segunda-feira, 18 de abril de 2011

Um flâneur no meio do mundo

Roger Normando*

Flanar é a distinção de perambular com inteligência Nada como o inútil para ser artístico. 
João do Rio

Bem no meio do mundo, no endereço mais fácil do planeta - precisamente na esquina do Rio Amazonas com a linha do equador - fica Macapá (Maca Pichu na língua Waiãpi, de influência Inca, segundo um amigo fonologista). A capital do Estado do Amapá, na geografia, corresponde à latitude zero, mas para o compositor Zé Miguel, Macapá fica bem no meio do mundo e lá a vida corre (beeeeeem) devagar.
Por lá também acontecem coisas incríveis que até o fim do mundo (ou começo) duvida. A história que vou contar principia ao ler a página de entrada do Blog Flanar, em que está tarjado o conceito de Charles Baudelaire sobre o termo galês Flanar: “ver o mundo, estar no centro do mundo, e ficar escondido do mundo....” Maca Pichu tem o simbolismo baudelairiano.
Ao sobrepor estes dois parágrafos, sigo minha prosa no papel de flâneur nos moldes do Rio Sena: perambulando pelas ruas de Maca Pichu a “curiar” a paisagem urbana e o rio-mar.
No sentido norte-sul, mais precisamente na Rua Jovino Dinoá, ao pegado à Cora de Carvalho, andando sobre as soleiras abandonadas numa temperatura equinocial, avistei um mercadinho que exibe uma propaganda no mínimo curiosa: “Mini box Bino - Qualidade altamente mais ou menos”.
A terra de Joãozinho Gomes e Fernando Canto agora empresta poesia à publicidade como jamais imaginaria Washington Olivetto, um dos mais requisitados agentes de propaganda do Brasil. Se Olivetto ler essa propaganda “desenganosa”, certamente ficará mirando o céu à cata de astronautas - como fiquei - e procurará interpretar - como procurei - o que o autor quis dizer com aquela idéia que mistura lealdade com gengibirra. Embasbacado e olhando para o céu, Olivetto não encontrará astronautas, levará um tombo, como ocorreu comigo, e ainda torcerá o tornozelo; ficará com uma sequela que o obrigará a usar uma bota de gesso por seis meses, como quase aconteceu comigo, se não fosse muita reza.
Deixando o paulistano de lado sigamos com a história. Após seis meses transitando de lá pra cá (Belém-Dinoá-Belém), eu resolvi levar dois dedos de prosa com Severino, o dono do estabelecimento. É um tricolor fiel, pois o conheci envergado com sua camisa verde-grená dia após a derrota do Fluminense no Uruguai pela Libertadores da América. Bino, como é conhecido o dono do negócio (e da idéia), disse que no seu mercadinho vende-se de tudo um pouco e um pouco de tudo. O lugar é meio apertado, confessa, pois entre as prateleiras abarrotadas, mal cabe um cliente. Se for gordinho então... Mas Bino guarda um humor contaminante e, provavelmente essa dádiva o motivou a emplacar o texto na lateral de seu negócio, em letras garrafais, mas em cores rubro-negras, que acabou virando motivo para contemplação de curiosos flâneurs. Apaixonado pela vida universal, Severino entra na mídia da ética como num imenso reservatório de humildade, quebrando o paradigma da propaganda enganosa - daí o regozijo baudeleiriano.
Para Bino mando muita luz; para Washington Olivetto mando flores e o desejo de melhoras para que se recupere mais rápido do quebranto lançado por seu mais novo algoz, o mesmo quebranto que de mim foi espantado ao passar no tornozelo bálsamo de andiroba com copaíba, cabacinha, cânfora, sebo de carneiro... e muita reza.

* Médico, Cirurgião de Tórax, colaborador frequente deste blog e amigo pessoal do poster.

2 comentários:

Val-André Mutran  disse...

Essas gentes de nossa Amazônia é que nos fazem o povo mais alegre e receptivo do Planeta, Normando.
As histórias que encontramos nos lugares mais improváveis, nos enchem de alegria e uma certa melancolia ao constatarmos como pode, um povo tão inteligente e safo, ser tão sacaneado pelos poderosos de plantão?
Excelente sua crônica.
Se faltasse a arrumação de ervas para combater a contusão e o inchaço que fostes vítima; experimente ferver a polpa do cupuaçu, deixando-a ao secar, sempre mexendo com uma colher de pau, de modo a virar uma pasta.
É milagroso e curou em 24 horas o entrevamente de minha mulher que estava vergada devido a uma inflamação séria no nervo isquiático.
Os caboclos de Marabá, chamam-na de banha do cupú.
Mas há, ainda, a banha da tartaruga. Essa, igualmente fantástica, porém, tão fedorenta que é mais fácil pedir o divórcio a respirar seu perfume.
Um abraço.

Homem do Norte disse...

VAl,
Excelente comentário. Vou guardar esta fórmula para a próxma crônica, se der certo, vou intitulá-lo doutor em fitoterapia dos trópicos(kkkkkk) e enviá-lo para Sampa para cuidar dos corinthianos Adriano e Olivetto.