sábado, 9 de julho de 2011

“The Doors”, Jim Morrison e a Bossa Nova: em mim o rock errou

Roger Normando*


“Esse ritmo tipicamente brasileiro é bem visível na pulsação da minha bateria; Os músicos brasileiros influenciaram decisivamente todos os tipos de música com aquela bossa nova que falava o idioma do jazz. “
John Densmore, baterista (The Doors), no livro “Riders on the storm”

As manhãs de domingo reservo para conversar sobre música com meu filho mais velho. No domingo passado (3 de julho) ele mostrou-me manchetes de diversos tabloides estampando os 40 anos da morte de Jim Morrison, o vocalista do “The Doors”. Não faz muito tempo e o Rock, para mim, se resumia a Beatles, Rolling Stones e Elvis, mas a data merecia reflexão.
Após seguidos proseamentos comecei a perceber as vibrações do U2 e Pink Floyd. Os Doors vieram mais tarde, pois sempre entendia que a lenda Jim Morrison era maior que a própria banda e isso me deixava cismado. Depois de conhecer John Densmore e os demais componentes da banda, tudo mudou e, com o tempo, “Light my fire” começou a fazer parte de meu momento-rock e “The end” de minha poesia-rock.
Este pensamento cismado sobre os Doors cintilou quando visitei o Cemitério Perre-Lachaise, em Paris, onde está enterrado James Douglas, o Jim. Eram fãs de todo mundo psicografando nas mais diversas línguas uma mensagem saudosa na parede de seu túmulo. Eu, que havia preparado meu domingo parisiense para ver os mausoléus de Edith Piaff, Chopin, Proust, Oscar Wilde, Victor Hugo e tantos outros, deparar com uma garotada idolatrando aquele monumento, confesso, foi-me motivo de ficar boquiaberto. A prova é que coloquei minhas digitais na parede daquela catacumba como forma de expressar meu analfabetismo em relação àquele ícone. Se chuva, sol ou uma segunda demão não apagaram, está lá minha ignóbil assinatura ao mais sincero estilo “mobral”.
Já em casa tratei minha curiosidade com o filho, profundo conhecedor do Yankee jurado de cadeia por tantos desvarios, e que havia doado a alma ao Cramulhão. Uma curiosa e verdadeira informação me chamou atenção em nossa prosa, que distingue os Doors dos demais: foi saber que a banda misturou ao rock, música indiana e jazz, passando pelo blues, flamenco, cânticos tribais e até a poesia edipiana - sem esquecer a brasilidade.
Quando os Doors surgiram, o mundo ainda ouvia, por um tímpano, rajadas de metralhadora vindas do Vietnam e pelo outro, a sonoridade da Bossa Nova no tom de Jobim. O enovelamento de sons resultou num rock personalizado, percebido nas baquetas de John Densmore, de forte influência jazzística. Todos reconheciam que a Bossa Nova dava novo sotaque ao jazz, por isso foi inputada ao rock dos Doors, porém numa intensidade bem menor que o ácido lisérgico.  
Mas Jim não somente emprestou seus ouvidos à guerra, sua voz à indolência, sua veia ao LSD; foi mais além e doou sua alma à extravagância. Cantou a morte experimental em “Light My Fire” e matou o pai em “The end”, tal como o grego Sófocles. Em sentido inverso aos Beatles, que se entregaram às maravilhas da vida, como na conhecida “Obladi Obladá” e “And I Love her”.
No fundo do palco dos Doors, Densmore apimentava o sucesso “Break on Through” com sutis batidas da Bossa Nova num ritmo que proclamou de “bossa nova speed”. Esse híbrido jazz-rock os diferencia. Jamais imaginaria tal mistura e, nesse caso, foi a Bossa Nova a fração inspiradora.
Não me lembro de outro grande grupo de rock que tenha dado tanto ouvido à música brasileira. Vou perguntar a um estudioso, pois em mim o rock errou de veia e diluiu-se na minha vasta ignorância musical e artística.
Parede lateral do túmulo de Jim Morrison, onde estão minha digitais.

Ray Manzarek, o tecladista e o guitarrista Robby Krieger ao lado do túmulo de Jim Morrison (“The Sacramento bee”, em 03 de julho de 2011). Foto de Jacques Brinon / AP Photo.


*Texto de Roger Normando, médico, cirurgião de tórax, peladeiro e amigo antigo deste poster. Portanto, vade retro safardanas!

6 comentários:

Scylla Lage Neto disse...

Jim Morrison não morreu...

Homem do Norte disse...

Scylla, Existe uma teoria marcante sobre isso nos EUA. Algumas pessoas já o viram vagando pelas ruas do Estado do Alabama. Seria mais uma alma penada?

Scylla Lage Neto disse...

Roger, eu acho que Jim Morrison não morreu na mente da galera.
Talvez seja uma espécie de negação inconsciente coletiva.
Abs.

Unknown disse...

Take me tô Portugal, take me tô Spain...take me Spanish caravan yes i know you can....

Gustavo Laoviah disse...

Sim, procudando o the next Whisky bar..hahaha

Gustavo Laoviah disse...

He lives on "Love Street"