quarta-feira, 7 de abril de 2010

Chapada dos Veadeiros - Perigo, prazer e mais cores

28 de Março de 2010
Foi uma noite estranha, onde no meio da madrugada, fui chamado de Tiranossauro Rex. Uma alusão pouco confortável, digamos, ao ronco que provavelmente trombeteei pelo quarto. Não que isso fosse exatamente um "privilégio" meu. Afinal, todos naquele quarto tinham lá suas personalidades em se tratando de roncar. Em determinados instantes de sono profundo, nem gostaria de imaginar a sinfonia produzida naquele espaço algo caótico. A única diferença, é que eu perdi a piada. Mas, tudo bem.
Acordamos animadíssimos com a possibilidade de fazer desta vez, aquele programa mais light anunciado por nossa querida parceira experiente na região. Após os preparativos de praxe, entramos no carro e rumamos ao Sítio Espaço Infinito (este é, sem dúvida, um nome "odara"), que se intitula "Santuário Ecológico do Salto Raizama".
Lá chegando, após pagar os habituais 10 reais, iniciamos a descida da trilha que levaria a um "santuário". Antes disso, recebemos um pequeno mapa que apontava os pontos mais interessantes de todo o percurso. Seria uma trilha de apenas 2,3 quilômetros (ida e volta), com desnível declarado de 100 metros. Paradas programadas em pontos intrigantes como por exemplo: Hidromassagem, Piscinas, Mirantes e um tal de Salto do Raizama.
No mapa, algumas orientações: Não levar comida, bebida ou animais (animais e bebida, tudo bem. Mas não levar comida??); respeitar as cercas (que cercas???); evitar incêndios (longe de termos instintos incendiários); não desviar das trilhas (nem que recomendassem eu o faria); não jogar lixo (beleza!); usar calçados anti-derrapantes (já me assustei, mas estava usando um); não riscar as rochas (nem me passou pela cabeça); respeitar animais e plantas (bom dia senhor sabiá, prazer em conhecê-lo!); respeitar o próximo (chegamos então, aos 10 mandamentos).
De fato, a trilha inicialmente era aparentemente inocente, com inclinação suave, cheia de exemplares típicos da flora do cerrado, que já registramos no post Chapada dos Veadeiros - Flora e Fauna. Seguíamos caminhando, com aquele espírito leve, indiferentes ao peso que carregávamos nas mochilas, parando para fotografar todo e qualquer alvo que nos parecesse interessante. Desta iniciativa, nada escapava. Flores, bromélias, borboletas, e os céus. E que céus! Alguns pareciam obras pintadas manualmente pelos Deuses.
Encontramos então, um pequeno e romântico córrego. Um riacho, cheio de rochas, bem menor que muitos igarapés que conhecemos na amazônia. De águas claras e algo amareladas. Tratava-se do córrego Raizama. Este, vai descendo candidamente por entre as rochas, serpenteando na paisagem até chegar a uma pequena cachoeira de 2,5 metros que cai em um pequeno poço, com a profundidade máxima de 1,80 m. A idéia era, entrar no poço, e sentado exatamente em baixo da cachoeira, sentir a força da água gelada bater em seus ombros. Daí o nome de Hidromassagem. Realmente uma beleza. Curtimos muito este momento paradisíaco, permanecendo lá em torno de meia hora.
Neste instante, percebi uma certa inquietação em nossa parceira experiente na região. Ela insistia em nos apressar: "vumbora, galera!"
Mesmo encantado com aquela visão do paraíso na terra, de fato, eu achava que devíamos prosseguir. Afinal, segundo o mapa, ainda teríamos que cumprir mais alguns pontos de orientação. Vestimos então as roupas, calçamos as sandálias anti-derrapantes, acoplamos as mochilas e prosseguimos.
Fomos então cumprindo uma trajetória sinuosa, nem tanto íngreme, parte dela, com o córrego Raizama ao nosso lado. Desde este momento, eu já percebia um certo aumento de sua velocidade e a presença crescente de um ruído assustador, feito um ronco. De repente, a trilha volta a ficar fechada, formando uma espécie de túnel de bambus, que tínhamos que afastar com as mãos para prosseguir. Não mais visualizávamos o córrego Raizama, o ruído assustador aumentava ainda mais e a trilha, agora era quase uma escadaria, de tão íngreme. Rochas escorregadias, tinham que ser percorridas com cuidado extremo, passo por passo, metro a metro, uma pisada atrás da outra. E o barulho agora era um escândalo. Muito stress e ansiedade. Estávamos literalmente nas mãos de nossa parceira experiente na região, que desta vez, olhava para nós com uma estranha curiosidade. Nessa altura, eu já sacava o plano dela.
Subitamente, a visão que surge, é absolutamente estarrecedora. O pequeno córrego Raizama, despenca por 50 metros dentro de um verdadeiro caldeirão da morte. Um canyon estreito mas profundo, aguardava suas românticas águas lá embaixo. A visão de um precipício. Um abismo.
Bem lá embaixo, encontrava-se o Rio São Miguel que percorria o fundo do canyon com águas muito tumultuadas. Fomos seguindo por um caminho que já não poderia ser chamado de trilha. Talvez uma escarpa, beirando um despenhadeiro. E ela para meu pavor, em alguns momentos estreitava-se tanto, que não poderia ter mais de 1 metro de largura. Depois deste limite, o abismo. Para complicar, a parede oposta ao despenhadeiro, em alguns momentos avançava em direção à trilha, quase que nos empurrando em direção ao abismo. Caminhávamos meio inclinados neste trecho.
Em seguida, encontramos um trecho mais organizado, com algumas escadas e pontes feitas em madeira, talvez não tanto seguras, que nos levavam mais abaixo no despenhadeiro. Por fim, chegamos ao ponto culminante de toda a trilha.
A visão impressionante da garganta onde despenca o Rio São Miguel, encontrando-se com o salto de Raizama mais à frente. Um enorme volume d'água despencando na garganta, mostrava a origem verdadeira do ronco assustador que ouvíamos antes.
Nenhuma imagem que eu ponha aqui, seria capaz de descrever o que vimos de fato lá. Fiquemos então com a limitada visão que posso compartilhar do momento.
Por lá ficamos, por um tempo difícil de definir. O cenário era hipnótico e extraordinário. O som, os odores e até uma bela borboleta, em azul fluorescente, com o verso de suas asas com o desenho de dois olhos de coruja, contribuíram para um certo surrealismo natural. A delicadeza da bela borboleta, em contraste com a força, a energia, o poder daquele rio. Basta isso, para resumir a experiência que jamais sairá de nossa memória, lugar precioso onde guardaremos para sempre, em 3 dimensões, o impublicável. O verdadeiro patrimônio de cada um, é sua memória. Por aqui, humildemente, compartilhamos como podemos aqueles momentos.
Mas, infelizmente, chegava a hora de seguir em frente. Tínhamos mais um ponto a cumprir na trilha, antes de voltar ao ponto de partida. Encontrar as piscinas naturais, onde poderíamos tomar banho em segurança, e relaxar depois daquela estonteante visão.
Seguimos então, desta feita subindo uma íngreme elevação beirando o despenhadeiro, que exigiu de nós alguma concentração e a firme determinação de não olhar para baixo. Só assim poderíamos prosseguir sem ficarmos paralisados de medo.
Após este curto trecho, para nosso alívio, a trilha vira mais ou menos a mesma configuração do Vale da Lua. Com inclinações suaves, sem exatamente serem menos escorregadias. Mas, perto do que tínhamos enfrentado, daqui para a frente tudo seria um bálsamo.
Com efeito, após alguns minutos de caminhada, chegamos a um trecho superior do Rio São Miguel, antes de despencar naquela maravilhosa garganta. Um trecho quase que romântico, onde ninguém seria capaz de dizer, que o inferno está mais adiante. Descarregamos as mochilas, nos livramos das roupas e caímos na piscina. A princípio, sabedores do destino final daquela pequena corrente de água, tomávamos banho próximo a margem. Não poderíamos avaliar se era seguro nadar em direção à corrente. Optamos pela segurança das margens.
Ficamos por lá cerca de meia hora, de molho nas águas geladas, conversando e fazendo um pequeno lanche. Quando começávamos a nos vestir e preparar a retirada, eis que aparece um sujeito, certamente conhecedor do lugar, que entrou em nossa piscina privada e nadou alegremente em toda a sua extensão. Sem gastar para isso nenhum esforço. Entrou, nadou, nada disse e nada lhe foi perguntado. Saiu e trilhou com habilidade, em meio às rochas, até chegar a uma espécie de platô, onde se deitou e, aparentemente, meditou.
Olhávamos para aquilo, incrédulos. Nos sentimos ridículos. Quase sem combinar, tiramos rapidamente as roupas e caímos de novo na piscina, no intuito de experimentar toda a sua extensão, da mesma forma que o sujeito, calado, nos ensinara. Ele foi um mestre, do qual não esqueceremos. Obrigado, amigo, onde quer que você esteja.
Resolvemos então iniciar o retorno à São Jorge. Cansados, com a face anterior das pernas dolorida, contudo, absolutamente felizes com a conjugação de almas e natureza.
Não sem antes, dar uma última olhada, para trás, como se marcássemos bem na memória, a visão daquele lugar inesquecível.
Chegamos em São Jorge, por volta de 15 h. Após almoçar e descansar por uma hora na pousada, decidimos fazer um passeio fotográfico, onde planejávamos aproveitar a extraordinária luz da tarde naquela região. Um mirante, de onde poderíamos apreciar o por-do-sol e o nascer da lua cheia. Uma espécie de pedreira, recheada de cristais de quartzo por todos os lados. Mas o tempo, não nos ajudou. Logo, uma chuva encobriu os céus e acabou com nossas pretensões. Mas isso em nada abalou o conjunto deste dia. Sentíamos que era querer demais, pretender que a natureza nos desse o "fecho de ouro". Muita pretensão. O melhor, já tinha acontecido. E aquela parceira experiente na região, ganhou nosso eterno agradecimento, pelos planos rigorosamente fantásticos que reservou a nós. Amor, energia e saudades de você, querida parceira. Não sei se um dia, conseguiremos retribuir.

6 comentários:

Cris Moreno disse...

Olá, Barreto. Boa tarde. Só faltou um fundo musical... digo isto porque coloquei, hoje pela manhã, a instrumental do Mapyu - Trilha de Búfalos. Quanta coincidência. Estou divulgando a nossa produção de cantores e compositores paraenses. Legal o seu passeio. Parabéns.

Beijinhos e Bom dia.

Carlos Barretto disse...

É verdade, Cris. Pensei em vários temas para o texto, enquanto escrevia.
Bjs e obrigado.

Andrea Casali disse...

Parabéns pelas imagens!!! Pelo visto vc se arriscou nos barrancos para obter os melhores angulos, né?!Que perigo, Carlinhos!Só não brigo pq vc voltou inteiro. Obrigada pela fotografia! Quando vc vier no Rio vai vê-la majestosa na parede! bjs, saudades

Carlos Barretto disse...

Que bom que gostou, irmã.
Obrigado pelos comentários.

Scylla Lage Neto disse...

Super shots again, Charlie!
Adorei as cachoeiras.
Abraços.

Carlos Barretto disse...

Vindo de vc, Scylla, uma honra,
Thanks!