terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A vida imita a arte, mais que a arte imita a vida


A frase célebre de Oscar Wilde nunca foi tão atual quanto no caso do crime escabroso que comoveu a ilha de Mosqueiro e que tem sido manchete dos jornais nas últimas semanas.

O estupro seguido de homicídio do menor na Praia Grande lembra muito um livro breve, mas marcante, do autor paraense Edyr Augusto Proença, comentarista bissexto do blog: Moscow, editado pela Boitempo Editorial.

Quem lê a obra não imagina ser possível caber tanta violência na cabeça de um jovem; a vida prova que, sim, é plenamente plausível. Edyr Augusto sabe como poucos explorar a mistura de sexo e brutalidade que, muitas vezes os jornais comprovam, é inerente à espécie humana.

O resolução do caso real, que aponta para um crime torpe causado por ciúmes, é mostra do bestiário que o machismo possessivo do homem latino materializa todos os dias, na forma dos vários tipos de violência contra a mulher. Desta vez, a vítima foi o rival, aquele que trouxe à tona a baixa auto-estima que acomete esta espécie de macho alfa. Além do componente sexual, ainda há o envolvimento dos acusados com o tráfico e o uso de drogas. Tal mistura só poderia dar em solução violenta de um conflito que, ademais, parece que o morto sequer sabia que existia.

É nesse caldo que vivem os personagens de Moscow e aqueles do crime brutal, acontecido há algumas semanas em Mosqueiro. Não por acaso, ambas histórias, ficcional e verídica, foram ambientadas no mesmo distrito de Belém, abandonado pelo Poder Público.

As fotos da ilha que nosso confrade Carlos Barretto publica volta e meia nas páginas deste blog são a face doce do local. Belíssimas, elas, porém, sempre me deixam um gosto de melancolia. É que Mosqueiro foi - como de resto para boa parte da classe média desta cidade - o local onde coisas maravilhosas da infância e adolescência aconteceram. Hoje, porém (e desde algum tempo), está ela entregue a tudo de pior.

A história tão explorada pela imprensa, portanto, faz-me concluir algo triste: como prova o livro de Edyr, um crime de tamanha proporção até que demorou a acontecer na outrora bucólica Mosqueiro.

7 comentários:

Marise Rocha Morbach disse...

Pô Francisco, fiquei de queixo caído com esse caso.
O texto de Edyr Augusto Proença é belo e bruto.
Abs prá ti.

Carlos Barretto  disse...

Há tempos este pretenso "bucolismo" já se foi. Hoje, vivemos atrás das mesmas grades que nos cercam na capital. Com o agravante de ver a praia bem em frente, e muitas vezes, dela não podermos usufruir.
Seja pela violência, mas frequentemente pelos abusos praticados por usuários de fim-de-semana e seus carros tunados.

Uma lástima. Mas há dia certo para ir lá e ainda curtir o que há de melhor. É preciso escolher certo.

Homem do Norte disse...

Belo texto Franscisco: bem escrito,bem lembrado (Wilde) e bem comparado (Edyr).

Marise Rocha Morbach disse...

Homem do Norte, concordo plenamente!

Francisco Rocha Junior disse...

Marise e Homem do Norte, obrigado.

Marise, a mim também chocou. Ainda choca, graças a Deus.

Carlinhos, é uma lástima. Há dia para ir, mas não se pode estar mais descuidado, como antigamente.

Abs em todos.

Edyr Augusto Proença disse...

Amigos, obrigado.
Abs

Francisco Rocha Junior disse...

Obrigado a você, Edyr.
Abraços.