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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Alô, alô interior!




 Alô, alô interior! Alô, alô interior! Atenção, Dona Cleinha! Atenção, Dona Cleinha! Seu filho Durval manda avisar que a esposa Jandirá acabou de parir. É seu primeiro neto e se chama Antonio - Tonico para os mais íntimos...

A mensagem saiu de uma rádio difusora, a primeira forma de se comunicar pelo interior, principalmente da Amazônia. Essa espécie de pombo-correio eletrônico-sonoro era o meio de se matar saudade, anunciar notas fúnebres, felicitações de aniversário, além de outros enunciados do cotidiano da floresta. São mensagens por vezes íntimas e pessoais, que em boa parte, só se tornam públicas pela necessidade da informação. 
Agora me vem esse moço, Ney Conceição, fazer-nos lembrar desses tempos idos de vida interiorana, ao lançar o quarto trabalho de música instrumental, intitulado “Alô, alô interior!”. O título nos remete a esse alumbramento, essa coisa nostálgica. O trabalho é fruto de pesquisa da musicalidade interiorana, daí o título. Percebe-se tal elemento na zabumba, triângulo e sanfona, entre tantos elementos acústicos. Do frevo ao carimbó, a sonoridade desse artista embala o resultado de sua pesquisa: magnífica. As pitadas de jazz enobrecem o disco

Se hoje Ney Conceição é considerado um dos maiores contra-baixistas do país, o produto do experimentalismo só podia ter lançamento no Teatro Experimental Waldemar Henrique, em Belém, sua casa. Acompanhado de músicos locais e nacionais, esse paraense da gema do açaí, por ora assentado no sudeste do País, deixa claro que o título remete a uma forma de se comunicar, de enviar notícias de um mundo geograficamente maior para outro mais distante, através da arte. Nada melhor do que a música, uma metáfora das ondas tropicais dos rádios, para esse trabalho de autopsia da história das difusoras.

O show de lançamento (13/01/2013), em si, foi eletrizante, estonteante. Atingiu a maior amplitude de onda quando tocou a música-título em homenagem ao interiorano Dominguinhos, entubado numa CTI, sob risco de sucumbir. Foi uma espécie de oração ao ritmo do nordeste. Além de Arimatéia, um trumpetista participativo de realengo que tufava a jugular com seus sopros metálicos, havia ainda o baterista Cristiano Galvão e o percussionista Dadadá. As Participações do trio Manari e Sebastião Tapajós fez-nos mostrar quão possível é a integração entre os povos, basta ler a partitura da vida. Mas o maior destaque, afora o Ney, foi o carioca Luiz Otávio, de 23 anos, tecladista. Converteu-se em Stevie Wonder e reluziu. Reluziu no sentido jazzístico, ainda que suas turvas retinas lhe escondam a luz.

A platéia estava extasiada. Eram músicos, artistas de outras áreas, professores ligados à arte, e eu, acompanhado de meu filho, um irrequieto contrabaixista e admirador do Ney. Olivar Barreto contorcia seu pomo; Almirzinho Gabriel se maravilhava; Nego Nelson pedia bis. Marcos Puff, o destemido Ariel e uma turma de saxofonistas invadiram o palco, no final, para regozijar Ney. Uma festa interiorana, dessas com direito a bingo. João Pedro, o filho, dedilhava às escondidas um contrabaixo que eu fingia ver. E eu? Só batia palmas. Era o que me restava. É a única coisa que sei fazer.

... Alô, alô interior! Alô, alô interior! Atenção Dona Cleinha! Atenção Dona Cleinha! Ele manda dizer também: assim que findar o resguardo, e tão logo as chuvas minguarem, ele pega um popopô no rumo da boca e vara por aí. Prepare um caldo de Gurijuba que é pra dar sustância pro Bacuri e também pra ele já ter nas ideias a vida de pescador.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O Kobo da Cultura

Kobo (divulgação)

O mercado do livro no Brasil tem crescido muito nos últimos anos. Ao que parece, esse crescimento não é fruto da melhora no nível educacional da população, mas do aumento da renda média do brasileiro. Em outras palavras, o livro é tratado como bem de consumo, e não como bem cultural - daí porque os títulos mais vendidos são os de auto-ajuda ou best sellers, como a "saga" Crepúsculo, as obras do indefectível Paulo Coelho ou os manuais de marketing pessoal e profissional.

Boa parte das vendas no país ainda é dos tomos em papel. O livro digital é parte muito pequena do mercado, em parte porque as grandes livrarias brasileiras não haviam se interessado pelo produto. O livro digital ainda era mais facilmente encontrado nas bookstores estrangeiras, sendo a principal delas a Amazon.com.

Eis que o Natal de 2012 revela uma novidade que talvez melhore esse cenário: a Livraria Cultura, uma das maiores do Brasil, acaba de divulgar o lançamento de seu e-reader, nos moldes do Kindle, da Amazon. A empresa paulista utilizará o modelo Kobo (quase um bife japonês) e promete fazê-lo chegar ao consumidor nacional com 30.000 títulos disponíveis.

Resta saber se a promessa de tantos títulos se concretizará no vernáculo. Afinal, a Amazon possui milhões de livros disponíveis para quem se dispuser a pesquisar, mas desses somente uma parte ínfima é em português.

De todo modo, a iniciativa da Cultura não é nada ruim para quem, há dois anos, possuía míseras 1.000 obras em seu catálogo. A intenção é bater a maior livraria virtual do país, a Gato Sabido, que hoje possui menos de 7.000 títulos em suas estantes digitais. Oxalá venha mais.

sábado, 20 de outubro de 2012

From the Jurunas to the the world

 
Foto: BBC site

Ela esta lá, ao lado de Marcelo Camelo e Siba, entre outros, afinal, nada mais LatAm Beats do que Gaby Amarantos. Para ver o vídeo da jurunense, bata clicar no link para o site da BBC inglesa. E aproveite para ver os outros talentos na série

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Comentando um comentário de Erika Morhy, acrescento: Como também venho do Jurunas, conheço Gaby há muito tempo, mesmo antes dela ter se aproximado dos "descolados" da cena paraense no começo dos anos 2000. Ali todo mundo  jà via nela um conteúdo e a metamorfose ambulante que ela é. Ela sempre agregou pessoas talentosas ao trabalho dela. Nesse vídeo  se nota que, se comparada à Ivete Sangalo - para citar um caso apenas de cantora mainstream - Gaby tem um background de inteligência e diversidade muito maior. Tenho a convição que o tecnobrega, assim como o manguebeat, é a seqüência natural de um caminho aberto pela Tropicália há mais de 40 anos. Antropofagia versão século XXI.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Na cabeceira da existência: a Faculdade de Medicina





Às tardes, 
meu caminho encontrava um casarão de esquina,
cinzento, 
onde via, 
na porta, 
pessoas que se inteiravam do mistério de curar.
Com a mente cheia de sonhos
 um dia entrei lá.

Aristóteles de Miranda, médico e poeta.



Nestor perguntou à enciclopédia de História qual caminho para o Largo de Santa Luzia, pois sabia da existência de um rubi da ciência na Amazônia. A enciclopédia pediu-lhe para abri-la na página 1923 d.C.: vagalumiou uma seta que apontava para o norte.
Tomou a bússola e saiu, tal como um cão farejador, pela selva de concreto permeada por mangueiras frondosas, na direção almejada. Entre uma esquina e outra, pela calçada, Nestor achou capa de jornal velho (janeiro de 1982), caroço de manga chupada, pedal de bicicleta – etc... -, até encontrar uma biografia pelo caminho: era a rota certa.
De posse do Livro, no exato meio-fio dos cruzamentos defronte do Largo, ele abriu na folha 52 e reviu o passado distante do seu ontem. Empinou o olhar em direção àquela edificação de esquina, cinzenta até hoje, saracoteando um segundo olhar à página, que dizia: “arquitetura eclética, dois pavimentos com platibanda ornada em balaústres”. Não entendeu a linguagem, mas parecia um palacete em art noveaus, ou art déco, ou coisa assim: eclética, amodernada.
Perguntou a um velhinho de sandália de dedo, que vendia farinha ao seu lado: – Como se entra acolá? “Acolá” dava sensação de distanciamento.
- Pela porta, moço, desde que saibas ler com os olhos da ciência e do humanismo. Respondeu com intimidade.
Perpassando as páginas seguintes, recebeu um choque nos nervos, um trisca. A obra radiografou o prédio da Faculdade de Medicina (e Cirurgia, como no princípio). Em verdade, acabou por deflagrar um minuto do momento mais doído da economia amazônica: a fratura exposta do ciclo da borracha. “Por outro lado, não se pode deixar de reconhecer que com a ‘quebra’ da borracha a sociedade empobrecera; ficara mais dificil, se não impossivel, mandar os filhos para a Europa. E por que não criar, então, condições para a elite estudar em casa, mesmo, permitindo, de qualquer maneira, que se mantivesse o status quo?”, dizia a página condutora de elétrons.
(A história é um fio desencapado e de alta tensão, cuja tomada fica plugada na literatura. Ao tocar, a descarga atiça os nervos. Só não fica magnetizado quem anda em desplugado da Literatura ou faz terra com a História).
Portanto, a crise financeira fez “ovar” o curso de Medicina. Começou num modesto espaço dentro Colégio Paes de Carvalho, em 1919, conforme relatam Aristóteles de Miranda e José Maria de Abreu, médicos e membros do Instituto Historico e Geográfico do Pará, no eletrocutante “Memória Histórica da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará”, (2010, UFPA). Citam Paes de Carvalho como idealizador do curso (que era médico), mas que só foi implantado por abnegação de um grupo de médicos incomodados com a espera do Governo, em farta crise. Camilo Salgado usou seu prestígio para liderar a força-tarefa, quando o Governador era Lauro Sodré.
Depois houve a aquisição da atual sede, na página 1923. O local fora comprado de uma nobre família e era conhecido como Palacete da Praça de Santa Luzia.  Foi desembolsado menos de 100 contos de reis, quando valia 200, pois a crise da borracha alfinetava a bolha imobiliária. O Governo inteirou com cinco contos. O resto foi doação, e muitas delas por anônimos em apreço aos médicos.
Ao findar a leitura, seis anos já se iam. Nestor fechou o livro num sopapo, flexionou o tronco diante daquela arquitetura, fez o sinal da cruz e pediu proteção aos “camilianos”. Depois comprou um quilo de farinha e tomou o rumo do nariz. Voltou a freqüentar o casarão a partir de 1997, para saber se os cômodos e as platibandas ornadas em balaústres ainda estavam no seu devido aconchego.

Para: Elias Pinto (Jornalista), Haroldo Baleixe, Maria Alice Penna e Cybelle Miranda (Arquitetos). 

Artigo recomendado:
Abreu Junior JMC. A Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará: da fundação à federalização 1919-1950. Rev Pan-Amaz Saude 2010; 1(4):11-16.

domingo, 23 de setembro de 2012

A moda é fulanizar

-- Ei mano!? Te liguei, passei mensagem, deixei recado no Twitter, Orkut, Facebook... Qual é, heim?!!

Era um convite para o show de aclamação de Gaby Amarantos após o resultado do VMB da MTV Brasil.

Há pelo menos duas décadas, a fulanização de atrações populares, marteladas sem dó nem piedade nas plataformas a serviço da mass media; emburrece, aliena, destrói algumas das construções positivas de política cultural anteriores planejadas, executadas e com o devido processo de prestação de contas ao financiador.

Meus parabéns a Gaby.

Meus pêsames ao atual processo de formação de público que consome cultura.

Querem um exemplo?


Brasileiro Profissão Esperança – 1974 Clara Nunes & Paulo Gracindo

Um trabalho inteligentíssimo de Paulo Pontes. Não é preciso dizer nada sobre o espetáculo: é maravilhoso. Prefiro falar mais às quatro forças deste show, diretamente: Gracindo, Clara, Bibi e Paulinho. Uma beleza.
Antonio Maria (1921 – 1964) e Dolores Duran (1930 – 1959) se tivessem sido irmãos não seriam tão parecidos. Os dois gostavam de viver mais de noite que de dia, os dois faziam canções, os dois precisavam de amor para respirar, eram puxados pra gordo e, mesmo na hora da morte, os dois foram atingidos por um só inimigo: o coração. 

A obra que os dois deixaram, hoje espalhada pelos jornais e gravadoras do País, reflete essa indisfarçável identidade. Mas prestando atenção nas coisas que disseram e escreveram e nas músicas que eles fizeram é que a gente descobre a expressão maior dessa semelhança: os dois se refugiavam do absurdo do mundo, que eles revelaram com humor e amargura, na desesperada aventura afetiva. 

O amor era o último reduto dos dois. A montagem do texto de “Brasileiro Profissão Esperança” se apoia no permanente cruzamento dessas duas vidas, de tal forma que ninguém sabe o que é de Antonio Maria e o que é de Dolores. Uma crônica de Maria vira um dado para explicar a existência de Dolores, assim como uma canção de Dolores exprime e sensibilidade de Maria.

Bibi Ferreira/Paulo Pontes, extraído da contra-capa.
Brasileiro Profissão Esperança
Clara Nunes & Paulo Gracindo

Lado 1
Ternura Antiga (J. Ribamar – Dolores Duran)
Ninguém me ama (Fernando Lobo – Antonio Maria)
Valsa de uma cidade (Ismael Neto – Antonio Maria)
Menino grande (Antonio Maria)
Estrada do sol (Antonio C. Jobim – Dolores Duran)
A noite do meu bem (Dolores Duran)
Manhã de carnaval (Luiz Bonfá – Antonio Maria)
Frevo número dois do Recife (Antonio Maria)
Castigo (Dolores Duran)
Fim de caso (Dolores Duran)
Por causa de você (Antonio C. Jobim – Dolores Duran)
Lado 2
Pela rua (J. Ribamar – Dolores Duran)
Canção da volta (Ismael Neto – Antonio Maria)
Suas mãos (Antonio Maria – Pernambuco)
Solidão (Dolores Duran)
Se eu morresse amanhã (Antonio Maria)
Noite de paz (Durando)
Brasileiro Profissão Esperança – 1974
Clara Nunes (1943 – 1983) & Paulo Gracindo (1911 – 1995)
Texto de Paulo Pontes (1940 – 1976)
Direção: de Bibi Ferreira
-- Conhecem esse show?
Foi no Canecão, Rio de Janeiro, no ano de 1974. Estréia da baiana e novata Clara Nunes, cuja carreira foi interrompida precocemente devido a um grosseiro erro médico.

Meus caríssimos leitores. Dá pra comparar com a porcaria que hoje nos oferecem?




















segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Seminário irá discutir a recém aprovada Lei Valmir Bispo dos Santos, que cria o Sistema Municipal de Cultura

Seminário e debate entre candidatos a Prefeito discute a implementação da Lei que cria o Sistema Municipal de Cultura e sua importância para a Cultura de Belém


Novos e auspiciosos ares para a Cultura em Belém é o que pode se esperar a partir da aprovação da Lei “Valmir Bispo dos Santos” pela Câmara Municipal em 24/07/2012, que criou o Sistema Municipal de Cultura. Entre os instrumentos da nova Lei, pode-se citar a criação do Fundo Municipal de Cultura, que provoca uma imediata elevação do orçamento da área cultural de 0,3% para 2% do orçamento municipal, acrescendo em quase 5 (cinco) vezes o valor destinado para a área, equivalendo a aproximadamente R$ 45.000.000,00 (quarenta e cinco milhões de reais) por mês. Só esse crescimento de recursos já seria uma excelente notícia, pois atualmente a área de cultura só recebe aproximadamente R$10.000.000,00 (dez milhões de reais), que é quase toda consumida com pagamento de pessoal e despesas de custeio da Fundação Municipal de Cultura de Belém (FUMBEL), órgão municipal responsável pela gestão na área de cultura e que foi criado em 1989. No entanto, há vários outros instrumentos e recursos que podem ser captados por meio da criação do Sistema Municipal de Cultura. No entanto, para que a Lei “Vamir Santos” seja implantada efetivamente é necessária a sua regulamentação, antes de tudo, por meio de Decreto dos instrumentos e mecanismos de gestão previstos, como o Fundo Municipal de Cultura, o Conselho Municipal de Políticas Culturais e o Plano Municipal de Cultura. 

Vereador Marquinho, Presidente da Comissão de Cultura da CMB
É justamente com a finalidade de discutir a implantação do Sistema Municipal de Cultural e seus benefícios e recursos de apoio à cultura e aos produtores culturais, que está programado para o dia 30 de agosto, quinta-feira próxima, a partir das 15 horas, um seminário com este fim. Inicialmente, haverá uma palestra do Diretor de Programas Integrados da Secretaria de Articulação Institucional (SAI) do Ministério da Cultura (MinC), Bernardo da Matta Machado, sobre a importância do Sistema Municipal de Cultura para o fortalecimento da cultura de Belém. Em seguida, haverá uma mesa-redonda, com representantes da FUMBEL, Câmara Municipal, MinC Norte e Fórum de Cultura de Belém, abordando os desafios e oportunidades que a implementação da nova Lei oferecem no campo da cultura. E, finalmente, a partir das 18 horas, se dará um debate com os candidatos a Prefeito de Belém sobre as respectivas propostas de Política Cultural para a cidade de Belém. O seminário “a implantação da lei Valmir Bispo dos Santos e as perspectivas para a Cultura em Belém” realizar-se-á no plenário da Câmara Municipal de Belém, a partir das 15 horas até 20:30 horas, aproximadamente, no dia 30 de agosto, quinta-feira. 

Assinatura do Convênio do Governo Municipal com o MINC.
A proposta de criação de um sistema municipal de cultura se deu por meio de um amplo movimento social, que iniciou por meio de articulações nas bases da classe teatral, que agregou vários outros segmentos culturais. O fortalecimento desse movimento propiciou a formação da Comissão de Cultura da Câmara Municipal de Belém, além da criação do Fórum de Cultura de Belém, e desencadeou várias audiências distritais e a elaboração de um Projeto de Lei de Iniciativa Popular, visando à criação do Sistema Municipal de Cultura. A coleta de assinaturas em apoio ao projeto chamou a atenção da sociedade e do Poder Executivo, que resolveu enviar Mensagem do Prefeito à Câmara de Belém encaminhando o Projeto discutido pelos movimentos culturais. 

Membros do Governo, Câmara, MINC, artistas e Grupo de Trabalho.
A efetivação do Sistema Municipal de Cultural (SMC) representa a possibilidade de se ter uma política efetivamente pública e participativa de cultura, que possibilite, a partir de um inventário cultural, identificar nichos de mercado. Outra medida importante é a identificação de arranjos produtivos culturais e sua articulação em torno de um sistema, assim como a instituição de um Conselho Municipal de Políticas Culturais, com ampla representação de segmentos produtores de bens culturais e artísticos. Assim como abre a possibilidade de acessibilidade a equipamentos culturais por meio da abertura de pautas e a circulação da produção local, assim como a formação artística, técnica e de platéias. Outra medida prevista no SMC é o fomento e potencialização da economia criativa, assim como a implantação de editais de cultura. Esse conjunto de ações e instrumentos, se implementados, certamente resultarão na ampliação e qualificação de serviços e bens culturais, tornando-os mais abrangentes. Isso, de um lado, pode tanto permitir a valorização da cultura local e afirmação de identidades sociais pautadas na cultura e no território, assim como pode permitir a sinergia com outros sistemas sociais e culturais, estimulando, dessa forma, padrões de comportamento baseados na solidariedade e tolerância em relação às diferenças culturais e sociais. 

Programação: 

Data: 30.08.2012 (5ª feira) 
Local : Plenário da Câmara Municipal de Belém 
Endereço: Travessa Curuzu, 1775 (entre 25 e Almirante) 

30.08.2012

15:00h – Apresentação Cultural: Pássaro Colibri de Outeiro 
15:10h - Abertura: CMB, FUMBEL, MinC, Fórum de Cultura de Belém e Movimento Viva Valmir 15:20h – Palestra: “A importância do SMC (Lei Municipal nº 8.943 de 31/07/2012) e sua implementação para o fortalecimento da cultura no município de Belém.” 
Expositor: Bernardo da Matta Machado (Diretor de Programas Integrados da Secretaria de Articulação Institucional do Ministério da Cultura) 
16:00h - Mesa Redonda: “O que é o Sistema Municipal de Cultura ou Lei Valmir Bispo dos Santos e os desafios para sua implantação.” 
Debatedores: FUMBEL, CMB, MinC Norte e Fórum de Cultura de Belém Mediação: Lélia Fernandes
17:00 às 17:30h - Debate e Encaminhamentos 
17:30 às 18h - Intervalo- Lanche 

DEBATE COM OS CANDIDATOS A PREFEITURA DE BELÉM : Qual a agenda para a Cultura na sua Gestão à frente da Prefeitura?
18:00h - Abertura e Composição da Mesa 
18:20 às 19:30h - Exposições dos Candidatos a Prefeitura de Belém 
19:30 às 20:30h – Debate 

Realização

  • Fórum de Cultura de Belém 
  • Comissão de Cultura da Câmara Municipal de Belém 


Quem foi Valmir Santos


Valmir Santos discursando sobre o “Custo Amazônico”    
Valmir Carlos Bispo Santos (1962-2012) foi um historiador e gestor público que se notabilizou pela sua trajetória política, sobretudo no meio estudantil, onde foi o único presidente da UNE (União Nacional de Estudantes) originário da Amazônia na gestão de 1988/89. Depois disso, Valmir seguiu uma carreira profissional como gestor público em diversos órgãos culturais e ambientais, sendo que em boa parte deles ocupou funções de direção. Entre as funções que assumiu, pode-se destacar a Superintendência da Fundação Curro Velho, durante a gestão da governadora Ana Júlia Carepa (2007-2010), e a Direção do Bosque “Rodrigues Alves”, no segundo mandato de Edmilson Rodrigues à frente da Prefeitura de Belém (2001-2004). 

Na sua gestão á frente desses órgãos, Valmir conseguiu implementar algumas ações inovadoras, como a ampliação das atividades da Fundação Curro Velho para municípios do interior do Estado e a inclusão de quilombolas e etnias indígenas entre os segmentos sociais atendidos pela Fundação. Na Direção do Bosque Rodrigues Alves, Valmir propôs, articulou e conseguiu transformá-lo em Jardim Botânico de Belém, inserindo-o na rede nacional de jardins botânicos, ampliando, desta forma, as possibilidades de captação de recursos da instituição.

Mas Valmir se destacava também pela sua personalidade singular, onde se mesclavam a sua capacidade de liderança e articulação com um jeito descontraído, pode-se dizer até travesso e “moleque” (no bom sentido), que contrastava, por vezes, com o meio sóbrio ou mais sisudo onde circulava. Mas era essa sua personalidade alegre e moleque que conseguia atrair pessoas de diferentes credos, etnias ou posições políticas, que admiravam essa postura inusitada. E até hoje, a política e a cultura ainda se sentem órfãos daquele “baixinho” determinado, que conseguia aliar obstinação e transigência com irreverência e sensibilidade.

TRAJETÓRIA PESSOAL E PROFISSIONAL DE VALMIR SANTOS

Nascido em Belém do Pará no dia 20 de fevereiro de 1962, 3º filho do engenheiro civil Valdir Sergio dos Santos e da professora Antônia Bispo Santos, irmão da psicóloga e empreendedora Vânia Santos, do engenheiro e empreendedor Valdir Santos Jr, do professor de economia Valcir Santos (UFPa) e da jornalista Joice Santos (MPEG).

1979 – Começa sua carreira de militante estudantil após ser aprovado entre os 20 primeiros colocados na área de Ciências Biológicas, aos 16 anos, no Curso de Medicina da UFPa.

1980 – 1982 – Participa do Diretório Acadêmico de Medicina da UFPa, lutando por melhores condições de ensino

1982 - participa da gestão do DCE/UFPa, com a chapa "Pé no Chão";

1983 – Troca a Medicina pelo curso de História da UFPa, articula o Centro Acadêmico de História, criando cargos novos, como as diretorias de Cultura e Esporte.

1984/85 - eleito presidente do DCE/UFPa, na chapa "Arueira", cuja gestão se destaca pela Campanha pela 1/2 passagem estudantil. No período, ocorre o primeiro enfrentamento do governador eleito Jader Barbalho com os estudantes. A mobilização envolvia a formação de comitês por cursos para pular a roleta dos ônibus - ação "EU PULO”-, marchas diárias até a residência do Governador, passeatas e comícios em frente a sede do Governo do Estado. Valmir Santos esteve à frente desta luta!

1987/88 - Eleito presidente da União Nacional dos Estudantes - UNE, em uma chapa composta por estudantes de correntes políticas identificadas com o PT - Partido dos Trabalhadores e dissidentes do PC do B, quebrando uma hegemonia de 10 anos de gestões ligadas ao PC do B. A gestão organizou a participação dos estudantes na Constituinte de 1987/88, no Movimento Pró-Participação Popular na Constituinte em oposição ao Centrão, na luta contra o aumento das mensalidades escolares, na luta pela Assistência Estudantil, mobilizou pela valorização da Cultura Popular, revivendo os CPCs e realizando o festival QUARUP. A liderança de Valmir garantiu a unidade do movimento e inseriu na pauta da UNE questões caras a juventude como: comportamento, direitos individuais e liberdades individuais.

1989/92 – Após se formar como bacharel em História, participa da equipe da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, cujo titular foi Paulo Freire, na gestão Luiza Erundina (então PT) na Prefeitura de São Paulo.

1992/97 – Faz concurso e ingressa na Secretaria Municipal de Educação de Santos (SP), trabalhando nas gestões de Telma de Souza e David Capistrano Filho (ambos do PT). É selecionado para o Programa de Mestrado em História da PUC-SP com projeto que analisa os movimentos abolicionistas e as marcas destes na paisagem urbana de Santos.

1998/2000 – Retorna a Belém e ocupa a Diretoria de Eventos Culturais e depois a Diretoria de Patrimônio Histórico e Cultural da FUMBEL, na gestão de Edmilson Rodrigues (então PT).

2001/2004 - Vai para a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e assume a Direção do Bosque Rodrigues Alves, propõe, articula e consegue transformá-lo em Jardim Botânico de Belém, ampliando as possibilidades de captação de recursos da instituição. Era a segunda gestão de Edmilson Rodrigues.

2004/2006- Participa da ong IMAZON como consultor e coordenador do projeto Belém Sustentável. É selecionado para o Programa de Mestrado em História Social da Amazônia (UFPa) com projeto de pesquisa sobre a bacia aqüífera e a zona verde em torno de Belém, buscando analisar conflitos cotidianos entre a natureza (e sua preservação) com o desenvolvimento humano, problemas de habitação e a existência de notórias práticas culturais e saberes populares.

2007/2010 – Assume a Superintendência da Fundação Curro Velho, na gestão de Ana Jùlia Carepa (PT) no Governo do Estado do Pará, ampliando as atividades da entidade para municípios do interior do Estado e incluindo quilombolas e etnias indígenas na linha de ação da Fundação.

2011/2012 – Assume a Direção do Núcleo de Artes e Cultura da UEPA - Universidade Estadual do Pará, na gestão da Reitora Marilia Brasil.

19/04/2012 – Valmir Carlos Bispo Santos é encontrado morto em sua casa em circunstância ainda não esclarecida. Homenagens post mortem recebidas na ALEPA, Câmara Municipal de Vereadores de Belém, Associação Sul-Sul (Itália), UNE, Regional Norte do Ministério da Cultura, no Plenário II da Câmara dos Deputados, no Encontro Nacional do PT (Setorial de Cultura), Faculdade de História (UFPa)