terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Flanando num Fusca azul calcinha II: a metamorfose ofuscante


Roger Normando

Já grifei em outra crônica que o carro, não o cão, é o melhor amigo do homem (Scylla Lage, 2010). Portanto, optei por escolher o fusca como o “amigo para sempre”, dada a curta convivência de uma desajeitada história de preconceito pela feiúra.
O visgo que me prendeu à “fuqueta” não foi o brilho azul-papão, tampouco por ter a mesma cor da Ferrari 1965 de John Lennon, mas tão somente a rejeição ao FEIO. A aparência na lataria, apesar do motor supimpa, causava desapontamento a quem o flertava pela primeira vez. A ferrugem dos pára-choques empenados e a pintura perdendo cor deixavam em todos vasta sensação de abandono, que ia de encontro ao meu ofício. Quem me via no fusca ria, por que o riso é frouxo, medular, e às vezes a única forma lúdica de se reagir à feiúra.
Ninguém gosta de ser rejeitado, e ainda por cima, feio. Dá dó, mas confesso uma vantagem de andar no meu pirento: você nunca será assaltado - em tempos de violência é um bom despiste. Nenhum ladrão inteligente quererá roubar um cara que dirige um carro enferrujado, quase esbagaçado. Flanelinha tem pena de você. O cachê de lavagem do vidro não passa de um real e a calibração do pneu vale no máximo dois. Vá fazer isso no importado!
Mas o fusca é estrelar, já dobrou o tempo e tem até nome mundial­: baratinha, besouro (beetle, em inglês e maikafek em alemão). Foi parido nos tempos de Hitler na Gestapo e, por se assemelhar a este grupo de insetos, ganhou este codinome (algo a ver com os insetos nazistas?).   
O pedido insistente da esposa e de amigos me levou a realizar um tratamento dermatológico radical nas piras do meu fusca. Não mexi no motor, pois aí, já seria um Avatar. O reload do besouro constou de banho de oficina durante três meses. Voltou impávido e “ofuscando” a própria feiúra. Ele fez escova (no teto), lipoaspiração (nas portas), peeling (nos vidros) e ainda colocara botox no pneu e um volumoso silicone nos faróis traseiros para manter o modelo outorgado por Fafá. A guaribada demorou, mas já está no prumo e pronto pra provocar prazerosos suspiros em quem implicava com o meu Quasimodo... Os amigos de futebol vibraram com o retorno do fusca; diziam que eu tinha perdido a identidade dentro de outro carro, mas reclamaram da operação. Foi muito drástica. Comentaram que o meu besouro está socialite demais. Reconheço que a cirurgia plástica supera os desgastes da natureza e dá sobranceria à alma humana.
Essa transformação do besouro, isto é, do inseto, ou melhor, do fusca azul calcinha, fez-me lembrar da mais conhecida transformação na literatura – o conto A Metamorfose, do Tcheco Franz Kafka. Nela o caixeiro-viajante Gregor Samsa, bom garoto e ao mesmo tempo a galinha dos ovos de ouro da própria família, desperta certo dia transformado num gigantesco inseto (um besouro, pode ser, ou mesmo um fusca pirento, no meu caso) deitado sobre a própria asa e com dificuldade imensa de se locomover. A partir daí, o que realmente causa angústia não é a transformação ficcionista de Gregor, que passou a ser um escárnio para o seu tempo; perturbador, mesmo, é a mudança gradual e impiedosa nas pessoas que estão à sua volta. Era o que acontecia com o meu fusca-inseto. Todos riam de mim. Senti-me o Samsa de Kafka. A diferença entre este fusca e Samsa é que a história de Kafka é uma ficção, e a minha não é não. Talvez seja mais palatável ler Kafka, um ficcionista, do que ler este texto (e o primeiro também) realista, que revela preconceito e feiúra.
Igualmente, posso garantir que senti na pira do fusca, o mesmo que Gregor sentiu na pele de besouro.

3 comentários:

Scylla Lage Neto disse...

Égua, Roger, sou fã incondicional do seu inseto de 4 rodas!
Você teria fotos antes e depois da metamorfose para nos mandar?
Abraços

Homem do Norte disse...

Scylla,
Vou te confessar um segredo: não tenho uma foto sequer da época do pirento. Acho que com essa revelação, por sinal, faz com que até eu tenha sido uma vítima de próprio preconceito com o meu carro. Pode isso? Pode. Tanto é que só tenho fotografia dele novo.

Scylla Lage Neto disse...

Autoautopreconceito? Só o Dr. Freud pode explicar!
Mas, Roger, as fotos da nova versão já serão o suficiente.
Abs.