domingo, 23 de abril de 2017

Ode ao Brecht

Não, não digo deste último 22 de abril - aniversário do Brasil. Este, não sei por que, rebocou-me à infância entre rios e barrancos do Acre e Rondônia. 

Lá, no grupo escolar, comemorávamos: cantávamos parabéns,  apagávamos velas e tinha bolo de milho. Este vinte e dois me pareceu mais um sábado-de-cinza que empalidece coração, entoca sopro nos pulmões e deixa esquina sem pé-de-flor.

Meu Brasil, alado, não voou, apenas esvoaçaram penas e descargas de melenas no ventilador de teto.

De tal modo, eu era sedento por ideias e o meu quase nada de outrora 
já me tornava um escrevinhador de sombras alheias num país de interiores gigantes, como os da minha infância.

Eu, amuado, tornando difícil escrever linhas, vi que os últimos jatos de tinta foram lavados e minha alegria foi desatarrachada do papel, da tecla e do país onde moro.

E agora, Berthold Brecht? o que será de minha práxis, desta ode e deste ódio? Restaram-me alergia e uns três espirros... 


Enquanto seu lobo não vem sigo os talhos circum-retos da ciência,  pois as linhas curvas da escrevinhação viraram cama dura, de cimento úmido, com lápis sem grafite a me destornar a felicidade do menino feliz quando acordava do ressentimento de ser gente só para desenhar a alma do país.



sábado, 11 de março de 2017

Namoro de portão

Um belo dia saí sem preocupação, 
sozinho, 
com três a quatro peças de roupa 
- não lembro bem. 

Embriagado de liberdade, 
tracei meu rumo, 
com exatidão, 
no indefinido sem olhar pra trás. 
Minha atenção foi sequestrada 
pelos raios de sol 
que pulavam à minha frente feito criança. 
Ali eram seis e o pouco da tarde 
que faltava 
me seduzia e mudava meu rumo; 
parecia querer me namoriscar à beira mar. 

Lentamente me aproximava, 
e comigo, a noite. 
Quanto mais o tempo passava, 
menos olhava o relógio, 
precisava valorizar muito 
aquele “namoro de portão", 
mostrei a ela 
que era peculiar e, 
até hoje, 
ela me mostra suas peculiaridades 
todo dia 
antes de mergulhar 
de volta ao mar.

Danilo Normando

quinta-feira, 2 de março de 2017

Minha mãe chorava – ainda

Gosto de lembrar dos momentos em que nos divertíamos, eu e minha mãe. Seu sorriso me fazia bem (menos as gargalhadas, que às vezes pareciam altas demais e eu tinha vergonha quando todos olhavam à volta). Eu me sentia leve e segura, mas se me detivesse só um pouquinho no seu rosto, bastavam alguns instantes...pronto, ali estava o seu choro, nítido e cristalino. Era como um membro do seu corpo: estava com ela em qualquer circunstância.

Certa vez, intrigada com essa mãe que tanto chorava, comecei a me perguntar se o choro não era dos meus olhos, se não estavam em mim tantas lágrimas. Esse diálogo meu comigo era sério, perdurava, se desdobrava. Eu não conseguia me conformar com uma mãe que chorava tanto, mas tampouco entendia o que poderia me levar a construir uma imagem tão triste de minha mãe dentro de mim mesma. Será mesmo que então eu desejava isso? Viraria outro imbróglio.

Eu ruminava esta mãe, não qualquer mãe, a minha mãe que chorava. Era como se eu sempre estivesse olhando pra ela debaixo pra cima, me aproximando entre nossos silêncios pra segurar sua mão e observar a reação da sua face. Cumplicidade e cuidado. Me sentia miúda e minha mãe parecia saber disso. Ela se mantinha calada e ainda chorava.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Cena de catedral



A cena é de dois cirurgiões maduros - em cada lado - iniciando jornada. Enquanto se curvam silenciosamente ao destino, há no centro um mais jovem enveredando-se pelos estridores da especialidade. Ele justapõe as mãos, entrelaça os dedos enluvados e ora antes de chegar seu primeiro momento. Cirurgiões rezam desde quando alcançaram o mundo; os de fé têm os joelhos doídos...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Minha mãe chorava

Minha mãe chorava. Lembro disso com um silêncio profundo no meu peito. Não era um choro qualquer. Afinal, todo mundo chora. Eu também choro. Mas minha mãe chorava um choro doído. Um choro corrente. Fundo. Um choro que eu nunca entendi. Eu olhava minha mãe apenas. Não sabia o que perguntar ou dizer. Lembro que certa vez ela estava na cadeira do escritório, com os joelhos encolhidos no peito, sabe? Eu estava na cama, logo ao lado da mesinha, brincando com o celular. Eu disfarçava pra olhar pra ela, porque ela chorava, derramava lágrimas sem dar nenhum piu; só se ouvia o som do nariz feito chupar cana com discrição. Estava abraçada às pernas e olhava pela janela. Era uma imagem que me perseguia, esta.

Cresci e entendi muitos motivos mais para chorar na vida. Mas minha mãe, ah, minha mãe seguia com aquele choro longo. O choro dela se demorava nela, parecia que se demorava mesmo quando ela não derramava lágrimas. O que passava com minha mãe? O que passava pelo coração dela? O que passava pela cabeça dela? Eu nunca perguntei. Eu só sentia vontade de estar perto. E a distância me afligia.

Lavar pratos. Fazer comida. Transitar de um lado a outro da cidade. Deitar para dormir ou para ler um livro. Coisas cotidianas que não pareciam dar motivos para minha mãe chorar. Mas ela chorava. Eu via. De soslaio. Não queria atrapalhar talvez...talvez não quisesse levar alguma bronca, sei lá. As lágrimas escorriam e seu cenho era triste. Eu ajudava minha mãe nas pequenas tarefas cotidianas. Gostava de cozinhar, de lavar pratos, de limpar a casa...mas não gostava de ver minha mãe chorar. Era uma incógnita sombria pra mim.

Depois que minha mãe se foi, eu lembro dela feliz e de muitos momentos alegres que passamos juntas. Mas do que mais me lembro é que minha mãe chorava. Essa imagem está marcada em mim.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

A outra margem do rio

       Vejamos, uma pessoa pode chegar à nascente do rio, 
andando pela margem, não é?
José Saramago, em: "Democracia e Universidade"

        A gente se põe a ler uns e outros e acaba se entregando às ideias. Tum-tum-tum no coração, aí uma idéia puxa outra e tudo vai bater no olho d'água, donde a vida principia. Foi dia desses que me pus a ler "Democracia e Universidade", de José Saramago e acabei me entregando ao pensador e suas ideias sobre a nascente de um rio. Foi uma verdadeira saramagia nos meus glóbulos brancos - mais ainda por saber que Saramago jamais passou pelos portões de uma universidade e mesmo assim se tornou Nobel.
       Pra quem já passou por uma universidade, costuma-se aferir que é a página mais marcante da vida profissional. E para quem se tornou um escritor sem a sombra dos muros da academia, como Saramago, como então olhar criticamente para o interior da universidade? Eis a grande mensagem do livro (EDUFPA, 2O13), uma coletânea de discursos em salas universitárias por onde rodou.
        Durante a escavação da leitura, depara-se com a seguinte passagem subterrânea: "A universidade, na minha opinião, deveria reivindicar algo mais que aquilo que objetivamente, lhe é próprio: a qualidade do ensino a partir da nascente do rio". Parei. Lembrei-me do Diogo Pinheiro, um ribeirinho que conheci ainda criança. Diogo mora no Tucumanduba, às margens de um pequeno rio da grande bacia amazônica, que vai dar no Tocantins. 
      Filho e neto de ribeirinhos, a mãe pôs-se a ser professora de ensino público e o pai, apanhador de açaí e pequeno pescador de anzol e matapi, assim como o avô Bené. Até hoje, com mais de 70, Bené escala um açaizeiro como menino de 15. Diogo foi sustentado pelo rio e floresta, e sua mãe o amamentou com a leitura. Assim Diogo chegou à adolescência e, hoje, aos 16 anos, é um leitor contumaz.
      No Tucumanduba percebia-se que Diogo, desde menino, sempre esteve atado a um livro. Lia de tudo: literatura clássica e o que lhe dessem de presente. Confessa a mãe que ele tem paixão - mesmo, mesmo - é por Clarice Lispector; só largava Clarice quando a noite chegava, pois o lugarejo não dispunha de luz elétrica. O pai, homem reservado, falava da satisfação. Foi quando certa manhã, alguém sacou uma foto no momento de interação entre leitura e aquela paisagem bucólica, com trapiches e o rio logo ao fundo. 
     Certa vez, um casal de pesquisadores finlandeses foi visitar o lugarejo e viu aquele menino contemplando um livro. Deram-lhe uns dinheiros para ajudar nos estudos e aquele regalo ajudou Diogo a conquistar a aprovação em primeiro lugar para o curso de direito - Universidade Federal do Pará.               
      Diogo estudou numa pequena escola pública da periferia de Abaetetuba, a cidade mais próxima. O pai está eufórico e a mãe radiante, pois, pela beira de um rio, andaram na contracorrente do que se apregoa como caminhada linear para se chegar à universidade. Ou seja, estava de um lado da margem, enquanto avistavam o movimento da sociedade do outro, até alcançarem os próprios sonhos na vez do filho. Vô Bené chama isso de cuíra.
            Em “Democracia e Universidade”, Saramago dá voz a Diogo, que o Estado insiste em ignorar. Essa voz ecoa da nascente do rio - o umbigo da formação universitária. Então, quando Diogo puser os pés naquela universidade, que fica à margem de outro rio - mais largo, até -, certamente estará muito mais contribuindo para a universalização da academia, do que a academia para seu universo, afinal o tapuio leva na mochila o olho d'água do veio da vida.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Fogo cruzado

"O horror bestial dos presídios, dominados por facções criminosas, 
choca o mundo e impõe desafios enormes ao governo e à sociedade"
Revista Veja, em 11 janeiro de 2017.

      A gente tenta não escrever sobre a violência, pra não ficar escravo do tema, mas eis que a televisão, os jornais, a conversa com o vizinho e aquele filminho no zap da carnificina de Manaus e Boa Vista destripando um tórax, vem e atingem o fígado e catapulta qualquer Quintana que porventura tente alcançar minha veia Porta.
A barbárie de Manaus leva-nos a refletir sobre os caminhos que tomamos pelas principais artérias da cidade-irmã, Belém, quando passamos pelas diagonais, transversais e vielas, até aportar em nossos destinos. Tremulamos debaixo dos semáforos em vermelho e ficamos catando estilhaços daquela imagética carcerária em nosso imaginário sob o medo de sermos aparados por uma bala no pescoço, por conta de desavença entre duas facções que brigam pela geografia do tráfico. Como não existe muro, nem área de demarcada, tem-se a sensação que, por uma dessas diagonais um cartucho possa se desprender de um cano de revólver e atingir minha carótida e todos os meus quase seis litros de sangue vaze para debaixo do tapete (do carro e depois da grama do cemitério) e se torne um drama desmesurado (O sinal se mantém vermelho; a zona é vermelha).
Não existe um muro a prova de bala que separe esses dois mundos e a gente possa escolher ficar no lado quieto, por isso essa “nóia” não me sai da cabeça e acaba me apequenando diante do terror. Estamos inseguros quando andamos na rua e sinto-me um vira-lata que levou um chute no traseiro, que ainda tem que cuidar do lixo nosso de cada dia, sem direito ao rosno.
Numa manhã de domingo, em uma das enfermarias do principal Hospital de Trauma da cidade estavam, acamados, um policial e um meliante. Um de frente pro outro, na mesma enfermaria, separado por um metro de paz. Junto com os estudantes, na hora da visita, passamos entre eles, ou seja, no meio do fogo cruzado - virtual que fosse. Expliquei o fator social de ambos e todos ficaram com os olhos esbugalhados. 
O baleado no tórax é suspeito porque tatuou na perna esquerda a figura de um palhaço, código dos que matam policiais. Com medo, ao lado de sua mãe, ele não tirava o lençol da perna pra tomar banho e nem abria o olho para ser examinado, simulando sono eterno, com receio de ser identificado. O policial, por sua vez, tinha levado um tiro no lobo frontal e apresentava um comportamento doentio para um paciente hospitalizado: a euforia. Todas as vezes que entramos na enfermaria ele nos saúda com um estrondoso bom dia e nos sapeca toda sua fanfarronice pela felicidade de ter sobrevivido após tiro no crânio.
Nós, ali no meio, no meio do redemoinho, representamos todo esse belicoso detalhe da vida social que estamos exposto e, sem deixar de nos atormentar pela purga espiritual, empunhamos a ordem do dia.
Foi quando o sinal abriu e peguei o beco; alteei o som do carro para ouvir o saxofone de Coleman Hawkins, Charlie Parker e Lester Young, deixando a voz de Sarah Vaughan se liquefazer e adentrar pelos poros e até bater aqui no meu lobo frontal e fazer com que aquela bala tome o rumo do inferno e eu recupere minha euforia.

domingo, 1 de janeiro de 2017

A arte feita de resvalos

Era dezembro/2016 quando, a convite, fui ao Teatro experimental Waldemar Henrique assistir à Ladainhas Marajoaras, com Juçara Abe & Rafael Lima. Seguinte, os dizeres: “A cantora Juçara Abe mostrará nesta quarta-feira, no teatro Waldemar Henrique, o resultado do projeto ‘Nossas ladainhas’, aprovado pelo edital SEIVA de pesquisa em música. O projeto consiste em uma pesquisa sobre os rituais musicais típicos do Marajó, conhecidos como ‘Ladainhas’ e foi idealizado pelo seu pai, o músico Rafael Lima, que foi vítima de uma doença grave no pulmão, em setembro deste ano, e, por ter a voz comprometida no período de recuperação, não será o cantor principal, apesar de também estar presente no palco, acompanhando a filha. A apresentação também contará com o baixista MG Calibre, o percussionista Zé Macedo e sonorização de Fernando Dacko.”
Fiquei preso ao visgo desta “tal” pesquisa. Cabe esta palavra num evento musical? Não só cabe, como eu tive uma aula de metodologia, ainda que caminhe diariamente com as ideias de Descartes. Inicialmente teria que responder: Qual o campo da pesquisa? No caso, a música, a ilha do Marajó.
Ao término da apresentação fui parabenizar os artistas, afinal não é fácil cantar ladainhas e folias pra mais de hora e meia, pois estamos desacostumados, por descultuação. Mais: Rafael Lima parece recuperado de seu pulmão despedaçado por uma “sepse braba” que o acometeu e quase leva o farelo, como ele mesmo admitiu, em meio às palmas.
A música, e qualquer outra forma do verbo, não deve jamais deixar de buscar sua origem seminal. O que Lima fez foi rebuscar nosso sêmen verbal guardado nas ladainhas. Se rebuscou, então gerou pesquisa de campo. O maior produto que se viu, no bojo, foi o regresso ao status embrionário da condição abandonada do idioma musical. Dito de outro modo, o pesquisador traduziu o nosso passado num ritual que se assemelha ao vivido pelo autor nas aragens do Marajó, onde existe, ainda muito viva, a festa de São Sebastião com suas cantorias em forma de ladainhas. Aqueles artistas quebraram a casca do tempo e nos transportaram para dentro do ovo, chocado pelos Jesuítas, os que partejaram essa cultura européia entre os marajoaras.
Na volta pra casa, eu julgava o contra-ponto desta pesquisa, o novo, que castra a condição comum e universal de recriar nossos valores culturais do passado. Os critérios atuais de domínio acabam desvalorizando nossa raiz em nome do lucro indômito. Percebe-se nesse sentido, que a arte, incluso todas as formas de expressão oral e escrita, despiu-se da dimensão poética e não mais carrega tanto onirismo sobre esse mundo diferente. É aí que a pesquisa fumega, pois o produto se desata dos códigos atuais, ao exalar incenso bem além do nosso retiro espiritual. 
Perguntei pra Juçara, por que seu pai tanto se dedicara a uma pesquisa daquele tipo. Respondeu de supetão: “Meu pai é um tipo de artista único, e como a maioria dos singulares, controverso [...]. O caminho dele é muito corajoso, e muitas vezes incerto [resvaloso, diria Guimarães Rosa]... Mas a coragem e a incerteza são os maiores combustíveis para a riqueza de sua obra”. Esta resposta me pôs de volta ao laboratório de pesquisa básica, pra ficar olhando pra capa do livro de Reneè Descartes. 
Apesar do cotidiano ter tantas trilhas, como esta que nos leva ao Marajó, sabemos que muitos pesquisadores andam só, mesmo se dispondo de tanta via de comunicação. Ademais, é dramática a solidão de escrever roteiro para poucos e lutar, mesmo entrincheirado, para manter vivos os idiomas em risco de extinção. Rafael é todo este-um, sem lhe faltar pulmão.