sábado, 4 de maio de 2013
The wall
“Eu sou de um país que se chama Pará” - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO
O Estado de S.Paulo - 03/05/2013
Por que tanta gente de talento não chega ao Sul? Onde fica o muro que nos separa?
BELÉM
Quando a mediadora Renata Ferreira disse que o meu conto o homem que viu a osga comer meu filho a tinha aterrorizado, assustei-me. Não tenho este conto. Ela riu e explicou:“O que vocês chamam de lagarto ou lagartixa, chamamos de osga.Aliás, está no Aurélio”. Estava certa, o conto existe.
Quando ouvi a fotógrafa Elza Lima contar uma história minha em que os olhos dos cavalos do carrossel de meu avô eram petecas, reagi: “Como petecas? Eram bolas de gude”. Elza: “Pois aqui, petecas são as bolasde gude”.Caminhava pelo Espaço Palmeira, um feirão popular, no centro da cidade.Aqui foi uma tradicional fábrica de bolachas, biscoitos e doces, fundada em 1892. Demolida, restou uma área de piso concretada sobre a qual se armam as barracas.Então,ouvi: “Vamos fazer nossa sombra aqui”, disse o mulato de chapéu branco. E sentou-se com dois amigos num canto. Não havia sombra alguma, ao contrário, era um solão, mas gostei da expressão. Porque grande e diverso é o Brasil.
Vim para a 17.ª Feira Pan-Amazônica do Livro, que no ano passado vendeu 850 mil livros, me contou Paulo Chaves Fernandes, secretário de Cultura, arquiteto que criou as Docas e o Mangal das Garças, imperdíveis. A Pan-Amazônica deste ano termina no próximo domingo com Affonso Romano de Sant’Anna. Pelo palco principal passaram Ziraldo,Tony Bellotto, Cristovão Tezza, Guilherme Fiuza, Tiago Santana e José Castello. Para terem ideia, o folheto com a programação tem 74 páginas com oficinas, seminários, aulas, lançamentos, mesas-redondas, salão do humor.
Tudo acontece no Hangar, um centro de convenções moderno e funcional. Ao falarmos,temos à nossa disposição auditórios variadosque vãode300 a 1.500 espectadores. Distante daqueles espaços fechados por divisórias de eucatex da Bienal do Livro de São Paulo, ondea barulheira do salão penetra e ninguém ouve o que se fala.
Lembrei-me que estive na primeira Pan-Amazônica, ainda no centro, sufocada, apertada, mas cheia de gente. Assim como me lembro de uma casa de sucos da terra, onde havia um de pinha que era puro regalo. A casa fechou, virou loja. Por outro lado,nas sorveterias você mergulha a colher em taças de sorvete de tapioca (deslumbrante), buriti, bacuri, cupuaçu, açaí, graviola, manga.
Quem me indicou a Cairu como o melhor sorvete da cidade foi Fafá de Belém. Opinião considerável.O Pará é terra da Fafá, da Gaby Amarantos, da Dira Paes, da Olga Savary (que está na cidade em que nasceu, emocionada,há muito não vinha), Leah Soares. E de Dalcídio Jurandir, um dos grandes escritores brasileiros de todos os tempos.
A feira deste ano foi dedicada a Ruy Barata, poeta, compositor, jornalista, político progressista, ícone paraense, homem que navegou em todas as águas. Dele é a frase epígrafe desta 17.ª Pan-Amazônica: “Eu sou de um país que se chama Pará”. Milhares de crianças vagando entre centenas de estandes. Perguntando: “O senhor é escritor?”. Correndo atrás do Ziraldo, que se intitula “o velhinho maluquinho”. Vi Ziraldo, com tremenda luxação no ombro, cheio de dores, sentar-se e autografar centenas de livros. Mais do que profissional, ele ama o que fez e adora ver ameninada em torno.
Certa noite,fomos jantar nas Docas, olhando o rio de frente.Chegavam homens feitos querendo tirar uma foto com o “menino maluquinho”. Chegavam também jovens querendo uma foto com TonyBellotto, que tinha acabado de fazer uma bela fala sobre seu romance Machu Picchu.Depois,elas viravam para mim:“ E o senhor é alguma coisa?”.Respondi com a maior seriedade: “Não, sou apenas pai do Bellotto”. E elas: “Não precisamos tirar fotos do senhor, não?”. Felizes com minha negativa, partiam, ruidosas, enquanto voltávamos ao filé de filhote, peixe delicioso, com risoto de pupunha e jambu, e ao pato com tucupi. Belém é sabor e é necessário comer, de preferência à noite, no Mangal das Garças, parque nascido à beira- rio,cheio de pássaros, tartarugas, borboletário. Iguanas verdes, figuras pré-históricas, vagueiam pelos gramados.
Tomei um avião e cheguei a Marabá 50 minutos depois. O nome da cidade vem de um poema de Gonçalves Dias. Região ligada à siderurgia e celebrizada pela Serra Pelada. Estudantes e professores se juntaram no Cine Marrocos para conversar com escritores. É a Pan-Amazônica expandida. A feira não acontece apenas em Belém, vai ao interior, agrega, abre-se às populações. A ideia avança pelo Brasil. A fotógrafa Elza Limame contou que esta “feira fora de feira” nasceu após a leitura de uma crônica, aqui, minha no jornal, falando de Fortaleza, da bienal fora da bienal, quando autores vão aos bairros e às cidades do interior. Andressa Malcher, coordenadora,apanhou a ideia no ar e desenvolveu.
Sentei-me no palco ao lado de Ademir Brás, jornalista, advogado e poeta de primeira linha. Ele descreve sua terra, a gente, as paisagens, o Rio Tocantins,manso e largo, silencioso. Pequenas casas coloridas inclinam se para as águas. A poesia de Ademir oscila entre a ternura e a indignação, com ritmo e afeto. Por ele e pelos jovens, soube do Pará.E contei das coisas de cá. Porque tanta gente de talento como Ademir não chega ao Sul? Onde fica o muro que nos separa?
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Feira Panamazônica do livro: "O RIO DO MEU LUGAR"
Da série Créditos
Produção: Edir Gaya
Capa: Eduardo Alves e Natacha Barros
Coordenação: Agência + 3 Comunicação Integrada
Ilustrações: JBosco Azevedo
Prefácio: da jornalista Valeria Nascimento
Apresentação : do médico-escritor Roger Normando
texto capa: do poeta Edson Coelho
O livro está disponível no Estande dos Escritores Paraenses, na Feira do Livro
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Para se ler no ritmo da chuva
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
O poço límpido do tempo
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
A vida imita a arte, mais que a arte imita a vida

A frase célebre de Oscar Wilde nunca foi tão atual quanto no caso do crime escabroso que comoveu a ilha de Mosqueiro e que tem sido manchete dos jornais nas últimas semanas.
O estupro seguido de homicídio do menor na Praia Grande lembra muito um livro breve, mas marcante, do autor paraense Edyr Augusto Proença, comentarista bissexto do blog: Moscow, editado pela Boitempo Editorial.
Quem lê a obra não imagina ser possível caber tanta violência na cabeça de um jovem; a vida prova que, sim, é plenamente plausível. Edyr Augusto sabe como poucos explorar a mistura de sexo e brutalidade que, muitas vezes os jornais comprovam, é inerente à espécie humana.
O resolução do caso real, que aponta para um crime torpe causado por ciúmes, é mostra do bestiário que o machismo possessivo do homem latino materializa todos os dias, na forma dos vários tipos de violência contra a mulher. Desta vez, a vítima foi o rival, aquele que trouxe à tona a baixa auto-estima que acomete esta espécie de macho alfa. Além do componente sexual, ainda há o envolvimento dos acusados com o tráfico e o uso de drogas. Tal mistura só poderia dar em solução violenta de um conflito que, ademais, parece que o morto sequer sabia que existia.
É nesse caldo que vivem os personagens de Moscow e aqueles do crime brutal, acontecido há algumas semanas em Mosqueiro. Não por acaso, ambas histórias, ficcional e verídica, foram ambientadas no mesmo distrito de Belém, abandonado pelo Poder Público.
As fotos da ilha que nosso confrade Carlos Barretto publica volta e meia nas páginas deste blog são a face doce do local. Belíssimas, elas, porém, sempre me deixam um gosto de melancolia. É que Mosqueiro foi - como de resto para boa parte da classe média desta cidade - o local onde coisas maravilhosas da infância e adolescência aconteceram. Hoje, porém (e desde algum tempo), está ela entregue a tudo de pior.
A história tão explorada pela imprensa, portanto, faz-me concluir algo triste: como prova o livro de Edyr, um crime de tamanha proporção até que demorou a acontecer na outrora bucólica Mosqueiro.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Educação ambiental

Neste complicado momento da história do planeta Terra, a abordagem correta da educação ambiental pode e trará repercussões definitivas nas próximas gerações.
Visando suprir a demanda por educação de boa qualidade, será lançado no próximo dia 29 o livro Educação Ambiental Escolar, da Profa. Nazaré Resende de Almeida.
Nazaré, de quem tenho a honra de ser amigo, é mestra em Educação pela Universidad de la Empresa, em Montevidéu (Uruguai), e leciona Ciências na Escola de Aplicação da U.F.Pa., em Belém, tendo, portanto, não só a vivência teórica, como a prática diária na sala de aula.
O lançamento será feito inicialmente en petit comité, numa cerimônia íntima para a família e uns poucos amigos.
Os interessados podem adquirir o livro pelo e-mail almeida.naza@bol.com.br.
Parabéns à Maestra Nazaré!
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Jacilene já morreu
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Amazônia Exótica
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Paes Loureiro lança hoje seu primeiro romance: “Café Central – o tempo submerso nos espelhos”
Nesta quinta-feira (26 de maio), às 19 horas, no Polo Joalheiro São José Liberto, acontecerá o lançamento do primeiro romance do poeta e professor João de Jesus Paes Loureiro: “Café Central – o tempo submerso nos espelhos”.
O Café Central é um espaço simbólico deflagrador de alegorias na realidade narrativa. Sendo lugar de poetas, escritores, pintores, teatrólogos, professores, estudantes, jornalistas, boêmios e visitantes, tornou-se um espaço de livre circulação das ideias antes e depois da deflagração da ditadura militar, a partir do que sua resistência foi sendo enfraquecida.
A obra consiste em uma narrativa da impossibilidade do homem, do ser, ficar fora do tempo e suas circunstâncias. Mesmo que tente se refugiar em alguma forma de exílio, ou no mito, ou no passado, o presente produz suas armadilhas e as circunstâncias suas situações de realidade. Nem sempre se pode fugir aos efeitos do real com que o destino tenta contrapor-se ao imaginário.
Não é, portanto, a história do Café Central, mas a alegoria dos espelhos que recobriam as paredes com seu imaginário cristalizado que justifica o subtítulo: “O tempo submerso nos espelhos”. É um ponto de partida e chegada, pois o romance apresenta vários outros espaços dramáticos ficcionalizados além do Café Central: a Pensão da Naty na zona da prostituição, a região das Ilhas em Abaetetuba, a prisão do Cenimar da Marinha no Rio de Janeiro, e, finalmente, o retorno ao Café Central.
“É a concretização de um sonho antigo. E este não será único. É minha fase de prosa ficcional que a poesia espia debruçada em minha alma” afirma Paes Loureiro ao traduzir o significado deste romance para sua carreira.
Sobre o autor
João de Jesus Paes Loureiro é poeta, prosador e ensaísta. Professor de Estética e Arte, doutorou-se em Sociologia da Cultura na Sorbonne, em Paris, com a tese Cultura amazônica: uma poética do imaginário. Sua obra poética tem sua universalidade construída a partir de signos do mundo amazônico – cultura, história, imaginário – propiciando uma cosmovisão e particular leitura do mundo contemporâneo. Dialogando com as principais fontes e correntes literárias da atualidade, Paes Loureiro realiza uma obra original, quase uma suma poética de compreensão sensível do mundo por meio das fontes amazônicas, em que o mito se revela como metáfora do real.
Sua obra Altar em chamas, publicada pela Civilização Brasileira, obteve, em 1984, o prêmio nacional de poesia da APCA. Com o livro de poemas Romance das três flautas, edição bilíngue português/alemão, da Roswitha Kempf Editora, em 1987, foi um dos finalistas do Prêmio Jabuti deste ano. Tem obras traduzidas na França, Alemanha, Itália, Japão e publicação, também, em Portugal. Suas obras mais recentes são: Pássaros da terra (teatro), 1999; Obras reunidas (4 volumes), 2000; Do coração e suas amarras (2001); Fragmento/Movimento, 2003 e Água da Fonte, 2006, todos pela Escrituras Editora; e Au-delà du méandre de ce fleuve, 2002, Acte-Sud, França.
A parte ensaística da obra de Paes Loureiro está constituída pela preferência relativa aos temas e reflexões de caráter transversal, seja no âmbito da cultura, mas, também, da estética, semiótica, do imaginário, da poética. Seu ponto de partida, de um modo geral, é a realidade cultural da Amazônia. Porém, assim como sua poesia, o local é o ponto vélico da convergência de reflexões que impulsionam as velas de sua reflexão no rumo do universal. Sua leitura da Amazônia é considerada original e significativa para a compreensão desse mundo e do mundo em que vivemos. “Café Central – o tempo submerso nos espelhos” é seu primeiro romance.
Data: 26 de maio, quinta-feira.
Horário: 19h
Local: Polo Joalheiro São José Liberto.
Endereço: Praça Amazonas S/N.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Livro sobre a História da Medicina no Pará
Aristóteles, com o codinome de Gui, já foi articulista do blog.
Às 19 hs, na sede do Conselho Regional de Medicina.
Generalíssimo Dedoro, 223.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
"Passarinhou" Luiz Carlos França

quinta-feira, 24 de junho de 2010
Visita de Santo
Meu S. João,
na noite do vosso dia,
com fogueiras brilhando de alegria,
com alegras cantando num rojão,
parai um pouco na melancolia
do meu portão!
Ponde aqui o cordeirinho!...
Sentai no banco a meu lado!...
Tanta estrela no céu, e eu tão sozinho!...
Na terra, tantos sons, e eu tão calado!...
Meu santo bom, por outra noite vossa,
igual a esta (que lembrá-la possa
durante a vida que viver eu vou!...),
mandei-vos, num balão, um sonho lindo
que foi subindo,
foi subindo,
foi subindo,
té que, muito no alto, se queimou...
Mal de muitos?... Eu sei...
Mas também sei
que nunca mais outro balão soltei.
Nunca mais, nunca mais...
.....................................
Que brisa fria!...
Lá vem o sol como balão dourado!
Levantai-vos, partis?!... Muito obrigado!
DEUS vos pague no céu, meu S. João,
esta parada na melancolia
do meu portão!...
Antonio Tavernard: Místicos e Bárbaros (1953)
domingo, 6 de junho de 2010
Boca de Ferro
domingo, 17 de janeiro de 2010
Os Caminhos da Liberdade: Ruy Barata
"Esta delegacia exerce observação e vigilância sobre elementos simpáticos à revolução cubana, face ã existência de movimento de solidariedade encabeçado por elementos reconhecidamente comunistas".
(Trecho de um relatório enviado ao Secretário de Segurança Pública do Estado do Pará pelo Delegado da Ordem Política e Social).
Por Cuba, por Cuba-Libre,
(quem pode Cuba domar?)
por Fidel, rosa do povo,
(no povo a desabrochar)
o poeta é observado,
o poeta é vigiado
no céu, na terra e no mar.
E olho de todo tipo
rondando o desesperado:
olho fundo do plantão,
olho de guarda embalado,
olho magro do escrivão
( e o gordo do Delegado)
olho que anota e reporta
tosse, tédio, resfriado,
que pode traçar um mapa
de seu dente cariado.
Ah, Fidel, que tanto olho
para um queixo escanhoado!
Inútil fugir do olho
(o olho dorme acordado).
Na rua é reconhecido,
no banheiro - devassado.
O olho interrompe a ceia
com soturno mau-olhado.
O olho espreita, esmiúça,
cama, camisa e calçado.
Amar já não pode mais:
o beijo é fiscalizado.
Ah, Fidel, com tanto olho,
abdicou do pecado!
O olho confina o mundo
do poeta confinado.
Se anda - o olho caminha,
se para - o olho é parado.
Se entra no Bar e senta
o olho fica sentado.
O olho cheira, investiga,
o trago a ser emborcado.
Se for uísque ( o sem Selo)
o olho fica fechado.
Ah, Fidel, com tanto olho
por que só este apagado?
E se o poema vier?
(poema é bicho acanhado!)
Poema se ruboriza
em se vendo observado.
Poema precisa jeito
para ser encurralado.
Poema é criança tola
gosta de ser adulado.
Poema visto, se esconde.
(um custo pra ser achado!)
Ah, Fidel, com tanto olho,
rola o seu estro quebrado!
O poeta já nem sabe
como se suicidar,
vigiado como vive
no céu, na terra e no mar.
Pobre poeta enquadrado!
Pobre poeta marcado!
(por Fidel, rosa do povo,
no povo a desabrochar.)




