quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Além da prorrogação (Dois países lendários)

A mais desejável comunhão é a quebra das barreiras entre
dois países míticos: Vida e Morte.

Suspeita-se que além da Vida, transposta a fronteira, 
novas paisagens se anunciam.

Contam que os habitantes da Morte se sentem tão plenos de existência
que chegam a zombar dos vizinhos, a quem chamam de "vivos-mortos"...

Talvez seja uma forma de revanche, pois os Vivificados classificam
os "do Além" de fantasmas de assombração!

Histórias e tradições se erguem e separam, isolam mesmo quando 
gente dos dois lados desejam  contato, notícia, comunhão...

Um largo muro nos divide, 
um muro de lamentação no qual se fala de perdas na ausência da fé 
e de pitadas de imaginação!

Pois eu imagino que haja verdes campos logo ali, 
fronteiras além...

Chego a pensar na bola que rola que se improvisa 
e ouço ecos de uma outra torcida!

Sem receio algum eu imagino um comentarista retratando a perplexidade dele próprio ao dizer: "quem diria que o jogo, com breve intervalo, continuaria?!"

Sabá de Abadia, do bando de Corisco

sábado, 26 de novembro de 2016

Linha mediana

                                          “Nesse tipo de vida é difícil curar uma doença. Ela se instala e não larga mais. Aí você morre”
Fiodor Dostoiévski, em: “Notas do subsolo”

Esta narrativa poderia sair de “Notas do subsolo”, de Dostoievski, ou do realismo auspicioso de Edyr Augusto ou mesmo de Tess Garritsen, médica e escritora californiana com forte temática policial, autora do extraordinário The surgeon. Na realidade é um relato extraído de vozes do anfiteatro da cirurgia, vivido por mãos enluvadas que, juntas, vivem a conter gotas de sangue que escorrem de punhais e balaços que atravessam mediastinos e flancos.
Dionísio Maldrán, homem de 50 anos, meia altura, com traços andinos fortes, adentrou pela emergência cirúrgica do hospital de Miami como um phantom dos subsolos de Dostoievski. Falava castelhano e nenhuma vírgula de inglês. Apresentava abdome distendido, bastante doloroso e ânsia de vômito, após ter sido esfaqueado na boca do estômago por meliante no Opa Loka, bairro considerado perigoso.
Após examinar e fazer algumas perguntas, o médico calmamente desfez o curativo e percebeu um talho de cerca de três polpas digitais na linha mediana, no abdome. Não pôde aprofundar a inspeção por conta da dor. Preferiu levar ao centro cirúrgico. Chamou-lhe atenção, como experiente profissional, a linearidade de corte.
Descobriu-se, no caminho para sala de cirurgia, a origem equatoriana de Maldrán. Em trânsito para Nova Iorque, ele dizia que iria morar no Brooklin e viver como handyman em Manhattan. Vivia o sonho de atravessar diariamente aquela ponte que unia duas geografias humanas bastabte distinta.
Após iniciar a anestesia, o cirurgião, já paramentado, começou a explorar o ferimento, até perceber que o golpeio era superficial, indo só até a camada gordurosa. Ficou em dúvida se seguiria na operação ou se faria apenas pequenos reparos, e por ali mesmo findasse a missão.
Mas e a dor? E o abdome empachado? A curiosidade aumentou, pois o ferimento era superficial, linear e causava toda aquela celeuma clínica. Mesmo com o ponteiro das horas espreitando o borboleteio do nascer do sol, o cirurgião, aguçado de curiosidade, resolveu aprofundar e ampliar o corte. O auxiliar, fadigado, achava que não, que deveria encerrar a peleja por ali, apoiado pela benção do anestesista. A sonda, passada pelo nariz até o estômago, retirava apenas algum muco insuspeito Uma fumaça de silêncio embaçava os primeiro raios de sol.
Acossado pela dúvida, resolveu seguir, como faria qualquer líder, entre os biombos da emergência. Lá encontrou um estômago tufado, abarcando todo o campo visual. Apalpou e percebeu o órgão duro, pedrado. Tumor? Câncer? Normalmente o estômago em situações de urgência fica distendido de ar, oco - jamais consistente daquela forma. Ao abrir o estômago com o bisturi pularam várias petecas de Cocaína. Calculara mais de trinta, mais de quilo.
No meio da manhã, já desperto e algemado na enfermaria, Maldrán confessou que era "mula" e fazia parte de uma nova rota internacional, mas passou mal no avião e seguiu direto para a casa de um conhecido em Opa Loka, que tentou, com navalha e sem anestesia, fazer o destripamento para retirar a droga, pois o filme “Mestre dos mares”, mostra uma cena e aquilo lhe dera algum aprendizado. A dor tamanha não permitira que a manobra medieval transcorresse na calada da noite, quando pensavam que os demônios da cirurgia estivessem distraídos ou sob pesada narcose.
Ficamos sempre vigiando, tentando ouvir conversas para buscar algo que represente a dura caminhada de um cirurgião pelas noites vividas ao fio da ciência dos desafios. Na coxia dos congressos, às vezes me distraio na vigilância e grudo a orelha na prosa de um e de outro. O bago dos olhos esbugalha quando um pedacinho de literatura é encontrada numa prosa frajola entre cirurgiões de vanguarda, mesmo os amigos que vivem alhures. Neste momento a folha em branco pede clamor e se torna ungüento para aliviar nossos pruridos e lubrificar todos os poros de nossas agonias. Eis a biopsia que não sangra: a literária.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Entre o Bar do Parque e o Central Park



O parque central de Nova Iorque só me levava ao festival de Woodstock e ao edifício Dakota. O Bar do Parque, não. Este, apesar do bar não ter parque, mas uma praça-quase-parque, leva-me ao bafafá e ao Ruy Barata, poeta de “Antilogia” que escreveu uma das mais belas peças sobre o tempo, em Pauapixuna: “O tempo tem tempo de tempo ser; o tempo tem tempo de tempo dar, ao tempo da noite que vai correr, ao tempo do dia que vai chegar.”
Vi-o algumas vezes por lá com suas pernas enoveladas, conspirando seus segredos com a fumaça de de seus cigarros. Essa é uma das lembranças do nosso Paranatinga, que dava impressão de estar apenas se deliciando de seus poemas e composições musicais ao lado de um copo de uísque com gelo entre baforadas.
As leiras e esteiras do Central Park, não. Este eu não tinha ideia de sua grandeza iconográfica, até caminhar por seus trilhos acarpetados por folhas mortas que despencavam a todo momento, denunciando a virada da estação e a nossa presença. Feito um flaneur agarrando-se ao frio pisamos sobre aquele silêncio apreciando a biografia do lugar e seus museus ao redor. Entre uma página e outra desta biografia, um esquilo cruzava nossa trilha.
Nossa? Sim, nosso caminho: meu e de minha namorada, afinal era comemoração de 25 anos de casamento e a viagem valeria uma ação de graças de tal peso. Já era tempo de tempo ser, diria Ruy, por isso dei a mão ao meu amor e sai a pé no rumo do destino, pisando em folhas caídas e cruzando com esquilos naquele jardim urbano de tantas produções cinematográficas e literárias.
Lá fora, New York fervia. A quinta avenida pegava fogo com a trump-revolution, que sacodia o mundo (e ainda sacode) a ponto de trepidar a ponte do Brooklin e recolher os bagos do touro de Wall Street. Eu preferi ficar entre selfies, juras de amor eterno e os últimos raios de sol daquele outono novaiorquino, cujas cores se empaletavam num amarelo vangoghiano, pintando algo impressionantemente belo para o eterno sabor da vida a dois.
Levamos tempo para completar esse caminho e esse destino - sina de gente marcada para a eternidade. A medida que parávamos para novos cliques, em torno do lago central, reconstruíamos aquele sino que "blem-blem-blou" na hora do “sim”, quando éramos apenas dois jovens em busca do futuro perdido em cada sonho dormido com travesseiro feito da própria mochila, descascada de desafios e das estepes por onde tudo começou, sob a assinatura do Cristo Redentor.
Na caminhada pelo parque, reservamos uns passos para conversar sobre a prole que engole parte de nosso temperado sentimento, mas que aduba nossa jornada para uma finitude plangente, que ali parecia não findar - não fossem as rugas.
Passava por nós gente correndo, gente andando. Todos ditavam, ao seu jeito, o final daquela tarde. O nosso ritmo parecia diferente, pois acompanhava o de Agnes Martin (1912- 2014), em exposição no Guggenheim, logo ao lado. Ela transmitia uma espécie de pacto com silêncio das artes. Sim, sim, tudo a ver com quem gostaria de ficar em silêncio ouvindo o passado construído e reconstruído entre vários senões, para refletir sobre a riqueza imaterial adquirida ao longo da jornada, prateada de chamego.
Uma observação: não visitamos o edifício Dakota, em acordo tácito. Entendemos que aquela bala que abalou o mundo embotaria nossas bodas. Preferimos sair cantarolando All you need is love, love... love is all you need.. 

sábado, 12 de novembro de 2016

Linfonodo sentinela

Berto, garçom de pouco mais de 30 anos que costumava fazer bicos em festas de famílias adentrou ao ambulatório. Carregava um tumor de baixo do braço, como se fosse uma bola. Tinha fascies de dor e, antes de sentar para confessar sua doença, percebia-se que escorriam lágrimas de suplício. Fez o pedido: "-dotô, me tire esta coisa; me tire esta dor."
Conseguiu-se a internação de urgência, indo pra sala de cirurgia na manhã seguinte, impelido pelo apelo. Na operação tirou-se quase um quilo de tumor e outra pequena amostra do tamanho de uma bola de gude (linfonodo sentinela1). Com sangramento controlado, a operação terminou em pouco mais de uma hora e o paciente seguiu para enfermaria, que dividia com mais quatro, num calor infernal. A felicidade no rosto da esposa, após a boa notícia, foi convertida em lágrimas de esperança, apesar de ainda ser necessário o exame do tumor extirpado.
Lesões como esta devem inicialmente ter biopsias e só então se decidir pelo tratamento – clinico, cirúrgico ou misto. Neste caso, a regra foi atropelada por conta da dor lancinante. 
A alta ocorreu sem complicação. Berto saiu servindo sorriso.
Após dois meses, a esposa volta chorando ao ambulatório:
- "Berto está à beira da morte no Pronto-Socorro."
- "Como assim? Cadê o resultado da biopsia?" Perguntou o cirurgião.
A esposa soluçava muito até chegar ao fim da história, deixando ar de apreensão na narrativa. Com dinheiro curto para pagar o exame das duas peças, escolheu a mais barata - a menor - e mandou ver. Esperou o resultado e, para alegria deu que não fora encontrada doença feia, contrariando a evolução clínica.
- "Mas esse é apenas o linfonodo sentinela. Onde está o resultado da peça grande, o tumor?"
- "Dotô, eu deixei a peça dentro do saco com formol e guardei na geladeira da mãe dele, até que tivéssemos o apurado para pagar o exame, já que o estado não dispõe. Quando arrecadamos fui pegar a peça, mas chegando lá nada mais havia. Indaguei a todos os cinco irmãos e ninguém se acusou, nem os pais. Então achei que a peça tivesse sido extraviada e ido pro lixo. Sem saber o que fazer,  deixei de lado, confortada pelo resultado da peça menor, o tal linfonodo sentinela. Depois de mês o tumor de Berto voltou no mesmo lugar, junto com a dor. Fiquei desesperada. Era dor demais pra pouco tamanho." 
- "Numa dessas madrugadas, ele já internado no corredor do Pronto-Socorro, vi a mãe sentada num canto da casa, choramingando, sem aparente explicação. Cheguei perto e forcei. Ela me confessou que abriu um pequeno buraco no fundo quintal e enterrou “aquela coisa”. Na cabeça dela tudo que é tirado do corpo da gente deve ser logo enterrado."
Berto ficou a base de morfina, até morrer uma semana depois.
No caminho de volta pra casa aquele cirurgião viu as ruas vazias, sentinelas vigiando a cidade que dormia no ritmo monótono da noite ameaçada de chuva. Lá fora um marinheiro tropeçava, discutia com o poste, errava o coice e caia de nariz sobre o esgoto aberto. Lambeu água da vala e ali mesmo incinerou a ciência pela absurda forma de olhar a vida amazônica. 
É na volta pra casa que os náufragos da cidade se encontram. Durante a madrugada, antes de o sono chegar, o céu ribombou e, pela vidraça, escorria o soluto e a ventania fazia a janela tremular. Existia uma lâmpada amarela, de luz doentia, no outro lado da rua, que o espreitava. Foi o último facho de luz daquela dia.

1. O linfonodo sentinela é aquele que primeiro recebe a drenagem linfática de um tumor maligno.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Sem pudores. Ler.



É incrível notar como meu estado de ânimo interfere e é influenciado imediatamente pelas experiências cotidianas. Digo: se estou saindo de um relacionamento traumático, não quero ouvir nem ler nada que me faça lembrar disto! Passados mais remotos também marcam presença firme e forte. Certo, eu sei que é meio óbvio, mas costuma me surpreender. Ponto. E devo reconhecer que alguns sentimentos são muito intensos no momento, o que não vem exatamente ao caso ao observar a beleza dos livros “Catarina” e “Jesse”, da historiadora Bruna Guerreiro, que acabo de ler. Ambos. Num tapa. A vivência vibrante de dois jovens de gerações diferentes é contada de um jeitinho inebriante. Ela com 18, ele com quase 40. Me reconheci em muitas situações. Sim, muitas. E talvez por isso ache que, para escrever algo assim, como os livros descrevem, só alguém que também já sentiu algo parecido minimamente e, principalmente, se permite ter claro tantos detalhes que costumamos esconder despudoradamente: os conflitos mortais, os morais, os desejos, as situações... Tudo soa muito real e não me sinto tão segura se quero sentir, ainda que de relance que seja, o que sentem alguns personagens, em especial os protagonistas. Emoções eu revivi e foi diferente do que senti quando também revivi algumas delas em “Ao som do mar e à luz do céu profundo”, de Nelson Motta. Mas este eu li em 2007.

Curioso é que sempre me vangloriei de poder dizer que nunca senti nostalgia do meu passado, nem sentia ansiedade pelo meu futuro. Em tese, eu estaria mergulhada lindamente no meu presente. E sempre comparei, mentalmente ou não, com as fases de crescimento da minha filha. Amei todas. E digo até este exatíssimo momento: amo todas, cada uma de sua maneira muito particular, com suas dores e especialmente suas delícias. Estava eu, neste molde, contemplada, em minhas diferentes faixas etárias. Poderia gritar aos quatro ventos, sem pestanejar, que estou muito bem, obrigada. O que passou, okey. O que vivo, beleza. O que virá, que venha. Mas a deixa está logo ali no começo do texto, meu estado de ânimo. Comecei então a pensar tanto na vivacidade e dramas de Catarina. Égua! Acho que bateu saudade da audácia. Deu medo também de não poder viver mais isso.

Pauso para desviar estas linhas para minha relação com a Bruna. Fomos colegas de turma, em um curso de espanhol. Como ela deve saber, sempre admirei muito a Bruna, seu charme, sua segurança, sua ousadia. E, quando avalio o perfil da personagem Catarina, pluft! Não é que parece que eu vejo a Bruna? Não importa muito o que isso signifique. Sempre vai significar algo para cada pessoa por diversos motivos. O que vale mesmo é o prazer da leitura e até onde ela pode te levar. A mim, cutucuou. Vou guardá-los, autografados, para minha filha ler (daqui a mais alguns anos).


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Saudações, Nise! Sobre como lidar com seres humanos

No dia em que muitos brasileiros tinham a obrigação de depositar seu voto nas urnas do segundo turno das eleições municipais no país, a alagoana Nise da Silveira completou 17 anos de falecida. Minha memória provavelmente não me permitiria lembrar dessa data se eu não tivesse acabado de ler o livro sobre a “psiquiatra rebelde”, assinada por Luiz Carlos Mello, sugerido e emprestado a mim pelo meu irmão Murilo, um leitor voraz.

Há muitos anos eu já havia lido algumas poucas coisas sobre o trabalho de Nise, que inspirou recentemente um filme sobre sua vida. Bom e fiel a muito do que li sobre ela, por sinal. Mas nada comparado ao que o livro me proporcionou. Uma delícia de leitura! Contém muito de escritos dela mesma, tanto que dá pra esquecer que o livro é de Luiz Mello. Que escrita emocionante e límpida! Tão clara que nem parece conter a densidade de conhecimentos que apresenta.

Não bastasse a belezura, o conteúdo da obra “Nise da Silveira. Caminhos de uma psiquiatra rebelde” (2014, Automatica Edições Ltda) é extremamente instigante. Permite a discussão de diversos temas, além do que notoriamente está posto em questão, que é a metodologia de tratamento de esquizofrênicos numa época não tão remota e o esforço monumental da alagoana por desenvolver uma forma diferente de relação com internos em centros especializados da qual fez parte no Rio de Janeiro.

Parêntese Um: foi por se permitir ler obras então criminalizadas pela ditadura militar que imperava no Brasil que Nise chegou a ser presa e compartilhar cela com a escritora e jornalista paraense Eneida de Moraes. Ficou detida por um ano.

Nise era aprendiz e mestre ao mesmo tempo, e desbravou um nicho que ainda lhe exigia enfrentar o machismo. Não duvidou em estudar Medicina, mesmo sendo a única mulher da turma. Não duvidou em abrir mão de estatus privilegiado entre homens - que se vangloriavam em adotar as mais novas tecnologias oferecidas pelo mercado para esquizofrênicos, como a lobotomia – e cuidar do então chamado centro de terapia ocupacional criado para quem ela insistia em chamar de clientes. Ela não titubeou em enfrentar colegas de profissão por diversas vezes. Uma ousadia... uma coragem invejável!

Parêntese Dois: barrada de um primeiro congresso internacional pelos próprios colegas de casa, preparou-se para o próximo que seria realizado sete anos depois. Sete anos! É muita determinação. E ela foi e arrasou.

Quando viu nos estudos de Carl Jung uma possibilidade para aprofundar seu saber, foi continente adiante e foi muito bem recebida por cartas e pessoalmente. Quando via na articulação com artistas a chance de expandir suas propostas e melhorar a qualidade de vida de quem aceitou se inserir em seus ateliês, também superava cada barreira que colocavam em sua rota. Impossível não admirar essa mulher.

Nise talvez seja mais conhecida entre os ativistas da luta antimanicomial. Mas me parece muito pouco conhecida para tamanha contribuição que deu não só na terapia junto a quem era diagnosticado com esquizofrenia, mas para tamanha contribuição que deu, isso sim, para iluminar a forma de relação entre seres humanos, nossa maneira de lidar uns com os outros. Esse é um desafio e tanto.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Argentina é chamada a parar em defesa das mulheres






Mulheres de toda a Argentina têm hoje um chamado contra a crescente onda de femicídios no país. A proposta é parar suas atividades laborais por uma hora, entre 13h e 14h, sob o lema #NiUnaMenos. Às 17h, vai haver uma marcha do tradicional Obelisco até a Praça de Maio, em Buenos Aires, e a ideia é que se vistam de negro, para demonstrar o luto especialmente pelo recente assassinato da jovem Lucía, em Mar del Plata.


A consigna já vem sendo utilizada há dois anos em protesto contra a violência desferida sobre as mulheres, em claros atos de uma cultura machista. As mobilizações vêm ganhando força de tempos em tempos, a cada garota desaparecida, assediada ou morta; a cada mulher aviltada em casa, no emprego, na escola, na rua ou nos transportes públicos.

Nos últimos dias, houve o 31o Encontro Nacional de Mulheres, na cidade de Rosario. Foi um momento de grande expressão, só tão massivo quanto há 10 anos, comentam muitos dos que estão engajados na luta por uma sociedade menos virulenta contra as mulheres, como o presidente da federação de jovens (Fede), do Partido Comunista argentino, Emiliano Vazquez. Atividade, aliás, que contou com a repressão da polícia, algo recorrente nos últimos meses. Ele conta que a temática de gênero tem ocupado lugar prioritário nas agendas políticas de organizações e partidos políticos, o que pressiona a sociedade a promover mudanças culturais.

Deixo, em espanhol, a chamada para o ato, que justifica bem o porquê de a mobilização implicar empregadores.

No Brasil, sabemos que a cruz das mulheres não é menos pesada. Por isso também é justo mais que sabermos do que ocorre no país vizinho, é justo nos darmos as mãos.

“El 19 de Octubre #NosotrasParamos contra la violencia femicida y contra la precarización de nuestras vidas

Paro de mujeres dijimos desde #NiUnaMenos con la rabia por el femicidio de Lucía en Mar del Plata. Y en el mismo día, el odio de una madre mata a su hija lesbiana, y al día siguiente, dos adolescentes son acuchilladas en La Boca. Con los cuerpos todavía movilizados por el Encuentro Nacional de Mujeres en Rosario y con la bronca de la represión que sufrimos latente, la idea empezó a salir de las redes para convertirse en una asamblea que alojó la sede de la Confederación de Trabajadores de la Economía Popular (CTEP) Fuimos cientos de mujeres organizadas -casi 50 organizaciones y sindicatos representados- y muchísimas más no encuadradas en ninguna agrupación pero con la misma voluntad de organizarse para decir otra vez: ¡Basta! Y juntas decidimos parar: las que tienen un empleo formal y las que no, las cooperativistas, las precarizadas, las que trabajan en tareas de cuidado y no reciben salario, las desocupadas, las estudiantes, las artesanas, las artistas, todas.
Esta vez, el cese de actividades será por una hora, entre las 13 y las 14. Y ahí donde estemos saldremos a la calle, a la puerta de nuestros lugares de trabajo rentados o no
para hacernos visibles.

Porque detrás del aumento y la saña de la violencia femicida también hay una trama económica, la falta de autonomía de las mujeres nos deja más desprotegidas a la hora de decir no y nos convierte en blancos móviles de las redes de trata o cuerpos “baratos” para el tráfico de drogas y la venta al menudeo.

Porque si el desempleo promedio en Argentina es del 9,3 por ciento, para las mujeres es del 10,5
Porque el 76% del trabajo doméstico no remunerado lo hacen las mujeres.
Porque las tareas de cuidado que asumimos nos exponen a mayor precarización laboral.
Porque en los trabajos precarizados la brecha salarial aumenta del 30 al 40 por ciento con respecto a los varones.
Porque el 20% de las mujeres que reciben salario a cambio de su trabajo se desempeñan en tareas domésticas -después seremos mayoritariamente maestras y enfermeras, todos trabajos fundamentales pero desjerarquizados.
Porque cuando tenemos hijos o hijas tenemos que cuidarlos nosotras y la tasa de actividad baja del 54 al 39%.
Porque las licencias por maternidad son cortas y prácticamente no hay guarderías en ningún lugar de trabajo, ni estatal, ni privado.

Por todo esto, el 19/10  #NosotrasParamos, para decir otra vez #NIUnaMenos y que #VivasNosQueremos”

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Entre souvenirs e fés

          Ormindo, um profissional liberal de 50 anos de idade, treinava com afinco e paciência, durante os raiares do sol, para entender sua fisiologia do esforço, pois se desafiava a fazer em 50 minutos o trajeto de 10km da corrida do Círio de Nazaré. Preso a números, seria Ormindo Pimenta 50/50, candidato a: homem inteiro para a vida.
O esforço exigido para treinamento de corrida sobrecarrega a musculatura e as articulações dos membros inferiores. O impacto repetitivo de cada passada transmite ao torso forças estimadas em duas a três vezes o peso corpóreo. A tendência é que, a partir de determinada passada o indivíduo comece a sentir dor e certo grau de irritação. Ormindo precisava entender tais fundamentos para seguir treinando para a corrida do círio, que ocorre uma semana após a procissão de Nazaré, segundo domingo de outubro, em Belém-PA. As últimas versões do evento têm exigido dos corredores de rua cada vez mais empenho e perfomance, por isso Ormindo se dedicava com afinco.
Num dos treinamentos resolveu acompanhar, no seu ritmo, o cortejo do círio fluvial, que se dirigia, por terra, ao distrito de Icoaracy. A quilométrica fila de carros atrás da berlinda estava mais para engarrafamento à paulista que procissão de fé. Eram roncos dos motores e buzinas os cânticos de louvores. Uns querendo passar pelo outro, enovelando o trânsito; outro por cima de calçadas e acostamentos por onde Ormindo treinava; gritos e xingamentos não faltavam apesar da sacralidade do evento. E, apesar do caos, Ormindo seguiu determinado.
Certa altura, o cortejo da virgem e Ormindo parearam. Ele se deslumbrou com aquela imagem e se sentiu vestido por aquele manto e protegido de todos os males. Aproveitou e, com braço direito hasteado após o sinal da cruz, agradeceu a morada que conseguira levantar no último ano.
Ormindo calçava tênis, camisa dry fit e calção brancos. Foi ficando para trás junto com os carros e toda aquela procissão, até perceber que estava incomodando. Buzinas e reverências ao xingamento faziam parte dos bordões de quem estava atrapalhando trânsito e, consequentemente, a procissão. Carros tiravam fino, e teve um que fusca quase o atropela. Eram mais de cento e meio, sofreúdos. 
Cirandou uma idéia ao ver a frente um vendedor de fitas e colares referentes ao círio de Nazaré. Foi lá, gastou dez dinheiros e se fartou de adornos. Depois seguiu correndo os quilômetros que faltavam. Já enfeitado de romeiro, começou a perceber que os retardatários começaram a lhe oferecer água, prece, e diversos apoios, inclusive vozeavam: “vamos lá, você vai conseguir pagar sua promessa”. Carros desviavam para dar passagem àquele promesseiro.  As fitinhas se converteram em passaporte, abre alas, salvo-conduto, marcas indeléveis de fé, respeito e compaixão. Ele se perguntava: precisava? No fundo, mesmo envolto em tantos sentimentos, estava a matéria - souvenirs.
Percebia-se ali a força metafísica homo, um sinal de alerta a quem ousa desafiar a corda que atraca a fé ao pé do homem. Ao finalizar o trajeto, percebera que estava na corda bamba entre a crença e a descrença, sem conseguir apalpar a fé concreta desse povo que se desfaz em chamego diante da imagética mariana. Comoveu-se a ponto de rasgar o coração - frágeis cordoalhas-, como um bibelô no cume da prateleira. Por fim, pediu à Senhora que lhe desse sabedoria pra entender a variedade de crenças que conduz a humanidade.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Paz e democracia, em tese, em tese...


Postei aqui, em 2014, um texto sobre a desaparição com vida de 43 estudantes campesinos em Ayotzinapa (México), vistos pela última vez sob a atuação grotesca de policiais. Passaram-se dois anos e os estudantes seguem “desaparecidos”, num país onde, em tese, está em vigor a paz e a democracia. Em tese. A luta e a resistência de familiares e simpatizantes das causas humanitárias seguem firmes. É preciso ter olhos de ver e ouvidos de ouvir. Sobretudo, coragem para enfrentar a calamidade que ultrapassa fronteiras e revela a falência de um modelo de sociedade que não estou certa se funcionou algum dia. Construir é necessário e urgente.

Busquemos novas fontes de informação e brindemos a nós mesmos um mundo melhor. E como contribuição, deixo uma dica; na página, é possível observar uma sequência de imagens sobre manifestações realizadas no último dia 26.

domingo, 25 de setembro de 2016

Grandes incisões, grandes cirurgiões

Ponto: "Por isso, a história da Cirurgia Torácica confunde-se, em larga medida,
com a história dos artifícios técnicos, criados pelo humano engenho..."
Jesse Teixeira, 1979

Contra-ponto: "O presente se assusta com o futuro e desdenha o passado. Se não somos capazes de adivinhar a próxima descoberta, somos altamente capazes de subjugar o antigo pela coerção mais ignorante que a tecnologia não foi capaz e ofuscar: a que somos o estágio mais avançado da humanidade"
João Pedro Normando, historiador



Em 1978, logo que chegamos à cidade grande ainda éramos meninos, bem dizer, para entender o progresso e o peso da revolução industrial em nosso cotidiano. Costumávamos caminhar pelo centro histórico e rever cada pedra de lióz e comparar com a infância no interior de tempos idos e de textura brejeira. Hoje, andando pelas soleiras de modernas ruas, sob intervenção do progresso, percebe-se que a transformação – inexorável transformação – foi faca amolada em nossos sentimentos de outrora, ao mesmo tempo lentes para nossas retinas de cirurgião congraçado com o presente vistoso.
Esse prelúdio de pensamento ignora o tempo, para e pede silêncio, feito barco ancorado, mas reconhece que a vastidão da tecnologia lustra seus berloques, mesmo sabendo que o caminho por essa dualidade provoca sequidão na garganta.
Na cirurgia torácica, da ótica por onde olhamos, o velho e o novo nos tatuam com flores de ipê - talvez nem seja saudável a comparação -, mas insistimos nesse passado para evitar que nossa memória se desbote diante da avalanche de tecnologias inebriantes, pois há tendência de se descarregar esse decurso no expurgo - o que não é justo.
Destarte, nós, avatares da cirurgia, chegamos aqui por conta desses grandes homens que lutaram e nos deixam esse legado imensurável de bravura e ternura pela profissão. Jurgen Thorwald, em seu viscoso “Século dos cirurgiões”, relata que os grandes cirurgiões do passado se dedicavam a ser mais rápidos nas operações, diga-se de passagem, sem anestesia, sem luvas e sem assepsia. Realizavam grandes incisões e, por isso, poetizavam-se como grandes cirurgiões. Por vezes nos vemos nesta epopeia cuja realidade da época nos deixou estampados o folder da coragem.
Se nossos ancestrais abriam peitos por acessos extensos, com cicatrizes grotescas, fizeram por caminhos cavoucados na solidão do desamparo tecnológico e de novos conceitos. Ampla abertura era o único meio que dispunham para observar a cavidade em suas explorações e, como tal, fizeram muito bem, a ponto de nos beneficiar nos momentos mais críticos da abordagem atual - a do vídeo. O próprio Vicente Forte já nos alertava para a chegada da cirurgia vídeo-assistida, mas brandia para que não abandonássemos o velho traçado circum-escapular. Esse prelúdio de Vicente faz-nos crer fortemente que devemos ter muito cuidado com atitudes e palavras - por vezes jocosas -, quando recobramos o tema.
A operação por vídeo, popularizadas como “cirurgia a laser”, agora tirando onda com a robótica, se aproximou do tórax no final dos anos noventa, autorizada por Sauerbruch. O corte do tamanho de um band-aid trouxe no compasso da evolução tecnológica o passo da revolução industrial, mas toda gente deveria saber que incisão, instrumentais e os uivos de outrora abriram caminhos para o olho mágico de hoje, reduzida magnificamente a uma câmara de 5 ou 10mm, cujo contato entre o operador e o órgão acometido tornou-se por meio de instrumentais apropriados, guiados como um joystick
Portanto, faz-se mister uma postura crítica construtiva alinhavada aos cirurgiões de hoje, pois conquista e tempo são almas que se entrelaçam e se admiram. Para nossa relação com esses homens, valemo-nos da passagem bíblica, quando João Batista viu Jesus Cristo e disse: “Não sou digno de desatar as tuas sandálias”.

Os autores são Roger Normando (PA) e Elias Amorim (MA) são cirurgiões titulares da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica.

domingo, 18 de setembro de 2016

Perdidos em Abey Road; achados no Cavern Club

Andando pelo mundo, na lonjura dos meus rincões, vou beirando terras de outros, feito tapuio cosmopolita.  Ao descer do vagão e pisar no chão alheio, costumo atracar meu pericárdio com tachinhas de afixar recado na parede. Bastam quatro delas nos pontos cardeais e pronto, tá lá meu pericárdio, enraizado naquele pedaço de chão, deixando meu coração se levar no rumo das sensações sensoriais e no semblante da cidade. Os suspiros acompanham cada sístole, e a diástole, para cada sopro de emoção.
Foi assim da última, quando pisei na Liverpool Lime Street, a estação de trem da terra dos Beatles. Tinha vindo de Manchester, ao custo de três pounds, para conhecer o Museu da Indústria e da ciência - aquele da revolução industrial- e também para bater uma bola com Sir Alex Ferguson e Bob Charlton, no Old Trafford e satisfazer a felicidade de meu Danilo, torcedor do Manchester, mas um tantinho distante da história dos Beatles.
Para quem é fã, Liverpool dispensa apresentação: foi lá que tudo começou. Isso já é o bastante para uma passagem - ou peregrinação – a esta cidade britânica dentro de um clássico London Cab, modelo FX-4. Para quem não se importa tanto, Liverpool pode não ser uma escolha turística, já que não tem o charme das pequenas vilas do interior, tampouco a beleza e a tradição das grandes cidades, mas se andarmos por outros bairros percebe-se o ar de vilarejo. Essa atmosfera colimante foi onde se ameninaram Ringo e George Harrison.

Andamos por esses espaços para fazemos o trajeto da infância e adolescência dos garotos de Liverpool. Senti Penny Lane nos meus olhos e na minha audição; Strawberry fields ficaram eternamente tatuados no ponto mais alto do meu pericárdio. A minha respiração parou na paróquia onde está sepultada Eleanor Rigby. Lá Paul e John, por meio do Querrymen, celebraram a amizade. O nome do grupo foi inspirado na escola Quarry Bank, onde Lennon e os integrantes estudavam. A banda ainda existe e foi Paul quem o raptou do grupo, para renascer nos Beatles. A gente tinha a sensação de estar participando do clipe de Free as a bird, nas asas do corvo de Edgar Alan Poe.
Passamos o dia inteiro nesta jornada, mesmo no meu inglês reumático, misturado com tapioca e açaí do grosso. Ainda bem que tinha o Danilo me dando suporte na tradução, do contrário não me emocionaria com a história de In my life.  
Na volta sentamos na cavernosa casa de show onde tudo começou, e tomamos uma Pride a cinco libras, para comemorar o passeio. Depois saímos flanando pela Mathews a burilar souvenirs. Aquelas esquinas não escondem a felicidade de tê-los celebrado e, vez por outra, nos deparamos com alguém de jaquetas e óculos de Jonh, ou algum músico com o corte de cabelo do Paul a cantar Here comes the Sun, revigorados pelo tilintar de moedinhas.
Após a jornada, retomamos a estação. Percebi que Danilo começava a entender a minha geração, bitolada em tanta musicalidade. Mais que isso, ele se viu emocionado diante das pegadas deixadas por Lennon e McCArtney na casa da Forthlin Road, onde Paul viveu com a família adotiva. Considera-se que ali foi o nascimento da banda e reza que compuseram mais de 100 músicas.

A visita é restrita, mas juro que deu vontade de escalar aquele muro e entrar pela janela, como faziam Paul e John, matando aula. Não fiz pelo risco de machucar o joelho, que anda sentindo as dores das estripulias de outrora. Também tinha o risco de chegar lá e ter um espasmo coronariano. Foi melhor assim: enxugar a emoção desse passado com lenços da sonata de Let it Be.

domingo, 11 de setembro de 2016

Perdidos em Abbey Road

He wear no shoeshine...
“Come Together”, do disco: Abbey Road

Já passam das dez da manhã e o frio londrino de final de outono dá trégua. Partimos do sul de Greenwich, pela estação Blackheat, para então pegarmos o metrô no sentido leste e conhecer Abbey Road, a famosa travessia pela faixa de pedestres que ficou consagrada pelos Beatles, em 1969, na capa do Disco “Abbey Road”.
Acontece que, quando chegamos à estação só havia o silêncio do nada – estávamos perdidos em Abbey Road. Com algum custo identificamos uma placa pequena com dizeres: Get back, mas compre seu Ticket to ride até a estação St. John’ Woods, pela via Jubilee. Havíamos confundido a estação com o estúdio. Rimos da gafe e tivemos que suportar o humor londrino e engrossar os arquivos de viajante errante.
Meia volta volver quando, enfim, desembarcamos no sítio certo. Uma chuva fina avisa que um músico toca, indiferente ao alheamento, sua flauta à porta do metrô - por coincidência, Ticket to Ride. Ri pra dentro. Ao lado, um grupo de menininhos loirinhos vestidos de duques acabava de sair da escola e ululavam enquanto o chuvisco crispava. Ouvíamos o flautista, com longas tranças de cabelo afro, até a chuva ceder e retomarmos a caminhada até aportar, de vez, no destino certo. Abbey Road estava na próxima curva à direita, esperando-nos há quase 50 anos.
Por vários minutos, sentado no muro baixo e apreciando aquele movimento, em ponteiro de relógio tipo Big Ben, eu via naquela travessia os carros respeitarem a vez dos fãs-transeuntes. Entre tantos, esseunzinho, pensando naquela imagem "bitouniana" tão urbana.
Guimarães Rosa, em "A terceira margem do rio", relata que “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. Apesar da trepidação da partida e do freio estanque da chegada, é na travessia que nos fazemos gente para superar obstáculos não só pra memória em nossos slots cerebrais, mas pra sentir emoção, tormenta ou mesmo o labirinto da caminhada.
Calculei essa travessia como um simples topógrafo, ou seja, de algum ponto equidistante entre a partida e a chegada, desde que coubesse na minha geometria analítica que aprendi na cozinha de minha formação básica.
Talvez Abbey Road, na outra banda da terra, represente a travessia mais popular da historia da humanidade, se olharmos os pés descalços de Paul na capa do álbum. Não que Ringo, John e George estejam soberbos com seus pisantes, ou representem o dilúvio de nossos inconsistentes desperdícios, mas pés descalços sobre asfalto representam desassossego, desenxabimento, eterna inquietude de nossa jornada e dos que se arvoram a costurar desafios com as mãos da tecnologia ou com as próprias mãos - e pés -, deixando-se ser embrulhado pelas malhas abertas do desafio.
A jornada desse roteiro londrino, a cada passo serve para rever, feito os caminhos que os levaram de Liverpool, ou do Cavern Club, que existe em cada ermitão que nos domina e nos arrasta pelas frestas do espaço viscoso do subsolo da alma.
Mas o que vale mesmo, de permeio, são as ilusões escondidas em Strawberry Fields, que funcionam como combustível para a travessia, o mesmo que nos leva a Penny Lane e nos deixará descansando ao lado de Eleanor Rigby, feito o que não fomos e que ficou nos sonhos alados.