domingo, 25 de junho de 2017

O pulo do grilo

“Este universo está cheio de histórias, não de átomos”
Muryel Ruckeyser, poeta estadunidense

Há 30 anos um disparo calou o rio Maratauíra, braço do Tocantins. No colo da mãe, o menino Leon foi levado às pressas para Abaetetuba, amparado nas remadas de um ribeirinho que passava por perto. Montaram na canoa e seguiram pelo resvaloso caminho das águas amazônicas.
-De onde vem todo este sangue? Perguntou o canoeiro, homem atarracado, com fortes traços indígenas, remando contra o vento, a correnteza e um enigma.
-Um tiro varou a cabeça do menino.
- Quê?
-Sim, um disparo feito pelo pai... acidental!
Um morno silêncio atravessou a goela daquele barqueiro.
-Não dá pra avexar? Gritou a mãe, desesperada.
-Estou fazendo força... Não tenho culpa.
Remou em silencio por mais de hora. Adiante a língua roçou:
-Este tiro foi acidental, mesmo? A mãe, cabisbaixa, ensanguentada, ficou sem voz. Apenas olhava o filho arfando, com estridor, sem esquecer de mais sete que ficaram no Guajará de Beja, o lugarejo.
Após quase três horas, chegaram ao hospital. Tinha a respiração opressa e logo entubaram para aliviar o estridor. Melhorou, mas ainda corria risco. Trataram de transferi-lo para Belém.
Vida salva ou morte adiada?
Após três meses, Leon teve alta e saiu de braços acorrentados com a mãe, carregando como lembrança, por mais de trinta anos, uma canuleta metálica no pescoço. Por ela respirava, mas sem a voz.  Cresceu e atingiu a idade adulta com aquela marca do passado. Diziam os médicos que ele tinha o goto fechado e jamais falaria.
Viveu 30 anos sonhando em mergulhar no Maratauíra, o rio de sua aldeia. Não saia de casa com medo de o barco afundar e entrar água nos pulmões. Viveu encarcerado pela sua história e rodeado de seus medos. Seu imaginário era regado a silêncio entremeado por silvo dos curiós, bocejo da floresta e zoada da chuva na folha do Paricá. Leon cresceu no trabalho pesado ao buscar fôlego para viver. Os músculos torneados eram de tanto subir de peconha no açaizeiro e de carregar, nos ombros, sacos de estopa com produtos da terra.
Após 30 anos voltou ao hospital para corrigir a sequela e refazer a respiração, a voz e a esperança. Quando adentrou ao consultório, com olhar desmantelado, Leon só desconfiava, mas estava disposto a enfrentar a cirurgia e realizar o sonho de mergulhar no rio.
Foi uma operação longa e trabalhosa, falaram os médicos. Quando se recuperou da anestesia e começou a sentir o ar pelas narinas, era como se a vida tivesse começado de revés e o relógio da parede do CTI seguisse no sentido anti-horário. Tudo lhe era estranho, inclusive o grunhido da voz e da respiração. Até hoje não sabemos se ele se negou a falar naqueles dias de internação, ou se desaprendeu.
Leon voltou à sua terra carregando a voz incrustada no assombro daquele estampido, para esquecer a metade de sua traqueia que ficou no expurgo.
A operação de mais de quatro horas foi ideia de Hermes Grillo (Boston) e Grif Pearson (Toronto), anos setenta. Grillo dissecou a causa (longo período entubado no CTI), mas foi Pearson o personagem, ao descobrir o pulo do gato – ou do grilo -, ao retirar o segmento de traqueia endurecido sem lesionar o nervo da voz, que passa rés à glote.

A partir da década de oitenta alguns brasileiros se destacaram e disseminaram a técnica, até chegar nas quebradas do Maratauíra. Os anos que levaram para sedimentar e disseminar a técnica foram os mesmos que Leon levou enclausurado às margens daquele barranco, esperando a vez da sua voz.

Nenhum comentário: