sábado, 10 de dezembro de 2011

A última especulação antes da votação

Uma coisa que me surpreendeu, quando divulgaram a primeira pesquisa sobre intenções de voto do plebiscito que ocorrerá amanhã, foi que a rejeição ao Carajás era maior que ao Tapajós. Uma diferença pequena, mas que se confirmou o tempo todo. Minha surpresa se atrelava a uma percepção simplória de que uma região com mais habitantes, mais dinheiro e interesses privados muito mais nítidos deveria ter mais força para conduzir sua campanha. Com o tempo, fui entendendo a moral da história e, esta semana, um conhecido meu, ao explicar o seu voto pessoal, acabou dizendo algo que, acredito, seja um pensamento maior, capaz de explicar esses números.
Meu amigo nasceu em Santarém e está radicado há duas décadas em Belém. Aqui trabalha e criou uma filha. Remetendo-se a sua infância, e portanto há um tempo muito anterior às campanhas de hoje e mesmo aos movimentos políticos que ensejaram o plebiscito, disse que a população do Oeste do Estado sempre se sentiu tão isolada do Leste — um isolamento natural, de fundo geográfico —, que muitos realmente nunca se consideraram paraenses. Havia vínculos mais fortes com Manaus do que com Belém. Isto se percebe até nas manifestações culturais populares: vejam-se as semelhanças entre o Festival das Tribos de Juruti e o Festival de Parintins. São manifestações próprias, diferentes das nossas, que têm mais a ver com os cabeçudos, com as tradições marajoaras, da marujada de Bragança, etc. Embora, é claro, o boi não nos seja nada estranho — que o diga o Arraial do Pavulagem.
O movimento pró-Tapajós seria, assim, a materialização de um sentimento genuinamente popular, que talvez por isso se disseminou mais, mesmo com menos gente e muito menos dinheiro.
Já o Estado de Carajás seria obra de um povo forasteiro (a expressão, muito lembrada nas últimas semanas, foi usada por meu amigo), de diferentes procedências e que por isso mesmo não possui nenhum vínculo étnico, cultural ou emocional com a nossa região, a qual lhes pareceria apenas um lugar onde se fixar, trabalhar e ganhar dinheiro. Não vejo nenhum problema nisso, desde que o trabalho seja honesto. Afinal de contas, sou avesso a essa xenofobia toda. Uma pessoa que se fixa em nossa região só não é paraense de nascimento, mas passou a ser um indivíduo socialmente produtivo para nós. O processo não é recente, por isso os filhos e netos desses imigrantes já são paraenses de nascimento, se isso faz alguma diferença. E se são divisionistas, não podem ser criticados, já que apenas expressam um pensamento de seus antepassados, uma fórmula que deu certo de algum modo.
Mesmo assim, para meu amigo o movimento pró-Carajás é um projeto que não nasceu no povo, e sim em partidos políticos, mas que seduziu o povo porque, convenhamos, tem lá muitos atrativos para aquela região. Assim, ele votará 77 para Tapajós e 55 para Carajás.
Vale lembrar que os vínculos entre o Sudeste do Estado e a capital sempre foram mais fortes do que em relação ao Oeste. Se nada mais pudesse ser dito, lembremos que o nome do Município de Paragominas foi produzido pela fusão dos locais de origem dos imigrantes e do ponto onde se fixaram. Eles sempre souberam que estavam no Pará.

***

Honestamente, abstraindo preferências pessoais, nunca achei que houvesse a menor chance de o projeto divisionista ter sucesso. Amanhã, a partir do final da tarde, acabará o disse-me-disse e restará apenas a dura realidade. O que mais me incomoda — além de pensar nos milhões e milhões de reais gastos para se chegar a uma resposta que já se conhecia de antemão, mas tudo bem: democracia é isso —, é pensar no que vem depois.
O lado vencedor não saberá vencer. Espero deboche, menosprezo e mais xenofobia. Estou certo de que sentirei vergonha das coisas que serão ditas. E o lado perdedor imprecará todas as suas maldições e fará ameaças. Sentirei muita raiva, porque toda vez que escuto alguém me chamar de "elite", fico com vontade de socar esse idiota.
Se Belém — uma cidade com 6% de saneamento básico, trânsito quase estagnado e condições de saúde altamente deficitárias — pode ser considerada elite, então o planeta Terra se tornou realmente um lugar muito ruim para se viver.

4 comentários:

Marise Rocha Morbach disse...

Pôxa Yúdice, tenho o mesmo sentimento que você: com um agravante: grande parte da minha família mora no sul do Pará.

Lafayette Nunes disse...

A idéia de separação do pessoal de Santarém remonta aa vinda do Confederados pra'quela região. Uma parte da nossa história que poucos sabem.

Pedro do Fusca disse...

Política
Custos da divisão do Pará (Editorial)

O Estado de S.Paulo

Não há nenhuma garantia de que, se o Estado do Pará for dividido em três, sua população passará a receber do poder público atendimento melhor do que teve até agora. Mas é certo que, se a divisão for aprovada pelos eleitores paraenses convocados a dar sua opinião no plebiscito marcado para amanhã, os contribuintes de todo o País, e não apenas do Pará, serão chamados a pagar a conta.

Será uma conta pesada, mas, espertamente, dela os defensores da divisão do Estado nada falam.

Haverá ganhadores, sim, se os paraenses aprovarem a divisão do Estado em três - Pará, tendo como capital Belém; Carajás, com capital em Marabá; e Tapajós, sendo Santarém sua capital - e essa decisão for ratificada pelo Congresso Nacional e pela presidente Dilma Rousseff.

Mas os beneficiados não serão necessariamente os cidadãos comuns, que esperam por melhorias.

Novos Estados exigem novos governadores, novas estruturas administrativas, com milhares de novos funcionários, novos cargos de confiança, mais deputados estaduais, mais deputados federais, mais senadores, mais desembargadores e assim por diante.

Daí o interesse de políticos e lideranças regionais, com o apoio de marqueteiros conhecidos por vender seus préstimos para defender qualquer causa, em retalhar os atuais Estados - tramitam no Congresso outros 23 projetos de criação de Estados.

Não se deve ignorar, por certo, o legítimo anseio das populações locais por serviços de melhor qualidade. Muitos habitantes de localidades distantes da capital ou dos principais polos regionais sentem-se esquecidos pela administração estadual. Isso ocorre em vários Estados e o caso pode ser pior num Estado com as dimensões do Pará.

Leia a íntegra em Custos da divisão do Pará

Alan Souza disse...

Scylla, acrescente ao panorama de Belém a violência galopante e educação caindo aos pedaços - em todos os sentidos.

Segundo os divisionistas, essa é a "riqueza" que temos sistematicamente roubado deles, e na qual nos mantemos feito nababos...