quinta-feira, 11 de março de 2010

Os 4 amigos


Imagem: Dimitris Papazimouris
Findado um lento e agonizante processo de separação, finalmente agora começo a me sentir com os pés no chão. E começo também, ao optar por ficar só (ao menos por um tempo), a enxergar meus horizontes, subitamente ampliados. A lente que se implantara em meu cérebro, grande angular demais, mais sintomática do que exatamente fiel à realidade, não deixava-me focar o entorno. Só enxergava conjuntos e planos panorâmicos. Todos tentadores e de bela estirpe. Mas, o tempo provou, não é só disso que uma alma confusa e atormentada precisa. Ela precisa de paz e também do foco curto, localizado, detido, de cada centímetro do entorno. E principalmente, necessita poder fazer o que nenhuma lente consegue fazer: focar a si própria.
E isso é necessário. Tanto que, sintomaticamente optei num primeiro momento, por um caminho diverso, na verdade, talvez temendo agravar o espírito já suficientemente ferido e assustado. E não foi assim tão ruim. Muito ao contrário, conseguiu ser um momento surpreendente e belo. Mas foi o que podia acontecer, e talvez, não exatamente o que deveria ter acontecido. Contudo, olhar para o próprio umbigo, com o tempo, se revela uma necessidade imperiosa. E, a exemplo da inevitável separação, é simplesmente algo que deve ser feito na sequência.
Envolvido nesta nova atitude, comecei a pensar em coisas à fazer, de maneira a aproveitar a onda de apreciação da recém conquistada liberdade. Sim. Agora o momento tem nome e endereço. Chama-se liberdade. Algo que envolve responsabilidade e apuro nas escolhas. Neste sentido, estou procurando uma academia, decidi voltar para a música, e penso em um curso de francês. Mas não só isso.
Por um acaso do destino, voltei a me relacionar mais frequentemente com 3 pessoas muito especiais. Através do Skype, fazemos animadas conferências à quatro. Algo divertidíssimo. A pequena sala de meu apartamento, se enche de alegrias. Pessoas das quais, nunca me afastei por completo, mesmo no período mais fechado de um casamento.
Uma delas, acompanhou-me no difícil período da adolescência. Outra, durante todo o ótimo período universitário, ainda na faculdade de Medicina. E por fim, a última, coroou os anos 80, cheios de agitação cultural, em compasso com um país que saía de longos anos de ditadura. Em favor destas pessoas únicas, insistia em manter contato com elas, às vezes enfrentando tensões desnecessárias. Na verdade, nunca perdemos o contato. Conversávamos sempre. Ora virtualmente, ora na real mesmo, sempre que possível. E sempre eram momentos mágicos. Ouvia suas histórias, suas viagens, seu desprendimento e me via do lado de lá, compartilhando aqueles prazeres. Mas logo engolia em seco, voltando para meus afazeres hipnóticos. Mas sempre que podia, os encontrava e curtíamos umas poucas horas de puro deleite, lembrando, contando e ouvindo muitas histórias. E principalmente, rindo muito.
Sabem aquelas pessoas que sabem tudo sobre você, suas qualidades, suas suscetibilidades, seus defeitos, seus exageros e tem o exato local de sua ingenuidade? Chega a ser irritante. Mas elas são exatamente assim. Modernas, antenadas, inteligentes, preciosas e conhecedoras das profundezas de cada um.
Pois eis então o que vai acontecer. Uma aventura no interior do Brasil, em um lugar (ao que dizem) mágico. Onde corpo, alma e natureza se reúnem para celebrar a vida. Desbravar trilhas e pedras, com descanso em cachoeiras. Espírito de equipe, ritmo nos passos, mochilas nas costas (especialmente providenciadas para a empreitada), hospedagem em pousadinhas cumpridoras, com horas e horas de bom papo e conversas sem prazo para acabar. A unir todos, as metas da caminhada, a vontade de se reencontrar, a necessidade de mudar de ares, nem que seja por efêmeros 4 mágicos dias. Apenas um fim-de-semana inteiro.
Para tanto, 2 mulheres e 2 homens, vindos de lugares diferentes, se reencontrarão em um ponto central. De lá, partiremos para o cerrado, onde ficaremos por 2 noites em um certo isolamento bem interiorano. Terminado o período, cada qual pega seu boeing e volta para sua base. Simples assim. Sem expectativas, sem planos especiais, sem programação detalhada, apenas as passagens aéreas e hospedagem. Nada mais. Apenas a vontade de cumprir as metas e aproveitar o ambiente de reencontro. E quem sabe, conhecer novas pessoas, e fazer novos amigos. Mas nós, os 4 amigos, lá faremos planos. Trocaremos impressões dos quase 50 anos de vida da maioria do grupo, passando a régua e fazendo o balanço. Uma destas pessoas (certamente a mais saudável delas), não embarca exatamente na faixa etária predominante, já que tem talvez 3 décadas de vida (ela não revela exatamente quanto e, cauteloso, prefiro arriscar para menos). Mas é pessoa com fortes experiências a compartilhar. E é adorável no trato, inteligente, vivaz, criativa e curte a alegria. Compra com tranquilidade o espírito de seus algo avariados companheiros de viagem (eles que não me leiam por aqui). Os demais, cada qual com seus problemas. Eu com uma sequela de hérnia de disco. Outra, com ao menos os joelhos a reclamar. E o último, também se queixa de algum problema na coluna (muito embora eu não acredite). Mas todos, com espírito absolutamente jovem. E que cumpriram por um longo período no passado recente, caminhos absolutamente díspares. E agora, criamos a encruzilhada de nossas vidas. E é exatamente isso que vai acontecer. Uma encruzilhada para respirar.
E foi sempre assim, quando nos reunimos. Rimos, dançamos, choramos, nos abraçamos, recordamos. É assim que chegaremos lá. Como 4 amigos. E amigos para sempre. Como num Círio, ou Natal, faremos destes dias, os melhores de nossas vidas. Para quem sabe, recomeçar tudo outra vez.
E aviso que levarei as câmeras. Só não sei se a alma vai caber dentro dos megapyxels. Mas os computadores, desta vez ficarão quietinhos. E também poderão aproveitar seu merecidíssimo descanso.
E eu, não posso ainda dizer fui. Mas apenas tô indo!

31 comentários:

Mira Jatene disse...

sei...seria bom levar uns apretrechos médicos , desejo dias inesquecíveis...rsrsrs

Belenâmbulo disse...

Relato emocionante, meu amigo!
Muita identificação... muita inspiração... muita gratidão por sua coragem em compartilhar conosco detalhes tão íntimos, ao mesmo tempo tão universais, de sua vida... Foi um pouco do que senti ao ler esse texto.

Boa viagem e boas fotos!

Carlos Barretto disse...

Mira
Mas que bom te ver por aqui. Quanto aos apetrechos, não se preocupe. Afinal, lá não é o fim do mundo.
Bjs

Carlos Barretto disse...

Wagner
Vc sacou tudo, cara!
Abs

Itajaí de Albuquerque disse...

Ótimo texto, camarada. E ouça o conselho da amiga: não esqueça de levar o Bálsamo Benguê, sempre útil em mal jeito, desmintidos e até quebranto!

citadinokane disse...

Barrettão,
Vi com Deus e seja feliz!
abraços,
Pedro

Francisco Rocha Junior disse...

E vamos em frente!

Yúdice Andrade disse...

Penso em fazer uma viagem assim, algum dia. Não pelos mesmos motivos, mas porque me ressinto de não ter vivido essas emoções nos doces anos da mocidade. Decidi esperar que minha pequenina cresça e, um dia, se ela gostar de aventuras (espero que sim) e o meu sedentarismo não tenha acabado comigo de vez, havemos de explorar a beleza do mundo com uma câmera na mão e nenhuma preocupação na cabeça, se Deus quiser.
Boa sorte, meu amigo. Sucesso na empreitada. E anota o roteiro direitinho, para posterior utilização nossa.

Carlos Barretto disse...

Itajaí
"Bálsamo Benguê" é ótimo. Mas ninguém supera o velho Iodex! Rsssss
Valeu, Pedro. Obrigado pelo estímulo. Vem mais por aí.
Vamos sim, FRJ. Sempre em frente.
Yúdice, amigo. Vc sabe como eu gosto de escrever sobre roteiros. Muito embora, vez por outra, alguns mal humorados e mal vividos, aqui compareçam para reclamar de meus relatos de viagem. Mas este programa, ganhará relatos especiais. "Duela a quien duela".

Rssss
Abs

Val-André Mutran disse...

Capte todos os ângulos.
Abraços e boa viagem ao grupo.

Lafayette disse...

Eita relato bom. Bom 'quineim' esta belezura, que casa-como-agulha-e-linha:

http://www.youtube.com/watch?v=X4DAdlqm6oU

A Vida do Viajante
Luiz Gonzaga e Hervê Cordovil)

Minha vida é andar
Por esse país
Pra ver se um dia
Descanso feliz
Guardando as recordações
Das terras por onde passei
Andando pelos sertões
E dos amigos que lá deixei.

Chuva e sol
Poeira e carvão
Longe de casa
Sigo o roteiro
Mais uma estação
E a saudade no coração

Minha vida é andar...

Mar e terra
Inverno e verão
Mostra o sorriso
Mostra a alegria
Mas eu mesmo não
E a alegria no coração

Minha vida é andar...

dilin, dilin, dilin, dilin...

Carlos Barretto disse...

Excelente fundo musical, Lafa.
Vou levar ele no iPod.

Abs

Raul Reis disse...

Bonito texto, Carlos. Uma otima e inesquecivel viagem a voces. Espero ver as muitas fotos e ouvir as muitas historias qd eu estiver por ai... Um grande abraço e divirta-se!

Carlos Barretto disse...

Obrigado, Raul. Vais ver com certeza, Raul. E antecipo que vc conhece todos os integrantes deste grupo.
Abs

Anônimo disse...

Flanar pelo mundo com bons amigos;
eis a receita para curar todos os males. Bom encontro é de 4, né?!!!
É isso aí meninos, parabéns pela empreitada.
Aquele abraço e linda viagem pra vcs!

Carlos Barretto disse...

Querida.
Bom ver vc por aqui também.
Obrigado pela forcinha.
Bjs

Alexandre Sequeira disse...

Que lindo...fiquei muito emicionado ao ler teu texto. Não vejo a hora de pegar o avião e voar para o planalto central. Um abraço apertado do amigo que te adora.Sempre.
Alexandre.

Carlos Barretto disse...

Aíii, amigão do coração.
Vamos nós em mais um turbilhão de emoções. Daquelas que só nos 4 sabemos valorizar.
Até o planalto! E que as energias nos acompanhem.

JOSÉ DE ALENCAR disse...

Vai, Barretto, para seu mergulho nesse rio de Heráclito.
Voltarás melhor ainda.
Para o seu bem e de todos.

Carlos Barretto disse...

Vou sim, nobre. E como vc já pode ver, se depender de torcida, volto outra pessoa.
Abs

Andrea Casali disse...

Carlinhos, sem palavras!!!
Só tenho a dizer que estou morrendo de invejinha de seus amigos!
Invejinha boa, sabe!?
Seus amigos são meus também!!!
Vc sabe o quanto eu torço pela sua felicidade e dos meus lindinhos. Aliás, eu adoooooooro essa fotografia!!!
bjs

Mulheres do 25 disse...

Dr Carlos, vejo que todos acreditaram no seu texto profundo, sensível, revelador ... mas só nós sabemos que vc na verdade está fugindo de Bel, pq a mulherada tá se matando para conquistar o seu coração ...
Na real, é preciso dar o fora da cidade para descansar, pq ser um solteirão, bonitão, intelectual, doutor e fotógrafo, ou seja, ser um partidão é uma parada exaustiva!!!
Fala sério, irmão?????

Carlos Barretto disse...

Ahahahahahahahahah!
Querida amiga/Irmã!
Te amo. Vc sabe.
E isso basta para deixar vc como suspeita nestes comentários. Quem me dera, ter 1/3 das qualidades que vc me atribui. Quem me dera. Já estaria resolvido na vida, não? Há muito tempo. Mas exatamente por não saber qual meu rosto nesta história toda, é que parto para uma atividade fraternal, de puro exercício do maravilhoso sentimento da amizade. Simples, sem cobranças, firme e sólido ao longo dos tempos. Já dizia o polêmico Caetano Veloso, ao comparar o amor e a amizade na música "Língua".
"E quem há de negar que esta lhe é superior!"

Bjs e saudades eternas querida irmã.

Carlos Barretto disse...

Não por acaso, o amor acaba, como o meu se acabou. Mas a amizade, a celebraremos a 2000 km de Belém. Isso após 18 anos de ausência. É mole?
Repito:
"E quem há de negar que esta lhe é superior"????

Carlos Barretto disse...

By the way, o Mulheres do 25 acaba de ganhar um link do Flanar. Bem na coluna direita. Bem vinda de volta a Belém, querida do meu coração.
Bjs

Mulheres do 25 disse...

Sério Carlinhos?
Isso é profundo, sabia?
Eu já moro a tantos anos longe de Bel, que hoje acho que sou de lugar nenhum, uma pessoa do mundo mesmo.
Obrigada por me resgatar!
bjs

Homem do Norte disse...

Carlinhos,
Fiquei preocupado com este seu belo texto. Deu vontade de eu me separar também. Eh,eh,eh. Brincadeira. Nao pode a Valéria saber. Boa Viagem! Roger Normando

Carlos Barretto disse...

Nem vou desenvolver o tema para não complicar a sua vida, Roger. Se a Valéria ler o blog, já vai ficar sabendo o suficiente do que vc pensa. Vai eu desenvolver o tema e depois a culpa é minha.
Rsssss

Francisco Rocha Junior disse...

Carlinhos,
Uma das companhias que tu terás, já deu pra ver quem é. Melhor companheiro de viagem que esse, impossível. Este retiro será certamente inesquecível.
Abraços.

Carlos Barretto disse...

É isso mesmo, FRJ. Garantia de muitos risos e divertimento.
Abs

. disse...

Torço para que essa viagem te sirva de reencontro contigo mesmo, meu querido! Ou quem sabe de encontro, né? rsrsrrsrsrs

Vá com Deus e cuide dessa queimadura! Não vai dar mole que eu não quero ter que visitar amigo no hospital.

Beijocas!