às cidades do interior. Andressa Malcher, coordenadora,apanhou a ideia no ar e desenvolveu.

Sentei-me no palco ao lado de Ademir Brás, jornalista, advogado e poeta de primeira linha. Ele descreve sua terra, a gente, as paisagens, o Rio Tocantins,manso e largo, silencioso. Pequenas casas coloridas inclinam se para as águas. A poesia de Ademir oscila entre a ternura e a indignação, com ritmo e afeto. Por ele e pelos jovens, soube do Pará.E contei das coisas de cá. Porque tanta gente de talento como Ademir não chega ao Sul? Onde fica o muro que nos separa?

terça-feira, 12 de março de 2013

Farinha nas alturas


Como entender o preço de R$ 8,00 cobrado nas feiras e supermercados por um quilograma de farinha?
Hoje um produtor rural de São Francisco do Pará me forneceu um número estarrecedor, que confundiu o meu já parco raciocínio econômico: ele vende "uma saca" de 60 kg da farinha que produz em seu sítio, por R$ 30,00, na origem (cinquenta centavos por quilo!).
Quem me ajuda a compreender um acréscimo de 1.500 % até o preço final?!...
Quem explica - Harvard ou Freud?

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A volta do Líbero Luxardo

Olá, amigos que deixei faz tempo, mas sempre com vontade de voltar por aqui. Volto hoje, com a satisfação de saber que o Cine Líbero Luxardo, do CENTUR, voltou à ativa após uma reforma interminável (pra variar).
Neste cenário de cinemões comerciais e seus filmes de apelo sobretudo econômico, doía a saudade dos tempos em que se podia assistir a filmes de arte. Até ousamos acreditar que as opções aumentariam com o cineteatro da Estação das Docas, mas na verdade há anos que aquele espaço serve apenas para eventos, perdendo a natureza que deveria ter, a julgar pela classificação que lhe deram.
Mais legal ainda é perceber que o Líbero Luxardo não retorna com uma cópia gasta de um filme antiquíssimo. Ao contrário, ele exibirá, a partir de hoje, Moonrise kingdom, de Wes Anderson, aplaudido no Festival de Cannes de 2011. Não é novíssimo, mas pelo menos nos faz pensar se teremos, de volta, a oportunidade de ver grandes títulos do cinema mundial passando na cidade quando ainda estão frescos na memória os elogios que receberam.
Saúde e vida longa ao Líbero Luxardo, lembrando que os preços por ele praticados sempre foram mais convidativos do que os das salas comerciais, servindo de estímulo a uma, ainda que modesta, maior acessibilidade à cultura.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Alô, alô interior!




 Alô, alô interior! Alô, alô interior! Atenção, Dona Cleinha! Atenção, Dona Cleinha! Seu filho Durval manda avisar que a esposa Jandirá acabou de parir. É seu primeiro neto e se chama Antonio - Tonico para os mais íntimos...

A mensagem saiu de uma rádio difusora, a primeira forma de se comunicar pelo interior, principalmente da Amazônia. Essa espécie de pombo-correio eletrônico-sonoro era o meio de se matar saudade, anunciar notas fúnebres, felicitações de aniversário, além de outros enunciados do cotidiano da floresta. São mensagens por vezes íntimas e pessoais, que em boa parte, só se tornam públicas pela necessidade da informação. 
Agora me vem esse moço, Ney Conceição, fazer-nos lembrar desses tempos idos de vida interiorana, ao lançar o quarto trabalho de música instrumental, intitulado “Alô, alô interior!”. O título nos remete a esse alumbramento, essa coisa nostálgica. O trabalho é fruto de pesquisa da musicalidade interiorana, daí o título. Percebe-se tal elemento na zabumba, triângulo e sanfona, entre tantos elementos acústicos. Do frevo ao carimbó, a sonoridade desse artista embala o resultado de sua pesquisa: magnífica. As pitadas de jazz enobrecem o disco

Se hoje Ney Conceição é considerado um dos maiores contra-baixistas do país, o produto do experimentalismo só podia ter lançamento no Teatro Experimental Waldemar Henrique, em Belém, sua casa. Acompanhado de músicos locais e nacionais, esse paraense da gema do açaí, por ora assentado no sudeste do País, deixa claro que o título remete a uma forma de se comunicar, de enviar notícias de um mundo geograficamente maior para outro mais distante, através da arte. Nada melhor do que a música, uma metáfora das ondas tropicais dos rádios, para esse trabalho de autopsia da história das difusoras.

O show de lançamento (13/01/2013), em si, foi eletrizante, estonteante. Atingiu a maior amplitude de onda quando tocou a música-título em homenagem ao interiorano Dominguinhos, entubado numa CTI, sob risco de sucumbir. Foi uma espécie de oração ao ritmo do nordeste. Além de Arimatéia, um trumpetista participativo de realengo que tufava a jugular com seus sopros metálicos, havia ainda o baterista Cristiano Galvão e o percussionista Dadadá. As Participações do trio Manari e Sebastião Tapajós fez-nos mostrar quão possível é a integração entre os povos, basta ler a partitura da vida. Mas o maior destaque, afora o Ney, foi o carioca Luiz Otávio, de 23 anos, tecladista. Converteu-se em Stevie Wonder e reluziu. Reluziu no sentido jazzístico, ainda que suas turvas retinas lhe escondam a luz.

A platéia estava extasiada. Eram músicos, artistas de outras áreas, professores ligados à arte, e eu, acompanhado de meu filho, um irrequieto contrabaixista e admirador do Ney. Olivar Barreto contorcia seu pomo; Almirzinho Gabriel se maravilhava; Nego Nelson pedia bis. Marcos Puff, o destemido Ariel e uma turma de saxofonistas invadiram o palco, no final, para regozijar Ney. Uma festa interiorana, dessas com direito a bingo. João Pedro, o filho, dedilhava às escondidas um contrabaixo que eu fingia ver. E eu? Só batia palmas. Era o que me restava. É a única coisa que sei fazer.

... Alô, alô interior! Alô, alô interior! Atenção Dona Cleinha! Atenção Dona Cleinha! Ele manda dizer também: assim que findar o resguardo, e tão logo as chuvas minguarem, ele pega um popopô no rumo da boca e vara por aí. Prepare um caldo de Gurijuba que é pra dar sustância pro Bacuri e também pra ele já ter nas ideias a vida de pescador.

Nanoconto: Belém, Belém... (II)

Na noite paraense brilha meia estrela de Belém.
A outra metade esconde seu brilho com medo de perdê-lo pros bandidos.

Antonio Maria, escritor de nanocoisas.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A respeito do Largo de Nazaré

Imagem: acervo digital de Antonio Sales

Reproduzo abaixo comentário feito por uma leitora do blog a respeito da postagem 1978: Largo de Nazaré, a qual solicita ajuda para um trabalho na faculdade.

"Olá, eu sou estudante da UEPA do curso de Pedagogia e estou fazendo um trabalho sobre história oral e pesquisando sobre o Largo de Nazaré, eu e minhas amigas estamos fazendo entrevistas com pessoas que moraram no local ou próximo para falar sobre o local, como era antigamente, as transformações ocorridas, estamos encontrado um certa dificuldade de encontrar entrevistados. Bom, vi que vocês conhecem bem o lugar, quem poder me ajudar ficarei muito agradecida, de verdade, não precisa se identificar, é um entrevista informal, podem ficar seguros. entrem em contato no meu email aline.uepa@gmail.com"

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Os esquemas de sempre

A esta hora, já devem ter concluído a varrição do salão onde comemoraram o resultado das eleições do último domingo, por isso é hora de pensar em alguma coisa que tenha cara de trabalho. Se bem que trabalho de político é montar esquemas de governo (entenda esquemas como quiser), ainda mais considerando que o jabuti eleito não é lá muito familiarizado com esse negócio de expediente.
A pergunta que se impõe é: Zenaldo Coutinho fará um bom governo à frente da prefeitura? Respondo: sim, fará. Mesmo que não faça.
Explico: Almir Gabriel fez um bom governo em seus 8 anos à frente do governo do Estado? Jatene fez um bom governo nos 4 anos subsequentes? Está fazendo um bom governo agora? Tanto faz. Não importa. Simplesmente não importa. Seus incontáveis aliados sempre proclamam aos quatro ventos que tudo que é feito pelo PSDB é simplesmente irretocável; os outros, quaisquer outros, é que fazem tudo errado.
Parafraseando o arquiteto e blogueiro Flávio Nassar, enquanto em vários Estados do país a espécie Tuccanus biccus longus está quase extinta, aqui no Pará ela cresce e se multiplica. Com certeza não é por amor à natureza, mas por uma extraordinária cobertura. Não me refiro à cobertura vegetal, mas a uma impressionante união entre governo do Estado (e agora seu almoxarifado, na capital) e todos os setores do poder público (inclusive aqueles que deveriam ser isentos ou fiscalizadores), a iniciativa privada e metade da imprensa local (que são duas grandes empresas de comunicação).
Com a patota toda falando a mesma língua, como alguém pode errar? Por aqui, o esquema de legitimação do tucanato é aquele magistralmente definido pelo ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, Rubens Ricúpero: "Eu não tenho escrúpulos: o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde."
Foi assim durante 12 anos e, passado um breve interregno — sempre disse que o meu maior rancor contra o desastroso governo Ana Júlia foi pavimentar o caminho para o retorno da tucanalha —, está sendo novamente.
Então chegou a vez de Zenaldo governar do jeito que todo tucano governa: com apoio de todos os lados e, particularmente, maioria folgada na Câmara dos Vereadores, não por acaso cognominada Casa de Noca pelo nosso saudoso e sempre lembrado (inclusive por isto) Juvêncio de Arruda. Naquele honorável sodalício, ela aprovará o que bem entender. Por conseguinte, não existe a menor possibilidade de fazer um governo ruim. Por mais que faça um catastrófico.
Veja-se que até Duciomar Costa brilhou como um sol no legislativo mirim (nomenclatura empregada de propósito). Só não conseguiu enganar quanto ao horror que representava. Mas mesmo assim se re-elegeu.
Mantenho, entretanto, minhas réstia de esperança. A partir de janeiro, havemos de ficar melhor do que estamos agora. Deus ajude.

sábado, 20 de outubro de 2012

From the Jurunas to the the world

 
Foto: BBC site

Ela esta lá, ao lado de Marcelo Camelo e Siba, entre outros, afinal, nada mais LatAm Beats do que Gaby Amarantos. Para ver o vídeo da jurunense, bata clicar no link para o site da BBC inglesa. E aproveite para ver os outros talentos na série

---------
Comentando um comentário de Erika Morhy, acrescento: Como também venho do Jurunas, conheço Gaby há muito tempo, mesmo antes dela ter se aproximado dos "descolados" da cena paraense no começo dos anos 2000. Ali todo mundo  jà via nela um conteúdo e a metamorfose ambulante que ela é. Ela sempre agregou pessoas talentosas ao trabalho dela. Nesse vídeo  se nota que, se comparada à Ivete Sangalo - para citar um caso apenas de cantora mainstream - Gaby tem um background de inteligência e diversidade muito maior. Tenho a convição que o tecnobrega, assim como o manguebeat, é a seqüência natural de um caminho aberto pela Tropicália há mais de 40 anos. Antropofagia versão século XXI.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

1978: Largo de Nazaré


A fotografia acima foi feita da janela do meu quarto, pelo meu amigo e então estudante de intercâmbio Win Larsen.
Conclui-se, numa rápida olhada, que a procissão do Círio de Nazaré já era então algo de gigantesca magnitude.
Outra conclusão inevitável é a de que o Largo de Nazaré era medonho.
Para os saudosistas do "arraiá", lembro que o temido brinquedo Tira-prosa ficava bem ao lado da mangueira (à esquerda).
Quem encarou o desafio?

sábado, 6 de outubro de 2012

"Garimpando" a Belém de outrora

A fotografia tem essa mágica: eterniza em uma imagem alguma informação. Como se congelasse em uma fração de segundo, uma mágica fatia do tempo.
Garimpando no Google Imagens, encontrei alguns belos exemplos de fotografias históricas do extinto "Grande Hotel" em Belém. 
Quando criança, ainda cheguei a conhecê-lo já desativado. Lembro bem que tinha um inexplicável medo da escada de incêndio que se localizava em sua fachada lateral direita. Bem mais adiante, a maravilha arquitetônica seria demolida para a construção do atual Hilton Belém.
As imagens abaixo são espetaculares. Seja pela boa qualidade, seja por aspectos curiosos.

Grande Hotel em Belém - Imagem de fonte desconhecida, via Google Images.
Situado na principal avenida da região central da cidade, o hotel (bem como outras magníficas edificações) foi símbolo do esplendor de uma época áurea na região, conhecida como "ciclo da borracha".

Charme e elegância do "Palace Theatre" no Grande Hotel Belém - Imagem de fonte desconhecida via Google Imagens.
Em seu andar térreo, um elegante café reunia o grand monde de uma época onde os bondes, as ruas com paralelepípedos, o chapéu panamá e o summer (aquele paletó todo branco) eram a tônica (interessante que o uso do summer, deveria confundir garçons com usuários, não?).

Entretanto, sem a menor dúvida, a imagem mais surpreendente e curiosa que encontrei foi esta.
Imagem: Rótulos Antigos.
Um incrível rótulo original do Grande Hotel obtido no blog Rótulos Antigos.

Que tal?

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Campanha em Belém

Era para ser uma campanha fácil. Depois de quase oito anos com a cidade sendo destroçada, dia a dia, pelo pior que já passou por aqui, qualquer um poderia desfiar um rosário de problemas crônicos e graves, para se apresentar como uma alternativa de melhorar Belém. Mas os candidatos são, também, uma tristeza. Em vez de aproveitar, eles metem os pés pelas mãos e fazem bobagens.
Tem candidato prometendo construir o terceiro hospital de pronto-socorro, na Av. Augusto Montenegro, com equipe completa 24 horas por dia, oito salas de cirurgia, todas com UTI completa, heliponto, porto e transporte fluvial.
Tem candidato prometendo uma creche em cada bairro da cidade (salvo engano, são 68, incluindo os de Mosqueiro), com equipe multiprofissional para toda e qualquer atividade de assistência às crianças. Atualmente, o número de creches na cidade é irrisório.
As promessas acima desconsideram totalmente o fator custo. É a velha técnica de prometer, ignorando que talvez não seja materialmente possível cumprir a promessa. Vale lembrar que, no primeiro ano do mandato, o prefeito governa a cidade com o orçamento elaborado pelo antecessor.
Há uma candidata, também, propondo intervenção governamental na economia. Para ela, "a prefeitura será indutora do desenvolvimento"!
Égua, mano! Esses candidatos estão demais.

domingo, 26 de agosto de 2012

Alguém acreditou?


A única diferença entre o momento da última pesquisa divulgada e hoje foi o início da propaganda eleitoral gratuita. Foram apenas três ocasiões dedicadas aos candidatos a prefeito. Mesmo assim, sem nenhum incidente, escândalo, revelação ou surpresa, a parceria ORM/Vox Populi reduziu em nada menos do que 10 pontos as intenções de voto em favor de Edmilson Rodrigues, ou em 17 pontos, se considerarmos que embora o quadro mostre 37%, o texto da matéria afirma, repete e insiste que ele tem apenas 30%. Um errinho sem importância, decerto.
O segundo candidato mais bem posicionado, Priante, que até aqui se mantinha na casa dos 15%, caiu para 11% e o terceiro, Zenaldo Coutinho, que vem a ser o nome do PSDB e portanto o amor de infância daquele grupo de comunicação, subiu de 7 ou 8% para 15%.
Até me parece plausível que o segundo tenha caído 4 pontos e Jordy, 2. Mas o terceiro virar segundo praticamente dobrando o desempenho e o primeiro simplesmente despencar numa queda livre, francamente...
Eleições continuam como sempre foram...

sábado, 25 de agosto de 2012

Entrevistando o candidato

O Jornal Liberal 2ª edição passou a semana entrevistando os cinco candidatos à prefeitura de Belém mais bem cotados nas pesquisas realizadas até aqui. Outro dia fiz um comentário sobre a entrevista de Jefferson Lima. E agora vi, pela Internet, a de Edmilson Rodrigues, que encerrou a série.
Edmilson foi o prefeito cuja trajetória conheci melhor. Antes dele era complicado para mim, dada a minha pouca idade e porque, reconheço, fui um adolescente bastante despolitizado, bastante porforizado. Mas quando Edmilson assumiu, já em seu primeiro mandato fui trabalhar como assessor na Câmara Municipal de Belém, em um gabinete da base de sustentação do governo, mas não um gabinete amigo. Foi um aprendizado e tanto. No segundo mandato, fui convidado para a função de procurador do Município, portanto trabalhei no próprio Poder Executivo. Ali aprendi outras lições importantes.
Tudo o que vi, escutei ou soube por outros modos me levou a ter simpatia por Edmilson e lamentar que ele tenha governado tendo todos contra si: a própria Câmara dos Vereadores, a imprensa, o empresariado e o maior e mais covarde de todos os inimigos: o governo do Estado, o que trouxe no pacote a Assembleia Legislativa e outras instituições, que deveriam ser imparciais e foram tudo, menos isso.
Isso, todavia, nunca tapou os meus olhos aos defeitos do rapaz, que são muitos. E na entrevista pude ver que Edmilson continua Edmilson, revelado por seu discurso inflamado, imagético, passional e com um acento incomodamente messiânico. Não gosto disso, nem da perda de objetividade que representa. E igualmente não gosto nem um pouco da ideia de alguém governar a cidade por três mandatos. Mas diante do cenário que se apresenta, com esse bando de candidatos mequetrefes, e da necessidade de eleger alguém que se oponha de fato, e não apenas por conveniência, à confraria que atualmente destroi a cidade (sim, eu me refiro aos tucanos), o psolista é a minha opção.
Resulta daí o meu alívio quando ele respondeu de maneira objetiva e informada a pergunta sobre saúde, que é o grande nó a ser enfrentado pelo próximo prefeito. Já a resposta sobre a bolsa escola não me pareceu muito conveniente, mas decerto muito ideológica.
Seja como for, esta campanha mostrará se a tese sempre repetida de que partidos pequenos e sem dinheiro não conseguem eleger candidatos majoritários está correta ou não. É uma campanha contra duas máquinas. Ou três, se incluirmos os interesses umbilicais do Grupo RBA.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Mais uma criminal

Como todos sabemos, Duciomar Costa só foi bom em uma única coisa na vida: figurar como réu em ações judiciais. E ele acaba de ganhar mais uma criminal no seu, chamemos assim, currículo.
Desta feita, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região, que tem jurisdição sobre o Pará, acolheu denúncia que o Ministério Público Federal ofereceu a partir de relatório da Controladoria Geral da União, relacionada a desvio de verbas federais da área da saúde. Quantia superior a 78 milhões de reais, que deveriam custear serviços ambulatoriais e hospitalares, foram aplicados em despesas administrativas, ou seja, fora da atividade fim. Traduzindo isso por meio de um exemplo hipotético, porém plausível: as contas telefônicas podem ser pagas, mas falta gaze no Pronto Socorro.
O desvio de verbas pressupõe o emprego do dinheiro em finalidade diversa da que seria correta, mas isso não induz a conclusão de que houve enriquecimento ilícito (crime de peculato). O problema é que, na denúncia, o prefeito-desastre também é acusado de não comprovar gastos superiores a 22 milhões de reais. Para onde foi o dinheiro?
E ainda há mais de 17 milhões de reais gastos com o pagamento de dívidas de períodos anteriores aos que se destinava a verba. É o velho esquema de cobrir um santo descobrindo outro: uso o dinheiro de agora para pagar a dívida velha. No futuro, dou um jeito de cobrir o que ficou em aberto. E por aí vai.
É como sempre digo: o problema do Brasil, definitivamente, não é falta de dinheiro.

Fonte: http://noticias.orm.com.br/noticia.asp?id=605804&|prefeito+de+belém+será+processado+por+prejuízo+milionário+ao+sus

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Terrificante

Certo dia, os roteiristas da Turma da Mônica criaram uma estória na qual as crianças precisavam lidar com uma boneca amaldiçoada. Deve ter sido apenas uma boa ideia entre tantas, mas pelo visto a coisa agradou e, um dia, a tal boneca retornou, com status de "matéria de capa".
Júlia, que adora coisas de susto, amou a boneca. Ela fala empostando a voz, em tom cavernoso: "a Boneca Tenebroooosa!"
A tal criatura maligna vive repetindo um bordão: "Medo... Terror... Escuridão..."
Pois bem, meus caríssimos concidadãos, a partir de hoje estão de volta, na vida real, o medo, o terror e a escuridão. O horário eleitoral gratuito vai começar.

Pessoalmente, até gosto do horário eleitoral. Primeiro porque me interesso por política e considero realmente importante saber o que os candidatos estão dizendo. Nem que seja para ter argumentos concretos contra eles. Veja-se, p. ex., o tal de Jefferson Lima, que em rápida entrevista ontem, durante o Jornal Liberal 2ª edição, deixou claro que é o candidato da equipe de trabalho. Ou seja, ela não sabe nem precisa saber coisa alguma, desde que possua uma boa equipe para assessorá-lo. Em 5'03", ele falou umas quinhentas vezes a palavra "gestão". Como sempre, frases abstratas, algumas de efeito e promessas do tipo que o eleitor certamente gostaria de ouvir. Mas tudo vazio.

Escuridão total.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

As praca do dotô

No melhor dia dos pais que já vivi (tudo bem que, como pai, não foram muitos...), fui dar uma volta com a família, a originária e a constituída. Decidimos dar uma olhada na nova orla de Belém, aquele 1,2 Km como sempre batizada com um nome pomposo e dramático. Eram mais ou menos 17h30 e não havia um único espacinho onde pudéssemos estacionar. Demos duas voltas, na expectativa de que alguém fosse embora, em vão. Fica para uma próxima.
Meus acompanhantes disseram que o espaço é bonito, mas não pude prestar atenção, porque quem dirige não se pode dar ao desfrute de contemplar paisagens, ainda mais se busca local para estacionar.
Como era de se esperar, a orla está coalhada de publicidade autoglorificadora disfarçada, usando as cores da logomarca do atual desgoverno como fundo para pessoas mortas de felizes. Só não havia as legendas descaradas.
O que eu não esperava era ver o acinte em outros pontos turísticos.
O miserável mandou instalar placas supostamente turísticas, indicando o nome do logradouro. Eu as vi na Praça Frei Caetano Brandão e no Arsenal de Marinha, entrada do Mangal das Garças. São postes altos, placas grandes e gritantemente alaranjadas, causando inclusive poluição visual e incomodando quem, p. ex., quer olhar para a Catedral da Sé, mas se depara com aquela feiúra bem no campo de visão. Em ano eleitoral, tão óbvio quanto grotesco.
Mas como não há legendas, apenas o nome do logradouro, a Justiça Eleitoral, que tem aquele terrível problema de visão, nada enxergará de anormal. E as placas ficarão por ali, eternizando o layout da atual gestão desastre, inclusive depois que ela terminar e nós passarmos à fase de lutar desesperadamente por virar essa página hedionda.