quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Para sempre, Bettina!

No ambulatório pergunta-se ao jovem Esdras Edgar, prestes a concluir o grau médico, quando se sentiu pela primeira vez abraçado pela medicina. Não respondeu de imediato. Olhou para o próprio umbigo e depois estendeu e recolheu o olhar para Isadora, sua colega, ao lado. Após alguns segundos rememorou todas as páginas de seus PDF e, sem gaguejar, respondeu lucidamente: “foi quando colhi a primeira história clínica.”
Relatou naquele momento que havia recebido a aula teórica de propedêutica e, aguçado para colocar em prática, vestiu-se a caráter: jaleco alvinho com caneta BIC no bolso, calça nova e tênis branco com mais de mil léguas de pisadas. A aula é estruturada numa sequência desde os primeiros sintomas e como evoluem ao longo do tempo de doença - se melhoraram, se pioraram. Também se usa medicamento e se há resposta. Algo sobre familiares e modo de vida. A última parte da anamnese inclui hábitos, como o de fumar ou mesmo de praticar esportes.
Todas essas informações dão ao médico o claro entendimento da natureza e da origem das condições clínicas e como elas se encaixam dentro de um padrão. É o ritual acadêmico. A partir de então é gerado o diagnóstico. Depois vem a segunda anamnese, a terceira, e a partir de então temos um roteirista. É o que se considera alfabetização clínica.
Tinha razão, o Esdras. É o primeiro contato físico com pessoas doentes e normalmente acontece no início do terceiro ano... E não dá pra esquecer o professor.
Veio-me a lembrança de Bettina Ferro e Souza no momento daquela resposta. Aí o tempo parou e me rendeu na coleira, apertando minha jugular. Como as pessoas passam depressa, sussurrou o tempo, em meu cangote.  Parece que a gente consegue parar o tempo e perceber que ele – o próprio tempo -, feito visgo, adere à pele e vai bater no juízo. 
Ao ver a fotografia da professora Bettina estampada na página de um editorial da Revista da Sociedade Brasileira de Cardiologia eu revi aquelas primeiras aulas dos porões da Santa Casa de Misericórdia, onde tínhamos que aprender a escutar e auscultar pacientes. Título do editorial: “Perfil dos cardiologistas brasileiros: um olhar sobre a liderança feminina...”. Destaque à ativista médica que nos ensinava como ouvir a onomatopéia tum-tá das batidas cardíacas ou aquecer as mãos para apalpar o fígado. Bettina era baixinha e magérrima, porém sua estatura e seu peso nada tinham a ver com sua capacidade de ser mensageira de Asclépio.
Fora da sala de aula costumava-se ver Bettina aos domingos, cedo-cedo, subindo as escadarias da Beneficente Portuguesa para frequentar a missa, pois era uma religiosa fervorosa. Caminhava com uma leveza que lembrava a sua forma de se expressar e de ensinar a ler eletrocardiograma.
Àquela altura, meados da década de oitenta, quase aposentada, teve suas apostilas transformada em livro por uma grande editora brasileira. O livro tinha dois tomos. Um deles, de pura prática médica, cortejava a coleta de informações para se compor uma boa história clínica junto com o exame físico e era o que se chamava de adestramento do exame físico. Era o que mais tinha a ver com aqueles muros e pilares. Assim, o Brasil conheceu a maior obra da literatura médica oriunda dos porões da Santa Casa. Ademais, foi espelho para uma geração de professores que até hoje mantém a aura daqueles aprendizados como esteio do ensino dentro dos muros universitários de todo Brasil. Consoante a tais fatos, doou seu nome para um dos Hospitais da UFPA.
Naquela resposta jovial estavam todas as reverberações que o lançaram a responder à pergunta. E, no meio de cada um que sofreu influência ontogênica daquele embrião de ensino, não há como abolir de dentro do peito um sentimento que te lambuze, quando se revive. A tentativa de esquecer não passa de um destempero vil que se veste de fantasminha e vem fazer assombração em noites de alumbramento.

domingo, 28 de julho de 2019

MOÇO DE JUÍZO, OBEDIENTE

Por Sabá de Abadia

 Menina ainda, Joana, de Jupira
era capaz de fazer indagação
de fazer qualquer ancestral
se revirar no caixão…

- Quantas palavras há de caber
aí nesta coisa que lhe atravessa a
garganta, este nó que lhe entorpece
os sentidos, este sentimento que lhe
corta em muitas tiras o próprio coração?

- Se palavras tropeçam na língua
não será porque chegaram de
longe estoporadas,  feridas
e famintas de claridão?

- Se é possível tirar, extrair é também
então possível enfiar palavras adentro
feito bálsamo, alento, bisturi ou fermento?

- Será que existe parteiro de palavras
engasgadas, dessas que azedam
e permanecem nas entranhas
purulentas, atoladas?

Joana se fez poeta e de verso em verso
no palco e no consultório faz com a
palavra afiada feito cutelo o que
pouca gente faz: partejo do
que é justo, bom e belo.

Conheci esta rara figura ao visitar
no sertão de Pernambuco um familiar.

Disse-me ela em linguagem direta:

“Eu cutuco, porém não machuco
dou berro, mas sussurro
arranco espinhos
e educo”.

Por carta, hoje, sou seu analisando
um paciente sempre presente.

Pois logo ela me escreveu dizendo
que não bota em ninguém cangalha
antolho ou exige atitude de carneiro!

Mas pediu-me postura, estado alerta,
falando-me delicada como ferro quente,
pronto a marcar, mergulhado em braseiro.

“Ou tu te abre, ó filho de flor de urtiga
ou te caço feito rês fujona e te dou coça!

Se desejas a cura abra tuas comportas
mesmo que haja só chorume
e tudo cheire à fossa…”

Ela escreve e fala sempre em versos
como se fosse um cantador de repente.

Eu, comportado, atendo a seus comandos
pois já me fiz um moço de juízo, obediente…

26jul2019

domingo, 30 de junho de 2019

As ruas da minha aldeia


Para Corisco,  bando e quem mais se achegar
Para meus amigos de infância, em Feijó-Acre.

As ruas de minha infância guardam os festejos juninos dentro de mim sob marcação de zabumbas, sanfonas e triângulos. Hoje, se faço acordes com este silêncio das ruas de antanho, é porque faço essa colagem impressionista, tomando o pincel das mãos de Monet e guardando em minha parede.
As ruas da minha infância, hoje, olharam-me com estranhamento, como uma espécie de coruja de hábitos crepusculares, que guardam no meu sistema límbico o voo calado daquela meninice, como se fosse texto de Twain.
Ultimamente, distantes deste passado entre as terras de Tom Sawyer e da Matinta-Perera, venho tentando ajustar as cores daquelas ruas, mas não há combinação com minha tez e a colorida fama de memorialista. É tudo sensação. São sensações, pois meus pés não se arrastam no asfalto de hoje como nas ruas de outrora, alhures, pois meu passado de pedra, pó, lama e dedos descalços no açoite do sol escalpelam o toutiço e sustentam o desejo de viver solenemente alegre, ao ver os terreiros bebendo açaí na cuia com granola a desafiar as raízes simplórias existentes nos encantamentos de Paes Loureiro.
Talvez eu ande hoje nas camadas underground - estilo surrounding - de ater-me sob estrondo e estorvo da cidade grande, agoniada e desassistida de passado e de Pasárgada.
Tem o sol, mas o sol não incomoda tanto; as pessoas sim. Estas bem mais que dois sóis guardados no subsolo desta retórica. Ando, ardo e misturo tudo na minha farofa de banana pestilenta, quando vejo um homem puxando carroça com um punhado de cacarecos no lombo, para comprar o pão que o diabo untou no lodo. Lá na frente ele se veste de Bukowski e dá duas talagadas na dor de ter que viver mais um dia.
As ruas de hoje, prédios de hoje, gente de hoje, esgotos de agora, são cores insalubres de uma verdade descontinuada e segredos liquidificados. Eis que os olhares da miséria e medo são parte do enredo das calçadas irregulares e das caminhadas que insistimos em fazer por conta do ácido graxo que embeleza meu prazer de lamber os dedos na hora da fome, enquanto leio Bauman.
Íngremes entre a distância do que fui e do que sou, vejo aí que a poesia se rasteja em andrajos e me disfarça dos arcanjos para ganhar voto de bom São Miguel do Caos, em busca de quem a veja ou reconheça por trás das cortinas que atordoam Hamlet.
Tropeço em incômodos homens bem vestidos que têm pressa de chegar a algum lugar, que o leve ao nada. Trocamos pontos de vista, mas a vista já exagera no foco e acabo vendo o vestido curto da moça que rebola na hora de dizer adeus pelo canto do olho. É a hora que me desobriga de concordâncias verbais e volto pra casa para ver que a vida valeria se insistir em amar as ruas daquela minha aldeia, que guarda no cocuruto a velha farsa de fingir que não existiu, ou de fingir que não conhecia aquele rio curvilíneo que me banhava de infância.
Porque há um vasto estoque de delinquências a serem percorridas logo após a beirada de calçada de minha infância. O bar, um bar aberto, que pode ser o do Abel a espera do socorro do amigo perpetuado no passado onde moram tucujus, cujas flechas passam e me arrastam pelo amazoniamento de ser palavra verde, som equalizado do Curupira e pulso arterial que ribomba na floresta nômade dos Yanomami, donde eu vim rastejando para ouvir Joãozinho Gomes.
Sim, um bar, não um cocar! Foi a partir daí que dei os ombros àquele Acre de minha infância, onde pude despejar todo meu temor, toda descrença de curumim ao cuspir a última gota de esperança que resta no ducto sujo do meu pâncreas, pois limpa é a alma e o poema que vêm da bonança das ruas de meu terreiro de são João, das valas, dos esconderijos das vidas, onde o poeta Gullar fez-se irmandade com a calçada que anda em desavença com as palavras que guardo dentro de mim, ao vir à tona para se fantasiar de poesia.

Labareda, do Bando de Corisco

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Sujeição ao verbo SER

A gente quando escreve faz com agulha e linha na mão, tal a rendeira, tal cirurgião de antigamente. Também a gente puxa o mundo para dentro de si e põe no colo, mas o que sai não passa de calango torrado.
Uma prova disso vejo no amigo Corisco, ao dizer que poesia não serve pra nada. É quando ele se senta no chão, a Manuel de Barros, e sapeca versos fortes, que dão saltos mortais e parecem sucumbir logo ali na esquina. Mente que nem sente, mas ele se escora no Pessoa, e diz: poeta é fingidor. Ele se finge de morto pra comer o cupuaçu do coveiro, pois logo que é tirado do pé é azedo que nem abóbora com elixir paregórico ao leite de magnésio.
Aí certo dia fui em busca de inspiração para escrever com a linha na mão estas mal traçadas letras. Dei uma de Marcel Proust e vazei pelas ruas de Paris, ou melhor, pelas beirada da Pariquis, e fui bater na Benjamin. Não para me encontrar com Paulo André, tampouco Clovis ou Antônio Maria, no esfumaçado Cosa Nostra. Parei antes: Moquén. Uns dez metros aquém.
Soube que o Paulo Cal, o Tito e o Elias Pinto andam por lá, degustando o moqueado do Moquén. Deve ser bom, pois esta trinca não costuma dar bote errado.  
Sentei e vi o Chef na minha direção, afinal era o primeiro a chegar. Fui de Tambaqui. Deu liga. Ele falou dos sonhos, dos temperos, da sua nova vida acadêmica e de suas viagens gastroenteroestrelares. O tambaqui harmonizava com o papo do chef. As paredes, mais um tanto-mais. O homem era de alto quilate e Surucuá teria passado por ali para dar cor àquela alma e àquela parede printada por um cortesão da mais nobre arte.
Falamos de nosso passado nos arredores do Tucunduba. Sim, pois somos contemporâneos de faculdade. Falamos daquele rio que singra nosso tempo estudantil, feito bisturi que corta a carne do nosso passado incontornável, de lá donde o Guamá fez a curva até largo de Santa Luzia, convivendo nos porões da Santa Casa. Tudo passou feito faísca queimando, sem dó, o glicogênio de outrora que nos amaldiçoa agora.
Sobremesa? Não, água. Não esquece que minhas coronárias já guardam algumas placas tectônicas de cálcio insalubre e a qualquer momento posso bater o cacau. E o meu colesterol mais lembra que a vida é breve. Ainda bem que a arte seja longa, diria nosso Hipócrates.
       Logo depois o Moquén inchou. Mas eu já tinha de partir. Antes chegou o Luiz e passamos a rir sem direito à preposição, verbo e educação. Tomara que a vida continue nos dando ocasião para o riso solto, pois, ao escrever, finjo-me de ladrão e escapo de encruzilhadas e do tédio, e passo a roubar fingimento de escritor para ver se a vida me desabrevia. Afinal, estou aqui pra lamber palavras e o tempero quem vai dar aos textos é  a poesia nossa de cada dia, com direito a um Pinot Noir e um pedaço de tapioca ao gosto do chef.

sábado, 25 de maio de 2019

Vida rápida

A vida, essa trágica piada,
passa com uma pressa danada.
Não a acompanho como deveria.
O que houve com o tempo e os costumes?
Pra onde foram a mortadela e a moela?
Os "tira gosto" estão saudáveis demais
pra quem busca suicídios a médio prazo.
Fumar já não pode,
beber sem se exceder,
e logo logo o câncer será proibido.
A vida está rápida e a morte tomando distância.
As folhas perdem espaço pras telas
e meus dedos não se dão com elas.
Os livros. Ah! Os livros.
Minha última quimera,
minha cidadela,
onde quero enterrar meus olhos,
meus ossos, meus vícios,
os disfarces, artifícios
e me perder de vez
até virar história
contada em noite de chuva,
com barulho de trovão,
quando nada mais restar,
nem rádio ou televisão;
uma história sem palco,
com a chamada terminal:
senhoras e senhores
acabou o espetáculo.

Corisco.

sábado, 18 de maio de 2019

Convite à Morte

Entre.
Fique à vontade.
São cinco horas.
Hora do chá.
Mate, Camomila ou Erva Cidreira?
Açúcar, adoçante ou ao natural?
A Sra. manda. É seu dia, seu momento.
Não lhe acompanho.
Não por falta de educação.
É que acabei de usar um remédio pra dor,
e o doutor disse pra evitar contrariedades.
Se estou esperando alguém?
Confesso que pensei convidar Deus pra esse encontro,
mas andamos tão afastados que não mais espero por Ele.
Talvez Ele não queira ouvir a penúltima blasfêmia,
ou lhe causar embaraço.
Renovo o gesto:
fique à vontade,
faça o que deve,
não se apiede de mim.
Sem pressa.
Acabe o chá.
É o tempo do último cigarro.
O que eu quero, por fim?
Recite os primeiros versos da Tabacaria.
Sim, aquela do Álvaro, ou do Fernando;
tanto faz.
O que importa agora?
Faça isso e eu vou.
Sem metafísica.

Corisco

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Beirada de praça

Em Cordisburgo planta-se conversa em todas as beiradas. Juvenal, 88 anos, homem da roça, sentava-se à porta de sua casa, defronte ao Portal Grande Sertão, enquanto eu passeava apreciando o monumento. Dei "bom dia" e ele respondeu de prontidão: "bom dia". Depois completou: "Que dia é hoje?". "Terça-feira", respondi.... "a morte esqueceu de me buscar. Bebi muita cachaça, mas estou achando que isso me fez bem". Vi boa prosa, ali. Sentei. Percebi que era cego: - "Glaucoma", respondeu. Não se intimidou e mandou mais conversa. Farto, levantei, bati a chave e saí. Tive a sensação roseana que "Primeiras estórias" nascera de prosa em beirada de pracinha e não na vendinha de Florduardo.


domingo, 12 de maio de 2019

Política

Hoje não vou falar de política.
Há coisas mais importantes.
Quero falar do azul do céu,
dos pássaros, do sol, do meu chapéu;
quero dizer que a vida é bela
sem esta ou aquela fofoca ou intriga;
quero assistir o passeio das pessoas,
das brancas, das negras e suas cores,
o passatempo dos bares
o movimento da vida.
Mas uma névoa encobre o céu, o sol
e a fuligem sujou meu chapéu;
nos jornais os colunistas ocupam tempo e espaço
com o vestido da madame,
ou o vazio que não fecha o laço.
O preconceito dita os costumes
entre falsidades e azedumes.
O bar secou,
os que interessam sumiram,
e eu me perguntei:
não há nenhuma política
que dê rumo pros homens?

Corisco.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Bendito desconhecido


...quanto ao desconhecido, amigo
posso dizer-te que é o terreno
que prefiro pisar nestes
dias confusos.

Quem tem a bússola da fé
entranhada no coração
nada teme.

Se desorienta quem esquece
de atualizar referências,
principalmente as
do coração.

Perder-se em meio a debates
em que o embate é feito
com espada de papel
nos renova!

Vez ou outra uma ideia intransigente
dura, caquética ou carcomida
cai por terra, fulminada!

Desconhecido é caminho
de descobertas.

Por isso não tenho essas pressas
de aprendizado, de conhecer tudo,
pois gula costuma nos enfastiar.

Vou brincando, assim, de recortar e colar.

Depois troco figurinhas!


(Sabá de Abadia, em dias de euforia por motivo algum, pois assim que é bom, ora porra!).

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Anotações

Palavras são postas a procura de olhares
e não há acaso no encontro de olhos e letras.
A identidade se faz presente antes,
ao tempo das navegações
nas águas maternas,
desde as notas e anotações genéticas
que dia após dia encorpam a alma.
Daí dá-se a paixão,
com a leveza das sedas,
a sutileza das fadas,
o encantamento dos sonhos,
o delírio que a sanidade empresta ao espírito
para o gozo urgente da entrega;
até que um verso torto
lhes cause desconforto
e os olhos, 
entre espantados e assustados, 
nunca mais retomem a paz.

Corisco

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Minha Praça em Bragança

Minha praça não era uma Piaza Navona, São Marcos, ou uma Praça Vermelha, mas pelo menos uma vez por ano ela superava todas as praças do mundo porque tinha preás advinhadores, carrossel, barquinhas, moças que viravam gorilas, muita garapa com pão doce e um desfile incessante das meninas mais bonitas da cidade num trottoir inspirador de poetas e vagabundos em pleno ofício de não ter o que fazer.
Minha praça teve a ousadia de confrontar uma Igreja e um bar que, soberbo e soberano, se impunha numa porfia estimulante com o templo consagrado, posto que frequentados, de forma desbalanceada, pelos mesmos personagens que pecavam em uma casa e buscavam perdão na outra. 
Duas belezas singulares. 
O bar com seus vitrais maravilhosos espelhavam os melhores sorvetes, picolés, comentários e bêbados da cidade.
A Igreja guardava imagens aterrorizantes, como a do Senhor Morto, e apaixonantes como as da Mãe do Senhor, pródigas na expiação das culpas.
No meio, arbitrando a disputa, um obelisco dividia as paixões e impedia a Casa dos Padres de se meter na luta enquanto alimentava amores, desfeitas e taumaturgos em formação.
Meus olhos acompanharam o amadurecimento e o envelhecimento da praça.
Hoje ela não me reconhece mais, mas  continua inesquecível para mim.

Corisco

domingo, 17 de março de 2019

A arte por um fio


Eu trocaria uma mina de diamantes por um copo de água pura da nascente.” 
Julio Verne, em: Viagem ao Centro da Terra (1864).

Desde quando o homem dominou o fogo as coisas nunca mais foram a mesma. Criou a religião e suas vertentes aguçadas, inventou a arte como forma de redimensionar a roda da vida, viu a filosofia como a primeira sombra de sua alma e só bem depois brechou a ciência pela luneta de Galileu.
Pelos meandros da construção desta modernidade, um sábio grego, na ilha de Cós, transformou igreja em hospital para separar a doença da religião. Inventou a cura, e o que era para ser discreto e incauto ganhou proporções atemporais.
Daí veio um francês e, com toque de gran chef, misturou gema de ovo, óleo de rosas e terebintina e untou num ferimento de guerra. Parè descobriu que a mistura provocava cicatrização rápida. Assim nasceu a cirurgia moderna recheada de arte para dar gosto e densidade à medicina.
Depois chegou a tecnologia, soltando faísca pra tudo que é ponta. Puseram a pusilânime faísca em chamas e as labaredas da ciência atearam fogo, a ponto de viajar a pontos diametralmente opostos: da lua ao centro da célula.
E depois de todos esses nuances, o Sapiens, incansável e assaz criativo, não se conformou e resolveu colocar calor até mesmo nas discussões. A verdade é que os contrapontos são os verdadeiros combustíveis às muitas faíscas que existem em nós, e quem não souber pôr a cabeça no congelador é melhor nem entrar no calor dessa discussão. Assim nasceram os congressos e os fios deste texto.
A questão é que os congressos médicos discutem cada vez mais ciência e tecnologia e cada vez menos arte. Há tendência de tê-la apenas como uma vicissitude que deve ser guardada no escaninho de cada serviço, para que em eventos ganhe a alcunha de hands on, só para soar mais contemporâneo.
Num evento recente para lançamento de determinado dispositivo na área da cirurgia, em São Paulo, um dos coordenadores flambou nossas idéias e descreveu um novo produto para suturar pulmão. Relatou que o dispositivo mecânico, independente de quem use, passa a ser equânime - seja ao jovem cirurgião, seja ao catedrático – e a costura terá a mesma estética. Com isso os resultados melhoram, a indústria tufa os bolsos e se retira a arte da ribalta cirúrgica.
Próximo de cem por cento da nossa massa cerebral, para não falar de outras vísceras menores, está consagrada à contemplação e à adoração do high-tech, deixando um mínimo espaço à turgescência da criatividade e idéias sustentáveis, por isso, a arte cirúrgica deverá desaparecer lentamente, só que o lado desumano da tecnologia é o custo, e nem todos têm acesso a essa “mina de diamante”. O evento de São Paulo foi fascinante e nos pareia com os grandes centros mundiais, mas move uma geometria piramidal que desfavorece a base, onde estão os mais necessitados - aqueles que batem à porta dos hospitais públicos rezando que sua operação seja a laser.
Mas do outro lado do país, com faísca no cérebro, firmeza nas mãos e pendor no coração, um pequeno grupo de cirurgiões do SUS vem aprimorando a arte de realizar ressecções pulmonares sem essa tecnologia toda (conhecida como OPME). Tudo na munheca - passando fio, esticando o dedo e dando nó. Se o único problema é o tempo cirúrgico mais esticado, por sua vez, esse grupo nos desafoga do caos que representa a desigualdade social em nosso país.
Havemos de estar aptos a reconhecer que a grandeza da arte cirúrgica não é apenas ego insuflado, se do outro lado da linha existem necessitados.
Por fim, não há qualquer tutorial para se criar idéias, pois vivemos de lampejos, haja vista que, perante incertezas, sabedoria é errar pela insistência, tão somente para não se desistir da vida, pois sempre há um canceroso ou um tuberculoso do outro lado da rua precisando de nossos laços e de nós.
Insistiremos com a arte enquanto houver esfomeados.

Texto do Jornal da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica adaptado para este blog

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Aos filhos de Camilo - pelo centenário da Faculdade de Medicina e Cirurgia

Rejeitando o profundo amontoado de quimeras tão antigas quanto a ilusão humana, guardando no canto do meu peito os mestres alquimistas, eu me vi sentado àquela sala, a auscultar o murmúrio da multidão que me aproxima aos cem anos de criação da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará. Eu tinha ao meu lado a doce companhia de minhas solidões quarteladas aos meus trinta anos de existência profissional e acadêmica.
Tive a impressão - coagulada impressão -, que a matéria se dissolveu em meu epicanto e se fez o corpo das coisas em forma de suspiro, de modo a toldar a janela de vidro, após cada lágrima salgada embebida pelo fio do tempo. Agora, o ramo da parábola que o relógio registrou num sextante, foi sujeito-objeto de minhas láureas, se é que existem, se é que existiram.
Vi desde a belle Époque do Zé Maria e a aquarela histórica do Ari traduzir-se em verbo. Tu que foste verbo, tu que és estado de palavra...
Depois do triunfo conjugado no púlpito – “ser ou não ser” é apenas minha questão -, finjo vestir-me do bardo e me sair moribundo pela solidão das ruas que marcam minhas pegadas pelas soleiras de Santa Luzia - aquele casarão imenso que transformou água em vinho e me tirou dos porões onde catapultei meus cadernos.
Daquele fundo partira minha orgânica vida, ignorância-mor, em tarefas de dispensário, em meio a cadáveres, que mais pareciam seres a me apresentarem o caminho de alhures. Fui bater e ouvir o barulho da cremalheira e o tique-taque de meus pulsos quando vi a primeira artéria jorrar em meus olhos e borrar minha sabedoria sobre o que nada sei. Vi indigentes que esperavam pacientemente cada manhã para ouvir o sussurro do que somos a cada página lida à sombra de uma lamparina. Nesta aplicação total, eu excluí a piedade, mas me aparelhei do novo a partir daquela esquina, de seus muros, chafarizes e folhas de um ipê-roxo acarpetando-me com ternura para que eu pudesse pisar nas veias perdidas pelas horas de sono.
Como o olho de Deus em certas gravuras, eu me vi Hipócrates à frente de Parè e tive que enterrar vivo Galeno e seu aristotelismo. Mas foi Camilo, quem se vestiu de Ronaldo Araújo, aquele cão de guarda que rosnara seus sonhos surrealistas, feitos daqui e de acolá. Começou a sair-se pelos desfiladeiros e operou espíritos com a lâmina da sabedoria, até se achegar às vísceras e tornar menos experimental o que a sociedade condenou.
Viu-se a vida de tapuios lamber a morte, mas viu-se distintos homens visitarem a biblioteca e a lousa para dar parapeito ao abismo sem cair no cadafalso.
Não, não. Ante ao decreto da morte, aquelas paredes resistiram e puseram-se de novo a escrever o grão da ciência e da arte - ó arte! -, e foste apenas vítima dos sonhadores com o olho mais longe que a linha do equador permitia,  sem tombar do corpus. Deu-se o hoje, em brados retubantes, sob as desavenças dos desertores imperialistas, que sofisticam ideias para nada dizer.
Foram-se homens, ficou o tempo apedregulhado em forma de germe, a dar grãos para que pães alimentem a fome de bem-aventurados que se vestem de branco para esclarecer que a vida não brota em cada em escalada mensurável, mas em gestos senhorio de gnomos, mesmo que custe calcular algebricamente o centenário de um caminho longevo e destemido.
Geraldo Roger Normando - Professor do Departamento de Cirurgia – UFPA.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

A dor do parto e de partir

Um amigo cirurgião do Paraná, o Vlau, em meio a uma carona, confessa-me que os filhos começam a abandonar a gente a partir do parto, quando as cremalheiras das pinças de Kelly tilintam para reparar o cordão umbilical. Depois vem a tesoura de Metzembaum e completa o serviço. Pronto: pais e filhos separados.
Eu não discordo do Vlau, apesar do magnetismo do laço familiar azougar nossos corações- Depois vai se oxidando e amadurecendo para dar vez à partida. Naquele instante, o Vlau fez minha respiração, ruidosamente, tropeçar sobre a metáfora e me deixar, de rescaldo, uma disritmia.
Aí comecei a rever que aquele cobertor deixando as pernas de fora, o nariz escorrendo, a ideia mal arrumada no caderno foram lembranças desencavernadas naquela conversa. Depois de vinte e poucos anos de convívio ao pé da casa - e a faculdade já findada-, a vida dá um sopro e eles voam com as nossas roupas e sapatos - e ainda levam algumas de nossas meias e cuecas.
Sem dinheiro no bolso arriscam-se a grandes fóruns universitários e a nossa saudade passa a ser arrematada por longas travessias, fingindo comprar açaí na esquina da Perebebuí.
E lá vamos os dois, ouro de mina, atrás de suas pepitas a serem lapidadas, pois ao brilho ainda falta muito esmeril. Portas em automático e fim de ano juntos no mesmo quarto de hotel. Um sopro - ou mesmo um ronco - para abolir o tiquetaque dos relógios e tudo vira champanhe e sete pulinhos ao mar, alhures, para brindar o novo que chega. É o plano.
[Pausa pra inspirar]
Ao descer no primeiro aeroporto e pegar o metrô já me deparo com o primeiro laço. Logo em seguida o segundo e a cidade abre os braços, como se fosse um cordial abraço ao Estevão da Tabacaria. Depois seguimos batendo perna, a prosear, e ver que o tempo os tornou mais belos e as paragens em sebos e livrarias os tornaram mais vivos. Aí uma visita ao Chiado para ver Karl Marx, Engel, Karl Popper, Carr e Paulo Freire para sentir o gosto da hóstia que comungamos.
[Pausa pra expirar]
Por Londres o inverno deixa a cidade fosca. O céu é baixo, pois o sol passeia no outro hemisfério. A luz leve não deixa sombra. Tirar a mão do bolso é banhar-se no Ártico, trincando ossos, tendões e nervos, dificultando as passadas. Sigo ao lado dos rebentos em caminhadas sobre soleiras de universidades, jardins, museus e livrarias, com direito a uns espirros pela friagem. Às quatro horas a escuridão começa a invadir nossos passos e damos-por-visto depois de achar um Dickens de 1867 e reler Sophia Andresen ou alguns livretos da Oxford Press. O final do dia é regado a vinho e conversas acadêmicas, até o sono bater.
A vida por esses trópicos tem ritmo erudito, pois um Nobel visita a sala de aula como eu visito as canções do Paulo e Ruy Barata.
[Apneia]
A respiração paralisa quando já é tempo de nos separarmos. A volta dói mais que espinha de peixe riscando a goela. Aquele tilintar dos Kelly visita a memória e se converte na sonoridade de uma velha canção do Milton. A despedida na estação me faz ter a sensação de “gente que chega pra ficar e gente que vai pra nunca mais…”
Adiante, ao sentar no trem após a última oração, a vista turva. A baixa temperatura gera uma perda de visibilidade e os óculos embaçam, mas ainda consigo ler que estamos chegando a Gatwick - e mais a frente o Tejo. É o caminho se encurtando e a gente deixando, ao longo da viagem, sulcos em nosso órgão mais afetivos.
Foram-se os meninos ficaram os homens, seus livros, suas ideias e a esperança de um mundo justo, acomodado em suas mochilas carcomidas pelo desafio. As lembranças ficaram pelos muros de Coimbra, Sussex, Minho, Oxford e Cambridge, regadas a discussões sobre ética a Nicômaco, o próximo governo e, por que não (?) o futebol.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Entre bazófias e confidências

     Quando as bazófias ou as confidências de um cirurgião privam-se de procurar histórias dentro de seu espaço glorioso, basta caminhar até uma livraria para sacar um autor e certamente um mosaico áurico, cujo valor ninguém ignora, salta aos olhos. E as linhas douradas vão vangloriar-se bem a sua frente.
       Basta desvirginar as primeiras folhas que as linhas passam a paginas douradas de uma boa leitura, te arrancam do foco da rotina e te põe a gravitar entre o real e o imaginário, como se fosse num filme de astronauta - em visão tridimensional e magnificada - a caminho de uma galáxia desconhecida. 
      Antes que a gente volte ao mundo real, caia e rale os cotovelos, dormitar neste momento anti-newtoniano e planar feito um personagem de Julio Verne, pode fazer de nossas hélices cerebrais uma drone pelo mundo futurista, pelo mundo presente ou mesmo a um passado renascentista.
      E conviver com isso é simplesmente auscultar o frêmito da felicidade em um pulmão tísico.
     Foi o que me aconteceu ao ler o poeta Antonio Moura e alguns de seus poemas. Ele se debruça sobre uma linguagem sagaz ligando pensamentos silábicos a palavras anti-monotonias, que passam pela gente como um sopro e nos proporciona uma delícia que permeia entre a lambida num chocolate amargo da ilha do Combu e a realeza do açaí sem açúcar tirado direto do tacho.
      Num desses sábados, andando por uma das livrarias da cidade, encontrei os livros do poeta. Ali permaneci, em pé, como se levitando no espaço sideral. Abri um deles e enfiei o nariz naqueles versos, para sentir o buquê de sua poesia... Segue Nosferatu:

Quando a lua uiva
sobre sonos e sopra
o pó das sepulturas,
exalo meu perfume e
negro lume, escapo

A capa, asa de negrume
envolve teu corpo, ar
repiando o dorso, car
ícia de brasa gelada

E por fim deixo em tua
pele-página, orifícios,
dupla marca, ver
melho sangue: cravada
   
        E não é que num piscar de olhos o poeta aparece bem à minha frente? Eu estava com o livro “A Outra Voz.” Ele queria autografar, mas não tínhamos caneta. Eu disse: não precisa, poeta. Ele retrucou: é que quando a gente encontra um leitor de poesia a gente acha um diamante.
Estava feita a dedicatória.

Labareda, pelas artérias de Corisco

domingo, 7 de outubro de 2018

Amana Katu: os rumos da cirurgia

A ciência não avança, 
a ciência alcança 
a ciência em si.
Gilberto Gil / Arnaldo Antunes, na canção "A ciência em si"

         Como há muita chuva na Amazônia, nada mais espoleta do que olhar para o céu e ver se uma gota de ideia cai no olho, molha alma e fertiliza cérebros para gerar boa ação.

Foi o que fez uma dúzia de estudantes de uma universidade pública da Amazônia. De tanto apanhar chuva lançaram uma ideia sustentável: recolher água da chuva que escorre pelas bicas para matar a sede. Cognominaram de Amana Katu; Vem do tupi-guarani e significa chuva boa.
Como fazem? Recolhem a água da bica, cheia de impropriedades bioquímicas, e transformam em água potável por meio de método simples e de baixo custo, utilizando bombonas da indústria alimentícia (tambores plásticos que armazenam até 240 litros).

Os jovens estudam à margem do rio Guamá, Belém, e na outra margem existem algumas ilhas, cujos moradores não têm água potável. E no que deu? Os garotos atravessaram o rio e foram levar o projeto para os ribeirinhos. Deu foi certo e eles foram bater no vale do Silício com o objetivo de apresentar, in locu, a montagem. Ficaram entre outros três programas mundiais, após competirem com 27 países e mais de 130 projetos. É a primeira vez que o Brasil chega à final desta competição californiana.

Pra transformar a travessia de rio em travessia de mar, eles ergueram as mãos pro céu e pediram ajuda ao deus Tupã para receber doações. Deu certo e os garotos pegaram o Ita do norte. Dois deles, Paulo Vinicius e Waleska, caíram nas graças da Google e foram mais além: participaram de treinamentos na empresa. Uma enxurrada de sonhos para estes garotos!

Na realidade, o que os estudantes fizeram, em forma de experimentalismo científico, estamos todos os dias a fazer, por conta da escassez de recursos na região. Um dos campos mais ávidos para inovações deste tipo é a medicina, especificamente a cirurgia.

Vivendo (ou sobrevivendo) em hospitais sucateados e carentes de recurso, volta e meia lançamos mão de idéias e recursos sustentáveis que, se estivéssemos diante de uma câmara técnica de uma grande multinacional seria certo a guilhotina em praça pública sob trovões e relâmpagos. Decerto, na esfera californiana, o destino seria outro, mesmo que a ideia custasse a bagatela de um paneiro de açaí. Mas o que nos impulsiona é a teia de idéias dos garotos do Guamá, que foram da idade da pedra à idade do silício num salto maior que a universidade onde estudam.

Um parêntese: avanços tecnológicos estão cada vez mais presentes na cirurgia, mas o ritual de hoje é: “idéia boa” é aquela capaz de ter financiamento e gerar lucro. Portanto, se o mundo é high-tech, o Amana Katu deveria ser enterrado, assim como a arte cirúrgica “sustentável” e seus lampejos. 

A razão de tudo é que o caminho da tecnologia é escorregadio, encarece o sistema e dificulta o acesso aos desfavorecidos (leia-se SUS). Fazer adaptações ou ajustes pode causar uma fúria a grandes multinacionais ou a uma fração da sociedade. Mas não à d. Celestina, que numa operação por vídeo no hospital universitário, foi-lhe retirado um tumor canceroso do pulmão. Obteve alta já no segundo dia, utilizando método moderno e minimamente invasivo. As vantagens são: menos dor, infecção e tempo de internação. O custo é alto com material descartável (insumos) e uma operação como essa pode passar de 10 mil reais. O custo da operação de d. Celestina, usando uma ideia sustentável para obter o mesmo resultado, foi bem menos que 500 reais. 
Nada disso significa pendurar a cabeça do cirurgião numa guilhotina e aumentar riscos, pois tudo deve ser feito com critério clínico e responsabilidade. A equipe cirúrgica deve estar habilitada para realizar esse tipo de procedimento. Só vai resplandecer se o cirurgião olhar para os exemplos do Amana Katu e dispuserem-se a entrar na chuva sem esquecer de olhar para a segunda margem do rio.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

As calçadas da rua Wudong


O setembro da rua Wudong tem, na forração do céu, um sudário cor de chumbo. Percebem-se todos os tons de cinza nas nuvens: do alvorecer, quando Xangai se desnuda para o novo dia, até o claro do dia findar. Parece que vai chover a qualquer momento. O tempo fechado mistura-se à poluição, que faz Sergio, meu companheiro de caminhada, espirrar. Embaixo, os chineses caminham com máscara, protegendo pulmões e vias aéreas. Até as crianças, que se direcionam para a escola, têm suas narinas escondidas. O clima é pesado para o DNA dos orientais, que tem propensão a doenças respiratórias, incluso cânceres.
Na mesma Wudong, crianças atravessam-na de mãos dadas com os pais, até entrar na escola para aprender mandarim, matemática e o hino nacional. Algumas chegam à garupa da bicicleta e outras saem pela porta traseira de carros de luxo. O destino é um só: a igualdade.  Tudo junto e misturado, feito fila de comunhão da hóstia sagrada. Se existe algo que o comunismo deixou na Wudong foi o convívio cintilante com a bandeira vermelha e o bem-estar com o socialismo. Tudo por conta da pesada mão de Mao.
Depois a China deu a mão de Mao à palmatória e abriu os olhos ao capital estrangeiro. A abandonaram o comunismo - mas não suas lições de mutualismo ante ao crescimento exponencial da população. Sem commodities, e úteros crescendo, a fome deitava no colo do totalitarismo, mas só havia mamadeira - e o leite era de soja. Levaram-no à crença que o regime falhou e precisava ser reavaliado. Do contrario, o dragão asiático, sem pólvora para exalar fogo pelas fendas nasais, entraria em combustão.
Por conta de tais mudanças conseguimos aterrissar em Xangai, rua Wudong e ver, nos meninos-chinos, reminiscências do passado maomista e das dinastias que o tempo deixou pra trás. Caminhar pelas soleiras apreciando o arvoredo e jardins que compõem a bela universidade de finanças e economia -  e aquela escola de crianças - foi um exercício de reflexão política para deixar qualquer flaneur do Sena roendo os cotovelos. Em que pese o ar pesado, obrigando os chineses a máscaras, apreciar a Wudong me distraiu em cumprir meu objetivo: visitar o maior hospital de doenças pulmonares do mundo.
Em verdade, toda a minha vida em Xangai se resumiu aos 1,3km que fazia todos os dias para chegar ao Shanghai Pulmonary Hospital (SPH-Tongji University), sem qualquer risco - exceto no cruzamento da rua Wuchuan, defronte à entrada da Universidade de Finanças e Economia, em que bicicletas, carros e moto elétricas passam por cima dos sapatos, sem pedir licença. É claro que aqui e ali se via um corpo estendido no chão, ambulância ao redor com luzes vermelhas, isolando a área.
Quando dei por mim, estava entrando naquele hospital-escola e sentando na carteira para aprender novas lições sobre câncer de pulmão, num inglês saltitado pela dicção do mandarim.
Foram 15 dias intensos e nem pudemos visitar o Yang-tsé. Eu sentava todos os dias na mesma carteira, a prestar atenção nas aulas, nos casos clínicos diferentes - pela precocidade de diagnósticos. Também começava novas amizades e ouvia os menestréis, depois o rumo era o centro cirúrgico.
Eram todos os dias, exceto no ultimo, quando fui convocado por Zhu-Yumin e Jiang Ge Ning, os coordenadores, para uma lecture sobre cirurgia da tuberculose pulmonar, no meu inglês misturado com farinha de tapioca. No último diapositivo projetei a janela do meu poleiro, com o pôr-do-sol amazônico ao fundo. Era para explicar as minhas 36 horas entre aviões e aeroportos. A plateia percebeu que por ali passara meu destino. Riu. Riu com um sorriso verde-transparente aninhado naquela minha pausa pra beber água. Deu saudade do meu recôncavo. Já era hora de voltar e agradecer a serventia. 
Aprendi bem mais que a distância que me separava de casa, pois todo aquele tempo escorreu numa velocidade inversa à fome de escrever o que estava ali. Tentei de todas as formas organizar tudo em borrões, mas, bem antes do fim, o avião pousou na minha janela.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Academia Nacional de Medicina, 21 de junho de 2018


Senhoras e senhores, boa noite.
Saúdo inicialmente o presidente desta casa, o acadêmico Jorge Alberto Costa e Silva, o qual, em seu nome, reitero saudações aos demais colegas médicos e membros desta Academia.
É uma satisfação muito grande estar aqui. Recebi o convite de supetão. Na vida o bom chega de súbito. O resto, o que desperta tranqüilo é aquilo que, sem darmos conta, já havia acontecido. Um convite desses alivia-me os nervos e abre as comportas de minhas coronárias, sem deixar de ser desafiante, trepidante.
De imediato me fez rever outro recente convite feito pelo presidente do CBC, Savino Gasparini, para escrever sobre Jesse Teixeira para o Colégio Brasileiro de Cirurgiões. O texto será brevemente publicado na revista do CBC.
Eu me lembro muito bem a primeira vez que vi Jesse Teixeira. Como tantos cirurgiões de sua geração ele está indelevelmente ligado a uma paisagem de minha vida que me assinala no espaço e no tempo de aprendizado. 
A primeira frase que eu conheci foi: “Sinto-me satisfeito quando meus estagiários acabam o período de residência sabendo como drenar uma pleura”. Quando li a palavra estagiário tive uma dor em pontada ao respirar fundo. Eu acabara de chegar aquele lugar e estava me pondo em desafio - estaria eu ali apenas com esta perspectiva? A de aprender a drenar tórax?
A partir desta frase nasce a ideia de pesquisar sobre a vida de Jesse Teixeira. O alvo inicial seria um desafio literário. Como era o seu processo de criação? Ler seus textos é serpentear por um labirinto de pensamentos de causar cuíra no juízo. Esta ideia reavivou-se depois que li um discurso realizado no Hospital Mandaqui, ainda na década de 70, porventura da abertura de um congresso, em que ele reconstrói a história da cirurgia torácica como um personagem que vagueia entre a cortical e a medular de uma especialidade que todos tentavam decifrar.
O sentido educador e memorialista de seus textos elevam aos recônditos de uma leitura palatável. Por ser autodidata na especialidade, pois o professor não teve professor, quanto esmero havia ao construir uma cartilha de rotinas, escrevendo sobre o que fazia e o que criava. Tenho quase todas guardadas em minha casa, e me foram doadas pelo próprio.
Ele descreveu cada ideia, passo a passo, ao longo de seus mais de 50 anos como médico. Desde o Broncobar, com o famoso sinal da gota, para diagnóstico de doenças brônquicas por meio de broncografia, até o seus clampes e no auxílio do pulmoventilador de JJ Cabral de Almeida, seu fiel anestesiologista. Sobre tudo isso, ele escreveu como quem prepara seus alunos para o aprendizado. Como se fosse uma cartilha de boas maneiras.
Tem um grifo de Emerson, escritor americano que viveu nos idos de 1800: If we encounter a man of rare intellect, we should ask him what books He reads. Então eu ficava me perguntando sobre Jesse Teixeira. De que fonte literária ele bebia, ao escrever com tanta suavidade o seu pesado cotidiano?
Por intermédio de Jesse Teixeira Neto, fui revisitar a casa onde ele morou e rever a família, na rua Cedro, em novembro de 2016. Lá me encontrei seus filhos Bebel, Sebastião e d. Gleusa e fui muito bem recebido. No compartimento onde d. Gleusa se encontrava, à minha espera, havia uma grande estante, que ocupava toda a parede e estava socada de livros. Chamou-me atenção, entre tantos autores universais, um médico que se transfigurou em escritor: Pedro Nava. Nava era um memorialista, e penso que Jesse Teixeira tinha a mesma verve memorialista.  Um pouco diferente de Jesse, Nava partia do problema (a desgraçada doença) para o encantamento com a medicina. Tinha umas expressões que lembram, entre tantos, Oscar Wilde ou o nosso Augusto dos Anjos, em suas perplexidades de pensamentos. Jesse era bem mais sutil.
- Que pensas da vida? Perguntaram a Pedro Nava.
- A vida é como um anfiteatro anatômico: aí estudamos as chagas sempre abertas, vemos a podridão, o mal, o horror, o cancro e o pior de tudo a “hipocrisia do otimismo”, tudo num montão de lama – a sociedade.
— Que carreira pretendes seguir?
- A medicina.
— Por que a escolheste?
Porque é a que me oferece mais encantos, porque por intermédio dela, estudarei este emaranhado de vasos, esta reunião de músculos, esta teia de nervos que compõem este monte de elementos apodrecidos."
Certamente, por morar no Rio de Janeiro e serem contemporâneos, penso que os dois deviam se encontrar em tradicionais chás desta academia pra tomar um gole de memória e tradição. Muito provavelmente devem estar nos ouvindo em algum canto desta casa.
- Jesse, quem é esse tapuio, que vem lá do Norte pra falar de ti? Sussurraria Nava, com seu humor ácido.
Os demais elementos que compunham a sua verve literária vêm da leitura científica e do incansável exercício profissional até lapidar todas as ideias e pôr no papel. É o que se chama de refinamento do cotidiano.
Mas quem conviveu com o professor sabe que a boa leitura e a sua educação foram apenas o carretel pra ser o grande mestre, o loquaz oportuno e o cirurgião de esmero.  “Enquanto existir algum cirurgião de tórax que trabalhe com seriedade, que busque obstinadamente a inalcançável perfeição e que valorize a dignidade e a elegância, Jesse Teixeira continuará vivo”, grifou José Camargo, num escrito chamado, “Jesse Teixeira: um cirurgião”.
Para Fabio Jatene tinha também altruísmo. Ele costumava dizer que no seu serviço, "nenhum paciente era rejeitado, seja pela gravidade da doença, seja pela sua situação econômica". Posso afirmar que num dos depoimentos biográficos que coletei, ouvi o mesmo de seu filho Sebastião... e eu vivi isso à flor da minha pele, quando fui seu residente.
Jesse foi presidente do maior colegiado de cirurgia da America Latina, o CBC, com apenas 43 anos. Tornou-se não só fonte de inspiração a muitos jovens, mas também cortejado por renomados estrangeiros, destacando-se o canadense Grifith Pearson e vários brasileiros.
Eu confesso que gostaria de ter mais tempo para falar do meu professor, mas não é escopo deste evento. Até mesmo porque não é tão simples se achar palavras e sair borrifando aqui e ali para dizer de um acadêmico. Isto aqui é um templo sagrado de pensadores, e a palavra, como atriz, é cheia de segredos e tem seus disfarces: vem envolta em véus e o falante tem que saber usar a pena para desvirginar o verbo. Há até dor no parto das palavras. É quando ela vem atravessada para se abrir à ideia, como se, ao falar, ficasse impactada na cricóide.
Essas são as minhas palavras, transfiguradas em realidade, ressignificando a dor que a gente sente quando sente a lembrança desse grão-mestre.
O bicho-sentimento, que se comporta como um comichão, que caminha com qualquer aluno, naqueles primeiros dias de convívio era mistura de incerteza, lacuna e torpor, marcados desde quando éramos meros estagiários.
Com o bicho em doma, ao longo do convívio, afrouxaram-se as cordas do relógio, colocava-se tudo em vagareza e aliviava-se a dor pleural. Assim íamos construindo nossas notas, nossos passos. O professor quando falava, sua saliva lustrava nossos sapatos e aí começávamos a caminhar mais a vontade, reluzindo saberes, mesmo que o piso fosse escorregadio.
Cirurgião forte, como este de quem falamos, se enternece mesmo é com a amplidão de seus estilos e de seus ensinamentos. Aí lentamente íamos ganhando tônus e nos sentindo mais sóbrios, comparado ao torpor inicial. É assim a catarse do aprendizado que todos seus residentes viveram ao longo daquele convívio.
... e se alguém encontrá-lo, agora, estará ao lado de sua sombra – a família –, aquela que o conduziu por toda a vida. Ele, mesmo-mesmo, estará pastoreando seus meninos, sereno, com o olhar distante, desejoso de, na madrugada, deixar-se brincar com os vaga-lumes e tornar a escuridão leito vago para o aprendizado que se iniciou à luz de lamparina ao ler aquela placa na entrada do serviço.  

Muito obrigado.