domingo, 25 de setembro de 2016

Grandes incisões, grandes cirurgiões

Por isso, a história da Cirurgia Torácica confunde-se, em larga medida,
com a história dos artifícios técnicos, criados pelo humano engenho...
Jesse Teixeira, 1979

Em 1978, logo que chegamos à cidade grande ainda éramos meninos, bem dizer, para entender o progresso e o peso da revolução industrial no nosso cotidiano. Costumávamos caminhar pelo centro histórico e rever cada pedra de lióz e comparar com a infância no interior, de tempos idos e de textura brejeira. Hoje, andando pelas soleiras de modernas ruas, sob intervenção do progresso, percebe-se que a transformação – inexorável transformação – foi faca amolada em nossos sentimentos de outrora, ao mesmo tempo lentes para nossas retinas de cirurgião congraçado com o presente vistoso.
Esse prelúdio de pensamento ignora o tempo, para e pede silêncio, feito barco ancorado, mas reconhece que a vastidão da tecnologia lustra seus berloques, mesmo sabendo que o caminho por essa dualidade provoca sequidão na garganta.
Na cirurgia torácica, da ótica por onde olhamos, o velho e o novo nos tatuam com flores de ipê - talvez nem seja saudável a comparação -, mas insistimos nesse passado para evitar que nossa memória se desbote diante da avalanche de tecnologias inebriantes, pois há tendência de se descarregar esse decurso no expurgo - o que não é justo.
Destarte, nós, avatares da cirurgia, chegamos aqui por conta desses grandes homens que lutaram e nos deixam esse legado imensurável de bravura e ternura pela profissão. Jurgen Thorwald, em seu viscoso “Século dos cirurgiões”, relata que os grandes cirurgiões do passado se dedicavam a ser mais rápidos nas operações, diga-se de passagem, sem anestesia, sem luvas e sem assepsia. Realizavam grandes incisões e, por isso, poetizavam-se como grandes cirurgiões. Por vezes nos vemos nesta epopeia cuja realidade da época nos deixou estampados o folder da coragem.
Se nossos ancestrais abriam peitos por acessos extensos, com cicatrizes grotescas, fizeram por caminhos cavoucados na solidão do desamparo tecnológico e de novos conceitos. Ampla abertura era o único meio que dispunham para observar a cavidade em suas explorações e, como tal, fizeram muito bem, a ponto de nos beneficiar nos momentos mais críticos da abordagem atual - a do vídeo. O próprio Vicente Forte já nos alertava para a chegada da cirurgia vídeo-assistida, mas brandia para que não abandonássemos o velho traçado circum-escapular. Esse prelúdio de Vicente faz-nos crer fortemente que devemos ter muito cuidado com atitudes e palavras - por vezes jocosas -, quando recobramos o tema.
A operação por vídeo, popularizadas como “cirurgia a laser”, agora tirando onda com a robótica, se aproximou do tórax no final dos anos noventa, autorizada por Sauerbruch. O corte do tamanho de um band-aid trouxe no compasso da evolução tecnológica o passo da revolução industrial, mas toda gente deveria saber que incisão, instrumentais e os uivos de outrora abriram caminhos para o olho mágico de hoje, reduzida magnificamente a uma câmara de 5 ou 10mm, cujo contato entre o operador e o órgão acometido tornou-se por meio de instrumentais apropriados, guiados como um joystick.
Portanto, faz-se mister uma postura crítica construtiva alinhavada aos cirurgiões de hoje, pois conquista e tempo são almas que se entrelaçam e se admiram. Para nossa relação com esses homens, valemo-nos da passagem bíblica, quando João Batista viu Jesus Cristo e disse: “Não sou digno de desatar as tuas sandálias”.

Roger Normando (PA) e Elias Amorim (MA) são cirurgiões titulares da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica.

domingo, 18 de setembro de 2016

Perdidos em Abey Road; achados no Cavern Club

Andando pelo mundo, na lonjura dos meus rincões, vou beirando terras de outros, feito tapuio cosmopolita.  Ao descer do vagão e pisar no chão alheio, costumo atracar meu pericárdio com tachinhas de afixar recado na parede. Bastam quatro delas nos pontos cardeais e pronto, tá lá meu pericárdio, enraizado naquele pedaço de chão, deixando meu coração se levar no rumo das sensações sensoriais e no semblante da cidade. Os suspiros acompanham cada sístole, e a diástole, para cada sopro de emoção.
Foi assim da última, quando pisei na Liverpool Lime Street, a estação de trem da terra dos Beatles. Tinha vindo de Manchester, ao custo de três pounds, para conhecer o Museu da Indústria e da ciência - aquele da revolução industrial- e também para bater uma bola com Sir Alex Ferguson e Bob Charlton, no Old Trafford e satisfazer a felicidade de meu Danilo, torcedor do Manchester, mas um tantinho distante da história dos Beatles.
Para quem é fã, Liverpool dispensa apresentação: foi lá que tudo começou. Isso já é o bastante para uma passagem - ou peregrinação – a esta cidade britânica dentro de um clássico London Cab, modelo FX-4. Para quem não se importa tanto, Liverpool pode não ser uma escolha turística, já que não tem o charme das pequenas vilas do interior, tampouco a beleza e a tradição das grandes cidades, mas se andarmos por outros bairros percebe-se o ar de vilarejo. Essa atmosfera colimante foi onde se ameninaram Ringo e George Harrison.

Andamos por esses espaços para fazemos o trajeto da infância e adolescência dos garotos de Liverpool. Senti Penny Lane nos meus olhos e na minha audição; Strawberry fields ficaram eternamente tatuados no ponto mais alto do meu pericárdio. A minha respiração parou na paróquia onde está sepultada Eleanor Rigby. Lá Paul e John, por meio do Querrymen, celebraram a amizade. O nome do grupo foi inspirado na escola Quarry Bank, onde Lennon e os integrantes estudavam. A banda ainda existe e foi Paul quem o raptou do grupo, para renascer nos Beatles. A gente tinha a sensação de estar participando do clipe de Free as a bird, nas asas do corvo de Edgar Alan Poe.
Passamos o dia inteiro nesta jornada, mesmo no meu inglês reumático, misturado com tapioca e açaí do grosso. Ainda bem que tinha o Danilo me dando suporte na tradução, do contrário não me emocionaria com a história de In my life.  
Na volta sentamos na cavernosa casa de show onde tudo começou, e tomamos uma Pride a cinco libras, para comemorar o passeio. Depois saímos flanando pela Mathews a burilar souvenirs. Aquelas esquinas não escondem a felicidade de tê-los celebrado e, vez por outra, nos deparamos com alguém de jaquetas e óculos de Jonh, ou algum músico com o corte de cabelo do Paul a cantar Here comes the Sun, revigorados pelo tilintar de moedinhas.
Após a jornada, retomamos a estação. Percebi que Danilo começava a entender a minha geração, bitolada em tanta musicalidade. Mais que isso, ele se viu emocionado diante das pegadas deixadas por Lennon e McCArtney na casa da Forthlin Road, onde Paul viveu com a família adotiva. Considera-se que ali foi o nascimento da banda e reza que compuseram mais de 100 músicas.

A visita é restrita, mas juro que deu vontade de escalar aquele muro e entrar pela janela, como faziam Paul e John, matando aula. Não fiz pelo risco de machucar o joelho, que anda sentindo as dores das estripulias de outrora. Também tinha o risco de chegar lá e ter um espasmo coronariano. Foi melhor assim: enxugar a emoção desse passado com lenços da sonata de Let it Be.

domingo, 11 de setembro de 2016

Perdidos em Abbey Road

He wear no shoeshine...
“Come Together”, do disco: Abbey Road

Já passam das dez da manhã e o frio londrino de final de outono dá trégua. Partimos do sul de Greenwich, pela estação Blackheat, para então pegarmos o metrô no sentido leste e conhecer Abbey Road, a famosa travessia pela faixa de pedestres que ficou consagrada pelos Beatles, em 1969, na capa do Disco “Abbey Road”.
Acontece que, quando chegamos à estação só havia o silêncio do nada – estávamos perdidos em Abbey Road. Com algum custo identificamos uma placa pequena com dizeres: Get back, mas compre seu Ticket to ride até a estação St. John’ Woods, pela via Jubilee. Havíamos confundido a estação com o estúdio. Rimos da gafe e tivemos que suportar o humor londrino e engrossar os arquivos de viajante errante.
Meia volta volver quando, enfim, desembarcamos no sítio certo. Uma chuva fina avisa que um músico toca, indiferente ao alheamento, sua flauta à porta do metrô - por coincidência, Ticket to Ride. Ri pra dentro. Ao lado, um grupo de menininhos loirinhos vestidos de duques acabava de sair da escola e ululavam enquanto o chuvisco crispava. Ouvíamos o flautista, com longas tranças de cabelo afro, até a chuva ceder e retomarmos a caminhada até aportar, de vez, no destino certo. Abbey Road estava na próxima curva à direita, esperando-nos há quase 50 anos.
Por vários minutos, sentado no muro baixo e apreciando aquele movimento, em ponteiro de relógio tipo Big Ben, eu via naquela travessia os carros respeitarem a vez dos fãs-transeuntes. Entre tantos, esseunzinho, pensando naquela imagem "bitouniana" tão urbana.
Guimarães Rosa, em "A terceira margem do rio", relata que “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. Apesar da trepidação da partida e do freio estanque da chegada, é na travessia que nos fazemos gente para superar obstáculos não só pra memória em nossos slots cerebrais, mas pra sentir emoção, tormenta ou mesmo o labirinto da caminhada.
Calculei essa travessia como um simples topógrafo, ou seja, de algum ponto equidistante entre a partida e a chegada, desde que coubesse na minha geometria analítica que aprendi na cozinha de minha formação básica.
Talvez Abbey Road, na outra banda da terra, represente a travessia mais popular da historia da humanidade, se olharmos os pés descalços de Paul na capa do álbum. Não que Ringo, John e George estejam soberbos com seus pisantes, ou representem o dilúvio de nossos inconsistentes desperdícios, mas pés descalços sobre asfalto representam desassossego, desenxabimento, eterna inquietude de nossa jornada e dos que se arvoram a costurar desafios com as mãos da tecnologia ou com as próprias mãos - e pés -, deixando-se ser embrulhado pelas malhas abertas do desafio.
A jornada desse roteiro londrino, a cada passo serve para rever, feito os caminhos que os levaram de Liverpool, ou do Cavern Club, que existe em cada ermitão que nos domina e nos arrasta pelas frestas do espaço viscoso do subsolo da alma.
Mas o que vale mesmo, de permeio, são as ilusões escondidas em Strawberry Fields, que funcionam como combustível para a travessia, o mesmo que nos leva a Penny Lane e nos deixará descansando ao lado de Eleanor Rigby, feito o que não fomos e que ficou nos sonhos alados.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Brasil e Argentina: de golpe em golpe, que venha o povo

Marcha da Resistência está de volta depois de 11 anos Foto: Erika Morhy

Enquanto o golpe de estado se consumava no Brasil, neste dia 31 de agosto de 2016, eu terminava de escrever matéria sobre a extensa queixa por repressão de movimentos sociais argentinos no marco do governo neomenemista de Maurício Macri. E nesta primeira frase da postagem já estão embutidas várias concepções muito pessoais, claramente. Ainda que esteja disposta a discutir sobre cada uma delas, tomar partido também é necessário e quase inevitável.

É uma tolice enorme dizer que há quem queira politizar tudo. Ora, ora. Parece que é preciso então aclarar o que significa política, porque o que de fato não há é algo despolitizado nesta vida. E devemos estar bem ajambrados neste contexto.

Admiradora da nordestina Cátia de França, posso parodiar e dizer que, sim, minhas tristezas lavam pratos. Escutem “Ensacado”. É belíssimo. Tenho vivido muitas delas e não posso deixar de cuidar do cotidiano mais trivial. Ainda bem que posso fazê-lo, ainda que preferisse nestes momentos ter alguém a meu lado.

Feito estes convites, deixo essa amadora imagem que captei durante a primeira Marcha da Resistência depois de sua interrupção em 2005. Ela começou a ser realizada de 1981, para fazer frente ao governo ditatorial do país, e é retomada agora com a adesão de trinta organizações identificadas com o kirchnerismo, sob o lema “Pelo direito a trabalhar, resistir sem descansar. Cristina no comando”. Como é tradição, foram 24 horas de protesto em frente à casa de governo, mas desta vez reclamando contra um dos vários e graves problemas pelos quais vem sofrendo a Argentina desde dezembro, que é o desemprego em massa – depois de um grande lapso temporal, o macrismo informa que o índice é de 9,3% no segundo trimestre; há seis meses, estava na casa dos 5,9%. Faziam 7 graus, 5 de sensação térmica, debaixo de chuva e vento inclemente.

O presidente Maurício Macri teve a audácia de chamar de transtornada ("desquiciada") a principal dirigente da organização, Hebe de Bonafini, de 87 anos de idade. Pois o que eu vejo, dia após dia, é que transtornado está o país, ou quase todos neste país, exceto os poucos que se beneficiam de suas medidas neoliberais, excludentes e covardes. Mas esses transtornados estão no legítimo direito de se organizar, de protestar, de lutar por um mundo mais justo. Às Mães, que já foram taxadas de loucas pelos militares, meu mais profundo respeito e solidariedade.

Antes que eu me esqueça, esta a Argentina de Macri é a Argentina de José Serra, que disse em seu discurso de posse no governo do então interino, mas sempre golpista, Michel Temer: semelhante política e economicamente ao Brasil.

De golpe em golpe, que venha o povo!

domingo, 31 de julho de 2016

Eco no boteco

Porque nem todas as verdades são para todos os ouvidos,
nem todas as mentiras podem ser conhecidas como tais por uma alma piedosa
Umberto Eco, em: "O nome da rosa" 

             Noite dessa eu estava com o pensamento pervertido, atravessado de cuíra por uma cerveja, querendo beliscar um camarão após um dia excruciante, daqueles de arrancar o pelo, quando, a fazer contas -noves fora- fui bater no “Boteco do Camarão” do chef Herlander Andrade, colega de faculdade.  
Quando peço mesa, eis que me deparo com Jorge Ivan, também parceiro de banco de faculdade, sentado ao lado do Fonseca, outro-um. Puxei a cadeira, sentei e brindamos. Seguíamos ao deleite de um camarão no bafo e uma deliciosa malte, servida pelo chef, quando Jorge Ivan me sai com essa pérola:
- Sabe, maninho, uma das coisas que mais eu tenho receio quando confabulo com algumas beatas ou cristãos fervorosos, é que não me apetece a possibilidade de ir pro céu.
Eu, ainda com a massa cinzenta livre de teor alcoólico, ajeitei a cadeira e pus-me a ouvir mais essa. Ele prosseguiu.
- Perco o fôlego e chego a ficar sem suspirar igual ao Luiz na foto (Luiz Augusto, também colega de faculdade que costuma a tirar foto com o tórax hiperinsuflado). Penso só da possibilidade de não torcer pro Botafogo. Ave Maria! Eu, hein! Não poder espiar - até torcer todo o pescoço - quando passa uma mulher, só pra ver o rebolado dela! Não poder arrotar e nem soltar um flato livremente. Que sofrimento, credo! Sem aquela liberdade de coçar a região pudenda e nem fazer pipi em pé! É o fim! Tirar o muco do nariz e ficar fazendo bolinhas com ela entre os dedos, ou quem sabe saborear displicentemente igual ao técnico da Alemanha. É o fim! Não poder tomar uma caipirinha de São Jorge, mesmo quando caipira é aquela vizinha de fazenda, que por razões não se pode beber! Sabe, não poder comer um camarão no bafo igual esse aqui do Boteco do Camarão ou da fazendinha de Macapá. Sei lá! Não poder zapear ou assistir os vídeos ou fotos de sacanagem que só tem no grupo da Choupana. Eu, hein, Rosa! Ou nem curtir as estações das docas, andar no Djalma Dutra ou no Padre Eutíquio sem dar ou levar uma esfregada. Sei não! Não assistir de camarote as fotos do nascer e do por-do-sol do Normando, não voar no Flanar ou não poder ler as mal traçadas linhas do Labareda ou do Corisco. Não poder me deleitar com a paixão do Mauro pela sua amada Dilma. Eu hein, Zé! Prefiro ficar no meu inferninho a me perder por aí, enfim!
Comecei a rir e anotar. Logo depois surge Dudu, o filho, de cara limpa, chave do carro, e diz: 
- Pai, Te aquieta. Para de beber, pai. Vamos pra casa.
- Relaxa, meu filho! Olhou pro ponteiro do relógio, fez pausa e disse:
- Tá bom. Já vou, mas vale lembrar, filho, que ainda bem que eu não sou o único que bebo neste universo.  Tampouco o único a delirar “humoradessa”... Graças à Deus.
Abastecido do Camarão no bafo e da cerveja bem gelada, peguei um táxi e fui pra casa e anotar mais essa. Aninhei-me então neste espaço, envolvi-me numa coberta de fulgores literários e caí num pesado reflexo do pensamento anticristo de boteco, aguçado pelo libelo do Jorge Ivan. Fui bater em Umberto Eco em, o “O nome da rosa”, sua obra maior, para justapor ao pensamento botecário do Jorge Ivan.
Entre uma página e outra, me deparei com essa passagem que, data vênia ao semiólogo, enterrado em fevereiro deste ano, transcrevo nessas mal traçadas linhas:
“Os monstros existem porque fazem parte do desígnio divino e, nas mesma feições horríveis dos monstros, revela-se a potencia do Criador. Assim, existem por desígnios divino também os livros dos magos, as cabalas dos judeus, as fábulas dos poetas pagãos, as mentiras dos infiéis e a prosopopéia do Jorge Ivan”.

domingo, 10 de julho de 2016

Carta ao diretor

Ao pão e ao vinho que lhe servem de repasto
Eis que misturam cinza e pútridos bagaços
Charles Baudelaire, em: “Flores do mal”

Caríssimo diretor,
Certamente a mãezinha da pequena Sofia - de um ano e nove meses -, não terá chance de ler “Flores do Mal” (Les Fleurs du mal, em francês), de Baudelaire. Mas se o senhor der de cara com a obra, não pense sorrateiro. Avance. Enganche seu cérebro na ideia e divague pelos poemas - sem desespero. Tampouco pense que tudo possa virar urtiga e passes a passar suas manhãs inteiras com pruridos na Pineal.
Mas vou adiantar: “Flores do Mal” vai lhe expulsar do paraíso. Vai fazer o senhor entender que no pupunhal existe sombra, mas ao encostares ao tronco, ou deitares na relva em busca de descanso, serás apunhalado pelo espinho. A mãezinha não sabe da existência de Baudelaire, mas sabe que debaixo dessa palmeira existem exílio e alívio, basta não se encostar.
Sofia teve pneumonia necrosante, cuja imagética desvela uma cratera no pulmão. Após 15 dias de pequenas operações e antibióticos pesados, que mais parecia aquele cogumelo de urânio jogado sobre Hiroshima, restou a árvore respiratória esfacelada, carcomida por bactérias, mas a vida salva. Uma operação maior seria para tirar os resíduos pútridos da infecção e identificar possíveis locais de escapamento de ar para se corrigir por manobra cirúrgica.
A criança, antes de se deitar para iniciar seu périplo, sorria de tudo. Desde a maria-chiquinha que as enfermeiras ornavam com gazes, aos adereços para monitoração - ainda tinha o bipe dos aparelhos marcando os compassos do coração avexado. Ali, dentro daquele santuário, todos colimavam olhares abençoados para Sofia, sobrando uns tantos raios para Pompeu, o alquimista da anestesia. Aline, por sua vez, fitava-me com certa desconfiança; a mãe estava perdida no meu olhar.
A operação, em si, foi difícil, longa, mas nada que a separe da realidade de um hospital público brasileiro, cujos pacientes já chegam em fase avançada de suas mazelas. Tudo começou às quatro da tarde e varou a noite da sexta-feira, até acabar, lá pelas oito. A questão baudelairiana, entre cinzas e bagaços, vem a seguir: caso grave e o hospital não dispõe de UTI pediátrica e especialistas, apenas o leito. Nesta sexta, nem a ímpia fantasia de um leito fazia sombra em meu delírio.
Mas para enfermeiras e residentes isso nunca foi problema. Eles cavam noite ao lado de pacientes em busca dos sinais vitais desaparecidos na nebulosidade de uma operação torácica. Cochilo, para eles, é para fracos. Durante a madrugada ficaram me informando, on line, sobre os tais sinais vitais e o perigo maior: risco de sangramento para quem tem apenas 8 kg.
Do outro lado da linha eu ouvia Summertime, na voz da Natália, O “afoxé do guarda chuva achado” na do Marco. O outro Marco cantava Renato Russo; Eudes e Enrico em ação de graças a Pedrinho e Joãozinho. Até baixar a adrenalina e o sono chegar, já madrugava. Deitei ao acalanto do ressurgimento dos sinais vitais, quando a ampulheta da morte fora desligada. No véu da noite, Sofia sofreu. Vivia assombrosas horas entubada naquela sala vazia e fria de sentimentos... e acalentos.
Cedo despertei com rajadas de vento e a luz leste. Corri pra ver Sofia. Cheguei e ainda artificialmente ao léu da enfermaria comunitária iluminada pelo mesmo sol que me despertou. Vi que voltaram as marias-chiquinhas. Alívio e esperança!
A mãe carregava o olhar frontal excruciante da poesia de Baudelaire, pois não entendia que o funeral do seu anjo estava adiado. Concluí que já não sei mais caminhar descalço e atravessar cercas de arame farpado, pois Sofia furou minhas luvas com espinhos de pupunheira. Só sobrou-me a ponta dos dedos para escrever sobre suas dores.
Tenha uma boa segunda-feira, senhor diretor. Sigamos ao pão e vinho que nos servem de repasto.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A fogueira dos Sussuarana

Quando ontem adormeci                                                        
Na noite de São João                                            
Havia alegria e rumor                                  
Estrondos de bombas                               
luzes de Bengala                    
Vozes, cantigas e risos        
Ao pé das fogueiras acesas. 
Manuel Bandeira

Moléstia extirpada, indumentária desamarrada, assim como luvas no expurgo – e paciente já acordado-, fui içado para um terreiro de São João. Era dos Sussuarana, família que mantém a tradição de fazer o fogo na porta de casa e deixar a madeira queimar a ponto de se sentir o bafo. Tinha pé-de-moleque, mungunzá, arroz com galinha, maniçoba, foguetinho, estalinho e crianças pulando em volta do fogo a imitar as tradições nordestinas.
Só não tinha rapadura, ronco do fole e luz elétrica, pois, um vendaval gerou pane no sistema de transmissão, causando caos em Macapá. Aquela escuridão era o que faltava para a fogueira ganhar contornos de originalidade.
Lá o fogo sobe e o som desce, mas não vai até o sol raiar. Quando os pequenininhos começaram a esboçar sono, os pais arrumaram as mochilas e se mandaram, de modo que antes da meia-noite a festinha já findava. Só ficaram os marmanjos a bebericar sobre o vendaval da origem dos Sussuarana.
A reunião anual da família invocava quatro gerações, rara para os dias de hoje.  É a forma de homenagear o chefe do clã e fazer vez à origem do nome. Os Sussuarana, vi na cartilha, vem dos Suassuna que, via costeira, migraram do nordeste, reescrevendo a história da seca. Mas os descendentes descrêem dessa hipótese e acreditam na raiz amazônica da alcunha. Seja lenda ou verdade, pouco importa, vale o relato literário.
O fundador do terreiro, que já subiu com os balões juninos do passado, foi o tapuio João Sussuarana, cujo filho, Orivan, casou-se com Terezinha, a matriarca do terreiro. Orivan costumava lembrar o mês de Junho como festa do aniversário de João, seu pai, a ser comemorado no dia de são João, mês que ele elegeu ter nascido, já que não tinha sequer certidão de vida.
Foi quando a conversa chegou ao umbigo. Reza que o paladino sentia inveja de seus parceiros pelo fato de não ter um sobrenome. Era homem rude, musculoso, de bigode baixo, tez paquidérmica de tanto sol e baixa estatura, mas não passava de João. Não fazia ideia da idade, pois perdera os pais cedo, por conta das agruras da caatinga.
Quando chegou na costa do Amapá, em barco, ficou encantado com a vegetação e a abundancia de água. Certa vez montou numa canoa e pegou o Jandiá. Quer inverno, quer verão, a água daquele lugar era elemento dominante. O alagado da terra exsuda linfa e vegetação; o ar é saturado de umidade, que nas noites carregadas de sereno envolve como um lençol molhado; o reino animal e vegetal é representado quase que só por aquáticos1, o chão deixa-se carimbar pelas pegadas de onças e outros bichos.
Beirando o Jandiá, João seguiu pegadas suspeitas. À frente deparou-se com uma onça parda, bebendo água, também conhecida como Sussuarana. Ela espreitava João com um olhar voraz, de quem queria fazer caldeirada. Mostrou as presas como gesto de soberba. João vergou na mão direita um pedaço de galho seco e denso, e na esquerda uma peixeira, herança do pai. Sua ideia era abraçar a onça e dá-lhe no pescoço, jamais fugir. Sussurrou mais que a Sussuarana, a ponto dela dar um passo para trás e recolher a dentadura. Não deu em morte, mas onça vazou mata adentro num compasso desconfiado.
No dia seguinte João voltou ao Jandiá. Era crepúsculo do dia. Reencontrou a mesma Felis Concorra lambendo o rio. Numa batalha em que não lhe custou 0,5ml de sangue, seccionou a jugular. O felino, esguichando sangue, tentou escapar, mas sucumbiu a menos de quinze metros: choque hipovolêmico exanguinário. O sangue do felino toldou a água do Jandiá e calou o bioma. João arrastou a Sussuarana para canoa e transportou o felino até a cidade. Ganhou o nome de João da Sussuarana e, por conta da epopeia, chegou a fundar bloco carnavalesco conhecido como "João da onça".
Portanto, são João, para os Sussuarana, soa memória. O fogo, reacendido aos junhos serena origens.

domingo, 5 de junho de 2016

Xingu, a entropia da Floresta

No meio de uma enorme nuvem de poeira vermelha chegavam os colonos [...];
Os flagelados se acumulavam em cima da carga geral como podiam [...];
Gente branca, loura, olhos de gato, gazos. Descendentes de italianos, alemães, polacos outros que tais, experimentados no trato com a terra. Outra cultura. Um choque de civilização, produção, e produtividade àquelas gentes ignorantes e indolentes.
André Nunes, em: Xingu – causos e crônicas.

Dois velhos amigos do Xingu rabiscaram suas espirais do tempo e me viram em suas memórias. Foi quando pousei em Altamira - a trabalho. Levei o caderninho para anotar coisinhas seráficas sobre o rio.
Foto: Roger Normando
A partida de Belém foi cedo, logo que o sol lampejou, dando sensação vistosa na alma e brilho na lâmina fosca de meu bisturi. Na chegada relembrei da geografia amazônica que aprendi lá no interior do Acre. Irinéia, a professora, me frisava que Altamira era o maior município do mundo. Hoje já retiraram o título, mas na minha variância continuará sendo a xerife das terras. Depois Altamira voltou para mim como símbolo do progresso na Amazônia, pela película Bye Bye Brasil.              
De cima, fitando o rio, vê-se um desenho magnetizante que misgalha nossa massa cinzenta.  A gente fica gito-gito diante daquela nobreza e imensidão - eu do tamanho de uma pulga. Ao plainar vamos nos achegando, tentando brechar pela janela a Grande Volta do Xingu e seus 11.000MW de potência, a Belo Monte das discórdias.
Foto: Roger Normando
De uns tempos pra cá Altamira voltou a virar mira do mundo. A transamazônica a colocou no roteiro das estradas e Belo Monte na trilha do Xingu. Mas os donos da terra são outros e, enquanto o acórdão não chega, essa beligerância tem rendido violência e violações, que passarão de raspão por estas mal traçadas linhas. Sem tutano para discutir digressões antropológicas, vim apenas para cochichar com as águas do Xingu.
Em minha lide pelos corredores do Hospital regional, um dos 10 melhores SUS, deparo-me com a triste notícia que entre as principais inquietações e desafios da saúde são a violência rural e as virulentas viroses entre indiozinhos. Dá dó ver um Assurini acamado e amuado. Há os que chegam a ser entubados e permanecem em prótese ventilatória como ultimo recurso antes de partir. A maioria se salva, mesmo assim desconforta a gente ver aquele tubo goela abaixo. Desconfia-se que o H1N1 esteja visitando algumas tribos e, desproteinizados e imunologicamente comprometidos, as crianças são alvos frágeis e de prognóstico sombrio, a lembrar os relatos dos irmãos Villas-Boas.
Outra intempérie da região é a sangraria que escorre pelos ralos da cidade. O crescimento desalinhado da região combinou com a transamazônica mal engendrada, que trouxe, off-road, bala e cartucheira contra as flechas Xipayas. Os resultados são ferimentos cada vez mais complexos. Lá os cirurgiões recuperam intestino, fígado, pulmões e traquéias na mesma batida que as viroses acometem ararinhas. Cirurgiões passam a noite de pé, tesos, e os pediatras não desgrudam o olho dos pequenos.
Essa mortandade por infecção dos brancos não vem de hoje. Tempos passado, séculos XVIII, segundo o escritor Marcio Souza em seu recente Amazônia indígena, 40 mil índios foram dizimados por uma epidemia de varíola no entorno de Manaus, vetoriada por soldados portugueses. Equivale a quase metade de população de Altamira que neste surto já enfileirou nove curumins.
Canoas embicadas para o fundo (Foto: Roger Normando)
Em A batalha do riozinho do Anfrisio, André Nunes relata matança de índios a céu aberto com requintes de crueldade pelo entorno do Xingu. Até um tempo desses, isso era tão comum quanto carbonizar Pataxó em parada de ônibus.
Se Cacá Diegues quisesse rodar novo Bye Bye Brasil em Altamira teria que reinventar a paisagem local ou ir pra Hollywood e montar outra caravana Rolidei, pois, por aqui, o Xingu está ornamentado com outra parafernália... e custa ver canoa embicada e mulheres destripando peixes... o que mais se vê é terra revirada. 

sábado, 4 de junho de 2016

Sobre lutas universais e a gratidão à Marga Rothe

#NiUnaMenos Foto: Erika Morhy

"Ao calabouço não voltamos nunca mais", diziam as travestis Foto: Erika Morhy

"Vivas nos queremos" Foto: Erika Morhy 

Organizações sindicais e político-partidárias maracram presença Foto: Erika Morhy

Recado era o mesmo em diferentes linguagens Foto: Erika Morhy

Eu mesma não tenho fotos com Rosa Marga Rothe. Mas imagens não me faltam desta mulher que tem sua trajetória definitivamente gravada na luta por justiça na Amazônia paraense. Imagens que construí ao longo de minha carreira como jornalista, ela já referência para dores compartilhadas entre tantos rincões do estado. Imagens que manuseei durante minha passagem pela Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) e que ela mesma chegou a rever durante os saraus da Memória, em mais alguns de seus gestos de generosidade com quem aspira contribuir com as causas populares. Imagens dela com amigos em comum... Mas, neste dia de seu adeus a esta etapa de sua vida, eu me misturava a um sem fim de outras imagens. Dessas imagens que também dizem muito de Marga e de batalhas universais, como as que são travadas por quem não engole uma cultura atávica, machista, assassina.

Neste 03 de junho de 2016, Marga deixava transcorrer, em Belém, seus últimos instantes de enfretamento a um câncer. Já eu estava de braços dados à minha filha, em Buenos Aires, na segunda marcha que ficou mais conhecida por seu grito de guerra: Ni Una Menos. Nenhuma a menos! Tantos os casos de abusos perpetrados pelas mãos do machismo que a Argentina se insurgiu e mostrou ao mundo a força da organização de quem quer mudar o curso da vida. Lá estava eu, eu e Helena instigadas pela causa e irmanadas com o Coletivo Passarinho, de brasileiros que vivem na capital do país.

Enquanto me emocionava com as manifestações de repúdio às violações comuns em tantas partes do planeta; enquanto lembrava das escolhas feitas entre dias de dedicação acadêmica, de debate político e de parcerias domésticas; enquanto eu me misturava a tudo isso, Marga cumpria com dignidade seus mais de 70 anos de idade.

Convivi tão pouco com este primor de ser da natureza que chega a parecer duvidosa para mim sua influência sobre minhas reflexões existenciais. Mas cada memória que me ocorre dela me faz ter certeza de que ela me inspira, sim. Os últimos contatos que tive com Rosa foram na própria entidade que ela ajudou a criar e que dirigiu por anos e que a tinha como conselheira até hoje. Ali no auditório da SDDH e eu quem pode ir até lá ouviu dela uma fartura de detalhes sobre a história que ela ajudou a construir no Pará diante da luta pela terra, da luta pela democracia, da luta pela sobrevivência, da luta por justiça. Não duvidou diante de nossos convites para os saraus da Memória; dava trabalho à doença fazia anos; não se dobrava a ela; ultrapassava seus limites. Que mulher bonita! Que mulher emocionante! Sou grata a ela por isso. Sou grata à SDDH também, que presta sua homenagem indispensável.

Quando tomo conhecimento de que Marga faleceu nesta manhã do dia 4, penso que cada pessoa que teve a oportunidade de conviver com ela, tenha sido em qualquer proporção e intensidade, deve estar bastante triste com sua partida. As separações em si me parecem um momento de dor, com mais ou menos sofrimento. Espero que saibamos fazer nossos lutos e não nos neguemos jamais a nenhuma luta por justiça. Onde quer que estejamos.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Yes, nós temos jazz

 Tem que ter pulmão, resistência física. E isso está acabando.
Já escrever não requer tanto esforço físico”
Luis Fernado Veríssimo, músico e escritor.

Preservation Hall, New Orleans-LA, EUA
Enquanto a flecha zune e atinge o braço estendido da população desavisada eu me liberto da notícia indi-gente e me apresento disfarçado para tamborilar textos autóctones sobre jazz, feito quem entende de música, mesmo em saber que nada sei. Não-não, eu não entendo de música e, no máximo, pago ingresso, bato palmas e grito: Bravo!  É o que tenho feito quando a mão do tempo afasta-se do meu copo de cerveja, e me deixa de bandeja tertúlias com amigos de bar, sem ter que olhar para o ponteiro das horas e para as dissonâncias do tema.
Sempre que posso, aos sábados acordo cedo, cumpro com as obrigações e rasgo para o Igarapé das Almas, não em busca de alma penada, ou de reminiscências da cabanagem e dos cabanos que por lá teriam escondido suas armas (ou alma?), mas em busca da alma da música, ou a música da alma: o jazz. Disfarçando, e como se fosse comprar parafuso pro meu hardware, sento e dou ouvido à blue note em formato HD em 3D, no epicentro do blues, quando o sol do meio-dia beira a linha do equador a ponto de derreter meu toutiço.
Para escrever sobre jazz, precisaria vestir-me de Eric Hobsbawn e ter neurônios alongados para analisar o entorno da historiologia. Sem deixar de falar do Luis Fernando Veríssimo, que escreve com frequência, paixão e profundidade sobre sua maior inclinação musical, retratando grandes nomes como Miles Davis, Charlie Parker, Chet Baker e Gerry Mulligan, entre outros. Veríssimo trata o jazz como se fosse seu prato predileto, antes de começar a escrever seus textos vibrantes, sonorizado em grandes idéias - longe, estou longe disso. Escrevo como um reles cabano, a procurar vestígios de conhecimento entre uma prosa e outra diluída no meio de tanta gente bamba.
A começar pelo Paulinho Assumpção, que sempre me percute de informação; também preciso ouvir Nego Nelson e a sua forma de se comunicar com o Violão e os próprios sentidos. Tem ainda muito mais gente: o Bob Freitas, por exemplo, que toca como se tivesse degustando um Malbec argentino. E por aí vai, estes me dão a liberdade do abraço e a prisão de meu respeito. Nego Nelson quando me encontra sempre tem uma piada encaixotada para contar, certamente para disfarçar aquele pedaço de pulmão que dele tirei e joguei no laboratório para dar crédito à vida... e deu!
Quando todos esses jazzistas de alma se reúnem assim quando o sol do meio-dia nos tempera, a gente sente que New Orleans está mais perto, e que a Bourbon e a Perdidos Street saem da sombra da memória, vestem-se de personalidades e vêm bater aqui no Igarapé das Almas, armadas do sentimento de Grandpa Elliot e Kzan Gama. Sim, Elliot deu à rua alma e deu ao jazz rua. Foi quando as ruas começaram a ter consonância com a sonoridade e passaram a andar despidas do sossego.
Yes, nós temos jazz, nós temos alma, "invés" de só osso. Apenas falta-me tutano para escrever sobre tantos talentos e fôlego para respirar tanta musicalidade. Por enquanto fico com as palavras de Hobsbawn: “o fã do jazz, portanto, raramente é músico”. Aqui estou, então, entre palavras, disfarçando minhas palmas.

domingo, 22 de maio de 2016

José Serra é recebido com protesto em Buenos Aires





A agenda argentina de José Serra, ministro interino de Relações Exteriores do Brasil, mobilizou dezenas de jovens para uma vigília, no início da noite deste domingo (22), em frente à residência da Embaixada do país em Buenos Aires, no refinado bairro da Recoleta. O tucano foi designado pelo presidente interino, Michel Temer, a fazer uma visita ao país "com o qual passamos a compartilhar referência semelhantes para a reorganização política e da economia", conforme definiu Serra em seu discurso de posse.

Além dos tradicionais cartazes e faixas, tambores e apitos, carros-sons e bandeiras, também foi preparada uma boa quantidade de inusitadas bolinhas de papel, para lembrar ao ilustre visitante as eleições de 2010, quando o então candidato pelo PSDB se dedicou a uma série de exames médicos depois de receber uma bolinha de papel na cabeça, atirada por manifestantes contrários à política tucana.

Além de brasileiros, argentinos também participaram do protesto, que seguirá o trajeto do ministro interino na capital azul e branca. A impopularidade de ambos os governos é notória.

O recado foi claro: não reconhecem um governo nascido de um golpe no Brasil e reprovam a sinalização positiva do governo macrista a ele. O enfrentamento pacífico vai continuar e ninguém vai se intimidar com policiais que mantiveram distância estratégica dos manifestantes.

Tomadas as duas entradas principais de veículos tanto na Embaixada quanto na residência – que se comunicam estruturalmente -, Serra entrou no prédio pelo caminho da cavalaria, mais utilizada por pedestres em ocasiões festivas. Na manhã de segunda-feira (23), as agendas prometem se cruzar novamente. Vai ter luta, garantem. E eu acho ótimo!

Fotos: Erika Morhy

domingo, 15 de maio de 2016

Sejamos selvagens sob controle?


Raúl Zaffaroni, entre representates de Clacso e Umet (Foto: Erika Morhy)

Alguém aqui se preocupou com o que acontecia no Brasil em 1964? Pode-se ouvir um curto e fundo silêncio no participativo plenário, quebrado pelo próprio Raúl Zaffaroni: temos uma consciência regional para ser fortalecida.

Lá vem textão!

A terceira aula do curso internacional “América Latina: cidadania, direitos e igualdade”, ministrada pelo juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte DH), em Buenos Aires, no último dia 13 de maio, foi tão incrível quanto as duas primeiras: a do ex-presidente uruguaio José Pepe Mujica e a do professor da Universidade de Coimbra, Boaventura de Sousa Santos. Fiquei tão encantada que senti dificuldade para escolher por onde iniciar este brevíssimo relato.

Mas se eu tive dúvidas, os apresentadores da aula foram seguros e unânimes em deslanchar seus discursos levando em conta o golpe no Brasil como exemplo de que é redobrada a necessidade de pensarmos criticamente o estado da América Latina nos dias atuais e alguns caminhos para tornar a região mais habitável universalmente, aspecto que, aliás, foi seguidamente citado pelo advogado argentino Eugenio Raúl Zaffaroni, no decorrer da aula.

Não quero me deter em todas as linhas de discussões abertas tão refinadamente pelo ex-ministro da Corte Suprema de Justiça e suas ironias requintadas, ainda que vá citar algumas delas. Gostaria mesmo de compartilhar referências que me soaram muito familiares. Referências a questões que são atuais para a Argentina, para o Brasil e muitos outros países.

Um dos problemas que devemos observar e levar em conta, segundo Zaffaroni, ao nos depararmos com a fala de gestores e grandes meios de comunicação é o conflito dentro de uma mesma classe social. O juiz reitera, com uma série de exemplos inclusive, que provocar e acentuar contradições internas são estratégias muito funcionais e que devemos nos recusar a aceitar. Ele explica os altos índices de homicídios na capital argentina a partir das tensões dentro das periferias. “O fator que mais influencia no número de homicídios em Buenos Aires é o conflito dentro dos bairros periféricos. Matam-se entre si. Não é como querem que acreditemos: que saem de seus bairros para cometer assassinatos na classe média, em bairros mais abastados”, finca pé e acrescenta que este é um quadro característico dos países da América Latina como um todo.

Num panorama onde 30% da população estão incluídos entre os beneficiários do Estado e 70% estão excluídos, fazer com que cometam assassinatos entre si ganha cores de controle da desfuncionalidade. É terrível ouvir isso, mas é necessário sabê-lo.

Tóxico? Cocaína?

Esses elementos precisam ser bastante relativizados no processo de compreensão dos responsáveis pela violência, afirmou Zaffaroni. Primeiro, porque boa parte dos países da América Latina não é produtora da matéria-prima. Na Argentina, ilustra, no máximo pode existir algum laboratório na região norte, fronteira com Bolívia. Segundo, porque os estados da região têm se dedicado a proibir o consumo de tóxicos – a cocaína entre eles – e a proibição só agrava o cenário, defende. “Produzir a cocaína é barato, porque não tem valor agregado. Se proibimos a cocaína, fazemos subir de preço o que mais vale, que é o serviço de distribuição”.

Adivinhem, leitores, quem sai ganhando nesse jogo, entre os países da América? Isso, Estados Unidos. “Não produzem; não competem por mercado; detém uma rede de distribuição que deixa 60% do valor comercializado dentro do país; arrecadam com a venda de armas a narcotraficantes; e ainda dominam 100% do negócio da reciclagem”, elenca o juiz.

Concentração dos meios de comunicação

Mas eu havia dito que Zaffaroni citou os meios de comunicação. Volto ao ponto. A concentração dos veículos não apenas detém o monopólio da informação, pura e simplesmente; ela provoca um monopólio da construção de realidade.

Entre nós, da área da comunicação, pode parecer algo óbvia a afirmação do juiz, mas para uma platéia ampla, ainda que majoritariamente da área de Ciências Sociais, é um aspecto que precisa ser mais detalhado. E ele não se intimidou. “Eu moro no bairro de Flores e não sei o que acontece no bairro de Matança, por exemplo. No México, os homicídios – muitos deles com requintes de crueldade - são divulgados tão cotidianamente pela mídia que as pessoas passam a crer que a violência é normal, que os mexicanos são violentos”, disse ele, com um leque de ilustrações sobre vários países. Um segredo: aqueeeele, aqueeeele oligopólio do Brasil também foi citado [não contem pra ninguém, porque é uma suspeita muito recente – contém ironia].

Tal reducionismo sobre a população de um país é definido por Zaffaroni como fruto de racismo, ainda que devamos considerar a natureza selvagem do ser humano. Alguém discorda? Muitos e por diversas razões. Eu estou com ele.

Reducionismos

Aproximando-se mais de sua área imediata de atuação, o juiz da CIDH faz lembrar que a humanidade carrega o fardo de um poder punitivo que é seletivo, de acordo com os estereótipos negativos construídos pelas sociedades. Seletivo e corrupto, complementa. E nem é com ele que temos de contar, muito menos para controlar a violência, os homicídios, o genocídio.

Não vou me arvorar a descrever a aula de criminologia e sistema penal oferecida generosamente e com tanta clarividência por Raúl Zaffaroni. Mas vou tomar dele uma certeza que é muito difundida nos meios acadêmicos: necessitamos enfrentar a realidade desde um conhecimento construído no trabalho de campo, caso queiramos prevenir a violência.

Pra mim, ficou uma dica: sejamos os selvagens que somos, mas sob controle, pela construção de um mundo em condições de permitir que todos vivamos bem. Será que é isso?

Boa luta para nós!

domingo, 8 de maio de 2016

São tristes os invernos

Marcelo, no Benguí, cultiva um pequeno jardim na frente de sua casa. Dia desses me ligou relatando febre, dor de cabeça e lassidão extenuante, compatíveis com essas viroses soltas por esse Brasil varonil. Ele me pergunta: Chikungunya, Zika ou Dengo meu? Impossível responder por telefone, apesar de seu bom humor, já que no ouvido clínico elas têm mais semelhanças que diferenças.
João, vozinho que mora em Ipiranga (SP), também zelava por seu jardim. Apresentou o mesmo quadro clínico, mas necessitou ir urgente ao Hospital do Servidor Estadual. O diagnóstico diferencial fechou em Dengue hemorrágica por conta da queda de plaquetas (células da coagulação) e falência multi-orgânica fulminante.
Ah! Como são tristes nossos invernos de norte a sul.
Ambos teriam que fazer exames para definir o diagnóstico, mas a mira era o algoz Aedes. Marcelo lembrou-se de sua infância interiorana e teve uma epifania: mesmo abatido pegou ônibus no rumo da Castilho França e tratou logo de aviar um mosquiteiro - sim, um mosquiteiro. Até procurou DTT, mas disseram que há anos não fabricavam.
Na manhã seguinte, Marcelo observou que o teto de seu mosqueteiro estava repleto de carapanãs. Também viu que sua vizinhança não havia controle dos criadouros, sem falar do lixo e esgotos a céu aberto, que pioram no inverno. Daí, para não encrencar com vizinhos resolveu apenas se defender com mosqueteiro. João, em São Paulo, não teve a ideia e sucumbiu.
Aedes aegypti, o vetor desses males, depende de condições sanitárias. Quanto mais precariedade, maior será sua condição de sobrevivência e multiplicação. Calor, água e gotícula de sangue humano são os ingredientes encontrados na natureza que lhes dão sustância. Acrescenta-se aí o tempo das chuvas. Os ovos colocados na superfície de um depósito de água parada eclodem e dão origem à larva, de onde saem adultos entre sete e dez dias. Quando a fêmea pica um “dengoso”, contrai o vírus, depois ela infecta – somente a fêmea – uma pessoa saudável com nova picada.
A estratégia de combate ao mosquito ficou clara tão logo o ciclo biológico foi esclarecido, há mais de cem anos pelos brasileiros Adolf Lutz e Emilio Ribas, na época da febre amarela. É bem mais fácil derrotar o criadouro do que a legião de vampirinhos sedentos, pois seus ovos são resistentes e podem ficar viáveis por meses, segundo Ricardo Lourenço, da Fiocruz. Pior foi ouvir dos sanitaristas que 80% dos criadouros estão nos lares. Isso dói. É como se fôssemos culpados da convulsão febril de uma criança, ou da morte do vovô João.
Ah! Como foram tristes nossos invernos...
Com esse diapasão, Oswaldo Cruz erradicou o mosquito em 1903, no Rio. Ele dirigiu a “brigada mata-mosquito”, plano de higienização da cidade. Adentrou nas casas valendo-se de um tribunal exclusivo para esta causa. Erradicou o Aedes, ganhou estátua de herói, mas mesmo assim cidadãos viram sua privacidade invadida.
Os mosquitos zumbizando e a nossa modorra intelectual estão deixando rastros de negligência na escalada de mortes nesse país, a ponto do mosquiteiro ser quesito básico de segurança. Se o discurso político é o da anti-pobreza, desfechos como o do vovô João revelam notas fúnebres das mortes inaceitáveis.
Noves fora: zero. Faltam-nos Oswaldos e sobram cruzes em nossos quintais. Como ainda serão tristes nossos invernos!

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Iguana iguana

Imagem: Scylla Lage Neto


Terra natal
lugar para morrer
Waremoko*

Mansaku Itami

*nome japonês da planta pimpinela (homófono da frase "eu também, portanto...")



domingo, 1 de maio de 2016

Entre bananeiras que separam quintais

...mas o avanço da ciência esmaga as obras-primas
Julio Verne, em: “Da terra à lua”

Vivia noutras esferas, o menino. Sempre que o chamavam para jogar bola de gude ele se esquivava e danava-se a trancafiar-se no quarto que dividia com três irmãos. Na boca da noite se esgueirava pela janela da casa a apreciar lua e estrelas. Vez por outra ia à varanda olhar a rua ou ao quintal apreciar o céu, sem passar além das bananeiras que dividiam o quintal vizinho, onde guardada estava a surpresa dos anos vindouros...
Ficou assim depois de ler Julio Verne. Passou a desejar sondar mundos abissais e interestelares quando a noite vestia aquele mundo.
Após mirar céu e seus olhos serem invadidos pela escuridão do lugar, baixava a cabeça e dava noutra varanda, pegada à sua. Lá ele descobriu que tinha uma luz de vela dentro de uma menina que crescia e sonhava com livros. O menino Julio no nome estava sempre a olhar aquela menina que, no facho de suas retinas, achava foco na pele da leitura dela.
Quem seria?
Foi depois de uma estação chuvosa de inverno amazônico, em que corpos adolescentes arrancaram suspiros de árvores, bichos e crepúsculos cúmplices; que muros romperam-se por entre bananeiras. Eis que iniciaram conversas.
Ele dizia que a lua não era longe e, subindo num balão cheio de um gás obtido do azoto, trinta e sete vezes mais leve que o hidrogênio, atingiria a lua após dezenove dias de travessia.
Ela suspirou; ar lhe faltou; quase desmaia. Ele a acudiu com água da cacimba, que havia numa cumbuca ao lado; achou que tivesse falado alguma asneira.
Ela recobrou-se depois de duas goladas, e disse:
- Não. Nada de asneira. Foi um certo Hans Pfael, de Roterdã, quem disse isso.
-Sim, é verdade, respondeu Julio, estupefato e com os olhos arregalados.
- Agora entendo o porquê de seu nome. Uma homenagem a Julio Verne?
-Sim. Foi meu pai quem alcunhou. Ele costumava lê-lo.
Já recuperada, retornaram ao livro de Verne. Leram juntos: “Assim, há alguns anos um geômetra alemão propôs enviar uma comissão de sábios para as estepes da Sibéria. Ali, em vastas planícies, deviam fazer desenhar imensas figuras geométricas, por meio de refletores luminosos, entre outras, a do quadrado da hipotenusa. Qualquer ser inteligente, dizia este geômetra, deve compreender o destino científico dessa figura“.
Assim se descobriram leitores. Assim descobriram a química do amor entre páginas de ficção científica.
Eles não se abalaram com o vendaval de palavras que ululavam pelos quintais, entre bananeiras, feito cercas que separavam os dois terrenos. Palavras novas eram agraciadas com beijos demorados e abraços em redemoinhos.
Os curumins cresciam e continuaram lendo a dois. Seus amigos não entendiam aquela mistura de sentimentos.
Outros curumins surgiram após desenlaces de DNA. As horas suprimidas a passar, de uma âmbula para a outra, feito relógio de marcar tempo, transformaram-se em livros espalhados pela casa, alargando-lhes o quintal e a vida.
Hoje as histórias contadas inundam a varanda de lembranças tantas. Lembram juntos e acompanhados dos filhos a epopeia das bananeiras que faziam fronteiras e se tornaram ninho de aventura quando olhavam para o céu.


Em parceria com Abel Sidney