terça-feira, 22 de abril de 2008

Esperança e o Louva-a-Deus


Bernardo e seu Louva-a-Deus (Foto: Carla Torquato)

Este aí de cima, é o Bernardo, filho de Carla Torquato, advogada amazonense e amiga, que acabei por fazer aqui mesmo, virtualmente, na blogosfera. Ela é titular do blog Acontecimentos Aleatórios, que recomendamos pelo cunho intimista. É daqueles que a gente sente que há uma pessoa humana por trás do teclado. E não um conselho editorial. Gosto muito de blogs com este perfil.

Mas qual a razão de trazer aqui a bonita figura de Bernardo? Vamos então começar a ligar os pontos.

Ontem visitando o Acontecimentos, encontrei o singelo post Futuro apresentador do Animal Planet. Nele, uma sequência de fotografias flagrando o fascínio de Bernardo por um Louva-a-Deus. Basta olhar em seus olhinhos para ver a sincera admiração pelo estupendo animal.

De imediato fiquei tocado. Algo dentro de mim, foi imediatamente resgatado da memória longínqua. E o motivo é realmente inteiramente pessoal.

Quando criança, nutri por anos a fio, a mesma curiosidade e admiração por este incrível animal.
Tal curiosidade logo se transformaria em obssessão. A cada dia, buscava mais e mais informações sobre a espécie, o que tentava fazer na época, frequentando a biblioteca de minha escola. Mas esta, se mostrava insuficiente em fornecer as informações que queria. "Mas deveria ser suficiente!" - questionava eu, na época. Foi a primeira de uma série de decepções que a escola me traria.

Decidi então, - aconselhado por meu pai - ir ao antigo Arquivo Público atrás de mais informações. E o fiz sozinho, fazendo a pé o caminho de minha casa até a biblioteca pública. Juntava assim dois prazeres: o de ir andando por minha própria conta até meu objetivo e o de saciar a sede de informações.

Com efeito, lá acabei achando o que queria. Aquele conhecimento tão precioso, motivo de minha existência. Em minha própria casa, complementei tudo, consultando a enciclopédia Delta-Larrouse, que meus pais haviam adquirido há algum tempo, não sem algum esforço financeiro. Quem não se lembra das grandes e onerosas enciclopédias?

Para agravar mais a situação, nos jardins da casa de minha mãe, em uma florida planta trepadeira, havia uma grande quantidade destes bichos, em variados estágios evolutivos. A pesquisa depois, responderia sobre a razão para a concentração destes animais nos jardins de minha mãe.

Ao cabo e ao fim, dei-me por satisfeito formatando um pequeno resumo - escrito na velha máquina de escrever Olivetti Lettera 32- com tudo o que havia conseguido garimpar a respeito do Louva-a Deus. Foi um trabalho meticuloso, em linguagem de criança, mas, para mim, representava a vitória contra as "poderosas forças" que nos tentavam esconder o conhecimento.

Acrescentei também, algumas informações pessoais, obtidas da observação diária do comportamento destes bichos e da interação com outros atores como meus irmãos, colegas, funcionários da casa, etc.
Entre estas informações extra-documentais, digamos, aprendi que por aqui, também chamamos de "Põe-mesa". Havia inclusive uns versinhos que procuravam explicar o nome regional. Os funcionários da casa, logo acrescentaram outra denominação que a princípio achei bizarra mas, tasquei no relatório: "punha-mesa"!!
Mas o nome "Louva-a-Deus", certamente lhe é mais apropriado pois, quando está pousado, lembra a atitude de alguém em oração.


Foto: Wikipedia

Enfim, reconheço. Parece que eu era aquele tipo de criança que se costumava designar como "presepeira". E esta foi uma de minhas principais "presepadas".

Presepadas à parte, finalizado o relatório, orgulhoso, mostrei a todos na família. Para minha supresa, todos limitaram-se a comentários burocráticos e/ou com excesso de "animação". Ambos em minha visão, pouco recompensadores de meu esforço. Tudo bem. Resignei-me ante a clássica afirmação: "criança sofre".

Mas o que aprendi daqueles estudos, ficou na memória para sempre. E nos comentários que fiz no Acontecimentos, surpreendi-me exatamente com isso. Foi um resgate, seguido de emoção pura e simples. Um lampejo que surgia da profundidade de minha infância.

Vamos então, dar alguma consequência a este esforço da tenra idade. Resumindo:

a) os Louva-a-Deus são insetos carnívoros. Pasmem! Mas não se assustem. Na verdade, alimentam-se de outros insetos de pequeno porte como moscas, mosquitos, pulgões de planta, etc (suas presas favoritas). Seriam então insetívoros.
b) por trás de toda aquela aparente singeleza e fragilidade em tons de verde, existe um agressor competente e voraz. Prendem o almoço entre suas garras e os destroem gradualmente através de presas existentes em sua "boca".
c) quando ameaçado, assume uma postura agressiva (mas nunca o de "põe-mesa", que me desculpem os locais). Tal postura, no animal adulto com asas grandes e bem desenvolvidas, chega a ser teatral. Bizarra mas, bela. Mais parece o bailarino Jorge Dohn executando a coreografia do Bolero, de Ravel. (Veja a foto abaixo).


Foto: Blog Luz de Luma.

d) fixam-se em ambientes ricos em alimento onde põem ovos numa espécie de cápsula, de onde saem os jovens filhotes após algum tempo.
e) no jardim de minha mãe, conheci os filhotes (bem pequenos e na cor preta), os adolescentes (médio porte, já verdes mas, sem as asas) e os adultos (grandes, verdes, com asas amarelas, algo transparentes e exuberantes, normalmente escondidas por trás de uma "capa" verde, semelhante a uma folha. Por conta deste mimetismo, são difíceis de serem visualizados em seu próprio habitat. Só com muita atenção.

Era mais ou menos este o conteúdo do tal "relatório" que penosamente fiz. Se você deseja mais informações, basta dar uma pesquisada no Google. Em inglês, consulte "praying mantis". Na Wikipedia você encontra algo interessante também aqui e aqui. Viu como é fácil? Agora sente e imagine-se naquela época.

Mas minha trajetória com o Louva-a-Deus sofreria bem mais tarde, outra importante recaída. Lendo um livro antológico de Clarice Lispector (difícil e denso em um momento pessoal igualmente caracterizado) encontraria uma bela representação deste animal, associado com a esperança. Perdi o livro e não tenho mais o texto original. Quem puder trazer algum trecho, com certeza vai me atingir em cheio e de quebra, quem sabe, também dar início a outra "Louva-a-Deusmania".
Por enquanto, contento-me com mais um fenômeno de encontro propiciado pela blogosfera, na singela imagem de uma fascinada criança e seu belo animal.
Ligando os pontos, vamos nos tocando pela alma e nos encontrando nas esquinas de algum blogspot/wordpress.

10 comentários:

Oliver disse...

Ah, um Louva-Deus para dar cabo de uns pulgões que teimam em sugar a seiva de algumas plantas que tenho aqui.

Flanar disse...

É isso mesmo. Sinal de que vc consultou a Wikipedia. E aprendeu que eles podem servir também para o controle biológico dos jardins.
Mas voltando aos pulgões, sendo prático, enquanto vc não encontra seu Louva-a-Deus, ataque de Malathion (vendido em spray nos supermercados).
Resolve com apenas 2 aplicações com intervalo de 15 dias.
Só tire a galera de casa antes.

Rsss...

Oliver disse...

Pois é... Flanar. O problema é que a molécula dos organofosforados sobrevive séculos no ambiente. Além do mais, tenho cães.

Flanar disse...

Então, melhor montar a casinha dos pulgões. Ou então tratar de encontrar logo uma esquadrilha de Louva-a-Deus.
Rsss...

Anônimo disse...

Meu amigo,quanta história e delicadeza guarda o olhar da tua criança sobre o louva-deus. Texto belo e singelo.
um abraço,
paulinho klautau

Flanar disse...

Obrigado, Paulinho. Vindo de você, um honroso comentário a este cometimento.
Abs

Carla disse...

JÁ passei diversas vezes por aqui, postei agradecendo no meu blog, e só agora to escrevendo aqui.
Muito obrigada por ter me acolhido nos links de um blog tão positivo, de pessoas ímpares como são a equipe do Flanar. é realmente uma graça a gente perceber que mesmo com a distancia entre as gerações, existem coisas q são comuns, como o amor e o fascinio pelos animais. De fato, o Bernardo ama os insetos, e Carlos, ele disse que tá cansado de saber que o louva-a-deus é carnivoro...
beijos

Iúna disse...

comovente, sublime,adorei duplamente, uma por vc,outra por Bernardo,aquele menino fofo filho de Carla.

Flanar disse...

Carla
Rss... As crianças de hoje!!
Rsss...
Dê meus parabéns a ele.
Bjs

Flanar disse...

Lúna.

Obrigado.
Fico feliz em receber novos visitantes.
Seja bem vinda.

Abs