domingo, 3 de maio de 2026

Conexão Belém-Lisboa


              O avião mal havia "descolado" de Belém quando Lisboa atravessou-me a memória. Não a cidade em si, mas Lisbel.

Conheci-a numa tarde chuvosa, dessas em que o ar parece carregar histórias antigas no bairro Cidade Velha. A menina de 10 anos tinha nos traços a delicadeza de dois mundos: o pai, português de fala mansa e olhar saudoso do Tejo, com nítidos traços mouros; a mãe, paraense de riso fácil, com a leveza de quem cresceu à beira do Guamá: cabelos lisos, a lembrar a genética tupinambá.

Diziam que o encontro dos dois fora improvável, quase um capricho do destino, porém desses caprichos que acertam em cheio. O amor deles não quis ser apenas vivido; quis ser lembrado. E assim nasceu o nome: Lisbel. Não apenas uma junção de sílabas, mas uma ponte invisível entre duas margens do Atlântic; um elo que dispensava mapas. Enquanto o avião ganhava altitude, pensei que talvez certas distâncias não existam de fato. Há nomes que encurtam oceanos, histórias que fazem cidades caberem dentro de uma pessoa. Lisbel era uma dessas histórias. E, de algum modo, naquele voo, Lisboa já não era destino — era lembrança.