domingo, 17 de março de 2019

A arte por um fio


Eu trocaria uma mina de diamantes por um copo de água pura da nascente.” 
Julio Verne, em: Viagem ao Centro da Terra (1864).

Desde quando o homem dominou o fogo as coisas nunca mais foram a mesma. Criou a religião e suas vertentes aguçadas, inventou a arte como forma de redimensionar a roda da vida, viu a filosofia como a primeira sombra de sua alma e só bem depois brechou a ciência pela luneta de Galileu.
Pelos meandros da construção desta modernidade, um sábio grego, na ilha de Cós, transformou igreja em hospital para separar a doença da religião. Inventou a cura, e o que era para ser discreto e incauto ganhou proporções atemporais.
Daí veio um francês e, com toque de gran chef, misturou gema de ovo, óleo de rosas e terebintina e untou num ferimento de guerra. Parè descobriu que a mistura provocava cicatrização rápida. Assim nasceu a cirurgia moderna recheada de arte para dar gosto e densidade à medicina.
Depois chegou a tecnologia, soltando faísca pra tudo que é ponta. Puseram a pusilânime faísca em chamas e as labaredas da ciência atearam fogo, a ponto de viajar a pontos diametralmente opostos: da lua ao centro da célula.
E depois de todos esses nuances, o Sapiens, incansável e assaz criativo, não se conformou e resolveu colocar calor até mesmo nas discussões. A verdade é que os contrapontos são os verdadeiros combustíveis às muitas faíscas que existem em nós, e quem não souber pôr a cabeça no congelador é melhor nem entrar no calor dessa discussão. Assim nasceram os congressos e os fios deste texto.
A questão é que os congressos médicos discutem cada vez mais ciência e tecnologia e cada vez menos arte. Há tendência de tê-la apenas como uma vicissitude que deve ser guardada no escaninho de cada serviço, para que em eventos ganhe a alcunha de hands on, só para soar mais contemporâneo.
Num evento recente para lançamento de determinado dispositivo na área da cirurgia, em São Paulo, um dos coordenadores flambou nossas idéias e descreveu um novo produto para suturar pulmão. Relatou que o dispositivo mecânico, independente de quem use, passa a ser equânime - seja ao jovem cirurgião, seja ao catedrático – e a costura terá a mesma estética. Com isso os resultados melhoram, a indústria tufa os bolsos e se retira a arte da ribalta cirúrgica.
Próximo de cem por cento da nossa massa cerebral, para não falar de outras vísceras menores, está consagrada à contemplação e à adoração do high-tech, deixando um mínimo espaço à turgescência da criatividade e idéias sustentáveis, por isso, a arte cirúrgica deverá desaparecer lentamente, só que o lado desumano da tecnologia é o custo, e nem todos têm acesso a essa “mina de diamante”. O evento de São Paulo foi fascinante e nos pareia com os grandes centros mundiais, mas move uma geometria piramidal que desfavorece a base, onde estão os mais necessitados - aqueles que batem à porta dos hospitais públicos rezando que sua operação seja a laser.
Mas do outro lado do país, com faísca no cérebro, firmeza nas mãos e pendor no coração, um pequeno grupo de cirurgiões do SUS vem aprimorando a arte de realizar ressecções pulmonares sem essa tecnologia toda (conhecida como OPME). Tudo na munheca - passando fio, esticando o dedo e dando nó. Se o único problema é o tempo cirúrgico mais esticado, por sua vez, esse grupo nos desafoga do caos que representa a desigualdade social em nosso país.
Havemos de estar aptos a reconhecer que a grandeza da arte cirúrgica não é apenas ego insuflado, se do outro lado da linha existem necessitados.
Por fim, não há qualquer tutorial para se criar idéias, pois vivemos de lampejos, haja vista que, perante incertezas, sabedoria é errar pela insistência, tão somente para não se desistir da vida, pois sempre há um canceroso ou um tuberculoso do outro lado da rua precisando de nossos laços e de nós.
Insistiremos com a arte enquanto houver esfomeados.

Texto do Jornal da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica adaptado para este blog

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Aos filhos de Camilo - pelo centenário da Faculdade de Medicina e Cirurgia

Rejeitando o profundo amontoado de quimeras tão antigas quanto a ilusão humana, guardando no canto do meu peito os mestres alquimistas, eu me vi sentado àquela sala, a auscultar o murmúrio da multidão que me aproxima aos cem anos de criação da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará. Eu tinha ao meu lado a doce companhia de minhas solidões quarteladas aos meus trinta anos de existência profissional e acadêmica.
Tive a impressão - coagulada impressão -, que a matéria se dissolveu em meu epicanto e se fez o corpo das coisas em forma de suspiro, de modo a toldar a janela de vidro, após cada lágrima salgada embebida pelo fio do tempo. Agora, o ramo da parábola que o relógio registrou num sextante, foi sujeito-objeto de minhas láureas, se é que existem, se é que existiram.
Vi desde a belle Époque do Zé Maria e a aquarela histórica do Ari traduzir-se em verbo. Tu que foste verbo, tu que és estado de palavra...
Depois do triunfo conjugado no púlpito – “ser ou não ser” é apenas minha questão -, finjo vestir-me do bardo e me sair moribundo pela solidão das ruas que marcam minhas pegadas pelas soleiras de Santa Luzia - aquele casarão imenso que transformou água em vinho e me tirou dos porões onde catapultei meus cadernos.
Daquele fundo partira minha orgânica vida, ignorância-mor, em tarefas de dispensário, em meio a cadáveres, que mais pareciam seres a me apresentarem o caminho de alhures. Fui bater e ouvir o barulho da cremalheira e o tique-taque de meus pulsos quando vi a primeira artéria jorrar em meus olhos e borrar minha sabedoria sobre o que nada sei. Vi indigentes que esperavam pacientemente cada manhã para ouvir o sussurro do que somos a cada página lida à sombra de uma lamparina. Nesta aplicação total, eu excluí a piedade, mas me aparelhei do novo a partir daquela esquina, de seus muros, chafarizes e folhas de um ipê-roxo acarpetando-me com ternura para que eu pudesse pisar nas veias perdidas pelas horas de sono.
Como o olho de Deus em certas gravuras, eu me vi Hipócrates à frente de Parè e tive que enterrar vivo Galeno e seu aristotelismo. Mas foi Camilo, quem se vestiu de Ronaldo Araújo, aquele cão de guarda que rosnara seus sonhos surrealistas, feitos daqui e de acolá. Começou a sair-se pelos desfiladeiros e operou espíritos com a lâmina da sabedoria, até se achegar às vísceras e tornar menos experimental o que a sociedade condenou.
Viu-se a vida de tapuios lamber a morte, mas viu-se distintos homens visitarem a biblioteca e a lousa para dar parapeito ao abismo sem cair no cadafalso.
Não, não. Ante ao decreto da morte, aquelas paredes resistiram e puseram-se de novo a escrever o grão da ciência e da arte - ó arte! -, e foste apenas vítima dos sonhadores com o olho mais longe que a linha do equador permitia,  sem tombar do corpus. Deu-se o hoje, em brados retubantes, sob as desavenças dos desertores imperialistas, que sofisticam ideias para nada dizer.
Foram-se homens, ficou o tempo apedregulhado em forma de germe, a dar grãos para que pães alimentem a fome de bem-aventurados que se vestem de branco para esclarecer que a vida não brota em cada em escalada mensurável, mas em gestos senhorio de gnomos, mesmo que custe calcular algebricamente o centenário de um caminho longevo e destemido.
Geraldo Roger Normando - Professor do Departamento de Cirurgia – UFPA.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

A dor do parto e de partir

Um amigo cirurgião do Paraná, o Vlau, em meio a uma carona, confessa-me que os filhos começam a abandonar a gente a partir do parto, quando as cremalheiras das pinças de Kelly tilintam para reparar o cordão umbilical. Depois vem a tesoura de Metzembaum e completa o serviço. Pronto: pais e filhos separados.
Eu não discordo do Vlau, apesar do magnetismo do laço familiar azougar nossos corações- Depois vai se oxidando e amadurecendo para dar vez à partida. Naquele instante, o Vlau fez minha respiração, ruidosamente, tropeçar sobre a metáfora e me deixar, de rescaldo, uma disritmia.
Aí comecei a rever que aquele cobertor deixando as pernas de fora, o nariz escorrendo, a ideia mal arrumada no caderno foram lembranças desencavernadas naquela conversa. Depois de vinte e poucos anos de convívio ao pé da casa - e a faculdade já findada-, a vida dá um sopro e eles voam com as nossas roupas e sapatos - e ainda levam algumas de nossas meias e cuecas.
Sem dinheiro no bolso arriscam-se a grandes fóruns universitários e a nossa saudade passa a ser arrematada por longas travessias, fingindo comprar açaí na esquina da Perebebuí.
E lá vamos os dois, ouro de mina, atrás de suas pepitas a serem lapidadas, pois ao brilho ainda falta muito esmeril. Portas em automático e fim de ano juntos no mesmo quarto de hotel. Um sopro - ou mesmo um ronco - para abolir o tiquetaque dos relógios e tudo vira champanhe e sete pulinhos ao mar, alhures, para brindar o novo que chega. É o plano.
[Pausa pra inspirar]
Ao descer no primeiro aeroporto e pegar o metrô já me deparo com o primeiro laço. Logo em seguida o segundo e a cidade abre os braços, como se fosse um cordial abraço ao Estevão da Tabacaria. Depois seguimos batendo perna, a prosear, e ver que o tempo os tornou mais belos e as paragens em sebos e livrarias os tornaram mais vivos. Aí uma visita ao Chiado para ver Karl Marx, Engel, Karl Popper, Carr e Paulo Freire para sentir o gosto da hóstia que comungamos.
[Pausa pra expirar]
Por Londres o inverno deixa a cidade fosca. O céu é baixo, pois o sol passeia no outro hemisfério. A luz leve não deixa sombra. Tirar a mão do bolso é banhar-se no Ártico, trincando ossos, tendões e nervos, dificultando as passadas. Sigo ao lado dos rebentos em caminhadas sobre soleiras de universidades, jardins, museus e livrarias, com direito a uns espirros pela friagem. Às quatro horas a escuridão começa a invadir nossos passos e damos-por-visto depois de achar um Dickens de 1867 e reler Sophia Andresen ou alguns livretos da Oxford Press. O final do dia é regado a vinho e conversas acadêmicas, até o sono bater.
A vida por esses trópicos tem ritmo erudito, pois um Nobel visita a sala de aula como eu visito as canções do Paulo e Ruy Barata.
[Apneia]
A respiração paralisa quando já é tempo de nos separarmos. A volta dói mais que espinha de peixe riscando a goela. Aquele tilintar dos Kelly visita a memória e se converte na sonoridade de uma velha canção do Milton. A despedida na estação me faz ter a sensação de “gente que chega pra ficar e gente que vai pra nunca mais…”
Adiante, ao sentar no trem após a última oração, a vista turva. A baixa temperatura gera uma perda de visibilidade e os óculos embaçam, mas ainda consigo ler que estamos chegando a Gatwick - e mais a frente o Tejo. É o caminho se encurtando e a gente deixando, ao longo da viagem, sulcos em nosso órgão mais afetivos.
Foram-se os meninos ficaram os homens, seus livros, suas ideias e a esperança de um mundo justo, acomodado em suas mochilas carcomidas pelo desafio. As lembranças ficaram pelos muros de Coimbra, Sussex, Minho, Oxford e Cambridge, regadas a discussões sobre ética a Nicômaco, o próximo governo e, por que não (?) o futebol.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Entre bazófias e confidências

     Quando as bazófias ou as confidências de um cirurgião privam-se de procurar histórias dentro de seu espaço glorioso, basta caminhar até uma livraria para sacar um autor e certamente um mosaico áurico, cujo valor ninguém ignora, salta aos olhos. E as linhas douradas vão vangloriar-se bem a sua frente.
       Basta desvirginar as primeiras folhas que as linhas passam a paginas douradas de uma boa leitura, te arrancam do foco da rotina e te põe a gravitar entre o real e o imaginário, como se fosse num filme de astronauta - em visão tridimensional e magnificada - a caminho de uma galáxia desconhecida. 
      Antes que a gente volte ao mundo real, caia e rale os cotovelos, dormitar neste momento anti-newtoniano e planar feito um personagem de Julio Verne, pode fazer de nossas hélices cerebrais uma drone pelo mundo futurista, pelo mundo presente ou mesmo a um passado renascentista.
      E conviver com isso é simplesmente auscultar o frêmito da felicidade em um pulmão tísico.
     Foi o que me aconteceu ao ler o poeta Antonio Moura e alguns de seus poemas. Ele se debruça sobre uma linguagem sagaz ligando pensamentos silábicos a palavras anti-monotonias, que passam pela gente como um sopro e nos proporciona uma delícia que permeia entre a lambida num chocolate amargo da ilha do Combu e a realeza do açaí sem açúcar tirado direto do tacho.
      Num desses sábados, andando por uma das livrarias da cidade, encontrei os livros do poeta. Ali permaneci, em pé, como se levitando no espaço sideral. Abri um deles e enfiei o nariz naqueles versos, para sentir o buquê de sua poesia... Segue Nosferatu:

Quando a lua uiva
sobre sonos e sopra
o pó das sepulturas,
exalo meu perfume e
negro lume, escapo

A capa, asa de negrume
envolve teu corpo, ar
repiando o dorso, car
ícia de brasa gelada

E por fim deixo em tua
pele-página, orifícios,
dupla marca, ver
melho sangue: cravada
   
        E não é que num piscar de olhos o poeta aparece bem à minha frente? Eu estava com o livro “A Outra Voz.” Ele queria autografar, mas não tínhamos caneta. Eu disse: não precisa, poeta. Ele retrucou: é que quando a gente encontra um leitor de poesia a gente acha um diamante.
Estava feita a dedicatória.

Labareda, pelas artérias de Corisco

domingo, 7 de outubro de 2018

Amana Katu: os rumos da cirurgia

A ciência não avança, 
a ciência alcança 
a ciência em si.
Gilberto Gil / Arnaldo Antunes, na canção "A ciência em si"

         Como há muita chuva na Amazônia, nada mais espoleta do que olhar para o céu e ver se uma gota de ideia cai no olho, molha alma e fertiliza cérebros para gerar boa ação.

Foi o que fez uma dúzia de estudantes de uma universidade pública da Amazônia. De tanto apanhar chuva lançaram uma ideia sustentável: recolher água da chuva que escorre pelas bicas para matar a sede. Cognominaram de Amana Katu; Vem do tupi-guarani e significa chuva boa.
Como fazem? Recolhem a água da bica, cheia de impropriedades bioquímicas, e transformam em água potável por meio de método simples e de baixo custo, utilizando bombonas da indústria alimentícia (tambores plásticos que armazenam até 240 litros).

Os jovens estudam à margem do rio Guamá, Belém, e na outra margem existem algumas ilhas, cujos moradores não têm água potável. E no que deu? Os garotos atravessaram o rio e foram levar o projeto para os ribeirinhos. Deu foi certo e eles foram bater no vale do Silício com o objetivo de apresentar, in locu, a montagem. Ficaram entre outros três programas mundiais, após competirem com 27 países e mais de 130 projetos. É a primeira vez que o Brasil chega à final desta competição californiana.

Pra transformar a travessia de rio em travessia de mar, eles ergueram as mãos pro céu e pediram ajuda ao deus Tupã para receber doações. Deu certo e os garotos pegaram o Ita do norte. Dois deles, Paulo Vinicius e Waleska, caíram nas graças da Google e foram mais além: participaram de treinamentos na empresa. Uma enxurrada de sonhos para estes garotos!

Na realidade, o que os estudantes fizeram, em forma de experimentalismo científico, estamos todos os dias a fazer, por conta da escassez de recursos na região. Um dos campos mais ávidos para inovações deste tipo é a medicina, especificamente a cirurgia.

Vivendo (ou sobrevivendo) em hospitais sucateados e carentes de recurso, volta e meia lançamos mão de idéias e recursos sustentáveis que, se estivéssemos diante de uma câmara técnica de uma grande multinacional seria certo a guilhotina em praça pública sob trovões e relâmpagos. Decerto, na esfera californiana, o destino seria outro, mesmo que a ideia custasse a bagatela de um paneiro de açaí. Mas o que nos impulsiona é a teia de idéias dos garotos do Guamá, que foram da idade da pedra à idade do silício num salto maior que a universidade onde estudam.

Um parêntese: avanços tecnológicos estão cada vez mais presentes na cirurgia, mas o ritual de hoje é: “idéia boa” é aquela capaz de ter financiamento e gerar lucro. Portanto, se o mundo é high-tech, o Amana Katu deveria ser enterrado, assim como a arte cirúrgica “sustentável” e seus lampejos. 

A razão de tudo é que o caminho da tecnologia é escorregadio, encarece o sistema e dificulta o acesso aos desfavorecidos (leia-se SUS). Fazer adaptações ou ajustes pode causar uma fúria a grandes multinacionais ou a uma fração da sociedade. Mas não à d. Celestina, que numa operação por vídeo no hospital universitário, foi-lhe retirado um tumor canceroso do pulmão. Obteve alta já no segundo dia, utilizando método moderno e minimamente invasivo. As vantagens são: menos dor, infecção e tempo de internação. O custo é alto com material descartável (insumos) e uma operação como essa pode passar de 10 mil reais. O custo da operação de d. Celestina, usando uma ideia sustentável para obter o mesmo resultado, foi bem menos que 500 reais. 
Nada disso significa pendurar a cabeça do cirurgião numa guilhotina e aumentar riscos, pois tudo deve ser feito com critério clínico e responsabilidade. A equipe cirúrgica deve estar habilitada para realizar esse tipo de procedimento. Só vai resplandecer se o cirurgião olhar para os exemplos do Amana Katu e dispuserem-se a entrar na chuva sem esquecer de olhar para a segunda margem do rio.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

As calçadas da rua Wudong


O setembro da rua Wudong tem, na forração do céu, um sudário cor de chumbo. Percebem-se todos os tons de cinza nas nuvens: do alvorecer, quando Xangai se desnuda para o novo dia, até o claro do dia findar. Parece que vai chover a qualquer momento. O tempo fechado mistura-se à poluição, que faz Sergio, meu companheiro de caminhada, espirrar. Embaixo, os chineses caminham com máscara, protegendo pulmões e vias aéreas. Até as crianças, que se direcionam para a escola, têm suas narinas escondidas. O clima é pesado para o DNA dos orientais, que tem propensão a doenças respiratórias, incluso cânceres.
Na mesma Wudong, crianças atravessam-na de mãos dadas com os pais, até entrar na escola para aprender mandarim, matemática e o hino nacional. Algumas chegam à garupa da bicicleta e outras saem pela porta traseira de carros de luxo. O destino é um só: a igualdade.  Tudo junto e misturado, feito fila de comunhão da hóstia sagrada. Se existe algo que o comunismo deixou na Wudong foi o convívio cintilante com a bandeira vermelha e o bem-estar com o socialismo. Tudo por conta da pesada mão de Mao.
Depois a China deu a mão de Mao à palmatória e abriu os olhos ao capital estrangeiro. A abandonaram o comunismo - mas não suas lições de mutualismo ante ao crescimento exponencial da população. Sem commodities, e úteros crescendo, a fome deitava no colo do totalitarismo, mas só havia mamadeira - e o leite era de soja. Levaram-no à crença que o regime falhou e precisava ser reavaliado. Do contrario, o dragão asiático, sem pólvora para exalar fogo pelas fendas nasais, entraria em combustão.
Por conta de tais mudanças conseguimos aterrissar em Xangai, rua Wudong e ver, nos meninos-chinos, reminiscências do passado maomista e das dinastias que o tempo deixou pra trás. Caminhar pelas soleiras apreciando o arvoredo e jardins que compõem a bela universidade de finanças e economia -  e aquela escola de crianças - foi um exercício de reflexão política para deixar qualquer flaneur do Sena roendo os cotovelos. Em que pese o ar pesado, obrigando os chineses a máscaras, apreciar a Wudong me distraiu em cumprir meu objetivo: visitar o maior hospital de doenças pulmonares do mundo.
Em verdade, toda a minha vida em Xangai se resumiu aos 1,3km que fazia todos os dias para chegar ao Shanghai Pulmonary Hospital (SPH-Tongji University), sem qualquer risco - exceto no cruzamento da rua Wuchuan, defronte à entrada da Universidade de Finanças e Economia, em que bicicletas, carros e moto elétricas passam por cima dos sapatos, sem pedir licença. É claro que aqui e ali se via um corpo estendido no chão, ambulância ao redor com luzes vermelhas, isolando a área.
Quando dei por mim, estava entrando naquele hospital-escola e sentando na carteira para aprender novas lições sobre câncer de pulmão, num inglês saltitado pela dicção do mandarim.
Foram 15 dias intensos e nem pudemos visitar o Yang-tsé. Eu sentava todos os dias na mesma carteira, a prestar atenção nas aulas, nos casos clínicos diferentes - pela precocidade de diagnósticos. Também começava novas amizades e ouvia os menestréis, depois o rumo era o centro cirúrgico.
Eram todos os dias, exceto no ultimo, quando fui convocado por Zhu-Yumin e Jiang Ge Ning, os coordenadores, para uma lecture sobre cirurgia da tuberculose pulmonar, no meu inglês misturado com farinha de tapioca. No último diapositivo projetei a janela do meu poleiro, com o pôr-do-sol amazônico ao fundo. Era para explicar as minhas 36 horas entre aviões e aeroportos. A plateia percebeu que por ali passara meu destino. Riu. Riu com um sorriso verde-transparente aninhado naquela minha pausa pra beber água. Deu saudade do meu recôncavo. Já era hora de voltar e agradecer a serventia. 
Aprendi bem mais que a distância que me separava de casa, pois todo aquele tempo escorreu numa velocidade inversa à fome de escrever o que estava ali. Tentei de todas as formas organizar tudo em borrões, mas, bem antes do fim, o avião pousou na minha janela.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Academia Nacional de Medicina, 21 de junho de 2018


Senhoras e senhores, boa noite.
Saúdo inicialmente o presidente desta casa, o acadêmico Jorge Alberto Costa e Silva, o qual, em seu nome, reitero saudações aos demais colegas médicos e membros desta Academia.
É uma satisfação muito grande estar aqui. Recebi o convite de supetão. Na vida o bom chega de súbito. O resto, o que desperta tranqüilo é aquilo que, sem darmos conta, já havia acontecido. Um convite desses alivia-me os nervos e abre as comportas de minhas coronárias, sem deixar de ser desafiante, trepidante.
De imediato me fez rever outro recente convite feito pelo presidente do CBC, Savino Gasparini, para escrever sobre Jesse Teixeira para o Colégio Brasileiro de Cirurgiões. O texto será brevemente publicado na revista do CBC.
Eu me lembro muito bem a primeira vez que vi Jesse Teixeira. Como tantos cirurgiões de sua geração ele está indelevelmente ligado a uma paisagem de minha vida que me assinala no espaço e no tempo de aprendizado. 
A primeira frase que eu conheci foi: “Sinto-me satisfeito quando meus estagiários acabam o período de residência sabendo como drenar uma pleura”. Quando li a palavra estagiário tive uma dor em pontada ao respirar fundo. Eu acabara de chegar aquele lugar e estava me pondo em desafio - estaria eu ali apenas com esta perspectiva? A de aprender a drenar tórax?
A partir desta frase nasce a ideia de pesquisar sobre a vida de Jesse Teixeira. O alvo inicial seria um desafio literário. Como era o seu processo de criação? Ler seus textos é serpentear por um labirinto de pensamentos de causar cuíra no juízo. Esta ideia reavivou-se depois que li um discurso realizado no Hospital Mandaqui, ainda na década de 70, porventura da abertura de um congresso, em que ele reconstrói a história da cirurgia torácica como um personagem que vagueia entre a cortical e a medular de uma especialidade que todos tentavam decifrar.
O sentido educador e memorialista de seus textos elevam aos recônditos de uma leitura palatável. Por ser autodidata na especialidade, pois o professor não teve professor, quanto esmero havia ao construir uma cartilha de rotinas, escrevendo sobre o que fazia e o que criava. Tenho quase todas guardadas em minha casa, e me foram doadas pelo próprio.
Ele descreveu cada ideia, passo a passo, ao longo de seus mais de 50 anos como médico. Desde o Broncobar, com o famoso sinal da gota, para diagnóstico de doenças brônquicas por meio de broncografia, até o seus clampes e no auxílio do pulmoventilador de JJ Cabral de Almeida, seu fiel anestesiologista. Sobre tudo isso, ele escreveu como quem prepara seus alunos para o aprendizado. Como se fosse uma cartilha de boas maneiras.
Tem um grifo de Emerson, escritor americano que viveu nos idos de 1800: If we encounter a man of rare intellect, we should ask him what books He reads. Então eu ficava me perguntando sobre Jesse Teixeira. De que fonte literária ele bebia, ao escrever com tanta suavidade o seu pesado cotidiano?
Por intermédio de Jesse Teixeira Neto, fui revisitar a casa onde ele morou e rever a família, na rua Cedro, em novembro de 2016. Lá me encontrei seus filhos Bebel, Sebastião e d. Gleusa e fui muito bem recebido. No compartimento onde d. Gleusa se encontrava, à minha espera, havia uma grande estante, que ocupava toda a parede e estava socada de livros. Chamou-me atenção, entre tantos autores universais, um médico que se transfigurou em escritor: Pedro Nava. Nava era um memorialista, e penso que Jesse Teixeira tinha a mesma verve memorialista.  Um pouco diferente de Jesse, Nava partia do problema (a desgraçada doença) para o encantamento com a medicina. Tinha umas expressões que lembram, entre tantos, Oscar Wilde ou o nosso Augusto dos Anjos, em suas perplexidades de pensamentos. Jesse era bem mais sutil.
- Que pensas da vida? Perguntaram a Pedro Nava.
- A vida é como um anfiteatro anatômico: aí estudamos as chagas sempre abertas, vemos a podridão, o mal, o horror, o cancro e o pior de tudo a “hipocrisia do otimismo”, tudo num montão de lama – a sociedade.
— Que carreira pretendes seguir?
- A medicina.
— Por que a escolheste?
Porque é a que me oferece mais encantos, porque por intermédio dela, estudarei este emaranhado de vasos, esta reunião de músculos, esta teia de nervos que compõem este monte de elementos apodrecidos."
Certamente, por morar no Rio de Janeiro e serem contemporâneos, penso que os dois deviam se encontrar em tradicionais chás desta academia pra tomar um gole de memória e tradição. Muito provavelmente devem estar nos ouvindo em algum canto desta casa.
- Jesse, quem é esse tapuio, que vem lá do Norte pra falar de ti? Sussurraria Nava, com seu humor ácido.
Os demais elementos que compunham a sua verve literária vêm da leitura científica e do incansável exercício profissional até lapidar todas as ideias e pôr no papel. É o que se chama de refinamento do cotidiano.
Mas quem conviveu com o professor sabe que a boa leitura e a sua educação foram apenas o carretel pra ser o grande mestre, o loquaz oportuno e o cirurgião de esmero.  “Enquanto existir algum cirurgião de tórax que trabalhe com seriedade, que busque obstinadamente a inalcançável perfeição e que valorize a dignidade e a elegância, Jesse Teixeira continuará vivo”, grifou José Camargo, num escrito chamado, “Jesse Teixeira: um cirurgião”.
Para Fabio Jatene tinha também altruísmo. Ele costumava dizer que no seu serviço, "nenhum paciente era rejeitado, seja pela gravidade da doença, seja pela sua situação econômica". Posso afirmar que num dos depoimentos biográficos que coletei, ouvi o mesmo de seu filho Sebastião... e eu vivi isso à flor da minha pele, quando fui seu residente.
Jesse foi presidente do maior colegiado de cirurgia da America Latina, o CBC, com apenas 43 anos. Tornou-se não só fonte de inspiração a muitos jovens, mas também cortejado por renomados estrangeiros, destacando-se o canadense Grifith Pearson e vários brasileiros.
Eu confesso que gostaria de ter mais tempo para falar do meu professor, mas não é escopo deste evento. Até mesmo porque não é tão simples se achar palavras e sair borrifando aqui e ali para dizer de um acadêmico. Isto aqui é um templo sagrado de pensadores, e a palavra, como atriz, é cheia de segredos e tem seus disfarces: vem envolta em véus e o falante tem que saber usar a pena para desvirginar o verbo. Há até dor no parto das palavras. É quando ela vem atravessada para se abrir à ideia, como se, ao falar, ficasse impactada na cricóide.
Essas são as minhas palavras, transfiguradas em realidade, ressignificando a dor que a gente sente quando sente a lembrança desse grão-mestre.
O bicho-sentimento, que se comporta como um comichão, que caminha com qualquer aluno, naqueles primeiros dias de convívio era mistura de incerteza, lacuna e torpor, marcados desde quando éramos meros estagiários.
Com o bicho em doma, ao longo do convívio, afrouxaram-se as cordas do relógio, colocava-se tudo em vagareza e aliviava-se a dor pleural. Assim íamos construindo nossas notas, nossos passos. O professor quando falava, sua saliva lustrava nossos sapatos e aí começávamos a caminhar mais a vontade, reluzindo saberes, mesmo que o piso fosse escorregadio.
Cirurgião forte, como este de quem falamos, se enternece mesmo é com a amplidão de seus estilos e de seus ensinamentos. Aí lentamente íamos ganhando tônus e nos sentindo mais sóbrios, comparado ao torpor inicial. É assim a catarse do aprendizado que todos seus residentes viveram ao longo daquele convívio.
... e se alguém encontrá-lo, agora, estará ao lado de sua sombra – a família –, aquela que o conduziu por toda a vida. Ele, mesmo-mesmo, estará pastoreando seus meninos, sereno, com o olhar distante, desejoso de, na madrugada, deixar-se brincar com os vaga-lumes e tornar a escuridão leito vago para o aprendizado que se iniciou à luz de lamparina ao ler aquela placa na entrada do serviço.  

Muito obrigado.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A cor da violência

Lúcio Flávio Pinto, na abertura de sua agenda amazônica, assim define Belém (e por quê não o Brasil?), frente a onda de violência que acarpeta de sangue a cidade: “Já não se sabe com exatidão quem está matando e quem está morrendo nesses homicídios por atacado. A confusão é grande. Podem ser milícias ou o tráfico acertando contas [...]. Até investigar a sério ficou difícil, tão numerosas são as ocorrências...”
Os textos do jornalista escapelam o couro cabeludo da grande mídia e afronta os senhores do poder. Seus pensamentos críticos cortam mais que faca amolada em esmeril. Quem lê suas dissecações textuais, vive com as idéias em constante fagulhamento.
Lembrei dele ao encontrar um adolescente, na BR, vendendo o jornal de domingo, numa gaza que separa a “civilização” da periferia - onde se diz que a barbárie tem a chamejante cor vermelha. A manchete berrava: “Belém do Pará, refém do crime”. Eu lia enquanto semáforo vermelho. Espirrei com um gosto de epistaxe. Não era alergia, mas elegia - esse poema policial enclausurado na melancolia das manchetes nossas de todo dia.
Como todo retorno de BR, o semáforo demora. Baixei o vidro do carro e uma lufada de ar quente veio no meu rosto, até o jornaleiro se aproximar. Puxei assunto, para amenizar o sol do equador - queimando a moleira do garoto, protegida apenas por um boné.
- “Com essa minha alergia, quase espirro sangue com a manchete de hoje”.
- “O governo não faz nada, chefia”, respondeu ele em tom de propaganda eleitoreira, e já me oferecendo o periódico, quiçá um voto.
- “A gente também não ajuda... Você, sim, está ajudando”.
Ele soltou um “obrigado”, sem eu saber se foi pelo troco que deixei ou pelo elogio. 
Fui. Ao chegar ao hospital Metropolitano de Urgência e Emergência, onde se recebe as vítimas da violência urbana, quis saber o saldo do sanguinário sábado, rutilante naquela manchete. Sobre o dito saldo, mais vale o silêncio das calçadas lavadas após a passagem do rabecão. 
Sigo na visita, cadenciada pelos residentes e estudantes. A convivência com eles me faz esquecer aquela estampa de jornal, aquele sol na moleira do menino, assim como a segunda-feira, vigiando o saldo de domingo. Tudo na vã esperança que a terça-feira seja véspera do amanhã e um elo do branco com o amarelo e outros azuis e verdes à sombra da esperança de outras cores. 
Na volta pra casa, redescubro que a violência viola as cores da vida: do vermelho ao violeta; do branco ao preto - principalmente.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Top Knife, jornada na poesia


Se um dia me perguntarem o que serei.
Digo: médico de palavras simples.
Dessas que usam no alicerce da vida...
Priscila Franco, poeta.

A gente vive mesmo é de calçar sandálias, vagar mundos e contar fatos. De vez em quando sobra um tempinho para trabalhar e dar de comer pros peixinhos. Contar fatos me parece combinar com chocolate quente, então deixemos a fumaça desenhar arabescos no ar e penetrar pelas narinas.
Aconteceu por volta de 2008, num congresso Pan-americano, em Campinas. Eu tive uma participação longe de ser modesta, mas o meu interesse maior era conhecer o Keneth Mattox, considerado o bardo da cirurgia mundial, e apertar a mão daquele caubói texano. Ele já escreveu vários livros; comandou o resgate das vítimas do Katrina; de quebra também escreveu um capítulo denso num livro de cirurgia que escrevi em 2007 (EDUFPA) - e ainda fez a introdução. 
Eu precisava agradecer...
Na mesma laçada Mattox havia lançado “Top Knife – a arte e a estratégia da cirurgia do trauma.” Claro que comprei e ganhei um autógrafo, além de uma foto ao lado do baluarte. Alto, largo e claro, trajava um paletó de marca, envergava uma gravata com a bandeira texana e um chapelão ao melhor estilo caubói; tinha um ar juvenil e vivaz de quem só envelhece pelas rugas, pois pela alma haviam esquecido de avisar-lhe que os anos se passaram. Tivemos um bom aproach, apesar do meu inglês açaí-com-tapioca, e o dele, de texano com voz de trovão em estilo teatral.
Já de volta a Belém, na sala de aula e em visita com os alunos às enfermarias - e o top knife mattoxiano sobraçado -, uma jovem me abordou e achou o título assaz interessante, pois não é comum livros acadêmicos com alcunhas roliudianas. Disse-lhe que havia conversado com o autor e que era uma homenagem ao filme Top Gun – ases indomáveis, cuja estratégia de guerra do filme poderia ser comparada à da sala cirúrgica em situações “in extremis”.
        A aluna se chamava Priscila.  Ela anotou aquilo tudo e me mandou no dia seguinte um texto curto chamado “Top Knife – jornada na cirurgia”. Era uma alusão ao livro de Mattox. O texto é simplesmente fantástico e representa o olhar de um estudante frente às ciladas cirúrgicas. Ele encontra-se afixado na porta do Serviço de Cirurgia e será abertura do manual de cirurgia da UFPA, endereçado aos alunos.
      Após se graduar, Priscila Franco pegou o beco e foi para São Paulo fazer residência médica. Seu último texto postado foi de julho de 2011 e nunca mais li mais nada. Fui para o noticiário e achei o motivo: depois de um plantão pesado, voltando para casa por uma dessas estradas paulistas, um caminhão invadiu sua pista e ceifou sua vida. Alguns acharam que ela estava cansada do plantão e havia perdido o reflexo. O que ficou da médica, escritora e poeta foram alguns versos, lembranças do internato e também essa pequena peça que dorme de luz acesa nas ideias de Keneth Mattox, e que será imortalizada em breve.
       O que temos agora é uma amostra grátis de tantos poemas que ela prescreveu. São textos incrustados na contextualização médica, com uma estética provocadora que invoca um transplante de ideias e de resistência à verborragia indolente, quase sangrante, que assola a linguagem médica - que ora dorme apedrejando o inconsciente, ora passeia pela poesia moderna jogando flores ao léu.

Se um dia me perguntarem o que serei
Digo: médico de palavras simples
Dessas que usam no alicerce da vida
Mas que andam ao descaso por aí...

A palavra paixão. 
Virou esquizofrênica! 
Anda tendo alucinações. 
Acha que é amor.

E o amor? Hipocondríaco! 
Deu-se mil doenças... 
E parece que morre amanhã...

A coragem, em regular estado geral, 
diz que contraiu o vírus da indolência 
e desmotivação.

A amizade nem se fala... 
Uma febre de origem desconhecida. 
Parece a palavra colega quando estava doente. 
Será que é a mesma coisa?

O respeito é o mais perdido. 
Não sabe nem que médico procurar. 
Pode ser o mesmo da educação, 
que anda se queixando,há tempos, 
de dores na sua espinha dorsal...

A fidelidade, por acidente de trabalho, 
adquiriu doença venérea. 
Queixa-se de esquentamento...

A gratidão. 
Diagnóstico a esclarecer. 
Parece doença rara.

A honestidade, coitada. 
Para essa, nem concorrência tem... 
Talvez a mais moribunda de todas...

E oxalá que ninguém morra dessas verdades...

Se um dia me perguntarem o que serei
Digo médico de palavras simples
Médico de palavras simples
Palavras simples
Simples!

segunda-feira, 5 de março de 2018

Ao mestre com carinho

O domingo, 25, era de um fevereiro pós-carnaval 2018. O Rio de Janeiro, sob os auspícios do exército, vigiava os morros, entretanto, havia uma porta de igreja, no bairro da Gávea, totalmente aberta, e cercada por favelas da Rocinha e Vidigal. Trata-se de uma igreja ampla e moderna, pelas quais os vitrais reproduzem desenhos de Cândido PortinariLá, o padre Djalma, com um olho grudado na missa e outro na hóstia, via os holofotes da nova ordem.
Entre tantas famílias presentes naquela missa dominical, havia os Teixeira, composta de três descendentes diretos e uma leva de treze netos, acomodados em fileiras de bancos. Com a amizade que guardava, o padre destacou a história do patriarca Jesse Teixeira.
Aquele domingo 25 e aquela família dizem-lhe algum respeito? Provavelmente não, se você for um médico formado depois de 1993, ano da morte de Jesse, aos 75. Foi a partir desta década que uma geração inteira começou a se conectar à tecnologia - que eclodiu no final daquele período, com a chegada da videocirurgia.
Enquanto a tecnologia ensaiava sua chegada ao interior da caixa torácica, vivia-se a grande epopéia dos transplantes pulmonares no Brasil; a cirurgia da traqueia tornara-se mais forte na especialidade e, logo em seguida, o memorial da América Latina via o resplandecer de uma nova sociedade médica, a dos cirurgiões torácicos.
Mas, aquele domingo, dizia-lhe alguma coisa? Sim. Cem anos atrás nascia Jesse Pandolpho Teixeira e aquela família estava ali para celebrar seu nascimento, massivamente representada por filhos, netos e bisnetos. A cirurgiã Maria Morard representava todos os seus discípulos espalhado por esse imenso país.
Com a vocação médica despertada desde a adolescência, Jesse partiu de sua cidade natal, Vitória, no Espírito Santo, para o Rio de Janeiro, ainda aos 16 anos, e logo ingressou na faculdade de medicina. Triunfou por formar uma escola médica de cirurgiões torácicos e uma legião de admiradores. Fundou seu próprio programa de residência, que começou no Sanatório Santa Maria, em Jacarepaguá, e depois foi alicerçado na Rua da Glória, hospital da Beneficência Portuguesa. Furtou-se à sedução das grandes dos cânones universitários, porém sem abandonar os princípios da academia e os rigores da metodologia científica. Publicou muito e escreveu capítulos e livro. Viajou pelo mundo, disseminando a cultura cirúrgica do Brasil, sempre ao lado de sua Gleusa.
Juntou-se a Haroldo Meyer e João Batista Arruda para estender seu professorado ao Hospital de Curicica e formar duas escolas de cirurgia com as mesmas rotinas. Participou ativamente do nascimento da especialidade, nos final dos anos 40, quando a anestesia geral ainda era sonho quimérico. Tomou a cirurgia da tuberculose como seu maior legado e depois se estendeu ao câncer de pulmão, cirurgia da traqueia e parede torácica. Participou do nascimento da cirurgia cardíaca e ovacionou o transplante pulmonar.  Criou vários instrumentos cirúrgicos e adaptou outros, mas o maior de todos os seus legados foram os ensinamentos, que ainda se estendeu a um dos filhos.
“Não sei como as lembranças são conservadas, mas algumas duram para sempre...”, grifou José Camargo em “Saudades do meu pai”, texto que simboliza os ensinamentos e a convivência paternalista. Pode muito bem representar a lembrança remota e adocicada de ares respirados em meio à poluição de desânimos diários, que só nos salva da asfixia quando olhamos para frente e percebemos que a porta da igreja sempre estará aberta.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O nomadismo da cirurgia

“(...) todos os curandeiros eram malditos sanguessugas que faziam mais mal do que bem...”
Do personagem Bukerel em O físico, de Noah Gordon

Rob Cole é um órfão inglês que, após a perda dos pais, torna-se um assistente de curandeiro e deseja vencer a doença. Depois de adulto ouve falar de uma fabulosa escola de medicina na Pérsia, liderada por Avicena, para onde viaja a fim de aprender os segredos da cura. O cenário é da Idade Média e está romanceado em O Físico, de Noah Gordon. Nota-se que o termo físico servia também, à época, para designar os médicos.
Diego Rivas é um cirurgião espanhol da Galícia que, após visitar os EUA, toma confiança em realizar operações complexas mediante única mini-incisão (uniportal). Abraça a técnica operatória, passa a divulgá-la no mundo médico e ganha devotos. Depois dos 40 anos, comemorados no Brasil, ouve falar da escola de cirurgia da China e, em pouco tempo, estará num hospital de Shangai, onde foi aninhado. A intensa prática o levará a se aprimorar e, pouco depois, passa a ensinar sua técnica, mundo afora.
A pretensão aqui não é contar, com precisão, tópicos da cirurgia contemporânea, mas tão somente narrar a grande aventura de um nômade que, dos caminhos de Compostela, segue para o oriente, em época onde fronteiras estrangeiras fecham-se com trancas de castelo medieval, sabendo-se que a China de hoje, além da riqueza industrial, tem outra maior que encanta: o saber.
Da saga do jovem Rob, vê-se certo paralelo de poucos homens que ainda ousam, nos dias de hoje, romper fronteiras. Isto nos faz crer que a muralha da China tornou-se apenas ponto turístico em meio à tênue linha do passado da lembrança da divisão das estepes. Os chineses de hoje abordam com grande propriedade e leveza a partilha de ensinamentos, tal como o persa Avicena, personagem de Gordon.
Usando figuras reais que se tornaram mito - como o próprio Avicena-, Diego procura desvestir-se de um possível olhar maniqueísta ocidental, para traçar um panorama da riqueza cultural e social não só da China, mas de outros tantos lugares que visita – muitas vezes o Brasil –, para mostrar as origens do eterno aprendizado entre os povos, independente de suas idiossincrasias e tez racial. Isso o possibilita mesclar sabedoria com abraços fraternos.
Sem deixar de apontar as origens antropológicas de cada elemento que edifica a formação do cirurgião moderno, Diego transfere para cada aprendiz de sua técnica o mesmo olhar com que o sábio Avicena fita Rob Cole, mistura típica de fascínio que acomete qualquer pessoa que abandona seu húmus e seu modo de pensar, para se pôr de pé diante de outra sociedade.
No meio desse caldeirão, o cirurgião-nômade tempera todas as questões filosóficas e dados históricos com as cores e os cheiros do mundo, deixando os temores de lado a cada caminhada, sob a epiderme de Rob Cole.
O nomadismo de Rob e os ensinamentos de Avicena convivem no mesmo paletó de Diego, que faz de seus périplos pelos quatro cantos um tempo histórico num templo vivo e presente no imaginário coletivo de seus séquitos, que também passam a visitá-lo entre a Galícia, seu umbigo, e Shangai, sua Pérsia.
Lembremos das lendas da Távola Redonda e dos cavaleiros de armadura para nos debruçar sobre o fervilhante caldeirão cultural no qual os homens d’antanho se fitavam serenamente. Depois vieram os diálogos entre Dom Quixote e Sancho, até se chegar aos embaraços criados, hoje, por aqueles que travam a troca do conhecimento. Diego afugenta tudo isso, pois é personagem encantado e vivo, que parece sair das páginas da literatura rútila. É um desses que duvidamos poder existir, mas que convive ao nosso lado, nestes tempos arredios e de olhares atravessados.
O Diego de hoje se veste de Rob Cole para sentar na poltrona e esperar as portas travarem para decolagem. Assim que aterrissa reverte-se em Avicena e passa a ensinar pela luz da convivência, não importando o que esteja no foco daquele que busca extirpar, suturar, aliviar ou curar, seja horizonte amplo ou campo estreito, seja olhar grande ou pequeno.

Roger Normando – Professor de Cirurgia Torácica, Universidade Federal do Pará, Brasil.