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sexta-feira, 11 de abril de 2014

Vergonha que não é alheia, é nossa III

Publicado na edição de 31/03/2014 do jornal Metro, edição flamenga

Curso de segurança para torcedores na Copa do Mundo
Bruxelas - Torcedores que vão torcer pelos Diabos Vermelhos (NT: apelido dos jogadores de seleção belga) na Copa do Mundo de Futebol no Brasil podem se armar via um curso especial de segurança contra os criminosos. Em Ranst (NT: cidade da província de Antuérpia,  a 55 km ao norte de Bruxelas), Campus Vesta,  o centro provincial de treinamento para policiais, bombeiros e socorristas médicos de urgências, organiza tal treinamento junto com seu parceiro holandês ProCentrum.
A Brazilian Experience é um curso interativo e se desenrola num bar fictício. Os torcedores ganham uma prova da noite noturna  brasileira com samba ao vivo e deliciosos tira-gostos, mas também com batedores de carteira profissionais. "Você pode ler na internet o que pode  fazer e o que deve evitar, mas logo se esquece. Mas se você mesmo descobre, então fica mais na sua cabeça", garante Ben Cuypers, treinador de controle de agressões.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O silêncio das pessoas de bem


It may well be that we will have to repent in this generation. Not merely for the vitriolic words and the violent actions of the bad people, but for the appalling silence and indifference of the good people.

 É bem possível que teremos que nos arrepender nesta geração. Não apenas pelas palavras mordazes e as ações violentas de pessoas más, mas pelo silêncio terrível e indiferença das pessoas de bem  -Martin Luther King Jr.




Hoje, ao ler a nota acima, no trem, a caminho de Bruxelas, lembrei de Luther King.

Publicado hoje no jornal Metro, Bélgica (edição em francês):

"O Brasil  registrou 312 mortes de homossexuais, travestis e transsexuais em 2013, ou seja 7,7% a menos em relação ao ano anterior, mas que dá ao país o prêmio de 'campeão mundial dos crimes homofóbicos', anunciou ontem o Grupo Gay da Bahia. "

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Belém e sua violência além das fronteiras

(foto: do site da TV Éen)

Os quatro policiais desta foto, em roupas da PM do Pará, não são policiais brasileiros, mas quatro agentes de Polícia belga, da cidade de Leuven. Eles  estiveram uma semana em Belém para viver a vida de policial na "10ª cidade mais perigosa do mundo", segundo o anúncio da TV Éen, a TV pública flamenga, campeã de audiência no norte da Bélgica. O programa vai ar daqui a pouco, em horário nobre.É um episódio de Profissão sem Fronteira (em flamengo, Beroep zonder grenzen) -  um reality program  super prestigiado e muito bem feito. A idéia é simples: levar dois ou mais profissionais para exercer, durante uma semana, a profissão deles num país completamente diferente.
Vou assistir. Claro, de coração na mão, lamentando ver o Brasil, e mais precisamente, nossa Belém pelo lado mais negativo que se possa imaginar. O trailer, você pode ver aqui, site da Éen

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O direito de morrer velho - parte II

Em janeiro de 2009, produzi essa postagem:

Qualquer pessoa, em sã consciência, deseja viver muito. Morrer velho é a aspiração certa de todos.

Para isso, é preciso ter saúde, alimentar-se direito, zelar por si mesmo e ter sorte, ao final das contas.

Uma grande parte da responsabilidade de se alcançar este fim, evidentemente, é nossa; mas desde que saímos das cavernas e adotamos formas gregárias de viver, criamos mecanismos de proteção que vão além da mera auto-defesa. O Estado, ou qualquer outra forma de organização humana, é o encarregado de prover a proteção da vida daqueles que vivem sob suas leis ou regras. É assim desde tempos imemoriais.

Em nosso rincão, porém, esta obrigação não vem sendo cumprida. Morreu mais um ontem, que não chegou nem perto da terceira idade. Com 30 e poucos anos, o advogado Marcelo Castelo Branco Iúdice foi mais uma vítima da violência que assola o Estado.

Marcelo não era meu amigo. Era o que se convenciona chamar de “conhecido”, alguém com quem não se tem intimidade, mas cujo rosto é familiar pelos contatos frequentes. Cumprimentava-o sempre no fórum, em reuniões de classe, em restaurantes, em encontros de advogados. Era ainda muito jovem, e de aparência jovial. É mais um a quem o Estado negou o direito de morrer velho.

Ontem ele, anteontem um médico renomado de 54 anos, um pouco antes um sociólogo e blogueiro de pouco mais de 40. Tantos outros já foram vítimas, em bairros centrais ou periféricos. Nada disso abala a sonolência dos órgãos de Segurança Pública. Se antes a sensação era de insegurança, nas infelizes palavras de um ex-governador, hoje ela é de completo abandono. Vivemos o verdadeiro faroeste caboclo, sem apelo a ninguém e sem consolo – afinal, a morte não tem meio-termo, como dizia o poeta Cacaso.

Enquanto isso, em boa parte da capital, o ódio e o desalento da população alimentam novos criminosos, criados na forma de justiceiros. Retornamos ao tempo da auto-defesa, sob o olhar placidamente bovino da Administração Pública.

Cuidado, meus amigos. Previnam-se de todas as formas possíveis. A Grande Ceifadora tem brandido sua foice próxima a nossas cabeças, todos os dias, em todos os cantos. Estamos comprovadamente sós.

Só não podemos fomentar a sede de vingança privada. Somos humanos e, portanto, maiores que este conceito irracional. O Estado é quem deve cumprir sua parte. Cabe a nós chamá-lo à razão.

Lamento, por fim, iniciar o ano produzindo uma postagem destas. É mais um direito que o Estado nos nega: o da alegria.


Hoje, 4 anos e 8 meses depois, só mudaria o nome da vítima - de Marcelo Iúdice para Luigi Freire. A sensação de desalento e abandono é a mesma. Infelizmente.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Mondo Cane


Há cerca de exatos 10 minutos atrás, uma vigarista e seu comparsa tentaram aplicar-me o conhecido golpe do falso sequestro. 
Através do telefone fixo (que possui identificador de chamadas), recebi uma ligação supostamente originada do número 01121215100. Nela, uma voz feminina chorosa (com evidente sotaque carioca a despeito do prefixo paulista), simulava um convincente estado de desespero. A vigarista se dizia raptada e muito machucada. 
Posso assegurar que a performance é impecável, digna de bons atores, mesmo considerando que não seja lá muito difícil a qualquer um executá-la. 
Com um choro dramático e propositadamente exagerado, um tipo de murmúrio tomava o lugar do nome que ela parecia tentar informar, como se estivesse açodada. A idéia é forçar a potencial vítima do golpe a dizer o nome de alguns de seus familiares. Se isso for feito, a vigarista entrega o telefone para seu cúmplice, que então passa a perguntar: "quem é o senhor? É pai, avô da fulana?" (neste ponto, ele utiliza qualquer nome que a vítima tenha inadvertidamente citado).
Como não tenho filhas e com o sotaque evidentemente carioca, a casa caiu. Neste momento, retruquei: "Esta ligação é falsa!", desligando logo em seguida. 
Ato contínuo, fiz algumas ligações para alguns familiares, checando discretamente a absoluta normalidade de sua integridade física.
Os ousados golpistas, utilizando o mesmo número, ainda tiveram o displante de ligar mais DUAS vezes logo em seguida. Claro que não foram atendidos.

Era só o que faltava! Um enredo de péssimo gosto que, possivelmente, não deve fazer jus nem ao título deste post.

domingo, 7 de abril de 2013

Domingo no PAARque com Gilberto Gil.


Sábado, quando a lua chega, traz a noite ao quintal da minha casa, que dá defronte pr'um largo rio. Vejo a luz dos aviões reluzindo no espelho dágua aprumando Val-de-Cans. Amanhã é domingo; lembrei-me da Síria e Ceará. De uma cruzam torpedos; a outra não tem espelho d’água...


(A noite escorreu Amazônia adentro, no peito de "meu amigo João").


Domingo, quando o sol balbucia seus primeiros raios, traz a bruma da manhã e um presságio: o rio entorna o vermelho. Vejo daqui do meu quintal, Prontos-Socorros abarrotados e um esgoto rutilante. É gente nadando pelo corredor, num rio de sangue que vela a bruma. Relembrei-me da Síria e do PAAR, bairro no Pará:

"Olha a faca!
Olha o sangue na mão
Ê, José!
Juliana no chão
Ê, José!
Outro corpo caído
Ê, José!
Seu amigo João
Ê, José!"

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Acerto de contas



Os dois tiros no peito do adolescente hanseniano fora por acerto de conta com o tráfico, disse a mãe, dedurando. Hoje ele reclamou dos curativos, drenos e da dedo-duro. Amanhã, ao contar as costelas, faltar-lhe-á umazinha - por necessidade, claro. Essa põe na conta de Hipócrates.

sábado, 29 de setembro de 2012

Socos preenchendo o vazio


Ontem à noite revi em DVD o cultuado e polêmico filme Clube da Luta (1999), de David Fincher.
O thriller, com Edward Norton e Brad Pitt, foi um fracasso (relativo) nas telas, obtendo, no entanto, enorme sucesso após o seu lançamento em DVD, tendo inclusive gerado uma enxurrada de teses e dissertações nos meios acadêmicos americanos.
Por surfar no perigoso e violento tema da crítica de costumes da geração consumista e hiper-conectada do final do século passado, tema este, por sinal, ainda atualíssimo, a película inspirou atentados pelo mundo, inclusive no Brasil (um estudante de medicina metralhou a platéia que assistia ao filme em São Paulo, em 2002, matando três pessoas e ferindo mais quatro).
Nesta minha segunda incursão ao filme, talvez por ter lido recentemente o livro homônimo que o inspirou, de Chuck Palahniuk, não consegui identificar sequer traços de uma suposta apologia franca à violência e à intolerância, tão criticada pelos detratores da obra.
Clube da Luta põe um dedo direto na ferida ocidental, seja como filme ou como livro, atingindo em cheio o psiquismo dos mais variados tipos de pessoas. 
Comprar itens desnecessários, usar drogas lícitas ou ilícitas, frequentar grupos de auto-ajuda, bater e/ou apanhar, ou mesmo pagar para assistir lutas de MMA na televisão por assinatura, podem ser sinais e sintomas de uma síndrome psicossocial degenerativa tão poderosa, e ainda assim imperceptível para a maioria de nós. Seria algo como a "Síndrome do Vazio Ocidental Progressivo", num neologismo improvisado, e Clube da Luta nos mostra que somos vítimas reais ou virtuais desta "doença".
Mas filme cult é cult: ame-o ou odeie-o, com fervor e paixão, mas sinta algo forte por ele!

PS1: a atuação do cantor/ator Meat Loaf neste filme é extraordinária.
PS2: até hoje grupos de homens de cabeça raspada e vestidos de preto entoam em bares americanos o mantra do Projeto Caos, mencionado no filme: "his name is Robert Paulson!".
PS3: filme e livro têm finais totalmente distintos - vale a pena conferir.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A vida imita a arte, mais que a arte imita a vida


A frase célebre de Oscar Wilde nunca foi tão atual quanto no caso do crime escabroso que comoveu a ilha de Mosqueiro e que tem sido manchete dos jornais nas últimas semanas.

O estupro seguido de homicídio do menor na Praia Grande lembra muito um livro breve, mas marcante, do autor paraense Edyr Augusto Proença, comentarista bissexto do blog: Moscow, editado pela Boitempo Editorial.

Quem lê a obra não imagina ser possível caber tanta violência na cabeça de um jovem; a vida prova que, sim, é plenamente plausível. Edyr Augusto sabe como poucos explorar a mistura de sexo e brutalidade que, muitas vezes os jornais comprovam, é inerente à espécie humana.

O resolução do caso real, que aponta para um crime torpe causado por ciúmes, é mostra do bestiário que o machismo possessivo do homem latino materializa todos os dias, na forma dos vários tipos de violência contra a mulher. Desta vez, a vítima foi o rival, aquele que trouxe à tona a baixa auto-estima que acomete esta espécie de macho alfa. Além do componente sexual, ainda há o envolvimento dos acusados com o tráfico e o uso de drogas. Tal mistura só poderia dar em solução violenta de um conflito que, ademais, parece que o morto sequer sabia que existia.

É nesse caldo que vivem os personagens de Moscow e aqueles do crime brutal, acontecido há algumas semanas em Mosqueiro. Não por acaso, ambas histórias, ficcional e verídica, foram ambientadas no mesmo distrito de Belém, abandonado pelo Poder Público.

As fotos da ilha que nosso confrade Carlos Barretto publica volta e meia nas páginas deste blog são a face doce do local. Belíssimas, elas, porém, sempre me deixam um gosto de melancolia. É que Mosqueiro foi - como de resto para boa parte da classe média desta cidade - o local onde coisas maravilhosas da infância e adolescência aconteceram. Hoje, porém (e desde algum tempo), está ela entregue a tudo de pior.

A história tão explorada pela imprensa, portanto, faz-me concluir algo triste: como prova o livro de Edyr, um crime de tamanha proporção até que demorou a acontecer na outrora bucólica Mosqueiro.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Rinhas humanas


Raio-x do braço do lutador brasileiro Minotauro

Nem galos, nem cães.
As rinhas do neo-imperialismo foram ocupadas pela espécie Homo sapiens sapiens.
Nada contra as lutas marciais, mas o que se vê na UFC é, aos meus olhos, uma barbárie. Vide as lutas de ontem à noite e suas consequências.
Programe várias técnicas de luta num cérebro treinado para comandar um turbilhão muscular e, voilá, fraturas, concussões, contusões e incontáveis lesões, numa busca pelos também incontáveis milhões.
Os "gladiadores do terceiro milênio" (bordão recém-criado por Galvão Bueno) bem que poderiam assistir (com muita atenção) o filme pacifista (?!) Clube da Luta.
Talvez então seus empresários multi-milionários tivessem que procurar outras atividades para potencializar os seus lucros.
Mas, pensando bem, enquanto houver apostas e audiência, nada feito.
Vale tudo!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Topa-tudo por dinheiro



Essa veio da UOL Esporte: após ter sido assaltado em Londres, há 1 mês, quando foi “aliviado” de jóias e de um relógio da marca Hublot, o big boss da Fórmula Um, Bernie Ecclestone, não perdeu a chance de tirar proveito financeiro do ocorrido.
A controversa peça publicitária acima mostra Ecclestone, de 80 anos, ainda bastante machucado, afirmando: “Vejam o que as pessoas fazem por um Hublot”.
Se a moda pegar entre nós, faltará papel para imprimir propagandas nos semanários brasileiros.
Vejam o que as pessoas fazem por um Seiko, Citizen, Swatch, Rolex, Piratex, ...”.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Retomar armas e território

Trecho final do ótimo texto de Paulo Henrique Amorim, Não é sobre drogas. É sobre território e armas, estúpido, sobre a retomada do morro do Alemão.

Teleférico do Morro do Alemão (Imagem: Conversa Afiada)

O Obama manda no Bronx. No Bronx não tem traficante armado, pronto para enfrentar a polícia e Nova York.
Mas, tem muito mauricinho que cheira. Como em todo lugar do mundo. Só na elite branca de São Paulo é que ninguém cheira nem faz aborto.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

“Na moral, na moral. Passa o celular!!!”

Roger Normando*            

Numa quarta-feira nada cinzenta, pelo contrário, em plena atmosfera do círio de Nazaré, eu morri. Levei um tiro no tórax ao reagir a um assalto. “Na moral, na moral, passa o celular!!!”, disse-me o meliante. Não passei. Pensei logo no preço daquele E71, novo. Resisti.
Ele não pestanejou. Só ouvi o estampido ecoar por toda a Antônio Barreto, debaixo daquele semáforo, no início da noite. Ninguém mais ouviu, tão somente eu, jaz morto, com olhos fechados e a boca entreaberta.
O trânsito engarrafado facilitou a ação, mas nada justifica a minha vacilada, de ficar com o vidro aberto, numa zona de perigo, soturna, como é aquela artéria da antiga matinha.
Ao lado havia uma igreja e não uma delegacia para prender bandido. O hospital metropolitano, que me salvaria, estava longe. Portanto, quem chegou primeiro foram anjos. Morri nos braços de um deles. Eu clamei por justiça e ele, ao me recolher, com o corpo já arrefecido, pediu para perdoar, afinal de contas a virgem de Nazaré iria me dar um bom destino e um amparo saudável para a Marina, minha mãe, e meus cinco irmãos. Também clamei por um curativo efetivo, que evitasse perder toda minha volemia. Era a chance de eu ser ressuscitado. Outro arcanjo me relatou que esse vinho derramado não poderia mais voltar à taça, mas poderia ser doado para um necessitado. Alguém a espera de um transplante de medula óssea compatível com o meu A+.
Então me conformei. Tiro no peito é um paradoxo para um cirurgião torácico! Mas se sobrevivesse, quem me operaria? Provavelmente um ex-aluno, bem mais jovem e corajoso. Um bom cirurgião. Um que fosse capaz de afastar minhas costelas, coser meu pulmão ou meu coração com as linhas do sentimento pelo que aprendeu. Se restasse alguma seqüela, seria a única prova do que estou falando, mas o que valeria mesmo seria a comemoração da vida, coincidentemente num segundo domingo de outubro.
Quando ele disse “na moral, na moral...” eu não demorei a entender. Existia um neurônio de plantão, ligadão, que decifrou assim: era apenas um pedinte, desmontado de seu “berro” e sem a intenção de matar. Queria apenas engordar sua caixinha para passar o círio com uma mesa mais farta do que o seu pão de todo dia.
Aí percebi que não morri. Apenas tornei-me um defunto-autor vivo, como diria Machado de Assis. Uma espécie de Braz Cubas da Antônio Barreto, em busca de decifrar o que aquele jovem alto, pidão e descamisado quis dizer com: “na moral, na moral...”. Preferiu-me multar a sacar sua arma e me cravejar de balas. Dei-lhe o celular para pagar a multa da patetice. Valéria, João Pedro e Danilo agradeceram. Só perdi minha agenda, umas frases do Guimarães Rosa, que coleciono, e umas canções do Michael Bublè, que muito lembra o Sinatra. Mas recupero tudo, depois de fuçar aqui e ali, com ajuda de uns amigos. Só não recupero o trauma - a cicatriz da insanidade dos transeuntes à espreita de um pateta, como eu.
Quando tudo acabou, o sinal ficou verde, tão cartesiano como eu se fosse um protagonista de “O seminarista”, na novela policial de Rubem Fonseca. Meio que acelerei o carro, mas ainda não entendia aquilo como vida. Estava vivo realmente? Desmaiei? Ou como sublinhou Braz Cubas: “A vida estrebuchava-me no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra e lodo, e coisa nenhuma.” Não havia diferença entre aquela pneumonia de Brás Cubas e o tiro que não levei.
Um feliz círio, para você, jovem, que me poupou da morte e me levou aquele celular já meio capenga, cuja tecla “reage” já não funcionava há algum tempo.

*Obervação de Carlos Barretto: este texto, do médico, amigo e colega cirurgião de tórax Roger Normando, como o leitor já deve ter percebido, devia ter sido publicado antes do Círio, no dia em que foi recebido, como sempre o fazemos. Contudo, por uma falha minha, como destinatário do texto, envolvido em inúmeros afazeres pré-cirianos, acabei por esquecê-lo na caixa de entrada do GMail. Um erro imperdoável, pelo qual me desculpo, junto ao autor e leitores. Prometo estar mais atento. E desde já, agradeço a mais esta colaboração de Roger.

sábado, 17 de julho de 2010

Equidade Antes Que Tarde









Você tem fome de quê?
(Comida, dos Titãs)
E os barracos
Na beira do abismo
Deslizam no cinismo
Da Vieira Souto
Meus sonhos são outros
Enquanto não durmo...
(Tempestade, de Zélia Duncan)

Não, leitores e leitoras do Flanar, a imagem aí de cima não foi fotografada na periferia de uma cidade brasileira, nem nos morros do Rio de Janeiro. Trata-se de registro de uma revolta popular, ocorrida na última sexta-feira em um subúrbio pobre da bela Grenoble. O tumulto foi iniciado após a polícia francesa matar um jovem assaltante, membro da comunidade árabe local.
A partir daí, a gravidade dos protestos obrigou o ministro do interior do governo Sarkozy a se deslocar para aquela segunda maior cidade francesa, localizada no sopé dos Alpes e sede de importante universidade, que em 2003 visitei como coordenador nacional do Ministério da Saúde, para definir os fundamentos do projeto que implantou o SAMU nos municípios brasileiros e a Política Nacional de Atenção às Urgências.
A França hoje possui um caldeirão de desigualdades sociais em fermentação nos subúrbios dos seus maiores centros urbanos. Fato parecido ao de Grenoble aconteceu há poucos anos atrás em Paris, o que confirma que os governos neo-liberais não passam para uma ação portadora de futuro, quando se trata de efetivamente reverter o ciclo vicioso ou geracional da pobreza, de exclusão social e de violência.
Preferem chamar à polícia e lotar prisões, o que, passados 221 anos da Revolução Francesa, atualiza o conselho extravagante atribuído a Maria Antonieta; o de ofertar brioches para saciar a turba faminta e enfurecida que para o Palácio de Versailles se movera não obrigatoriamente nessa ordem, posto que lá não foram reclamar remédio para miséria de fome única.
A cobertura do Le Figaro está aqui.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Violência: Tema Recorrente Pede Atenção
























O tema violência comparece com frequência aqui no Flanar. Na tipologia da violência no Brasil tem destaque aquela que tem por vítimas as mulheres. Contudo o comércio de armas, se lucrativo para indústria, não deixa de cumprir o papel de fortalecer o círculo vicioso que nutre as estatísticas de agressões físicas e homicídios no país. É disso que trata a matéria publicada na newsletter Brasília Confidencial, de hoje, que compartilho aqui com vocês. Duplo clique sobre a imagem a ampliará para leitura confortável.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Muito além do jardim

O caso do goleiro Bruno, do Flamengo, vai ganhando contornos cada vez mais escabrosos. Evidentemente, são só suposições, mas este post do blog do jornalista Luís Nassif é assustador. Vale ler os links para entender o quanto de estrume pode estar para cair no ventilador.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Concedido habeas corpus a Sefer

Como era previsto, o TJE concedeu liminar em habeas corpus ao ex-deputado Luiz Afonso Sefer, para que possa apelar em liberdade da sentença que o condenou a 21 anos por crime de pedofilia.

As razões para a decisão já haviam sido antecipadas pelo blog aqui. O mesmo argumento, mas em outro caso de repercussão, também foi antecipado aqui.

A opinião pública, obviamente, está revoltada. Mas as razões de decidir do Tribunal de Justiça são mais que evidentes, ainda que não se concorde com elas.

Uma sentença e vários personagens

O caso Sefer demanda mais tristeza que alegria. Há alívio pelo fato da condenação, que, embasada em provas fortes, não deixou com que a situação acabasse em pizza. Mas, de fato, é triste saber que a criança envolvida sofrerá as consequências do abuso sofrido pelo resto da vida, que há parentes do condenado e da menor vitimados por tabela e, finalmente, que nossa representação legislativa pôde abrigar por tanto tempo um criminoso de tal estirpe, sem que a população soubesse da realidade dos fatos.

Como comentário final, fico com a palavra do CJK, que em seu blog traduziu muito bem aquilo que eu gostaria de dizer. E fez justiça a um personagem desta história.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Medo de viver

Por vezes me pego pensando na morte. Na dos próximos, na minha, na de quem só conheço de ouvir falar, ou na de outro anônimo, como eu, que tenha morrido em circunstâncias terríveis.

Penso em como deve ser senti-la chegando, ou como é sequer saber de sua proximidade, como nas tragédias em que a morte colhe alguém de surpresa e de repente.

Não sei se isso vem da idade, da chegada da maturidade, ou de já ter visto o fim da vida de pessoas queridas. Pode ser que seja consequência inevitável da minha natureza melancólica. Talvez decorra de luto recente em família. Certeza tenho, contudo, que a recorrência destes pensamentos se deve em muito pela violência que está nas ruas, todos os dias, e que me faz viver sobressaltado dentro da minha própria casa, ou do meu trabalho.

Já tive a sorte de viver no Primeiro Mundo. Visitei-o outras vezes, depois de adulto. Lá, não tenho medo de andar na rua, seja de noite, de madrugada, ou em qualquer lugar. O temor da morte fica para a ida e para a volta, para o inevitável voo que demanda, apesar da tecnologia reconfortante, uma boa dose de sorte e esperança. Mas em terra permanece uma sensação de segurança que não sinto em minha cidade há muito tempo.

Quando mais jovem, sem ter carro, andava de noite a pé pela cidade. Ia da Batista Campos ao Umarizal caminhando, sozinho ou com amigos, em busca dos bares que frequentávamos. Quem sabe se por irresponsabilidade, não sentíamos medo. Mas o fato é que nunca fui abordado, assaltado ou ameaçado em minhas andanças noturnas. Sempre caminhei em paz e sempre chegava a meu destino sem qualquer temor.

Eram outros tempos... Hoje, quando lembro disso, imagino que nunca o faria novamente. Não há quem possa fazer sentir ao cidadão belenense a certeza de estar vivo, quando chegar a hora de ir para casa.

Evidentemente, há culpados por tal situação, e não são somente os que estão na rua, à espreita dos desavisados. Todos sabemos dos responsáveis de gabinete, quem são, o que fazem (ou deviam fazer). Se não há reação contra estes culpados, é porque além de amedrontados, tornamo-nos passivos. Hoje, para os que podem, é preferível sair daqui que ficar torcendo para não ser o próximo, ou exigir providências de quem pode melhorar nossa vida.

E a cada dia mais, a morte povoa o meus pensamentos. Mas não só os meus, infelizmente.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Bastardices

Na frase célebre de Caetano Veloso, "de perto ninguém é normal".

Frente aos dramas humanos, porém, por vezes parece que as pessoas ficam piores: não só anormais, mas pérfidas, enlouquecidas, embrutecidas.

É isso o que parece ter-se abatido em Parauapebas, no hinterland paraoara, onde a jovem Ana Karina Guimarães, grávida de nove meses, sumiu há mais de vinte dias.

O acusado do crime, o pecuarista Alessandro Camilo de Lima, suposto pai da criança que Ana Karina esperava, encontra-se preso desde o último dia 18 e confessou o crime à Polícia Civil neste final de semana. Mas antes, já havia quem tivesse querido tirar proveito da triste fama que o fato causou aos envolvidos, como conta o blog do Laércio de Castro.

Somente Deus para ter piedade destas figuras. Minha limitação humana não o permite.