quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Coração batendo forte


Cada vez que volto a Mosqueiro, sempre reservo boa parte do tempo para passeios no amplo quintal que disponho em minha casa do Murubira. Faço isso desde os tempos mais remotos, quando me aventurava por ele, quando inclusive, ainda nem existiam as cercas e os muros que delimitavam as propriedades. Nesta época mágica, tudo era uma coisa só, ao sabor do ritmo da floresta que de fato, um dia houve lá. Conseguíamos ver bandos de macacos, atiçados pelas frutas da época. E também cobras e lagartos, é bom que se diga. Mas uma coisa, ontem ou hoje, sempre me chamava a atenção: as mudanças que o quintal sofria com a alternância das estações. Os odores das frutas da época. O taperebá, o cupuaçu, muruci, abiu, jaca, mangas, jambos. Enfim, uma ampla variedade de espécies. Naqueles tempos, cheguei a me perder numa picada por um curto período. Quase não acerto o caminho de volta para a segurança do lar. 
Atualmente, este quintal nem chega perto da exuberância que chegou a ter no passado, quando se misturava sem barreiras aos quintais desocupados de outrem. Muros foram construídos, o mato foi capinado, preservando-se apenas as espécies frutíferas e substituindo todo o resto por grama. Uma pena. Mas ao mesmo tempo, inevitável.
Ao sabor destas lembranças, contento-me agora, junto com meus dois filhos, a fazer o mesmo passeio que eles um dia, talvez o farão observando outras mudanças. Fazemos isso sistematicamente todas as vezes que vamos lá. Observamos todos os detalhes e abismados, percebemos claramente o relógio da natureza, impondo-se a despeito das flagrantes alterações patrocinadas pelos homens.
E assim, com esta lua maravilhosa (imagem acima) do cair da tarde, fotografada ao fundo de um céu azul total começamos nosso exercício lúdico pelo quintal da magia, das lembranças e do coração.


E a primeira coisa que nos recebe, é o velho balanço artesanal, pendurado à sombra de uma grande castanholeira (árvore não nativa) que sempre trouxe a alegria das crianças. As mesmas crianças que hoje já avançam na idade e já não mais se interessam pelo prazer que ele um dia os proporcionou. Mas eles o visitam sempre. Pelo simples fato de que ele ainda está lá. Caminham ao redor pensativos e às vezes até o usam. Mas logo a atenção é atraída para outros alvos. E são muitos.


Como por exemplo, esta bela flor que aos montes, constituem um belo cenário em volta do centenário flamboyant que adorna a fachada da casa. Uma flor que tem um capricho. Abre-se de manhã cedo e vai se fechando até sumir por completo, já por volta das 10 h.


Em seguida, vem as jaqueiras, igualmente centenárias, que abrigam um pequeno banco. Quem já leu o post Mosqueiro e uma parte de meu coração (outubro de 2010), já viu as imagens deste banco. Na oportunidade, alguns comentaristas manifestaram a dúvida sobre como a jaca, um fruto enorme, se fixa a sua árvore. Preocupei-me desta vez, atiçado pelos leitores, a registrar a resposta. Elas se fixam assim, como na imagem acima.


E aos montes, ao longo do tronco, como nesta outra imagem. Pessoalmente, já afirmei que não gosto de jaca. É um fruto enorme, às vezes ao alcançe das mãos, de aspecto espinhoso e odor forte. Mas faz a alegria de alguns nativos e outros visitantes que a apreciam.


Alguns outros moradores, também podem ser encontrados às centenas. Mas estes, certamente, não são habitantes exclusivos de Mosqueiro. Na verdade, bom é ver alguns camaleões que ainda transitam pelos quintais. Mas o calango, a exemplo do balanço, das jacas, da lua e das flores, simplesmente estava lá.

Deixando o quintal, fizemos a outra parte do pacote Mosqueiro que adoramos fazer, almoçar e passear no belíssimo jardim/quintal do Hotel Farol. Merecia um capítulo à parte. Mas o tempo não vai permitir. Tenho que dar a sequência exata dos prazeres vividos por mim e meus filhos naquele lugar que ainda lutamos para preservar, à salvo das brutalidades e imbecilidades da vida contemporânea.
E o passeio pelo jardim do velho Hotel, revela o esmero de sua proprietária original (já falecida) e de seus descendentes, que hoje ainda tocam o negócio, daquele mesmo jeitinho de sempre. O toque familiar. Os proprietários ainda assistem televisão na sala principal do Hotel, junto com os hóspedes.
Mas vejam agora o que aquele jardim nos revelou.
Em primeiro lugar, algumas flores novas, como esta da imagem abaixo, que ainda não conhecíamos. Mas ela sempre esteve lá. Trata-se da sua hora, sua época de florir.


As árvores, todas frondosas e certamente centenárias, quase todas possuem belas bromélias em seus caules. A maioria, ao alcance das mãos e dos olhos curiosos, em busca do que estaria no interior de seu cálice.


E meu filho mais velho, hoje com 19 anos, jamais perdeu seu carinho e curiosidade pelos detalhes das plantas. Ele sabe. Há sempre algo lá. E vejam só o que ele descobriu, no interior de uma bromélia premiada.


Não é mesmo um prêmio? Esta simpática perereca, permitiu que eu a fotografasse, sem chegar muito perto. Seus olhos, talvez assustados, ou quem sabe, tão surpresos quanto os nossos.

Mosqueiro ainda é um paraíso para os olhos que o buscam com carinho e respeito. Ainda é um enorme santuário de lembranças maravilhosas da infância. Da minha, e felizmente, agora também de meus filhos. E tudo o que foi retratado agora aqui, com um pouco de sorte, ainda estará lá. Mas não por muito tempo. Passados alguns dias, semanas ou meses, tudo estará diferente. Mas estes singelos e lindos personagens estarão lá. E por este prêmio, eu sempre os registrarei. Na câmera, ou na memória.

* Todas as imagens são do poster. Todos os direitos reservados.

15 comentários:

Raimundo Silveira disse...

TIVE O PRIVILEGIO DE TER VIVIDO MINHA INFÂNCIA NA BUCÓLICA E SEMPRE LINDA ILHA DE MOSQUEIRO, A POSTAGEM ME FEZ VOLTAR NO TEMPO, E A LEMBRANÇA DOS TEMPOS DE CRIANÇA, NAS SALAS DO INGLÊS DE SOUSA,A PTE VARGAS COM SEUS JAMBEIROS, A 16 DE NOVEMBRO, SEM O ASFALTO, QUE BOM CAMINHAR DESCALÇO PELA TERRA FRIA DO AMANHECER, O CANTO DO SABIÁ, COM AS ESCADARIAS DA PRAIA DO BISPO, A IGREJA DA MATRIZ, ONDE GRAÇAS A DEUS FUI ACÓLITO, NOS TEMPOS DOS PADRES SAMUEL E RUI COUTINHO, A RUA SIQUEIRA MENDES N° 78, ONDE FORAM MUITAS TARDES NOITES, A ESPERAR MINHA MÃE D. ZIZA, QUE CHEGAVA DE BELÉM, NO NAVIO PTE VARGAS, QUE BOM TER ASSESSADO ESTE BLOG, E TER VOLTADO NO TEMPO. A EMOÇÃO SAIU DO MEU CORAÇÃO E CHEGOU NO SENTIMENTO, DEIXANDO MEUS OLHOS MEREJADOS, BOAS RECORDAÇÕES.

Edyr Augusto disse...

Grandes recordações de um Mosqueiro mítico, de um paraíso que vive em minhas memórias e no coração.
Parabéns, Barreto
Abraços
Edyr Augusto

Scylla Lage Neto disse...

Charlie, belíssimo e emotivo post!
Adorei.

Homem do Norte disse...

É a poesia em imagens, ou vice-versa.
Roger Normando

Anônimo disse...

Nw conheco ainda pois nw sou daqui mas pretendo conhecer, mto bom o post...

Ass. Flavio Sonoda
iStore Brasil

Carlos Barretto  disse...

Amigos.
Obrigado pela visita e pelas palavras carinhosas.
Raimundo Silveira, obrigado pelo nobre depoimento, que muito me honrou.
Flávio. Que surpresa, cara!
Abs e obrigado pelo recado.

Yúdice Andrade disse...

Continuo forte candidato a receber doações de jacas. Só me dizer como faço para pegar.
Com o falecimento, em 2004, de uma tia-avó que era importantíssima em nossas vidas, e que nos fazia doce de jaca sempre que conseguia uma, essa iguaria adquiriu valor simbólico para nós. Se acontece de minha mãe prepará-la, ela cozinha o tempo inteiro chorando. E ao comer o doce, também os meus olhos se enchem de saudade.

Carlos Barretto  disse...

Pode contar, que a próxima vez que estiver lá, vou reservar as que estiverem boas para vc, Yúdice. Promessa é dívida. E eu a pagarei com prazer.
As jacas agora, ganharam o valor de uma saudade. E isso é uma motivação e tanto para eu atender os seus anseios.
Aguarde

Abs

Carlos Barretto  disse...

Edyr

Mais um fotopost dedicado a nós, amigo. A partir de agora, ponhamos esta dedicatória no automático.

Abs

Tatianajor disse...

Na minha casa, na praia do São Francisco, tínhamos o privilégio de contar com um igarapé no quintal. Meu irmão, ainda pequeno, chegou a passear de canoa nesse igarapé, que desaguava em plena praia do São Francisco. Nos últimos anos, com o desmatamento das áreas próximas à nascente, ele secou completamente e ninguém mais pôde matar o calor naquelas águas geladas. Há três anos, tivemos que vender a casa com enorme tristeza depois de sofrermos um assalto em que ficamos toda a família refém dos bandidos dentro da nossa casa. Só me resta torcer pra que um dia as autoridades levem Mosqueiro a sério e a ilha volte a ser a bucólica da minha infância. Belo post! Ótimas lembranças.

Yúdice Andrade disse...

Agradeço, reconhecido, Carlos.

Anônimo disse...

Incrível! Como lamento não dispor de tal sensibilidade para falar sobre saúde pública...

Carlos Barretto  disse...

Não seja por isso, querida.
Vou lhe dar um rumo onde poderá adquiri-la.
http://www.google.com.br/search?q=blog+%2B+saude+publica&ie=UTF-8&oe=UTF-8&hl=pt&client=safari
Bom proveito!

Val-André Mutran  disse...

Nosso editor chefe tá um craque.

Carlos Barretto  disse...

Rssss.
Nada como 2 únicos dias em Mosqueiro, para desancar o coração.

Abs