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sexta-feira, 18 de abril de 2014

A Erendira de García Márquez e Ruy Guerra

Francisco Rocha Junior escreve sobre Gabriel García Márquez como o autor da saudade e da nostalgia. Nas minhas memórias afetivas, García Márquez é o primeiro autor que traduziu a influência do macroambiente em que vivemos nas relações pessoais - familiares, amorosas, profissionais. La increíble y triste historia de la cándida Erendira y su abuela desalmada é um conto de García Márquez  escrito em 1972 e publicado em 1978.
Em 1983, Ruy Guerra, o cineastra moçambicano-brasileiro, fez este filme com a grande atriz grega Irene Papas e a estreante Claudia Ohana - então casada com Guerra. O filme foi uma produção da França, México e Alemanha, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes. Mas o único prêmio que ganhou foi o de melhor cenário no Festival de Cinema do México.
Já tinha lido o conto quando vi a obra de Guerra. Ele soube bem dar um tom sombrio e melancólico ao filme que é um dos poucos que quase se equivalem à obra escrita original. 



Es una obra en la que se trata ampliamente el tema de la prostitución de menores en el Caribe Sudamericano. Narra la historia extendida de Eréndira, una joven criada por su abuela desde que murió su padre. Al llegar a la preadolesencia, la prostituye para así mantener su nivel de vida.
También se puede interpretar como una metáfora de García Márquez entre la explotación de los países menos desarrollados (Eréndira) por parte de países desarrollados (La abuela).
Comienza así su peregrinaje. En uno de tantos pueblos, Eréndira conoce a Ulises, quien se enamora de ella. La busca, le dice que en la noche volverá por ella y la llamará usando el canto de una lechuza. Los dos huyen pero la abuela consigue que la autoridad militar los persiga y atrape. Para que eso no se repita, desde entonces la abuela mantiene encadenada a la cama a Eréndira.
(do blog La Historia del día).



quinta-feira, 17 de abril de 2014

Gabo

A primeira coisa que eu li do Gabriel Garcia Marquez foi Crônica de Uma Morte Anunciada. Depois de muitos anos, recebi uma herança de um tio ainda hoje vivo que nada tinha a me dar, salvo algumas lições básicas de futebol que eu nunca aprendi e um exemplar de Cem Anos de Solidão. Como eu era um adolescente nostálgico, aquela história longa, cheia de mortes, despedidas, abandonos e sumiços casou bem com meu espírito.


Daí vieram O Amor no Tempo do Cólera, Do Amor e Outros Demônios, O Outono do Patriarca e... eu acho que só.


Faz tempo que eu não leio nada do Garcia Marquez: o Gabo que se tornou um ícone da esquerda latina, de guayabera e bigodão, sumiu da minha frente como uma moça que se evolasse em asas de borboletas. Não porque eu tivesse me tornado um quarentão direitoso, ou porque a América Latina não mais me interessasse. Foram apenas coisas da vida. Um afastamento sem querer, como o de um amigo cujas afinidades permanecem adormecidas.


Mas ele vivia nas minhas lembranças. Volta e meia chegava-me um texto apócrifo, que lhe era falsamente atribuído. Coisas cafonas, sem estilo, desmerecedoras das minhas lembranças. Eu as refutava. Aquilo não podia ser coisa do homem.


E agora a notícia de sua morte... Não há como não lembrar do livro sem capa, que eu nem sei onde anda, e do meu tio ainda vivo com quem eu não convivo mais.


Cada pessoa lembra dos autores que leu a partir de suas próprias memórias afetivas. Para mim, Gabriel Garcia Marquez vai ser sempre o autor da saudade e da nostalgia.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

A vida seria sonho?

Segismundo vivia aprisionado. Filho do rei polonês Basílio, dado à astrologia, desde a infância foi desterrado e preso em uma torre, por causa de um vaticínio que seu pai recebeu.

Tal como no mito da caverna, Segismundo só sabia da vida aquilo que aprendeu pelas grades da prisão, pelas sombras nas paredes e pela única pessoa com quem tinha contato – Clotaldo, seu guardião.

Descoberto por uma estrangeira que chegou ao reino foragida, Segismundo é posto em liberdade. No entanto, a previsão de Basílio se confirma e logo no primeiro dia fora da prisão o príncipe revela-se um tirano e mata, sem que nem porquê, um serviçal com quem se desentendera.

Decidido a prendê-lo novamente – a próxima vítima seria ele próprio – o rei, para não ser alvo da ira do filho, decide dar-lhe uma poção. Assim, ele dormiria e ao acordar estaria de novo na torre, sua velha cela, sem saber se aquilo que vivera fora da prisão tinha sido sonho ou não.

Novamente na cadeia, ao despertar da vida fora da torre – ou adormecer novamente para a vida na cela – Segismundo declama um solilóquio. A vida seria sonho?

Sonha o rei que é rei, e vive
com este engano mandando,
dispondo e governando;
e este aplauso, que recebe
emprestado, no vento escreve,
e em cinzas converte-lhe
a morte, desdita forte!
Que há quem tenta reinar,
vendo que há de despertar
no sonho da morte?
Sonha o rico em sua riqueza,
que mais cuidados lhe oferecem;
sonha o pobre que padece
sua miséria e sua pobreza;
sonha o que a medrar começa,
sonha o que afana e pretende,
sonha o que agrava e ofende,
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
embora nenhum o entenda.
Eu sonho que estou aqui
destas prisões carregado,
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção,
e o maior bem é pequeno:
que toda a vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são.


(A Vida é Sonho – Calderón de la Barca)

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A primeira musa


Nascida e falecida em dezembro (10 e 9 respectivamente), Clarice Lispector foi a minha primeira musa na literatura.
Um de seus livros menos comentados e conhecidos (Água Viva, de 1973), grudou nos meus neurônios quando eu tinha uns 14 anos de idade e só desgrudou anos depois, quando o abandonei pela poesia. Até hoje tenho o mesmo e surrado exemplar, lido e relido até a exaustão, marcado, riscado, amassado e ... amado!
Eu só não conseguia me conformar, então, com a sua morte precoce.
Aliás, ainda não consigo.
Hoje li muitas belas homenagens para Clarice na blogosfera e no Facebook, e me senti compelido a registrar o meu fascínio pelo seu livre pensar.
Pois a primeira musa jamais se esquece.

"... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi o apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso." 
(Clarice Lispector)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Schnitzler versus Freud


Para os que querem preencher o final de semana com uma literatura light, pero no mucho, aqui vai uma sugestão que certamente abalará as estruturas psíquicas de um leitor desavisado.
O livro O Retorno de Casanova, do médico austríaco Arthur Schnitzler, foi publicado em 1918, e aborda uma hipotética volta do conturbado personagem histórico Giacomo Casanova à então república de Veneza.
Velho, falido e desmoralizado, Casanova esperava tudo, menos se apaixonar. E aí então...
Para os que desconhecem o autor, Schnitzler trabalha em espelho no mesmo território psicanalítico do Dr. Sigmund Freud, escrevendo romances que parecem casos clínicos, como o famoso Breve Romance de Sonho, filmado por Stanley \Kubric em 1999 (De Olhos Bem Fechados).
Freud chegou mesmo a expressar, em carta dirigida a Schnitzler em 1922, a admiração pela sua obra.

 "Sempre que me deixo absorver profundamente por suas belas criações, parece-me encontrar, sob a superfície poética, as mesmas suposições antecipadas, os interesses e conclusões que reconheço como meus próprios. Ficou-me a impressão de que o senhor sabe por intuição – realmente, a partir de uma fina auto-observação – tudo que tenho descoberto em outras pessoas por meio de laborioso trabalho". Sigmund Freud

Bom mergulho na leitura, aos que ousarem fazê-lo!

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Me and my crazy self




Desde que iniciei a vida de leitor compulsivo, na adolescência, sempre fui chegado a acreditar ter um alter ego, um outro eu, geralmente absorvido dos personagens fortes (ou até dos fracos) oriundos de romances, poesias épicas, filmes, biografias, novelas, músicas, propagandas, enfim, de todo tipo de manifestação humana que tivesse a capacidade de se insinuar em meu cérebro.
Talvez o meu primeiro alter ego tenha sido Huckleberry Finn, rebelde personagem de As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, que ganhou livro próprio em 1884 e até protagonizou filme, em 1993. Eu sonhava acordado ser como Huck, e até na verdade em ser o próprio Huck Finn.
Muitos o sucederam no cargo hipotético de alter ego, como Rick Deckard, de Do Androids dream of eletric sheep?, livro de Philip K. Dick que originou o filme Blade Runner, passando por Eneias, eternizado pelo gigantesco poeta Virgílio em A Eneida, e até mesmo o detetive John Diphoo, da fantástica trilogia O Incal, de Alejandro Jodorowsky e Moebius.
Mas há algum tempo fiquei fixado definitivamente por Corto Maltese, tão encantadora criatura que até o seu criador, o italiano Hugo Pratt o tomou para si como alter ego.
Como definir Corto Maltese sem expor as minhas próprias entranhas?
Corto é um viajante, sempre em movimento e isso me agrada sobremaneira. Percorre o mundo todo, não por dinheiro ou poder, e sim pela liberdade de o percorrer. A imaginação é o seu combustível e nem sempre ele é politicamente correto. Aliás, quase nunca.
Ele é verdadeiramente um anti-herói, uma espécie de Ulisses ao contrário. Ama muito, procurando sua alma gêmea, e um dia a encontrará, desde que ela se disponha a acompanha-lo, de rosto virado para o vento norte.
Nesse ponto, a vida real esboça tocar a surreal. No delírio onírico de Corto, como no meu, a mulher utópica é na verdade uma andróide, como a doce Rachel, de Blade Runner. Ou talvez seja mais parecida com o alter ego desta última, a insinuante Pris? Ou com ambas?
Ou poderia ser uma andróide para cada ego?! Terão os andróides alter-egos?!



Pris























                                                                                            Rachel












Corto e eu precisamos nos encontrar, um dia...





segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Desassossego

Com alguma surpresa de quem me escuta,
desde há algum tempo venho a dizer que cada vez
me interessa falar menos de literatura
José Saramago em: Da estátua à Pedra (Edufpa, 2013).


Ontem conheci a espanhola Maria Pilar Del Rio (foto ao lado). Lembrarei eternamente daquele aperto de mão, do olhar franzino, de algumas poucas palavras, assim como a digital do encontro. Ela nada se lembrará a partir da manhã seguinte, mas isso pouco importa. Não me incomoda em nada. Pilar é mulher-mundo do mago da literatura: Saramago. Eu sou apenas um rapaz latino americano vindo do interior...
Aliás, todos vêem o pulsar nítido que Pilar nasceu para Saramago. Eram como xifópagos ibéricos. Aliás, não eram: são. Desde a sua morte em 2010, Pilar vive feito nômade pelo planeta terra, divulgando e zelando pela pedra saramaguiana até fazer uma paragem por aqui.
Pilar tem a humildade no olhar, no sorriso, nas roupas, nos gestos, nas palavras e... no coração. Aceitou a publicação de duas obras inéditas do José (como se refere a Saramago) no Brasil. Ela escolheu a editora da UFPA, Edufpa, num projeto arrojado entre a própria UFPA e a Fundação José Saramago. Simone Neno, a diretora da Edufpa, foi bater na Casa dos Bicos, em Lisboa, para pedir a publicação. Como se não bastasse ter Benedito Nunes, agora a editora navegou em transatlântico e foi bater nas terras de Baltazar e Padre Bartolomeu. Foram seis meses de trocas de emeios até se chegar ao fatídico 30 de agosto de 2013, data da publicação de “Da estátua à Pedra e discursos de Estocolmo” e “ Democracia e Universidade”, no Centro de Eventos Benedito Nunes, da Universidade Federal do Pará. Quem me narra essa história, com detalhes, é a própria diretora; lê-se também na revista “Bravo”, em sua última e histórica publicação.
Já comecei a degustar o primeiro livro. O segundo, “Universidade e Democracia” deixo pro fim, como se fosse meia cuia de açaí na sobremesa. Deixo pra depois porque não imagino como um homem que não fez carreira universitária - e política- pôde escrever sobre a Universidade. É como se estivesse do lado de fora do muro que cerca o liceu e, de tanto enxergar as edificações e os movimentos acadêmicos acaba sendo parte dele. Deve ser provocador, mas também delicioso, se vindo de Saramago. Ele já fez isso outras vezes, quando, por exemplo, escreveu o “Evangelho segundo Jesus Cristo”, do lado de fora das catedrais, olhando de soslaio para a bíblia.
Também fui ao lançamento. Chamou-me atenção o pensar de Maria Pilar no discurso intitulado "Saramago por Saramago". É nítido o compromisso com a alma do escritor. Quase físico. Ela foi mais além. Elogiou não só trabalho gráfico, assim como a ambientação do lançamento dos livros. Realmente, ao olharmos no entorno, não há propaganda da Edufpa, nem do livro, somente da estátua viva de Saramago. A mídia se volta para a sua aura repleta de provocação, como nos dizeres ao fundo do palco: “Que temos feito de nosso sentido crítico, da nossa existência ética, da nossa dignidade de seres pensantes? Cada um dê sua resposta...”
Na realidade, mais que provocação, Saramago é puro desassossego.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O Jantar Errado


O escritor albanês Ismail Kadaré bem que poderia ter nascido no Brasil, e seu último livro, O Jantar Errado (Companhia das Letras), poderia ter sido facilmente ambientado em uma pequena ou média cidade do sudeste brasileiro, como Campos do Jordão ou Atibaia, por exemplo.
Boato, mistério, política, sombras e silêncio vão se entranhando a medida que a trama avança, flertando entre o real e o surreal.
Este foi o segundo livro que li deste autor, e talvez o outro (o famoso Abril Despedaçado, que inspirou o filme homônimo de Walter Salles, de 2001) tenha me impressionado mais.
Mas tal não tira o mérito desta intrigante e divertida leitura, apropriada para o balançar da rede nas quentes noites de agosto.
Recomendadíssimo!

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O Universo dos Clássicos


Olhem só que bacana: o Centro de Cultura e Formação Cristã, ligado à Arquidiocese de Belém, promoverá, a partir do próximo 24 de agosto, um ciclo de palestras sobre cinco clássicos da literatura universal: a Antígona de Sófocles, as Confissões de Santo Agostinho, os Ensaios de Montaigne, os Irmãos Karamázov de Dostoievsky e Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa.

Os clássicos estudados são representativos dos períodos mais importantes do pensamento ocidental. As palestras serão dadas pelo jovem professor Victor Sales Pinheiro, que dentre outras atividades tem reorganizado a obra do saudoso filósofo Benedito Nunes.

As palestras, uma sobre cada livro, ocorrem uma vez por mês, aos sábados pela manhã. Para quem mora no centro de Belém, estão em lugar de mais fácil acesso que as anteriores, ministradas no auditório da sede do CCFC, na BR 316: o evento ocorrerá no Centro Social Monsenhor Geraldo Menezes, à rua Presidente Pernambuco, ao lado da Igreja da Trindade.

O calendário do seminário está no cartaz virtual acima. Basta clicar para ler melhor.

Vale muito a pena comparecer e participar.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Novidade tecnológica


O vídeo não é tão recente, mas a ideia permanece super atual.
Afinal, existe algo mais tecnológico do que o... book?!

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Procura-se uma mão



A MÃO AO ASSINAR ESTE PAPEL
                                                                           (Dylan Thomas)

A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade; 

cinco dedos soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração; duplicaram o globo dos mortos e reduziram a metade um país; 
estes cinco reis levaram a morte a um rei.

A mão soberana chega até um ombro descaído

e as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso;
uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte
que pôs fim às palavras.

A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre, 

e cresceu a fome, e todas as pragas vieram; 
maior se torna a mão que estende o seu domínio 
sobre o homem por ter escrito um nome.

Os cinco reis contam os mortos mas não acalmam 

a ferida que está cicatrizada, nem acariciam a fronte; 
há mãos que governam a piedade como outras o céu; 
mas nenhuma delas tem lágrimas para derramar.


(tradução: Fernando Guimarães)

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Cyberpunk 2077



Com previsão de lançamento apenas para 2015, o vídeo-game Cyberpunk 2077 é apresentado em arrepiante e breathtaking trailer.
A propósito, o universo cyberpunk é tão complexo, inclusive do ponto de vista visual, que a indústria cinematográfica ainda nos deve a tecnologia para a realização de um filme à altura de livros como Neuromancer, de William Gibson.
Mas tudo indica que o futuro segue a fundir-se virtual- e imperceptivelmente ao presente.
Afinal, o que é real e o que é virtual?

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O que é real?


“A minha preocupação principal é a diferença entre a nossa percepção da realidade e o que é realmente a realidade.” Philip K. Dick

Por mais que eu fuja da literatura inquisidora de Philip K. Dick, acabo sempre retornando ao seu universo de memórias induzidas, realidades virtuais, dimensões paralelas e humanos artificiais.
Neste último final de semana fui "obrigado" a "ver" um presente que ganhei, o box Blade Runner - 30th Anniversary - Colector's Edition (3 BD's + livreto + holograma), o que me impulsionou imediatamente a começar a reler a obra literária sombria e cult de PKD.
E apesar de estar apenas na metade do primeiro livro escolhido ao acaso, o pouco conhecido A Penúltima Verdade, a pergunta que se recusa a calar já começou a morder o meu inconsciente: afinal, o que é real?



“Dick parece prever um futuro em que questões intelectuais da filosofia académica irão se mudar para a rua de modo a que qualquer pessoa será obrigada a resolver tais problemas contraditórios como a “objetividade” e a “subjetividade,” porque a sua vida dependerá do resultado.” Stanislaw Lem

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O Grande Irmão está te observando!


George Orwell bem que tentou nos avisar, em seu clássico romance 1984 (publicado em 1949), que o futuro deveria fugir do totalitarismo.
Porém, segundo o Washington Post, a NSA (Agência Nacional de Segurança, dos EUA) intercepta e armazena 1.700.000.000 (um bilhão e setecentos milhões!) de e-mails, ligações telefônicas e outras formas de comunicação que transitam pela internet, diariamente. E mais de 20 trilhões de transações entre cidadãos americanos já foram analisadas pela dita agência. E muitos zettabytes de capacidade de armazenamento estão disponíveis para fins de vigilância. E...
Quer saber mais? Leia matéria no The American Dream.
O que isso tudo realmente significa? That it's too late! Big Brother is indeed watching you!

sábado, 4 de maio de 2013

The wall



“Eu sou de um país que se chama Pará” - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO
O Estado de S.Paulo - 03/05/2013

Por que tanta gente de talento não chega ao Sul? Onde fica o muro que nos separa?

BELÉM

Quando a mediadora Renata Ferreira disse que o meu conto o homem que viu a osga comer meu filho a tinha aterrorizado, assustei-me. Não tenho este conto. Ela riu e explicou:“O que vocês chamam de lagarto ou lagartixa, chamamos de osga.Aliás, está no Aurélio”. Estava certa, o conto existe.
Quando ouvi a fotógrafa Elza Lima contar uma história minha em que os olhos dos cavalos do carrossel de meu avô eram petecas, reagi: “Como petecas? Eram bolas de gude”. Elza: “Pois aqui, petecas são as bolasde gude”.Caminhava pelo Espaço Palmeira, um feirão popular, no centro da cidade.Aqui foi uma tradicional fábrica de bolachas, biscoitos e doces, fundada em 1892. Demolida, restou uma área de piso concretada sobre a qual se armam as barracas.Então,ouvi: “Vamos fazer nossa sombra aqui”, disse o mulato de chapéu branco. E sentou-se com dois amigos num canto. Não havia sombra alguma, ao contrário, era um solão, mas gostei da expressão. Porque grande e diverso é o Brasil.

Vim para a 17.ª Feira Pan-Amazônica do Livro, que no ano passado vendeu 850 mil livros, me contou Paulo Chaves Fernandes, secretário de Cultura, arquiteto que criou as Docas e o Mangal das Garças, imperdíveis. A Pan-Amazônica deste ano termina no próximo domingo com Affonso Romano de Sant’Anna. Pelo palco principal passaram Ziraldo,Tony Bellotto, Cristovão Tezza, Guilherme Fiuza, Tiago Santana e José Castello. Para terem ideia, o folheto com a programação tem 74 páginas com oficinas, seminários, aulas, lançamentos, mesas-redondas, salão do humor.

Tudo acontece no Hangar, um centro de convenções moderno e funcional. Ao falarmos,temos à nossa disposição auditórios variadosque vãode300 a 1.500 espectadores. Distante daqueles espaços fechados por divisórias de eucatex da Bienal do Livro de São Paulo, ondea barulheira do salão penetra e ninguém ouve o que se fala.

Lembrei-me que estive na primeira Pan-Amazônica, ainda no centro, sufocada, apertada, mas cheia de gente. Assim como me lembro de uma casa de sucos da terra, onde havia um de pinha que era puro regalo. A casa fechou, virou loja. Por outro lado,nas sorveterias você mergulha a colher em taças de sorvete de tapioca (deslumbrante), buriti, bacuri, cupuaçu, açaí, graviola, manga.

Quem me indicou a Cairu como o melhor sorvete da cidade foi Fafá de Belém. Opinião considerável.O Pará é terra da Fafá, da Gaby Amarantos, da Dira Paes, da Olga Savary (que está na cidade em que nasceu, emocionada,há muito não vinha), Leah Soares. E de Dalcídio Jurandir, um dos grandes escritores brasileiros de todos os tempos.

A feira deste ano foi dedicada a Ruy Barata, poeta, compositor, jornalista, político progressista, ícone paraense, homem que navegou em todas as águas. Dele é a frase epígrafe desta 17.ª Pan-Amazônica: “Eu sou de um país que se chama Pará”. Milhares de crianças vagando entre centenas de estandes. Perguntando: “O senhor é escritor?”. Correndo atrás do Ziraldo, que se intitula “o velhinho maluquinho”. Vi Ziraldo, com tremenda luxação no ombro, cheio de dores, sentar-se e autografar centenas de livros. Mais do que profissional, ele ama o que fez e adora ver ameninada em torno.

Certa noite,fomos jantar nas Docas, olhando o rio de frente.Chegavam homens feitos querendo tirar uma foto com o “menino maluquinho”. Chegavam também jovens querendo uma foto com TonyBellotto, que tinha acabado de fazer uma bela fala sobre seu romance Machu Picchu.Depois,elas viravam para mim:“ E o senhor é alguma coisa?”.Respondi com a maior seriedade: “Não, sou apenas pai do Bellotto”. E elas: “Não precisamos tirar fotos do senhor, não?”. Felizes com minha negativa, partiam, ruidosas, enquanto voltávamos ao filé de filhote, peixe delicioso, com risoto de pupunha e jambu, e ao pato com tucupi. Belém é sabor e é necessário comer, de preferência à noite, no Mangal das Garças, parque nascido à beira- rio,cheio de pássaros, tartarugas, borboletário. Iguanas verdes, figuras pré-históricas, vagueiam pelos gramados.

Tomei um avião e cheguei a Marabá 50 minutos depois. O nome da cidade vem de um poema de Gonçalves Dias. Região ligada à siderurgia e celebrizada pela Serra Pelada. Estudantes e professores se juntaram no Cine Marrocos para conversar com escritores. É a Pan-Amazônica expandida. A feira não acontece apenas em Belém, vai ao interior, agrega, abre-se às populações. A ideia avança pelo Brasil. A fotógrafa Elza Limame contou que esta “feira fora de feira” nasceu após a leitura de uma crônica, aqui, minha no jornal, falando de Fortaleza, da bienal fora da bienal, quando autores vão aos bairros e às cidades do interior. Andressa Malcher, coordenadora,apanhou a ideia no ar e desenvolveu.

Sentei-me no palco ao lado de Ademir Brás, jornalista, advogado e poeta de primeira linha. Ele descreve sua terra, a gente, as paisagens, o Rio Tocantins,manso e largo, silencioso. Pequenas casas coloridas inclinam se para as águas. A poesia de Ademir oscila entre a ternura e a indignação, com ritmo e afeto. Por ele e pelos jovens, soube do Pará.E contei das coisas de cá. Porque tanta gente de talento como Ademir não chega ao Sul? Onde fica o muro que nos separa?

terça-feira, 19 de março de 2013

Terça só com poesia: "Miss Tempestade"

Miss tempestade não tem tempo
O cinza avança sobre o azul
Hieróglifos elétricos riscam o céu.

Escreva, miss Tempestade
Que esse dia branco é seu
Despenque sobre esse vazio
Preencha o silêncio de Deus

Escreva, Miss Tempestade
Não contemporize a sua intensidade
Dói em mim uma dor estranha e não há osso músculo nervo
Que me diga seu nome

Dor assim eu carrego com calma
Sem medalhas gazes anestesia
Àlibi algum alivia minha alma
Dor assim eu carrego com charme
Doendo mais que a lâmina dos dias

Ter a alma durando no tempo
Durando como duram as dunas
As dores levadas pelo tempo
Nenhuma dor durando inteira
Como as pedras duras
um dia acordam dunas

Ricardo Corona, poeta paranaense

Terça, só com poesia!


"Eu não tinha este rosto de hoje, 
assim calmo, assim triste, assim magro, 
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força, 
tão paradas e frias e mortas; 
eu não tinha este coração que nem se mostra. 
Eu não dei por esta mudança, 
tão simples, tão certa, tão fácil: 
Em que espelho ficou perdida a minha face?"

segunda-feira, 4 de março de 2013

Plágio à vista!!!


Fiquei muito curioso com a polêmica envolvendo os livros Max e os Felinos (do falecido escritor gaúcho Moacyr Scliar; 1981) e Life of Pi (do canadense Yann Martel; 2001), celeuma esta reverberada pelas recentes estatuetas do Oscar (quatro!) recebidos pelo filme homônimo Life of Pi.
Sem qualquer pretensão literária e imerso em simples curiosidade, passei à leitura, inicialmente do Max e logo em seguida do Pi (este optei por ler em inglês, apesar de haver edição em português recente da Rocco).
Fiquei pasmo com o número de "coincidências", e incrédulo com o fato de Scliar nunca haver processado Martel.
Fuçando um pouco, tive alento (mínimo, é bem verdade) ao descobrir na Folha de São Paulo que o escritor gaúcho pelo menos pensou em processo lá pelos idos de 2002, quando Pi virou um best seller em escala global.
Acabei descobrindo, para minha tristeza, que no mundo maravilhoso do multimilionário mercado editorial muitas situações também terminam em acordos velados na pizzaria.
Pois desta minha experiência de comparação entre as duas obras, acabei ficando apenas com um gosto residual amargo de derrota e injustiça.
E nada mais.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Oscar pré-colombiano



Junto com a notícia da exclusão do filme brasileiro O Palhaço da disputa pelo Oscar de melhor  filme estrangeiro (já esperada, segundo Ana Maria Bahiana), veio ontem a confirmação da indicação da produção norueguesa Kon Tiki, cuja pré-produção eu vinha seguindo atentamente.
Quem gosta de literatura náutica ou de aventura certamente já leu o memorável livro homônimo, cujo nome homenageia a jangada da épica expedição feita por Thor Heyerdahl em 1947, que lançou-se no Oceano Pacífico da costa do Peru em direção à Polinésia.
Talvez esta tenha sido uma das últimas viagens científicas de uma era "romântica" e acabou por comprovar a tese de que o homo sapiens chegou às ilhas do oeste do Pacífico via América do Sul, cerca de 1000 anos antes da chegada de Colombo ao continente americano.
Espero que o filme (que dificilmente passará aqui em Belém) traduza bem as reflexões de vida tão cristalinas no livro.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Soror saudade

Florbela d'Alma da Conceição Espanca nasceu e morreu num 8 de dezembro, como hoje. A poeta portuguesa  entrou em cena em 1894 e se retirou em 1930. Muitos a consideram modernista, apesar dela ter se mantido longe de Fernando Pessoa & companhia. Como diz a crítica literária Natália Correia: "Sacerdotisa do Eterno Feminino, Florbela auto-marginalizou-se dessas vanguardas que parecem desmentir as antiguidades poéticas. ( prefácio do «Diário do Último Ano»).
No Brasil, foi o compositor e cantor Fagner que, no final dos anos 70, nos revelou Florbela ao musicar Fanatismo, um dos sonetos de amor mais radicais da história da Literatura mundial.
Este ano, o cineasta português Vicente Alves do Ó lançou Florbela, o filme-biografia, com produção apurada, que foi um dos sucessos de bilheteria na Terrinha. Comprei o DVD numa promoção do jornal O Público, mas ainda não vi.  Talvez o faça hoje, dia de Florbela. Aqui, vocês tem o trailer.