quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Infância enferrujada

Por José Antônio (amigo de infância, perdido na solidão do passado)

Gravado na profundeza das minhas retinas, lá onde as reminiscências se escondem, bem remotas, mais ainda vividas, estão os Normandos.

Família paraense ancorada de mala e cuia, cachorro, periquito e papagaio nas ribanceiras do Envira, na minha terrinha Feijó, interior do Acre.

Senhor Geraldo Normando, o pai, funcionário de carreira do Banco da Amazônia, não sei por que carga d’águas resolveu se aventurar naquelas longínquas terras dos Ashaninka, Shanenawa, Kulinas e Kaxinawá, meus amados conterrâneos e legítimos herdeiros das terras do bem-virá.

Dele, o histrionismo, a risada um tanto Fafá (quem sabe não foram amigos de infância lá pelas bandas do Pará) e tirar uma onda com os amigos são suas marcas indeléveis e bem vívidas na minha memória.

Dona Marina, a matriarca, como esquecer? Sua dedicação e sempre atencioso carinho dedicados aos amigos de seus filhos, e é claro os inesquecíveis e deliciosos ponches servidos nos lanches da tarde, nos intervalos dos intermináveis jogos de botão, estão aqui gravadas para sempre.

De Roger, o primogênito e herdeiro do pomposo nome do pai “Geraldo Roger Normando” acrescido é claro do Junior, lembro bem, a voz um tanto fina e que assim como o corpo traziam traços do pai na cor da pele, e de Dona Marina, na silhueta, além é claro o histrionismo e gozação que sempre fazia com os amigos, mas, sobretudo as aulas mútuas de chutes. Ele com o pé direito e eu com o esquerdo, no objetivo único de nos tornarmos ambidestros. Não sei pra ele, pra mim deu muito certo. Meu pé esquerdo tornou-se bem mais preciso nos chutes que o direito. Que não me deixam mentir os guarda traves do Independência, Juventus, Andirá e Vasco da Gama - do Acre, é claro.

De David Normando, o Toninho, como assim o chamávamos, recordo a vasta cabeleira e é claro o gosto um tanto quanto exótico por comer formigas. Dizia ele que era para ativar a memória. Parece que deu certo. Em conversa recente lembrou até de França Vaz, o maior mentiroso de Feijó, mas que, segundo Zé Arnaldo, deixou de mentir quando se viu confrontado com Jorge Viana, ex governador do nosso querido, amado, idolatrado e salve salve, único e para sempre onipotente Estado Independente do Acre.

Paulo, do que restou de lembranças das minhas gastas retinas, era uma cópia quase perfeita do pai, tanto na cor da pele quanto nos quilinhos a mais no físico. Diria que assim: meio parrudinho.

Já Marcelo, o mais novo, o que me resta nas minhas enferrujadas reminiscências é que seria meio parecido com Toninho, e que tinha também muitos traços de Dona Marina.

Quanto às Normandas, não sei se porque na época, éramos muitos meninos e não tínhamos, ainda, aquele interesse comum aos adolescentes. Roger, David, Paulo e Marcelo perderam a oportunidade de ter-me como cunhado. Realmente a lembrança delas é muito fátua. Só lembro que uma tinha a cor da mãe, e a outra a cor do pai.

No mais são boas, velhas e eternas reminiscências, reminiscências essas eternizadas na poesia e musica do grande poeta e cantor popular Antonio Carlos Belchior Nascimento “Quando eu não tinha o olhar lacrimoso que hoje eu trago e tenho, Quando adoçava meu pranto e meu sono no bagaço de cana do engenho. Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus. Fazendo eu mesmo o meu caminho. Por entre a as fileiras do milho verde que ondeia com saudade do verde marinho. Eu era alegre como um rio, um bicho, um bando de pardais, Como um galo quando havia. Quando havia galos, noites e quintais. Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo mal que a força sempre faz. Não sou feliz, mas não sou mudo. Hoje eu canto muito mais”

domingo, 30 de agosto de 2020

Coisas do Éden (Corisco)

Espero que todos se divirtam. 

Não há muito mais o que fazer nesse mundo.

Leminski 


Benquerença é minha sina, meu destino, meu benquerer. Tenho quase certeza que lá se situava o Jardim do Éden original e só mudou quando os franceses invadiram o paraíso e comeram o abricó proibido que a cobra grande, que mora no rio Caeté, ofereceu pra eles.

Não fosse isso, o que explicaria a profusão de figuras absolutamente especiais que pontificaram naquelas plagas? Como: Fogo na Roupa, Tarabian, Bocage, Hesse Garcia, Zé  do Óculos, O Nosso, Dr.Heráclito, a Para Grande, a Barba Cresce, e mais uma infinidade de artistas que não cabem em tão curto espaço. 

Isso tudo voltou ao recordar a passagem do Ponce de Leon por Benquerença.

Ele chegou com a pompa de quem descobriu a Fonte da Juventude e anunciou que ficaria fechado em um caixão durante cinco dias sem comer nem beber nada, nadica de nada.

Vocês, leitores, podem imaginar o rebuliço em Benquerença. 

A cidade se dividiu em 3: os que acreditaram, os incrédulos e os que foram pra zona discutir o assunto, entre esses o tal de Ponce de Leon.

Meu informante era Otxoa Dila que jurava pros moleques que Ponce era uma agente franquista incumbido de solapar o crescente movimento em apoio à república espanhola que florescia naquela cidadela banhada de espanhóis, contrários ao franquismo.

E Otxoa Dila bradava: "No passará".

Nós não entendíamos nada. O que era franquismo, solapar, república espanhola... em compensação acreditávamos em Otxoa e "No passará" significava que Ponce não passaria um dia de fome no caixão.

Os dias passavam e era chegada a hora de Ponce demonstrar sua mágica. 

E assim se fez. Em meio a um foguetório ensurdecedor Ponce foi trancado num caixão, sob o olhar de quase toda a cidade, postado e vigiados na frente do Edf. Heráclito.

Os feirantes da Aldeia, penalizados com a situação, ao fim da feira, deixavam a xepa ao redor do caixão para o caso de extrema necessidade.

Deu-se, então, o milagre que marcaria Benquerença para sempre. Da xepa deixada ao lado do caixão nem rastro aparecia no dia seguinte. O que acontecia? Quem usava? O caixão continuava fechado. Os vigias confessaram que davam uma cochilada, muito breve.

Bem, cinco dias depois o caixão foi aberto e Ponce de Leon surgiu mais gordo e tranquilo do que havia entrado e ao levantar deu um arroto de satisfação. 

Ponce havia redescoberto a Fonte da Juventude: a crendice popular.

Corisco

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Uma jornada ao vidro fosco

    Fred Hoyle era um astrônomo brincalhão e adorava burilar ideias. Reza a lenda que na Inglaterra pós-guerra, em entrevista à BBC, alcunhou o termo Big Bang à teoria de criação do universo. Sobraram gracejos. Ele quis falar, de forma frajola, sobre a explosão que gerou as galáxias há 13,8 bilhões de anos e do tiroteio de átomos a partir do Buraco Negro. Ainda não se sabe quem apertou o gatilho: se Deus ou mudança de temperatura do universo, mas o bang-bang do Big Bang pegou e ricocheteou, apesar dos sussurros durante a entrevista. A palavra vestiu-se de delírio. 
    A partir dessa expansão do universo nascem: ampulheta, espaço e as horas dos relógios. Einstein, Hawkins, Carl Sagan, Edwin Hubble e uns tantos mais andaram debruçando seus cotovelos sobre a teoria. Tal conteúdo ganhou densidade com a recente descoberta do Bóson de Higgs, em laboratório, e ficou conhecida como Partícula de Deus. 
    Desde então, os astrônomos quando olham para o céu noturno e veem aqueles vaga lumes piscando, certamente vem à tona a entrevista do bem-humorado Hoyle. 
    Decerto também a oncologia pulmonar teve seu Big Bang, assim como seu Fred Hoyle. Com os tomógrafos helicoidais de alta resolução – nossos telescópios –, partículas em forma de poeira, menores que meio centímetro, passaram a ser visualizadas no cosmo pulmonar. A esse achado chamou-se de vidro fosco. O vidro fosco é o nosso Big-Bang, pois o pulmão, repleto de ar, deixa passar, frivolamente, os raios colimados, mantendo o desenho dos brônquios e vasos. Porém, quando há qualquer perda da transparência, a imagem torna-se fosca, empoeirada e o pulmão fica despolido. 
    Deixa ver que, no início do século passado, John George Adami, professor de Patologia na McGill University-Canadá, cria o termo “lepídico”, que viria a ser o vidro fosco na tradução imagética. A palavra vem do grego: “escama de peixe”. Ele quis dizer em seu livro Princípios de Patologia, que lepídico refere-se à lesão circunscrita que descama e escorre para o interior do alvéolo e por lá se acumula feito poeira, a ponto de formar um amontoado justaposto como “escamas de peixe”. Assim sublinhou: "são células tumorais de adenocarcinoma, proliferando ao longo da superfície de paredes alveolares intactas, sem invasão estromal ou vascular." 
    Desde então, quando se mira a tomografia e veem aquele desenho opaco, solitário, ofuscando o parênquima pulmonar, desconfia-se do adenocarcinoma, tal como os astrônomos vislumbram as galáxias em seus telescópios. 
    Com melhor entendimento do padrão em vidro fosco, agora em evidência pela nova peste, houve necessidade de se refazer a classificação anatomopatológica do câncer de pulmão e, desde então, Adami não foi o mesmo: a pneumologia mudou sua rotina e a oncologia torácica viveu a catarse. 
    Com esse diapasão, IASLC-ATS-ERS, maestrinas interessadas no assunto puseram o vidro fosco e o padrão lepídico numa mesma sinfonia e desenharam nova classificação da categoria T. Trouxeram à baila desenhos geométricos para se recalcular o estadiamento. A inclusão desses elementos morfológicos, restritos ao adenocarcinoma, deu novo rumo ao tratamento cirúrgico, assim como ao prognóstico. 
    O incessante rastreamento (do inglês screening) em busca dos vidros foscos tornou-se a maior fissura da atualidade, em que se vislumbram melhores resultados para a cura do câncer pulmonar. 
    Porém, uma próxima conquista tem pressa e busca por tumores avançados. É bem provável que não passe mais pelas lentes de George Adami, tampouco pelo Big Bang tomográfico; é provável que venha pelos filamentos helicoidais da linguagem genética do EGFR, ALK, PDL1... Mas deixemos a poeira dessa peste passar.

Texto originalmente publicado no Jornal da Sociedade Brasileia de Cirurgia Torácica

domingo, 2 de agosto de 2020

As bombas

Nasci nos anos 1950 e cresci ouvindo falar em bombas atômicas e duma briga do fim do mundo entre uma águia e um urso. 
Enquanto isso nos divertíamos com foguetinhos, estalinhos, pequenas bombas, pés de moleques, fio cheiroso, fogueiras e todo tipo de artefato junino que juntasse crianças e famílias nas ruas de Benquerença. Se o mundo fosse acabar, ou se fosse continuar a guerra, já tínhamos nosso arsenal nuclear. Sim, nuclear, porque em torno desse núcleo junino, entre bombas, fogueiras, foguetes, quadrilhas (juninas)e comida farta, foram gerados amores, namoros, filhos e famílias e o máximo de preocupação que a corrida armamentista causava era saber se a Laika sobreviveria ao passeio espacial, ou que nome iria se formar na bacia onde pingavam as ceras das velas descortinando promessas de união de corpos.
Os países ricos e brigões desenvolveram novas bombas e novas promessas de fim do mundo. Em Benquerença, o maior conflito bélico que eu conhecia era uma promessa contida na frase: "te espero lá fora". 
Fui traído e perdi um dente no Monsenhor Mâncio porque meu desafeto não me esperou lá fora e me emporradou dentro do Grupo.
E assim se deu minha infância em Benquerença. 
A guerra esfriou, outras se travaram, o asfalto e a energia elétrica acabaram com a fogueira e a magia das sombras nas ruas; minha namorada não apareceu na bacia das almas e aprendi a conviver com as bombas que insistem em explodir no jardim.

Corisco.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Pôs-se o sol

Nisto Febo nas águas encerrou,
Co'o carro de cristal, o claro dia,
Dando cargo à irmã, que alumiasse
O largo mundo, enquanto repousasse.
Camões, em: “Os Lusíadas”

Numa confluência das ilhargas dos Umaris com as beiradas do Reduto, o bairro das estreitadas ruas de Belém, havia uma edificação que desde tempos idos exalava aroma de Pau Rosa. Criatura dos irmãos Santiago, lusos que há 90 anos ousaram pôr a floresta em barra escura e transparente, como as águas do Rio Negro, só para as pessoas se banharem. Deram ao filho o nome do Deus Sol: Phebo, desarquivado no português arcaico; despregado da poesia camoniana.
Encravada na Bocaiúva, esquina com a Ó de Almeida, a Phebo exalava seu aroma de frescor de banho recém tomado, misturando-se às plumas da sumaúma que completavam a atmosfera européia nos domínios do Deus Phebo. A nascente foi após o ciclo da borracha amazônica, 1930. Todo o buquê do bairro, ou fumegava pelos esgotos, deixando uma espuma em cada boca de lobo, ou pelas chaminés, aromatizando boa parte do bairro.
Agora a história é outra. Perdemos parte de nossa identidade olorosa; não teremos mais a memória olfativa do banheiro de nossos pais e avós. Ela não mais nos acompanhará. A Phebo fechou suas portas e nossos esgotos retomarão aos odores da tragédia sanitária inesgotável. Nossa senhora cheirosa nos deixou e os ratos do Reduto voltarão a viver entre garças e urubus ao largo do Ver-O-Peso. 
A marca pegou o Ita no Norte e foi pro Rio morar. Sucumbiu à vontade da Granado, nova detentora de seu destino. O rótulo ficou esmagado pela cidade que lhe espremia entre a nova febre imobiliária de um dos mais valorizados bairros da Flor do Grão-Pará.
Adeus ao Sol e seus odores. Ficamos sob a luz e suas fragrâncias em nossas narinas profundas da memória. Memória que não se esquiva de um passado milagroso, temperado pela aeração do bairro e pelos corredores do passado incólume, farpando o tempo com seus ingredientes de retrospecção em ideias avulsas.
Quem por lá passa e vê os escombros, sente que um oco ecoa dentro das lembranças. Se desaba um pedaço de nossa história a cada tijolo demolido, a anosmia das ervas e lavandas, que no últimos anos esteve ausente da olfação de nossas ruas, agora vira sintoma irremediável.
Se bem que os deuses poderiam, sob o movimento pendular de turíbulos, esfumaçarem incenso pelos ares daquelas encruzilhadas, mesmo que contenha apenas uma gota/quarteirão daqueles vapores, mesmo que nasçam dos esgotos, pois agora são reminiscências que adormecem em nossas pituítas por onde escorriam misturas de perfumes de flores, jasmins e ervas, a céu aberto.

João Celecindo e Labareda, ambos do bando de Corisco

sexta-feira, 10 de julho de 2020

A tempestade perfeita


Final de ano de 2019. Decidimos fazer um destino diferente: Dubai. Três famílias, totalizando 12 brazucas em busca do sonho das “Mil e uma Noites”.  
Lugar único, onde o dinheiro advindo do petróleo prepara o mundo árabe para o futuro sem combustível fóssil. Tudo é suntuoso; voltado para o turismo. Fechamos nossa festa com vista distante, ainda linda, da Burj Khalifa. Festa inesquecível. Família e amigos confraternizando a chegada de um ano que tinha tudo para ser maravilhoso.
Passado revellión já ensaiávamos a segunda perna da viagem: Singapura, que encanta pela modernidade e tradição. Uma China colonizada por Ingleses. centro financeiro e industrial do sudeste asiático, porém, na quinta-feira, 2, o mundo foi surpreendido pela morte de Qassem Soleimani, chefe militar do Irã, dos mais poderosos da antiga Pérsia. Morreu em ataque com drone dos Estados Unidos em Bagdá, Iraque.
Para apimentar a viagem, a notícia posterior: derrubada de avião comercial ucraniano, por engano. Deu-se a verdadeira dimensão do risco que corríamos. A tensão surgia com o alvorecer do novo ano. Não conseguíamos relaxar, pois estávamos separados do Irã apenas pelo estreito de Ormuz. No entanto a viagem para Singapura foi maravilhosa. Sem maiores problemas, conseguimos sair daquele ambiente hostil.
Desembarcamos dia 04 no mais moderno e bonito aeroporto do mundo. Um belo cartão de boas-vindas a Singapura. Ao final do finger, já no longo corredor, seguíamos o fluxo dos demais passageiros no nosso grupo, normalmente zombeteiro, coisa de nosso sangue latino, quando à frente havia um leve estreitamento no corredor com uma fila indiana. Era um equipamento cercado por pessoas com roupas brancas. Ao passar pelo dito equipamento tive a curiosidade de virar e olhar para a tela. Vi que se tratava de equipamento de leitura térmica corporal. Logo veio à cabeça as vagas notícias sobre uma tal gripe detectada na China. Chegamos a comentar entre nós, mas nada que nos assustasse e desviasse nossa atenção daquele aeroporto fenomenal.
As férias transcorreram na maior tranqüilidade, embora tivéssemos que retornar para Abu Dhabi, cidade ainda sob tensão. Ao final das férias, refletindo sobre os fatos, estivemos na proximidade de uma tempestade perfeita. Às portas de um conflito armado, de um lado, e nas barbas do maior algoz, o SARS-CoV-2. Penso nisso e dá vontade de abraçar a família. A angústia de guerra, embora muito pouco premente, foi mais detectável do que o risco maior, o nascedouro de uma terrível pandemia.
Isso tudo me fez lembrar os refugiados sírios que, bem mais do que nós, viveram o terror da guerra e a impotência em proteger seus filhos do flagelo da fome e da morte. Medo do possível não é nada perto do terror do inevitável, pois outro dia li uma notícia que me fez reatar que tudo aquilo que passamos. O jornal retrata a história de Khadouj Makhzoum, de 55 anos. Essa síria sobreviveu aos bombardeios em Aleppo, na guerra que assola sua terra natal por mais de nove anos, com mais de 380 mil mortes, e forçou mais 11 milhões de compatriotas a virarem as costas para seu berço.
Khadouj teve sorte. Veio parar no Brasil, graças ao seu filho Abdulbaset Jarour, que mora em São Paulo. Mas a sorte não durou muito tempo. A jovem senhora escapara da guerra da Síria, mas se deparara com outro monstro terrível, não no corredor de um aeroporto, mas num corredor de hospital. Foi mais uma vítima da pandemia no Brasil, país que lhe surgiu como esperança de vida nova. Infelizmente, diferente de nós, não escapou da sua tempestade perfeita. Diante disso, a aventura no oriente, não passou de uma leve chuva, a encharcar a memória e a ensinar a valorizar as oportunidades que a vida insiste em nos oferece.

João Celecindo Grilo, do bando de Corisco

domingo, 21 de junho de 2020

Paranatinga infinito

Devo confessar a estas páginas que me sinto uma gota de espuma ao léu por tentar escrever sobre Ruy Paranatinga Barata em seu centenário de nascimento. Mas me arrisco a riscar idéias e transpor o limbo que soterra minha inanição literária.
Do pouco que eu sei - e não me atrevo a esticar nada -, além de suas andanças que vi pelas noites belenenses, também ia de proa pela poesia e pela música amazônica. É nítido que Ruy subtraía dos tesos e das beiradas de rio a matéria prima de sua assinação. Reatar seus versos para reaver esse centenário, faz-me lembrar a sina dos vagalumes: de viverem a ziguezaguear pelas matas nos confins da escuridão, com fins de mostrar sua assinatura.
Mas como o vagalume produz a sua assinatura? A resposta é que esses insetos apanham o oxigênio da natureza e recombinam com uma substância chamada luciferina para produzir a luz sem gerar queima de energia. Entretanto os cientistas ainda não sabem como eles ligam e desligam suas luzes (É segredo de poetas. Talvez Paranatinga, um tapuio com sangue de índio, tenha a resposta embrenhada em seus uni-versos).
E como o Paranatinga sentenciou sua assinatura? A resposta é que esse ser iluminado apanhava o oxigênio das palavras e recombinava com uma substância chamada eritro-poetina, que corre nas veias, dentro das hemácias dos poetas, até alcançar sinapses plangentes e esguicharem-se em seu cenário de verde-mundo. Os cientistas só não sabem como os poetas vagalumiam-se diante desta quimioluminescência. Conhecer esse ciclo por inteiro e transformá-lo em poesia é tarefa das mais difíceis e nenhum cientista ousa pôr seu método em risco para entender este enigma. 
Sendo o poeta pessoa plural, que vagueia por todas as áreas do conhecimento até alcançar os versos, poder-se-ia dizer, então, que o poema é a completude do homem, mas que, para se tornar lembrança infinita ele precisa do aval da natureza, obtida  entre o diálogo da escrita obsessiva e seu húmus, d'onde extrai-se a raiz de termos criptografados na língua nativa. Assim é o Paranatinga, uma forma de espanto entre tantos entretantos e haveres da verborragia: Araguary, Anapu, Anauerá, Canaticu, Maruim, Bararoá, Tajupará, Tauari, Tupinambá...                 
O que inspiraria este artista? Seria, então, o resto de sol no mar - a última luz do dia? Vejamos. Se existe alguma arte em tudo que circunda a floresta amazônica, cortada por rios e atalhos d’água, então, se juntarmos os últimos raios solares que apagam o plano de cada dia, estaremos diante da natureza pedindo o poema; estaremos diante dos pirilampos pedindo a noite; estaremos no meio do rio, no canto da rua, rogando por Ruy. Então, basta qualquer espaço nu: pedra, chão, papel, asfalto – ou mesmo um tosco tronco submerso-, para transformar o olhar semiótico da floresta em tinta que escorra pela caneta do poeta, até tingir o seu mundo com as cores da folha do paricá.
(Ou seja...)
Assim como o vagalume precisa daquela fotoproteína para sua assinatura, Parantinga precisava da fotolucidez, o estalo da criação de seus versos únicos. Assim, de forma crua e rendilhada, ele expunha seu murmúrio contextualizado de imagens e sons que podem ser auscultados rés às suas origens, ou sob a forma de acordes, que precisam de vozes alçadas na fonte propulsora do filho Paulo André, violeiro de encantos e gingados bamboleantes, que deu a Paranatinga asas para ir além da floresta.
Ruy -meu caro Paranatinga-, mesmo alhures, deixe duas ou três pedras de gelo a tilintar pelo teu copo vazio; depois peça ao Zé Bastos três dedos do melhor uísque do Bar do Parque para que o pavio da lamparina reacenda as velas de teu centésimo aniversário de vida. No último gole, suspenda a taça no rumo do teatro do céu e peça para que os pirilampos acendam as luzes de teus versos para que brindemos a poesia que nos revigora em tempos de recolhimento.


Roger Normando, professor de cirurgia torácica da UFPA. 
Editor-chefe do Jornal da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Os rastros de Grendel

Sóis da meia-noite se despedem, recuam para o crepúsculo da noite eterna
Ecos da montanha tocam como sinos badalando os passos de recolher,
Indicam o finalizar das tarefas diárias
Eles depositam sua fé em portas de carvalho ricas em quinino,
se escondem à luz de velas em orações.
O pânico se infiltra no chão manchado de sangue do Império do Centro.
enquanto Grendel persegue a noite rumo ao velho continente
O andante noturno procura suas refeições vindo do oriente.
Prepare as piras fúnebres, Europa.
As músicas de ninar não curam mais o pavor,
Dentro de seus olhos, seus olhos tremem.
Figuras de madeira, deuses pagãos, encaram cegamente o oceano,
Próxima fronteira.
Apelos por ajuda saem dos nevoeiros além dos oceânicos,
Rogam por um salvador nascido de sonhos da ciência
Eles sabem que suas vidas estão perdidas até o momento,
As cabeças sacerdotais se inclinam de vergonha e impotência.
Eles não podem enfrentar a multidão trêmula em convulsão
que se encolhe diante do nome de Grendel.
O andarilho noturno procura suas refeições ao longo do caminho.
Prepare as piras fúnebres
As músicas de ninar não curam mais o pânico.
Dentro de seus olhos, seus olhos fervem.
Quando Grendel deixa sua casa coberta de musgo
Advindo das cavernas repletas de morcegos
Ao longo do caminho da floresta oriental, ele adentra o salão do rei Hrothgar.
Ele sabe que a vitória está garantida,
Até a chegada de um herói.
Suas garras vão pingar sangue mortal enquanto os raios da lua assombram o céu do ocidente
O caminhante procura suas refeições a Oeste
Prepare as piras fúnebres
As músicas de rezar não curam mais o pavor.
Dentro de seus olhos, seus olhos fecham.
Até a chegada Beowulf, em sua armadura branca,
Como um jaleco forjado no fogo laboral,
Ele vencerá com a astúcia dos sábios,
Armas acumuladas ao longo do caminhar da raça Sapiens. 
Amparado no ombro de gigantes pregressos,
Ele vencerá e dará aos súditos do rei Hrothgar.
A redenção final, o abraço esquecido e o entoar dos sinos do retorno ao labor.

João Celecindo Grilo, do bando de Corisco.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

What ?!?!

Celecindo foi a Londres, em férias com a esposa, cunhado e mais outro casal de amigos em Maio de 2016. Visitaram, logicamente, todos os pontos turísticos usuais: palácios, museus, Tâmisa, London Eye, etc...
No último dia, com alguma sobra de tempo, Celecindo pediu licença aos participantes para expressar o desejo de visitar um lugar fora do roteiro: o distrito do Soho. Era para conhecer um famoso poço d’água localizado na Broad Street. Era só meter tração no tênis e disparar off road. Todos concordaram, desde que explicasse os motivos daquele destino. A explicação ocorreu durante o trajeto.
O ano foi 1854. Londres foi tomada por uma doença de origem desconhecida, que estava matando milhares de bretões, totalizando mais de 23 mil. A praga teve início na Índia e se alastrou muro-além. Só na Rússia mais de um milhão padeceram. Tal pandemia foi a que provocou mais mortos no século XIX. 
Entretanto o médico John Snow (Quem é fã da série Game of Thrones notou a associação com o bastardo Stark) foi destacado a trabalhar no olho do furação, o distrito de Soho. Resolveu mapear os casos, passando de casa em casa para saber onde estavam os mais letais. Lançava os dados em uma planilha para montar o mapa sanitárioa. O Soho de hoje fica entre o Regent Park e o Tâmisa.  Neste levantamento ficou claro que havia um padrão geográfico na disposição dos casos.
Ao chegar em certa casa para entrevistar o único sobrevivente de uma família, o rapaz contou-lhe com muito pesar fato de não ter podido ajudar, pois passava o dia fora, trabalhando em outro distrito, retornando muito tarde da noite somente para dormir. Com este relato deu-se o gatilho e Snow detonou à queima-roupa a teoria mais aceita naquele momento: a de contaminação pelo ar. O que de fato existia era tão somente o mal cheiro dos corpos definhando-se em diarreias, que levava à interpretação distorcida da transmissão pelo ar.
Da teoria partiu para o epicentro do Soho, onde havia uma bomba d’água, e que ali poderia estar a fonte do caos. Os sistemas de distribuição de água era privado e dividido por distritos, mas existiam bombas manuais de uso comunitário, em terrenos públicos. O médico iniciou sua luta para inutilizar a bomba localizada na Broad Street. Não foi nada fácil, pois estariam retirando a única fonte de abastecimento hídrico de uma região pobre, seriamente afetada por uma doença que gerava um odor arrepiante. Por ser douto no assunto convenceu as autoridades a removerem a alavanca que fazia a bomba operar. Com isso, os casos caíram absurdamente e ficou provada a relação da Cólera à veiculação hídrica.
Enfim, cortando pela estação Picadilly, chegou-se ao desejado marco da ciência moderna. Porém, onde deveria estar a bomba esclarecedora, para surpresa, não havia nada, exceto alguns homens trabalhando na calçada. Boquiaberto, perguntou a um dos operários: 
- Não deveria ter uma bomba d’água histórica, aqui?
- Sim, mas tivemos de removê-la. Depois de amanhã colocaremos novamente.
- “What?”. 
O vocativo saiu num jato. Tarde demais... Já estavam de passagem comprada para Amsterdã, com reserva concorrida para o Museu Van Gogh.
Para não perder a viagem, do outro lado da rua tinha um belo prédio onde tinha uma pequena placa em homenagem ao pai da epidemiologia moderna: John Snow. A comitiva ficou satisfeita de estar onde a história da ciência se fez na sua forma mais nobre: a preventiva, que evita milhares de mortes.
            Ao chegar em Amsterdã, mal ajustaram as malas e se direcionaram ao então museu Van Gogh. Tinham curiosidade em ver "Os Girassóis", um dos quadros mais belo da arte impressionista, que estaria ali em temporada. Era um domingo e, depois de cerca de duas horas na fila, incomodados por um chuvisco, consegui-se adentrar e começar a visitação. Eis que, diante da parede, nada havia, exceto um under repair.
- “What?Saíram dali e remarcaram o retorno ao Brasil. Na mala, Celecindo guardou um girassol de plástico comprado aquele mesmo domingo na feira de Keukenhof.

Autores: Jader Vieira Leite, Doutor em engenharia sanitária e ambiental pela Escola Politécnica/USP. 
Roger Normando, médico e professor de Cirurgia Torácica da Universidade Federal do Pará.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

O Enigma de 1918

Há cerca de dois anos, enquanto passeava pela University Road, nos arredores de Coral Springs, Florida, a Barnes&Noble expusera Book of medicine. O calhamaço reunia as maiores notícias médicas em 150 anos do New York Times.
De repente, ao despertar certo domingo em meio à pandemia, fiz ranger as folhas daquele livro ao abrir minhas pálpebras piscantes na página 21 de março de 1997, em que o periódico Science publica os estudos do virologista Jefferey Taunbenberger sobre o agente da pandemia de 1918, até então desconhecido à luz da ciência.
A notícia correu o mundo oitenta anos após a epidemia, com assinatura da bióloga e jornalista Gina Kolata, coordenadora da coletânea do NY Times. A lâmina afiada de Taunbenberger retirou amostras do Alaska, Nova York e Kansas. Ampliou o RNA do vírus pelo método revolucionário de PCR. O trabalho durou dois anos. Os 15 mil nucleotídeos (vigas que sustentam o RNA) estavam estilhaçados em 200 pedaços e a outra parte estava carcomida pelo tempo. Montou-se o quebra-cabeça e concluiu-se que o vírus era um H1N1 de alta letalidade, encontrado entre aves e porcos.  
A onda gripal de 1918, que só acabou em 1920, em sua maioria entrava pelos cais dos portos, em que pese inicialmente ter viajado em mochilas e faringes dos soldados americanos que haviam treinados no interior do Kansas e enviados à França, no fim da guerra. Alguns já chegaram febris; depois contaminaram ingleses e chegaram aos portos de Espanha e Portugal até findar no Brasil - mesmo sem a globalização de hoje, veio bater aqui no Curro Velho.
Inigo Crespo, um amigo e cirurgião de Zaragoza, envia-me algumas fontes sobre a epidemia de 1918, alertando-me para a injustiça histórica. Aponta que os ingleses começaram com essa pavulagem. Segundo a historiadora Adriana Goulart, a idéia de Espanha esconder a doença foi noticiada pela London’s Royal Academy of Medicine. Mais tarde, porém, poucos acreditavam neste fato, pois as rádios madrilenhas, ávidas por noticiar o mundo, não deixaram de informar sobre a nova gripe.
Jornais da Trípice Entente aproveitam e disseminam que os miasmas que ancoravam em portos espanhois vinham em garrafas de náufragos lançadas ao mar pela tríplice aliança e, quando abertas em praias ou portos, havia cheiro de rosas partindo o ar, cujas pétalas eram enxurrada de vírus - uma espécie de castigo à neutralidade dos cervantes à guerra. Aldir Blanc cria a metáfora de Nova Granada de Espanha, na canção Corsário, por tratar de potente arma de guerra.
A humanidade mal contabilizava 30 milhões de mortos nas trincheiras da guerra e tinha que somar às covas comunitárias mais 50 a 100 milhões com a nova Gripe, equivalendo ¼ da população mundial.
Só oitenta anos depois, com o progresso da Genética e Biologia Molecular, a exumação dos cadáveres conservados em formaldeído puderam ser reexaminados. Retirar espécimes de pulmão com restos de secreção para aplicar técnicas modernas precisava de coragem e determinação. Tudo foi escrito por Kolata em: “Flu: the story of the great influenza pandemic of 1918 and the search for the virus that caused it”. O artigo de Taunbenberger ainda levou o prêmio científico do ano da conhecida revista inglesa The Lancet. Conclusão do pesquisador: “Eu não posso sustentar um fragmento de gene e dar a resposta a tudo. O que temos é apenas o início de uma história”. 
Dito e feito. O achado do virologista foi ensaio para a epidemia seguinte, a Gripe Suína de 2009, procedente do México. Foi uma questão de desengavetar o que existia para criar a vacina capaz de conferir imunidade contra o H1N1, e aplicar na população. Deu certo.
Com os laboratórios de Biologia Celular aos olhos, o que podemos ver sobre o SARS-CoV-2 é uma nova história ao microscópio. Sabemos que já houve o seqüenciamento do RNA do vírus, ainda na China, mas até surgir vacina e estudar as mutações, teremos que entender a recente história das epidemias. E se jubilarmos passado não tem como entendermos as nossas atuais incertezas, que abrem picadas à luz de lamparina para nosso desespero e mal-presságio.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Rapte-me, Onça, ao seu "ne me quitte pas"


Na verdade, o codinome Onça tem face borrada pelo tempo pretérito. Destingindo a face, ele passa a ser entidade ficcional que carregamos no bolso tufado da memória. O Onça que falo é uma inspiração que se deixou viajar ao longo de quase 35 anos de lembranças, quando ainda éramos estudante e saíamos para os interiores com a turma da faculdade: ora assistência, ora diversão.
O tempo covidiano, é um convite para relembrar e escrever tais vivências.
Tem também Ajuruteua, município de Bragança, na conhecida região do Caeté, na beirada atlântica da Amazônia. É terra do poeta Corisco e da escritora e poeta Lindanor Celina. Lindanor, apesar de nascida em Castanhal, adotou a Bragança como pátria, mas depois de ganhar prêmio nacional de poesia, estabeleceu-se em Paris e por lá ficou. Já Corisco, agora em quarentena, costuma ser encontrado nos bares da cidade aos sábados, disfarçado de Hemingway ou Bukoviski. Já me confessou que, dada amizade com Lindanor, chegaram a trocar diversas cartas enquanto ela esteve viva.
Mas, voltando ao Onça e Ajuruteua...
Havíamos chegado do Chavascal no final do dia, quase anoitecendo, após longa caminhada acompanhada de boas risadas. Ficamos hospedados na vila de pescadores, numa construção de madeira bem simples, onde agasalhamos nossas mochilas. A casa não tinha compartimentos, apenas escápulas para armar redes e uma estreita bancada onde colocávamos algumas necessidades. A vila não tinha eletricidade e ficamos sob a luz de lamparina, ouvindo o barulho do mar, que vinha da direção da praia da Pancada.
Dentro da casa, Humberto, violeiro, e Rochinha, na percussão, puxaram uma roda de MPB, enquanto acompanhávamos no gogó. Dois se recusaram a participar da violada e se aconchegaram em seus sonos.
De repente chega o Onça...
Onça era homem com os matizes da noite: bem afeiçoado, forte, dentes alvos e sorriso leve. Era harmonia do lugar. Pediu para sentar e acompanhar a tocada. Vivia com a filha da senhora da casa ao lado, de quem havíamos pedido para nos albergar, vez que o dinheiro só dava pra cachaça e umas pratiqueiras pra fazer de avoado. A esposa do Onça, que tínhamos conhecido pela manhã, tinha lábios arroxeados, pletora facial e dedos em baqueta de tambor. Humberto, que armava planos para fazer residência médica em cardiologia, colocou o ouvido no peito da moça e, pelo ruflar do coração, logo fez o diagnóstico: cardiopatia congênita, provável Fallot - de prognóstico reservado pela idade avançada da jovem. Ela vivia no fundo daquela casa de três cômodos, sustentada sobre tocos afundados na areia da praia. Passava o tempo todo acocorada, comendo pratiqueira e aguardando o juízo final, sem deixar de desfrutar a beleza do lugar através da janela.
Ao chegar e logo sentar, o Onça nos deixou inicialmente aflitos. Depois foi se soltando. Pede copo e começa a entornar nossa cachaça. Enquanto apenas bebericávamos, ele botava uns três dedos da pinga e dava-lhe sem fascicular um só músculo da face. A cada talagada esbugalhávamos os olhos, sem disfarçar admiração.
Seguimos nossa toada...
Eis que rolava Caetano, com “Rapte-me, Camaleoa” e nesse momento, quando ocorrem as últimas batidas, em “Adapte-me ao seu ne me quitte pás...”, cujo nível do álcool já atingia a o bulbo cerebral, saímos emendando numa outra música que nada tinha a ver com a original do Caetano. Na sequência My Boy e o Rochinha seguem complementando a letra num ritmo harmonizado com a sutileza do Onça, a degustar a branquinha. A catarse finda e a melodia é cifrada numa harmonia muito simples.
Quando a gente finaliza a canção, com o refrão “Ajuruteua, amei o teu mar”, todo comemoram, saúdam-se e riem. Menos o Onça, que permanece em seu estado “interestelar canoa”, à sombra de nossos olhares curiosos pelo canto do olho.
De repente, aproveitando nossas apneias, o Onça grita: - ROGER É SOM DOIDO. E logo cai pra trás, duro como uma estátua, levando a cabeça ao chão. Em seguida fica se estrebuchando, como se estivesse num octógono após um cruzado de Ali. Espantado com o grito, fomos acudir, achando que o homem tivesse em coma por uma apoplexia cerebral. Nada! Relaxou e dormiu a noite toda naquela posição desajeitada, a lembrar um Rodin.
Foto de Ananda Varma
Amanheceu e procuramos pelo Onça, mas ninguém o viu. Seria uma visagem saída dos contos de J.K Rowling? De repente, vê-se duas redes ensanguentadas e o chão com pequenas poças de sangue, embaixo dos dois que optaram por dormir mais cedo. Tomamos um susto. Os dois, de imediato, passaram a mão no traseiro, para assegurar que não houve tentativa de golpe baixo por parte do felino. Vimos que no dedão do pé de ambos havia lesões puntiformes, indolores, em linha, que lembravam picada de algum animal com presas. Eram morcegos vampiros, disse-nos a vizinha, comum na região do Caeté.
Nas noites seguintes àquela violada, antes de dormir, os dois não deixaram de dar suas bicadas naquela resto de cachaça que, além de santa, foi abençoada pelo Onça com o antídoto anti-hemorrágico.
Já de volta, tiveram que ir ao posto de saúde tomar a vacina antirrábica, dose semanal, durante um mês. Cada picada no abdome era um arrependimento de não ter visto a onça beber aquela água.

domingo, 19 de abril de 2020

Silentio (Por Corisco e Labareda)

O arco que ora construímos neste período de exílio, nas entre-horas das pálpebras semi-abertas, permitiu-nos apreciar, longamente, pela primeira vez, a vida interior. Quisemos ao longo desta quarentena conviver com a literatura universal e científica mais que qualquer outra arte. Ao reconstruir metáforas, diz-se que os momentos foram de puxar cadeira e conversar com poetas sob a sombra das mangueiras que ainda habitam nossas infâncias.
Enquanto discursos falseadores caem e teses levantam em forma de ensaios científicos, em meio ao encovidamento indolente, optei eu por visitar a literatura que havia guardado para o final, quando findassem os trabalhos de artesão da ciência moderna.
Eis que ao começar a ler a última publicação da JAMA, sobre novidades farmacológicas, a campainha toca e desperta este ermitão. Do quintal cruzo a casa pelo corredor para receber o carteiro mascarado: É um poema rascante de meu poeta preferido.
Já nas primeiras estrofes a presença do invisível tornara-se tão presente, que de pronto catapulta-me para outro destino, deixando-me uma presença ameaçadora, silenciosa, fatal: a de um Vírus - que de tanto poder, passo a pôr letra maiúscula.
Sinto-o em cada trisco de vida que me pertence e também nos que se avizinham. Tudo é ameaça: desde o inocente pãozinho que nos aquece e apetece no raiar do dia, ao delivery que chega carregado de fatalidade. Tudo é ameaça: é guerra, é flecha com pólvora destinando meu pulmão a deixar o fôlego a mercê de um fole insuflador de ar.
Minhas vaidades se afastaram e o espelho reflete medo. As ruas imploram pelas buzinas estrepitosas, os xingamentos dos apressados e o mau humor dos motoristas de ônibus que sempre exibiram sua fortaleza de lata em detrimento dos indefesos pedestres. Somos todos frágeis, embora continuemos desiguais, porque o invisível, respeitando a Darwin, sente-se à vontade nos menores atos, e as divindades estão ocupadíssimas no esforço de atender seus crentes, assim como a ciência tem ritmo próprio para esperançar os mortais.
Enquanto isso um condutor amalucado dirige um povo pro abismo. Salve-nos o que restar de razão e lucidez antes que o pandemônio nos sugue para o buraco negro da solidão dos astros.
Estamos confinados, subjugados, engaiolados, enquanto nossos heróis lutam bravamente na guerra da vida contra a morte silenciosa e sem dó.
Mas posso dizer, enfim, ao poeta, que vivi viagens com amigos; sentei ao lado de meus parceiros de escola; caminhei ruas com filhos; deitei à luz do candeeiro com minha amada e abracei os irmãos de sangue antes de me trancafiar.
Porém, depois que o mensageiro deixou esse envelope, cuja marca d’água era um caracol de RNA rodeado de uma coroa de rei, a dita tomou fôlego e pousou na minha narina. Vi-me tal como aquele curió cantador dentro da gaiola de minha infância tenra.
Mas...
“Deixemos de coisa e cuidemos da vida, pois se não chega a morte ou coisa parecida” o silêncio do mundo trafega pela vida em escalas de séculos, explorando as polissemias do verbo to be, ou a viver travessias sem a estrela-guia, rumo ao oeste incógnita, a deixar corpos tombados pelas valas da Lombardia ou em barrancos de águas barrentas que toldam minha visão.
Ao findar a leitura, levantei-me e fui ao muro do quintal, a procurar o eco do sol para silenciar minha tormenta. Dei de cara com “filosofia”, de Salvatore Rosa, exposto na National Gallery de Londres, de memória recente. Nele o fundo cinza representa a tristeza do mundo em relação ao momento. O rosto do jovem, com o olhar fixo diante de toda escuridão, desenha a curva montanhosa da matemática à frente do novo ritmo exponencial. O seu latim exprime a verdade: Avt tace aut loquere meliora silentio. Cai em mim todo silêncio do mundo.
Subitamente vem outra imagem: aquele cartaz da enfermeira, afixada em toda porta de hospital, pedindo silêncio aos enfermos de alma – e de pulmão. Agora, esperançoso, estendemos (eu e o poeta) o pedido aos cientistas de alma e de coração e, se sobrar algum silêncio no coração de todos, vale a poesia de Maria Souza, portuguesa (Universidade do Porto) e Imunologista de 80 anos e poeta. Ela morreu, esta terça-feira, vítima da Covid-19. Escreveu este poema à beira do leito de morte.


Carta de amor numa pandemia vírica


Gaitas-de-fole tocadas na Escócia
Tenores cantam das varandas em Itália
Os mortos não os ouvirão
E os vivos querem chorar os seus mortos em silêncio
Quem pretendem animar?
As crianças?
Mas as crianças também estão a morrer

Na minha circunstância
Posso morrer
Perguntando-me se vos irei ver de novo
Mas antes de morrer
Quero que saibam
O quanto gosto de vós
O quanto me preocupo convosco
O quanto recordo os momentos partilhados e
queridos
Momentos então
Eternidades agora
Poesia
Riso
O sol-pôr
no mar
A pena que a gaivota levou à nossa mesa
Pequeno-almoço
Botões de punho de oiro
A magnólia
O hospital
Meias pijamas e outras coisas acauteladas
Tudo momentos então
Eternidades agora
Porque posso morrer e vós tereis de viver
Na vossa vida a esperança da minha duração

Maria de Sousa
3 de abril de 2020



sexta-feira, 17 de abril de 2020

Uma lágrima por Espinosa (Por Corisco)

      Estava num Rio estranho, numa Copacabana diferente, onde as águas  estavam longe e as pedras do calçamento não se faziam em ondas, como o mar.
      Esse Rio era uma Copacabana em forma de praça, uma linda pracinha num aprazível bairro, quase autônomo, chamado Peixoto, onde crianças brincavam sob o olhar atento de mães e babás, todos protegidos por prédios baixos ao derredor.
       Meus olhos estavam encantados com a paisagem bucólica que eu não imaginava encontrar. Havia uma certa paz e um ar de coisa do interior que fazia minh'alma vagar de um canto ao outro atenta a esse encantamento que me tomava.
       Num esforço retomei a consciência do motivo que me levera até lá. Procurava por Espinosa, o herói policial de Alfredo Garcia-Roza. Onde moraria? Em qual dos prédios? Estaria me olhando semi escondido pela janela, ou à  sombra de alguma árvore que enfeitava o lugar? E assim deixei o tempo me ocupar num ir e vir infinito.
       Desisti de encontrá-lo ali e fui à Galeria Menescal tentar a sorte na Baalbek onde ele poderia estar investigando uma esfirra. 
Perguntei por ele e fui informado que talvez o encontrasse no Pavão Azul.
       Lá me deportaram pra 12a DP, logo em frente. Não estava. O dia já estava se entregando à  noite e nada de Espinosa. 
       A sorte me ajudou e Welber apareceu entre o cansado e o espantado. Ele sugeriu que não buscasse por Espinosa, esse tinha ido ao funeral de seu mentor, Garcia-Roza e iria sumir.
       Pasmado e impactado, sob "O Silêncio da Chuva" e o "Céu de Origamis", vaguei como um "Fantasma" até que um "Vento Sudoeste" soprou como se atravessasse "Uma janela em Copacabana", me devolvendo o prumo e me empurrando rumo ao táxi de Berenice. 
       Assim pude chegar à Trattoria. Entrei.Havia tristeza nos olhos dos atendentes. Pedi um vinho tinto e, sem disfarces, deixei cair uma lágrima por Espinosa.

Corisco

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Pelos labirintos da metodologia científica

“Não sabemos como medir a velocidade da ciência, mas o que sabemos é que os cortes nos investimentos científicos equivalem a cortes na nossa capacidade cerebral e beneficiam apenas os políticos que ascendem com a ignorância”.
Mario Bunge, filósofo argentino.

Entre Lausanne (Suíça), Rio e São Paulo, três médicos pesquisadores discutem em rede social o uso da Cloroquina. Como epidemia vara fronteira com passaporte alheio, aqui do meu recanto da floresta amazônica fico a ler os amigos que tanto admiro e a interpretar Mario Bunge, filósofo cientificista da linha de Karl Popper (1902-94).
- “Todo político quer levar os comprimidos da cura”. Segue: “Este vírus deve voltar no ano que vem. Se continuarmos sem as respostas, a confusão no próximo ano será igual”.
- “Essa questão da Cloroquina virou uma coisa insana. É uma questão de metodologia científica e não política.”
- “l’émotionnel va dans les deux sens: vers ce qui terrifie et vers ce qui rassure. Le narcissisme rôde partout”
Percebe-se claramente que todos estão abraçados na questão científica, ou seja, vê-se preocupação com os rumos da politização da Cloroquina. Conclui-se: fora dos valores da ciência a pandemia vira pandemônio; impera o empirismo.
Para meu poeta preferido, o tempo perdeu a linha e parece que ficamos a ermo, como se Teseu cegasse, a ponto de perder a luz e viver só, perdido nesse mundo tão cheio de razões voláteis, que nem a lucidez tem vez, mesmo recebendo sinal da estrela guia. É a alucinação que vem iluminando o caminho e o Minotauro se refaz do mito grego e vem à tona vestido de ninharia política, a brandir verdades que só cabem nos bolsos dos desesperados.
Se Mario Bunge, autor da epígrafe, ainda fosse vivo, teria convidado Karl Popper e convocado a banda do Super-Trump para uma “laive” em plena Manhattan, vestido de Teseu – ou de toureiro - para enfrentar o touro de Wall Street.
Morando no Canadá, Bunge morreu aos cem anos (fevereiro de 2020), mas entrou esperneando no esquife. Duas semanas depois, a OMS declarou a pandemia. O azar foi nosso. O filósofo era um defensor do método científico por meio do realismo científico, em que se descreve a ciência a partir do seu objetivo e de suas conquistas para produzir descrições verdadeiras (ou aproximadamente verdadeiras) do mundo. Tal como Popper, ele era avesso à pseudociência; sendo mais claro, avesso a balelas vitaminadas de ciência, o qual cognominou de “risco de falseamento”. Diante dos desafios à terapêutica antiviral com cloroquina, certamente teria como contribuir à polêmica que ora vivemos.
Se contarmos pelas páginas da epidemiologia, Bunge nasceu em meio a outra pandemia, a Gripe Espanhola, e coincide morrer em outra. Declarou, de mãos limpas e sem máscara: “Negar a ciência é muito mais fácil que aprendê-la”. Com este diapazão, provavelmente ele condenaria os atuais ensaios sobre a Cloroquina e ficaria com o seu olhar de lince à espreita de resultados clínicos robustos, só para abrandar a ferocidade dos alucinados - inclusive a minha. Juntamente com o brasileiro André Kalil (Nebraska Medical Center-EUA), estudioso no assunto, entenderia perfeitamente que no ar viciado, que ora a peste empesta, o vírus vaga à vontade. Estamos “tratando as emoções”, segundo ele. E completa: "Muitas drogas que acreditamos serem fantásticas acabaram matando pessoas... como é difícil continuar explicando isso."
Não obstante, o editorial da renomada British Journal of Medicine foi categórica em definir que: “neste momento, exceto pelas medidas de suporte, a doença não tem remédio.” Os fatos são sonoros, mas houve grunhidos. Aliás, ouve-se grunhido por todos os cantos do planeta. É o grunhido que impressiona e cala a filosofia científica e deixa a população de olhos esbugalhados na TV, participando ativamente do sepultamento dos novaiorquinos ao ver o vírus nocauteá-los como se fosse um jab na bolsa escrotal do touro de Wall Street, apesar do uso liberado da Cloroquina nos EUA.

Roger Normando - Professor do departamento de Clínica Cirúrgica II, disciplina de Cirurgia Torácica - Universidade Federal do Pará.