Mostrando postagens com marcador Patrimônio Cultural. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Patrimônio Cultural. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Adiós La Brugeoise

Como nossa correspondente na região do rio da Prata, Erika Mohry, anda num tour volta às raízes (ver o post Conciliações Possíveis), tomo a liberdade de escrever sobre mi Buenos Aires querido. Mais precisamente sobre a grande repercussão aqui na Bélgica da retirada dos velhos trens da linha A do metrô (Subte, como dizem os portenhos) da capital argentina.


 É que esses trens são conhecidos como La Brugeoise, nome da fábrica onde foram feitos entre 1913 e 1919, aqui no bairro ao lado de nossa casa, em Brugge. (Foto abaixo, feita ainda em Brugge antes da entrega dos vagões). Tive o privilégio ao visitar duas vezes Buenos Aires de  andar nesses lindos trens, com interior de madeira em estilo art-déco.

 Pena que eles saem de cena, apesar dos protestos. Abaixo, a foto atual de La Brugeoise, em Brugge, que virou, em parte,  um centro de eventos, mas que ainda preserva os grandes galpões que abrigam a  fábrica de veículos de transporte coletivo, agora de trens e trams,  da Bombadier.


domingo, 30 de setembro de 2012

O Surrealismo do Iphan


Vila Ceará - Salvaterra, Marajó, 2001: 
panelas de barro sendo feitas por moradores, com a ajuda de Oliva e Mariella. Agora, essas panelas viraram "vasilhames cerâmicos arqueológicos"  para o Iphan. 
Fotos: Oliva Van Eeghem Coutinho

Brasil continua surreal e não adianta a nossa pose de país de primeiro ranking quando as instituições públicas refletem um nível de amadorismo surreal. O que relato aqui está sendo vivido por  minha esposa, Oliva, tendo como protagonista principal uma instituição que nós, até então, considerávamos séria e comprometida com o interesse maior da preservação da memória, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan. Em agosto passado, Edinea da Conecição dos Santos, a senhora que se cuida da nossa casa e pousada na vila de Joanes, Marajó, recebeu um comunicado assinado pela superintendente do Iphan no Pará, Maria Dorotéa de Lima. Citando "a legislação maior pertinente à proteção do patrimônio arqueológico, Lei Federal n° 3.924/1961 e a Constituição Federal arts. 23, 215 e 216 cujas cópias seguem em anexo",  a superintende aponta que, durante vistoria realizada pelo Iphan nas ruínas da Vila de Joanes,  identificou na pousada "o uso de vasilhames cerâmicos arqueológicos como utilitários no local". Em seguida, a superintendente do Iphan avisa que, "para coibir tal procedimento", solicita "a retirada deste material de locais de constante circulação de pessoas para não sujeitá-lo a quebras ou aplicações indevidas de uso". E ainda alerta: "a compra e venda de objetos arqueológicos é crime federal e não deve ser praticada ou estimulada. Portanto, orientamos para que ofertas nesse sentidos sejam direcionadas ao Iphan, ou que os objetos sejam doados à centros de pesquisas ou museus, onde serão tratados e identificados, bem como ficarão acessíveis a uma maior quantidade de pessoas". Bem, se doarmos esses três vasilhames para um instituição de pesquisa científica, a conclusão será: artefatos cerâmicos, datados de 2001 AD, da fase belgo-argentina-marajoara  iniciada pela presença de Oliva Van Eeghem Coutinho, belga de origem flamenga, e da argentina Mariella Boschetti, na ilha do Marajó. 

A origem dos vasilhames
Reproduzo aqui, a carta que Oliva enviou na semana passada à "super-intendente" Maria Dorotéa de Lima:
En 2001, eu soube que uma família da Vila Ceará – localidade entre Joanes e a sede do município de Salvaterra – fazia e usava ainda panelas cerâmicas segundo a tradição dos seus antepassados.
Como eu mesma tinha seguido uma formação de ceramista, resolvi contatar esse grupo de moradores. Passei alguns dias, em companhia de uma amiga argentina,  artista plástica e também ceramista,  Mariella Boschetti,junto à comunidade da Vila Ceará. Com a famìlia, fomos ao mangue, buscamos o barro, acompanhamos e a ajudamos na confecção desse tipo de panela que a família ainda usava para cozinhar e também para  preparar a tiborna – água ardente de mandioca. Fizemos fotos e trocamos conhecimentos sobre as técnicas cerâmicas das pessoas da família, e depois de terminar o processo dividimos entre nós as panalas. Assim surgiram o que Vossa Senhoria identifica como  “vasilhames cerâmicos arqueológicos”. Eu mesma  nunca me arrisquei a utilizar as panelas para cozinhar algo porque vi que não resultaram fortes. Preferi  utilizá-las para depósito de guarda-chuvas molhados e sinalização de um desnível no chão, como peça decorativa e como vasilha de lixo de mesa. Em anexo,  envio  as poucas fotos que guardei  do trabalho coletivo com a família  da Vila Ceará, em 2001.
 
Na carta, Oliva ainda escreve:
O ofício de Vossa Senhoria nos causou espanto absoluto porque:
1) não é de agora que  Vossa Senhoria a e os técnicos do Iphan vão à Joanes  e passam pela Pousada. Lembro das primeiras escavações da fase mais recente  do Projeto de preservação do sítio arqueológico, que documentei com fotos em fevereiro de 2006. E eu garanto: esses vasilhames estavam lá então,  nos mesmos locais que Vossa Senhoria os viu somente em julho deste ano; 2)  Vossa Senhoria nos conhece e com certeza deve se lembrar da luta que  nós travamos em Joanes pela preservação do Patrimônio Histórico – embate  esse que nos causou situações de confronto com as forças mais obscuras da Vila e que,  em determinados momentos nos colocou em risco de integridade física tanto a mim quanto  ao meu marido, Edvan Coutinho, então presidente da Associação de Moradores de Joanes entre 2005 e 2007.  Eu poderia entrar num embate  com o Iphan sobre esses vasilhames.  Poderia pedir um laudo técnico que esclarecesse a origem,  datação e fase arqueológica
a qual pertencem.  Mas, não o farei porque acho que seria desperdício de tempo e dinheiro público.
Faço, então, o relato sobre a origem dos “vasilhames cerâmicos arqueológicos”,
relato este que, se Vossa senhoria tivesse nos contatado,  antes da comunicação enviada, ouviria e assim poderia evitar o constrangimento atual que, lamento, coloca em dúvida a competência técnica do Iphan, representado, infelizmente, por Vossa Senhoria.


Lembrei-me do personagem de Jô Soares, Sebastião, o último exilado, que telefonava da França no final dos anos 70  e ouvia da mulher, Madalena, relatos surreais do Brasil dos tempos da Abertura e dizia, incrédulo: "Madá, tu não queres que eu volte!!! Chose de loc!!!"


terça-feira, 24 de abril de 2012

100 anos de Olympia




O mais antigo cinema do Brasil em atividade completa hoje um século. Todos em Belém estão de parabéns por manter vivo este lugar que é um templo da mais completa arte.

A programação das comemorações pode ser vista no site do Olympia.

domingo, 8 de abril de 2012

Porto de Harmonia, é?

Não é de hoje que a Companhia Docas do Pará pretende ampliar e otimizar a infraestrutura do inegavelmente defasado porto de Belém. Mas a forma encontrada para fazê-lo sempre despertou uma antipatia intensa e generalizada: transformar a atual rua Rui Barata em terminal de contêineres e, como contrapartida, prolongar a Av. Pedro Álvares Cabral.
Ainda este ano, quando a CDP anunciou a desmontagem de dois galpões do porto, as reações foram agressivas. Dentre elas, destaco uma série de postagens feitas pelo arquiteto Flávio Nassar, em seu blog, que reputo de especial interesse pelo conhecimento técnico do blogueiro:

A contraofensiva da CDP, que ainda não desistiu da empreitada, veio através do projeto "Um porto de harmonia", nome mimoso para uma iniciativa que se julga uma forma de integrar o porto à cidade. Para tanto, criou um site, no qual você pode conhecer com maiores detalhes por onde vão as pretensões da empresa. Algumas imagens ali disponíveis:


Em síntese, a ideia continua a mesma: transformar a Rui Barata em terminal de contêineres e prolongar a Av. Pedro Álvares Cabral. Só que agora a CDP avança e promete uma grande quantidade de equipamentos públicos, que dariam àquela área da cidade um visual bastante charmoso. Exceto pela ridícula música de fundo, o vídeo por meio do qual tentam nos convencer da iniciativa é até simpático.
O arquiteto Nassar, contudo, já respondeu a essa nova cartada (é o último link acima), destacando sobretudo como a CDP pretende "indenizar" a cidade oferecendo uma rua que supostamente estaria em zona privada, mas que na verdade já é um espaço público. Em suma, estaria pagando com o nosso próprio patrimônio.
A controvérsia é gigante e não pode ser tratada com amadorismo e diletantismo, por isso não opinarei sobre o que não entendo. Digo, apenas, que sempre defendi uma imensa orla para Belém, que começasse na UFPA e terminasse em Icoaraci. O sonho de Edmilson Rodrigues, de fazer a Rui Barata seguir do Ver-o-Rio até Icoaraci foi boicotado de todas as formas, inclusive pela ocupação por uma empresa de navegação, que jura estar em área privada. Enfim...
Meu sonho continua igual. Portanto, por mim, a CDP pode construir todos os equipamentos que prometeu, exceto o novo terminal de contêineres. E a Rui Barata seguiria seu curso, graciosa, até a Vila Sorriso, abrindo não janelas, mas a cidade inteira para o seu ambiente natural: as águas.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Luzes contra o blues do inverno



Programa obrigatório para os belgas neste weekend...O Festival de Luzes na cidade de Gent, nos Flandres Orientais.
Um espetáculo para espantar aquela tristeza que se abate sobre nós sempre no inverno, passado o clima das festas de final de ano. Aqui podem ver mais fotos e videos: http://www.lichtfestivalgent.be/en/

domingo, 3 de julho de 2011

Catedral Ferroviária


O verão chegou e a gente se anima para fazer algumas pequenas viagens em finais de semana prolongados. Um dos destinos certos é Antuérpia, a metrópole de Flandres, no norte da Bélgica. Eu costumo dizer que, se você não tiver tempo para ir a muitas cidades na Europa, na lista das imprescindíveis - além de Brugge, é claro - está Antwaarpen (como dizem os atwerpenars em dialeto nem sempre fácil de entender). E aqui está uma das boas razões para ir à cidade do pintor flamengo Van Dyck e do papa da atual arte contemporânea, Jan Fabre: a estação ferroviária central (Antwerpen Centraal), prédio construído entre 1899 e 1905. O vídeo acima foi apresentado na recente premiação Europa Nostra, o mais prestigiado troféu do Patrimônio Cultural da Comissão Européia. A estação levou o principal prêmio na categoria Conservação. A distinção reconhece o trabalho belga de transformar uma gare de fim de linha, do século XIX, em uma estação do século XXI, ponto de ligação das duas áreas mais densamente povoadas da Europa - praticamente todo o trânsito ferroviário do sul da Europa para a Holanda e norte da Alemanha passa pela área de Antuérpia. A reformulação de Antwerpen Centraal foi longa, começou em 1998 e só terminou em 2007. E custou quase dois bilhões de euros. Mas tudo valeu a pena, pois a estação é mais uma atração turística da cidadae e gera receita com um shopping de quase 70 lojas. Ano passado a catedral ferroviára de Antuérpia entrou no Top Five das mais bonitas do mundo, segundo a revista americana Newsweek.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Asilo para o museu

O Contemporary Art Museum (CAM) da cidade de Casoria, ao sul de Nápoles, está sendo ameaçado pela máfia sediada na região. Seu diretor, Antonio Manfredi, divulgou na mídia italiana que após duas exposições sobre a Camorra, passou a receber telefonemas com ameaças de membros mafiosos à sua pessoa e ao acervo do museu.

Manfredi acusa também o governo italiano de pouco caso com o patrimônio artístico do país, consequência de um corte no orçamento da República Italiana destinado à cultura - o que, de resto, vem ocorrendo em toda a Europa, ainda imersa na crise econômica global que se iniciou em 2008.

Diante deste cenário, o diretor pediu asilo, para si e para as obras do museu, à chanceler Angela Merkel, da Alemanha. Segundo Manfredi, de toda a Europa, a Alemanha foi o único país que não cortou o orçamento destinado à cultura.

O asilo pedido pelo museu faz muito mal à imagem da Itália. Torna claro que o país não tem condições de cuidar de seu próprio patrimônio artístico, um dos maiores (senão o maior) do planeta.

O caso fez-me lembrar outra postagem do blog, do nosso caríssimo Itajaí Albuquerque, sobre a negativa da Alemanha à tentativa de repatriação do busto de Nefertiti pelo Egito. Diante das atuais condições políticas vigentes no Cairo, teria sido uma boa decisão devolver a escultura ao seu país de origem?

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Orient Express I


Há alguns dias voltei da Turquia, mas os afazeres acumulados nas curtas férias me esperavam. Assim, só hoje consigo compartilhar com vocês um pouco de minhas impressões da terra dos pachás.

Primeiro, me surpreendi: o país mudou para melhor. A última visita que tinha feito foi em 1999. E 11 anos foram suficientes para ver a diferença nas ruas de Istanbul, de Antalya (na região sul, litoral do Mediterrâneo) ou nas vilas da Capadócia (no centro do país, na chamada Anatólia). O país está mais rico, mais turístico do que nunca. Não integra a União Européia, mas se pode sacar euros em qualquer caixa eletrônico de esquina. Há hotéis para todos os bolsos, serviços turisticos de qualidade, como passeios de jet-ski, sobrevoos sobrevoos panorâmicos de balão, só para citar alguns. E tudo com uma qualidade e segurança de impressionar.
As eternas atrações ganham mais cuidado. É o caso da Aya Sofia (na foto acima ), em Istanbul, o maior monumento do período bizantino, que foi igreja cristã, mesquita e agora é museu. Uma restauração cuidadosa revela os mais bonitos mosaicos do período de ouro de Bizâncio (na foto abaixo). Impossível não fazer comparações com o Brasil, onde a atividade turística é ainda hoje um ramo quase sem estratégia governamental digna. A massa de turistas que invade a Turquia não é somente ocidental, européia. Há russos, georgianos, ucranianos, chineses, japoneses. Enfim, o país se aproveita de sua posição estratégica, e mantém o título de esquina do mundo, pólo de ligação entre Oriente e Ocidente.
Mas como nem tudo são rosas, a Turquia ainda precisa conviver com o fantasma de um separatismo curdo no território leste do país. Também convive com a sombra de um passado recente de barbaridades, como o massacre dos armênios, nos anos 1910. E vive hoje, mais que nunca, o impasse de um país de características únicas: tem maioria mulçumana, mas constitucionalmente é laico. Como democracia, permite a existência de partidos islâmicos, como o que hoje está no poder. E assim, o governo é sempre monitorado pelas Forças Armadas - guardiãs do conceito da base fundadora da Turquia moderna, que separa religião e Estado.
Em 11 anos, a quantidade de mulheres de véu, mais que duplicou. Porém, por enquanto, as ocidentais ainda podem fazer topless despreocupadas nas praias do mar Egeu.


domingo, 21 de novembro de 2010

Guidestones: As pedras da Geógia

















Incrível reportagem da revista Wired sobre as pedras da Georgia. É uma das reportagens mais interessantes que li este ano.
As Guidestones, fincadas no Condado de Elbert County, é comparada ao mistério das Stonehenge britânica.
A principal característica do monumento, no entanto, seria o 10 ditames esculpidos em ambas as faces das pedras exterior, em oito línguas: Inglês, espanhol, russo, chinês, árabe, hebraico, hindi e suaíli. Uma declaração de missão das sortes (que sejam estes os Guidestones a uma idade da razão), pós apocalipse. Foi também gravada nas laterais da pedra angular em hieróglifos egípcios, grego clássico, o sânscrito, e cuneiforme babilônico. O conjunto de monolitos que têm múltiplas intenções, dentre elas, calendário, relógio... Os pastores do local, não muito diferentes do fundamentalismo pentecostal brasileiro – leia-se – Silas Malafaia & Cia. Acusam o monumento ter sido obra de uma seita "luciferiana."
Ela contém blocos de granito que vistas de cima tem a forma da letra x, como se estivesse a sinalizar um ponto de aterrisagem para uma espaçonave.
Nos dez mandamentos esculpidos, o mais polêmico deles, é manter a humanidade em não mais do que 500 milhões de pessoas na Terra.
Teóricos da conspiração têm conseguido grande espaço na mídia americana sobre os mistérios que envolve o enigmático senhor elegante e de cabelos grisalhos – já falecido – que encomendou o monumento inaugurado em 22 de março de 1980, que atrai visitantes de todo o mundo e está no Guia da Geographic Internacional.
Yoko Ono homenageia o Guidestones em1993, com uma faixa chamada "Pedra da Geórgia" para um álbum de tributo ao compositor de vanguarda John Cage.
Para completar as informações sobre essa incrível história leia Elberton Granite in 1981

sábado, 25 de setembro de 2010

Apontamentos sobre Belém

Estou batendo em retirada em direção à Marabá -- minha terra natal. É a reta final da campanha.

Em três meses em Belém, descontando alguns dias em Brasília, Salinas e Mosqueiro, já estou com saudades da terra onde cresci e fiz muitos dos meus melhores amigos.

Saudade mesmo será das noites de sexta-feira na Taberna São Jorge e dos finais de tarde de alguns poucos sábados passados ao lado do mestre André Costa Nunes em seu maravilhoso Terra do Meio.

Belém pareceu-me muito maltratada sob o ponto de vista governamental.

Algumas de suas principais vias de entrada e saída da cidade, transformam-se num verdadeiro caos ao longo do dia.

É muito carro para pouco fluxo de um trânsito completamente caótico.

Neguinho buzina como se estivesse num clímax sexual de adoração aos seios de uma mulher. É impressionante! Busina-se para tudo. A vontade que dá é de mandar prender os sujeitos (as), ou receitar doses pra cavalo de calmantes.

-- Definitivamente, não dá para conviver civilizadamente com gente que se comporta desta maneira.

Os motoristas de coletivos e táxis beiram o comportamento de meliantes.

Avançam sinais de trânsito em pleno meio dia. Saem a toda hora das faixas (3 e 4 ) a eles reservadas. Cortam os carros particulares e buzinam, buzinam e buzinam sem parar.

As ruas são a ante sala do inferno.

Bueiros com tampas de concreto foram colocadas de qualquer maneira no meio das vias.

Na Conselheiro Furtado e na Mundurucus, 9 de Janeiro e todas as adjacências -- áreas nobres da cidade -- os tais monstrengos é a cara de quem governa o Município.

A dantes Cidade das Mangueiras, transmutou-se para a Cidade da Fila Dupla em qualquer lugar, a qualquer hora, sem que ninguém faça nada para coibir tamanho absurdo.

Os carros dos débeis mentais circulam com o volume a maior altura, tocando músicas para embalar trilhas de filme de terror. É um horror diário.

A cidade é imunda. O esgoto a céu aberto em quase toda a cidade. A cidade fede.

Os guardas de trânsito enscondem-se atrás de postes nas esquinas para multar, multar e multar.

Afora o lixo em que transformaram a Praça da República e a Batista Campos, outrora, orgulho de todos os belemenses.

A feira na Praça da República é algo além de qualquer imaginação para o pior e mais avacalhado que se pode ter num centro que se diz "Portal da Amazônia".

Se for assim, qualquer turista nem se atreve a ir em frente, exceto os que procuram encrenca, prejuízos ou, quem sabe, turismo de aventura mezo cosmopolitana; mezo selvagem.

O que salva Belém?

1. A comida nos bons restaurantes hoje instalados na cidade, apesar do atendimento de 5.a categoria, inclusive nos mais caros e badalados.

2. As pessoas. É a gente mais bonita e agradável que conheço em qualquer lugar do mundo onde já pisei meus pés.

3. O que ainda resta de seu patrimônio arquitetônico e cultural. Ainda.

E só.

Espero que em 3 de outubro próximo, a população da cidade seja abençoada pelos ares sagrados de Nossa Senhora de Nazaré e crave nas urnas um recado inesquecível aos responsáveis por essa falta de respeito aos cidadãos e à mais bela -- ainda -- cidade do lado de baixo do Equador.

P.S.: Daqui a pouco. Um bye, bye Belém musical.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

E assim caminhou a Humanidade

Sempre que viajo e vejo lugares históricos impressionantes, pergunto se é um patrimônio da Humanidade. E, na maioria das vezes, a resposta é não. Mas hoje, lendo a lista dos mais recentes Patrimônios Mundiais da Unesco, vi com alegria a inclusão deste observatório astronômico do século XVIII, chamado Jantar Mantar, em Jaipur, no Rajastão, norte da Índia. Quando estivemos lá, no verão de 2008, o lugar estava no final de uma restauração. É um um sítio de observação astronômica que inclui um conjunto de 20 instrumentos fixos. Segundo a Unesco, “eles são exemplos monumentais em alvenaria de instrumentos conhecidos mas que, em muitos casos têm características próprias. Desenhados para a observação de posições astronômicas a olho nu, eles incorporam várias inovações instrumentais e arquitetônicas. Este é o observatório histórico mais significativo, mais abrangente e o melhor preservado da Índia. É uma expressão das habilidades astronômicas e conceitos cosmológicos da corte de um príncipe culto do final do período Mughal”.
Na mesma reunião do Comitê de Patrimônio da Unesco, que aconteceu em Brasília, além do observatório indiano, foram listados outros patrimônios que agora são reconhecidos como de importância mundial.
O Brasil apresentou um único candidato e conseguiu inclui-lo na lista da Unesco: a praça São Francisco, na cidade de São Cristóvão, em Sergipe. Segundo o Iphan, o Conjunto Arquitetônico da Praça, em que está erigido o Convento de São Francisco, “ é um dos mais expressivos remanescentes entre os que foram edificados pela Ordem Franciscana no Brasil colônia. Possui uma composição dinâmica própria em função da monumentalidade do adro e do cruzeiro e da ruptura com a idéia de equilíbrio e simetria comuns a outros conventos franciscanos, sendo que a Praça remete claramente às disposições da Lei IX das Ordenações Filipinas; o que a torna única no processo de ocupação do território brasileiro. A Praça São Francisco representa um registro íntegro e autêntico de um fenômeno urbano singular no Brasil, que tem como contexto um período representativo de sua história: a aliança das coroas portuguesa e espanhola sob o domínio dos reinados de Felipe II e Felipe III”. A lista completa dos novos patrimônios da Humanidade está no site da Unesco em português.

sábado, 5 de junho de 2010

Última Hora na Blogosfera

O jornal do aventureiro Samuel Wiener fez história no jornalismo brasileiro, como porta-voz do governo Vargas e depois, na defesa do mandato de João Goulart em 1964. Em homenagem ao bicentenário da imprensa no Brasil, a Empresa Folha da Manhã S/A, atual proprietária dos direitos sobre o Última Hora, em parceria com o Arquivo Público do Estado de São Paulo, digitalizaram as edições do jornal carioca para acesso público. Acesse aqui uma viagem pela História do Brasil.

Pós-escrito: Não se tem notícia de projeto assemelhado no Pará, que possui uma história jornalística riquíssima. Como dizia um professor meu de Pneumologia e Clínica Médica, Amado Pedro Caminha, o problema quase sempre não é o dinheiro, mas a falta de mentalidade.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Matera em um minuto



O Festival do Minuto é um evento audiovisual criado pelo cineasta brasileiro Marcelo Masagão que vem sendo exibido mundo afora por quase 20 anos.

O Festival recebe microvídeos de um minuto de duração, com prêmios em dinheiro e distribuição internacional dos selecionados. A cada ano, é lançado um tema a ser explorado por videomakers, estudantes de artes visuais e amantes de cinema em geral.

No filmete acima exibido, o realizador húngaro Peter Vadocz explora o tema “Cidades” mostrando uma linha do tempo interessante, tendo por pano de fundo a comuna italiana de Matera: em um minuto, é mostrado um dia inteiro de uma cidade de mais de 2.000 anos; o passar das horas na cidade, que parece parada no tempo, é tratado com a mesma técnica usada em Koyaanisqatsi por Godfrey Reggio, de quem já se falou por aqui.

Matera, localidade situada no sul da Itália, na região da Basilicata, pela preservação de sua paisagem urbana, já foi cenário de longas, também. Ali, Pier Paolo Pasolini filmou A Paixão Segundo São Mateus e Mel Gibson, mais recentemente, utilizou-a como cenário de A Paixão de Cristo – em ambos os casos pela comuna evocar a Jerusalém de dois milênios atrás.

A cidade é, hoje, Patrimônio Cultural da Humanidade. Tem-se acesso a uma belíssima galeria de fotos de Matera no sítio da UNESCO clicando aqui.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Quem de pedra passa a vidraça, um dia se fere nos cacos de vidro

O ajuste no dito popular é o que se pode dizer do que está acontecendo com a remoção do painel do artista plástico Osmar Pinheiro de Souza Neto que desde 1985 ornava a esquina do Boulevard Castilhos França com a Avenida Portugal, em frente ao Mercado do Ver-o-Peso, na capital paraoara.

Não há como deixar de apontar uma certa tendência stalinista na pretensão de reescrever a história da cidade apagando qualquer lembrança de seus administradores anteriores. Vergonhoso para um partido que se diz democrático e popular.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Sé reaberta

Era assim que estava ontem a Catedral da Sé, por volta da meia-noite, pouco depois de sua reabertura ao público.

Linda, com uma bela iluminação, a Catedral recuperou sua grandiosidade. Deu orgulho do nosso patrimônio histórico.

Parabéns ao Governo Estadual pela obra.

Ora pro nobis, Nossa Senhora de Nazaré.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Belém do Pará

Linkado por uma comentarista do delicioso blog Belenâmbulo, cheguei ao blog do famoso arquiteto paulistano Arthur de Mattos Casas. E qual não foi minha agradável surpresa quando me deparei com um post que dizia assim:

Nessa semana, entre os dias 13 e 14 de agosto, a convite do Instituto Liderança, estarei proferindo palestra em Belém do Pará, no Congresso de Engenharia, Arquitetura, Urbanismo e Design.

Vocês conhecem Belém? Podem acreditar, é a mais interessante, charmosa e peculiar cidade do norte do Brasil e, ao lado de Salvador e Rio de Janeiro, compõe o périplo que indico aos meus melhores amigos, estrangeiros ou não, que desejam conhecer esse país.

A arquitetura e o “traço” de diversas cidade brasileiras, em especial das capitais dos estados das regiões Norte e Nordeste, tem uma relação direta com o apogeu econômico que muitas vezes justificou não só o adensamento dessas áreas como também o uso de tecnologias que outras áreas não possuíam.

Belém não foge a regra; foi pioneira no uso dos bondes elétricos e na construção de avenidas, muitas delas ladeadas por mangueiras, construídas sobre pântanos aterrados. Tem também um impressionante conjunto arquitetônico construído entre o final do século XIX e início do século XX no auge do ciclo da Borracha, quando a renda per capita em Belém era o dobro de São Paulo ou Rio.

O Pará deveria ser o “portão de entrada” do Amazonas. Por seu isolamento natural, e também por conta de administrações recentes comprometidas com a preservação do patrimônio público, conservou melhor sua cultura.

Durante esse dias vamos falar um pouco de Belém, cidade que visito pela terceira vez, e da Ilha de Marajó, onde nunca estive. Infelizmente será impossível transmitir com a riqueza de detalhes a maravilhosa culinária paraense, suas frutas e ervas com nomes por vezes impronunciáveis! Para tanto, Belém fica esperando a visita de vocês!

Este orgulho de ser de Belém, apesar de todos os pesares que nos cercam, nem Duciomar Costa consegue apagar. Parafraseando Mário Quintana, digo-te, prefeito-desastre, que tu passarás, Belém passarinho!

quinta-feira, 26 de março de 2009

Trinta anos

Trinta anos não são trinta dias. A frase é de Nelson Rodrigues e está em uma crônica em que ele fala da tragédia que é para uma família brasileira abrigar um caso de inteligência. Foi dita na defesa da companheira de Guimarães Rosa, que com ele viveu trinta anos e com quem as filhas do escritor disputaram judicialmente sua herança literária.

Pois quero aqui retirá-la do contexto e dar-lhe outro uso: o intento é divulgar o aniversário de formatura - ainda que naquela época não houvesse esta cerimônia para quem completasse a fase escolar - no antigo Curso Científico da turma de 1979 do Colégio Dom Amando, tradicional instituição santarena.

Há um blog para reunir todos e todas (o único porém do texto de apresentação, permitam-me) na comemoração do evento, em uma festa de três dias a se realizar em dezembro deste ano, na Pérola do Tapajós. Haverá convidados de peso. Um deles descreveu uma bela trajetória tangente à da turma, mas que nela se insere de coração.

Espero que o Flanar possa contribuir para que alguém que tenha feito parte desta história tome conhecimento da reunião e dela participe.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Co' Olhos Bem Abertos

"Se oriente, rapaz
Pela constelação do Cruzeiro do Sul
Se oriente, rapaz
Pela constatação de que a aranha
Vive do que tece
Vê se não se esquece
Pela simples razão de que tudo merece
Consideração." Pensei nesses versos da belíssima Oriente de Gilberto Gil, nem sei porquê, quando lia sobre a polêmica da continuidade do arraial de Nazaré no Círio. Dias antes o noticiário nos informava que a atual diretoria da festa - merecida de ser profissionalizada, face ao histórico de topadas - pretendia acabar com a parte profana da festa com alegações no mínimo inoportunas frente a atual crise econômica em curso no mundo e no país, e as conseqüências para a pobreza em que vive o povo de Belém do Pará.
É, leitor, apesar de estarmos careca de saber que ficar de frente paro mar, sonhando com Miami e de costas pro Brasil, não vai fazer desse lugar um bom país, eles, sempre eles, não sabem, não querem saber e têm raiva de quem sabe. Mas aí, alguém mais sereno, trouxe a questão de que tal estultice agravaria - e de fato o fará caso se concretize - o patrimônio imaterial da maior festa religiosa da Amazonia continental. Balde de água gelada!
Não sei se a carapuça caiu lá entre os brancos, ou o choque térmico fez o tico e o teco conversarem, mas o fato que os pingos nos ii agora são outros. Trata-se de apenas reduzir o arraial - fazer um resizinnn, darlingui -, ainda que sem necessariamente precisarem até onde vai a tesourada.
E a novidade não parou por aí. Agora falam em construir também um complexo de apoio ao romeiro.
Ooops! Apoio de que mesmo, e com o dinheiro de quem? Com os anéis da Santa Madre é que não é. Logo, mais uma vez, estamos arriscados de provar o amargo que é o dinheiro sair da viúva tetuda, da algibeira da coleta de impostos de um estado laico e aviltado pelo mau costume de quem teima desconhecer licitações. E tem mais: considerando que o Círio reúne milhões de pessoas, nem é bom pensar na efetividade e sustentabilidade do tal complexo centralizado.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O poeta e a vida real

Dediquei dois posts a Max Martins, aqui no Flanar. Mais que na morte, creio nas flores em vida, como disseram Nélson Cavaquinho e Guilherme de Brito, no memorável samba da dupla. Assim, pretendi homenagear nosso poeta quando ainda estava entre nós.

Mais que homenagens, porém, poetas, como qualquer um, merecem vida digna. É triste ver que na vida real, os grandes intelectuais da terra são muitas vezes levados, ao fim de sua jornada, a ter uma vida incompatível com sua grandiosidade. Lembro-me de uma reportagem feita por O Liberal, alguns anos atrás, mostrando a situação financeira pouco confortável de Max Martins, em seus oitenta anos. Alguém de tanta importância para nossa cultura morando mal, alimentando-se mal, não tendo o tratamento médico de que necessitava.

É esse o apelo que quero fazer, tomando como mote Max Martins: que nossos grandes nomes - os grandes de verdade - tenham vida digna; que lhes seja dada a oportunidade, o tempo e as condições de construírem e legarem grandes obras, sobretudo (ou pelo menos) no outono de suas vidas.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Vende-se lá como cá

No post Vende-se nosso companheiro no Flanar Francisco Rocha Junior informa que está programada venda na modalidade leilão de raridades do escritor português Fernando Pessoa.

Assim como lá cá está a venda o acervo do que seria um museu que reuniria as obras de arte reunidas ao longo de 60 anos pelos escritores Jorge Amado e sua mulher Zélia Gatai.

Durante 6 anos o cantor, compositor e dublê de político Gilberto Gil, baiano, como Zélia e Jorge, esteve a frente do Ministério da Cultura (MinC).

Há quatro anos apelos dos herdeiros dos dois escritores brasileiros tentaram sensibilizar o ministério -- responsável pelo patrimônio cultural do país -- para o risco de desfazimento da coleção, em vão.

Ontem a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) soltou a seguinte nota indignada com a omissão do MinC.

No total, foram colocadas à venda 576 peças, entre elas, gravuras, objetos de arte e outros bens.