domingo, 31 de julho de 2016

Eco no boteco

Porque nem todas as verdades são para todos os ouvidos,
nem todas as mentiras podem ser conhecidas como tais por uma alma piedosa
Umberto Eco, em: "O nome da rosa" 

             Noite dessa eu estava com o pensamento pervertido, atravessado de cuíra por uma cerveja, querendo beliscar um camarão após um dia excruciante, daqueles de arrancar o pelo, quando, a fazer contas -noves fora- fui bater no “Boteco do Camarão” do chef Herlander Andrade, colega de faculdade.  
Quando peço mesa, eis que me deparo com Jorge Ivan, também parceiro de banco de faculdade, sentado ao lado do Fonseca, outro-um. Puxei a cadeira, sentei e brindamos. Seguíamos ao deleite de um camarão no bafo e uma deliciosa malte, servida pelo chef, quando Jorge Ivan me sai com essa pérola:
- Sabe, maninho, uma das coisas que mais eu tenho receio quando confabulo com algumas beatas ou cristãos fervorosos, é que não me apetece a possibilidade de ir pro céu.
Eu, ainda com a massa cinzenta livre de teor alcoólico, ajeitei a cadeira e pus-me a ouvir mais essa. Ele prosseguiu.
- Perco o fôlego e chego a ficar sem suspirar igual ao Luiz na foto (Luiz Augusto, também colega de faculdade que costuma a tirar foto com o tórax hiperinsuflado). Penso só da possibilidade de não torcer pro Botafogo. Ave Maria! Eu, hein! Não poder espiar - até torcer todo o pescoço - quando passa uma mulher, só pra ver o rebolado dela! Não poder arrotar e nem soltar um flato livremente. Que sofrimento, credo! Sem aquela liberdade de coçar a região pudenda e nem fazer pipi em pé! É o fim! Tirar o muco do nariz e ficar fazendo bolinhas com ela entre os dedos, ou quem sabe saborear displicentemente igual ao técnico da Alemanha. É o fim! Não poder tomar uma caipirinha de São Jorge, mesmo quando caipira é aquela vizinha de fazenda, que por razões não se pode beber! Sabe, não poder comer um camarão no bafo igual esse aqui do Boteco do Camarão ou da fazendinha de Macapá. Sei lá! Não poder zapear ou assistir os vídeos ou fotos de sacanagem que só tem no grupo da Choupana. Eu, hein, Rosa! Ou nem curtir as estações das docas, andar no Djalma Dutra ou no Padre Eutíquio sem dar ou levar uma esfregada. Sei não! Não assistir de camarote as fotos do nascer e do por-do-sol do Normando, não voar no Flanar ou não poder ler as mal traçadas linhas do Labareda ou do Corisco. Não poder me deleitar com a paixão do Mauro pela sua amada Dilma. Eu hein, Zé! Prefiro ficar no meu inferninho a me perder por aí, enfim!
Comecei a rir e anotar. Logo depois surge Dudu, o filho, de cara limpa, chave do carro, e diz: 
- Pai, Te aquieta. Para de beber, pai. Vamos pra casa.
- Relaxa, meu filho! Olhou pro ponteiro do relógio, fez pausa e disse:
- Tá bom. Já vou, mas vale lembrar, filho, que ainda bem que eu não sou o único que bebo neste universo.  Tampouco o único a delirar “humoradessa”... Graças à Deus.
Abastecido do Camarão no bafo e da cerveja bem gelada, peguei um táxi e fui pra casa e anotar mais essa. Aninhei-me então neste espaço, envolvi-me numa coberta de fulgores literários e caí num pesado reflexo do pensamento anticristo de boteco, aguçado pelo libelo do Jorge Ivan. Fui bater em Umberto Eco em, o “O nome da rosa”, sua obra maior, para justapor ao pensamento botecário do Jorge Ivan.
Entre uma página e outra, me deparei com essa passagem que, data vênia ao semiólogo, enterrado em fevereiro deste ano, transcrevo nessas mal traçadas linhas:
“Os monstros existem porque fazem parte do desígnio divino e, nas mesma feições horríveis dos monstros, revela-se a potencia do Criador. Assim, existem por desígnios divino também os livros dos magos, as cabalas dos judeus, as fábulas dos poetas pagãos, as mentiras dos infiéis e a prosopopéia do Jorge Ivan”.

domingo, 10 de julho de 2016

Carta ao diretor

Ao pão e ao vinho que lhe servem de repasto
Eis que misturam cinza e pútridos bagaços
Charles Baudelaire, em: “Flores do mal”

Caríssimo diretor,
Certamente a mãezinha da pequena Sofia - de um ano e nove meses -, não terá chance de ler “Flores do Mal” (Les Fleurs du mal, em francês), de Baudelaire. Mas se o senhor der de cara com a obra, não pense sorrateiro. Avance. Enganche seu cérebro na ideia e divague pelos poemas - sem desespero. Tampouco pense que tudo possa virar urtiga e passes a passar suas manhãs inteiras com pruridos na Pineal.
Mas vou adiantar: “Flores do Mal” vai lhe expulsar do paraíso. Vai fazer o senhor entender que no pupunhal existe sombra, mas ao encostares ao tronco, ou deitares na relva em busca de descanso, serás apunhalado pelo espinho. A mãezinha não sabe da existência de Baudelaire, mas sabe que debaixo dessa palmeira existem exílio e alívio, basta não se encostar.
Sofia teve pneumonia necrosante, cuja imagética desvela uma cratera no pulmão. Após 15 dias de pequenas operações e antibióticos pesados, que mais parecia aquele cogumelo de urânio jogado sobre Hiroshima, restou a árvore respiratória esfacelada, carcomida por bactérias, mas a vida salva. Uma operação maior seria para tirar os resíduos pútridos da infecção e identificar possíveis locais de escapamento de ar para se corrigir por manobra cirúrgica.
A criança, antes de se deitar para iniciar seu périplo, sorria de tudo. Desde a maria-chiquinha que as enfermeiras ornavam com gazes, aos adereços para monitoração - ainda tinha o bipe dos aparelhos marcando os compassos do coração avexado. Ali, dentro daquele santuário, todos colimavam olhares abençoados para Sofia, sobrando uns tantos raios para Pompeu, o alquimista da anestesia. Aline, por sua vez, fitava-me com certa desconfiança; a mãe estava perdida no meu olhar.
A operação, em si, foi difícil, longa, mas nada que a separe da realidade de um hospital público brasileiro, cujos pacientes já chegam em fase avançada de suas mazelas. Tudo começou às quatro da tarde e varou a noite da sexta-feira, até acabar, lá pelas oito. A questão baudelairiana, entre cinzas e bagaços, vem a seguir: caso grave e o hospital não dispõe de UTI pediátrica e especialistas, apenas o leito. Nesta sexta, nem a ímpia fantasia de um leito fazia sombra em meu delírio.
Mas para enfermeiras e residentes isso nunca foi problema. Eles cavam noite ao lado de pacientes em busca dos sinais vitais desaparecidos na nebulosidade de uma operação torácica. Cochilo, para eles, é para fracos. Durante a madrugada ficaram me informando, on line, sobre os tais sinais vitais e o perigo maior: risco de sangramento para quem tem apenas 8 kg.
Do outro lado da linha eu ouvia Summertime, na voz da Natália, O “afoxé do guarda chuva achado” na do Marco. O outro Marco cantava Renato Russo; Eudes e Enrico em ação de graças a Pedrinho e Joãozinho. Até baixar a adrenalina e o sono chegar, já madrugava. Deitei ao acalanto do ressurgimento dos sinais vitais, quando a ampulheta da morte fora desligada. No véu da noite, Sofia sofreu. Vivia assombrosas horas entubada naquela sala vazia e fria de sentimentos... e acalentos.
Cedo despertei com rajadas de vento e a luz leste. Corri pra ver Sofia. Cheguei e ainda artificialmente ao léu da enfermaria comunitária iluminada pelo mesmo sol que me despertou. Vi que voltaram as marias-chiquinhas. Alívio e esperança!
A mãe carregava o olhar frontal excruciante da poesia de Baudelaire, pois não entendia que o funeral do seu anjo estava adiado. Concluí que já não sei mais caminhar descalço e atravessar cercas de arame farpado, pois Sofia furou minhas luvas com espinhos de pupunheira. Só sobrou-me a ponta dos dedos para escrever sobre suas dores.
Tenha uma boa segunda-feira, senhor diretor. Sigamos ao pão e vinho que nos servem de repasto.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A fogueira dos Sussuarana

Quando ontem adormeci                                                        
Na noite de São João                                            
Havia alegria e rumor                                  
Estrondos de bombas                               
luzes de Bengala                    
Vozes, cantigas e risos        
Ao pé das fogueiras acesas. 
Manuel Bandeira

Moléstia extirpada, indumentária desamarrada, assim como luvas no expurgo – e paciente já acordado-, fui içado para um terreiro de São João. Era dos Sussuarana, família que mantém a tradição de fazer o fogo na porta de casa e deixar a madeira queimar a ponto de se sentir o bafo. Tinha pé-de-moleque, mungunzá, arroz com galinha, maniçoba, foguetinho, estalinho e crianças pulando em volta do fogo a imitar as tradições nordestinas.
Só não tinha rapadura, ronco do fole e luz elétrica, pois, um vendaval gerou pane no sistema de transmissão, causando caos em Macapá. Aquela escuridão era o que faltava para a fogueira ganhar contornos de originalidade.
Lá o fogo sobe e o som desce, mas não vai até o sol raiar. Quando os pequenininhos começaram a esboçar sono, os pais arrumaram as mochilas e se mandaram, de modo que antes da meia-noite a festinha já findava. Só ficaram os marmanjos a bebericar sobre o vendaval da origem dos Sussuarana.
A reunião anual da família invocava quatro gerações, rara para os dias de hoje.  É a forma de homenagear o chefe do clã e fazer vez à origem do nome. Os Sussuarana, vi na cartilha, vem dos Suassuna que, via costeira, migraram do nordeste, reescrevendo a história da seca. Mas os descendentes descrêem dessa hipótese e acreditam na raiz amazônica da alcunha. Seja lenda ou verdade, pouco importa, vale o relato literário.
O fundador do terreiro, que já subiu com os balões juninos do passado, foi o tapuio João Sussuarana, cujo filho, Orivan, casou-se com Terezinha, a matriarca do terreiro. Orivan costumava lembrar o mês de Junho como festa do aniversário de João, seu pai, a ser comemorado no dia de são João, mês que ele elegeu ter nascido, já que não tinha sequer certidão de vida.
Foi quando a conversa chegou ao umbigo. Reza que o paladino sentia inveja de seus parceiros pelo fato de não ter um sobrenome. Era homem rude, musculoso, de bigode baixo, tez paquidérmica de tanto sol e baixa estatura, mas não passava de João. Não fazia ideia da idade, pois perdera os pais cedo, por conta das agruras da caatinga.
Quando chegou na costa do Amapá, em barco, ficou encantado com a vegetação e a abundancia de água. Certa vez montou numa canoa e pegou o Jandiá. Quer inverno, quer verão, a água daquele lugar era elemento dominante. O alagado da terra exsuda linfa e vegetação; o ar é saturado de umidade, que nas noites carregadas de sereno envolve como um lençol molhado; o reino animal e vegetal é representado quase que só por aquáticos1, o chão deixa-se carimbar pelas pegadas de onças e outros bichos.
Beirando o Jandiá, João seguiu pegadas suspeitas. À frente deparou-se com uma onça parda, bebendo água, também conhecida como Sussuarana. Ela espreitava João com um olhar voraz, de quem queria fazer caldeirada. Mostrou as presas como gesto de soberba. João vergou na mão direita um pedaço de galho seco e denso, e na esquerda uma peixeira, herança do pai. Sua ideia era abraçar a onça e dá-lhe no pescoço, jamais fugir. Sussurrou mais que a Sussuarana, a ponto dela dar um passo para trás e recolher a dentadura. Não deu em morte, mas onça vazou mata adentro num compasso desconfiado.
No dia seguinte João voltou ao Jandiá. Era crepúsculo do dia. Reencontrou a mesma Felis Concorra lambendo o rio. Numa batalha em que não lhe custou 0,5ml de sangue, seccionou a jugular. O felino, esguichando sangue, tentou escapar, mas sucumbiu a menos de quinze metros: choque hipovolêmico exanguinário. O sangue do felino toldou a água do Jandiá e calou o bioma. João arrastou a Sussuarana para canoa e transportou o felino até a cidade. Ganhou o nome de João da Sussuarana e, por conta da epopeia, chegou a fundar bloco carnavalesco conhecido como "João da onça".
Portanto, são João, para os Sussuarana, soa memória. O fogo, reacendido aos junhos serena origens.

domingo, 5 de junho de 2016

Xingu, a entropia da Floresta

No meio de uma enorme nuvem de poeira vermelha chegavam os colonos [...];
Os flagelados se acumulavam em cima da carga geral como podiam [...];
Gente branca, loura, olhos de gato, gazos. Descendentes de italianos, alemães, polacos outros que tais, experimentados no trato com a terra. Outra cultura. Um choque de civilização, produção, e produtividade àquelas gentes ignorantes e indolentes.
André Nunes, em: Xingu – causos e crônicas.

Dois velhos amigos do Xingu rabiscaram suas espirais do tempo e me viram em suas memórias. Foi quando pousei em Altamira - a trabalho. Levei o caderninho para anotar coisinhas seráficas sobre o rio.
Foto: Roger Normando
A partida de Belém foi cedo, logo que o sol lampejou, dando sensação vistosa na alma e brilho na lâmina fosca de meu bisturi. Na chegada relembrei da geografia amazônica que aprendi lá no interior do Acre. Irinéia, a professora, me frisava que Altamira era o maior município do mundo. Hoje já retiraram o título, mas na minha variância continuará sendo a xerife das terras. Depois Altamira voltou para mim como símbolo do progresso na Amazônia, pela película Bye Bye Brasil.              
De cima, fitando o rio, vê-se um desenho magnetizante que misgalha nossa massa cinzenta.  A gente fica gito-gito diante daquela nobreza e imensidão - eu do tamanho de uma pulga. Ao plainar vamos nos achegando, tentando brechar pela janela a Grande Volta do Xingu e seus 11.000MW de potência, a Belo Monte das discórdias.
Foto: Roger Normando
De uns tempos pra cá Altamira voltou a virar mira do mundo. A transamazônica a colocou no roteiro das estradas e Belo Monte na trilha do Xingu. Mas os donos da terra são outros e, enquanto o acórdão não chega, essa beligerância tem rendido violência e violações, que passarão de raspão por estas mal traçadas linhas. Sem tutano para discutir digressões antropológicas, vim apenas para cochichar com as águas do Xingu.
Em minha lide pelos corredores do Hospital regional, um dos 10 melhores SUS, deparo-me com a triste notícia que entre as principais inquietações e desafios da saúde são a violência rural e as virulentas viroses entre indiozinhos. Dá dó ver um Assurini acamado e amuado. Há os que chegam a ser entubados e permanecem em prótese ventilatória como ultimo recurso antes de partir. A maioria se salva, mesmo assim desconforta a gente ver aquele tubo goela abaixo. Desconfia-se que o H1N1 esteja visitando algumas tribos e, desproteinizados e imunologicamente comprometidos, as crianças são alvos frágeis e de prognóstico sombrio, a lembrar os relatos dos irmãos Villas-Boas.
Outra intempérie da região é a sangraria que escorre pelos ralos da cidade. O crescimento desalinhado da região combinou com a transamazônica mal engendrada, que trouxe, off-road, bala e cartucheira contra as flechas Xipayas. Os resultados são ferimentos cada vez mais complexos. Lá os cirurgiões recuperam intestino, fígado, pulmões e traquéias na mesma batida que as viroses acometem ararinhas. Cirurgiões passam a noite de pé, tesos, e os pediatras não desgrudam o olho dos pequenos.
Essa mortandade por infecção dos brancos não vem de hoje. Tempos passado, séculos XVIII, segundo o escritor Marcio Souza em seu recente Amazônia indígena, 40 mil índios foram dizimados por uma epidemia de varíola no entorno de Manaus, vetoriada por soldados portugueses. Equivale a quase metade de população de Altamira que neste surto já enfileirou nove curumins.
Canoas embicadas para o fundo (Foto: Roger Normando)
Em A batalha do riozinho do Anfrisio, André Nunes relata matança de índios a céu aberto com requintes de crueldade pelo entorno do Xingu. Até um tempo desses, isso era tão comum quanto carbonizar Pataxó em parada de ônibus.
Se Cacá Diegues quisesse rodar novo Bye Bye Brasil em Altamira teria que reinventar a paisagem local ou ir pra Hollywood e montar outra caravana Rolidei, pois, por aqui, o Xingu está ornamentado com outra parafernália... e custa ver canoa embicada e mulheres destripando peixes... o que mais se vê é terra revirada. 

sábado, 4 de junho de 2016

Sobre lutas universais e a gratidão à Marga Rothe

#NiUnaMenos Foto: Erika Morhy

"Ao calabouço não voltamos nunca mais", diziam as travestis Foto: Erika Morhy

"Vivas nos queremos" Foto: Erika Morhy 

Organizações sindicais e político-partidárias maracram presença Foto: Erika Morhy

Recado era o mesmo em diferentes linguagens Foto: Erika Morhy

Eu mesma não tenho fotos com Rosa Marga Rothe. Mas imagens não me faltam desta mulher que tem sua trajetória definitivamente gravada na luta por justiça na Amazônia paraense. Imagens que construí ao longo de minha carreira como jornalista, ela já referência para dores compartilhadas entre tantos rincões do estado. Imagens que manuseei durante minha passagem pela Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) e que ela mesma chegou a rever durante os saraus da Memória, em mais alguns de seus gestos de generosidade com quem aspira contribuir com as causas populares. Imagens dela com amigos em comum... Mas, neste dia de seu adeus a esta etapa de sua vida, eu me misturava a um sem fim de outras imagens. Dessas imagens que também dizem muito de Marga e de batalhas universais, como as que são travadas por quem não engole uma cultura atávica, machista, assassina.

Neste 03 de junho de 2016, Marga deixava transcorrer, em Belém, seus últimos instantes de enfretamento a um câncer. Já eu estava de braços dados à minha filha, em Buenos Aires, na segunda marcha que ficou mais conhecida por seu grito de guerra: Ni Una Menos. Nenhuma a menos! Tantos os casos de abusos perpetrados pelas mãos do machismo que a Argentina se insurgiu e mostrou ao mundo a força da organização de quem quer mudar o curso da vida. Lá estava eu, eu e Helena instigadas pela causa e irmanadas com o Coletivo Passarinho, de brasileiros que vivem na capital do país.

Enquanto me emocionava com as manifestações de repúdio às violações comuns em tantas partes do planeta; enquanto lembrava das escolhas feitas entre dias de dedicação acadêmica, de debate político e de parcerias domésticas; enquanto eu me misturava a tudo isso, Marga cumpria com dignidade seus mais de 70 anos de idade.

Convivi tão pouco com este primor de ser da natureza que chega a parecer duvidosa para mim sua influência sobre minhas reflexões existenciais. Mas cada memória que me ocorre dela me faz ter certeza de que ela me inspira, sim. Os últimos contatos que tive com Rosa foram na própria entidade que ela ajudou a criar e que dirigiu por anos e que a tinha como conselheira até hoje. Ali no auditório da SDDH e eu quem pode ir até lá ouviu dela uma fartura de detalhes sobre a história que ela ajudou a construir no Pará diante da luta pela terra, da luta pela democracia, da luta pela sobrevivência, da luta por justiça. Não duvidou diante de nossos convites para os saraus da Memória; dava trabalho à doença fazia anos; não se dobrava a ela; ultrapassava seus limites. Que mulher bonita! Que mulher emocionante! Sou grata a ela por isso. Sou grata à SDDH também, que presta sua homenagem indispensável.

Quando tomo conhecimento de que Marga faleceu nesta manhã do dia 4, penso que cada pessoa que teve a oportunidade de conviver com ela, tenha sido em qualquer proporção e intensidade, deve estar bastante triste com sua partida. As separações em si me parecem um momento de dor, com mais ou menos sofrimento. Espero que saibamos fazer nossos lutos e não nos neguemos jamais a nenhuma luta por justiça. Onde quer que estejamos.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Yes, nós temos jazz

 Tem que ter pulmão, resistência física. E isso está acabando.
Já escrever não requer tanto esforço físico”
Luis Fernado Veríssimo, músico e escritor.

Preservation Hall, New Orleans-LA, EUA
Enquanto a flecha zune e atinge o braço estendido da população desavisada eu me liberto da notícia indi-gente e me apresento disfarçado para tamborilar textos autóctones sobre jazz, feito quem entende de música, mesmo em saber que nada sei. Não-não, eu não entendo de música e, no máximo, pago ingresso, bato palmas e grito: Bravo!  É o que tenho feito quando a mão do tempo afasta-se do meu copo de cerveja, e me deixa de bandeja tertúlias com amigos de bar, sem ter que olhar para o ponteiro das horas e para as dissonâncias do tema.
Sempre que posso, aos sábados acordo cedo, cumpro com as obrigações e rasgo para o Igarapé das Almas, não em busca de alma penada, ou de reminiscências da cabanagem e dos cabanos que por lá teriam escondido suas armas (ou alma?), mas em busca da alma da música, ou a música da alma: o jazz. Disfarçando, e como se fosse comprar parafuso pro meu hardware, sento e dou ouvido à blue note em formato HD em 3D, no epicentro do blues, quando o sol do meio-dia beira a linha do equador a ponto de derreter meu toutiço.
Para escrever sobre jazz, precisaria vestir-me de Eric Hobsbawn e ter neurônios alongados para analisar o entorno da historiologia. Sem deixar de falar do Luis Fernando Veríssimo, que escreve com frequência, paixão e profundidade sobre sua maior inclinação musical, retratando grandes nomes como Miles Davis, Charlie Parker, Chet Baker e Gerry Mulligan, entre outros. Veríssimo trata o jazz como se fosse seu prato predileto, antes de começar a escrever seus textos vibrantes, sonorizado em grandes idéias - longe, estou longe disso. Escrevo como um reles cabano, a procurar vestígios de conhecimento entre uma prosa e outra diluída no meio de tanta gente bamba.
A começar pelo Paulinho Assumpção, que sempre me percute de informação; também preciso ouvir Nego Nelson e a sua forma de se comunicar com o Violão e os próprios sentidos. Tem ainda muito mais gente: o Bob Freitas, por exemplo, que toca como se tivesse degustando um Malbec argentino. E por aí vai, estes me dão a liberdade do abraço e a prisão de meu respeito. Nego Nelson quando me encontra sempre tem uma piada encaixotada para contar, certamente para disfarçar aquele pedaço de pulmão que dele tirei e joguei no laboratório para dar crédito à vida... e deu!
Quando todos esses jazzistas de alma se reúnem assim quando o sol do meio-dia nos tempera, a gente sente que New Orleans está mais perto, e que a Bourbon e a Perdidos Street saem da sombra da memória, vestem-se de personalidades e vêm bater aqui no Igarapé das Almas, armadas do sentimento de Grandpa Elliot e Kzan Gama. Sim, Elliot deu à rua alma e deu ao jazz rua. Foi quando as ruas começaram a ter consonância com a sonoridade e passaram a andar despidas do sossego.
Yes, nós temos jazz, nós temos alma, "invés" de só osso. Apenas falta-me tutano para escrever sobre tantos talentos e fôlego para respirar tanta musicalidade. Por enquanto fico com as palavras de Hobsbawn: “o fã do jazz, portanto, raramente é músico”. Aqui estou, então, entre palavras, disfarçando minhas palmas.

domingo, 22 de maio de 2016

José Serra é recebido com protesto em Buenos Aires





A agenda argentina de José Serra, ministro interino de Relações Exteriores do Brasil, mobilizou dezenas de jovens para uma vigília, no início da noite deste domingo (22), em frente à residência da Embaixada do país em Buenos Aires, no refinado bairro da Recoleta. O tucano foi designado pelo presidente interino, Michel Temer, a fazer uma visita ao país "com o qual passamos a compartilhar referência semelhantes para a reorganização política e da economia", conforme definiu Serra em seu discurso de posse.

Além dos tradicionais cartazes e faixas, tambores e apitos, carros-sons e bandeiras, também foi preparada uma boa quantidade de inusitadas bolinhas de papel, para lembrar ao ilustre visitante as eleições de 2010, quando o então candidato pelo PSDB se dedicou a uma série de exames médicos depois de receber uma bolinha de papel na cabeça, atirada por manifestantes contrários à política tucana.

Além de brasileiros, argentinos também participaram do protesto, que seguirá o trajeto do ministro interino na capital azul e branca. A impopularidade de ambos os governos é notória.

O recado foi claro: não reconhecem um governo nascido de um golpe no Brasil e reprovam a sinalização positiva do governo macrista a ele. O enfrentamento pacífico vai continuar e ninguém vai se intimidar com policiais que mantiveram distância estratégica dos manifestantes.

Tomadas as duas entradas principais de veículos tanto na Embaixada quanto na residência – que se comunicam estruturalmente -, Serra entrou no prédio pelo caminho da cavalaria, mais utilizada por pedestres em ocasiões festivas. Na manhã de segunda-feira (23), as agendas prometem se cruzar novamente. Vai ter luta, garantem. E eu acho ótimo!

Fotos: Erika Morhy

domingo, 15 de maio de 2016

Sejamos selvagens sob controle?


Raúl Zaffaroni, entre representates de Clacso e Umet (Foto: Erika Morhy)

Alguém aqui se preocupou com o que acontecia no Brasil em 1964? Pode-se ouvir um curto e fundo silêncio no participativo plenário, quebrado pelo próprio Raúl Zaffaroni: temos uma consciência regional para ser fortalecida.

Lá vem textão!

A terceira aula do curso internacional “América Latina: cidadania, direitos e igualdade”, ministrada pelo juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte DH), em Buenos Aires, no último dia 13 de maio, foi tão incrível quanto as duas primeiras: a do ex-presidente uruguaio José Pepe Mujica e a do professor da Universidade de Coimbra, Boaventura de Sousa Santos. Fiquei tão encantada que senti dificuldade para escolher por onde iniciar este brevíssimo relato.

Mas se eu tive dúvidas, os apresentadores da aula foram seguros e unânimes em deslanchar seus discursos levando em conta o golpe no Brasil como exemplo de que é redobrada a necessidade de pensarmos criticamente o estado da América Latina nos dias atuais e alguns caminhos para tornar a região mais habitável universalmente, aspecto que, aliás, foi seguidamente citado pelo advogado argentino Eugenio Raúl Zaffaroni, no decorrer da aula.

Não quero me deter em todas as linhas de discussões abertas tão refinadamente pelo ex-ministro da Corte Suprema de Justiça e suas ironias requintadas, ainda que vá citar algumas delas. Gostaria mesmo de compartilhar referências que me soaram muito familiares. Referências a questões que são atuais para a Argentina, para o Brasil e muitos outros países.

Um dos problemas que devemos observar e levar em conta, segundo Zaffaroni, ao nos depararmos com a fala de gestores e grandes meios de comunicação é o conflito dentro de uma mesma classe social. O juiz reitera, com uma série de exemplos inclusive, que provocar e acentuar contradições internas são estratégias muito funcionais e que devemos nos recusar a aceitar. Ele explica os altos índices de homicídios na capital argentina a partir das tensões dentro das periferias. “O fator que mais influencia no número de homicídios em Buenos Aires é o conflito dentro dos bairros periféricos. Matam-se entre si. Não é como querem que acreditemos: que saem de seus bairros para cometer assassinatos na classe média, em bairros mais abastados”, finca pé e acrescenta que este é um quadro característico dos países da América Latina como um todo.

Num panorama onde 30% da população estão incluídos entre os beneficiários do Estado e 70% estão excluídos, fazer com que cometam assassinatos entre si ganha cores de controle da desfuncionalidade. É terrível ouvir isso, mas é necessário sabê-lo.

Tóxico? Cocaína?

Esses elementos precisam ser bastante relativizados no processo de compreensão dos responsáveis pela violência, afirmou Zaffaroni. Primeiro, porque boa parte dos países da América Latina não é produtora da matéria-prima. Na Argentina, ilustra, no máximo pode existir algum laboratório na região norte, fronteira com Bolívia. Segundo, porque os estados da região têm se dedicado a proibir o consumo de tóxicos – a cocaína entre eles – e a proibição só agrava o cenário, defende. “Produzir a cocaína é barato, porque não tem valor agregado. Se proibimos a cocaína, fazemos subir de preço o que mais vale, que é o serviço de distribuição”.

Adivinhem, leitores, quem sai ganhando nesse jogo, entre os países da América? Isso, Estados Unidos. “Não produzem; não competem por mercado; detém uma rede de distribuição que deixa 60% do valor comercializado dentro do país; arrecadam com a venda de armas a narcotraficantes; e ainda dominam 100% do negócio da reciclagem”, elenca o juiz.

Concentração dos meios de comunicação

Mas eu havia dito que Zaffaroni citou os meios de comunicação. Volto ao ponto. A concentração dos veículos não apenas detém o monopólio da informação, pura e simplesmente; ela provoca um monopólio da construção de realidade.

Entre nós, da área da comunicação, pode parecer algo óbvia a afirmação do juiz, mas para uma platéia ampla, ainda que majoritariamente da área de Ciências Sociais, é um aspecto que precisa ser mais detalhado. E ele não se intimidou. “Eu moro no bairro de Flores e não sei o que acontece no bairro de Matança, por exemplo. No México, os homicídios – muitos deles com requintes de crueldade - são divulgados tão cotidianamente pela mídia que as pessoas passam a crer que a violência é normal, que os mexicanos são violentos”, disse ele, com um leque de ilustrações sobre vários países. Um segredo: aqueeeele, aqueeeele oligopólio do Brasil também foi citado [não contem pra ninguém, porque é uma suspeita muito recente – contém ironia].

Tal reducionismo sobre a população de um país é definido por Zaffaroni como fruto de racismo, ainda que devamos considerar a natureza selvagem do ser humano. Alguém discorda? Muitos e por diversas razões. Eu estou com ele.

Reducionismos

Aproximando-se mais de sua área imediata de atuação, o juiz da CIDH faz lembrar que a humanidade carrega o fardo de um poder punitivo que é seletivo, de acordo com os estereótipos negativos construídos pelas sociedades. Seletivo e corrupto, complementa. E nem é com ele que temos de contar, muito menos para controlar a violência, os homicídios, o genocídio.

Não vou me arvorar a descrever a aula de criminologia e sistema penal oferecida generosamente e com tanta clarividência por Raúl Zaffaroni. Mas vou tomar dele uma certeza que é muito difundida nos meios acadêmicos: necessitamos enfrentar a realidade desde um conhecimento construído no trabalho de campo, caso queiramos prevenir a violência.

Pra mim, ficou uma dica: sejamos os selvagens que somos, mas sob controle, pela construção de um mundo em condições de permitir que todos vivamos bem. Será que é isso?

Boa luta para nós!

domingo, 8 de maio de 2016

São tristes os invernos

Marcelo, no Benguí, cultiva um pequeno jardim na frente de sua casa. Dia desses me ligou relatando febre, dor de cabeça e lassidão extenuante, compatíveis com essas viroses soltas por esse Brasil varonil. Ele me pergunta: Chikungunya, Zika ou Dengo meu? Impossível responder por telefone, apesar de seu bom humor, já que no ouvido clínico elas têm mais semelhanças que diferenças.
João, vozinho que mora em Ipiranga (SP), também zelava por seu jardim. Apresentou o mesmo quadro clínico, mas necessitou ir urgente ao Hospital do Servidor Estadual. O diagnóstico diferencial fechou em Dengue hemorrágica por conta da queda de plaquetas (células da coagulação) e falência multi-orgânica fulminante.
Ah! Como são tristes nossos invernos de norte a sul.
Ambos teriam que fazer exames para definir o diagnóstico, mas a mira era o algoz Aedes. Marcelo lembrou-se de sua infância interiorana e teve uma epifania: mesmo abatido pegou ônibus no rumo da Castilho França e tratou logo de aviar um mosquiteiro - sim, um mosquiteiro. Até procurou DTT, mas disseram que há anos não fabricavam.
Na manhã seguinte, Marcelo observou que o teto de seu mosqueteiro estava repleto de carapanãs. Também viu que sua vizinhança não havia controle dos criadouros, sem falar do lixo e esgotos a céu aberto, que pioram no inverno. Daí, para não encrencar com vizinhos resolveu apenas se defender com mosqueteiro. João, em São Paulo, não teve a ideia e sucumbiu.
Aedes aegypti, o vetor desses males, depende de condições sanitárias. Quanto mais precariedade, maior será sua condição de sobrevivência e multiplicação. Calor, água e gotícula de sangue humano são os ingredientes encontrados na natureza que lhes dão sustância. Acrescenta-se aí o tempo das chuvas. Os ovos colocados na superfície de um depósito de água parada eclodem e dão origem à larva, de onde saem adultos entre sete e dez dias. Quando a fêmea pica um “dengoso”, contrai o vírus, depois ela infecta – somente a fêmea – uma pessoa saudável com nova picada.
A estratégia de combate ao mosquito ficou clara tão logo o ciclo biológico foi esclarecido, há mais de cem anos pelos brasileiros Adolf Lutz e Emilio Ribas, na época da febre amarela. É bem mais fácil derrotar o criadouro do que a legião de vampirinhos sedentos, pois seus ovos são resistentes e podem ficar viáveis por meses, segundo Ricardo Lourenço, da Fiocruz. Pior foi ouvir dos sanitaristas que 80% dos criadouros estão nos lares. Isso dói. É como se fôssemos culpados da convulsão febril de uma criança, ou da morte do vovô João.
Ah! Como foram tristes nossos invernos...
Com esse diapasão, Oswaldo Cruz erradicou o mosquito em 1903, no Rio. Ele dirigiu a “brigada mata-mosquito”, plano de higienização da cidade. Adentrou nas casas valendo-se de um tribunal exclusivo para esta causa. Erradicou o Aedes, ganhou estátua de herói, mas mesmo assim cidadãos viram sua privacidade invadida.
Os mosquitos zumbizando e a nossa modorra intelectual estão deixando rastros de negligência na escalada de mortes nesse país, a ponto do mosquiteiro ser quesito básico de segurança. Se o discurso político é o da anti-pobreza, desfechos como o do vovô João revelam notas fúnebres das mortes inaceitáveis.
Noves fora: zero. Faltam-nos Oswaldos e sobram cruzes em nossos quintais. Como ainda serão tristes nossos invernos!

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Iguana iguana

Imagem: Scylla Lage Neto


Terra natal
lugar para morrer
Waremoko*

Mansaku Itami

*nome japonês da planta pimpinela (homófono da frase "eu também, portanto...")



domingo, 1 de maio de 2016

Entre bananeiras que separam quintais

...mas o avanço da ciência esmaga as obras-primas
Julio Verne, em: “Da terra à lua”

Vivia noutras esferas, o menino. Sempre que o chamavam para jogar bola de gude ele se esquivava e danava-se a trancafiar-se no quarto que dividia com três irmãos. Na boca da noite se esgueirava pela janela da casa a apreciar lua e estrelas. Vez por outra ia à varanda olhar a rua ou ao quintal apreciar o céu, sem passar além das bananeiras que dividiam o quintal vizinho, onde guardada estava a surpresa dos anos vindouros...
Ficou assim depois de ler Julio Verne. Passou a desejar sondar mundos abissais e interestelares quando a noite vestia aquele mundo.
Após mirar céu e seus olhos serem invadidos pela escuridão do lugar, baixava a cabeça e dava noutra varanda, pegada à sua. Lá ele descobriu que tinha uma luz de vela dentro de uma menina que crescia e sonhava com livros. O menino Julio no nome estava sempre a olhar aquela menina que, no facho de suas retinas, achava foco na pele da leitura dela.
Quem seria?
Foi depois de uma estação chuvosa de inverno amazônico, em que corpos adolescentes arrancaram suspiros de árvores, bichos e crepúsculos cúmplices; que muros romperam-se por entre bananeiras. Eis que iniciaram conversas.
Ele dizia que a lua não era longe e, subindo num balão cheio de um gás obtido do azoto, trinta e sete vezes mais leve que o hidrogênio, atingiria a lua após dezenove dias de travessia.
Ela suspirou; ar lhe faltou; quase desmaia. Ele a acudiu com água da cacimba, que havia numa cumbuca ao lado; achou que tivesse falado alguma asneira.
Ela recobrou-se depois de duas goladas, e disse:
- Não. Nada de asneira. Foi um certo Hans Pfael, de Roterdã, quem disse isso.
-Sim, é verdade, respondeu Julio, estupefato e com os olhos arregalados.
- Agora entendo o porquê de seu nome. Uma homenagem a Julio Verne?
-Sim. Foi meu pai quem alcunhou. Ele costumava lê-lo.
Já recuperada, retornaram ao livro de Verne. Leram juntos: “Assim, há alguns anos um geômetra alemão propôs enviar uma comissão de sábios para as estepes da Sibéria. Ali, em vastas planícies, deviam fazer desenhar imensas figuras geométricas, por meio de refletores luminosos, entre outras, a do quadrado da hipotenusa. Qualquer ser inteligente, dizia este geômetra, deve compreender o destino científico dessa figura“.
Assim se descobriram leitores. Assim descobriram a química do amor entre páginas de ficção científica.
Eles não se abalaram com o vendaval de palavras que ululavam pelos quintais, entre bananeiras, feito cercas que separavam os dois terrenos. Palavras novas eram agraciadas com beijos demorados e abraços em redemoinhos.
Os curumins cresciam e continuaram lendo a dois. Seus amigos não entendiam aquela mistura de sentimentos.
Outros curumins surgiram após desenlaces de DNA. As horas suprimidas a passar, de uma âmbula para a outra, feito relógio de marcar tempo, transformaram-se em livros espalhados pela casa, alargando-lhes o quintal e a vida.
Hoje as histórias contadas inundam a varanda de lembranças tantas. Lembram juntos e acompanhados dos filhos a epopeia das bananeiras que faziam fronteiras e se tornaram ninho de aventura quando olhavam para o céu.


Em parceria com Abel Sidney

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Wavelength

Imagem: Scylla Lage Neto



"Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada."

Cecília Meireles

segunda-feira, 28 de março de 2016

Ivete

Ivete. Eu admiro Ivete desde que a vi pela primeira vez na escola da minha filha. Eu havia passado por ela na rua, enquanto caminhava para buscar Helena. Ivete estava sentada no chão, na calçada perto do colégio. Ela vendia incenso. Negra. Corpulenta. Cabelos trançados. Rosto sereno e simpático. Trocamos algumas palavras durante a espera pela abertura do portão e soube, dentre outras coisas, que ela tentava uma vaga para a filha em uma escola mais próxima do seu trabalho, porque a falta de vaga no refeitório do “Bernardino Rivadavia” inviabilizava as tarefas dela. Eu não havia pensado em trocar de colégio, mas insistia pela abertura de vaga. Ir quatro vezes ao colégio durante o dia, de fato, é bastante inconveniente para a rotina diária. Conversamos sobre o uso de turbantes, ela mostrou fotos das tranças que faz nas praias. Só descobri seu nome no segundo dia de conversa. Perguntei como andava sua procura por outro colégio e ela disse que seu marido, finalmente, conseguiu uma vaga no refeitório da escola. Tudo resolvido. Disse também que vendia coisas lindas para as crianças, como meias. E me mostrou alguns pares. Vi que não tinha nenhum para os pés de Helena, justifiquei e ela confirmou quando viu os pés da minha pequena grande garota. Nesse meio tempo, ela me contou que era da Libéria e haviam sido colonizados por norte-americanos, por isso falava inglês; ainda que já estivesse adaptada ao espanhol há oito anos. Disse que eu deveria conhecer a África, tanto que gosto de turbantes, e que eu deveria pedir a Deus que solucionasse a falta de vagas no comedor. Eu senti muita sinceridade, nenhuma ironia, na sugestão dela. Ivete contou que seu marido solucionou tudo, porque não a queria ver vendendo coisas na rua enfrente à escola da sua filha. Ele dizia pra ela que a filha sofreria chacota dos colegas... ... ... Ivete disse ainda que se sente sufocada com tantos prédios, em Buenos Aires. No seu país, respira melhor o ar que a natureza oferece. Eu comparei à Amazônia, onde eu também podia encontrar lugares maravilhosos para me refazer. Eu e Ivete sempre conversamos na porta da escola. E depois seguimos nossos rumos. Tão distantes e tão próximos.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Tudo está cravado na memória


Tem espaço para repudiar a violência contra as mulheres? Tem, sim!


Tem espaço para criatividade de cada um sair às ruas? Tem, sim!


Tem espaço pra todo mundo.


Todo 24 de Março, desde que estou na Argentina, sinto uma cuíra enorme para participar da marcha pelo dia da memória pela verdade e justiça. É um marco contra a ditadura genocida, que eclodiu há 40 anos aqui. Respeito minha cuíra. Sempre vou. Este ano, houve um clima especialmente raro. Primeiro porque o presidente norte-americano, Barack Obama, deixou seu rastro na capital, onde se concentra o maior número de pessoas nas ruas. Grandes protagonistas dessa luta, representantes das organizações Madres y Abuelas justificadamente repudiaram a presença da autoridade máxima do país yanke, reconhecidamente cúmplice do golpe. Eu também achei um acinte. Mas ele não chegou à toa, afinal, depois de uma década de governo popular, está no poder Mauricio Macri, muito alinhado às políticas norte-americanas. Dias antes da chegada dele já se via cartazes de repúdio nas ruas.

O processo de construção da marcha não contou com o apoio do Estado desta vez. E isso se notou na marcha. E se notou pelo porte dos carros-som, da estrutura de palco e telão, das programações das tv´s Pública e do Ministério da Educação, o canal Encontro. Uma pena. Uma perda. Ainda assim, nenhum passo atrás. É o bordão. E foi seguido criteriosamente. Estavam juntos movimentos da sociedade civil organizada, político-partidários e sindicais. Estavam juntos coletivos que atuam na área dos direitos humanos, de diferentes frentes de batalha. Reconhecia-se cada um. Gente com bebê, com crianças e jovens; gente com mobilidade reduzida. Parece um dia de total cumplicidade, um pacto velado.

Aqueles gritos de guerra que ouvi desde o metrô que usamos para nos deslocar até a Avenida 9 de Julho se repetiram outras vezes nas ruas. E muitos outros também. Cada um a seu tempo. As Madres e Abuelas sempre por primeiro na marcha. Elas são protagonistas desta luta e são reconhecidas como tal.

Minha filha acompanhou um pouco do que já sabia pelo que ouviu de mim e da professora na escola. Observou, perguntou...fez suas leituras. Fomos em busca de um posto do jornal Tiempo Argentino. O diário não sai às ruas desde fevereiro, quando o grupo de comunicação do qual faz parte deu a ordem. O Grupo 23 não paga os mais de cem trabalhadores desde dezembro, nem salário, nem o meio décimo terceiro. Os trabalhadores se mantêm em luta e decidiram fazer uma edição especial sobre os 40 anos do golpe genocida. Fizeram parceria com uma gráfica que também já passou por situação semelhante e hoje é uma empresa recuperada pelos trabalhadores. Foram 30 mil exemplares, em menção aos 30 mil desaparecidos registrados. Quem sabe com a renda os operários da informação não conseguem minimizar suas dívidas acumuladas pela imperícia dos empresários?

O dia também é de felizes encontros. Parece incrível as pessoas encontrarem amigos em meio a multidões. Eu encontrei. E os que eu encontrei também encontraram. “Ela foi uma das seqüestras na ditadura. Foi pra um exílio e teve uma experiência em Cuba que foi retratada para um filme que estréia no próximo dia 7 de abril”, me disse Fábio Oliva.

Eu só tenho a agradecer a oportunidade que sempre alimenta a esperança por um mundo melhor.

Música sugerida: Todo esta guardado en la memoria, de Leon Gieco.

sexta-feira, 18 de março de 2016

À sombra da tapera

O verbo sagrado pelas remotas paragens...
William Blake

Quem de nós, entre uma aula outra na faculdade do largo de Santa Luzia não foi até o PSM realizar uma sutura ou prescrever “uma” Benzetacil? Para muitos, o velho PSM foi o quintal da faculdade onde albergou nossos primeiros passos, ainda quando a chuva do conhecimento apenas respingava nas apostilas da Bettina Ferro ou nos cadernos de Patologia do Ronaldo Araújo - mestres, ambos. Foi tapera onde ouvimos as primeiras dores do alheio, assim como as lamúrias de seus familiares.
Naquela Belém de outrora não havia pós-graduação. Fazíamos o papel do médico residente de hoje, guardadas devidas proporções da comparação. Resultado: muito precocemente abandonávamos o cós das calças dos professores e nos enfurnávamos no PSM.
Vários de nós, na calada das escuras, terminávamos as operações que os cirurgiões começavam, ou, iniciávamos as que eles findavam. Baços e segmentos de intestinos lacerados por bala, faca, eram retirados. Fígados eram costurados. Saíamos com os sapatos tintados de sangue ou com pitiú das apendicites “sufuradas”. E o que dizer dos puxões de orelha da Estelita, técnica de enfermagem de quase dois metros de altura e meio de largura que, por “galinharmos” muito, só falava berrando: “vumbora, vumbora, que cedo tenho Ver-o-Peso”.
Certa vez dois gatunos, fingindo doença, internaram-se, proclamaram assalto e fugiram com pertences de vários pacientes, médicos e funcionários. Denunciados, a policia foi atrás e trocou tiros. Um dos meliantes foi atingido no torso, tombou e virou paciente. Foi prontamente acudido e levado para o próprio PSM e lá encontrou os mesmo médicos furtados. Atentos, eles prestaram o atendimento e o dito sobreviveu -mas sem devolver os pertences. Em contrapartida, teve que deixar quase dois litros de sangue no frasco de drenagem, pedaço do pulmão na mesa, parte do intestino no balde e a algema sedenta no leito do CTI.
Todo pronto-socorro tem histórias perdidas em madrugadas inesquecíveis, mas guarda outras amargas que o fel da profissão sempre destilou. Foi quando certa um catedrático da Unicamp, de passagem por Belém, quis conhecer o tal, de tanto que eu falava em congressos, de tanto que escrevia em publicações científicas... Não passou da porta. Ele se amofinou; eu me acabrunhei.
De uns tempos prá cá aquela velha tapera já vinha se desfigurando à sombra de um passado longevo e memorável a cada grito de dor, a cada incisão. O fim do ciclo ocorreu há oito meses. Um incêndio pôs pacientes e médicos pra correr, e ainda ceifou três acamados que não tiveram como se jogar da janela do segundo andar.
Após oito meses de reconstrução (95 anos de idade), ele volta a funcionar no mesmo loci. Ressurge das cinzas e acaba de ser inaugurado, mas já ganha manchetes tristes em meio a paredes novas, pinturas alegres, chão vistoso e focos com lâmpadas de LED. A reinauguração simbólica foi questionada numa operação - não cirúrgica - que ainda é investigada, e mereceu estampa nos jornais e redes sociais.

Aquela dócil tapera, hoje sinapse da minha memória reativada é, para a maioria de uns tantos, avos de um passado intransferível. Que a sorte atomize-nos o costume de lembrar as páginas embaçadas pelo tempo, ruínas da memória ancoradas na tapera que fez sombra para nosso aprendizado. Assim o verbo sagrado passa por remotas paragens... remotas paisagens.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Estou de volta pro meu aconchego



Clique meu, de amadora e pronto, falei. Ah! Ri muito desses óculos do Pepe.

Teatro da Sociedade Hebraica Argentina. Dia 17 de março de 2016. As ruas de Buenos Aires ferviam a 37 graus. E a fila era grande para entrar no auditório, meia hora antes do ponteiro acusar o início da aula inaugural do curso internacional América Latina: cidadania, direito e igualdade. O silêncio da imprensa diante da presença de José Pepe Mujica na cidade me causou uma sensação estranha. Sempre lembrava da presença avassaladora do ex-presidente do Uruguai e...

O salão do lado de fora estava preparado com telão e amplificador para garantir acolhida a quem não conseguisse lugar no plenário da casa fundada em 1968. Gente ao meu redor guardava lugar para outros que, em tese, estavam por vir e eu não sabia se era certo ou errado deixar as pessoas presentes em pé ou não enquanto isso. Os privilegiados chegavam a seu tempo. Entre eles, o candidato da Frente para a Vitória a prefeito da capital da nação, Mariano Recalde. Tão bonito quanto nas peças de campanha.

Helena coloca nos meus ouvidos a música Tá Tranquilo, Tá Favorável. O bordão eu usava sem nem saber que era um funk e a falta de ar-refrigerado dizia pra mim que não tava mole, não. Sindicalistas se reconheciam e se cumprimentavam longamente. Uma das responsáveis pelo curso é a uma faculdade criada por iniciativa de 40 organizações sindicais, a Umet.

O burburinho já se notava mais alto. As palmas eclodiam às 16h30. Era tempo de começar. E minutos depois os aplausos eram para o simpático Pepe, de mãos dadas à sua companheira e senadora Lucia Topolansky. Feições suaves e meigas, pisada firme. Gostei de escutar de Pablo Gentili que agradecia a ela em especial, porque tem seus méritos próprios na luta por um mundo melhor, ainda que tantas vezes esteja como a parceira daquele esposo posto à prova.

Hipnotizei com aqueles dois algodõezinhos embelezando o palco até o fim da tarde, sob sequências de euforia do público. Até porque... o discurso era pra isso mesmo, era uma animação política, um jorrar de flores de esperança, um sopro de inspiração.

E eu vibrei quando uma das moças da organização do evento se sentou numa cadeira sempre apontada como ocupada. Antes que a dona do trono repetisse para a milésima pessoa que não podia, a moça retrucou qualquer coisa baixinho e ambas ficaram caladas lado a lado.

Uma hora de conferência. Uma despedida poética levantou suspiros engasgados quando aquele senhor disse que se sentia como um jovem, mesmo à beira do fim.