domingo, 25 de junho de 2017

O pulo do grilo

“Este universo está cheio de histórias, não de átomos”
Muryel Ruckeyser, poeta estadunidense

Há 30 anos um disparo calou o rio Maratauíra, braço do Tocantins. No colo da mãe, o menino Leon foi levado às pressas para Abaetetuba, amparado nas remadas de um ribeirinho que passava por perto. Montaram na canoa e seguiram pelo resvaloso caminho das águas amazônicas.
-De onde vem todo este sangue? Perguntou o canoeiro, homem atarracado, com fortes traços indígenas, remando contra o vento, a correnteza e um enigma.
-Um tiro varou a cabeça do menino.
- Quê?
-Sim, um disparo feito pelo pai... acidental!
Um morno silêncio atravessou a goela daquele barqueiro.
-Não dá pra avexar? Gritou a mãe, desesperada.
-Estou fazendo força... Não tenho culpa.
Remou em silencio por mais de hora. Adiante a língua roçou:
-Este tiro foi acidental, mesmo? A mãe, cabisbaixa, ensanguentada, ficou sem voz. Apenas olhava o filho arfando, com estridor, sem esquecer de mais sete que ficaram no Guajará de Beja, o lugarejo.
Após quase três horas, chegaram ao hospital. Tinha a respiração opressa e logo entubaram para aliviar o estridor. Melhorou, mas ainda corria risco. Trataram de transferi-lo para Belém.
Vida salva ou morte adiada?
Após três meses, Leon teve alta e saiu de braços acorrentados com a mãe, carregando como lembrança, por mais de trinta anos, uma canuleta metálica no pescoço. Por ela respirava, mas sem a voz.  Cresceu e atingiu a idade adulta com aquela marca do passado. Diziam os médicos que ele tinha o goto fechado e jamais falaria.
Viveu 30 anos sonhando em mergulhar no Maratauíra, o rio de sua aldeia. Não saia de casa com medo de o barco afundar e entrar água nos pulmões. Viveu encarcerado pela sua história e rodeado de seus medos. Seu imaginário era regado a silêncio entremeado por silvo dos curiós, bocejo da floresta e zoada da chuva na folha do Paricá. Leon cresceu no trabalho pesado ao buscar fôlego para viver. Os músculos torneados eram de tanto subir de peconha no açaizeiro e de carregar, nos ombros, sacos de estopa com produtos da terra.
Após 30 anos voltou ao hospital para corrigir a sequela e refazer a respiração, a voz e a esperança. Quando adentrou ao consultório, com olhar desmantelado, Leon só desconfiava, mas estava disposto a enfrentar a cirurgia e realizar o sonho de mergulhar no rio.
Foi uma operação longa e trabalhosa, falaram os médicos. Quando se recuperou da anestesia e começou a sentir o ar pelas narinas, era como se a vida tivesse começado de revés e o relógio da parede do CTI seguisse no sentido anti-horário. Tudo lhe era estranho, inclusive o grunhido da voz e da respiração. Até hoje não sabemos se ele se negou a falar naqueles dias de internação, ou se desaprendeu.
Leon voltou à sua terra carregando a voz incrustada no assombro daquele estampido, para esquecer a metade de sua traqueia que ficou no expurgo.
A operação de mais de quatro horas foi ideia de Hermes Grillo (Boston) e Grif Pearson (Toronto), anos setenta. Grillo dissecou a causa (longo período entubado no CTI), mas foi Pearson o personagem, ao descobrir o pulo do gato – ou do grilo -, ao retirar o segmento de traqueia endurecido sem lesionar o nervo da voz, que passa rés à glote.

A partir da década de oitenta alguns brasileiros se destacaram e disseminaram a técnica, até chegar nas quebradas do Maratauíra. Os anos que levaram para sedimentar e disseminar a técnica foram os mesmos que Leon levou enclausurado às margens daquele barranco, esperando a vez da sua voz.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Entre tragédias e celebrações


O mês de junho é desses meses de uma profusão de festejos. Mês colorido. Bonito. Alegre. Cheio de peculiaridades gastronômicas e sonoras. Ah! É quadra junina. Pelo menos em parte do Brasil. Num Brasil que ainda celebra, mesmo diante de um governo não eleito e que samba bambo numa rejeição estonteante. Nunca antes... Bem, num Brasil que também reluz, dentre tantas desgraças, frente uma violência no campo e na cidade que são um terror. Índices belicosos. O Pará, por exemplo, ainda estarrecido numa polêmica com o que se demonstra, sim, uma chacina em Pau D´Arco. Abro parêntese: polêmica! Enquanto movimentos ligados aos direitos humanos marchavam indignados com tamanha barbárie que vitimou 10 camponeses, policiais distribuíam convites com a logomarca do Estado para uma caminhada em defesa dos que protagonizaram a matança. Isso tudo há menos de 2 semanas. A mesma capital do Pará escancara uma noite que se foi de mágica festa com o Baile do Mestre Cupijó, no centro da cidade, foi de banho de sangue no bairro da Condor, na periferia. Menos de 24 horas. Parece a dicotomia da chuva, em que uns a celebram e tantos outros amargam suas consequências. Não, não vivemos uma dicotomia, é só para ilustrar. E há quem diga que não existem milícias no Pará. "Tudo certo/como dois e dois são cinco". Oh, Antonico...

Estarrecida, escolho compartilhar um relato menos melancólico que o meu. Não menos indignado. É da amiga jornalista Brenda Taketa. E seguimos cada um com nossos processos de digestão.

"Acho que falta ligarem os pontos (do massacre no bairro da Condor na noite desta terça) com
1) a mobilização quase histérica da bancada da bala após a grande repercussão do massacre em Pau d' Arco e a federalização do caso, o que significa que não será simples botar panos quentes nos assassinatos como meros autos de resistência;

2) a tentativa de agressão ao presidente da comissão de direitos humanos da Assembleia Legislativa no começo da semana e o próprio descontrole psicológico do parlamentar agressor;

3) e a demonstração de força por parte da polícia militar desde o último final de semana na capital.

Afinal, qual foi o sentido dessa operação midiática, espetacular e aparentemente improvisada, que colocou tantas viaturas, helicópteros, policiais militares no centro da cidade? O governo quis melhorar a imagem pública no final de semana de passeata dos policiais em favor dos envolvidos com a chacina em Pau d' Arco? Ou já previa algum novo confronto associado às máfias do tráfico? Ou foi mera jogada de marketing e tentativa de diminuir a "sensação de insegurança" em parte dos seus eleitores?

Enfim, são fatos muitos recentes e contínuos pra gente considerar que não há relações. E o que parece em jogo é a consolidação de um Estado policial com feições cada dia mais totalitárias e nebulosas no Pará. Que os especialistas ajudem a entender as implicaçōes disso, porque são muitas as questões que se impõem a nós diante de tantas tragédias. Pensar ainda é resistência, questionemos."

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Ode ao Mestre Cupijó

 Mestre Cupijó entre suas memórias, na sua casa, em Cametá. Por Viviane Pinheiro

 De boné, Manoel Valente, meu camarada de grosso calibre, no mágico Bar do Gato.
Foto: Viviane Pinheiro

Posso dizer que a vida jornalística me permitiu algumas lindas incursões pelo interior do Pará. Uma das lembranças que tenho é de uma ida (dentre muitas) à charmosa Cametá, também conhecida como terra do mapará. O peixe. Sem alusões futebolísticas. #Payxão Aliás, incursões profissionais também me renderam boas relações pessoais, com gente maravilhosa, que feliz ou infelizmente, em sua maioria, ficou pelo caminho da vida.


Lembrei disso por ocasião de uma escuta, na Rádio Cultura FM, do grupo Baile do Mestre Cupijó. Que linda notícia a do projeto (em três vertentes) da cineasta Jorane Castro, sobrinha do mestre do sax e da cultura popular. E que belíssimo trabalho o dos músicos! A formação da banda vai permitir uma apresentação, amanhã à noite, em Belém, para gravação de documentário contemplado pelo programa Petrobras Cultural.

O release que vou reproduzir explica bem o projetão a que me refiro. Recomendo a leitura. Me atenho aqui a essas memórias tão bacanas que guardo com carinho. Eu produzia um jornal chamado docemente de Pássaro de Papel, sob a coordenação irretocável de João de Jesus Paes Loureiro. Era uma bracinho do trabalho dele com artistas da Universidade Federal do Pará (UFPA) nos nove campi, numa bela relação com profissionais iniciantes ou já tarimbados de diferentes linguagens. Quando a iniciativa foi para Cametá, tive a oportunidade de conhecer o torrencial Manoel Valente, artista e ativista que depois ingressou no curso de História. Ficamos amigos de pronto e hoje lamento ter perdido contato com ele.

Foi Manoel que me levou até a casa do Mestre Cupijó, nome mais do que representativo do Baixo Tocantins. O encontro teve sucesso na segunda tentativa. Já éramos três, porque se integrava a nossa barca a fotógrafa Viviane Pinheiro. Creio que ela esteja morando em Fortaleza. Foi uma grande parceira de aventuras.

A casa modesta do mestre era riquíssima de guardados culturais, saudades, prazeres, desejos. A entrevista foi uma conversa informal, entre discos, documentos, fotografias, jornais. Não estava muito afeito à máquina da Vivi, mas conversou que foi uma beleza. Inclusive citou que faria parte de um documentário feito por sua sobrinha um dia!

Depois de uma tarde ou manhã de conversa, acompanhamos o Mestre Cupijó em mais um dos seus habitats naturais. A banda sinfônica saiu à noite para uma homenagem não sei bem a qual santo ou santa. Eita que a cabeça está falhando! Era uma festa com direito a quermesse e tudo. Ele se integrou à banda obviamente de forma magistral, mas sem lugar de destaque ou qualquer pompa. Vestido simplesmente como todos os demais, ocupando um lugar nas fileiras da banda como os demais. Em seu indefectível chapéu de tecido. Um cortejo brilhante!

Há cinco anos do falecimento do Mestre Cupijó, espero muito, pero mucho!, poder ir ao baile e reviver estas emoções tão caras. E, quem sabe?, rever Manoel Valente.

Release
Mestre Cupijó terá obra regravada em DVD por músicos paraenses contemporâneos

Baile do Mestre Cupijó” será no dia 06/06, às 20h, no teatro Margarida Schivasappa, em Belém. Projeto faz parte de documentário da cineasta Jorane Castro, contemplado pelo Programa Petrobras Cultural.
 
Mestre Cupijó, natural de Cametá, incorporou o saxofone às sonoridades tradicionais de comunidades quilombolas do Baixo Tocantins - uma ousada combinação dos ritmos ancestrais com instrumentos de sopro. E foi justamente essa junção que o tornou conhecido por reinventar o Siriá. Falecido em 2012 e com sua obra pouco sistematizada, ele será homenageado no DVD “Baile do Mestre Cupijó”, a ser gravado no dia 6 de junho, às 20h, no Teatro Margarida Schivassapa (Centur), em Belém, com direção da cineasta Jorane Castro.

O show terá participação especial de Felipe Cordeiro, Dona Onete, Kim Marques, Lucas Estrela, Waldo Squash e mais 12 artistas de diferentes vertentes da música paraense, com direção musical de JP Cavalcante e produção musical de Daniel Serrão. O show não será uma forma de reinterpretá-lo, com rearranjos, mas a tentativa de apresentar siriás, banguês e mambos, sobretudo, conforme o próprio Mestre tocava e seu peculiar invencionismo sonoro. A gravação do DVD será uma forma do público descobrir o som das festas do Mestre Cupijó.

"Vi vários shows dele e a música que ele criou é muito contagiante. Tenho muito respeito pela obra que deixou como legado para a cultura e a música paraense. Era calado, reservado, conversava pouco, falava só o necessário. Não gostava de dar entrevista nem de falar sobre o que ele fazia, talvez por isso temos poucos registros de sua trajetória. Durante a pesquisa sobre o trabalho dele, não encontramos muito além dos discos gravados. Foi isso que me motivou a realizar o DVD e o documentário, para preencher esta lacuna”, comenta Jorane Castro.

Durante a jornada ao Baixo Tocantins, JP Cavalcante, diretor musical, pode compreender melhor a partir das conversas com pessoas próximas ao Mestre, o gosto de Cupijó e suas referências. Com isso, incluiu na banda para a gravação do DVD dois saxofones, um trompete e um trombone, além de um banjo - que não era tão comum em suas músicas, mas um desejo do próprio mestre. Daí ele convidou a banjista Renata Beckmann para tocar o instrumento. Para a voz, JP dividirá a função com Kleyton Silva, da banda Na Cuíra Pra Dançar.

“A conversa foi o início de tudo, para compreendermos a trajetória do Mestre Cupijó. Ele tocava sax e às vezes, mais de três músicos o acompanhavam, como o Mestre Gabriel, além do trompete, trombone, guitarra, baixo, bateria e percussão. O banjo existe em algumas músicas, mas não é dominante. Só não tinha mais porque o banjista não morava em Cametá e não poderia comparecer aos ensaios. Ele também tocava os Sambas de Cacete e siriás à sua maneira”, comenta.

Documentário
Contemplado pelo edital Programa Petrobras Cultural, o DVD integra o documentário longa-metragem Mestre Cupijó e seu Ritmo, que irá compor um retrato audiovisual de um dos mestres da música tradicional paraense: Joaquim Maria Dias de Castro, mais conhecido como Mestre Cupijó, que buscou inspiração em ritmos tradicionais de sua região para suas composições. O audiovisual, além do registro do processo de captura do show “Baile do Mestre Cupijó”, será composto também por imagens de arquivo, entrevistas do Mestre Cupijó e com seus parceiros musicais.

Como foi no Baixo Tocantins que ele constituiu sua obra, Jorane voltou junto com JP Cavalcante e Daniel Serrão ao município em que o Mestre Cupijó residia. A equipe coletou depoimentos de integrantes da sua antiga banda, o conjunto Azes do Ritmo, e de pessoas que eram muito próximas a ele. Este material foi usado para realizar a concepção do show e será utilizado como material para o documentário, com previsão de lançamento para o segundo semestre de 2017.

Além do registro, o produtor musical Daniel Serrão também está reescrevendo as partituras das composições de Mestre Cupijó, que foram perdidas ao longo do tempo. Mestre Cupijó e sua banda Azes do Ritmo costumavam animar os bailes da região do Tocantins até o sol raiar. Este projeto visa reproduzir este clima festivo, dos anos 1970 e 1980.

Serviço
Baile do Mestre Cupijó - Show de gravação do DVD
Data: 06/06, às 20h
Local: Teatro Margarida Schivasappa (Av. Gentil Bittencourt, 650, entre Tv. Quintino e Tv. Rui Barbosa - Nazaré)
Ingressos: R$ 20,00 e R$ 10,00 com meia entrada
Vendas antecipadas: Loja Ná Figueredo (Estação das Docas)
Informações: (91) 3229-1291

Motivos para ler Adriano

Não sei exatamente com o que eu ando brigando nos últimos meses, porque não tenho conseguido terminar de ler os livros que escolho. Vejamos: adoro biografias e resolvi experimentar “Getúlio”, de Lira Neto. Puf! Enfadonho, disperso...o oposto de “Chatô, O Rei do Brasil”, de Fernando Moraes, que li na década de 1990 pelo menos duas vezes. Maravilhoso. Descanso Getúlio e sigo para o argentino “Quien mato a Rosendo?”, do ótimo jornalista Rodolfo Walsh, morto pela ditadura em 1977 depois de sua carta aos militares. Mas também não consegui avançar. Inconformada já.

Espero que a enfermidade não seja grave, porque tenho ótimos motivos para me debruçar sobre “Ato Paixão Segundo o Gruta”, de Adriano Barroso, um cara que tem uma linda trajetória artística. Ator, diretor, dramaturgo e roteirista.

Vou me permitir uma lembrança de meus tempos de foca (jargão jornalístico para enquadrar os iniciantes na carreira). Em 1995 eu comecei a tatear minhas primeiras aventuras na redação do jornal Diário do Pará e foi lá que conheci o Adriano; a entrevista era sobre uma peça que entraria em cartaz. Agora não lembro qual. Eles já tinham chão enquanto eu conciliava estudo e aprendizado prático. Tinham chão desde 1967. Uau!

O “Ato” acabou de ser lançado e se propõe a contar justo a história dos 50 anos do Grupo Gruta de Teatro. Resistência pura! O trabalho mais recente que vi deles foi Aldeotas. Obra interpretada de forma magistral pelo próprio Adriano Barroso e o não menos luxuoso Ailson Braga. Aliás, sempre um prazer a companhia dele nas andanças pela cidade, especialmente à noite.

Viver de arte é um desafio em qualquer lugar do Brasil, ao menos para a maioria dos protagonistas. E fazer teatro em Belém é um desafio de enormíssimas proporções. Outra boa razão para que eu pare de brigar com o que quer que seja e devore “Ato”.

A obra pode ser adquirida na livraria da Fox Vídeo, onde adquiri o meu e o da amiga querida Elis de Miranda na sexta-feira de autógrafos. Só tenho a desejar vida longa ao Gruta e boa sorte ao Adriano com essa sua nova cria.

domingo, 23 de abril de 2017

Ode ao Brecht

Não, não digo deste último 22 de abril - aniversário do Brasil. Este, não sei por que, rebocou-me à infância entre rios e barrancos do Acre e Rondônia. 

Lá, no grupo escolar, comemorávamos: cantávamos parabéns,  apagávamos velas e tinha bolo de milho. Este vinte e dois me pareceu mais um sábado-de-cinza que empalidece coração, entoca sopro nos pulmões e deixa esquina sem pé-de-flor.

Meu Brasil, alado, não voou, apenas esvoaçaram penas e descargas de melenas no ventilador de teto.

De tal modo, eu era sedento por ideias e o meu quase nada de outrora 
já me tornava um escrevinhador de sombras alheias num país de interiores gigantes, como os da minha infância.

Eu, amuado, tornando difícil escrever linhas, vi que os últimos jatos de tinta foram lavados e minha alegria foi desatarrachada do papel, da tecla e do país onde moro.

E agora, Berthold Brecht? o que será de minha práxis, desta ode e deste ódio? Restaram-me alergia e uns três espirros... 


Enquanto seu lobo não vem sigo os talhos circum-retos da ciência,  pois as linhas curvas da escrevinhação viraram cama dura, de cimento úmido, com lápis sem grafite a me destornar a felicidade do menino feliz quando acordava do ressentimento de ser gente só para desenhar a alma do país.



sábado, 11 de março de 2017

Namoro de portão

Um belo dia saí sem preocupação, 
sozinho, 
com três a quatro peças de roupa 
- não lembro bem. 

Embriagado de liberdade, 
tracei meu rumo, 
com exatidão, 
no indefinido sem olhar pra trás. 
Minha atenção foi sequestrada 
pelos raios de sol 
que pulavam à minha frente feito criança. 
Ali eram seis e o pouco da tarde 
que faltava 
me seduzia e mudava meu rumo; 
parecia querer me namoriscar à beira mar. 

Lentamente me aproximava, 
e comigo, a noite. 
Quanto mais o tempo passava, 
menos olhava o relógio, 
precisava valorizar muito 
aquele “namoro de portão", 
mostrei a ela 
que era peculiar e, 
até hoje, 
ela me mostra suas peculiaridades 
todo dia 
antes de mergulhar 
de volta ao mar.

Danilo Normando

quinta-feira, 2 de março de 2017

Minha mãe chorava – ainda

Gosto de lembrar dos momentos em que nos divertíamos, eu e minha mãe. Seu sorriso me fazia bem (menos as gargalhadas, que às vezes pareciam altas demais e eu tinha vergonha quando todos olhavam à volta). Eu me sentia leve e segura, mas se me detivesse só um pouquinho no seu rosto, bastavam alguns instantes...pronto, ali estava o seu choro, nítido e cristalino. Era como um membro do seu corpo: estava com ela em qualquer circunstância.

Certa vez, intrigada com essa mãe que tanto chorava, comecei a me perguntar se o choro não era dos meus olhos, se não estavam em mim tantas lágrimas. Esse diálogo meu comigo era sério, perdurava, se desdobrava. Eu não conseguia me conformar com uma mãe que chorava tanto, mas tampouco entendia o que poderia me levar a construir uma imagem tão triste de minha mãe dentro de mim mesma. Será mesmo que então eu desejava isso? Viraria outro imbróglio.

Eu ruminava esta mãe, não qualquer mãe, a minha mãe que chorava. Era como se eu sempre estivesse olhando pra ela debaixo pra cima, me aproximando entre nossos silêncios pra segurar sua mão e observar a reação da sua face. Cumplicidade e cuidado. Me sentia miúda e minha mãe parecia saber disso. Ela se mantinha calada e ainda chorava.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Cena de catedral



A cena é de dois cirurgiões maduros - em cada lado - iniciando jornada. Enquanto se curvam silenciosamente ao destino, há no centro um mais jovem enveredando-se pelos estridores da especialidade. Ele justapõe as mãos, entrelaça os dedos enluvados e ora antes de chegar seu primeiro momento. Cirurgiões rezam desde quando alcançaram o mundo; os de fé têm os joelhos doídos...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Minha mãe chorava

Minha mãe chorava. Lembro disso com um silêncio profundo no meu peito. Não era um choro qualquer. Afinal, todo mundo chora. Eu também choro. Mas minha mãe chorava um choro doído. Um choro corrente. Fundo. Um choro que eu nunca entendi. Eu olhava minha mãe apenas. Não sabia o que perguntar ou dizer. Lembro que certa vez ela estava na cadeira do escritório, com os joelhos encolhidos no peito, sabe? Eu estava na cama, logo ao lado da mesinha, brincando com o celular. Eu disfarçava pra olhar pra ela, porque ela chorava, derramava lágrimas sem dar nenhum piu; só se ouvia o som do nariz feito chupar cana com discrição. Estava abraçada às pernas e olhava pela janela. Era uma imagem que me perseguia, esta.

Cresci e entendi muitos motivos mais para chorar na vida. Mas minha mãe, ah, minha mãe seguia com aquele choro longo. O choro dela se demorava nela, parecia que se demorava mesmo quando ela não derramava lágrimas. O que passava com minha mãe? O que passava pelo coração dela? O que passava pela cabeça dela? Eu nunca perguntei. Eu só sentia vontade de estar perto. E a distância me afligia.

Lavar pratos. Fazer comida. Transitar de um lado a outro da cidade. Deitar para dormir ou para ler um livro. Coisas cotidianas que não pareciam dar motivos para minha mãe chorar. Mas ela chorava. Eu via. De soslaio. Não queria atrapalhar talvez...talvez não quisesse levar alguma bronca, sei lá. As lágrimas escorriam e seu cenho era triste. Eu ajudava minha mãe nas pequenas tarefas cotidianas. Gostava de cozinhar, de lavar pratos, de limpar a casa...mas não gostava de ver minha mãe chorar. Era uma incógnita sombria pra mim.

Depois que minha mãe se foi, eu lembro dela feliz e de muitos momentos alegres que passamos juntas. Mas do que mais me lembro é que minha mãe chorava. Essa imagem está marcada em mim.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

A outra margem do rio

       Vejamos, uma pessoa pode chegar à nascente do rio, 
andando pela margem, não é?
José Saramago, em: "Democracia e Universidade"

        A gente se põe a ler uns e outros e acaba se entregando às ideias. Tum-tum-tum no coração, aí uma idéia puxa outra e tudo vai bater no olho d'água, donde a vida principia. Foi dia desses que me pus a ler "Democracia e Universidade", de José Saramago e acabei me entregando ao pensador e suas ideias sobre a nascente de um rio. Foi uma verdadeira saramagia nos meus glóbulos brancos - mais ainda por saber que Saramago jamais passou pelos portões de uma universidade e mesmo assim se tornou Nobel.
       Pra quem já passou por uma universidade, costuma-se aferir que é a página mais marcante da vida profissional. E para quem se tornou um escritor sem a sombra dos muros da academia, como Saramago, como então olhar criticamente para o interior da universidade? Eis a grande mensagem do livro (EDUFPA, 2O13), uma coletânea de discursos em salas universitárias por onde rodou.
        Durante a escavação da leitura, depara-se com a seguinte passagem subterrânea: "A universidade, na minha opinião, deveria reivindicar algo mais que aquilo que objetivamente, lhe é próprio: a qualidade do ensino a partir da nascente do rio". Parei. Lembrei-me do Diogo Pinheiro, um ribeirinho que conheci ainda criança. Diogo mora no Tucumanduba, às margens de um pequeno rio da grande bacia amazônica, que vai dar no Tocantins. 
      Filho e neto de ribeirinhos, a mãe pôs-se a ser professora de ensino público e o pai, apanhador de açaí e pequeno pescador de anzol e matapi, assim como o avô Bené. Até hoje, com mais de 70, Bené escala um açaizeiro como menino de 15. Diogo foi sustentado pelo rio e floresta, e sua mãe o amamentou com a leitura. Assim Diogo chegou à adolescência e, hoje, aos 16 anos, é um leitor contumaz.
      No Tucumanduba percebia-se que Diogo, desde menino, sempre esteve atado a um livro. Lia de tudo: literatura clássica e o que lhe dessem de presente. Confessa a mãe que ele tem paixão - mesmo, mesmo - é por Clarice Lispector; só largava Clarice quando a noite chegava, pois o lugarejo não dispunha de luz elétrica. O pai, homem reservado, falava da satisfação. Foi quando certa manhã, alguém sacou uma foto no momento de interação entre leitura e aquela paisagem bucólica, com trapiches e o rio logo ao fundo. 
     Certa vez, um casal de pesquisadores finlandeses foi visitar o lugarejo e viu aquele menino contemplando um livro. Deram-lhe uns dinheiros para ajudar nos estudos e aquele regalo ajudou Diogo a conquistar a aprovação em primeiro lugar para o curso de direito - Universidade Federal do Pará.               
      Diogo estudou numa pequena escola pública da periferia de Abaetetuba, a cidade mais próxima. O pai está eufórico e a mãe radiante, pois, pela beira de um rio, andaram na contracorrente do que se apregoa como caminhada linear para se chegar à universidade. Ou seja, estava de um lado da margem, enquanto avistavam o movimento da sociedade do outro, até alcançarem os próprios sonhos na vez do filho. Vô Bené chama isso de cuíra.
            Em “Democracia e Universidade”, Saramago dá voz a Diogo, que o Estado insiste em ignorar. Essa voz ecoa da nascente do rio - o umbigo da formação universitária. Então, quando Diogo puser os pés naquela universidade, que fica à margem de outro rio - mais largo, até -, certamente estará muito mais contribuindo para a universalização da academia, do que a academia para seu universo, afinal o tapuio leva na mochila o olho d'água do veio da vida.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Fogo cruzado

"O horror bestial dos presídios, dominados por facções criminosas, 
choca o mundo e impõe desafios enormes ao governo e à sociedade"
Revista Veja, em 11 janeiro de 2017.

      A gente tenta não escrever sobre a violência, pra não ficar escravo do tema, mas eis que a televisão, os jornais, a conversa com o vizinho e aquele filminho no zap da carnificina de Manaus e Boa Vista destripando um tórax, vem e atingem o fígado e catapulta qualquer Quintana que porventura tente alcançar minha veia Porta.
A barbárie de Manaus leva-nos a refletir sobre os caminhos que tomamos pelas principais artérias da cidade-irmã, Belém, quando passamos pelas diagonais, transversais e vielas, até aportar em nossos destinos. Tremulamos debaixo dos semáforos em vermelho e ficamos catando estilhaços daquela imagética carcerária em nosso imaginário sob o medo de sermos aparados por uma bala no pescoço, por conta de desavença entre duas facções que brigam pela geografia do tráfico. Como não existe muro, nem área de demarcada, tem-se a sensação que, por uma dessas diagonais um cartucho possa se desprender de um cano de revólver e atingir minha carótida e todos os meus quase seis litros de sangue vaze para debaixo do tapete (do carro e depois da grama do cemitério) e se torne um drama desmesurado (O sinal se mantém vermelho; a zona é vermelha).
Não existe um muro a prova de bala que separe esses dois mundos e a gente possa escolher ficar no lado quieto, por isso essa “nóia” não me sai da cabeça e acaba me apequenando diante do terror. Estamos inseguros quando andamos na rua e sinto-me um vira-lata que levou um chute no traseiro, que ainda tem que cuidar do lixo nosso de cada dia, sem direito ao rosno.
Numa manhã de domingo, em uma das enfermarias do principal Hospital de Trauma da cidade estavam, acamados, um policial e um meliante. Um de frente pro outro, na mesma enfermaria, separado por um metro de paz. Junto com os estudantes, na hora da visita, passamos entre eles, ou seja, no meio do fogo cruzado - virtual que fosse. Expliquei o fator social de ambos e todos ficaram com os olhos esbugalhados. 
O baleado no tórax é suspeito porque tatuou na perna esquerda a figura de um palhaço, código dos que matam policiais. Com medo, ao lado de sua mãe, ele não tirava o lençol da perna pra tomar banho e nem abria o olho para ser examinado, simulando sono eterno, com receio de ser identificado. O policial, por sua vez, tinha levado um tiro no lobo frontal e apresentava um comportamento doentio para um paciente hospitalizado: a euforia. Todas as vezes que entramos na enfermaria ele nos saúda com um estrondoso bom dia e nos sapeca toda sua fanfarronice pela felicidade de ter sobrevivido após tiro no crânio.
Nós, ali no meio, no meio do redemoinho, representamos todo esse belicoso detalhe da vida social que estamos exposto e, sem deixar de nos atormentar pela purga espiritual, empunhamos a ordem do dia.
Foi quando o sinal abriu e peguei o beco; alteei o som do carro para ouvir o saxofone de Coleman Hawkins, Charlie Parker e Lester Young, deixando a voz de Sarah Vaughan se liquefazer e adentrar pelos poros e até bater aqui no meu lobo frontal e fazer com que aquela bala tome o rumo do inferno e eu recupere minha euforia.

domingo, 1 de janeiro de 2017

A arte feita de resvalos

Era dezembro/2016 quando, a convite, fui ao Teatro experimental Waldemar Henrique assistir à Ladainhas Marajoaras, com Juçara Abe & Rafael Lima. Seguinte, os dizeres: “A cantora Juçara Abe mostrará nesta quarta-feira, no teatro Waldemar Henrique, o resultado do projeto ‘Nossas ladainhas’, aprovado pelo edital SEIVA de pesquisa em música. O projeto consiste em uma pesquisa sobre os rituais musicais típicos do Marajó, conhecidos como ‘Ladainhas’ e foi idealizado pelo seu pai, o músico Rafael Lima, que foi vítima de uma doença grave no pulmão, em setembro deste ano, e, por ter a voz comprometida no período de recuperação, não será o cantor principal, apesar de também estar presente no palco, acompanhando a filha. A apresentação também contará com o baixista MG Calibre, o percussionista Zé Macedo e sonorização de Fernando Dacko.”
Fiquei preso ao visgo desta “tal” pesquisa. Cabe esta palavra num evento musical? Não só cabe, como eu tive uma aula de metodologia, ainda que caminhe diariamente com as ideias de Descartes. Inicialmente teria que responder: Qual o campo da pesquisa? No caso, a música, a ilha do Marajó.
Ao término da apresentação fui parabenizar os artistas, afinal não é fácil cantar ladainhas e folias pra mais de hora e meia, pois estamos desacostumados, por descultuação. Mais: Rafael Lima parece recuperado de seu pulmão despedaçado por uma “sepse braba” que o acometeu e quase leva o farelo, como ele mesmo admitiu, em meio às palmas.
A música, e qualquer outra forma do verbo, não deve jamais deixar de buscar sua origem seminal. O que Lima fez foi rebuscar nosso sêmen verbal guardado nas ladainhas. Se rebuscou, então gerou pesquisa de campo. O maior produto que se viu, no bojo, foi o regresso ao status embrionário da condição abandonada do idioma musical. Dito de outro modo, o pesquisador traduziu o nosso passado num ritual que se assemelha ao vivido pelo autor nas aragens do Marajó, onde existe, ainda muito viva, a festa de São Sebastião com suas cantorias em forma de ladainhas. Aqueles artistas quebraram a casca do tempo e nos transportaram para dentro do ovo, chocado pelos Jesuítas, os que partejaram essa cultura européia entre os marajoaras.
Na volta pra casa, eu julgava o contra-ponto desta pesquisa, o novo, que castra a condição comum e universal de recriar nossos valores culturais do passado. Os critérios atuais de domínio acabam desvalorizando nossa raiz em nome do lucro indômito. Percebe-se nesse sentido, que a arte, incluso todas as formas de expressão oral e escrita, despiu-se da dimensão poética e não mais carrega tanto onirismo sobre esse mundo diferente. É aí que a pesquisa fumega, pois o produto se desata dos códigos atuais, ao exalar incenso bem além do nosso retiro espiritual. 
Perguntei pra Juçara, por que seu pai tanto se dedicara a uma pesquisa daquele tipo. Respondeu de supetão: “Meu pai é um tipo de artista único, e como a maioria dos singulares, controverso [...]. O caminho dele é muito corajoso, e muitas vezes incerto [resvaloso, diria Guimarães Rosa]... Mas a coragem e a incerteza são os maiores combustíveis para a riqueza de sua obra”. Esta resposta me pôs de volta ao laboratório de pesquisa básica, pra ficar olhando pra capa do livro de Reneè Descartes. 
Apesar do cotidiano ter tantas trilhas, como esta que nos leva ao Marajó, sabemos que muitos pesquisadores andam só, mesmo se dispondo de tanta via de comunicação. Ademais, é dramática a solidão de escrever roteiro para poucos e lutar, mesmo entrincheirado, para manter vivos os idiomas em risco de extinção. Rafael é todo este-um, sem lhe faltar pulmão.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A casa é sua

A casa é sua! Sorriu malemolente pra ela por detrás do balcão apertado. A calçada era a casa. Quase em frente ao sambódromo. Fumegava o churrasco improvisado em cima de uma grade de cerveja. Está servida? Esticou a bandeja florida de carnes. Muito obrigada. Vou aqui com o Chico; ele esqueceu de mim. Já era a segunda. Não quer vir pra cá conosco? Claro! Ana, você vai ensinar minha filha a sambar como você? Uhum. Olhar desconfiado, pé indócil. Ô, Marisa Monte, puxa uma! Aquele salame feito extintor no bolso traseiro da calça jeans era o melhor convite. Bezerra da Silva. Martinho da Vila. Batuque no casco térmico da cerveja. A festa seguia. Ó, a capoeira! Agora balé. Personagens da noite na calçada de um boteco sem placa ou nome. A máquina parecia dessas de jogo. À base de fichas. Musicava o ambiente difuso. Assédio. Machismo. A noite bonita também era feia. Ladeira acima. Ladeira abaixo. Blocos de sujo esquentam. Mais uma noite cai. Mais um dia se levanta. A casa era outra. Albergou por poucos ansiados dias. De saída, soava a banda militar. Ah, não! Nostálgico e ridículo. Será uma saudação? Riso íntimo. O caminho por vir era longo. “Nem o prego aguenta mais o peso desse relógio”.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Alepo: misericórdia

De repente Sabá de abadia me vem com essa flecha de jambu, a mirar o marco zero da comunicação e fazer tremer a língua: “O domínio paulatino da linguagem colocou ordem no verdadeiro caos que eram as sinapses cerebrais dos primeiros hominídeos. A linguagem colocava ordem no pensamento. Pensamento domado inicia-se a jornada da auto-expressão humana. Das pinturas rupestres para a escrita de "No início era o verbo..." transcorreram milhares e milhares de anos. Uma lenta construção, como se vê. Hoje, estamos a nos esculpir por meios tantos, mas a palavra, oral ou escrita, segue nos fazendo, nos guiando, nos desvelando. Evocando a figura emblemática do profeta das gentilezas, que palavra melhor nos define? Ou ainda: nos desafia, inquieta, atordoa, ecoa, surpreende?" Mais adiante, Dora Schinitman retrata que a função primária da linguagem é a construção de mundos humanos. Labareda traduziu: “A linguagem emana construção de manos mais humanos", com palavras deliciosamente surrupiada de Joãozinho Gomes em “Ao mano humano”, parceria com Zé Miguel.
Mas, se existe uma linguagem que desafia a ferro e fogo o humanismo de Schinitman é a da guerra, sem misericórdia, que deixa Alepo em carne viva e com os nervos expostos. A libertação de Alepo veio - se é que veio – no galope de tanques de guerra, sob suspiros de uma primavera árabe, em meio a coices de metralhadoras a cuspir sangue arterial pelas esquinas e se misturar às poeiras de seus escombros até se fazer sarapatel, e escorrer pelas valas abertas da Síria.
Alepo, foi (ou ainda é) o campo de concentração que não vivi, e só li nas apostilas da segunda guerra. Não falo aqui, do leste da cidade, do norte do país, da rosa dos ventos oestes. Falo, sim, da geografia humana sul-real a deixar Dali estupefato e fazer tremer o bigode.
A dor escarrada nas lentes televisivas e no rosto das crianças mudas mudam minha verve suburbana. Parto aos espasmos para tentar me envolver num pensamento mais universal do holocausto, ao ouvir o estouro do canhão apontando para o céu na tentativa de balear deuses. Quando não se vingam, as bala perdidas voltam e acertam a fossa posterior dos cérebros inocentes ou o peito de uma criança. Assim se faz a linguagem, oral ou escrita, dessa guerra.
Alepo é o mais rugoso destroço desse miserável conflito, a preço de uma celestialidade questionável. O tema é tão frio que me causa dor na espinha e colapso em meus alvéolos pulmonares. Falta ar. Falta tripa. Falta entender. Só me sobram tetanias na alma e o coração a fibrilar. Há dor em Alepo, como há em qualquer guerra onde se vê crianças e inocentes a cristalizar o cerebelo na ideia de divagar a esmo, em marcha ebriosa que faz o Oriente caminhar entre fronteiras. As lágrimas das mães escorrem no rosto sujo dos escombros, deixando a impressão de que um rio de dor passa por ali, e são insuficientes para lavar a alma desses espartanos.
Os valores do fundamentalismo e o caráter barulhento dessa ideologia lembram folhas de zinco entregue às chuvaradas de inverno caindo no teto de de minha casa de infância de calmaria - perturbam minha verve.
Dá até para limpar as lágrimas, mas regressar à normalidade da segunda-feira é bem mais difícil, pois somos sentimentos disfarçados e imiscuídos em palavras algemadas àquele aldeão, conforme retrata Corisco: "A paz é um tropeço, um acidente, um soluço da guerra [...] Apenas um hiato entre o sonho e o fato".

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Aos meus amigos que entendem de Astrologia

Por Walfredo Júnior

As pessoas que entendem de astrologia sempre são as mais legais (Olavo de Carvalho é exceção). Eu percebo o quanto evoluí como ser humano justamente constatando quantas dessas pessoas que sabem qual é a sua lua são hoje próximas a mim. Eu mesmo nunca lembro de perguntar pra minha mãe que horas eu nasci.

Certo dia uma amiga me disse que estava viajando pra fazer sua revolução solar. Fiquei surpreso de saber que existe a prática de se passar a noite do seu aniversário no lugar da terra pra onde aponta um certo alinhamento de astros - meu irmão vai todo ano exatamente pra onde a astróloga diz, me contou. Uma pessoa mais chata que eu perguntaria: Mas e se o alinhamento apontar bem pro meio do oceano, uma vez que há mais água que terra no mundo? - pura implicância dessa gente sem o sal dos "mistérios" na sua vida. Imagina se tudo tivesse explicação?

Não que o cálculo e a lógica sejam estranhas ao estudo do zodíaco. Os meus amigos que são capazes de fazer mapas astrais têm todas as repostas para as incongruências (admito que são pouquíssimas) entre as características gerais dos piscianos e meu próprio temperamento. O problema é o seu Vênus, diriam alguns.

Mas no final as similitudes entre o escrito nas estrelas e a minha auto imagem são mais impressionantes do que as engenhosas explicações para as diferenças. Pelo o que entendi de tudo que já vi sobre o signo de peixes (superficialmente), somos, bem resumidamente, uns avoados, uns lesados. Eu purinho.

Meus amigos astrólogos amadores ou simplesmente entusiastas dos mistérios do cosmo, peço-lhes perdão pela forma tosca de abordar vossa arte-ciência, sem nem sequer realizar qualquer pesquisa prévia, o que de certo deve já ter produzido até aqui toda sorte de imprecisão conceitual e terminológica. Não quis diminuir minha ignorância, justamente para demonstrar a questão da perspectiva do não iniciado, até certo ponto cético, mas que se impressiona com certos fenômenos que parecem ter mais sentido sob a influência dos astros. Dessa forma eu me abstenho aqui de estudar o assunto e lanço a pergunta a todos vocês amigos neófitos e mestres do estudo dos signos, ansiando de fato ler suas teses em resposta:

O Inferno Astral, essa conjugação de alinhamentos totalmente desfavorável à sorte do indivíduo, pode ocorrer também para as coletividades, a saber, nações, continentes ou mesmo o planeta inteiro?
Porque, ainda que todas as crises econômicas se expliquem à luz da teoria dos ciclos e as crises políticas também tenham as suas próprias teorias de ciclos, o ano de 2016 teve especificidades tão miseráveis que ora vejamos:

Comecemos nas terras de Shakespeare. James Cameron, primeiro ministro de Sua Majestade, resolve fazer um plebiscito pró forma, só pra constar, com um dilema que até se julgava falso pelos de fora. Reino Unido deve ficar ou não na União Europeia? Nem se falava nada a respeito nos jornais de cá, porque se considerava uma barbada. Pow, primeiro ministro foi atrás de lã e voltou tosqueado, e mais uma pra conta da ultra direita.

Enquanto os americanos se deliciavam rindo dos seus amigos ingleses, dizendo "que burros!", a campanha mais vagabunda da história recente das eleições americanas se desenrolava, trazida abaixo até a lama pelo conteúdo e método da candidatura do businessman Donald Trump, o qual a mera indicação no partido republicano já tinha tom de piada surreal. Mas no desenrolar da campanha parecia tudo só um sonho ruim mesmo, Trump não dava uma dentro e as pesquisas já tinham dado ele como perdedor, aí vieram as eleições e Pow! Vez dos ingleses rirem dizendo "que burros!".

Na América do Sul a bagunça de sempre, mas 2016 teve essa marca de quando algo tinha chance de dar certo, ou pelo menos não dar tão errado, as más notícias continuarem jorrando. Como o plebiscito na Colômbia pelo acordo de paz entre o governo e as Farc. Esse era um "sim" fácil, certo? Nada disso, o povo votou contra o acordo.

Pode ser injusto culpar os pobres astros nos exemplos acima, todos casos de escolha popular contradizendo o senso comum. Talvez a verdade é que o senso que não é tão comum agora e coisas como a Declaração Universal dos Direitos Humanos já estejam demodê.

Mas, se a coincidência de o mesmo ano abarcar tudo isso seja mesmo a vigência de um inferno astral, o Brasil deve estar no último círculo infernal. No início do ano, o golpe parecia mais uma dessas improbabilidades, se bem que no Brasil nada nos choca mais. Bom, não estavam de brincadeira. Mas se um impeachment tosco, era algo difícil de acreditar, o que veio a seguir foi totalmente dentro do esperado do governo que se formou. Um geiser de más notícias. Os desmandos, ilegalidades, medidas anti sociais e de lesa pátria mesmo foram tantas que foi difícil de acompanhar. Os golpistas tiveram pressa como se estivessem sob açoite.

Mas deixando de lado a mão que estala o chicote, o que acaba dando força à tese do inferno astral é a sobreposição de circunstâncias nas desgraças. Porque aviões caem, é raro mas acontece, infelizmente. E já ocorreu de aviões caírem com times de futebol inteiros. Mas um acidente aéreo com um time pequeno que viveu sua epopeia para pegar o voo mais importante da história do clube, a viajem para a disputa da final de seu primeiro título internacional, o orgulho de uma nação ansiosa pelo refrigério que essa possível vitória traria ao seu cotidiano tão combalido foi algo inaudito. O desastre da Chapecoense causou-nos esta vontade coletiva de ir dormir e só acordar em 2017.

Se formos continuar nessa linha, o texto ficará insuportável de tanta tristeza que há para contar sobre este ano estranho.

A nossa contagem de tempo é baseada na revolução dos astros e talvez esse movimento encerre e inicie ciclos na sorte dos povos como na dos indivíduos. Deixo aos meus amigos astrólogos a tarefa das previsões, mas, ainda que haja o inevitável e o fatídico, que estejamos sujeitos ao magnetismo celeste para guiar nosso ânimo e nossa sorte, espero que a ilusão do livre arbítrio nos leve a aprender com 2016 e, no nosso anseio por um ano melhor, façamos cada um de nós coisas bonitas e valorosas o mais que possamos e que o conjunto das nossas realizações entrelaçadas possa tecer um verdadeiramente feliz ano novo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Notas da subglote

                                      Não me trato, nunca me tratei, embora respeite os médicos e a medicina
Fiodor Dostoieviski, em: “Notas do Subsolo”

E quem não gostaria de começar um texto médico com um Dostoieviski metralhando o anfiteatro de Galeno e ainda blasfemando o deus Asclépio, filho de Apolo? “Memórias do subsolo”, de onde buia a epígrafe, é um jardim de flores mortas adubada com esterco de camundongos, cujo jardineiro poderia ser Freud... Mas não é! O jardineiro é o próprio Fiódor, arando solos mordazes, a ponto de soterrar nosso fôlego ao nos asfixiar num arquétipo de desafiar o maior dos super-humanos. Ao parear Dostoievski com as doenças e seus cataclismos, repleto de porões e insubordinações, deparo-me com Maria Clara.
A menina de três anos não tem voz e não sente o ar ventar pelo nariz, pois tem a glote fechada por conta de uma sequela adquirida aos sete meses de idade. Ela respira por uma cânula no pescoço que se assenta na traqueia. Quer chorar, mas ninguém ouve, quer aprender a linguagem, mas ninguém ensina. Ela tem uma beleza cabocla de tingir nossos corações com as tintas da beleza encontrada num canto qualquer dessa Amazônia desvairada e silenciada. Ao ver Maria Clara eu me vi Dostoiéviski: “sou um homem doente”.
Ao pousar no setor de pediatria do hospital regional de Marabá, sudeste do Pará para conversar com os pais, só me apareceu a mãe. Elas vivem às margens da rodovia transamazônica. Maria Clara nasceu de uma transa amazônica sem destino, às ribeiras do Tocantins. Aos sete meses adquiriu pneumonia e foi bater no CTI, onde necessitou de aparelhos para respirar e acabou obtendo sequelas cicatriciais graves, por isso a traqueostomia, preço de sua misericórdia. Sem pai, a mãe assumiu papel da miséria das dores. Desde então, quando chora, o silencio da menina escorre pelo canto do olho e a voz vira a lágrima.
Peguei-a no colo e fomos ao centro cirúrgico. O anestesiologista arpoou uma agulha milagrosa na jugular, e a pôs a dormir. Passamos o aparelho na sua garganta e descobrimos a causa da sua afonia: fenda subglótica fechada, por isso as cordas vocais não vibravam. Tudo cortinado logo abaixo das cordas vocais, daí o ar que saia dos pulmões não estimulava a fonação. O objetivo, ali, foi recanalizar a via aérea.
Assim como Maria Clara, ainda existem inúmeras crianças e adultos na mesma agonia. A cirurgia endoscópica, ou aberta – nada simples, diria – pode recobrar não só a respiração, mas também a toada da voz. 
No voo de volta, mesmo com missão cumprida, acabei ficando com transtorno bipolar, ao manter a luz de leitura acesa. Senti os solavancos da aeronave, como se tivesse na zona de convergência inter-tropical, enquanto todos bebiam suco de pêssego languidamente e liam a revista de bordo. Ler Dostoiévski é viajar dentro de uma área de borrasca, portanto não aconselho ninguém a bisbilhotar “Notas do subsolo” acima do solo, sob risco de virar trambolho dentro da própria pele e gerar pane seca na própria glote.
No mais, perdoem-me por ter filosofado tanto, são os anos de subsolo à luz de lamparina! Permitam-me, permitam-me, pois a razão é coisa sagrada, mas é apenas para satisfazer o homem, nada mais. Já a narrativa é manifestação de vida como um todo, ou melhor, de toda a humana vida, aí incluindo a razão e todas as formas de se coçar e extrair a raiz quadrada de Maria Clara, para refazer o duo medicina-literatura em meio ao redemoinho que enovela nossas dores.

Roger Normando, médico e professor de cirurgia da Universidade Federal do Pará

domingo, 11 de dezembro de 2016

Um desencontro singular

           Por Abel Sidney, escritor

          Eu ainda morava no Rio quando aconteceu o curioso episódio que vou relatar. Era estudante e além de me entranhar na vida cultural carioca, trabalhava e ainda encontrava tempo para folhear os livros acadêmicos...
            À época, era dado a conhecer escritores. Um deles, o grande Orígenes Lessa, fui visitar em Copacabana. Muito bem recebido, pudemos conversar por algumas horas. Tempos após escrevi ao Carlos Drummond de Andrade e - para minha grande alegria - recebi-lhe como resposta um breve cartão, quase um bilhete. Depois do que vou narrar, ainda conheci Jorge Amado. Ganhei autógrafo e afaguei-lhe o ombro (o que foi motivo de brincadeira em casa, pois diziam que todos a quem eu tocava daquele modo morriam...)
            Lia muito. Quase tudo que me caia às mãos. Coisas saborosas como as crônicas do começo do século do João do Rio, os enigmáticos contos da Clarice Lispector, Victor Hugo e muita literatura infantil. Além disso, arriscava algumas linhas. Escrevia as primeiras crônicas, muitas cartas e umas poucas poesias.
             Foi nesse clima de efervescência cultural que viajei para São Paulo, para visitar uns amigos. Tomei o ônibus da meia noite para poder dormir e aproveitar melhor o dia seguinte. Ao sentar-me, achei estranho o personagem que viajaria comigo, ao meu lado. Cabelos negros até os ombros, magro, rosto anguloso, enfim um tipo nada convencional. Pensei comigo se não o conhecia de algum lugar. Deu-me um comichão e decidi buscar um lugar vago mais para trás, para poder esticar as pernas, dormir melhor ou quem sabe fugir mesmo da presença inquietante daquele senhor...
             Fui lá pra trás e acabei sentado ao lado de um paraíba, um nordestino que morava no Rio, bom de conversa. Disse paraíba pois é assim que os cariocas denominam todo e qualquer nordestino, às vezes de forma pejorativa, o que já pude experimentar na própria pele, por conta de simples vacilo ao tomar um ônibus... 
             Bem, conversa vai conversa vem e eu intrigado com o personagem que deixara lá no banco da frente. Porém, o amigo ao lado era um bom contador de histórias e fui ouvindo suas experiências de vida na cidade grande. Experiências com sabor acentuado de aventura. Uma delas, a qual valeu toda a viagem, aconteceu no Catumbi, próximo ao Sambódromo. Ele subiu o morro para visitar um amigo e se agarraram numa conversa que se estendeu muito além do previsto. Quando ele se deu conta era quase madrugada. O amigo insistiu para que ele ficasse, que pousasse ali mesmo, pois apesar do aperto sempre se dava um jeito. Nada o convenceu. 
              Decidido, tomou o caminho de casa. Na descida do morro viu um sujeito suspeito, pronto para lhe assaltar, presumiu. Quando se deu conta plenamente do perigo iminente, não dava mais para recuar. Tinha sido visto e estava sendo aguardado. Lembrou das advertências do amigo e engoliu em seco. Que besteira! Foi caminhando, então, devagar, para ganhar tempo. Súbito, a inspiração. Diminuiu ainda mais o passo. Cambaleou para os lados e apertou com as mãos o estômago. Começou a gemer baixinho. À medida que caminhava, gemia mais alto. Até que ao chegar no ponto fatal, o sujeito o cercou e perguntou o que estava acontecendo. Disse estar muito mal, vomitando sangue e se não fosse direto para o hospital, poderia morrer ali mesmo.
            O negão (como o chamou) não pensou duas vezes. Tomou-o praticamente nos braços e desceu com ele os últimos lances do escadão. Parou o primeiro táxi. Ordenou ao motorista que levasse o seu camarada ali para o pronto-socorro. Rápido e de graça, ainda frisou. 
             Bem, o resto da história é de se imaginar. E rir. E de se ver ainda que diante da dor alheia, em certas circunstâncias, se comovem os mais duros corações...
             Ao final da viagem, lembrei quem era o tal personagem: Ferreira Gullar, o grande poeta maranhense. Até hoje não sei se o que conversaríamos teria o mesmo sabor que as histórias daquele outro nordestino. Quem sabe? A conferir, num próximo e incerto encontro...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Além da prorrogação (Dois países lendários)

A mais desejável comunhão é a quebra das barreiras entre
dois países míticos: Vida e Morte.

Suspeita-se que além da Vida, transposta a fronteira, 
novas paisagens se anunciam.

Contam que os habitantes da Morte se sentem tão plenos de existência
que chegam a zombar dos vizinhos, a quem chamam de "vivos-mortos"...

Talvez seja uma forma de revanche, pois os Vivificados classificam
os "do Além" de fantasmas de assombração!

Histórias e tradições se erguem e separam, isolam mesmo quando 
gente dos dois lados desejam  contato, notícia, comunhão...

Um largo muro nos divide, 
um muro de lamentação no qual se fala de perdas na ausência da fé 
e de pitadas de imaginação!

Pois eu imagino que haja verdes campos logo ali, 
fronteiras além...

Chego a pensar na bola que rola que se improvisa 
e ouço ecos de uma outra torcida!

Sem receio algum eu imagino um comentarista retratando a perplexidade dele próprio ao dizer: "quem diria que o jogo, com breve intervalo, continuaria?!"

Sabá de Abadia, do bando de Corisco

sábado, 26 de novembro de 2016

Linha mediana

                                          “Nesse tipo de vida é difícil curar uma doença. Ela se instala e não larga mais. Aí você morre”
Fiodor Dostoiévski, em: “Notas do subsolo”

Esta narrativa poderia sair de “Notas do subsolo”, de Dostoievski, ou do realismo auspicioso de Edyr Augusto ou mesmo de Tess Garritsen, médica e escritora californiana com forte temática policial, autora do extraordinário The surgeon. Na realidade é um relato extraído de vozes do anfiteatro da cirurgia, vivido por mãos enluvadas que, juntas, vivem a conter gotas de sangue que escorrem de punhais e balaços que atravessam mediastinos e flancos.
Dionísio Maldrán, homem de 50 anos, meia altura, com traços andinos fortes, adentrou pela emergência cirúrgica do hospital de Miami como um phantom dos subsolos de Dostoievski. Falava castelhano e nenhuma vírgula de inglês. Apresentava abdome distendido, bastante doloroso e ânsia de vômito, após ter sido esfaqueado na boca do estômago por meliante no Opa Loka, bairro considerado perigoso.
Após examinar e fazer algumas perguntas, o médico calmamente desfez o curativo e percebeu um talho de cerca de três polpas digitais na linha mediana, no abdome. Não pôde aprofundar a inspeção por conta da dor. Preferiu levar ao centro cirúrgico. Chamou-lhe atenção, como experiente profissional, a linearidade de corte.
Descobriu-se, no caminho para sala de cirurgia, a origem equatoriana de Maldrán. Em trânsito para Nova Iorque, ele dizia que iria morar no Brooklin e viver como handyman em Manhattan. Vivia o sonho de atravessar diariamente aquela ponte que unia duas geografias humanas bastabte distinta.
Após iniciar a anestesia, o cirurgião, já paramentado, começou a explorar o ferimento, até perceber que o golpeio era superficial, indo só até a camada gordurosa. Ficou em dúvida se seguiria na operação ou se faria apenas pequenos reparos, e por ali mesmo findasse a missão.
Mas e a dor? E o abdome empachado? A curiosidade aumentou, pois o ferimento era superficial, linear e causava toda aquela celeuma clínica. Mesmo com o ponteiro das horas espreitando o borboleteio do nascer do sol, o cirurgião, aguçado de curiosidade, resolveu aprofundar e ampliar o corte. O auxiliar, fadigado, achava que não, que deveria encerrar a peleja por ali, apoiado pela benção do anestesista. A sonda, passada pelo nariz até o estômago, retirava apenas algum muco insuspeito Uma fumaça de silêncio embaçava os primeiro raios de sol.
Acossado pela dúvida, resolveu seguir, como faria qualquer líder, entre os biombos da emergência. Lá encontrou um estômago tufado, abarcando todo o campo visual. Apalpou e percebeu o órgão duro, pedrado. Tumor? Câncer? Normalmente o estômago em situações de urgência fica distendido de ar, oco - jamais consistente daquela forma. Ao abrir o estômago com o bisturi pularam várias petecas de Cocaína. Calculara mais de trinta, mais de quilo.
No meio da manhã, já desperto e algemado na enfermaria, Maldrán confessou que era "mula" e fazia parte de uma nova rota internacional, mas passou mal no avião e seguiu direto para a casa de um conhecido em Opa Loka, que tentou, com navalha e sem anestesia, fazer o destripamento para retirar a droga, pois o filme “Mestre dos mares”, mostra uma cena e aquilo lhe dera algum aprendizado. A dor tamanha não permitira que a manobra medieval transcorresse na calada da noite, quando pensavam que os demônios da cirurgia estivessem distraídos ou sob pesada narcose.
Ficamos sempre vigiando, tentando ouvir conversas para buscar algo que represente a dura caminhada de um cirurgião pelas noites vividas ao fio da ciência dos desafios. Na coxia dos congressos, às vezes me distraio na vigilância e grudo a orelha na prosa de um e de outro. O bago dos olhos esbugalha quando um pedacinho de literatura é encontrada numa prosa frajola entre cirurgiões de vanguarda, mesmo os amigos que vivem alhures. Neste momento a folha em branco pede clamor e se torna ungüento para aliviar nossos pruridos e lubrificar todos os poros de nossas agonias. Eis a biopsia que não sangra: a literária.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Entre o Bar do Parque e o Central Park



O parque central de Nova Iorque só me levava ao festival de Woodstock e ao edifício Dakota. O Bar do Parque, não. Este, apesar do bar não ter parque, mas uma praça-quase-parque, leva-me ao bafafá e ao Ruy Barata, poeta de “Antilogia” que escreveu uma das mais belas peças sobre o tempo, em Pauapixuna: “O tempo tem tempo de tempo ser; o tempo tem tempo de tempo dar, ao tempo da noite que vai correr, ao tempo do dia que vai chegar.”
Vi-o algumas vezes por lá com suas pernas enoveladas, conspirando seus segredos com a fumaça de de seus cigarros. Essa é uma das lembranças do nosso Paranatinga, que dava impressão de estar apenas se deliciando de seus poemas e composições musicais ao lado de um copo de uísque com gelo entre baforadas.
As leiras e esteiras do Central Park, não. Este eu não tinha ideia de sua grandeza iconográfica, até caminhar por seus trilhos acarpetados por folhas mortas que despencavam a todo momento, denunciando a virada da estação e a nossa presença. Feito um flaneur agarrando-se ao frio pisamos sobre aquele silêncio apreciando a biografia do lugar e seus museus ao redor. Entre uma página e outra desta biografia, um esquilo cruzava nossa trilha.
Nossa? Sim, nosso caminho: meu e de minha namorada, afinal era comemoração de 25 anos de casamento e a viagem valeria uma ação de graças de tal peso. Já era tempo de tempo ser, diria Ruy, por isso dei a mão ao meu amor e sai a pé no rumo do destino, pisando em folhas caídas e cruzando com esquilos naquele jardim urbano de tantas produções cinematográficas e literárias.
Lá fora, New York fervia. A quinta avenida pegava fogo com a trump-revolution, que sacodia o mundo (e ainda sacode) a ponto de trepidar a ponte do Brooklin e recolher os bagos do touro de Wall Street. Eu preferi ficar entre selfies, juras de amor eterno e os últimos raios de sol daquele outono novaiorquino, cujas cores se empaletavam num amarelo vangoghiano, pintando algo impressionantemente belo para o eterno sabor da vida a dois.
Levamos tempo para completar esse caminho e esse destino - sina de gente marcada para a eternidade. A medida que parávamos para novos cliques, em torno do lago central, reconstruíamos aquele sino que "blem-blem-blou" na hora do “sim”, quando éramos apenas dois jovens em busca do futuro perdido em cada sonho dormido com travesseiro feito da própria mochila, descascada de desafios e das estepes por onde tudo começou, sob a assinatura do Cristo Redentor.
Na caminhada pelo parque, reservamos uns passos para conversar sobre a prole que engole parte de nosso temperado sentimento, mas que aduba nossa jornada para uma finitude plangente, que ali parecia não findar - não fossem as rugas.
Passava por nós gente correndo, gente andando. Todos ditavam, ao seu jeito, o final daquela tarde. O nosso ritmo parecia diferente, pois acompanhava o de Agnes Martin (1912- 2014), em exposição no Guggenheim, logo ao lado. Ela transmitia uma espécie de pacto com silêncio das artes. Sim, sim, tudo a ver com quem gostaria de ficar em silêncio ouvindo o passado construído e reconstruído entre vários senões, para refletir sobre a riqueza imaterial adquirida ao longo da jornada, prateada de chamego.
Uma observação: não visitamos o edifício Dakota, em acordo tácito. Entendemos que aquela bala que abalou o mundo embotaria nossas bodas. Preferimos sair cantarolando All you need is love, love... love is all you need..