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sábado, 28 de setembro de 2013

"Norte das águas": um mergulho no jazz de Hobsbawn

““O Jazz moderno não é tocado apenas por divertimento, dinheiro, ou requinte técnico: também é tocado como manifesto - seja de revolta contra o capitalismo e a cultura comercial, seja de igualdade do negro ou de qualquer outra coisa".
Eric Hobsbawn, em: “The jazz scena”, 1989.



Passado 40 anos da publicação do Saint Louis Blues (1914), o jazz tornara-se, de uma maneira ou de outra, universal. Desde então passou a ser quase uma versão de segunda mão da música americana, ainda que no cartório se discuta a paternidade - apesar de avôs africanos. A versão de sua evolução e transmutação, ao contrário de sua disseminação, permanece como um tesouro mergulhado no delta do Mississipi e nem Eric Hobsbawn, famoso historiador inglês, vestido de escafandrista conseguiu localizar.
Hobsbawn (História Social do Jazz, Ed. Paz e Terra, 1989) dedilha que o Jazz moderno inicia em 1940, após a retomada da improvisação e a ruptura definitiva do blues com o pop. O blues, doravante, foi a gota inseminada no momento da fecundação do jazz, e o tal “improviso” foi gênese dessa relação assexuada.
Após a gestação, o som afro-americano (afro-humano, afrodisíaco, diz Almino Henrique) abandona o ventre, corta o cordão, enterra as secundinas do folclore e dá os primeiros passos para sair de seu gueto: Nova Orleans. De cara mistura-se com a música clássica; depois inicia peregrinação mundo afora para se juntar a outros elementos fonográficos e tornar-se o híbrido tanto trovejado por Louis Armstrong. Após o princípio, lá pelas quebradas do French Quartier com os negros tocando em funerais, o Jazz sobe o Mississipi no rumo norte e aporta em Chicago e Nova Iorque. Daí rodopia para o mundo até encontrar os mais insipientes rincões.
No delta do Amazonas, um desses rincões nebulizados pelo Jazz, você pode se inteirar de algumas fímbrias dessa protoplasmática história musical caminhando pela orla de Macapá. “Do blues urbano e imigrante, permaneceu o background constante da evolução do jazz” -aferiu Hobsbawn. Então porque esse background, uma espécie de miolo, néctar, não haveria de estar entre nós, nutrindo marabaixo, carimbó, batuque, boi-bumbá e outros elementos fonográficos da Amazônia dando perpetuação ao ideal de Chat Baker, Miles Davis e Duke Ellington?
A idéia do imutável som quintessencial de negros urbanos espalhou-se pela floresta feito alvorada de Uirapurus. Tão logo as ondas da maré alta do rio Amazonas se chocam contra os muros de contenção da cidade musical surgem blue notes que viajam entre nossos ouvidos, até inundar as circunvoluções cerebrais de serotonina e causar uma enxurrada de êxtase.
Finéias (teclados) e seus menestréis
Se numa quinta-feira qualquer você quiser apalpar um pedaço dessa história a céu aberto, - contando estrelas, ao lado de um vento brejeiro e sem chuva-, pegue a orla de Macapá e caminhe até o Araxá. Achegue ao “Norte das águas”, puxe a cadeira, sente-se e sinta-se na esquina da rue Bourbon com St. Peter street. Peça uma cerveja e um tira-gosto pro Adriano e aguarde a chegada de uma espécie de “Original Dixieland Jass Band”, nos mesmos moldes da Nova Orleans pós-Katrina, com Finéias e seus menestréis. Depois dê o formato de concha à sua mão e a encoste-as nas cartilagens da orelha. É só deleite, ou melhor: total ruptura com o capitalismo da cultura comercial.
O “Norte das Águas”, por assim dizer, comporta-se como um verdadeiro Tin Pan Alley ao receber de abraços aberto quem deseja voar na liberdade da expressão musical, ou, no improviso e na espontaneidade de se tocar um instrumento.
Os idealizadores desse projeto são tão amarrados por esse revival, que anualmente realizam um festival neste mesmo cantinho, com diversos convidados nacionais, para manter viva essa história que os remete ao Mississipi. É claro que não se precisa de nenhum palco armado, pois a natureza foi bondosa com a cidade e deixou esse “mar” aberto e repleto de verde (I see trees of green [...] What a wonderful world), dando à paisagem bucólica um ar de originalidade.
Mesmo de canoa, a ideia bem que poderia ir rio acima, nos mesmos moldes do Mississipi e borrifar jazz em toda a região. Mas aí é outra história... Já sem Hobsbawn para escrever. 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

From Beirut with peace, love and humor

Mashrouʼ Leila  não é o nome de uma banda em si. Mashrouʼ Leila em árabe quer dizer  ʻan overnight projectʼ. Um microfone, um violino, um baixo, duas guitarras, bateria e teclado. Tudo começou durante um workshop na American University of Beirut, Líbano, em 2008 - uma plataforma aberta para estudantes de arquitetura e design, onde se poderia experimentar sons. Haig Papazian, Carl Gerges, Hamed Sinno, Omaya Malaeb, Andre Chedid, Firas Abou Fakher and Ibrahim Badr se juntaram nessa aventura musical, um pouco para relaxar e curtir, alimentando isso com uma mistura de gêneros musicais, que desembocaram no coletivo experimental chamado Mashrouʼ Leila.
Os vídeos do grupo são belíssimos, criativos e super divertidos. Tudo em contraste com que a gente pensa (ou é levado a pensar?) ser a vida no Oriente Médio. Recomendo ver e ouvir mais no site deles.
Ficam aqui dois dos mais bacanas vídeos da turma. Raksit Leila (acima) e Fasateen (abaixo).

 

domingo, 18 de agosto de 2013

Duas décadas de design



Para os apreciadores do design de alta performance, o vídeo acima da equipe Sauber de Fórmula 1 é um deleite sensorial.
É muito interessante observar a evolução dos projetos dos bólidos de competição em duas décadas, especialmente nos anos 90, quando o regulamento permitia maiores mudanças por parte dos projetistas.
Penso que não é à toa que máquinas criadas por "meros" engenheiros frequentem as exposições de museus de arte, como o MoMa, por exemplo.
A trilogia sonho, arte e engenharia parece ter links neuronais bem patentes.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O maestro Stromae

Decididamente ele não é cantor de um hit só. O belga Paul Van Haver, ou melhor Stromae (Maestro, em verlan, a gíria dos jovens das periferias de Paris, que embaralha as sílabas das palavras e nomes) liderou, em 2010 e 2011, por meses o hit parade na Bélgica, Holanda, Alemanha, Áustria, Suíça, Grécia e dezenas de outros países europeus Tudo com a impagável Alors on danse - só no Youtube, visto mais de 60 milhões de vezes. Com seu primeiro CD, ele ganhou vários prêmios e até mesmo o European Border Breakers Awards 2011, o prêmio dado aos artistas estreantes que quebram as barreiras comerciais e artísticas na Europa.
Depois de mais três anos da estréia dele, Stromae reapareceu bêbado, numa manhã de chuva em Bruxelas, sendo até mesmo interpelado por policiais. Claro que pipocaram vídeos do "flagrante" nas redes sociais. Era o retrato da estrela efêmera em franca decadência. Passaram mais uns dias e a supresa veio: Stromae não estava bêbado em fim de farra, mas sim interpretava na filmagem, com câmeras escondidas, do vídeo clip de Formidable, seu novo single - vídeo este já visto mais de 14 milhões de vezes desde 27 de maio passado. Aos poucos, ele vai lançando os canções de seu novo CD, Racine Carrée, que sai agora no dia 19 de agosto. A mais recente é esse no vídeo aqui: Papaoutai, já considerado o hit de verão na França e na Bélgica - onde, aliás, ele está com essa canção e Formidable no Top Five. Papaoutai (où est ton papa?) pode ser chamado de autobiográfica. A questão central é: onde está o seu pai? A letra é como um pensamento de um garoto diante da ausência do pai (Tout le monde sait  comment on fait des bébés Mais personne sait Comment on fait des papas). Stromae, nascido em 1985, em Bruxelas, é filho de uma professora belga flamenga e de um arquiteto belgo-ruandês que ele viu umas poucas vezes e que estava em Ruanda na hora errada:  foi morto nos massacres étnicos em 1994. O som é eletrônico, com pitadas afro e que ampliam o leque de vertentes n a obra de Stromae - conhecido até agora  como artista hip hop e de música eletrônica. Mas, ele tem estofo: é formado pela Académie Musicale de Jette, Bruxelas, onde ele se diplomou em História da Música e aprendeu a tocar vários instrumentos.
A direção de arte do clip é de um primor. Definitivamente, Stromae tem estilo. Simplesmente Formidable.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Coração (latino) americano

Para Milton Nacsimento, ela era a voz da América Latina, quem sabe a voz do Terceiro Mundo: Mercedes Sosa, que hoje faria 78 anos anos, como bem lembrou Erka Morhy, em Celebremos a poesia, pos poetas,e as poetizas.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Inside Bowie

Fotos: Edvan FCoutinho

2013. De tudo o que aconteceu ou ainda possa acontecer neste ano, poucos eventos culturais se sobreporão à histórica exposição Bowie is no Victoria & Albert Museum, em London. Não foi à toa que os 42 mil ingressos foram vendidos em pouquíssimo tempo, estabelecendo um recorde nas exposições do respeitado V&A. Passamos horas na internet até conseguir um ingresso do tipo combi-ticket para uma outra exposição, mas mesmo esse meio está esgotado.

No quarto de David Robert Jones


 Foto: do site Kaltblut Magazine
A primeira parte da exposição é mesmo um mergulho na gênese de Bowie: o que ele escutava, o que ele lia, o que ele fezia, as pessoas que contribuiram para os primeiros passos. A instalação que mistura objetos e projeções de vídeo nos dá a sensação de estar no quarto de Bowie, ou melhor,  do ainda David Robert Jones.Já nesse espaço, a gente se impressiona com a qualidade do equipamento de áudio individual que cada visitante recebe. Basta chegar perto de um display de vídeo para ter o áudio claro no seu fone de ouvido.

Uma olhada no guarda-roupa de Bowie



 Foto: V&A Museum

Cartas, desenhos, livros, letras originais, instrumentos musicais. Tudo vai formando um quadro da obra de Bowie, entremeado por vídeos, fragmentos de áudio. Claro que a exposição dos  figurinos nos transporta no tempo e nos deixa de cara com os famosos modelitos de Ziggy Stardust e até diante daquela discreta extravagância dos casacos feitos por Alexander McQueen para Bowie  nos anos 1990.

Mergulho na tela e na  platéia


Foto: V&A Musem

Um espaço especial na exposição mostra trechos de alguns filmes de Bowie ator. Senti falta do super cult The Hunger (chamado de Fome de Viver, no Brasil), de 1983, onde ele fazia par vampiresco com Catherine Deneuve. Mas, na exposição estão trechos de clássicos como Merry Christmas, Mr. Lauwrence (do mestre Nagisa Oshima, de 1983) e Labyrinth, de 1986, e ainda descobertas, como The Prestige, filme feito em 2006, por Christopher Nolan.
A parte final da exposição é um mergulho nas performances live de Bowie, entre os anos 70 e 90, o período mais fértil dele. O apuro técnico impressiona: a tela - dois imensos paredões -  se divide e se unifica em diversos momentos, a qualidade sonora nos fones de ouvido nos transporte às platéias de shows entre os anos 70 e 90, o período mais fértil dele. Mas, a exposição tem um pé nos tempos atuais. Em várias partes, se mostra o processo de criação do novo álbum. The Next Day, lançado em março passado, com letras, arranjos e depoimentos dos colaboradores da mais mais recente obra bowiana. Bem, para quem ver mais, recomendo um belo depoimento em vídeo da jornalista cultural Sarah Crompton para a série I've just seen, do jornal inglês The Telegraph; Além, claro do inside exhibition próprio site do Victoria & Albert Musem.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Ronaldo de Moraes Rego na Elf Galeria


Paraense de Belém, Ronaldo Moraes Rêgo é arquiteto formado pela UFPA, e faz parte do quadro docente da Faculdade de Artes Visuais, na mesma Instituição. Estudou gravura com Valdir Sarubbi e Evandro Carlos Jardim. Em seus trabalhos utiliza da gravura, pintura e colagem, com o mesmo perfeccionismo. Participa de exposições desde 1977, tendo recebido vários prêmios nacionais em sua carreira. 
Na Elf, a primeira exposição de Ronaldo Moraes Rêgo aconteceu em 1982. A mais recente, em 2012, foi a exposição pop-up coletiva denominada “Cozinha de Artista”, quando criou, em edição especial, objetos de arte a partir de elementos de descarte num atelier de arte: vidro, madeira, recipientes de tinta e pincel. Agora, Ronaldo volta a ocupar individualmente as paredes da Elf com uma mostra de pinturas resultantes das pesquisas que vem
desenvolvendo, ancoradas, sobretudo, na experiência possibilitada pela docência.
A elegância no traço e estética pessoal imprimem às obras a assinatura de um artista que tem sua percepção voltada para elementos da natureza, de onde abastece a sua inspiração e para onde dirige o olhar do apreciador.
A exposição inaugura neste sábado, dia 4 de maio, das 10 às 14h, e poderá ser visitada até 1 de junho - de segunda a sexta-feira, de 10 às 13h e de 15h às 19h, aos sábados de 10 às 14h, excetuando feriados.
Elf Galeria fica na Passagem Bolonha, 60. Nazaré. Belém – Pará

Leia o comentário a seguir, de Jorge Eiró:

Pós-modernidade é tudo o que se tem quando a natureza se foi embora para sempre. [Fredric Jameson]. Então, o que resta ao pintor? A representação de um mundo perdido? Não, o mundo enquanto representação a modernidade liquidificou faz tempo... O que nos resta nestes tempos pós-tudo, póstumos, oh, habitantes do deserto do real, é apenas o auxílio luxuoso do simulacro. Pois, há muito, meu caro amigo Ronaldo Moraes Rêgo, o atelier do pintor já não se encontra mais lá no meio do mato, à beira de um regato e de um bosque em flor. Projeto em parceria com o saudoso Henrique Penna e construído no sítio da família situado na Estrada do Mosqueiro, a cabana, refúgio idílico do Ronald, foi sitiada pela barbárie da nossa Idade Mídia e afugentou o pintor, um de nossos últimos românticos. O atelier, melhor dizendo estúdio, aloja-se num flat duplex situado nos altos do Umarizal, no coração do circuito treme-treme da Bell-Hell-City... De lá, por sobre as copas da densa floresta de concreto, aço e vidro, o artista mira suas velhas referências estéticas. Olha longe a linha do horizonte quebrada entre as torres da urbe e, a bordo de uma nave pinkfloydiana e jazzística, transporta-se numa trilha sonora viajando Miles and Miles away para outro espaço-tempo. Sonha com as reminiscências de um quintal do tempo, chuvoso, de um Porto Arthur nostálgico, bucólica ilha, de onde ainda detém registros das folhas, sementes, líquens, fungos, humos que por lá proliferavam naquele inverno amazônico eterno. Entre lapsos e relâmpagos de memória (nosso brain damage, meu caro...), o que soçobra da ressaca, dos escombros da modernidade sobre nossos ombros, são apenas lascas, cascas, sobras, sombras, vestígios de uma estranha civilização, diz o Chico. Um oráculo já alertou que o que vemos, vivemos, são apenas imagens-simulacro de um mundo há muito destruído. Ronald e nosso amigo Harold vezenquando relatam suas experiências de abdução, entre viagens siderais e almas penadas, narrativas hilariantes, mas que funcionam como fontes revigorantes das energias utópicas de suas pinturas. Ocorre que, no caso de Ronald, ao retornar do White side of the moon, os resíduos de elementos da natureza oriundos da velha Gaia que o pintor porta de volta à Terra, ao atravessarem o Cinturão de Van Allen, convertem-se em imagens digitais, as quais o pintor apropria em suas pinturas. Mestre do ofício, o pintor Ronald incorpora no atelier o alquimista das cores que é, atiçado por suas inúmeras referências, tantos pessoais como da pintura moderna, dentre as quais se destacam Bacon e Sarubbi, e elabora sóbrias e elegantes investigações cromáticas. Em suas expedições pictóricas o que mais o motiva, ele diz, “é que não sei o que vai dar” e, então, atira-se à surpresa, expresso na gestualidade do traço, no gosto táctil das propriedades matéricas da tinta e da tela, nos espasmos das cores que se consagram e no gozo, suculento, sexual, do ato criativo. Eis o que observamos nesta mostra, um ensaio pictórico acústico com um refinado colorido jazzístico de delicadas sonoridades cromáticas. Nessa transposição do natural para o virtual pictórico, entre acrílicas, aquarelas, gravuras e objetos, eis que emerge a recriação do mundo operada pelas mãos do artista, a velha mãe natureza revigorada em manchas de uma memória desmanchada. 
Jorge Eiró
Belém do Pará, maio de 2013.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Tributo à Terra


Lançado finalmente o livro Genesis, de Sebastião Salgado, fruto de trinta viagens feitas durante oito anos pelo fotógrafo-mor do nosso planeta.
As imagens já disponíveis impressionam pelo brutal contraste entre céu, mar, ar e neve, integrando animais e humanos à mãe Terra através de infinitas variações disponíveis entre o preto e o branco.
Mesmo como fã de carteirinha que sou, fiquei boquiaberto com o pouco que vi.
Ao término de uma visita a uma exposição fotográfica de Salgado, ou mesmo da leitura de um livro seu, dificilmente a pessoa permanecerá a mesma.
Pré-venda na Saraiva.



segunda-feira, 1 de abril de 2013

Museu subaquático


O projeto Evolução Silenciosa, criado em 2009 pelo artista Jason de Caires Taylor, transformou-se silenciosamente no maior museu subaquático do mundo.
Localizado próximo à Isla Mujeres, em Cancun (México), o espaço submerso conta atualmente com 413 esculturas feitas em concreto de pH marinho neutro, as quais se transformam progressivamente em recifes artificiais para incontáveis espécies.
O fato de estar apenas a nove metros de profundidade permite que o museu seja visitado por mergulhadores, praticantes de snorkel e por turistas em barcos com fundo de vidro.
Flâneurs, que tal um meeting pr'aquelas bandas?


sábado, 23 de março de 2013

Ai Weiwei - Never Sorry

O mundo anda tão complicado que figuras como  Ai Weiwei são fundamentais para a gente continuar acreditando que sofrer calado é covardia.
O documentário de Alison Klayman (aqui o trailer) é a chave para entender esse artista plástico chinês que tinha tudo para ser um queridinho do governo da China, mas que nunca se conformou com os desmandos de Pequim. Par saber mais, vale visitar o site do filme.
A propósito,  até 14 de abril, é possível ver a exposição Ai Weiwei Interlacing. no MIS - o Museu da Imagem e do Som, em São  Paulo.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Anton Corbijn, um outsider

Acabo de ver o documentário Shadow Play - The making of Anton Corbijn, sobre o trabalho do mais brilahntes diretor de arte e fotógrafo holandês.  É um retrato do fotógrafo e diretor que nasceu perto de Rotterdam, na Holanda, mas que firmou carreira  na Inglaterra como fotógrafo da então emergente cena pós-punk na Grã-Bretanha, depois elevada ao mainstream. Ele é o fotógrafo de capas de álbums e vídeoclips clássicos do U2, R.E.M, Depeche Mode, Tom Waits, Nick Cave, e Nirvana só para citar alguns.
Mas, Corbijn foi, e sempre será, ligado à história da legendária banda de Manchester, Joy Division. "Foi por causa deles que eu saí da Holanda, e claro, porque fui demitido da revista onde trabalhava porque minhas fotos eram consideradas muito dark", conta Corbijn.
Essa fama de ser fora do convencional, apesar de trabalhar com o supra sumo do mundo rock/pop dos anos 80, 90 e até agora, quase fez com que Corbijn fosse "desconvidado" da direção do filme Control, a biografia de Ian Curtis, o líder do Joy Division, que se matou em 1980.
Quem viu o filme sabe que nenhum outro diretor conseguiria mergulhar daquela maneira no universo atormentado de Curtis. Shadow Play foi feito justamente em 2007, durante o processo de produção de Control. 
Soube que há outro documentário mais atual sobre Corbijn. O trailer de Inside Out  está também no Youtube.
Para quem quiser saber mais sobre o Corbijn, recomendo o site dele, que é uma obra de arte só. Ah, ele também dirigou George Clooney, em O Americano.

Joy Division and Corbijn


Um dos mais impressionantes trabalhos do diretor holandês Anton Corbijn é esta homenagem a Ian Curtis, oito anos após o suicídio do líder da banda Joy Division. O vídeo de Atmosphere, acabou sendo uma homenagem controversa porque, na época de lançamento, 1988, os ex-integrantes da legendária banda de Manchester teriam detestado o vídeo. Mas, o tempo passou e, sem dúvida, a solidificação da carreira de Corbijn mudou o rumo dos ventos.  No documentário Shadow Player, a história deste videoclip é contada da perspectiva do diretor holandês, do diretor da gravadora do Joy Division - que encomendou o vídeo ("use as fotos que você tem do Ian") e de Bernard Summer, um dos sobreviventes da banda do Joy Division e integrante da banda New Order.  Bernard garante: "por mais de 10 anos pensaram que nós detestamos o vídeo, mas eu na verdade acho um trabalho maravilhoso". E é mesmo.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Revendo os clássicos - Once Upon A Time In The West






O inverno voltou por aqui (hoje a máxima é 2°C)  e, assim, nada como um bom filme em casa. Escolhi rever Once Upon A Time in The West (Era uma vez no Oeste), de 1968, do genial Sergio Leone. Acho que assisti pela primeira vez  no cineclube da APCC, coordenado pelos nossos mestres  Pedro Veriano e Luzia Miranda Álvarez, lá pelos idos de 1984/1985. Depois, já na Université de Louvain, em 2008, o melhor professor que tive no mestrado mostrou essa sequência, neste que  é um filme com várias sequências antológicas: o confronto dos pistoleiros na chegada de Harmonica (Charles Bronson) na estação de Flagstone, o duelo entre ele e Frank (Henry Fonda),... E claro, toda a atuação de Claudia Cardinale, divina no papel de Jill McBain.
O especial nessa cena, sem diálogos,  começa com a música do mestre Ennio Morriconi, combinada com a fantástica direção de arte na recrição do Oeste nos tempos dos "pioneiros". É uma aula de cinema: a passagem de Jill pela estação, a câmera que se mantém do lado de fora e que depois se movimenta até mostrar um panorama  do lugarejo em ebulição, e a partida de Jill numa carroça...
Bem, para quem se maravilha com Tarantino e Robert Rodriguez, nada melhor que ver a fonte onde eles beberam para serem vistos como diretores cult nesse começo do século XXI.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Consciência eletrônica


A ambiciosa graphic novel brasileira V.I.S.H.N.U. (Quadrinhos na Cia; 2012) já está à venda aqui na Mangueirosa.
Feita sob medida para quem gosta dos traços de Moebius e de temas como inteligência artificial, livre-arbítrio, misticismo e consciência eletrônica, a HQ representa sem dúvida o voo mais alto dos quadrinhos nacionais no universo quase infinito da ficção científica.
Um dos pontos positivos da obra, na minha opinião, são as criaturas desenhadas por Fabio Cobiaco, no melhor estilo do artista surrealista suíço H.R. Giger.
Apenas a semelhança (relativa) do argumento (de Eric Acher) e do roteiro (de Ronaldo Bressane) com o livro Count Zero, de William Gibson, me deixou meio cabreiro.
Como é a primeira parte de uma trilogia, vejo alguma chance de que eu possa estar enganado.
Mesmo assim, vale cada um dos 55 reais do preço.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Esperando Godot, ops, Bono em Dublin


Poucas cidades no mundo tem  música no ar como Dublin. A capital da Irlanda tem uma lista quase interminável de talentos consagrados e ainda por serem descobertos. Mas, a essência dessa cena musical é o cantor de rua, mais precisamente da Grafton Street, a principal rua do comércio. Na véspera de Natal, depois de uma longa caminhada, estavamos no centro de Dublin, quando uma senhora nos perguntou: "Vocês são  turistas? Pois, não deixem de ver o Bono cantar ali na Grafton Street!". Agradecemos a dica e voamos pra lá, no meio da multidão que fazia compras, já por volta das cinco da tarde.
Na frente de uma das lojas,  o aglomerado era grande para ver um desfile de talentos, cantando sem nenhum amplificador. Eram somente voz e violões.
Do lado de nós, um rapaz dublinense nos contou que a iniciativa do "concerto" de rua é do compositor Glen Hansard. O artista  começou a carreira na Grafton Street e  ganhou o Oscar de Melhor Canção, em 2007 com Falling Slowlytema do file Once, onde  atua como o personagem principal, um músico de rua. "Ele chama todos os músicos de Dublin e a gente nunca sabe quem pode aparecer, normalmente  Bono vem", conta nosso vizinho.

Glen Hansard e Lisa Hannigan - uma descoberta e a surpresa de ver a nova musa indie de Dublin. (Foto: Edvan F. Coutinho)

Bem, à espera de Bono, a gente descobre Hansard (ou redescobre: depois soube que ele era o guitarrista do grupo de soul music no fantástico filme de Alan Parker, The Commitments, em 1991). E ao lado de Hansard, quem sobe o banquinho é  ninguém menos que Lisa Hannigan, a mais nova voz dublinense que invadiu as paradas indies na Europa, no verão passado. Eles cantaram a linda Falling Slowly. Depois, quem aparece  e solta a voz é Sinéad O'Connor. A mais rebelde e atormentada cantora pop da Irlanda, mandou ver com Nothing Compares to U

Sinéad O'Connor solta a voz em plena Grafton Street em Dublin. (foto: Edvan F Coutinho) 

Depois disso, apareceram alguns  policiais que, super educadamente, pediram que mudassem o banquinho para outra parte da Grafton Street. A gente acompanhou a mudança de lugar com a multidão, mas à essa hora, exaustos, preferimos seguir para nossa ceia natalina num tradicional fish and chips irlandês. Depois, a gente soube que Bono apareceu já por volta das oito da noite. Vimos os vídeos. A melhor seleção das performances na rua de Dublin, vocês podem ver aqui, no site do The Telegraph Belfast.
Aliás, este e outros sites dizem que Bono e os cantores se apresentaram numa ação beneficente, o que não acreditamos. Em nennhum momento passaram o chapéu pedindo algo. Prefiro acreditar na palavra do rapaz dublinense ao nosso lado. "Eles querem é mesmo valorizar quem canta na Grafton Street, e nas outras ruas de Dublin".




quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Trilha sonora natalina

 

Neste natal não há Jingle Bells que consiga penetrar na minha mente, pois todos os neurônios disponíveis estão ocupados com o último disco de Steve Hackett, Genesis Revisited II, lançado há apenas 2 meses.
Recebi a bolacha dupla há 10 dias, presente do meu amigo E. Neto (companheiro de inúmeras expedições imaginárias ao Himalaia e à Antártica) e desde então não mais desgrudei das versões revisitadas de músicas clássicas do Genesis, como Supper's Ready e The Musical Box.
Dentre os inúmeros músicos convidados, destaco John Wetton, um dos meus baixistas favoritos e Simmon Collins (filho de Phil Collins), nos teclados e vocais.
É inevitável a comparação com o disco Genesis Revisited, de 1996, e acho que acaba dando empate...
Genesis no natal? Nada mais apropriado!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Adeus às curvas

 "O que me atrai é a curva
livre e sensual. A curva
que no encontro sinuoso
dos nossos rios, nas nuvens
do céu, no corpo da mulher
preferida. De curva é feito 
todo o universo. O universo
curvo de Einstein."


(1907-2012)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A Pietá de Horst Faas

"Para mim essa foto aponta para a essência da guerra do Vietnã. Ela não retrata nenhum fato relevante. É apenas um soldado morrendo nos braços de outro. Eu fiz com um olhar cristão, vendo Maria amparando seu filho moribundo".   
Horst Faas (1933-2012), fotógrafo alemão.
Antonello de Messina (1430-1479): Cristo morto sustentado por um anjo (Museu do Prado)

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Tyger, tygre!

THE TYGER (William Blake)

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand, dare seize the fire?

And what shoulder & what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand & what dread feet?

What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what the grasp
Dare its deadly terrors clasp? 

When the stars threw down their spears, 
And water'd heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?


Ilustração : William Blake


O TYGRE (tradução de Augusto de Campos)

Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya? 

Em que céu se foi forjar
o fogo do teu olhar?
Em que asas veio a chamma?
Que mão colheu esta flamma?

Que força fez retorcer
em nervos todo o teu ser?
E o som do teu coração
de aço, que cor, que ação?

Teu cérebro, quem o malha?
Que martelo? Que fornalha
o moldou? Que mão, que garra
seu terror mortal amarra?

Quando as lanças das estrelas
cortaram os céus, ao vê-las,
quem as fez sorriu talvez?
Quem fez a ovelha te fez?

Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?