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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Sebastianismo e saudosismo

Há um certo sebastianismo em algumas famílias. Há sempre quem viva no passado, achando que os tempos idos eram mais felizes, que as pessoas eram melhores e que os antepassados eram mais valorosos. Nem tudo é verdade.

Também entre os parentes mortos há aqueles que foram desonestos, desumanos, maus profissionais, pais ausentes, péssimos maridos.

Mas a morte, como se fosse efetivamente aquilo que liberta a alma boa do corpo vil, apaga os defeitos e ressalta as qualidades - mesmo as inexistentes.

Também é verdade que, como os parentes de pessoas mortas, há quem ache que sua cidade, seu tempo de juventude, seu passado não tão distante era melhor que hoje. Será isso fato ou imaginação?

Talvez seja bom lembrar que o mito sebastiano original nunca se resolveu. Até hoje os portugueses, saudosistas como nenhum povo há - até pelo uso da palavra "saudade", que dizem não existir com esse significado em nenhuma outra língua -, continuam esperando o retorno de Dom Sebastião das areias de Marrocos. Esperam há cinco séculos. Esperam por alguém que sequer viram partir.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Mais milagre


“Existem apenas duas formas de viver a vida: uma é acreditar que nada
é um milagre; a outra é acreditar que tudo é um milagre”
 


O milagre da vida


Se há algo que me intriga desde a infância é a origem da vida, especialmente a dos seres humanos.
Sempre tentei entender, mesmo que parcialmente, como seria o mágico momento em que duas células são unidas por vital energia e chegam a desenvolver um novo Homo sapiens sapiens inteirinho a partir daquele ponto.
O estudo da biologia, da química e do catecismo no colégio logo se mostraram insuficientes para responder as minhas básicas perguntas.
Na faculdade continuei sem entender a maioria dos porques, porém logo absorvi a ideia de que somos máquinas biológicas de tal complexidade que precisamos de especialistas para cada sistema dos nossos organismos. Mas novamente fracassaram a embriologia, a genética e até a obstetrícia em me fornecer explicações capazes de apaziguar  a sede desse saber específico.
Bem, acabei por desistir de entender e optei por aceitar a origem da vida como algo idiopático. Um milagre biológico!
E tudo isso veio a tona em minha mente com a mera notícia do nascimento de um pequeno amigo, rotulado carinhosamente de Fernandinho, ocorrido há dois dias aqui mesmo no planeta Terra, latitude  -23° 32' e 51” e longitude -46° 38' 10”.
O pai, orgulhoso, me informa que ele nasceu chorando vigorosamente e que já é torcedor da Ferrari e de um clube de futebol aqui de Belém, cujo nome prefiro não digitar neste post por uma questão de estética.
Pensei numa maneira de registrar a bandeirada de chegada do Fernandinho de forma digital, torcendo para que no futuro algum cyberarqueólogo descubra esta singela homenagem ao meu amiguinho, pelo qual, apesar de ainda não conhecê-lo pessoalmente, já nutro sentimentos bons e fortes. Quem entende as emoções?!
Deixo então as minhas boas-vindas, em uma língua que certamente será a oficial da futura ciência que chamar-se-á Cyberarqueologia
WELCOME TO THE JUNGLE, LITTLE FERNANDO!

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Caetano, 70 anos

Não recordarei Caetano Veloso, no dia de seus 70 anos, pelas inúmeras canções - que fazem parte da trilha sonora da nossas vidas - mas pelas palavras de discurso numa noite memorável em 1968. Vaiado pelo público do III Festival da MPB da TV Record, antes mesmo de começar a cantar É Proibido Proibir, Caetano Veloso fez um dos mais importantes manifestos  da História das Artes no Brasil do século XX. Transcrevo o discurso caetânico abaixo e acima postei o áudio. Para ler mais detalhes e ver fotos históricas, recomendo o excelente site  Tropicália, um projeto da pesquisadora Ana de Oliveira:

Mas é isso que é a juventude que diz quer tomar o poder?
Vocês têm coragem de aplaudir, este ano,  uma música,
um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado.
São a mesma juventude que vão (sic) sempre, sempre
matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem.
Vocês não estão entendendo nada, nada, absolutamente nada.
Eu vim dizer aqui que quem teve coregem de assumir a estrutura de festival,
não com o medo que o senhor Chico de Assis pediu, mas com a coragem,
quem teve a coragem de assumir essa estrutura e fazê-la explodir foi Gilberto Gil e fui eu!
Não foi ninguém. Foi Gilberto Gil e fui eu!
Vocês estão por fora!
Vocês não dão (sic) pra entender.
Que juventude é essa?
Mas que juventude é essa? Que juventude é essa? Vocês jamais conterão ninguém. Vocês são iguais sabem a quem? São iguais sabem a quem? Tem som no microfone? Vocês são iguais sabem a quem? Àqueles que foram na Roda Viva e espancaram os atores! Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada. E por falar nisso, viva Cacilda Becker! Viva Cacilda Becker! Eu tinha me comprometido a dar esse viva aqui, não tem nada a ver com vocês. O problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira. O Maranhão apresentou, este ano, uma música com arranjo de charleston. Sabem o que foi? Foi a Gabriela do ano passado, que ele não teve coragem de, no ano passado, apresentar por ser americana. Mas eu e Gil já abrimos o caminho. O que é que vocês querem? Eu vim aqui para acabar com isso! Eu quero dizer ao júri: me desclassifique. Eu não tenho nada a ver com isso. Nada a ver com isso. Gilberto Gil. Gilberto Gil está comigo, para nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil. Acabar com tudo isso de uma vez. Nós só entramos no festival pra isso. Não é Gil? Não fingimos. Não fingimos aqui que desconhecemos o que seja festival, não. Ninguém nunca me ouviu falar assim. Entendeu? Eu só queria dizer isso, baby. Sabe como é? Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas. E vocês? Se vocês forem… se vocês, em política, forem como são em estética, estamos feitos! Me desclassifiquem junto com o Gil! junto com ele, tá entendendo? E quanto a vocês… O júri é muito simpático, mas é incompetente. Deus está solto! Fora do tom, sem melodia. Como é júri? Não acertaram? Qualificaram a melodia de Gilberto Gil? Ficaram por fora. Gil fundiu a cuca de vocês, hein? É assim que eu quero ver.
Chega!

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Dilma no Sacrabala

A blogueira Flávia Guerra, do blog Na Perifa, conta que a nossa presidente Dilma, na recente estadia em Londres,  dispensou segurança e  comitiva e pegou o tube (o metrô) londrino para ir ao  Tate Modern, o descolado museu às margens do Tâmisa. A blogueira ainda faz aquele discurso paulistano: Que tal se mais líderes brasileiros usassem mais o metrô no Brasil? Metrô, colega?
Queria ver os "líderes brasileiros", e em especial a companheira Dilma, assim, sem o aparato presidencial,  em Belém, pegar o Sacramenta-Nazaré, ali por voltas das 22 horas, passando pela Ponte do Galo.
Vetinho, o poeta do Bole-Bole, teria que fazer uma nova versão da impagável canção Sacrabala:

Lá vem o Sacramenta-Nazaré sem freio
Vai passar bem no meio da Praça Brasil
E que tiver no meio fio
Vai dando logo no pé
Pois é, o motorista é uma figura
Ninguém segura o Sacramenta-Nazaré

A cobradora vai passando o troco errado

Pra safar alguns trocados
Que é pra dar pro seu filhinho
Que coitadinho, é um futuro cobrador
Mas que horror o Sacrament-Nazaré
Sem sacanagem é preciso ter fé
Pra viajar de Sacramenta- Nazaré

sábado, 2 de junho de 2012

Jegue Lag


Estava eu lutando contra um jet lag que me deixa aceso na madrugada e me derruba de sono em pleno meio-dia, quando no Facebook me deparo com uma foto de Marisa Monte ao lado de Gaby Amarantos nos bastidores de um show do festival Sonoridades, acho que no RJ, produzido por Nelson Motta, o "descobridor" de MM e um dos produtores musicais mais respeitados quando se trata da música brasileira contemporânea.  O texto muito simpático da página do Facebook oficial da cantora carioca é seguido de uns 50 e tantos comentários de seguidores - alguns com tintas de um preconceito atroz. Não me contive em deixar algumas frases em reação: acrescentei o áudio histórico aqui compartilhado, à disposição no Youtube (viva o Youtube). O texto que deixei é este: Comentários preconceituosos sobre o encontro Marisa Monte e Gaby Amarantos me lembraram que, em 1973, Caetano, a dita fina flor da MPB, fez dueto com Odair José - tão fina flor da MPB quanto o mano Caê. Não, a canção não foi nenhuma jóia do... mais fino repertório da MPB. Mas sim, a clássica Eu vou tirar você desse lugar. Afinal de contas, a Tropicália - essa senhora de quase 50 anos - veio para abrir as mentes e os ouvidos do mundo. De Vicente Celestino à Gaby Amarantos. De Marisa Monte a Odair José. Viva Gaby e via MM.
PS:  Aliás, tem coisa mais brega que essa nova da MM, Depois? Poderia ser algo do Reginaldo Rossi, que aliás eu adoro.
PS2 (exclusivo para o Flanar): algumas pessoas no Brasil fazem viagens equivocadas e como resultado vivem em permanente jegue lag.

terça-feira, 1 de maio de 2012

1° de Maio





Imagens: Edvan Feitosa Coutinho- 2005

Em junho de 2005, fomos a Berlim e o guia Lonely Planet recomendava um passeio ao lado oriental da cidade -  símbolo da divisão do mundo pós-Segunda Guerra. Nessa época, esta parte da velha Berlim ainda guardava em sua arquitetura os traços dos anos de chumbo. Num dos prédios públicos - talvez sede de algum ministério da antiga República Democrática da Alemã (RDA) - vimos uma série de pinturas murais no melhor exemplo do Realismo Socialista - a estética de estado da União Soviética também adotada pelos países da chamada Cortina de Ferro. Ainda se podia ver no mesmo prédio, uma imensa fotografia de algum 1° de maio  dos anos 50. Lembrei dessas fotos que fiz ao pensar no Dia do Trabalho e  de nós, Trabalhadores - sempre personagens centrais da engrenagem que move o mundo, e em nome de quem regimes,  de esquerda e de direita, se arvoram em falar em nome e impor estéticas, sejam elas de estado ou de mercado. Mas, enfim, acima de tudo isso, viva o Trabalhador!

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Dali faz a festa



O mundo estava em plena Guerra. Era 1941, tempo também do auge do Surrealismo. E assim Salvador Dali oferece aos amigos um jantar no hotel Del Monte, em Monterey, California (EUA). O evento reserva surpresas aos convidados e ainda hoje, passados 71 anos, pode ser fonte de inpiração, quem sabe, para quem ainda precisa decorar um salão para um baile carnavalesco ou ainda não escolheu uma fantasia.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Eternamente jovens



Um dos raciocínios mais equivocados que costumamos ter é achar que vivemos com as mesmas células (ou um grande número delas) por todas a nossa existência.
A maioria das células vivas raramente consegue durar um mês inteiro, com a honrosa exceção dos neurônios (recebemos 100 bilhões e os renovamos a nível de seus componentes celulares) e dos hepatócitos (que sobrevivem vários anos).
O bioquímico belga Christian de Duve, ganhador do prêmio Nobel de Fisiologia/Medicina em 1974, nos mostrou que as células do fígado têm todos os seus componentes renovados em poucos dias.
O cientista americano David Bodanis argumenta em The Secret Family que não há uma só parte nossa, nem mesmo uma simples molécula, que tenha estado conosco há 9 anos.
Em português claro, abaixo dos 2 kg de células mortas que constituem a nossa pele, estaremos sempre novinhos em folha.
Até o fim.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Caleidoscópio


Imagem: Scylla Lage Neto

As datas aplicadas aos fatos, os homens e as mulheres "enfiados" entre dois números simples de lápides ou nas narrativas obscuras de fatos diversos têm valor absoluto tanto quanto os sonhos ou os vestígios dos mitos.
Rober Graves

Feliz 20?? !

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Icoarabeach blues

Imagem: Luis Lopes



Talvez por
estar revendo a série ANOS INCRÍVEIS, ando meio saudosista dos tempos
“inocentes” da faculdade de medicina.


Houve uma
fase, creio que por volta do segundo para o terceiro ano, em que a programação
de sábado passava obrigatoriamente por
uma ida à então aprazível ilha de Outeiro (apelidada em disfarce de Waikiki),
ainda de balsa, regada a rock, vodca ou gim e, é claro, paqueras e babados.



Íamos em 2,
3 e até 4 carros, numa tropa heterogênea formada por calouros e veteranos da
farra light.



Após algumas
idas, muitas histórias e um punhado de estórias, acabou acontecendo o
inusitado: alguns de nós, burgueses iniciantes, adquirimos namoradas fixas
oriundas de Icoaraci (carinhosamente
chamada de Icoarabeach).



Os meses
subseqüentes transformaram-se em uma maratona pela Rodovia Augusto Montenegro.
Como eu e uns 3 amigos tínhamos namorada “oficial” em Belém, zarpávamos após o
expediente do namoro para umas horas extras na Vila Sorriso. E sempre ouvindo
Iron Maiden, AC/DC, Judas Priest,
Motorhead e bandas afins.



E o curioso
é que eu acabei gostando até mais da namorada icoracience, que estudava no
Colégio Nossa Senhora de Lourdes, freqüentava a pipoca dançante do Santa Rosa e
era bonitinha como a boneca Barbie, em detrimento da voluntariosa e mimada
namorada belenense.



Meu pai, meu
confidente desde então, dava risadas com os meus relatos, sem se aprofundar nos
seus comentários.



Mas, num
chuvoso domingo, um acontecimento totalmente imprevisto (por mim), mudou o
curso da minha história pessoal.



A minha
Barbie sorridente se atrasou muito para a pipoca do Saint Rose (codinome usado
por nós em Belém), e ao chegar, esbaforida, me puxou para um canto e disse,
sussurrante, algo assim como: “Scylla, me escuta sem falar nada. Eu não posso
ficar mais contigo, pois estou com uma outra pessoa que está para chegar aqui
na tertúlia. Mas não fica triste não, que eu já arrumei uma namorada pra ti. É minha
grande amiga, tá? E cuida bem dela, viu?”



Tudo
aconteceu tão rápido, na velocidade dos neutrinos, e em poucos minutos a minha
ex-Barbie, cuja foto eu ainda levava escondida na carteira, estava nos braços
de outro, que chegou em poderosa bike Monark Barra Forte, e eu tinha ao meu lado uma
delicada criatura, de cheirosos cabelos castanhos, uma verdadeira réplica da
boneca Suzi.



Posso
resumir dizendo que eu e a minha Suzi seguimos juntos por meses a fio, num amor
louco que apenas a mortal Rodovia Augusto Montenegro podia destruir.



E eu não sei
exatamente como o namoro acabou, talvez apenas se diluindo no tempo, no espaço
e nos propósitos.



E ainda
hoje, posso ouvir as gargalhadas de meu finado pai quando lhe contei sobre a
troca de namoradas.



Desta vez
ele fez um único comentário: “filho, a vida é muito, mas muito engraçada mesmo.
E um dia tu vais lembrar com carinho das meninas de Icoaraci”.



Hoje,
anos-luz depois e monogâmico assumido, eu lembro.



quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A morada da lua



Quando eu era bem pequeno, o meu sonho era descobrir para onde ia a lua durante o dia.

Hoje cedo, não fora o sono atroz que me levou de volta para a cama, eu acho que eu descobriria...

terça-feira, 16 de agosto de 2011

sábado, 23 de julho de 2011

Julho de 2011

Imagem: Scylla Lage Neto

É pouco provável que exista uma forma de linguagem tão universal quanto a fotografia.
Um mera imagem pode resumir um momento, um dia, um mês e mesmo uma vida inteira.
Civilizações complexas cabem em uma pintura, em uma escultura e até em uma fotografia 3X4.
Sentimentos difíceis de se expressar em palavras estão compreendidos em suas plenitudes dentro do espaço virtual de um punhado de pixels.
E apesar do mês corrente não ter acabado, já o tenho compactado em uma simples fotografia, que compartilho com vocês.
Que venha agosto!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O Maiô de Dona Marisa ou:

Quem São os Verdadeiros Jecas do Brasil? Excelente artigo assinado pelo filósofo Rodrigo Nunes. Leia inteiro no blogue O Biscoito Fino e a Massa.
Mas, para os que preferem a extensão twitteriana dos textos, um trecho pode bem servir de resumo à satisfação da curiosidade:

Partido e candidato que um dia representaram uma vertente modernizante das classes média e alta de São Paulo, de quadros intelectuais e tecnocratas bem-formados, dissolveram-se na geléia geral em que quatrocentão e “painho”, uspiano e grileiro, socialite e “coroné” existem, desde sempre, em continuidade e solidariedade uns com os outros. As promessas desesperadas de ampliação do Bolsa Família vindas de quem até pouco tempo o desdenhava como “Bolsa Vagabundo”, ou a cortina de fumaça que se constrói ao redor do debate do pré-sal, indicam que, atualmente, é impossível eleger-se no Brasil negando certos direitos recém-descobertos por vastas parcelas da população. A elite, mais do que nunca, precisa esconder seu verdadeiro programa.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O Estado Laico, a Democracia Grega e a Autocracia Religiosa

Pastor batista em debate transmitido no blogue do jornalista Luiz Nassif diz que a tolerância do estado laico nos fará chegar ao estado grego, onde o homossexualismo e a pedofilia foram tolerados.
Nem vou abordar a questão pela perspectiva cultural da Grécia Antiga, pois não seria produtivo frente ao emperdenido argumento. Basta refletirmos que há 5 mil anos judeus, árabes e cristãos tentam remover da face da terra os homossexuais por meio do silêncio, do castigo, da tortura e morte desses seres humanos.
Tivesse a mínima serenidade intelectual, o pastor deveria considerar a falência secular das igrejas para tratarem desse assunto com moralidade aceitável, que não agravasse o papel humanitário temporal que essas instituições possuem.
O desafio portanto que está posto é dobrar o estado laico às ordens do dogma religioso, favorecendo a negação de uma realidade, danificando o conceito de cidadania e avacalhando a ordem democrática em nome de um discurso que na outra ponta sugere para o Brasil o modelo de uma autocracia religiosa cristã ao modo do Irã, entre outros exemplos.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Alguns segundos da mais profunda solidão

Hoje de manhã, passei por uma experiência desagradável. Enquanto preparava meu almoço, um acidente doméstico fez respingar em meu braço esquerdo algumas gotas de óleo fervente. Nem preciso dizer como dói uma experiência destas. De imediato, queimaduras de primeiro grau se produziram em minha pele. Superficiais, mas muito dolorosas.
Mas o pior não foram as queimaduras físicas. Pior é a alma queimada. É a fugaz sensação de abandono que momentos como este, produzem em quem apostou recentemente em morar sozinho. É a imediata reflexão que vem a cabeça. Mas após alguns instantes de alguma tristeza, levantei a cabeça e continuei a missão. Quantas recaídas mais não haverão? E quantas vezes mais, levantarei?
Muitas. Muitas e muitas vezes levantarei. É o segundo seguinte à centelha da mais profunda solidão. Cuida de ti, é o recado frio do cotidiano atual.
Continue nadando, continue nadando, é o cabeçalho de meu Windows Live Messenger. Aprendi com uma pessoa muito querida.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Num domingo longínquo


Imagem: Scylla Lage Neto

O que fazer de melhor num domingo do que viver o imprevisível?...

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

R.I.P., Gemada!



Há muitos anos eu penso e repito que o melhor amigo do homem não é o cão e sim o carro.
Vários dos camaradas de quatro rodas que tive deixaram em mim lembranças das diferentes fases da vida, desde o Gol 1980 dos tempos da faculdade até o “finado” Gemada.
A propósito, o velho “Gema”, apelido colocado pelo meu pai, era um FIAT Coupé 1997, comprado 0 KM por telefone de uma revenda em Goiânia.
A cor amarela e o design Pininfarina divergiam um pouco do padrão belenense do final da década de 90 e o meu veículo iniciou a trajetória torcendo pescoços por aqui.
Ganhou um chip no motor e rodou feliz pela BR para Salinas inúmeras vezes. Repousava durante a semana e passeava com a molecada no sábado.
Tempos depois, graças à separação conjugal, ganhou a patente de primeira (e única) viatura, tendo então conhecido diversos estacionamentos de hospitais da cidade.
Ao retornar ao posto de segundo (e depois terceiro) veículo da casa, voltou à mordomia e aos cuidados quase paternais com a sua manutenção.
Pois há 2 meses, poucos dias após intervenção na parte elétrica do ar condicionado, o querido Gemada, testemunha silenciosa de muitas histórias pessoais de seu proprietário, sofreu um processo de combustão espontânea em pleno domingo, no subsolo do Hospital Porto Dias. Sem vítimas, felizmente.
Filmado pela TV Liberal e fotografado pelo jornal Amazônia, assim o carro abandonou as ruas.
E após 60 dias de orçamentos exorbitantes e inviáveis para refazê-lo, foi fechado o protocolo e declarada hoje a “morte clínica” do Gemada.
Soa estranho ter saudades de um carro, mas eu tenho.
Enquanto procuro calmamente um substituto para ele, cresce a certeza de que o próximo também será amarelo: Gemada 2, a vingança?!

domingo, 14 de junho de 2009

Chacoalhando

Domingão, sol claro, tempo livre e disposição.
Tudo o que eu precisava para dedicar ao menos 3 horas as atividades de jardinagem. Preventiva e com forte potencial de severas mudanças no design do pequeno jardim de apenas 4 metros quadrados que me resta em meio a área edificada da residência.

Apenas 4 metros quadrados!! O suficiente para me motivar a fazer algumas interferências estéticas e aguçar a sensibilidade. É quase o mesmo desafio que se impõe na composição de uma fotografia. Só que com ritmo lento e obrigatório dispêndio de energia física. Mas o ritmo lento e determinado, gera um vulcão de pensamentos e reflexões em paralelo. E o aprimoramento da paciência. Esta sim, minha principal necessidade do momento.

Ao final, um jardim com aquele aspecto inicial que se segue as grandes batalhas. Terra remexida, grama replantada, lama por todo lado e a necessidade imediata de um bom banho.
Quanto ao aspecto inicial do jardim, em nada me preocupo. A natureza em pouco tempo realiza o milagre das adaptações e preenchimentos necessários ao desejado resultado.
Ao final, novas decisões, novas disposições pessoais.
Não é pouco.