domingo, 9 de dezembro de 2018

Entre bazófias e confidências

     Quando as bazófias ou as confidências de um cirurgião privam-se de procurar histórias dentro de seu espaço glorioso, basta caminhar até uma livraria para sacar um autor e certamente um mosaico áurico, cujo valor ninguém ignora, salta aos olhos. E as linhas douradas vão vangloriar-se bem a sua frente.
       Basta desvirginar as primeiras folhas que as linhas passam a paginas douradas de uma boa leitura, te arrancam do foco da rotina e te põe a gravitar entre o real e o imaginário, como se fosse num filme de astronauta - em visão tridimensional e magnificada - a caminho de uma galáxia desconhecida. 
      Antes que a gente volte ao mundo real, caia e rale os cotovelos, dormitar neste momento anti-newtoniano e planar feito um personagem de Julio Verne, pode fazer de nossas hélices cerebrais uma drone pelo mundo futurista, pelo mundo presente ou mesmo a um passado renascentista.
      E conviver com isso é simplesmente auscultar o frêmito da felicidade em um pulmão tísico.
     Foi o que me aconteceu ao ler o poeta Antonio Moura e alguns de seus poemas. Ele se debruça sobre uma linguagem sagaz ligando pensamentos silábicos a palavras anti-monotonias, que passam pela gente como um sopro e nos proporciona uma delícia que permeia entre a lambida num chocolate amargo da ilha do Combu e a realeza do açaí sem açúcar tirado direto do tacho.
      Num desses sábados, andando por uma das livrarias da cidade, encontrei os livros do poeta. Ali permaneci, em pé, como se levitando no espaço sideral. Abri um deles e enfiei o nariz naqueles versos, para sentir o buquê de sua poesia... Segue Nosferatu:

Quando a lua uiva
sobre sonos e sopra
o pó das sepulturas,
exalo meu perfume e
negro lume, escapo

A capa, asa de negrume
envolve teu corpo, ar
repiando o dorso, car
ícia de brasa gelada

E por fim deixo em tua
pele-página, orifícios,
dupla marca, ver
melho sangue: cravada
   
        E não é que num piscar de olhos o poeta aparece bem à minha frente? Eu estava com o livro “A Outra Voz.” Ele queria autografar, mas não tínhamos caneta. Eu disse: não precisa, poeta. Ele retrucou: é que quando a gente encontra um leitor de poesia a gente acha um diamante.
Estava feita a dedicatória.

Labareda, pelas artérias de Corisco

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

As calçadas da rua Wudong


O setembro da rua Wudong tem, na forração do céu, um sudário cor de chumbo. Percebem-se todos os tons de cinza nas nuvens: do alvorecer, quando Xangai se desnuda para o novo dia, até o claro do dia findar. Parece que vai chover a qualquer momento. O tempo fechado mistura-se à poluição, que faz Sergio, meu companheiro de caminhada, espirrar. Embaixo, os chineses caminham com máscara, protegendo pulmões e vias aéreas. Até as crianças, que se direcionam para a escola, têm suas narinas escondidas. O clima é pesado para o DNA dos orientais, que tem propensão a doenças respiratórias, incluso cânceres.
Na mesma Wudong, crianças atravessam-na de mãos dadas com os pais, até entrar na escola para aprender mandarim, matemática e o hino nacional. Algumas chegam à garupa da bicicleta e outras saem pela porta traseira de carros de luxo. O destino é um só: a igualdade.  Tudo junto e misturado, feito fila de comunhão da hóstia sagrada. Se existe algo que o comunismo deixou na Wudong foi o convívio cintilante com a bandeira vermelha e o bem-estar com o socialismo. Tudo por conta da pesada mão de Mao.
Depois a China deu a mão de Mao à palmatória e abriu os olhos ao capital estrangeiro. A abandonaram o comunismo - mas não suas lições de mutualismo ante ao crescimento exponencial da população. Sem commodities, e úteros crescendo, a fome deitava no colo do totalitarismo, mas só havia mamadeira - e o leite era de soja. Levaram-no à crença que o regime falhou e precisava ser reavaliado. Do contrario, o dragão asiático, sem pólvora para exalar fogo pelas fendas nasais, entraria em combustão.
Por conta de tais mudanças conseguimos aterrissar em Xangai, rua Wudong e ver, nos meninos-chinos, reminiscências do passado maomista e das dinastias que o tempo deixou pra trás. Caminhar pelas soleiras apreciando o arvoredo e jardins que compõem a bela universidade de finanças e economia -  e aquela escola de crianças - foi um exercício de reflexão política para deixar qualquer flaneur do Sena roendo os cotovelos. Em que pese o ar pesado, obrigando os chineses a máscaras, apreciar a Wudong me distraiu em cumprir meu objetivo: visitar o maior hospital de doenças pulmonares do mundo.
Em verdade, toda a minha vida em Xangai se resumiu aos 1,3km que fazia todos os dias para chegar ao Shanghai Pulmonary Hospital (SPH-Tongji University), sem qualquer risco - exceto no cruzamento da rua Wuchuan, defronte à entrada da Universidade de Finanças e Economia, em que bicicletas, carros e moto elétricas passam por cima dos sapatos, sem pedir licença. É claro que aqui e ali se via um corpo estendido no chão, ambulância ao redor com luzes vermelhas, isolando a área.
Quando dei por mim, estava entrando naquele hospital-escola e sentando na carteira para aprender novas lições sobre câncer de pulmão, num inglês saltitado pela dicção do mandarim.
Foram 15 dias intensos e nem pudemos visitar o Yang-tsé. Eu sentava todos os dias na mesma carteira, a prestar atenção nas aulas, nos casos clínicos diferentes - pela precocidade de diagnósticos. Também começava novas amizades e ouvia os menestréis, depois o rumo era o centro cirúrgico.
Eram todos os dias, exceto no ultimo, quando fui convocado por Zhu-Yumin e Jiang Ge Ning, os coordenadores, para uma lecture sobre cirurgia da tuberculose pulmonar, no meu inglês misturado com farinha de tapioca. No último diapositivo projetei a janela do meu poleiro, com o pôr-do-sol amazônico ao fundo. Era para explicar as minhas 36 horas entre aviões e aeroportos. A plateia percebeu que por ali passara meu destino. Riu. Riu com um sorriso verde-transparente aninhado naquela minha pausa pra beber água. Deu saudade do meu recôncavo. Já era hora de voltar e agradecer a serventia. 
Aprendi bem mais que a distância que me separava de casa, pois todo aquele tempo escorreu numa velocidade inversa à fome de escrever o que estava ali. Tentei de todas as formas organizar tudo em borrões, mas, bem antes do fim, o avião pousou na minha janela.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Academia Nacional de Medicina, 21 de junho de 2018


Senhoras e senhores, boa noite.
Saúdo inicialmente o presidente desta casa, o acadêmico Jorge Alberto Costa e Silva, o qual, em seu nome, reitero saudações aos demais colegas médicos e membros desta Academia.
É uma satisfação muito grande estar aqui. Recebi o convite de supetão. Na vida o bom chega de súbito. O resto, o que desperta tranqüilo é aquilo que, sem darmos conta, já havia acontecido. Um convite desses alivia-me os nervos e abre as comportas de minhas coronárias, sem deixar de ser desafiante, trepidante.
De imediato me fez rever outro recente convite feito pelo presidente do CBC, Savino Gasparini, para escrever sobre Jesse Teixeira para o Colégio Brasileiro de Cirurgiões. O texto será brevemente publicado na revista do CBC.
Eu me lembro muito bem a primeira vez que vi Jesse Teixeira. Como tantos cirurgiões de sua geração ele está indelevelmente ligado a uma paisagem de minha vida que me assinala no espaço e no tempo de aprendizado. 
A primeira frase que eu conheci foi: “Sinto-me satisfeito quando meus estagiários acabam o período de residência sabendo como drenar uma pleura”. Quando li a palavra estagiário tive uma dor em pontada ao respirar fundo. Eu acabara de chegar aquele lugar e estava me pondo em desafio - estaria eu ali apenas com esta perspectiva? A de aprender a drenar tórax?
A partir desta frase nasce a ideia de pesquisar sobre a vida de Jesse Teixeira. O alvo inicial seria um desafio literário. Como era o seu processo de criação? Ler seus textos é serpentear por um labirinto de pensamentos de causar cuíra no juízo. Esta ideia reavivou-se depois que li um discurso realizado no Hospital Mandaqui, ainda na década de 70, porventura da abertura de um congresso, em que ele reconstrói a história da cirurgia torácica como um personagem que vagueia entre a cortical e a medular de uma especialidade que todos tentavam decifrar.
O sentido educador e memorialista de seus textos elevam aos recônditos de uma leitura palatável. Por ser autodidata na especialidade, pois o professor não teve professor, quanto esmero havia ao construir uma cartilha de rotinas, escrevendo sobre o que fazia e o que criava. Tenho quase todas guardadas em minha casa, e me foram doadas pelo próprio.
Ele descreveu cada ideia, passo a passo, ao longo de seus mais de 50 anos como médico. Desde o Broncobar, com o famoso sinal da gota, para diagnóstico de doenças brônquicas por meio de broncografia, até o seus clampes e no auxílio do pulmoventilador de JJ Cabral de Almeida, seu fiel anestesiologista. Sobre tudo isso, ele escreveu como quem prepara seus alunos para o aprendizado. Como se fosse uma cartilha de boas maneiras.
Tem um grifo de Emerson, escritor americano que viveu nos idos de 1800: If we encounter a man of rare intellect, we should ask him what books He reads. Então eu ficava me perguntando sobre Jesse Teixeira. De que fonte literária ele bebia, ao escrever com tanta suavidade o seu pesado cotidiano?
Por intermédio de Jesse Teixeira Neto, fui revisitar a casa onde ele morou e rever a família, na rua Cedro, em novembro de 2016. Lá me encontrei seus filhos Bebel, Sebastião e d. Gleusa e fui muito bem recebido. No compartimento onde d. Gleusa se encontrava, à minha espera, havia uma grande estante, que ocupava toda a parede e estava socada de livros. Chamou-me atenção, entre tantos autores universais, um médico que se transfigurou em escritor: Pedro Nava. Nava era um memorialista, e penso que Jesse Teixeira tinha a mesma verve memorialista.  Um pouco diferente de Jesse, Nava partia do problema (a desgraçada doença) para o encantamento com a medicina. Tinha umas expressões que lembram, entre tantos, Oscar Wilde ou o nosso Augusto dos Anjos, em suas perplexidades de pensamentos. Jesse era bem mais sutil.
- Que pensas da vida? Perguntaram a Pedro Nava.
- A vida é como um anfiteatro anatômico: aí estudamos as chagas sempre abertas, vemos a podridão, o mal, o horror, o cancro e o pior de tudo a “hipocrisia do otimismo”, tudo num montão de lama – a sociedade.
— Que carreira pretendes seguir?
- A medicina.
— Por que a escolheste?
Porque é a que me oferece mais encantos, porque por intermédio dela, estudarei este emaranhado de vasos, esta reunião de músculos, esta teia de nervos que compõem este monte de elementos apodrecidos."
Certamente, por morar no Rio de Janeiro e serem contemporâneos, penso que os dois deviam se encontrar em tradicionais chás desta academia pra tomar um gole de memória e tradição. Muito provavelmente devem estar nos ouvindo em algum canto desta casa.
- Jesse, quem é esse tapuio, que vem lá do Norte pra falar de ti? Sussurraria Nava, com seu humor ácido.
Os demais elementos que compunham a sua verve literária vêm da leitura científica e do incansável exercício profissional até lapidar todas as ideias e pôr no papel. É o que se chama de refinamento do cotidiano.
Mas quem conviveu com o professor sabe que a boa leitura e a sua educação foram apenas o carretel pra ser o grande mestre, o loquaz oportuno e o cirurgião de esmero.  “Enquanto existir algum cirurgião de tórax que trabalhe com seriedade, que busque obstinadamente a inalcançável perfeição e que valorize a dignidade e a elegância, Jesse Teixeira continuará vivo”, grifou José Camargo, num escrito chamado, “Jesse Teixeira: um cirurgião”.
Para Fabio Jatene tinha também altruísmo. Ele costumava dizer que no seu serviço, "nenhum paciente era rejeitado, seja pela gravidade da doença, seja pela sua situação econômica". Posso afirmar que num dos depoimentos biográficos que coletei, ouvi o mesmo de seu filho Sebastião... e eu vivi isso à flor da minha pele, quando fui seu residente.
Jesse foi presidente do maior colegiado de cirurgia da America Latina, o CBC, com apenas 43 anos. Tornou-se não só fonte de inspiração a muitos jovens, mas também cortejado por renomados estrangeiros, destacando-se o canadense Grifith Pearson e vários brasileiros.
Eu confesso que gostaria de ter mais tempo para falar do meu professor, mas não é escopo deste evento. Até mesmo porque não é tão simples se achar palavras e sair borrifando aqui e ali para dizer de um acadêmico. Isto aqui é um templo sagrado de pensadores, e a palavra, como atriz, é cheia de segredos e tem seus disfarces: vem envolta em véus e o falante tem que saber usar a pena para desvirginar o verbo. Há até dor no parto das palavras. É quando ela vem atravessada para se abrir à ideia, como se, ao falar, ficasse impactada na cricóide.
Essas são as minhas palavras, transfiguradas em realidade, ressignificando a dor que a gente sente quando sente a lembrança desse grão-mestre.
O bicho-sentimento, que se comporta como um comichão, que caminha com qualquer aluno, naqueles primeiros dias de convívio era mistura de incerteza, lacuna e torpor, marcados desde quando éramos meros estagiários.
Com o bicho em doma, ao longo do convívio, afrouxaram-se as cordas do relógio, colocava-se tudo em vagareza e aliviava-se a dor pleural. Assim íamos construindo nossas notas, nossos passos. O professor quando falava, sua saliva lustrava nossos sapatos e aí começávamos a caminhar mais a vontade, reluzindo saberes, mesmo que o piso fosse escorregadio.
Cirurgião forte, como este de quem falamos, se enternece mesmo é com a amplidão de seus estilos e de seus ensinamentos. Aí lentamente íamos ganhando tônus e nos sentindo mais sóbrios, comparado ao torpor inicial. É assim a catarse do aprendizado que todos seus residentes viveram ao longo daquele convívio.
... e se alguém encontrá-lo, agora, estará ao lado de sua sombra – a família –, aquela que o conduziu por toda a vida. Ele, mesmo-mesmo, estará pastoreando seus meninos, sereno, com o olhar distante, desejoso de, na madrugada, deixar-se brincar com os vaga-lumes e tornar a escuridão leito vago para o aprendizado que se iniciou à luz de lamparina ao ler aquela placa na entrada do serviço.  

Muito obrigado.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A cor da violência

Lúcio Flávio Pinto, na abertura de sua agenda amazônica, assim define Belém (e por quê não o Brasil?), frente a onda de violência que acarpeta de sangue a cidade: “Já não se sabe com exatidão quem está matando e quem está morrendo nesses homicídios por atacado. A confusão é grande. Podem ser milícias ou o tráfico acertando contas [...]. Até investigar a sério ficou difícil, tão numerosas são as ocorrências...”
Os textos do jornalista escapelam o couro cabeludo da grande mídia e afronta os senhores do poder. Seus pensamentos críticos cortam mais que faca amolada em esmeril. Quem lê suas dissecações textuais, vive com as idéias em constante fagulhamento.
Lembrei dele ao encontrar um adolescente, na BR, vendendo o jornal de domingo, numa gaza que separa a “civilização” da periferia - onde se diz que a barbárie tem a chamejante cor vermelha. A manchete berrava: “Belém do Pará, refém do crime”. Eu lia enquanto semáforo vermelho. Espirrei com um gosto de epistaxe. Não era alergia, mas elegia - esse poema policial enclausurado na melancolia das manchetes nossas de todo dia.
Como todo retorno de BR, o semáforo demora. Baixei o vidro do carro e uma lufada de ar quente veio no meu rosto, até o jornaleiro se aproximar. Puxei assunto, para amenizar o sol do equador - queimando a moleira do garoto, protegida apenas por um boné.
- “Com essa minha alergia, quase espirro sangue com a manchete de hoje”.
- “O governo não faz nada, chefia”, respondeu ele em tom de propaganda eleitoreira, e já me oferecendo o periódico, quiçá um voto.
- “A gente também não ajuda... Você, sim, está ajudando”.
Ele soltou um “obrigado”, sem eu saber se foi pelo troco que deixei ou pelo elogio. 
Fui. Ao chegar ao hospital Metropolitano de Urgência e Emergência, onde se recebe as vítimas da violência urbana, quis saber o saldo do sanguinário sábado, rutilante naquela manchete. Sobre o dito saldo, mais vale o silêncio das calçadas lavadas após a passagem do rabecão. 
Sigo na visita, cadenciada pelos residentes e estudantes. A convivência com eles me faz esquecer aquela estampa de jornal, aquele sol na moleira do menino, assim como a segunda-feira, vigiando o saldo de domingo. Tudo na vã esperança que a terça-feira seja véspera do amanhã e um elo do branco com o amarelo e outros azuis e verdes à sombra da esperança de outras cores. 
Na volta pra casa, redescubro que a violência viola as cores da vida: do vermelho ao violeta; do branco ao preto - principalmente.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Top Knife, jornada na poesia


Se um dia me perguntarem o que serei.
Digo: médico de palavras simples.
Dessas que usam no alicerce da vida...
Priscila Franco, poeta.

A gente vive mesmo é de calçar sandálias, vagar mundos e contar fatos. De vez em quando sobra um tempinho para trabalhar e dar de comer pros peixinhos. Contar fatos me parece combinar com chocolate quente, então deixemos a fumaça desenhar arabescos no ar e penetrar pelas narinas.
Aconteceu por volta de 2008, num congresso Pan-americano, em Campinas. Eu tive uma participação longe de ser modesta, mas o meu interesse maior era conhecer o Keneth Mattox, considerado o bardo da cirurgia mundial, e apertar a mão daquele caubói texano. Ele já escreveu vários livros; comandou o resgate das vítimas do Katrina; de quebra também escreveu um capítulo denso num livro de cirurgia que escrevi em 2007 (EDUFPA) - e ainda fez a introdução. 
Eu precisava agradecer...
Na mesma laçada Mattox havia lançado “Top Knife – a arte e a estratégia da cirurgia do trauma.” Claro que comprei e ganhei um autógrafo, além de uma foto ao lado do baluarte. Alto, largo e claro, trajava um paletó de marca, envergava uma gravata com a bandeira texana e um chapelão ao melhor estilo caubói; tinha um ar juvenil e vivaz de quem só envelhece pelas rugas, pois pela alma haviam esquecido de avisar-lhe que os anos se passaram. Tivemos um bom aproach, apesar do meu inglês açaí-com-tapioca, e o dele, de texano com voz de trovão em estilo teatral.
Já de volta a Belém, na sala de aula e em visita com os alunos às enfermarias - e o top knife mattoxiano sobraçado -, uma jovem me abordou e achou o título assaz interessante, pois não é comum livros acadêmicos com alcunhas roliudianas. Disse-lhe que havia conversado com o autor e que era uma homenagem ao filme Top Gun – ases indomáveis, cuja estratégia de guerra do filme poderia ser comparada à da sala cirúrgica em situações “in extremis”.
        A aluna se chamava Priscila.  Ela anotou aquilo tudo e me mandou no dia seguinte um texto curto chamado “Top Knife – jornada na cirurgia”. Era uma alusão ao livro de Mattox. O texto é simplesmente fantástico e representa o olhar de um estudante frente às ciladas cirúrgicas. Ele encontra-se afixado na porta do Serviço de Cirurgia e será abertura do manual de cirurgia da UFPA, endereçado aos alunos.
      Após se graduar, Priscila Franco pegou o beco e foi para São Paulo fazer residência médica. Seu último texto postado foi de julho de 2011 e nunca mais li mais nada. Fui para o noticiário e achei o motivo: depois de um plantão pesado, voltando para casa por uma dessas estradas paulistas, um caminhão invadiu sua pista e ceifou sua vida. Alguns acharam que ela estava cansada do plantão e havia perdido o reflexo. O que ficou da médica, escritora e poeta foram alguns versos, lembranças do internato e também essa pequena peça que dorme de luz acesa nas ideias de Keneth Mattox, e que será imortalizada em breve.
       O que temos agora é uma amostra grátis de tantos poemas que ela prescreveu. São textos incrustados na contextualização médica, com uma estética provocadora que invoca um transplante de ideias e de resistência à verborragia indolente, quase sangrante, que assola a linguagem médica - que ora dorme apedrejando o inconsciente, ora passeia pela poesia moderna jogando flores ao léu.

Se um dia me perguntarem o que serei
Digo: médico de palavras simples
Dessas que usam no alicerce da vida
Mas que andam ao descaso por aí...

A palavra paixão. 
Virou esquizofrênica! 
Anda tendo alucinações. 
Acha que é amor.

E o amor? Hipocondríaco! 
Deu-se mil doenças... 
E parece que morre amanhã...

A coragem, em regular estado geral, 
diz que contraiu o vírus da indolência 
e desmotivação.

A amizade nem se fala... 
Uma febre de origem desconhecida. 
Parece a palavra colega quando estava doente. 
Será que é a mesma coisa?

O respeito é o mais perdido. 
Não sabe nem que médico procurar. 
Pode ser o mesmo da educação, 
que anda se queixando,há tempos, 
de dores na sua espinha dorsal...

A fidelidade, por acidente de trabalho, 
adquiriu doença venérea. 
Queixa-se de esquentamento...

A gratidão. 
Diagnóstico a esclarecer. 
Parece doença rara.

A honestidade, coitada. 
Para essa, nem concorrência tem... 
Talvez a mais moribunda de todas...

E oxalá que ninguém morra dessas verdades...

Se um dia me perguntarem o que serei
Digo médico de palavras simples
Médico de palavras simples
Palavras simples
Simples!

segunda-feira, 5 de março de 2018

Ao mestre com carinho

O domingo, 25, era de um fevereiro pós-carnaval 2018. O Rio de Janeiro, sob os auspícios do exército, vigiava os morros, entretanto, havia uma porta de igreja, no bairro da Gávea, totalmente aberta, e cercada por favelas da Rocinha e Vidigal. Trata-se de uma igreja ampla e moderna, pelas quais os vitrais reproduzem desenhos de Cândido PortinariLá, o padre Djalma, com um olho grudado na missa e outro na hóstia, via os holofotes da nova ordem.
Entre tantas famílias presentes naquela missa dominical, havia os Teixeira, composta de três descendentes diretos e uma leva de treze netos, acomodados em fileiras de bancos. Com a amizade que guardava, o padre destacou a história do patriarca Jesse Teixeira.
Aquele domingo 25 e aquela família dizem-lhe algum respeito? Provavelmente não, se você for um médico formado depois de 1993, ano da morte de Jesse, aos 75. Foi a partir desta década que uma geração inteira começou a se conectar à tecnologia - que eclodiu no final daquele período, com a chegada da videocirurgia.
Enquanto a tecnologia ensaiava sua chegada ao interior da caixa torácica, vivia-se a grande epopéia dos transplantes pulmonares no Brasil; a cirurgia da traqueia tornara-se mais forte na especialidade e, logo em seguida, o memorial da América Latina via o resplandecer de uma nova sociedade médica, a dos cirurgiões torácicos.
Mas, aquele domingo, dizia-lhe alguma coisa? Sim. Cem anos atrás nascia Jesse Pandolpho Teixeira e aquela família estava ali para celebrar seu nascimento, massivamente representada por filhos, netos e bisnetos. A cirurgiã Maria Morard representava todos os seus discípulos espalhado por esse imenso país.
Com a vocação médica despertada desde a adolescência, Jesse partiu de sua cidade natal, Vitória, no Espírito Santo, para o Rio de Janeiro, ainda aos 16 anos, e logo ingressou na faculdade de medicina. Triunfou por formar uma escola médica de cirurgiões torácicos e uma legião de admiradores. Fundou seu próprio programa de residência, que começou no Sanatório Santa Maria, em Jacarepaguá, e depois foi alicerçado na Rua da Glória, hospital da Beneficência Portuguesa. Furtou-se à sedução das grandes dos cânones universitários, porém sem abandonar os princípios da academia e os rigores da metodologia científica. Publicou muito e escreveu capítulos e livro. Viajou pelo mundo, disseminando a cultura cirúrgica do Brasil, sempre ao lado de sua Gleusa.
Juntou-se a Haroldo Meyer e João Batista Arruda para estender seu professorado ao Hospital de Curicica e formar duas escolas de cirurgia com as mesmas rotinas. Participou ativamente do nascimento da especialidade, nos final dos anos 40, quando a anestesia geral ainda era sonho quimérico. Tomou a cirurgia da tuberculose como seu maior legado e depois se estendeu ao câncer de pulmão, cirurgia da traqueia e parede torácica. Participou do nascimento da cirurgia cardíaca e ovacionou o transplante pulmonar.  Criou vários instrumentos cirúrgicos e adaptou outros, mas o maior de todos os seus legados foram os ensinamentos, que ainda se estendeu a um dos filhos.
“Não sei como as lembranças são conservadas, mas algumas duram para sempre...”, grifou José Camargo em “Saudades do meu pai”, texto que simboliza os ensinamentos e a convivência paternalista. Pode muito bem representar a lembrança remota e adocicada de ares respirados em meio à poluição de desânimos diários, que só nos salva da asfixia quando olhamos para frente e percebemos que a porta da igreja sempre estará aberta.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O nomadismo da cirurgia

“(...) todos os curandeiros eram malditos sanguessugas que faziam mais mal do que bem...”
Do personagem Bukerel em O físico, de Noah Gordon

Rob Cole é um órfão inglês que, após a perda dos pais, torna-se um assistente de curandeiro e deseja vencer a doença. Depois de adulto ouve falar de uma fabulosa escola de medicina na Pérsia, liderada por Avicena, para onde viaja a fim de aprender os segredos da cura. O cenário é da Idade Média e está romanceado em O Físico, de Noah Gordon. Nota-se que o termo físico servia também, à época, para designar os médicos.
Diego Rivas é um cirurgião espanhol da Galícia que, após visitar os EUA, toma confiança em realizar operações complexas mediante única mini-incisão (uniportal). Abraça a técnica operatória, passa a divulgá-la no mundo médico e ganha devotos. Depois dos 40 anos, comemorados no Brasil, ouve falar da escola de cirurgia da China e, em pouco tempo, estará num hospital de Shangai, onde foi aninhado. A intensa prática o levará a se aprimorar e, pouco depois, passa a ensinar sua técnica, mundo afora.
A pretensão aqui não é contar, com precisão, tópicos da cirurgia contemporânea, mas tão somente narrar a grande aventura de um nômade que, dos caminhos de Compostela, segue para o oriente, em época onde fronteiras estrangeiras fecham-se com trancas de castelo medieval, sabendo-se que a China de hoje, além da riqueza industrial, tem outra maior que encanta: o saber.
Da saga do jovem Rob, vê-se certo paralelo de poucos homens que ainda ousam, nos dias de hoje, romper fronteiras. Isto nos faz crer que a muralha da China tornou-se apenas ponto turístico em meio à tênue linha do passado da lembrança da divisão das estepes. Os chineses de hoje abordam com grande propriedade e leveza a partilha de ensinamentos, tal como o persa Avicena, personagem de Gordon.
Usando figuras reais que se tornaram mito - como o próprio Avicena-, Diego procura desvestir-se de um possível olhar maniqueísta ocidental, para traçar um panorama da riqueza cultural e social não só da China, mas de outros tantos lugares que visita – muitas vezes o Brasil –, para mostrar as origens do eterno aprendizado entre os povos, independente de suas idiossincrasias e tez racial. Isso o possibilita mesclar sabedoria com abraços fraternos.
Sem deixar de apontar as origens antropológicas de cada elemento que edifica a formação do cirurgião moderno, Diego transfere para cada aprendiz de sua técnica o mesmo olhar com que o sábio Avicena fita Rob Cole, mistura típica de fascínio que acomete qualquer pessoa que abandona seu húmus e seu modo de pensar, para se pôr de pé diante de outra sociedade.
No meio desse caldeirão, o cirurgião-nômade tempera todas as questões filosóficas e dados históricos com as cores e os cheiros do mundo, deixando os temores de lado a cada caminhada, sob a epiderme de Rob Cole.
O nomadismo de Rob e os ensinamentos de Avicena convivem no mesmo paletó de Diego, que faz de seus périplos pelos quatro cantos um tempo histórico num templo vivo e presente no imaginário coletivo de seus séquitos, que também passam a visitá-lo entre a Galícia, seu umbigo, e Shangai, sua Pérsia.
Lembremos das lendas da Távola Redonda e dos cavaleiros de armadura para nos debruçar sobre o fervilhante caldeirão cultural no qual os homens d’antanho se fitavam serenamente. Depois vieram os diálogos entre Dom Quixote e Sancho, até se chegar aos embaraços criados, hoje, por aqueles que travam a troca do conhecimento. Diego afugenta tudo isso, pois é personagem encantado e vivo, que parece sair das páginas da literatura rútila. É um desses que duvidamos poder existir, mas que convive ao nosso lado, nestes tempos arredios e de olhares atravessados.
O Diego de hoje se veste de Rob Cole para sentar na poltrona e esperar as portas travarem para decolagem. Assim que aterrissa reverte-se em Avicena e passa a ensinar pela luz da convivência, não importando o que esteja no foco daquele que busca extirpar, suturar, aliviar ou curar, seja horizonte amplo ou campo estreito, seja olhar grande ou pequeno.

Roger Normando – Professor de Cirurgia Torácica, Universidade Federal do Pará, Brasil.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Das margens do Tucunduba às do Atlântico, 30 anos alvissareiros

Sei que nada será como antes, amanhã
[...] Alvoroço em meu coração
Milton Nascimento e Fernando Brant, em “Nada Será como antes

Eram garotos que escutavam Beatles e Rolling Stones e ainda buscavam alvoroço no coração pintado em mil tons de cores e néctares. Viviam ainda a adolescência, quando receberam a lista convocatória, pelas ondas do rádio, que deveriam alojar-se numa choupana - espécie de tapera, cabana -, às margens do rio Tucunduba, afluente do Guamá. Na bata rala, várias vezes costuradas e faltando botões, as certezas: caneta, papel, leitura, suor e o sapato carcomido pelos sonhos.
No começo era o silêncio: amorfo, vasto e cinzento. Depois foram sentando e se apossando de cada espaço sobre a madeira dura, a amassar os glúteos de ferro. Poucas salas de aula tinham refrigeração, e o calor equinocial aquecia a empreitada. Sentados na sala de aula ouvia-se o popopô dos barcos, cochichos e o desenho da ciência: da anatomia à fisiologia, do exercício da farmacologia à cirurgia, do estetoscópio ao martelo de Buck. Deixa estar que o silêncio foi dando vez a vozes e os grunhidos foram rompendo a timidez, transformando-se em amizades sinceras, grudadas ao pericárdio e à pleura.
E lá foram eles, seguindo mundo, a pegar carona na melodia do amanhã e enfrentar desvarios; só podiam pedir socorro e milagres, livros e mestres.
Chegou o canudo e aqueles adolescentes mudos e telepáticos agora tinham voz, escolha na mão e ideia na cabeça. Cada um pegou seu beco e se aprumou na estrada, mas sempre com rosas na mão esquerda - o lado do coração. Só esqueceram de avisar que o caminho era escalafobético, cheio de espinhos, piçarra e, quando chovia, se tornava escorregadio e lamaçal - porém, anímico, sempre anímico.
Mas o primeiro sol, de incógnito firmamento, começou a dourar a amplidão e, lentamente, revelava-se ao amor, o juramento. Havia o mergulho - escalonado, diga-se - para o interior dos artigos, livros e tantos alfarrábios por vezes transformados em pergaminhos e escrituras sagradas do deus Asclépio, caminhando em passadas curtas com seu caduceu, na busca da cura.  
Depois veio o contato com a fragilidade humana da ingloriosa doença, sem falar daquelas perdas que jamais se admitia. Abrir um peito para aliviar uma dor ou tomar um elixir para transformar sorrisos, sempre foram dilemas a ser enfrentado com a solvência das leituras e a audição dos mestres, transferida ao longo da jornada que veio pelas veias de Lucas, o discípulo, até a alquimia; de Ambroise Parè, numa primeira fase, até aos robóticos dias atuais.
E lá iam eles seguindo mundo...
Do estreito Tucunduba até se chegar ao Atlântico, sob a linha do equador, correram os 30 anos de hoje, à sombra do ontem. Daquelas margens plácidas, onde tudo começou, sob a sombra de uma choupana, muitos caminhos foram seguidos, mas a cama para o descanso sempre guardou um travesseiro macio, feito de penas de aves de rapinas, produzidas, de forma sustentável, no laboratório de cada neurônio incrustado nos fundamentos éticos e na determinação de Hipócrates, à sombra dos plátonos - sem desmerecer as noites sem sonos, ao lado da próxima hemorragia e morte.
Nesses dias de rememoração e de revigoro, entre passeios e a flambagem do alimento nosso de cada dia, a poção ecumênica foi guardada, em forma de agradecimento, pelos cordeiros de Deus, tragado pelo desejo inesgotável existente atrás dos olhos de cada um.
O encontro al mare trouxe a maré, a brisa da noite e a certeza que a vida deve ser festejada como se fosse marujo à espera do próximo porto, na pérgula da piscina, em torno do fogo ou sob meia dose de caipirinha para se dançar até exaurir a última mitocôndria, feito meninos que perderam o juízo da maioridade antes de ganhar o juízo final.

domingo, 12 de novembro de 2017

Licença para nascer

"Quer durar, 
quer crescer,
gente quer luzir..."
Caetano Veloso, em: "Gente

            Nasci pedindo “por favor”, pois precisava não só que o ar entrasse pelas narinas, mas também bisbilhotar a vida com os olhos do céu. E deu no que deu, pois a primeira noção foi que o céu era amarelo-âmbar, tal como aquela luz que saia daquele foco fosco presente na sala de parto. E que diferença isso faria para ter o nascimento registrado? Ficou lá pelas brenhas do Acre minha rescisão de contrato com o útero de minha mãe.
            Antes mesmo de nascer li não sei onde que o bom da vida era ter amigos para fazer gols de bicicleta, monareta para pedalar pelas ruas e algum dinheiro para cruzar oceanos; também uma namorada para andar de mãos dadas com o anoitecer do Rio de Janeiro, e ter filhos para sentir dessas emoções de fibrilar o coração.
             Mas é história de filho que a gente gosta de contar pros cadernos, dessas de sentir a cororonária se contorcer e depois fazer um cateterismo para ver se aguenta mais tranco.
           Hoje, domingo, acordei cedo, acabei meus afazeres e fui deixar um dos filhos numa escola do subúrbio, para fazer a prova do ENEM. Ele já é um veterano para essas emboscadas, mas me pediu para fazer este carreto uma vez mais. Quer tentar o ensino público superior num curso disputadíssimo. Eu não pedi e nem apelei. Foi de boa, pois já faz duas faculdades que mal consegue dar conta.
             Mas ENEM, de novo? Sonhos. Desafios. Inquietudes. Ele não respondeu assim, mas eu criptografei pelo wifi, cujas ondas circulam entre seus olhos castanhos e a minha massa cinzenta.
            Enfrentamos grande engarrafamento, mas chegamos a tempo. Afinal, onde ele fez a prova, numa escola do Guamá, tem certa vizinhança geográfica com seu desafio e a distância e não faz diferença para quem deseja a satisfação de ouvir a voz do Pinduca no rádio.
            No caminho de volta, após desejar boa sorte e dar um beijo na fronte, revivi toda a trajetória de sua infância de todos os dias, durante vários anos: acordar cedo para prepará-lo para ir à escola - do banho ao calçamento dos sapatos. Achei que aquele ato rotineiro tivesse ficado no fundo da minha caixa de pandora e que jamais aquilo pudesse me emocionar. Sim, me emocionou, hoje.
          Sim, pelo que, ele, com a vida acadêmica definida, resolve voltar e recomeçar novamente, ao sol do meio-dia de despelar o toutiço. 
         Vi-me um pouco, ali. Vi também os primos enfrentando a disputa, naquela vontade formigante de estar envolvido no conhecimento e encarar os desafios de um Quixote diante de moinho de ventos. Existe, sim, nele, uma espécie de comichão que dá brotoeja e faz todo menino querer ser gente de cidadania.
             E neste exato momento da volta – eu, sozinho - a rádio do carro toca Caetano: “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome.” A musica se engancha em encantamento, fosforilo e, desatento, quase atropelo um feirante da Barão de Igarapé-Miri.

            O caminho de volta foi ardente. Tive a sensação que jovens deste tipo têm sonhos que dormem num prato fundo e necessita de muito feijão pra saciar todo aquela marmita. Continuarei, por todos os sóis de meio-dia, a carregar em punho essa marmita, na sã esperança de que valeu a pena ter a placenta rompida num espasmo daquele chão sob a luz amarelo-âmbar daquele foco frágil daquela sala de parto. Acho que o tal foco fez-me confundir a cor do céu, que eu havia lido num poema de Fernando Pessoa ainda na barriga da minha mãe.

domingo, 24 de setembro de 2017

O general em sua caverna

Quem serve a uma revolução ara no mar...
Garcia Marquez, em: “O general em seu labirinto”

A colombiana Santa Marta fica na divisa com a Venezuela. Lá, Simon Bolívar, o libertador da América, encavernado numa tuberculose (TB) passou os últimos dias de vida. 
Toda esta historiografia está em “O general em seu labirinto”, de Gabriel Garcia Márquez, ressaltando que "El libertador" relutou em aceitar tratamento médico. Uma prova: ”o doente piorou ainda mais no fim de semana, por causa de um copo de leite de jumenta que tomou por sua conta e risco, escondido dos médicos.”
Ressalta-se que a cura médica da TB ainda não existia e o que se fazia era higiene pessoal, isolamento em área ventilada com janelões, particularmente em região montanhosa, além de repouso, conforme o cenário de Thomas Mann em “A montanha mágica”. 
Bolívar morreu em 1830, quando ainda se falava em miasmas e pneumas, cuja TB se chamava Tísica. O bacilo foi descoberto somente em 1882 e dez anos depois surgiram os primeiros tratamento efetivos - o cirúrgico-, destacando-se as desconjuntadas operações de toracoplastias, em que se desmantelava o tórax retirando-se várias costelas. Foi somente em 1946 que apareceu a primeira droga-alvo e a humanidade se livrou das mutilações cirúrgicas.
A casa onde o general passou os últimos dias era simples. O seu quarto de sobrado dava de frente para o mar. Tinha escarradeira, jarra dágua com toalha, cama e banheira. A velha casa da alfândega, que se vê hoje para visitação, tem parede amarela e dois quadros de pessoas que fizeram parte de seus últimos dias, entre eles, dr. Reverend, seu médico de cabeceira. Há lá, esculpido em mármore carrara, o mirrado corpo do general, para exposição e selfies.
Quem não puder chegar até Santa Marta, que faça uma passagem pelas muralhas de Cartagena das índias e visite a Ábaco – livros e café -, na Calle de la Mantilla. Foi o que fiz. Fuçei até achar, por acaso, os 33 boletins médicos do dr. Reverend, reunidos numa só apostila de 87 páginas, que retratam os últimos dias do general. Na necropsia ele descreve que suas pleuras estavam aderidas e seus pulmões endurecidos. O direito, quando espremido, purgava um manancial da cor vinhosa. Tradução médica: caverna tuberculosa.
O jovem médico tinha apenas 35 anos, havia chegado da França e tinha responsabilidade do tamanho da Nova-Granada. O doutor assumiu o caso após discussão com seus pares, que se cegavam à Tísica. Sem outros meios, o diagnóstico se fazia no olhar clínico e a confirmação era somente pós-morte. Bolívar tinha 47 de idade e muitas conquistas, mas dentro de sua humildade dizia que tais vitórias não cabiam numa banda de sapatos.
Após o enterro, outro general ofereceu ao médico, pela dedicação, o cargo de cirurgião-chefe do exército. Ele respondeu: “prefiro minha liberdade a todo emprego assalariado”. Ainda se negou a receber recompensa pecuniária. Disse que fez por admirá-lo. Ficou junto dele até o último arfo. Logo após, desapareceu. Ressurgiu em Paris, escrevendo tais relatos clínicos, em 1866.
Em 2010 os restos mortais de Bolívar, que se encontram no panteão nacional da Venezuela, foram exumados por determinação de Hugo Chávez, ao achar que havia conspiração e envenenamento, tal como ocorrera com Napoleão Bonaparte. A análise levou ao diagnóstico radicalmente diferente ao de Reverend, mas não confirmou a hipótese estilhaçada de Chávez.
Os ossos exumados foram devolvidos. O espírito do general, por destino, não demorou a recepcionar o de Chávez, mas é improvável que no labirinto cavernoso do subsolo do panteão, o déspota esteja maduro suficiente para entender que conquista se faz com passos e não rasgando um boletim médico, ou a própria constituição. 

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A lição de Obama contra a ultradireita


O ex-presidente norteamericano Barack Obama ganhou ontem as manchetes dos jornais de todo o mundo após a repercussão de suas declarações sobre o conflito ocorrido na cidade de Charlottesville no último final de semana, que resultou na morte de uma mulher.

O vergonhoso evento foi patrocinado por grupos de extrema direita de supremacia branca, tais como:
Ku Klux Klan e organizações neo nazistas, que intensificam suas ações após o apoio político e financeiro ao candidato de ultradireita Donald Trump, –– filho –– de um notório membro da KKK.

A mensagem do ex-presidente americano mais popular das últimas quatro décadas, negro e de origem africana, acaba de tornar-se o tuíte mais curtido da história.

Publicado na noite do último sábado, 12/8, o post em questão de Obama no Twitter foi o primeiro de vários do ex-presidente dos EUA sobre os acontecimentos do final de semana na Virgínia.

Com mais de 3,6 milhões de curtidas, o tuíte utiliza uma citação atribuída ao ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor sua pele, seu background ou sua religião” ("No one is born hating another person because of the color of his skin or his background or his religion...", no original, em inglês). E usa uma foto de Obama cumprimentando quatro crianças em uma janela.

Além disso, a mensagem em questão de Obama já possui quase 1,5 milhão de retuítes até o momento.

Para chegar a esse número recorde, o tuíte de Obama superou uma publicação feita há alguns meses pela cantora pop Ariana Grande logo após um ataque terrorista realizado durante um show seu em Manchester, na Inglaterra.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Sobre balaços, atropelamentos e esfaqueados

Tenho uns poucos livros emprestados que jamais devolvi - uns quatro. Um me fascina: “War surgery”, do comitê internacional da Cruz Vermelha. Antonio Venturieri, cirurgião paraense que esteve no Afeganistão, emprestou-me, por saber do meu fascínio pelo tema. Esqueci de devolver.
Dia desses folheava o calhamaço de 350 páginas para entender as armas de guerras e as lacerações que provocam nos órgãos internos de um guerrilheiro abatido. Porque os fuzis já não ecoam só na Síria. O estampido está nos morros cariocas e daqui a pouco zunirá pelos bairros do Jurunas, Guamá, Terra firme e aqui debaixo do prédio onde moro.
Outro dia, no maior hospital de trauma de nosso estado, um homem adentrou pela emergência, já gaspeando. Fora baleado por determinada facção do Jurunas. Ao exame físico havia uma brecha no rebordo torácico. Era arma de guerra. Aí já não é só zunido, é trovoada, fuzilamento.
No caminho de ida a Salinas, à frente da policia rodoviária federal, na Belém-Brasília, havia um carro totalmente danificado, guinchado a três metros do chão, encaixado no outdoor, numa arte plástica bem elaborada, com dizeres de alerta sobre o risco da imprudência nas rodovias - afinal de contas é verão por aqui pela amazônia, tempo de aproveitar as férias e meter o pé na estrada.
Pouco adiantou. A sinistralidade continua elevada e, se somarmos às motocicletas urbanas, a lista embaça o caos no trânsito. Na volta da viagem a arte já não existia. O carro já não estava. Quem sabe uma motocicleta fosse mais representativa.
E sobre esfaqueamentos? Arma em extinção!
Nos anos noventa, um artigo original mostrou, no HPSM, que a principal causa de ferimentos no tronco era arma branca. Certa vez, numa micareta na atual João Paulo II, a ambulância socorrera três esfaqueados no mesmo carreto. Dois deles tinham ferimentos graves no coração, e outro, várias estocadas no abdome. Todos sobreviveram. Se as lesões cardíacas fossem por arma de fogo, certamente a chance de vida seria bem menor. Hoje, os tiros e as motocicletas ultrapassaram as armas brancas, inclusive no sertão da Paraíba, terra das peixeiras.
Surge, agora, uma série televisiva sobre violência, ao olhar esbugalhado da sala de emergência. Com narrativa romanceada ao modo de Tess Geratssen, Edyr Proença ou Rubem Fonseca, “Sob pressão” nada tem a ver com as series glamourosas americanas totalmente hi-tech, hi-fi ou wifi. Depois “Profissão repórter” faz abordagem epidérmica sobre as salas de emergências do Rio de Janeiro. Parece muito claro que a emissora direciona seu portfólio para uma página bruta da nossa sociedade, não só eviscerando as deficiências do atendimento e a alta taxa de homicídios, mas, acima de tudo, o cotidiano do cirurgião-mago que, noite adentro, além de tirar coelhos da cartola, reza por milagres de salvar vidas - ou pelo menos postergar a morte.
O fagocitado “War Surgery” deixa escorrer a idéia que a dor das guerras é maior que as estatísticas: Em certos conflitos, o fardo dos feridos de guerra é maior que as conseqüências de saúde pública. É aí que a série de TV se engancha, mas os números de nossa incivilidade sangram as finanças do Estado, cortam a carne e deixam poças de coágulos a escorrer pelas valas abertas de nossas cidades, e Belém fica entre as dez capitais mais violentas do país (mapa da violência, 2016). 

Artigo publicado originalmente em "O liberal", 03/08/2017