sábado, 18 de maio de 2019

Convite à Morte

Entre.
Fique à vontade.
São cinco horas.
Hora do chá.
Mate, Camomila ou Erva Cidreira?
Açúcar, adoçante ou ao natural?
A Sra. manda. É seu dia, seu momento.
Não lhe acompanho.
Não por falta de educação.
É que acabei de usar um remédio pra dor,
e o doutor disse pra evitar contrariedades.
Se estou esperando alguém?
Confesso que pensei convidar Deus pra esse encontro,
mas andamos tão afastados que não mais espero por Ele.
Talvez Ele não queira ouvir a penúltima blasfêmia,
ou lhe causar embaraço.
Renovo o gesto:
fique à vontade,
faça o que deve,
não se apiede de mim.
Sem pressa.
Acabe o chá.
É o tempo do último cigarro.
O que eu quero, por fim?
Recite os primeiros versos da Tabacaria.
Sim, aquela do Álvaro, ou do Fernando;
tanto faz.
O que importa agora?
Faça isso e eu vou.
Sem metafísica.

Corisco

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Beirada de praça

Em Cordisburgo planta-se conversa em todas as beiradas. Juvenal, 88 anos, homem da roça, sentava-se à porta de sua casa, defronte ao Portal Grande Sertão, enquanto eu passeava apreciando o monumento. Dei "bom dia" e ele respondeu de prontidão: "bom dia". Depois completou: "Que dia é hoje?". "Terça-feira", respondi.... "a morte esqueceu de me buscar. Bebi muita cachaça, mas estou achando que isso me fez bem". Vi boa prosa, ali. Sentei. Percebi que era cego: - "Glaucoma", respondeu. Não se intimidou e mandou mais conversa. Farto, levantei, bati a chave e saí. Tive a sensação roseana que "Primeiras estórias" nascera de prosa em beirada de pracinha e não na vendinha de Florduardo.


domingo, 12 de maio de 2019

Política

Hoje não vou falar de política.
Há coisas mais importantes.
Quero falar do azul do céu,
dos pássaros, do sol, do meu chapéu;
quero dizer que a vida é bela
sem esta ou aquela fofoca ou intriga;
quero assistir o passeio das pessoas,
das brancas, das negras e suas cores,
o passatempo dos bares
o movimento da vida.
Mas uma névoa encobre o céu, o sol
e a fuligem sujou meu chapéu;
nos jornais os colunistas ocupam tempo e espaço
com o vestido da madame,
ou o vazio que não fecha o laço.
O preconceito dita os costumes
entre falsidades e azedumes.
O bar secou,
os que interessam sumiram,
e eu me perguntei:
não há nenhuma política
que dê rumo pros homens?

Corisco.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Bendito desconhecido


...quanto ao desconhecido, amigo
posso dizer-te que é o terreno
que prefiro pisar nestes
dias confusos.

Quem tem a bússola da fé
entranhada no coração
nada teme.

Se desorienta quem esquece
de atualizar referências,
principalmente as
do coração.

Perder-se em meio a debates
em que o embate é feito
com espada de papel
nos renova!

Vez ou outra uma ideia intransigente
dura, caquética ou carcomida
cai por terra, fulminada!

Desconhecido é caminho
de descobertas.

Por isso não tenho essas pressas
de aprendizado, de conhecer tudo,
pois gula costuma nos enfastiar.

Vou brincando, assim, de recortar e colar.

Depois troco figurinhas!


(Sabá de Abadia, em dias de euforia por motivo algum, pois assim que é bom, ora porra!).

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Anotações

Palavras são postas a procura de olhares
e não há acaso no encontro de olhos e letras.
A identidade se faz presente antes,
ao tempo das navegações
nas águas maternas,
desde as notas e anotações genéticas
que dia após dia encorpam a alma.
Daí dá-se a paixão,
com a leveza das sedas,
a sutileza das fadas,
o encantamento dos sonhos,
o delírio que a sanidade empresta ao espírito
para o gozo urgente da entrega;
até que um verso torto
lhes cause desconforto
e os olhos, 
entre espantados e assustados, 
nunca mais retomem a paz.

Corisco

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Minha Praça em Bragança

Minha praça não era uma Piaza Navona, São Marcos, ou uma Praça Vermelha, mas pelo menos uma vez por ano ela superava todas as praças do mundo porque tinha preás advinhadores, carrossel, barquinhas, moças que viravam gorilas, muita garapa com pão doce e um desfile incessante das meninas mais bonitas da cidade num trottoir inspirador de poetas e vagabundos em pleno ofício de não ter o que fazer.
Minha praça teve a ousadia de confrontar uma Igreja e um bar que, soberbo e soberano, se impunha numa porfia estimulante com o templo consagrado, posto que frequentados, de forma desbalanceada, pelos mesmos personagens que pecavam em uma casa e buscavam perdão na outra. 
Duas belezas singulares. 
O bar com seus vitrais maravilhosos espelhavam os melhores sorvetes, picolés, comentários e bêbados da cidade.
A Igreja guardava imagens aterrorizantes, como a do Senhor Morto, e apaixonantes como as da Mãe do Senhor, pródigas na expiação das culpas.
No meio, arbitrando a disputa, um obelisco dividia as paixões e impedia a Casa dos Padres de se meter na luta enquanto alimentava amores, desfeitas e taumaturgos em formação.
Meus olhos acompanharam o amadurecimento e o envelhecimento da praça.
Hoje ela não me reconhece mais, mas  continua inesquecível para mim.

Corisco

domingo, 17 de março de 2019

A arte por um fio


Eu trocaria uma mina de diamantes por um copo de água pura da nascente.” 
Julio Verne, em: Viagem ao Centro da Terra (1864).

Desde quando o homem dominou o fogo as coisas nunca mais foram a mesma. Criou a religião e suas vertentes aguçadas, inventou a arte como forma de redimensionar a roda da vida, viu a filosofia como a primeira sombra de sua alma e só bem depois brechou a ciência pela luneta de Galileu.
Pelos meandros da construção desta modernidade, um sábio grego, na ilha de Cós, transformou igreja em hospital para separar a doença da religião. Inventou a cura, e o que era para ser discreto e incauto ganhou proporções atemporais.
Daí veio um francês e, com toque de gran chef, misturou gema de ovo, óleo de rosas e terebintina e untou num ferimento de guerra. Parè descobriu que a mistura provocava cicatrização rápida. Assim nasceu a cirurgia moderna recheada de arte para dar gosto e densidade à medicina.
Depois chegou a tecnologia, soltando faísca pra tudo que é ponta. Puseram a pusilânime faísca em chamas e as labaredas da ciência atearam fogo, a ponto de viajar a pontos diametralmente opostos: da lua ao centro da célula.
E depois de todos esses nuances, o Sapiens, incansável e assaz criativo, não se conformou e resolveu colocar calor até mesmo nas discussões. A verdade é que os contrapontos são os verdadeiros combustíveis às muitas faíscas que existem em nós, e quem não souber pôr a cabeça no congelador é melhor nem entrar no calor dessa discussão. Assim nasceram os congressos e os fios deste texto.
A questão é que os congressos médicos discutem cada vez mais ciência e tecnologia e cada vez menos arte. Há tendência de tê-la apenas como uma vicissitude que deve ser guardada no escaninho de cada serviço, para que em eventos ganhe a alcunha de hands on, só para soar mais contemporâneo.
Num evento recente para lançamento de determinado dispositivo na área da cirurgia, em São Paulo, um dos coordenadores flambou nossas idéias e descreveu um novo produto para suturar pulmão. Relatou que o dispositivo mecânico, independente de quem use, passa a ser equânime - seja ao jovem cirurgião, seja ao catedrático – e a costura terá a mesma estética. Com isso os resultados melhoram, a indústria tufa os bolsos e se retira a arte da ribalta cirúrgica.
Próximo de cem por cento da nossa massa cerebral, para não falar de outras vísceras menores, está consagrada à contemplação e à adoração do high-tech, deixando um mínimo espaço à turgescência da criatividade e idéias sustentáveis, por isso, a arte cirúrgica deverá desaparecer lentamente, só que o lado desumano da tecnologia é o custo, e nem todos têm acesso a essa “mina de diamante”. O evento de São Paulo foi fascinante e nos pareia com os grandes centros mundiais, mas move uma geometria piramidal que desfavorece a base, onde estão os mais necessitados - aqueles que batem à porta dos hospitais públicos rezando que sua operação seja a laser.
Mas do outro lado do país, com faísca no cérebro, firmeza nas mãos e pendor no coração, um pequeno grupo de cirurgiões do SUS vem aprimorando a arte de realizar ressecções pulmonares sem essa tecnologia toda (conhecida como OPME). Tudo na munheca - passando fio, esticando o dedo e dando nó. Se o único problema é o tempo cirúrgico mais esticado, por sua vez, esse grupo nos desafoga do caos que representa a desigualdade social em nosso país.
Havemos de estar aptos a reconhecer que a grandeza da arte cirúrgica não é apenas ego insuflado, se do outro lado da linha existem necessitados.
Por fim, não há qualquer tutorial para se criar idéias, pois vivemos de lampejos, haja vista que, perante incertezas, sabedoria é errar pela insistência, tão somente para não se desistir da vida, pois sempre há um canceroso ou um tuberculoso do outro lado da rua precisando de nossos laços e de nós.
Insistiremos com a arte enquanto houver esfomeados.

Texto do Jornal da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica adaptado para este blog

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Aos filhos de Camilo - pelo centenário da Faculdade de Medicina e Cirurgia

Rejeitando o profundo amontoado de quimeras tão antigas quanto a ilusão humana, guardando no canto do meu peito os mestres alquimistas, eu me vi sentado àquela sala, a auscultar o murmúrio da multidão que me aproxima aos cem anos de criação da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará. Eu tinha ao meu lado a doce companhia de minhas solidões quarteladas aos meus trinta anos de existência profissional e acadêmica.
Tive a impressão - coagulada impressão -, que a matéria se dissolveu em meu epicanto e se fez o corpo das coisas em forma de suspiro, de modo a toldar a janela de vidro, após cada lágrima salgada embebida pelo fio do tempo. Agora, o ramo da parábola que o relógio registrou num sextante, foi sujeito-objeto de minhas láureas, se é que existem, se é que existiram.
Vi desde a belle Époque do Zé Maria e a aquarela histórica do Ari traduzir-se em verbo. Tu que foste verbo, tu que és estado de palavra...
Depois do triunfo conjugado no púlpito – “ser ou não ser” é apenas minha questão -, finjo vestir-me do bardo e me sair moribundo pela solidão das ruas que marcam minhas pegadas pelas soleiras de Santa Luzia - aquele casarão imenso que transformou água em vinho e me tirou dos porões onde catapultei meus cadernos.
Daquele fundo partira minha orgânica vida, ignorância-mor, em tarefas de dispensário, em meio a cadáveres, que mais pareciam seres a me apresentarem o caminho de alhures. Fui bater e ouvir o barulho da cremalheira e o tique-taque de meus pulsos quando vi a primeira artéria jorrar em meus olhos e borrar minha sabedoria sobre o que nada sei. Vi indigentes que esperavam pacientemente cada manhã para ouvir o sussurro do que somos a cada página lida à sombra de uma lamparina. Nesta aplicação total, eu excluí a piedade, mas me aparelhei do novo a partir daquela esquina, de seus muros, chafarizes e folhas de um ipê-roxo acarpetando-me com ternura para que eu pudesse pisar nas veias perdidas pelas horas de sono.
Como o olho de Deus em certas gravuras, eu me vi Hipócrates à frente de Parè e tive que enterrar vivo Galeno e seu aristotelismo. Mas foi Camilo, quem se vestiu de Ronaldo Araújo, aquele cão de guarda que rosnara seus sonhos surrealistas, feitos daqui e de acolá. Começou a sair-se pelos desfiladeiros e operou espíritos com a lâmina da sabedoria, até se achegar às vísceras e tornar menos experimental o que a sociedade condenou.
Viu-se a vida de tapuios lamber a morte, mas viu-se distintos homens visitarem a biblioteca e a lousa para dar parapeito ao abismo sem cair no cadafalso.
Não, não. Ante ao decreto da morte, aquelas paredes resistiram e puseram-se de novo a escrever o grão da ciência e da arte - ó arte! -, e foste apenas vítima dos sonhadores com o olho mais longe que a linha do equador permitia,  sem tombar do corpus. Deu-se o hoje, em brados retubantes, sob as desavenças dos desertores imperialistas, que sofisticam ideias para nada dizer.
Foram-se homens, ficou o tempo apedregulhado em forma de germe, a dar grãos para que pães alimentem a fome de bem-aventurados que se vestem de branco para esclarecer que a vida não brota em cada em escalada mensurável, mas em gestos senhorio de gnomos, mesmo que custe calcular algebricamente o centenário de um caminho longevo e destemido.
Geraldo Roger Normando - Professor do Departamento de Cirurgia – UFPA.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

A dor do parto e de partir

Um amigo cirurgião do Paraná, o Vlau, em meio a uma carona, confessa-me que os filhos começam a abandonar a gente a partir do parto, quando as cremalheiras das pinças de Kelly tilintam para reparar o cordão umbilical. Depois vem a tesoura de Metzembaum e completa o serviço. Pronto: pais e filhos separados.
Eu não discordo do Vlau, apesar do magnetismo do laço familiar azougar nossos corações- Depois vai se oxidando e amadurecendo para dar vez à partida. Naquele instante, o Vlau fez minha respiração, ruidosamente, tropeçar sobre a metáfora e me deixar, de rescaldo, uma disritmia.
Aí comecei a rever que aquele cobertor deixando as pernas de fora, o nariz escorrendo, a ideia mal arrumada no caderno foram lembranças desencavernadas naquela conversa. Depois de vinte e poucos anos de convívio ao pé da casa - e a faculdade já findada-, a vida dá um sopro e eles voam com as nossas roupas e sapatos - e ainda levam algumas de nossas meias e cuecas.
Sem dinheiro no bolso arriscam-se a grandes fóruns universitários e a nossa saudade passa a ser arrematada por longas travessias, fingindo comprar açaí na esquina da Perebebuí.
E lá vamos os dois, ouro de mina, atrás de suas pepitas a serem lapidadas, pois ao brilho ainda falta muito esmeril. Portas em automático e fim de ano juntos no mesmo quarto de hotel. Um sopro - ou mesmo um ronco - para abolir o tiquetaque dos relógios e tudo vira champanhe e sete pulinhos ao mar, alhures, para brindar o novo que chega. É o plano.
[Pausa pra inspirar]
Ao descer no primeiro aeroporto e pegar o metrô já me deparo com o primeiro laço. Logo em seguida o segundo e a cidade abre os braços, como se fosse um cordial abraço ao Estevão da Tabacaria. Depois seguimos batendo perna, a prosear, e ver que o tempo os tornou mais belos e as paragens em sebos e livrarias os tornaram mais vivos. Aí uma visita ao Chiado para ver Karl Marx, Engel, Karl Popper, Carr e Paulo Freire para sentir o gosto da hóstia que comungamos.
[Pausa pra expirar]
Por Londres o inverno deixa a cidade fosca. O céu é baixo, pois o sol passeia no outro hemisfério. A luz leve não deixa sombra. Tirar a mão do bolso é banhar-se no Ártico, trincando ossos, tendões e nervos, dificultando as passadas. Sigo ao lado dos rebentos em caminhadas sobre soleiras de universidades, jardins, museus e livrarias, com direito a uns espirros pela friagem. Às quatro horas a escuridão começa a invadir nossos passos e damos-por-visto depois de achar um Dickens de 1867 e reler Sophia Andresen ou alguns livretos da Oxford Press. O final do dia é regado a vinho e conversas acadêmicas, até o sono bater.
A vida por esses trópicos tem ritmo erudito, pois um Nobel visita a sala de aula como eu visito as canções do Paulo e Ruy Barata.
[Apneia]
A respiração paralisa quando já é tempo de nos separarmos. A volta dói mais que espinha de peixe riscando a goela. Aquele tilintar dos Kelly visita a memória e se converte na sonoridade de uma velha canção do Milton. A despedida na estação me faz ter a sensação de “gente que chega pra ficar e gente que vai pra nunca mais…”
Adiante, ao sentar no trem após a última oração, a vista turva. A baixa temperatura gera uma perda de visibilidade e os óculos embaçam, mas ainda consigo ler que estamos chegando a Gatwick - e mais a frente o Tejo. É o caminho se encurtando e a gente deixando, ao longo da viagem, sulcos em nosso órgão mais afetivos.
Foram-se os meninos ficaram os homens, seus livros, suas ideias e a esperança de um mundo justo, acomodado em suas mochilas carcomidas pelo desafio. As lembranças ficaram pelos muros de Coimbra, Sussex, Minho, Oxford e Cambridge, regadas a discussões sobre ética a Nicômaco, o próximo governo e, por que não (?) o futebol.