quarta-feira, 4 de abril de 2012

VER-O-TRAUMA: para se ver no trauma o peso da violência

Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh! quanta matéria para os jornais.
[...]
Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia...”

Carlos Drummond de Andrade, em: o necrológico dos desiludidos do Amor

Quando Caim, no relato de Gênesis, desferiu uma pedrada no cocuruto de Abel, causando traumatismo craniano, bem ele sabia (“disque” nem se arrependeu) de se ter consumado o primeiro ato de violência fatal da história bíblica. Caim, resultado dos anseios eco-sexuais de Adão e Eva, deu início a uma doença que se tornaria epidemia nos dias de hoje: os traumatismos. Assim começa a história do Trauma para os cristãos, essa doença infernal capaz de invadir e acorrentar até coração de poeta.

Trauma é doença fruto da violência, ação física qualquer sobre o corpo. Constitui grave reflexo na saúde pública (... e bíblica, conforme as lápides de Abel e Jesus). É a principal causa de morte na população jovem. “O enfrentamento dessa doença vem sendo realizado por diversos setores da sociedade, incluindo os profissionais de saúde e governantes”, diz Gustavo Fraga, Cirurgião e Professor da UNICAMP, no Livro TRAUMA (Panamerican Trauma Society, editora Atheneu, 2010).

Assim como Fraga, esse parceiro de itinerário, também, por diversas vezes, já nos deparamos com as inclinações do jornalista paraense Elias Ribeiro Pinto acerca do tema. Na crítica social contumaz, “Matadouro a céu aberto” é seu jargão jornalístico preferido para nocautear os que insistem em olhar-de-banda para Belém. Também é o jargão que ele mais se atém e mais lhe dá comichão. Portanto, Ribeiro, das ribeiras de seus vocábulos sai sua senha para se juntar ao Fraga e fazer parte de um grupo de embriagados idílicos que buscam, agora, discutir essa doença no âmbito transbelenense veropesista, como diria o personagem sucupirano Odorico Paraguassu, numa das barracas do mercado do Ver-o-Peso, sob o sol do Equador, levando dois dedos de prosa com Dalcídio Jurandir e degustando um peixe-frito à moda da casa.

Consoante à violência urbana que exanguina as grandes cidades e depleta Bancos de Sangue, assim como eminente necessidade de atualizações médico-científicas nesta área, em junho deste ano (20, 21 e 22), realizar-se-á em Belém um conclave médico, o VER-O-TRAUMA, de abrangência internacional. Três são os convidados internacionais: Antonio Marttos (Miami, EUA), Oswaldo Borraez (Bogotá, Colômbia) e Alberto Garcia (Cali, Colômbia), além de outros convidados nacionais e locais de mesmo quilate, todos envolvidos com a doença trauma (A Colômbia de Cali e Bogotá, foi um “Matadouro a céu aberto”, lembram?). Objetivo é não só discutir, mas “importar” técnicas operatórias e conhecimento, assim como divulgar o nosso trabalho, com ênfase ao Metropolitano, hospital de referência.

O evento será direcionado não só a cirurgiões e médicos de especialidades afins, mas também a alunos do curso de medicina, enfermagem e demais áreas da saúde. A Liga Paraense do Trauma (LPT), composta por estudantes com perfil para lidar com emergência médica desde a fase embrionária de aprendizado, terá oportunidade única de participação.

* ROGER NORMANDO, amigo, cirurgião torácico e colaborador frequente do blog

3 comentários:

Marise Rocha Morbach disse...

Roger,
Eu vinha agora da UFPA com uma música que a Nana Caymmi gravou lindamente, e que eu acho que é Procissão do Senhor Morto..."que morre outra vez agora... Uma enxugou seu rosto, outra observa e chora". Vinha pensando no sentido da páscoa para os cristãos e nessa coisa toda da violência. Tava pensando em dar o fora - como vou - nesta Páscoa, e no quanto essa cidade está violenta. O mantra do Elias Pinto é prá lá de consequente. Daí que de certa forma estamos "desferindo tiros no peito" e não sabemos até quando: "somos os desiludidos do amor". A violência é essa coisa inominável e contagiosa, e que vai sendo inoculada n'alma. Imagino em vocês que estão de frente para o crime.

Homem do Norte disse...

Marise,
O mantra do Elias ficou como impressão digital no momento em que eu ensaiava escrever o texto. Por viver nas trincheiras da violência ao conviver com "tiros no peito", bem sei o que representa referência que você nos faz. Obrigado pela oportunidade que vocês têm me dado de mostrar esse roteiro do meu cotidiano, que é de todos nós, na verdade.

Pedro do Fusca disse...

Roger, agora a poucos minutos ao mudar de um canal de televisão para outro vi um "pastor" da Universal anunciando as suas ultimas curas junto com os ex-doentes, que tinham
como doenças: mal de parkisson, cancer no utero,cegueira e enfisema pulmonar. Todas estas pessoas ficaram curadas com um "oleo milagroso fornecido pela igreja". E a nossas "otoridades" não prestam atenção para este pessimo desserviço que fazem estes charlatões! So falta o Governo pegar esta dica e em vez de fazer Hospitais construirem Igrejas da Universal.