Mostrando postagens com marcador Colaborações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Colaborações. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 4 de abril de 2012

VER-O-TRAUMA: para se ver no trauma o peso da violência

Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh! quanta matéria para os jornais.
[...]
Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia...”

Carlos Drummond de Andrade, em: o necrológico dos desiludidos do Amor

Quando Caim, no relato de Gênesis, desferiu uma pedrada no cocuruto de Abel, causando traumatismo craniano, bem ele sabia (“disque” nem se arrependeu) de se ter consumado o primeiro ato de violência fatal da história bíblica. Caim, resultado dos anseios eco-sexuais de Adão e Eva, deu início a uma doença que se tornaria epidemia nos dias de hoje: os traumatismos. Assim começa a história do Trauma para os cristãos, essa doença infernal capaz de invadir e acorrentar até coração de poeta.

Trauma é doença fruto da violência, ação física qualquer sobre o corpo. Constitui grave reflexo na saúde pública (... e bíblica, conforme as lápides de Abel e Jesus). É a principal causa de morte na população jovem. “O enfrentamento dessa doença vem sendo realizado por diversos setores da sociedade, incluindo os profissionais de saúde e governantes”, diz Gustavo Fraga, Cirurgião e Professor da UNICAMP, no Livro TRAUMA (Panamerican Trauma Society, editora Atheneu, 2010).

Assim como Fraga, esse parceiro de itinerário, também, por diversas vezes, já nos deparamos com as inclinações do jornalista paraense Elias Ribeiro Pinto acerca do tema. Na crítica social contumaz, “Matadouro a céu aberto” é seu jargão jornalístico preferido para nocautear os que insistem em olhar-de-banda para Belém. Também é o jargão que ele mais se atém e mais lhe dá comichão. Portanto, Ribeiro, das ribeiras de seus vocábulos sai sua senha para se juntar ao Fraga e fazer parte de um grupo de embriagados idílicos que buscam, agora, discutir essa doença no âmbito transbelenense veropesista, como diria o personagem sucupirano Odorico Paraguassu, numa das barracas do mercado do Ver-o-Peso, sob o sol do Equador, levando dois dedos de prosa com Dalcídio Jurandir e degustando um peixe-frito à moda da casa.

Consoante à violência urbana que exanguina as grandes cidades e depleta Bancos de Sangue, assim como eminente necessidade de atualizações médico-científicas nesta área, em junho deste ano (20, 21 e 22), realizar-se-á em Belém um conclave médico, o VER-O-TRAUMA, de abrangência internacional. Três são os convidados internacionais: Antonio Marttos (Miami, EUA), Oswaldo Borraez (Bogotá, Colômbia) e Alberto Garcia (Cali, Colômbia), além de outros convidados nacionais e locais de mesmo quilate, todos envolvidos com a doença trauma (A Colômbia de Cali e Bogotá, foi um “Matadouro a céu aberto”, lembram?). Objetivo é não só discutir, mas “importar” técnicas operatórias e conhecimento, assim como divulgar o nosso trabalho, com ênfase ao Metropolitano, hospital de referência.

O evento será direcionado não só a cirurgiões e médicos de especialidades afins, mas também a alunos do curso de medicina, enfermagem e demais áreas da saúde. A Liga Paraense do Trauma (LPT), composta por estudantes com perfil para lidar com emergência médica desde a fase embrionária de aprendizado, terá oportunidade única de participação.

* ROGER NORMANDO, amigo, cirurgião torácico e colaborador frequente do blog

sexta-feira, 16 de março de 2012

Imagens que surpreendem o dia-a-dia

Ana Isa Van Dijk*

Há 10 anos moro em uma pequena vila no interior da Holanda (Houten), e neste tempo, que parece longo, ainda me flagro em encantamento com coisas ainda inusitadas para meus olhos brasileiros. Ontem fez um dia lindo neste final de inverno. Típico de primavera, à tarde abriu um sol encantador convidando a temperatura a chegar aos 14C que estimularam um grupo de crianças de curso primário a ensaiar ao ar livre alguns ensinamentos de sala de aula. Algo em torno das duas da tarde ouvi um fuxico de vozes animadas no jardim público em frente da minha casa; corri pra janela e flagrei estas imagens:

Foto 1- Duas crianças com coletes e bastão com garras (iguais aos usados por funcionários da limpeza da prefeitura), coletando eventual “lixo” presente no gramado público. (Imagem: Ana Isa Van Dijk via iPhone)
Foto 2 - Aqui um dos garotos carrega nos ombros um saco plástico para coleta. (Imagem: Ana Isa Van Dijk via iPhone)
Foto 3 - Pouco depois percebi tratar-se de uma turma inteira a desempenhar a tarefa da limpeza urbana de ruas e jardins. (Imagem: Ana Isa Van Dijk via iPhone).
Foto 4 - Imagem: Ana Isa Van Dijk via iPhone.
Foto 5 - Imagem: Ana Isa Van Dijk via iPhone. 
Foto 6 - Imagem Ana Isa Van Dijk via iPhone.


Fotos 4 e 5 e 6 - Mais adiante os professores esperavam as crianças e pareciam conversar com elas sobre a tarefa desempenhada.

Não deu pra ouvir o que se passava entre os professores e aquelas crianças, mas minha imaginação correu solta, lembrei de Belém e de meu velho sonho sobre educação comunitária nas escolas fundamentais. Um dia quem sabe, a gente chega lá...

Ana Isa van Dijk

Houten/Holanda, 15 de março de 2012.


*Ana Isa Van Djik é arquiteta paraense, Brasileira com muito orgulho sem jamais perder seu valioso senso crítico, casada com Henk Van Djik, tem duas filhas e mora em Amsterdam. Além disso, é contemporânea dos tempos do NPI/UFPA com este poster.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Apple Store Amsterdam - EXCLUSIVO da Holanda para o Flanar

Nossa querida amiga Ana Isa Van Djik -  há anos residente na capital holandesa - esteve neste Domingo na Apple Store Amsterdam inaugurada no dia anterior. De lá, gentilmente, ela envia com exclusividade para o blog suas impressões, com muitas imagens feitas de seu estimadíssimo iPhone 4. 
Desde já, o blog agradece a valiosa contribuição de Ana. 


The Apple Store Amsterdam

Ana Isa Van Djik*

A loja fica no mais badalado point da cidade, a Leidseplein - largo de bares e restaurantes agitadíssimo 24/7! Só pra situar a imponência do endereço, a loja é vizinha dos museus do Van Gogh e Rijksmuseum - (onde se vê “A Ronda” de Rembrandt), o Hard Rock Café Amsterdam, o Bulldog Bar (fornecedor famoso de prazeres proibidos), a P.C. Hoofdstraat (uma espécie de dutch Rodeo Drive) e o Holland Casino. Tudo peso pesado do comércio local. O prédio em si é deslumbrante, até pouco tempo abrigava o ABN AMRO Bank cuja saída cedeu lugar a duas pérolas do sonho de consumo atual: na esquina a loja da Apple e ao ladinho a loja do Mini Cooper! Se passar por ali, tem que entrar!!!

Imagem: Ana Isa Van Djik (via iPhone 4)
Fruto de um trabalho de restauração primoroso até nos detalhes, o prédio de linhas clássicas oferece amplas janelas de vidro abaulado emprestando um ar futurista que em tudo combina com o interior minimalista e elegante, que te recebe logo de cara com a escada de vidro de Jobs (descrita em detalhes em sua recém lançada biografia). A foto diz tudo.

Imagem: Ana Isa Van Djik (via iPhone 4)
A impressão que se tem é que se sobe ou desce no ar, peça arquitetônica que eu diria tratar-se de uma “State of the Art”!

Imagem: Ana Isa Van Djik (via iPhone 4)
A loja ocupa dois andares e impressiona pelo tamanho, é enorme! Alvíssima, de decoração e mobiliário tem muito pouco. Algumas mesas de madeira leve servem de apoio para expor todos os produtos da empresa feitas de diversos tamanhos e alturas para acomodar com o mesmo conforto e importância adultos e crianças!
Imagem: Ana Isa Van Djik (via iPhone 4)
Imagem: Ana Isa Van Djik (via iPhone 4)
Para olhos mais atentos o ambiente impressiona também pela pujança tecnológica e poderio econômico da marca. Nas pouquíssimas paredes, grandes telas digitais com material informativo sobre produtos e temas de interesse de applemaníacos. Não há uma só folha de papel circulando pela loja, tudo absolutamente tudo é digital e exposto nas mesas via iPads fixos.

Imagem: Ana Isa Van Djik (via iPhone 4)
Imagem: Ana Isa Van Djik (via iPhone 4)
Imagem: Ana Isa Van Djik (via iPhone 4)
Imagem: Ana Isa Van Djik (via iPhone 4)
Imagem: Ana Isa Van Djik (via iPhone 4)
Muitas pessoas trabalhando (de camiseta azul)! Em tempos de crise européia e filosofia liberal, a força econômica da empresa é desafiadora... No mais, há uma diversidade fantástica entre os tipos e biotipos contratados: jovens, pessoas maduras, homens, mulheres, punks, tatuados, nerds, loiros, morenos, chinos, negros, hindus etc, o grupo é bem representativo dos habitantes da cidade. Estes mesmos funcionários te dão as boas vindas, explicam como funciona, e ministram workshops temáticos ali mesmo, no espaço da loja.
Imagem: Ana Isa Van Djik (via iPhone 4)
Outra coisa curiosa: não se vê em canto algum os famosos “Caixas” para pagamento de compras. Todos os atendentes circulam com um iphone mais robusto nas mãos que são registradoras ambulantes, quer dizer, você escolhe qualquer coisa como num supermercado, e paga enquanto circula pelos salões!

Imagem: Ana Isa Van Djik (via iPhone 4)
A loja oferece praticamente todos os produtos oferecidos na internet e ainda outros de fabricação exclusiva com as marcas da cidade - a ver, capas e bolsas para iphone e Macbook Air com a logo de Amsterdam.
Imagem: Ana Isa Van Djik (via iPhone 4)
Imagem: Ana Isa Van Djik (via iPhone 4)
A Apple Amsterdam oferece treinamento personalisado para os clientes interessados, assistência técnica local, e com o pagamento de €99,00 por ano, o cliente passa a ser convidado a participar de todas as atividades (workshops, palestras e treinamentos) organizadas. Enfim, a loja é um show e está longe de desapontar em qualquer quesito. Eu diria que é tão linda e impecável como os produtos que oferece. Melhor que isso, só vindo aqui conferir!

 Ana Isa van Dijk

Amsterdam 2/Mar/2012

*Ana Isa Van Djik é arquiteta paraense, Brasileira com muito orgulho sem jamais perder seu valioso senso crítico, casada com Henk Van Djik, tem duas filhas e mora em Amsterdam. Além disso, é contemporânea dos tempos do NPI/UFPA com este poster.




Leia também o que já foi publicado sobre o assunto:

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Djokovic x Nadal

Saul Rassi*

Pense bem e responda, você alguma vez já pode contemplar uma atividade humana realizada em sua máxima exuberância, beleza, esmero e dignidade? Caso você já tenha presenciado tal fato, por quanto tempo você foi testemunha desse momento?
Pergunto isso porque foi exatamente o que aconteceu no último dia 29 de janeiro quando ocorreu a final do Austrálian Open de Tênis entre o sérvio Novak Djokovic e o espanhol Rafael Nadal (respectivamente número 1 e 2 do mundo). 
Esses Super Homens jogaram um tênis da mais alta qualidade, não disputavam dinheiro ou fama, isso eles já têm até demais, almejavam algo mais nobre, perpétuo e inestimável, eles jogavam pela glória do esporte, algo cada vez mais raro no nosso querido futebol mas que ainda sobrevive em outras modalidades.
Rafa e Djoko jogaram por exatas 5 horas e 53 minutos, demonstraram o tempo todo profissionalismo, vigor físico, técnica apurada e acima de tudo a emoção que emanava de suas raquetadas. Houve um vencedor (mesmo que digam que em uma partida como essa não existem perdedores) e este foi o sérvio com parciais de5/7;6/4;6/2;6/7 e 7/5 dessa forma aumentou a freguesia que tem em relação a Nadal (eles disputaram exatas 7 finais   de 2011 até agora e o espanhol perdeu todas).
Para aqueles que não são familiarizados com o tênis gostaria de dizer que é um esporte que se baseia principalmente na precisão dos golpes, técnica e estratégia de jogo e principalmente concentração e foco para manter as três primeiras. Percebe como é difícil manter isso por quase 6 horas e sempre em alto nível???
Nadal é conhecido como El Touro, pois não tem uma técnica apurada, porém sua concentração e determinação são sobrenaturais, a derrota para ele não é uma opção pois a única condição aceita é sobrepujar o adversário, nenhum tenista conseguiu ser melhor do que Rafa nesse quesito e é por isso que ele é o que é no mundo do tênis, um cara que intimida pelo olhar e pela maneira como corre e devolve todas as bolas (até mesmo as impossíveis).
Novak era um bom tenista até o ano passado, nada além disso, não conseguia fazer frente a Nadal e Roger Federer (considerado o melhor tenista de todos os tempos, ainda que seja bastante discutido isso) e eventualmente perdia para jogadores de nível técnico inferior porém, conseguiu o que para muitos é extremamente difícil, melhorar todos os seus pontos fracos a ponto de se aproximar da excelência em quase todos principalmente onde Nadal é mais forte: a concentração e a disciplina tática. Dai seu grande feito, superar aquilo que definia o Espanhol e virou a sua principal referência: a garra, determinação e força de vontade em ganhar as partidas
No domingo, os amantes do esporte que puderam assistir a essa partida, podem ter a certeza de que presenciaram um daqueles momentos que se tornarão  referência para a humanidade em diversos aspectos,  certamente daqui há 100 anos irão comentar sobre como dois esportistas conseguiram levar às lágrimas milhares de pessoas de diferentes nacionalidades, envolvidas em um jogo de tênis que serviu como reflexão para outros aspectos da vida.

*Saul Rassy é Fisioterapeuta, meu amigo e inaugura hoje sua primeira contribuição ao Flanar.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Sesta de fim-de-ano



"Francisquinha acordava cedo, arrumava o quarto, chegava, até algumas vezes, a recolher os bacios, e realizar algumas outras tarefas subalternas, exclusividade das serviçais e crias da casa. Na hora da sesta, quando todos se recolhiam, descia para a sombra da cajazeira, ao lado do açude, que tinha um galho rés ao chão, perfeito para sentar e balançar. Discretamente levava um livro, agora com o apoio de Titonho, ele proprio chegado às letras. Dessa feita, chegou a ganhar, dele mesmo, Titonho, três livros que trazia como tesouros no fundo da maleta de couro cru. Os Miseráveis, em três volumes, Os Sertões e Ideias de Jeca Tatu, recem-lançado em Fortaleza, e considerado fraco pelo tio, que nem chegou a ler…"





Caros sextantes,
Começo com um párêntese: (Peço desculpas mais uma vez por mais este
atraso. Foram muitas mensagens que chegaram me cobrando a tal da
"Sesta da Sexta", mas é que estive em Macapá em missão hipocrática e
se só pude retornar agora, sábado).

Fecha parêntese.

A "Sesta da Sexta" finaliza o ano na carona da Câmara dos Deputados e
o Senado Federal, para solicitar um recesso. Voltaremos em Janeiro,
junto com os políticos, afinal de conta não é tão fácil assim ficar
pensando, toda sexta, o que tenho para escrever... ou transcrever.
Manoel de Barros diria: "transver".

Vamos ao que interessa. A "Sesta" deste fim de semana vem da prosa,
pois arremata uma passagem do livro "A Batalha do Riozinho do
Anfrísio", de autoria de André Costa Nunes. O Objetivo é valorizar o
descanso, ou melhor, uma boa sesta, (ou recesso) desde que regada a
leitura. Ou como diria Djavan: "Um dia frio. Um bom lugar prá ler um
livro." Eu e o Djavan sugerimos ler o André. Um livro que tem como
pano de fundo a natureza viva do Rio Xingu e a Cidade de Altamira da
época da Borracha. É uma excelente dica. Quem quiser adquirir esta
bela obra, que tem prefácio de Lucio Flavio Pinto e "orelha" de Pedro
Galvão, basta ir até o hospital Porto Dias (Isso mesmo!), 9o andar,
Bloco B e adquirir com o André Nunes "Filho", pneumologista dos bons
(aliás a tuberculose é citada em várias passagens do livro). Custa
mais barato que na Saraiva. Aproveitem.
Feiz Natal. Bom 2012.

Roger Normando

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

NÃO


NÃO


Roger Normando



Não olhe pros meus olhim

não mano que eu desfaleço […]

que eu amo como as galças, guarás e corredeiras

deste um nosso cartão postal

Pará gente estrangeira […]


não venha de surpresa

nem mande aí meu amigo

aviso na flecha do vento […]
não toque nos meus guardados

não corra a mão traquina […]

(Ronaldo Silva e
Walter Freitas em: Bichim, do CD Farois)



Desde quando
começou esse “pega” para dividir o Pará, de imediato me deu uma cuíra de
escrever sobre essa ladainha que, a cada dia, aqui-e-ali ressurge numa
discussão sobre o que é melhor (ou pior...). Na televisão, nem se fala. Parece até
que Belém é Berlim dos tempos de guerra e a Terra firme é o Alemão dos tempos
de Caveirão. A discussão tomou um rumo que mais beira revanchismo a propriamente
uma discussão multicultural ou até mesmo geopolítica. O cidadão desavisado vai
ficar parece cego em tiroteio: não sabe para onde atirar, ou melhor, para onde
destinar seu voto.


Entretanto o
que mais me dói é ver políticos falando asneiras sobre as regiões mais longínquas
das terras papa-chibés. Até parece que eles acham que nós, aqui da capital,
somos um bando de ocidentais desavisados que acabou de chegar morcegando a nau
de Cabral. Fala-se em dinheiro com tanta promiscuidade, como se o vil metal já tufasse
no bolso de cada um. “Valha-me Deus! Te acelera Celestino”, como canta o Paulo
André Barata.


Eu já tive a
grande felicidade de trabalhar no Hospital Regional de Santarém entre 2008 e
2009. Lá vi coisas maravilhosas que me davam prazer de operar pulmão. Introduzimos
a cirurgia torácica de alta complexidade pelo SUS, realizando operações até com
mais seguranças, se compararmos alguns hospitais públicos de Belém. Desde bons
anestesiologistas a médicos intensivistas, o Regional dispunha. Também tem neurocirurgia,
oncologia cirúrgica; Só não tem Cirurgia Cardiovascular. Os instrumentais cirúrgicos
são apropriados; o armário de videocirurgia é de dar inveja em qualquer
hospital público do Brasil. É certo que algumas coisas precisavam (ou ainda
precisam) ser azeitadas, pois ainda é começo. Daí me vem um político falar na
televisão alardeando que lá não tem condição. “Peraí!!!” Menos, Sr. Fanfarrão.


Voto NÃO. Mas
voto antes da Fafá, Dira e Ganso. Voto por causa do Walter Freitas e do Ronaldo
Silva. Este um foi meu velho parceiro dos tempos de noitadas no “Porta de Casa”
e, por aí, com o Baldez. Uma vez esses dois, Ronaldo e Walter-Cantor,
escreveram um troço sobre o Pará que ninguém percebeu, mas carrega a verdadeira
poesia do NÃO ao divisionismo. Até acho mais bela que a poesia do Ruy Barata
quando diz, em Porto Caribe: “Eu sou de um país que se Pará, que tem no Caribe
seu porto de mar”. “Bichim”, essa que tanto celebro cuja parte da gigantesca
letra está na epígrafe, supera a dos Baratas pelo veneno crotálico na ponta da
flecha: “não toque nos meus guardados; não
corra a mão traquina”. Com um vocabulário marajoara (terra de Ronaldo) apimentado
e texturizado que muito se aproxima a Dalcídio Jurandir (também marajoara), a
cantiga é uma cacholeta na orelha esquerda dos patriotistas divisionistas que
querem se apropriar da história dos cabanos.


Ouçam “Bichim” e não arredem os pés de seus
ideais. Também se segurem na cadeira para não sair dançando por aí, pois, além
do vocabulário dalcidiano, existe esse efeito colateral.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Sesta da sexta com Antônio Maria de Bragança


A manchete do jornal sangrou a manhã: "Garota de 14 anos assalta com arma em Marituba."
Na padaria, o jovem provocou o idoso:

"O que o senhor acha?"
O idoso falou, manso e claro:

"Queria que a manchete fosse: Garota, assaltante, de 14 anos não fará 15."

Dois carecas, por favor.

Autor: Antônio Maria, Quintante, em 30/11/11

Foto: Wagner Almeida, "Diário do Pará", em 30/11/2011







Queridos sextantes,
O fotógrafo Wagner Almeida “leu” e o Antônio “fotografou” a SESTA DA SEXTA desta semana.
No verbo realista de “nosso” quintante Antonio Maria, o "cabeça" das quinta-feiras na “Quinta da poesia”, revela-se em cores vivas a cena do cotidiano que nos faz silenciar: o empilhamento de cadáveres tingidos de vermelho rutilante, nas esquinas onde moramos. Com um detalhe a mais: a faixa etária. Demonstra-se homens cuja taxa de ACTH (hormônio do crescimento) ainda está elevada, se fizermos uma análise bioquímica daquele sangue escorrido para o esgoto.
Quando Antônio nos escreveu esse nanoconto, nesta quinta, eu ainda procurava uma voz para a manchete de “O Diário do Pará” do dia anterior. Não temos como nos esquivar, sob o selo da hipocrisia, das páginas policiais de nossas folhas. É o assombro. Para aliviar o cenário, salpiquem um pouco de poesia neste caldeirão da vida. Pode ser que assim pegue gosto.
Um bom fim de semana.

Roger Normando

domingo, 27 de novembro de 2011

Cara de pau

Rita Soares

A mulher do cara no banheiro, ele dando uma de galã, pedindo meu telefone. Fiz cara de solidária e perguntei? Alguma emergência? Claro pode usar à vontade. E entreguei o aparelho para ele. 
A cara de ódio dele não paga minhas contas, mas vai me fazer rir uns três dias. Ai, ai tem dias que fico tão orgulhosa de mim.

* Rita Soares é jornalista do Diário do Pará. E gentilmente, autorizou a publicação deste texto no Flanar.  Meu sincero agradecimento a amiga, com votos de vê-la mais vezes por aqui.

Fato Verídico

Rita Soares*

No bar: chega o momento da carência, quando as amigas começam a ligar para aquele velho amor. Uma amiga super bem intencionada (e bêbada) liga para o pretendente da outra e grita:
- Ei fulano? Por que tu não ficas com a fulana?
O cara deve ter dito : não dá, etc.
A amiga (bêbada) Insiste:
- Porra a fulana é ótima!
Um homem lindo se levanta no bar e diz:
- Ei , deixa que eu fico com a fulana.

FIM

"Às vezes a vida real é tão fofa".


* Rita Soares é jornalista do Diário do Pará. E gentilmente, autorizou a publicação deste texto no Flanar.  Meu sincero agradecimento a amiga, com votos de vê-la mais vezes por aqui.

sábado, 9 de julho de 2011

“The Doors”, Jim Morrison e a Bossa Nova: em mim o rock errou

Roger Normando*


“Esse ritmo tipicamente brasileiro é bem visível na pulsação da minha bateria; Os músicos brasileiros influenciaram decisivamente todos os tipos de música com aquela bossa nova que falava o idioma do jazz. “
John Densmore, baterista (The Doors), no livro “Riders on the storm”

As manhãs de domingo reservo para conversar sobre música com meu filho mais velho. No domingo passado (3 de julho) ele mostrou-me manchetes de diversos tabloides estampando os 40 anos da morte de Jim Morrison, o vocalista do “The Doors”. Não faz muito tempo e o Rock, para mim, se resumia a Beatles, Rolling Stones e Elvis, mas a data merecia reflexão.
Após seguidos proseamentos comecei a perceber as vibrações do U2 e Pink Floyd. Os Doors vieram mais tarde, pois sempre entendia que a lenda Jim Morrison era maior que a própria banda e isso me deixava cismado. Depois de conhecer John Densmore e os demais componentes da banda, tudo mudou e, com o tempo, “Light my fire” começou a fazer parte de meu momento-rock e “The end” de minha poesia-rock.
Este pensamento cismado sobre os Doors cintilou quando visitei o Cemitério Perre-Lachaise, em Paris, onde está enterrado James Douglas, o Jim. Eram fãs de todo mundo psicografando nas mais diversas línguas uma mensagem saudosa na parede de seu túmulo. Eu, que havia preparado meu domingo parisiense para ver os mausoléus de Edith Piaff, Chopin, Proust, Oscar Wilde, Victor Hugo e tantos outros, deparar com uma garotada idolatrando aquele monumento, confesso, foi-me motivo de ficar boquiaberto. A prova é que coloquei minhas digitais na parede daquela catacumba como forma de expressar meu analfabetismo em relação àquele ícone. Se chuva, sol ou uma segunda demão não apagaram, está lá minha ignóbil assinatura ao mais sincero estilo “mobral”.
Já em casa tratei minha curiosidade com o filho, profundo conhecedor do Yankee jurado de cadeia por tantos desvarios, e que havia doado a alma ao Cramulhão. Uma curiosa e verdadeira informação me chamou atenção em nossa prosa, que distingue os Doors dos demais: foi saber que a banda misturou ao rock, música indiana e jazz, passando pelo blues, flamenco, cânticos tribais e até a poesia edipiana - sem esquecer a brasilidade.
Quando os Doors surgiram, o mundo ainda ouvia, por um tímpano, rajadas de metralhadora vindas do Vietnam e pelo outro, a sonoridade da Bossa Nova no tom de Jobim. O enovelamento de sons resultou num rock personalizado, percebido nas baquetas de John Densmore, de forte influência jazzística. Todos reconheciam que a Bossa Nova dava novo sotaque ao jazz, por isso foi inputada ao rock dos Doors, porém numa intensidade bem menor que o ácido lisérgico.  
Mas Jim não somente emprestou seus ouvidos à guerra, sua voz à indolência, sua veia ao LSD; foi mais além e doou sua alma à extravagância. Cantou a morte experimental em “Light My Fire” e matou o pai em “The end”, tal como o grego Sófocles. Em sentido inverso aos Beatles, que se entregaram às maravilhas da vida, como na conhecida “Obladi Obladá” e “And I Love her”.
No fundo do palco dos Doors, Densmore apimentava o sucesso “Break on Through” com sutis batidas da Bossa Nova num ritmo que proclamou de “bossa nova speed”. Esse híbrido jazz-rock os diferencia. Jamais imaginaria tal mistura e, nesse caso, foi a Bossa Nova a fração inspiradora.
Não me lembro de outro grande grupo de rock que tenha dado tanto ouvido à música brasileira. Vou perguntar a um estudioso, pois em mim o rock errou de veia e diluiu-se na minha vasta ignorância musical e artística.
Parede lateral do túmulo de Jim Morrison, onde estão minha digitais.

Ray Manzarek, o tecladista e o guitarrista Robby Krieger ao lado do túmulo de Jim Morrison (“The Sacramento bee”, em 03 de julho de 2011). Foto de Jacques Brinon / AP Photo.


*Texto de Roger Normando, médico, cirurgião de tórax, peladeiro e amigo antigo deste poster. Portanto, vade retro safardanas!

domingo, 3 de julho de 2011

Flanando num fusca azul-calcinha III*

Roger Normando
 “A vida é a arte dos encontros, embora haja tantos desencontros pela vida”.                   
Vinicius de Moraes

Imagem 1
Ontem eu me esbarrei com o amigo Scylla que, uma vez mais, cobrou-me uma fotografia do meu Fusca (aquele Azul Calcinha, de velhas crônicas postadas no “Flanar”)**. Hoje, domingo (03 de julho de 2011), quando já portava a câmera fotográfica e tinha resolvido fotografar o dito-cujo, aí nos desencontramos. Cheguei e saí um pouco mais cedo, nesse “vai-e-vem que se repete na estação”, conforme gorjeia Milton Nascimento em “encontros e despedidas”.
Resolvi, mesmo assim, registrar os rastros desse desencontro: do fusca, minha pegada aos domingos, embicado com as pegadas do Scylla (Foto 1). Tudo isso na garagem do Hospital Porto Dias. Mas, além do desencontro, um dos funcionários do Hospital, ao me ver empunhando o celular para fazer o “take” da baratinha, resolve me pedir um ensaio fotográfico ao mais anedótico estilo paparazzi... e ainda diz: -filma eu aí, dotô! Eu, sinceramente, achei que ele fosse perfilar ao lado da hipnotizante Mercedes. Ledo engano. Ele não quis. Preferiu o ex-pirento (Foto 2).
Imagem 2
Tem mais. Ainda abusou. Colocou no capô da Mercedes um copo melequento, que desconfio ter sorvete de açaí com andiroba (na foto 2 pode ser confundida com a histórica estrelinha da Mercedes). Outro funcionário viu todo aquele ensaio e, de sopapo, aproveitou para pedir R$ 2,50 para comprar uma “coca-litro” para completar o almoço da galera. Saquei do bolso o trocado todo misgalhado e, pela janela, estiquei o braço até o encontro de seus anseios. - Faltam 50 centavos. Disse-lhe ainda: – Pede ao Scylla para inteirar, quando ele voltar.
Esse texto não, mas a “inteirada”, afinal, seria a prova concreta e sem “trairagem” de nosso desencontro. Resta-nos saber, para encerrar, se o Scylla completou a coca-litro dos funcionários.

*Texto de Roger Normando, médico, cirurgião de tórax, peladeiro e amigo antigo deste poster. Portanto, vade retro safardanas!


** Flanando num fusca azul-calcinha (Março de 2010) e Flanando num fusca azul-calcinha II: a metamorfose ofuscante (Fevereiro de 2011)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Um flâneur no meio do mundo

Roger Normando*

Flanar é a distinção de perambular com inteligência Nada como o inútil para ser artístico. 
João do Rio

Bem no meio do mundo, no endereço mais fácil do planeta - precisamente na esquina do Rio Amazonas com a linha do equador - fica Macapá (Maca Pichu na língua Waiãpi, de influência Inca, segundo um amigo fonologista). A capital do Estado do Amapá, na geografia, corresponde à latitude zero, mas para o compositor Zé Miguel, Macapá fica bem no meio do mundo e lá a vida corre (beeeeeem) devagar.
Por lá também acontecem coisas incríveis que até o fim do mundo (ou começo) duvida. A história que vou contar principia ao ler a página de entrada do Blog Flanar, em que está tarjado o conceito de Charles Baudelaire sobre o termo galês Flanar: “ver o mundo, estar no centro do mundo, e ficar escondido do mundo....” Maca Pichu tem o simbolismo baudelairiano.
Ao sobrepor estes dois parágrafos, sigo minha prosa no papel de flâneur nos moldes do Rio Sena: perambulando pelas ruas de Maca Pichu a “curiar” a paisagem urbana e o rio-mar.
No sentido norte-sul, mais precisamente na Rua Jovino Dinoá, ao pegado à Cora de Carvalho, andando sobre as soleiras abandonadas numa temperatura equinocial, avistei um mercadinho que exibe uma propaganda no mínimo curiosa: “Mini box Bino - Qualidade altamente mais ou menos”.
A terra de Joãozinho Gomes e Fernando Canto agora empresta poesia à publicidade como jamais imaginaria Washington Olivetto, um dos mais requisitados agentes de propaganda do Brasil. Se Olivetto ler essa propaganda “desenganosa”, certamente ficará mirando o céu à cata de astronautas - como fiquei - e procurará interpretar - como procurei - o que o autor quis dizer com aquela idéia que mistura lealdade com gengibirra. Embasbacado e olhando para o céu, Olivetto não encontrará astronautas, levará um tombo, como ocorreu comigo, e ainda torcerá o tornozelo; ficará com uma sequela que o obrigará a usar uma bota de gesso por seis meses, como quase aconteceu comigo, se não fosse muita reza.
Deixando o paulistano de lado sigamos com a história. Após seis meses transitando de lá pra cá (Belém-Dinoá-Belém), eu resolvi levar dois dedos de prosa com Severino, o dono do estabelecimento. É um tricolor fiel, pois o conheci envergado com sua camisa verde-grená dia após a derrota do Fluminense no Uruguai pela Libertadores da América. Bino, como é conhecido o dono do negócio (e da idéia), disse que no seu mercadinho vende-se de tudo um pouco e um pouco de tudo. O lugar é meio apertado, confessa, pois entre as prateleiras abarrotadas, mal cabe um cliente. Se for gordinho então... Mas Bino guarda um humor contaminante e, provavelmente essa dádiva o motivou a emplacar o texto na lateral de seu negócio, em letras garrafais, mas em cores rubro-negras, que acabou virando motivo para contemplação de curiosos flâneurs. Apaixonado pela vida universal, Severino entra na mídia da ética como num imenso reservatório de humildade, quebrando o paradigma da propaganda enganosa - daí o regozijo baudeleiriano.
Para Bino mando muita luz; para Washington Olivetto mando flores e o desejo de melhoras para que se recupere mais rápido do quebranto lançado por seu mais novo algoz, o mesmo quebranto que de mim foi espantado ao passar no tornozelo bálsamo de andiroba com copaíba, cabacinha, cânfora, sebo de carneiro... e muita reza.

* Médico, Cirurgião de Tórax, colaborador frequente deste blog e amigo pessoal do poster.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Quando eu era moleque lá em Belém...

Alan Souza*


Quando eu era moleque, há mais de 30 anos, Belém do Pará era uma cidadezinha provinciana. Muito provinciana mesmo: corriam na Capital quase todas as superstições e estórias fantásticas do interior.


Esse período da Quaresma era um dos mais ricos em superstições religiosas - e suas respectivas proibições. Por exemplo, muito colega e vizinho meu achava que se dançasse durante a Quaresma iria ficar com o pé redondo. 

Na Sexta-Feira Santa, porém, é que imperavam os mais poderosos mitos, não se podia fazer quase nada, pois praticamente tudo era pecado: brincar, fazer barulho, ouvir música, era quase tudo proibidíssimo! 

Durante as Três Horas da Agonia (do meio-dia às três da tarde), então, era melhor ir dormir mesmo: até assistir TV quietinho nesse horário era pecado mortal! A gente não saía de casa nessa hora nem pra dar uma espiada n a rua - também, se olhasse não via nada, estava todo mundo trancado em suas casas...

Em compensação, no dia seguinte, Sábado de Aleluia (nunca entendi por quê "Sábado de Aleluia", aleluia por Jesus ter morrido?), tinha um programa que eu adorava: havia o hábito de visitar sete igrejas. Eu sempre gostei daquela movimentação, do furdunço, e como sempre gostei de história adorava ver aquelas igrejas antigas por dentro, as estátuas, as pinturas, a arquitetura...

Na Sexta-Feira Santa tinha também o jejum de carne. O prato do dia era bacalhau, mas só pra quem tinha bala na agulha, pois era caríssimo naquela época, muito mais do que hoje. E sempre que chegava essa época o preço do peixe em geral subia muito, já que não se podia comer outra coisa (lei da oferta e procura!). Aí os pobres jejuavam à força mesmo, já que a carne e o frango ficavam baratinhos, mas ningu ém podia comer...

O que não faltava era estória de assombração nessa época. Perto de casa tinha uma igreja, São Raimundo Nonato, onde se dizia que aparecia depois da meia-noite um fantasma dum padre sem cabeça, rondando o pátio em volta da igreja. Eu tinha muita curiosidade de ver o fantasma, mas obviamente não havia ninguém que se dispusesse a me levar de madrugada na igreja...

Hoje em dia não tem mais nada disso. Todo mundo viaja e não tem tempo de visitar sete igrejas, ou pra se preocupar com o silêncio na Sexta-Feira Santa. A própria Igreja liberou o povo do jejum de carne, e as assombrações fugiram pro meio do mato, assustadas com o crescimento e a violência da cidade grande que virou Belém...


* Alan Souza é paraense, radicado em Brasília e colaborador muito antigo do Flanar. É titular do blog Blogosfera - Mídia e Política na Rede.